A derrota do Brasil para o crack


pli230114na1202_min_eabced-1259968O Brasil não planta uma única folha de coca. Como então temos tanta droga circulando dentro do país?
Em dezembro fez dois anos que o governo federal lançou o programa Crack, é possível vencer. No entanto, infelizmente, a vitória não é uma realidade. Nem mesmo está próxima. Em recente entrevista, o ministro da Justiça disse que o programa foi o segundo em verbas aplicadas pelo ministério. Essa afirmação é assustadora, pois, dos R$ 4 bilhões prometidos pelo governo para o combate ao crack, apenas R$ 368 milhões foram de fato empregados. Recente pesquisa da Universidade Federal de São Paulo estima em 2,8 milhões de usuários de crack em todo o país. Esse número dobra a cada dois anos. Afinal, como as autoridades estão enfrentando essa que já é a mais grave epidemia da história recente do Brasil? Trata-se de uma derrota em três frentes: política, estratégica e de saúde pública.

Política porque, segundo deputados da base aliada da presidente Dilma Rousseff, apesar de o assunto ser uma prioridade, há resistência interna dentro do próprio governo que ela lidera: o segundo escalão do Ministério da Saúde é contra o programa Crack, é possível vencer, inclusive defendendo a liberação das drogas. No Ministério da Justiça, dois secretários tiveram que deixar suas funções depois de declarações desastrosas acerca do assunto. Uma torre de Babel: há uma corrente ideológica ligada ao governo, que defende o contrário do que a presidente fala.

Se a articulação política é uma questão grave, a estratégia de proteção de fronteiras é ainda mais urgente. O Brasil não planta uma única folha de coca. Como então temos tanta droga circulando dentro do país? Depois que Evo Morales – pasmem, presidente da Confederação dos Cocaleiros – assumiu a Presidência da Bolívia, a área plantada de coca aumentou quatro vezes, totalizando quase 50 mil hectares. Sua política de liberar o plantio por lá criou um pico do consumo do crack por aqui. Além disso, o Uruguai acaba de legalizar a maconha, sem ninguém ter certeza de como isso impactará a saúde e a segurança do país e, em última instância, do continente. A maconha não é uma droga simples, é uma bomba de aditivos e componentes químicos que causam comprovados transtornos mentais.

Outros países que fizeram movimentos semelhantes foram obrigados a recuar. A Suécia, por exemplo, é o país que mais reprime o uso de drogas e conseguiu eliminar a tempo a epidemia de crack que tomou conta do país logo depois da mal-sucedida legalização das drogas.

O terceiro escorregão do governo ocorre no terreno da saúde pública. A educação é capenga. A Universidade de Michigan fez um estudo com a duração de 35 anos sobre o consumo de maconha nos Estados Unidos. Nesse período, notaram que, quanto maior a percepção do risco, menor o consumo. Ou seja, informação é fator primordial. Quando há informação cruzada – de que a maconha não faz mal –, aumenta o consumo e o número de dependentes. Cerca de 37% dos jovens que usam maconha ficam viciados. É uma loteria cruel, especialmente com essa faixa etária, ainda não madura o suficiente para ter a dimensão das consequências dos seus atos. E que não tem acesso às informações das verdadeiras ações deletérias dessa droga maldita.

Há uma incompreensão de que a dependência química é de altíssima complexidade. Enquanto o tratamento da dependência de crack no sistema privado é digno e com boa resposta, o dependente pobre está entregue à própria sorte, ao despreparo da maioria dos serviços da rede pública.

O governo reconhece que ainda não entendeu o problema do crack. A política pública não pode ser só internação compulsória, pois parece ser apenas a preocupação de “limpar as ruas”. Qual a consequência do tratamento? O que fazer com esses dependentes depois da internação? Como reinseri-los na sociedade de forma produtiva? Quais as diretrizes de tratamento? A Associação Brasileira de Psiquiatria já se colocou e se coloca à disposição do governo federal para esclarecer dúvidas e colaborar nas diretrizes a serem seguidas. Até agora, nada. Devem saber o que estão fazendo.
A única constatação possível é que o Brasil enxuga gelo quando o assunto é o combate ao crack e outras drogas.
Por: Antônio Geraldo da Silva
Presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP)

Uma resposta

  1. Enquanto a política de proibição continuar não existe perspectiva de resolver o problema…….

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: