Um Papo com Sérgio Vaz


Sergio-Vaz1Muita gente diz que rap é música de bandido.
Rap é música de protesto, é música negra e de pobre. Há preconceito porque rap é música de negro, só isso. Quem faz apologia à violência é a fome.

Por: Ângela Faria
Criador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), que funciona há 12 anos em São Paulo, o poeta Sérgio Vaz, de 49 anos, avisa: à margem dos holofotes da mídia, comunidades pobres do país experimentam efervescência cultural sem precedentes, comparável àquela vivida pela classe média quando surgiram a bossa nova ou a Tropicália. Realizando saraus, debates e shows, além de estimular a distribuição de livros, a Cooperifa nasceu dentro do Bar do Zé Batidão, na violenta Zona Sul paulistana. A “Primavera de Praga”, como diz Vaz, não se limita à música. Chegou a vez da literatura: novos escritores dão continuidade ao legado de Carolina de Jesus, João Antônio e Plínio Marcos.

Simplicidade

No princípio quando era o verbo
de tão pequeno me achava grande,
uma enorme sombra diante de
um sol pequeno.
Mas a grandeza das coisas pequenas,
que são as estrelas na órbita da lua,
ensina que a vida cabe somente
na sua via-láctea.
Porém,
se no teu infinito
não cabe a escuridão alheia,
você brilha tão intenso
que o universo cabe todo
numa casca de noz.
E aí, de tão grande a simplicidade,
nasce em teu coração
um planeta melhor:
eu, tu, eles, nós, voz.

• Sérgio Vaz
Sergi Vaz
“Somos nós” Criador da Cooperifa de São Paulo comemora a efervescência musical e literária da periferia

Você diz que há uma “Primavera de Praga” nas periferias do país, com ampla produção cultural. Costuma-se ligar essa efervescência à música – rap, funk carioca, funk ostentação paulista ou o tecnobrega do Norte. Ela se limita à música?
A música sempre foi referência de cultura na periferia: samba, forró, tecnobrega, rap, funk. Agora é a vez da literatura. Em São Paulo, há mais de 50 saraus, cada qual com seu estilo. O Sarau da Cooperifa, realizado às quartas-feiras, vai completar 13 anos em outubro. Quem imaginaria um sarau de poesia num bar com 200 pessoas, entre poetas e comunidade, completar todo esse tempo de vida? Saraus assim foram se tornando centros culturais, onde há lançamentos de livros, cinema e teatro. Ou seja: não apenas produzimos cultura, como consumimos o que a gente produz. É formação de público.

O que os autores revelados nesses saraus têm dito de novo? É correto classificar essa produção como literatura periférica? Esse termo remete a algo excluído, à margem…
O novo de tudo isso é que agora a história está sendo contada na versão do oprimido, do negro, do pobre, da mulher. Eliminamos os atravessadores. Há saraus para todos os gostos, mas na periferia tem a coisa da luta, da resistência. Não é literatura pela literatura. Literatura periférica é um termo que me agrada muito, assim como literatura marginal, porque é um termo de pertecimento, que diz de onde a gente vem. Eu sou da periferia – e daí?. É disso que estamos falando.

O que é literatura periférica?
Respondo com outra pergunta: o que é literatura grega? Feita pelos gregos, alguém vai dizer. Então, literatura periférica é feita por quem mora na periferia. A pessoa que mora em bairro nobre pode fazer LP? Pode, mas não vai ficar bom. (risos)

Principal grupo de rap do país, o Racionais MCs está completando 25 anos. Qual é o papel do hip-hop na formação do jovem brasileiro contemporâneo, especialmente do morador da periferia? Você ouve rap?
Foi o hip-hop quem deu esse grito de independência. A periferia foi sacudida pelo rap, que apresentou Zumbi dos Palmares, Malcolm X, Martin Luther King e Carlos Marighella para muita gente. Coisas que a gente não via nos livros escolares. Gosto de rap, assim como gosto de MPB. Estou tanto para Chico Buarque como para Racionais MCs e Versão Popular.

Muita gente diz que rap é música de bandido.
Rap é música de protesto, é música negra e de pobre. Há preconceito porque rap é música de negro, só isso. Quem faz apologia à violência é a fome.

E o funk carioca?
Funk não é apenas música, é uma cultura. O funkeiro é o cronista da favela, ele apenas canta o que vive, vê e sente. A bossa nova exaltava o barquinho a deslizar no macio azul do mar, porque era aquilo que ela via. Aí está o preconceito de novo: funk é música de preto, de favelado.
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Em São Paulo, destaca-se o funk ostentação, que celebra roupas e tênis de marca, além do consumismo. Funk carioca e funk ostentação são lixo cultural?
No funk ostentação, eles estão devolvendo a educação “de qualidade” que receberam do Estado. O pobre está cantando aquilo que deseja – infelizmente, são coisas materiais. Se você quer entender a juventude, é só ouvir funk. Está tudo ali. Não sou especialista em funk, mas acho que eles querem educação de qualidade, cultura, informação, lazer e literatura. Só que ninguém dá. Quem não quis andar “na pinta” quando jovem? Sou contra esse consumo, mas entendo seus motivos. Música boa é aquela de que a gente gosta. O que é lixo para uns é luxo para outros.

Como você analisa o fenômeno do rolezinho? O sociólogo Luiz Eduardo Soares escreveu: “Acabou o sossego de quem se deitava em berço esplêndido e rolava sobre a tragédia das desigualdades e do racismo. O escândalo de nossa história não será mais naturalizado”. Você concorda?
Sim. Na verdade, não coube todo mundo debaixo do tapete. Como diria Castro Alves: “Somos nós, teus cães”.

Se Sérgio Vaz fosse o prefeito ou o dono do shopping center, que medidas adotaria diante dos rolezinhos?
O que essa molecada quer é beijar na boca e se divertir. Mas nós, adultos, temos inveja desse tempo. Maltratamos as crianças e os adolescentes somente por um motivo: inveja. Os donos dos shoppings que comam brioches! (risos).

Em junho do ano passado, protestos se alastraram pelo país. Espera-se a volta das manifestações na época da Copa do Mundo. O povão vai aderir? Ou a classe média sairá em passeata na avenida enquanto a meninada da periferia se mobilizará em rolezinhos?
Nas passeatas de junho, o povo gritava: o Brasil acordou. Só que no Brasil onde a gente mora ninguém nunca dormiu.
Por: Ângela Faria
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