Dexter, o “filho” brasileiro de Luther King


63_dexter-site-5Quem fica melhor trancado por anos é o vinho, ser humano não. Brasil né, mano? Então, sou preto – graças a Deus –, de origem pobre, mas consigo enxergar um palmo à frente do meu nariz. Falam que faço música para marginal, faço sim, também sou marginal, vivo à margem da sociedade, por isso. O rap é isso, um grito para os excluídos.
Dexter fala sobre a infância e a juventude na periferia, o período em que esteve preso e como foi que o contato com o rap despertou sua consciência para questões como o racismo.
Por: Igor Carvalho
Você está completando dois anos de liberdade e vai produzir um show para comemorar. Sobre o que esse Dexter, que agora vive a rua, está falando?
Dexter – Estou focando no tema liberdade mesmo, podendo ir a lugares em que fiquei sem ir por muitos anos, vendo pessoas maravilhosas, reencontrando amigos, porque em dois anos não consegui suprir as perdas que tive nos 13 anos de exílio. Uma parada que é legal é que estou correndo o Brasil com shows, e as pessoas sempre me ouviram, mas nunca viram minha cara, então é uma oportunidade de essas pessoas me conhecerem. Puta merda, como isso é bom…
Também tenho visitado presídios em outros estados, infelizmente o que continua igual são os nossos problemas, parece que a sociedade nem saiu do lugar. Os problemas sociais e raciais continuam afetando meus irmãos nas ruas, isso não muda, morô? Ainda vejo nas ruas os meus irmãos e irmãs sendo assassinados pela mesma polícia. Então, preciso continuar falando sobre isso, porque o rap é denúncia, ele pode divertir, pode ser o que for, mas antes de tudo é denúncia.
Outra coisa, o mundo hoje é mais rápido, né? Não tenho tempo de acompanhar as coisas, é um filme novo que surge ali, um disco que alguém lançou, e preciso ouvir, essa coisa de internet, ando viciado no celular. Enfim, tudo isso está acontecendo, estou absorvendo ainda, e tem muita gente nova no rap.

Em 2011, quando você ganhou a liberdade, qual foi a primeira coisa que fez?
Dexter – Estava vindo de um show na Bahia, tinha visitado um presídio que tinha seis pavilhões, mas só consegui visitar quatro, e fiquei triste pra caralho por causa disso. Sei o valor de uma visita. Fiquei pensando o que representaria para aqueles caras que eu não pude fazer uma visita. Inclusive, em junho, estou voltando para Salvador e passarei pelos seis pavilhões.
Quando fui para a Bahia, já sabia da minha liberdade, mas mesmo assim fui com a pulseira de monitoramento, que todo preso usa quando sai para trabalhar, quando está no semiaberto. Quando voltei para São Paulo, para o complexo José Parada Neto, onde estava preso, um funcionário me falou que eu teria de tirar a pulseira e, quando te falam isso, é porque aconteceu algo e no dia seguinte você não poderá sair. Lembro como se fosse hoje, era o seo Wanderlei tentando me sacanear. E eu perguntava para ele: “Aconteceu algo?”, ele respondia: “Sua situação complicou, tira a pulseira aí que a gente precisa conversar.” Pô, logo depois vieram com o alvará de soltura para eu assinar. Cara, mesmo já sabendo, quando vi aquele papel parece que vi um novo mundo, foi prazeroso ao extremo.
Lendo, vi que o juiz tinha realmente analisado o meu processo, ao contrário dos outros. Eu não era reincidente, e os outros juízes não entendiam isso, porque pelo Código Penal você só é reincidente quando comete o mesmo crime depois do primeiro ser julgado, e cometi o mesmo erro antes de ser julgado, portanto era réu primário. O doutor Jaime Garcia Júnior [juiz corregedor da Vara de Execuções Criminais de Guarulhos] entendeu isso e sou extremamente grato até hoje, ele é uma pessoa ímpar, um juiz que desce de sua posição e vai no presídio conversar com o reeducando, descobre vários problemas nos processos. Tem gente que não saiu de dentro do sistema por erro do processo, porque falta um documento e ninguém olha para isso. Qual o interesse em esvaziar as prisões?
Mas, voltando, lembro que chorei muito naquele dia, chorava e ria ao mesmo tempo. Entrei e me despedi dos amigos, foi uma puta festa, todo mundo aplaudindo, e lembro que respondi para eles que aquela despedida era momentânea, porque na semana seguinte estaria lá com o “Como vai o seu mundo”. Tudo que tinha na cela deixei, a única coisa que levei foi a Bíblia. As portas abriram e parti.
Ainda chorando muito, quando estava saindo, parei, ajoelhei e fiz uma oração, agradecendo por sair vivo do sistema penitenciário, porque muitos, muitos mesmo, saem em caixões de lata de lá, em sacos plásticos. E olha que loucura, mano, saí vivo e com uma esposa linda me esperando do lado de fora. Sabe que comparo esse momento com a época da escravidão, a Lei do Sexagenário? Quando o escravo completava 60 anos, o senhor vinha e dava a sua “liberdade”, e aí você ia para a rua sem rumo, sem referências, sem construir nada, para onde esse homem ia? Essa lei era um jogo político, porque sabiam que dois ou três dias depois o escravo voltava porque não sabia o que fazer com a própria vida, não tinha nem para onde ir, era melhor voltar e ter ao menos um lugar para dormir e comer. A grande maioria dos indivíduos que saem das prisões é nessa condição.
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Você cresceu em São Bernardo do Campo, como foi a sua infância?
Dexter – Comum, igual à de qualquer criança que cresce em periferia em São Paulo. As crianças negras passam pelas mesmas coisas faz muito tempo, desde a hora em que saem de casa para ir à escola até a hora em que voltam. Somos, na maioria, descendentes de nordestinos, com uma criação cristã, a mãe querendo que seja um operário padrão, o pai não existe. E tem aquela coisa maravilhosa de correr livre pelas ruas da quebrada, soltando pipa, jogar bola descalço, jogar pião, bola de gude. Hoje, a molecada quer celular, videogame, internet, só isso, é outra fita. Fui pobre, rodeado de mazelas que o sistema impõe para as periferias. Dividia um barraco com minha mãe, uns ratos e baratas, lá no Jardim Calux [São Bernardo do Campo], sem saneamento básico, asfalto, sem água, foi aí que fui criado.

Você foi cabeleireiro também.
Dexter – Fui, com muita honra. Tinha 17 anos e não gostava de ser mandado, aliás nunca gostei, ter patrão é foda [risos]. Esse lance de ter horário, ser registrado, nunca foi minha área. Então, tem de voltar um pouco para explicar. Quando conheci meu pai, conheci também a família dele, e isso foi legal. Esse lance de tios e primos, eu não tinha do lado da minha mãe, porque ela veio de Alagoas, não tinha parentes aqui. Meu primo, o Romildo, que formou o primeiro grupo de rap que tive, o Snake Boys, ficou muito próximo de mim, a gente ia muito em bailes. Esse Romildo cortava cabelo e eu prestava atenção, até que um dia meu irmão queria cortar o cabelo e deixou que eu cortasse, ficou legal. Meu primo estava perto e achou que eu levava jeito, fiz uns cursos e comecei a trampar.
Mas, nessa fase aí, comecei a conhecer um dos problemas do preto e da preta no Brasil, que é a parada da identidade, da autoestima mesmo, de ter de reconhecer o seu cabelo como duro, que é o que se fala para um preto a vida inteira. Duro é pau. Duro é pedra. Meu cabelo – e o cabelo dos negros – é crespo. O rap já me falava sobre a valorização do negro, passei isso para o cabelo, então comecei a tomar gosto por cuidar do cabelo dos pretos.

Se uma menina chegava no seu salão querendo alisar…
Dexter – Eita, de jeito nenhum, já aconselhava o oposto: “Não, não precisa, vamos fazer um relaxamento, vamos dar uma cortada aqui, dar uma aveludada, encaracolar”. A mina saía de lá uma princesa, uma rainha africana, o parceiro saía bonitão, com o pezinho bem feito. Isso faz parte da autoestima. Mano, se você sair por aí hoje, não vê salão especializado em corte black, só lá na Galeria 24 de maio, mas nas periferias não tem. Ainda mais para mulheres. Pra mim, é um orgulho ter feito algo que contribuía para a autoestima das pessoas, tenho diploma de especialista em corte black. Pô, quantas mulheres passaram a sentir orgulho de ser negra porque cortaram o cabelo comigo e saíram bonitas do salão? Isso não tem preço.

Quais foram as primeiras referências musicais que fizeram nascer em você o desejo de ser músico?
Quando criança e adolescente, foram Luiz Gonzaga e Dominguinhos, minha mãe ouvia música nordestina o dia inteiro. Semana passada, com muito atraso, vi o filme sobre o Luiz Gonzaga e o filho dele [De pai pra filho], chorei muito, cara, voltei 30 anos. Saber da história dele foi foda. Enfim, era a época do Zé Bettio [radialista]. “Joga água nele”, ele dizia.

Em que dia você decidiu que seria rapper?
Dexter – Aí é uma história doida, mano. Era comecinho de 1990, morava com meus irmãos e estávamos, de noite, nos preparando para ir a um baile e ouvindo o “Som da massa”, que era um programa que tinha aos domingos. Estava amarrando o cadarço do meu tênis e anunciaram que ia tocar um som de uma banda nova. Tocou “Pânico na zona sul”. Mano, me arrepio de lembrar. Defino essa noite da seguinte forma: imagina que você está em um quarto escuro, sem ver nada. Alguém, do nada, surge e acende uma luz. Tudo que o [Mano] Brown fala na música, eu sofria na rua, vi muito parceiro morrendo na mão dos pé-de-pato, dos polícias, vi muito parceiro se matando entre eles, vi várias situações de racismo. Fui vítima de racismo na escola, desde o professor até a menininha loirinha que queria namorar o branquinho do olho azul. Sofri e não sabia, até aquela noite, como lidar com essa treta.
Para você ter uma ideia do que eu tô falando, vou te contar uma fita. No meu registro de nascimento, por eu ter a melanina clara, sou identificado como “pele branca”, então pegava meu registro para mostrar aos meus amiguinhos que eu era branco, e não preto como eles diziam. Olha como é a manipulação… Obviamente, isso tem a ver com o processo de lavagem cerebral e de alienação que vivemos na sociedade. Depois dessa noite, senti ódio de tudo isso que eu fiz. Quando ouvi essa música, percebi que os jovens na zona sul estavam morrendo e que o racismo não era vivido só por mim. Naquela noite, sentado na cama, tomei uma decisão: ia falar sobre isso, no rap. Foi uma convocação de guerra.
Dexter
E depois?
Dexter – Bom, terminei de amarrar o tênis e fui para o baile [risos]. Cheguei no baile e já contei para todos os amigos que tinha escutado a música e que iria cantar rap. Mas todo mundo tinha ouvido a música, porque o “Som da massa” era escutado demais pela galera. Bom, o formato dos bailes antigos era assim: tocava um DJ, durante a noite inteira, e depois vinha um grupo ou uma banda e encerrava a noite. Nesse dia, por incrível que pareça, o grupo convidado era o Racionais MC’s. Eu me lembro do DJ Easy Nylon, que tocava nos bailes na época, anunciando os caras, como se fosse hoje. Olhei para trás e disse para o meu primo: “São os caras”.
Vou te falar uma coisa, tem uma parte do filme Malcolm X que é foda. Um irmão do islamismo foi espancado e está no hospital. O Malcolm sobe para achar o cara e conversar com ele. Quando desce, o policial fala sobre a multidão que está na frente do hospital e em determinado momento o Malcolm faz com que a multidão se cale e siga para a mesquita. Aí vem um jovem negro e diz: “Eu nunca vi tanto poder em um homem só.” No dia em que o Racionais subiu naquele palco em São Bernardo, o poder era o mesmo. Mano, eu nunca tinha visto aquilo. Quatro pretos, de preto, falando sobre tudo que a gente vivia, na periferia, em forma de rap. Se caísse uma agulha naquele chão, você escutava, fomos tomados.
É aí que o Brown entra na sua carreira?
Dexter – Depois desse primeiro show que vi dos Racionais, fiquei em choque e nem fui tentar falar com os caras no camarim, nem pensei nisso. Na sexta-feira seguinte, a gente ia em outro baile. Por coincidência, o Racionais tocou nesse dia. O Kleber [KL Jay] acabou com a noite, tocou demais. Fui pegar a fila dos autógrafos, mas quando chegava minha vez, pedia para a pessoa de trás passar na frente, porque queria ficar por último, assim poderia trocar uma ideia com os caras. Aí o Brown me deu um autógrafo no panfletinho do show, tenho guardado em casa até hoje. O Brown estava cansado e sentamos nas escadas que iam para o palco para trocar ideia. Aí contei minha trajetória e falei da magia que a música dele tinha causado na minha vida. Depois de um tempo, alguém veio chamar, “Brown, tem que ir para o outro show”. Nessa, o cara vira para mim e diz: “E aí negão, tá fazendo o quê?” Acabei indo para o show com eles, no carro do cara. Aí já começamos a falar de futebol e ele ficou puto que eu era são-paulino, o Brown é fanático pelo Santos, né?

Por que o São Paulo?
Dexter – Não tinha a referência paterna, que ajuda na escolha do time, e comecei a torcer por futebol mais tarde, com uns 9 anos. Foi quando eu vi aquele time de 85/86 do São Paulo, com Muller, Sidney, Careca, Silas, que são todos pretos, morô? Aí me identifiquei. Com essa ideia, o Brown entendeu, mas até hoje ele me enche o saco por causa de futebol. Bom, seguimos para o baile, e a partir daí comecei a seguir os Racionais, algum tempo depois tinha o Snake Boys e começamos a abrir shows para os Racionais.

E quando o Marcos Omena virou Dexter?
Dexter – Nessa época. Quando o rap chega no Brasil, era comum você adotar uma alcunha gringa e ir para a guerra. Imagino que essas coisas aconteceram porque você não podia se expor, porque o rap colocava o dedo na ferida o tempo inteiro. Como acontecia nos anos 1960, para que os inimigos não tivessem acesso à identidade verdadeira dos guerreiros que contestavam o poder. Enfim, queria ser revolucionário, comigo não era diferente, o rap falava para mim que, se eu quisesse ser alguém na periferia, tinha que estudar, e o hip-hop me ensinou mais do que a escola, muito mais, foi uma cultura que salvou minha vida e salva ainda milhares por aí.
Nessa de adquirir conhecimento, estava lá lendo, aí peguei a biografia do King para ler, e tem um trecho que fala dos filhos e cita o Dexter. Pensei: “Olha que louco”. Tinha o “x” ainda, uma puta ligação com o Malcolm, já sabia o porquê do “x” do Malcolm, era uma teia. Fui atrás do significado e descobri que Dexter significa o “correto, direito, sagaz, esperto e ligeiro”. Para sobreviver nesse mundo da periferia que a gente vive, tem de ser um Dexter. Com todo respeito ao filho dele, peguei para mim [risos]. Depois descobri que tinha outros, entre eles o grande Dexter Gordon, um puta saxofonista.
O Snake Boys, seu primeiro grupo, mudou o nome para Tribunal Popular. Por quê?
Dexter – Três anos depois, em 1993, estava refletindo sobre essa parada de valorizar as nossas raízes e decidi que o nome tinha que ser em português. Tive a ideia de Tribunal Popular, porque o rap é meio que isso, julga as ações da sociedade, e “popular” porque o povo está julgando a sociedade em que vive. O Brown já tinha uma influência no meu trabalho.
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Como foi o episódio de sua prisão?
Dexter – A história é uma só. O grupo começou a ter um destaque na cena do hip-hop e nas quebradas. Um dono de gravadora que lançou vários grupos que estão aí hoje, como Exaltasamba e Katinguelê, mas que só trabalhava com samba, começou a querer partir para o rap. O primeiro grupo que ele quis gravar foi a gente, estávamos bem, abrindo show para o Racionais. Fomos gravar, então, lá no Ateliê Estúdios, na Bela Vista. Nessa época, eram os singles, tipo um cartão de visitas, só tinha umas duas músicas. Chamei o Brown para produzir uma e o Edi Rock para produzir e cantar a outra. A música “De preto pra preto” eu cantaria, e a “Legítima defesa”, o Bad [integrante da banda]. Estávamos trabalhando e vem a notícia de que os sócios da gravadora brigaram e não ia mais rolar o disco.
Pensei: “Porra, estou com meus ídolos produzindo e participando do meu disco, vou falhar?”. Arrumei a forma mais rápida de resolver a questão da grana, peguei uma arma e fui buscar. Foi por amor ao rap. Queria lançar meu disco e entrar no mercado, que estava inserido no contexto da revolução, e minhas ideias tinham de ser escutadas. Tinha 24 anos, peguei uma arma e fui buscar o dinheiro. E lembro até hoje o valor, precisava arrumar R$ 4,8 mil. O primeiro assalto deu certo, vieram R$ 2,5 mil para minha mão, mas acabei preso e tive que fazer um acerto com os policiais, dei tudo para os caras e tive que partir do zero.
Aí, fui sozinho e assaltei um posto de estrada. Peguei R$ 7,8 mil. Nesse assalto, fui preso, não teve acerto, e infelizmente – ou felizmente – fui preso. Digo isso porque toda moeda tem dois lados, estava me envolvendo com drogas já, estava a milhão na rua. O mundo do crime é atraente, te proporciona mulher, carro, roupa, dinheiro, e você começa a se deslumbrar, o crime te dá coisas que você nunca teve.

Entrar para o sistema prisional pode ser uma passagem sem volta para o mundo do crime?
Dexter – Claro que sim. Conheço caras que fizeram pequenos delitos e lá dentro se tornaram grandes assaltantes, porque passaram a entender a lógica, a tecnologia e a estrutura do crime. Não existe política de reinserção ou de reeducação no sistema carcerário, sabe por quê? Como você vai reeducar quem nunca foi educado? Como vai reinserir quem nunca foi inserido? Nós vivemos à margem da sociedade.

Como nasceu o 509-E [banda de Dexter, formada na prisão]?
Dexter – Vim de bonde do interior, transferido para o Carandiru, já tinha recebido uma pena de 5 anos e 4 meses por ser réu primário no assalto. Após uma tentativa de fuga, cheguei ao Carandiru, que era mais seguro contra fugas, lá encontrei um cara [Afro-X] que até então era meu amigo e cantava rap também. Então, resolvemos montar um grupo lá dentro e já tínhamos o “Detentos do Rap” como referência, os caras saíam para fazer shows também. A minha decisão de voltar para o rap surgiu depois de ver como as coisas funcionavam dentro da cadeia, via muito jovem morrer…

Fazer rap seria como escapar de outras propostas lá dentro?
Dexter – Isso, era uma rota de fuga, lá na cadeia o hip-hop salvou minha vida mesmo. Mantive minha cabeça ocupada na música, não tinha de me preocupar com outros caminhos ou propostas que acabaram levando vários outros indivíduos à morte. O ciclo da droga lá dentro é foda, você se torna um mentiroso, e o traficante jamais vai deixar o cara mentir e ficar por isso mesmo, você vai ser penalizado por isso. Enfim, as regras da prisão. Fugi de tudo isso com a música, e com esse cara eu formei o 509-E, que no começo era para se chamar Linha de frente, mas quando fomos registrar, descobrimos que já havia duas bandas com esse nome, aí desistimos. Fomos morar juntos, no pavilhão 7, na cela 509-E…
O que tinha lá? Música, livros, a gente tinha muito disco, os próprios líderes quando estavam de saco cheio da rotina iam tomar um café e ouvir música no 509-E. Lá se falava muito de revolução, de política e do funcionamento do sistema carcerário. Fico muito feliz de saber que o 509-E era um barraco dentro de uma prisão em que se falava da cultura, que não era usado para matar ou para se morrer aos poucos, vegetando.

Vocês gravaram o disco lá dentro?
Dexter – As letras foram produzidas lá dentro, e o disco, gravado fora. O 509-E foi inserido dentro de um projeto chamado “Talentos Aprisionados”, coordenado por uma atriz chamada Sophia Bisilliat, que no começo era um projeto de teatro apenas, mas foi se envolvendo com outras atividades lá dentro do Carandiru. Quando a Sophia ouviu umas músicas do 509-E, resolveu ajudar e entrou em contato com algumas gravadoras, aí um cara foi fazer uma reunião com a gente e disse que queria gravar com a gente. Ali veio a lição de vida, cara, porque percebi que, se confiasse no meu talento, não precisava assaltar, coisa de Deus. Como estávamos no projeto da Sophia, o juiz liberou a gente para gravar o disco na rua, seriam quatro dias fora só para fazer isso. Quando recebemos essa notícia da saída para gravar, pedimos para os produtores já irem preparando as bases, quando saímos já estava tudo pronto, só precisava colocar a voz.

Logo depois de 2020 depois de Cristo, o grupo acaba…
Dexter – Esse disco já mostra as diferenças entre os componentes do grupo, no qual um pensa de uma forma e o outro está em outro caminho. As diferenças já estavam ali. Por conta da separação, a gravadora não quis investir em divulgação.

O exilado sim, preso não [primeiro disco solo, lançado em 2005] é um marco do rap nacional. Como você chegou ao conceito de “exilado”?
Dexter – O concreto me exilava apenas, não estava preso, minha consciência e minhas ideias estavam atravessando aqueles muros. Na época, estava lendo Exílio na Ilha Grande, do André Torres, e comecei a trabalhar no CD. No livro, ele fala sobre a construção do Comando Vermelho e como nasceu a ideologia dessas facções. O preso político começa a ver o sofrimento do ladrão e reflete sobre a situação do cara. “Porra meu, esses caras sofrem pra caralho.” Li também, nessa época, Papillon, aliás, duas vezes, é sensacional. Em 2005, depois de toda carga de conhecimento, de toda a minha trajetória, percebi que o rap me libertava para além das prisões, estava apenas exilado, e fiz um disco falando disso. Ganhamos alguns prêmios, inclusive de melhor música para a “Fênix”.

Diversas vezes você foi acusado de fazer apologia ao crime. Ao mesmo tempo, fez uma música, “A indústria”, na qual critica todo o sistema que produz as injustiças sociais e empurra a juventude para o crime. É justa a acusação?
Dexter – Essa fama existe porque sou preto, moro na periferia e canto rap. Não me vanglorio e nem faço apologia ao crime, apenas defendo as pessoas que estão nessa situação e explico a condição delas. São seres humanos, carentes de educação, saúde, cultura e informação e que não tiveram uma formação que permitisse optar ou não pelo crime. Em algum momento da vida, sentiram a necessidade de partir para o crime. Quem fez com que isso acontecesse, o Dexter? Não. A família dessa pessoa? Não. Foi o Estado, que não investe em educação e nem oferece oportunidades. Fazer apologia ao crime é cantar a favor ou para os políticos de nosso país. Isso eu não faço. Se existem pessoas que estão apodrecendo nas prisões, em condições subumanas, é porque o Estado é falho, é outra fita, alguém tem de denunciar isso. Quem fica melhor trancado por anos é o vinho, ser humano não. Brasil né, mano? Então, sou preto – graças a Deus –, de origem pobre, mas consigo enxergar um palmo à frente do meu nariz. Falam que faço música para marginal, faço sim, também sou marginal, vivo à margem da sociedade, por isso. O rap é isso, um grito para os excluídos.
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