É preciso ouvi-los


20130619001203444461uNessa pilha de motivos para a insatisfação fosse necessário escolher um, talvez o mais acertado seja essa sensação de divórcio entre os governantes e os brasileiros. Movimentos como esse produzem alguns excessos, mas sempre fortalecem a democracia. É preciso ouvi-los.
Por: Míriam Leitão
Um surto de manifestação como o que se espalhou pelo Brasil nos últimos dias nunca tem uma explicação simples. É preciso humildade para admitir que ele não está inteiramente compreendido. Existem pistas. Ele tem a vantagem de quebrar a convicção de que o brasileiro suportaria todo o desaforo sem reagir: da deterioração dos costumes políticos ao desconforto econômico.
Há razões conjunturais e outras mais antigas para justificar qualquer manifestação de protesto no Brasil. A inflação está alta há muito tempo, o nível de inadimplência cresceu e isso eliminou o amortecedor que o crédito vinha exercendo, o desemprego de jovens chega a quase 16% em São Paulo. No início da nova legislatura, o Congresso escolheu, para presidentes das duas Casas, líderes e integrantes de comissões que foram vistos como um acinte pela população. A lista com 1,3 milhão de assinaturas coletadas em tempo recorde contra Renan Calheiros na presidência do Senado foi ignorada com desprezo.
O mamútico governo federal, montado com 39 ministérios, faz anúncios sequenciais de planos que não se transformam em realidade. Em cada pronunciamento de sua campanha eleitoral antecipada, a presidente Dilma desenha um país cor de rosa onde tudo está resolvido, exceto por alguns da “turma do contra”. Ontem, ela elogiou o movimento das ruas. Falta só agora conciliar o elogio aos protestos com a sua visão de que o governo faz tudo certo, que o país vai muito bem, e só os que torcem pelo pior é que não reconhecem.
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O movimento é heterogêneo, apartidário, sem lideranças claras. As reivindicações são muitas. Como em qualquer onda de descontentamento, há sempre um estopim. Desta vez foi o aumento da tarifa de ônibus, que havia sido adiado. Mas o estopim é só isso: a gota que transborda o copo já cheio pelos desaforos diários.
O Brasil sofre uma aguda crise de representação política. Nossa democracia envelheceu precocemente pela repetição do jogo dos conchavos, pelas escolhas erradas para cargos importantes, pela mesmice de oligarquias que controlam partes da federação e nacos da administração pública.
Ainda que o protesto seja contra políticos em geral, e todos devem pôr suas barbas de molho, é preciso ponderar um fenômeno recente. O governo do PT cooptou a maioria das organizações de representação da sociedade civil. Sindicatos e centrais sindicais, algumas ONGs, movimento estudantil, e até o Movimento dos Sem-Terra, recebem recursos federais e ficam na órbita do governo. Já não representam os interesses dos representados.
A UNE acaba de eleger sua nova presidente. Mais uma vez não se sabe como foi a escolha, mas já se sabia de antemão que seria do PCdoB. Como tem sido por décadas. Há muito tempo a UNE deixou de justificar o nome e virou um feudo do partido da base governista. É plataforma de lançamento do partido.
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Na economia, a inflação de alimentos está em 13,5% e tem estado persistentemente em níveis altos, a de serviços está em 8,51%, as famílias já comprometem quase um quarto da sua renda mensal com o pagamento de dívidas. O desemprego de jovens tem índices de 12,6% no Rio, 15,9% em São Paulo e 17,4% em Salvador. Nada disso é novo, mas o torniquete foi rodando. Famílias com ambições recentes alimentadas pela abundância do crédito já sentem o efeito colateral.
Para a imprensa, o desafio é enorme diante de tantas demonstrações de protesto. O maior erro dos jornalistas e das pesquisas de opinião foi não ter percebido o avanço do descontentamento.
Mas, se nessa pilha de motivos para a insatisfação fosse necessário escolher um, talvez o mais acertado seja essa sensação de divórcio entre os governantes e os brasileiros. Movimentos como esse produzem alguns excessos, mas sempre fortalecem a democracia. É preciso ouvi-los.
Por: Míriam Leitão
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