O uso de drogas e as exigências sociais


78286F1BADE0B8411EC74A5B635435A37F1B7B75Sem o intuito de culpabilizar a sociedade pelas desventuras dos usuários de drogas e nem de relacionar o uso de drogas exclusivamente ao capitalismo como fuga para o sofrimento (sendo que existem diversas maneiras de fuga, como o por exemplo o vício por compras, pelo trabalho, por sexo, comida, etc.), sabendo que o uso de substâncias é proveniente de longa data, levantamos aqui uma singela visão de fatos e fatores que, emaranhados, acabam por constituir em uma realidade fatídica a esses indivíduos. Os infortúnios causados pelo uso indevido e desmedido são decorrentes de uma complexa rede de acontecimentos e experiências, sendo que existem sim fatores que contribuem para a condição de adicto, mas que não são determinantes a ponto de estagnar a vida do indivíduo.

Parte da sociedade contemporânea ocidental tem a cultura do imediatismo, do poder através da posse, da compra, onde se preza a facilidade e comodidade para solucionar os problemas que surgem. O capitalismo trouxe à sociedade falsas necessidades e soluções mágicas, a fantasia de se ter nas mãos, ou melhor, nos “bolsos”, o controle da situação. Mas as pessoas se angustiam de novo rapidamente por surgirem novas “necessidades”.
O comportamento de alguns indivíduos se repete quando o assunto é a utilização de drogas. Crianças, jovens e adultos ao se depararem com dificuldades e problemas buscam a solução mais rápida e barata e acabam caindo no mundo das drogas. Seja qual for o sofrimento, a angústia, o desespero ou a frustração, melhor do que resolvê-los é fugir deles e ir para um mundo de fantasias, onde acreditam não poderem ser atingidos. O poder de compra, principalmente das drogas lícitas, proporcionam essa capacidade de fuga, mas ao acabar o efeito da substância o indivíduo se depara com outra necessidade, agora ao invés de fugir do problema inicial ele terá que fugir dos problemas que a utilização e a não utilização da droga lhe proporcionará.
Para não generalizarmos, iremos restringir nossas considerações à população sudeste do Brasil, a qual fez parte da presente pesquisa, sendo que esta região é a mais rica e bem instruída do país, polo educacional e de desenvolvimento, mas, em contraponto, também onde se encontra o maior mercado consumidor de drogas do país, onde pudemos constatar a banalização do uso do tabaco, da maconha e principalmente do álcool, seja por parte do próprio indivíduo, da família, da mídia ou da cultura da sociedade em geral. A droga nos parece estar presente não só nos momentos de sofrimento mas também nos momentos de busca de felicidade e bem estar.
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As ideias que antecederam o início desse trabalho visavam verificar os prejuízos advindos do uso de substâncias psicoativas e como são afetadas as exigências sociais nos adictos, visto que nenhum indivíduo vive sozinho, sem o contato e as relações sociais inerentes à vida em grupo. Desde o momento em que a pessoa nasce ela já faz parte de uma sociedade, nesse primeiro caso a família, e com o passar dos anos vão se inserindo, ou são inseridos, em outros grupos, de modo a praticamente extinguir a possibilidade de pensar em um indivíduo separado da sociedade, sendo que esta é responsável pelos seus integrantes. As habilidades e faculdades de cada um fazem diferença nessas relações sociais e caso elas estejam debilitadas poderá ocorrer danos e prejuízos em todos os âmbitos da vida do sujeito. No caso dos usuários não é diferente, o uso de substância, de acordo com a literatura e com os nossos resultados, ocasiona em um déficit em todas as áreas da vida do sujeito, afetando de diversas maneiras e em graus diferentes, levando a um prejuízo nas relações sociais.
galeriagr_22082011091105USUÁRIA DE CRACK DE CLASSE MEDIA QUE PERDEU FAMILIA E PATRIMÔNIO POR CAUSA DO VICIO.
Apesar das condições desfavoráveis proporcionadas pela droga, a maioria dos entrevistados se consideram normais, acham que o uso de drogas é normal e a grande maioria não tem a pretensão de parar. Nos parece que, por não sofrerem demasiadamente em virtude das consequências das drogas, e pela punição do uso ser tardia, pudemos constatar que essas pessoas não se vêem como “doentes”, como “marginalizados”, acreditam serem capazes de parar se quiserem e quando quiserem. Esses indivíduos não percebem o quão tênue é a linha que separa o uso habitual ou esporádico do uso desadaptado e clinicamente significativo, seguindo pela mesma linha temos o DSM IV (2002) que diferencia os usuários por critérios pré-estabelecidos e para que o usuário seja diagnosticado como dependente deve preencher três ou mais critérios pré-estabelecidos, caso contrário ele entra em outra categoria e, em virtude desse diagnóstico, os meios de tratamentos podem ser diferentes e não suficientes para alcançar a eficácia desejada. Se o indivíduo possui dois critérios é porque de alguma forma está sendo afetado e, se não for manejado esse comportamento, poderá ser agravada a situação. Sendo assim, o DSM IV (2002) serviria nesse caso mais como um parâmetro, um elemento importante a se levar em conta, para poder avaliar uma situação ou compreender o fenômeno em detalhe, mas não se deve tomar como base para definir quem e quando deve se ajudar. Afinal, nenhum mal pode ser considerado menor ou desdenhado, o menosprezo do sofrimento intrínseco causa revolta e angústia e assim pode fomentar o comportamento adicto de fuga.
Diante desse fenômeno social, que abrange a área de ilegalidade e que alguns autores colocam, também, dentro da área de saúde pública, como uma enfermidade, temos estes indivíduos que não necessitam de rótulos, de nome para sua condição ou que as estratégias de recuperação se baseiem somente no que o uso acarreta, mas talvez de atenção ao que os leva a usar e o que os reforça a continuarem a usar. Nesta pesquisa, a maioria dos participantes tiveram acesso à informações sobre drogas pela própria família, ou possuem condições de terem ou já terem tido acesso a essas informações, eles fazem o uso porque querem, têm consciência disso e muitos não pretendem parar.
Considerando o contexto da sociedade moderna baseada na produção e consumo de coisas e o indivíduo como sendo uma versão fiel e literal do mundo onde vive, fica difícil esperar que uma pessoa ande na “contramão”, que esta pessoa busque outras maneiras de se confortar, se alegrar ou transcender, pois nos parece que a mesma sociedade que reprime e patologiza o adicto é a mesma que fomenta a adicção.
Sem o intuito de culpabilizar a sociedade pelas desventuras dos usuários de drogas e nem de relacionar o uso de drogas exclusivamente ao capitalismo como fuga para o sofrimento (sendo que existem diversas maneiras de fuga, como o por exemplo o vício por compras, pelo trabalho, por sexo, comida, etc.), sabendo que o uso de substâncias é proveniente de longa data, levantamos aqui uma singela visão de fatos e fatores que, emaranhados, acabam por constituir em uma realidade fatídica a esses indivíduos. Os infortúnios causados pelo uso indevido e desmedido são decorrentes de uma complexa rede de acontecimentos e experiências, sendo que existem sim fatores que contribuem para a condição de adicto, mas que não são determinantes a ponto de estagnar a vida do indivíduo.
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