Salvo das drogas pelo hip-hop e pela literatura, Alessandro Buzo lança livro e estreia na TV


favelatoma300Com a palavra, o próprio Buzo, que escreveu no posfácio de seu novo livro: “Essa era minha sina, ser apenas mais um rapaz comum como tantos que existem nas quebradas. Mas o meu algo mais surgiu de onde poucos poderiam esperar: da cultura da literatura.”
Alessandro Buzo, escritor
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Às vésperas de completar 39 anos, aniversário que será comemorado no Rio e em Curitiba, o escritor e agitador cultural Alessandro Buzo acaba de dar mais um salto: o quadro “Buzão – circular periférico”, antes exibido na TV Cultura, no programa “Manos e minas”, é a nova atração da TV Globo, apresentado a partir da próxima semana na primeira edição do noticiário “SPTV”, ao meio-dia das sextas-feiras. Além de reportagens com jovens nas periferias da capital paulista, Buzo vai debater ao vivo as notícias do quadro com os âncoras do telejornal local. Antes de estrear na nova emissora, o autor lança hoje, na Livraria da Travessa de Ipanema, às 19h, seu oitavo livro, “Do conto à poesia” (Ponteio), sua estreia nos dois gêneros literários. É uma trajetória jamais sonhada pelo garoto nascido no Itaim Paulista, extremo da Zona Leste de São Paulo, que por pouco não se perdeu nas drogas, mas acabou salvo pelo hip-hop e, principalmente, pela literatura.
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Ajuda do patrão no primeiro livro

Com a palavra, o próprio Buzo, que escreveu no posfácio de seu novo livro: “Essa era minha sina, ser apenas mais um rapaz comum como tantos que existem nas quebradas. Mas o meu algo mais surgiu de onde poucos poderiam esperar: da cultura da literatura.” A volta por cima não foi fácil. Só há quatro anos conquistou a tão sonhada estabilidade financeira, diz o criador do “Favela toma conta”, evento anual que agita o Dia das Crianças do Itaim Paulista com música, cinema, literatura e dança.
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– Eu era mó viciado – lembra Buzo, que recebeu a reportagem do GLOBO em sua casa, na Casa Verde, Zona Norte de São Paulo, num intervalo entre as aulas de auto-escola para tirar sua primeira habilitação e a reunião de trabalho que definiu seu futuro na TV. – Comigo aconteceu uma coisa parecida com a história do conto “A viagem”, que está no livro. – Não que eu tenha feito o mesmo que o personagem, o Paulo, que transporta drogas para a Argentina para pagar seu vício e sair das ruas. Mas fui usuário de drogas pesadas e, do mesmo jeito que o Paulo, larguei as drogas, mudei de vida e abri um sebo. Usei o hip-hop, a literatura e a família como bases para essa transformação.
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O primeiro livro “O trem – baseado em fatos reais” (2000) foi um lançamento independente. O patrão, um atacadista de alimentos na zona cerealista da capital, bancou 1/3 da edição. Buzo deu um jeito e negociou pagar o resto com a editora a prazo, depois do lançamento. Foi quando aprendeu a vender seus próprios livros pelo correios. Os pedidos chegavam no trem – nas viagens diárias de 30 quilômetros do Itaim Paulista até o Centro, onde trabalhava – ou por telefone, impulsionados pela propaganda boca a boca. Depósito feito e comprovado, o escritor despachava o exemplar. Até hoje, conta que vende muitos livros assim. A diferença é que agora os pedidos costumam vir por e-mail.
– O primeiro livro parecia um fato isolado, que ia ficar para trás. Só consegui lançar o segundo quatro anos depois. Paguei a editora com sacas de alimentos que vendia no meu emprego oficial. Durante muito tempo, eram dois mundos completamente separados – lembra Buzo, que se reveza com a mulher no expediente diário em seu sebo, o Suburbano Convicto, no Bixiga, região central de São Paulo. Lá escritores de periferia têm lugar garantido nas estantes e são as estrelas de saraus semanais de poesia, prosa e música.
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– Os contos de meu livro foram escritos ao longo dos últimos dez anos. Poesia, confesso, não é muito a minha. Tinha escrito algumas, só decorei uma. Mas ficava cabreiro ao ver poetas lendo seus livros nos saraus. Por isso resolvi me aventurar no gênero. Agora tenho o que ler – diz o autor do poema “Liquidificador”: “Peguei tudo o que a sociedade me ofereceu/ Escola pública/ Saúde pública/ Transporte coletivo/ Esgoto a céu aberto na infância/ Juntei essa porra toda,/ bati no liquidificador e sobrou… EU”.
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Junto com “Do conto à poesia”, chega às livrarias o quinto volume da coletânea “Pelas periferias do Brasil”, organizado por Buzo, que apresenta 20 novos autores de oito estados do país.

Por: Márcia Abos
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