‘Infelizmente o racismo ainda está aí, ainda existe’, diz Lázaro Ramos


“Ali era o nascedouro de tudo”, observa. “Antigamente, se for pensar, a luta era somente para ter onde morar. Tudo se passa apenas quinze anos após a abolição da escravatura, em que a princesa Isabel deu uma canetada com duas frases, que não explicavam o que ia acontecer com esse contingente todo (de negros) que veio para o Brasil. A luta das pessoas era para ter o que comer. Era mais primal”, analisa o ator.


Lázaro Ramos usa camisa com Nelson Mandela, em viagem ao Maranhão para gravar Lado a Lado (Foto: Lado a Lado/TV Globo)Lázaro Ramos usa camisa com foto de Nelson Mandela, em viagem ao Maranhão para gravar Lado a Lado

Zé Maria, o barbeiro vivido por Lázaro Ramos em Lado a Lado, vai mostrar posições firmes quando estiver sendo vítima de racismo nas cenas da novela. Um dos grandes desafios de todos os personagens negros da novela é justamente vencer o preconceito da sociedade carioca de 1903, que vive sem escravidão há apenas 15 anos. Nesse aspecto, Lázaro Ramos vê um paralelo com a sua própria postura como artista, como conta nessa entrevista.

Talvez a luta e o grito sejam necessários em algumas situações extremas”
Lázaro Ramos

“Ali era o nascedouro de tudo”, observa. “Antigamente, se for pensar, a luta era somente para ter onde morar. Tudo se passa apenas quinze anos após a abolição da escravatura, em que a princesa Isabel deu uma canetada com duas frases, que não explicavam o que ia acontecer com esse contingente todo (de negros) que veio para o Brasil. A luta das pessoas era para ter o que comer. Era mais primal”, analisa o ator.

Ele ressalta que hoje muitos brasileiros negros ainda lutam para ter o que comer e por uma moradia melhor, e que as favelas estão aí como prova disso. “Mas hoje em dia existem outras lutas: por uma maior qualidade de educação, por uma maior inserção em cargos profissionais que usualmente não são ocupados por negros. Uma luta para ocupar cargos públicos, cargos políticos. As cores, as tintas dessa questão são outras, mas continuam existindo. Infelizmente o racismo ainda está aí, ainda existe”, constata.

Lázaro Ramos sambando como Zé Maria (Foto: Lado a Lado/TV Globo)Lázaro Ramos sambando como Zé Maria

As maneiras de combater o racismo também foram mudando com o tempo, como ele analisa: “A gente já entendeu que para resolver a exclusão e o racismo, não existe uma estratégia somente. Eu acho que, talvez, a grande mudança seja essa. Perceber a situação e descobrir qual vai ser a estratégia para a situação. E não achar que é somente uma estratégia, a da luta e do grito. Talvez a luta e o grito sejam necessários em algumas situações extremas”, lembra Lázaro. Ele usa como exemplo o caso do cantor Seu Jorge, que revelou no ano passado ter sofrido com o racismo na Itália: “A história que aconteceu com o Seu Jorge, agora pouco, na Itália, é chocante e tem que gritar mesmo.”

Zé Maria é exemplo de amor próprio para pessoas de qualquer etnia

Lázaro não vê seu personagem somente como um defensor dos direitos dos negros naquela época. A postura do personagem, que não se submete a humilhações, pode dar outras lições. “Ele é um personagem que tem muita autoestima. E isso eu já gostei nele. Ele nunca abaixa a cabeça, chega nos lugares e diz: ‘eu também tenho o direito de estar aqui.’ Eu vou ter uma vida melhor, eu quero construir um mundo melhor. Esse é o texto do personagem: ‘eu quero falar de escravidão somente como uma lição, para que isso não se repita’.”
Não pode ir para a arrogância, mas nós gostarmos de nós mesmos já é um grande caminho”
Lázaro Ramos

Zé Maria representaria, na opinião do ator, o começo da consciência do quanto é importante ter autoestima para caminhar na vida. “E é bacana que isso acaba atingindo brancos, negros, crianças, adultos, idosos. Porque essa é uma frase que serve para todo mundo: autoestima nunca faz mal. Não pode ir para a arrogância, mas nós gostarmos de nós mesmos já é um grande caminho”, defende Lázaro.

Lázaro explica sua maneira de combater o racismo: “O meu caminho é da afirmação, o de propor soluções.” Uma das propostas seria justamente o “Espelho”, seu programa de entrevistas no Canal Brasil, da Globosat, no qual ele procura debater o assunto. “É como eu sinto, é como eu, menino, lá de Salvador, do bairro do Garcia, sentia a situação toda. Agora que tenho a oportunidade de dirigir um programa de televisão, estou oferecendo o meu discurso”, revela o ator.

Ele explica que procura fazer a mesma coisa quando dirige suas peças no teatro ou quando dirigiu o quadro “O Curioso”, no Fantástico, em 2010: “Me aproveito desse microfone conquistado para mostrar um pouco o meu olhar, para compartilhar, para não ficar só reclamando, para ser pró-ativo.”

“Essa novela, além de entreter – porque ele estão fazendo uma novela, um folhetim – tem esse subtexto que é muito importante para a gente se perceber, perceber onde a gente está e de onde a gente vem”, analisa Lázaro Ramos. Ele reforça, mais adiante: “Provoca uma discussão, da melhor forma que tem, que é tocando o sentimento das pessoas, sem ser didático. É uma novela que está aí também para entreter.”
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