Emicida


O cantor paulistano Emicida tem sido nômade desde a infância, embora nunca tenha morado fora da cidade natal. Nascido na periferia norte da capital, peregrinou ao longo da vida por bairros como Jardim Fontales, Jaçanã, Jardim Brasil Novo, Vila Zilda, Jardim Filhos da Terra, Cachoeira, Santana, Tucuruvi. Deve se mudar em breve para a Água Fria, na mesma região. “Vou morar numa casa própria. Minha filha vai crescer tendo uma casa. É a primeira vez na história da minha família”, celebra, emocionado, numa noite de segunda-feira, no Laboratório Fantasma, seu escritório-empresa-gravadora-editora-produtora, em Santana, também na zona norte da cidade.

Foi a partir dali que Leandro Roque de Oliveira, hoje com 26 anos, começou a se projetar e progredir, graças à paixão pelo rap e pela cultura hip-hop. É a partir dessa base que, desde 2009, Emicida grava, produz, fabrica, copia, embala e distribui CDs sempre artesanais, que ele chama “mixtapes”. Até hoje, não lançou um disco oficial, menos ainda algum trabalho bancado por uma gravadora tradicional. Inclusive, já recusou convites de várias.

Pra Quem Mordeu um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe… foi a primeira mixtape, em 2009. Depois vieram Emicídio (2010) e Doozicabraba e a Revolução Silenciosa (2011). De lá para cá, já cantou e gravou com artistas de rap, samba, MPB e tecnobrega, como Elza Soares, Martinho da Vila, Mart’nália, Fabiana Cozza, Mariana Aydar, MV Bill e Gaby Amarantos. Caiu na simpatia da mídia tradicional. Tocou na periferia e no circuito Baixo Augusta, e em cidades das cinco regiões do Brasil.

Ele anda especialmente sensibilizado com a recente ação da Polícia Militar paulista na comunidade do Pinheirinho, em São José dos Campos. “A minha mulher é de Jacareí, que é do lado. Tenho vários amigos no Vale do Paraíba”, explica. Mas não é só por isso. Órfão de pai desde os 6 anos, Leandro zanzou a infância e a adolescência com a mãe, Jacira, entre moradias provisórias, noites dormidas embaixo de lona e refeições filadas em cultos religiosos, fossem evangélicos, católicos ou de candomblé. A casa onde a mãe e o padrasto moram até hoje, ao pé da Serra da Cantareira, é de alvenaria. Mas ali mesmo a família já enfrentou disputa judicial entre supostos loteadores, despejo, demolição, reconstrução. “Como o pessoal do Pinheirinho, eu sou uma dessas pessoas que um dia foram expulsas de um lugar”, diz.

Opõe-se frontalmente à forma como o poder público e a PM ocuparam a Cracolândia e a Favela do Moinho, no centro de São Paulo. Traça paralelos entre esses acontecimentos e os conflitos entre estudantes da USP e a polícia, quando a repressão se abate também sobre os filhos da elite e da classe média. Vê como exemplo inquestionável de racismo o célebre vídeo em que um policial discute com um grupo de uspianos e agride o único aluno negro entre eles. As consequências do racismo brasileiro dito “cordial” são constantes em seu cotidiano. Mesmo já conhecido por ter sido entrevistado por Jô Soares, Marília Gabriela e Ratinho, diz que apenas nos últimos quatro meses tomou três “enquadros” violentos da polícia, com arma apontada para o peito e agressão física. “Até hoje vejo uma viatura e fico receoso. Nunca devi nada à polícia, mas todas as vezes fui extremamente maltratado.” Lamenta também o tratamento recebido em delegacias, como quando foi prestar queixa contra um taxista que o havia chamado de “macaco”. “Perdi o show daquele dia, mas fiz o B.O., o bichão também perdeu o dia de trampo dele. Mas foi registrado como injúria, não como racismo”, impacienta-se.

Há uma diferença crucial entre Emicida e os rappers de gerações anteriores, representadas principalmente pelos Racionais MC’s de Mano Brown. Ao contrário desses, ele acredita na necessidade de atravessar as pontes reais e simbólicas que separam centro e periferia de São Paulo (e do Brasil). Demonstra prazer em dialogar, em ir à mídia, em relatar mesmo as experiências mais difíceis que vivenciou. E também, talvez principalmente, em exaltar as não poucas conquistas em meros três anos de deslanche profissional. Leandro, que virou Emicida pela fama de “matador de MCs” nas batalhas de improviso (ou freestyle) de rappers, fala nas linhas abaixo sobre sua cidade, seu estado, seu país. Em outras palavras, fala sobre si próprio. E já começa a falar sobre a polícia, antes mesmo de qualquer pergunta: “Estou no pior momento com a polícia. Os últimos três enquadros que tomei, tomei com arma na cabeça. Estava do lado do carro, em frente à minha casa. ‘Cadê seu documento?’. ‘Pô, mano, você vai me desculpar, estou na frente da minha casa, não vou carregar carteira pra descer na calçada’. O cara me reconheceu, ficou sem graça. Aí fico mais puto ainda, porque muda totalmente o jeito de lidar.”

Por Pedro Alexandre Sanchez
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