TIRADENTES » Um herói nacional


A trajetória do conspirador que há 220 anos morria em nome do combate à exploração portuguesa e o perfil do homem por trás do mito: suas paixões e o mistério de um mártir de tantas faces, cujo rosto ainda é desconhecido

Gustavo Werneck (textos)
Homem libertário. Mito que se perpetua ao longo dos séculos. Personagem que atravessa o tempo, deixando um rastro de dignidade, honra e amor por Minas Gerais.
Os brasileiros lembram amanhã os 220 anos da morte de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, vulto maior da Inconfidência Mineira.
As cortinas da história do Brasil se abrem para reverenciar o herói que desafiou a Coroa Portuguesa e se insurgiu contra a opressão econômica nos tempos da rainha Dona Maria I, a Louca.
Nos palcos da memória, eis o mártir que ousou sonhar e acreditar nos seus ideais.
A vida de Tiradentes, supliciado em 21 de abril de 1792, continua como obra aberta, permitindo interpretações diversas sobre o mesmo personagem.
Prova de que até mesmo a biografia do inconfidente transpira liberdade. Com essa lupa – que, certamente, será a lente para os olhares de qualquer tempo – o Estado de Minas reconta nas próximas páginas o misto de realismo, reconstrução e idealização que marca a trajetória daquele que plantou a semente da independência no solo do Brasil.

História

Uma rainha que aumenta o jugo sobre a colônia; um mundo varrido pelos ventos da liberdade; um grupo rebelado contra o apetite fiscal da Coroa. Saiba como esses fatos se uniram para dar origem a um herói

Para entender a vida, as ideias, o legado, a traição e o sacrifício do mártir da Inconfidência é preciso compreender o contexto de seu tempo. Nele, a rainha Dona Maria I conduz política reformista e moralizadora em relação às colônias portuguesas, principalmente a partir de 1783. Em Minas, o objetivo é tirar das elites locais os cargos que ocupam no governo, reforçar a dependência econômica em relação a Lisboa, barrar os desmandos dos padres, pôr fim ao contrabando e cobrar os débitos dos contratadores de impostos (pessoas que compravam da Coroa o direito de cobrar tributos dos súditos).
Na época, Portugal tinha o direito de cobrar o “quinto do ouro”, taxa de até 20% sobre a produção. Mas, se os mineradores não pagassem ao governo 100 arrobas de ouro anuais, a Coroa Portuguesa poderia decretar a derrama, obrigando as câmaras municipais a fazer o povo pagar o valor necessário para chegar àquele total.
Em 1788, o visconde de Barbacena chega a Minas com ordens para decretar a derrama e fazer as reformas ditadas pela rainha. A situação gera descontentamento na capitania, em especial entre as pessoas ligadas a grupos privilegiados – gente como contratadores, clérigos, militares e contrabandistas. Um grupo começa, então, a articular uma conspiração contra o governo. O movimento passaria à história conhecido como Inconfidência ou Conjuração Mineira.

Cenário

Desde o século 16, tanto em Portugal quanto no Brasil acreditava-se que o poder do rei tinha origem nos súditos, que o recebiam de Deus. Assim, se o monarca se tornasse um tirano – desrespeitando leis e privilégios de grupos e instituições, além de afrontar a Igreja Católica –, poderia ser deposto. Os jesuítas estiveram entre os grandes divulgadores dessa ideia e a disseminaram em suas escolas.
No século 18, novos ventos sopram sobre o Ocidente, trazendo a filosofia de pensadores franceses que criticam o poder absoluto dos reis, a administração colonial, o monopólio comercial, a intolerância religiosa e a escravidão. A Inconfidência floresce no ambiente de efervescência intelectual e política, como ocorre na Europa e Américas, em especial com a independência das 13 colônias que deram origem aos Estados Unidos (1776).
As novidades chegam a Minas por livros, jornais, manuscritos e relatos orais. Imbuído desse espírito, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, denuncia que altos tributos e monopólio comercial transformam Minas, uma capitania rica, em lugar de pobreza. Mas há um delator. O movimento é abortado em 1789 e Tiradentes, enforcado três anos depois.

1º ato

Às margens do Rio das Mortes, na Capitania das Minas Gerais, nascia o menino que estava condenado a mudar a história do país

OS TEMPOS DO HOMEM

O menino nascido em uma fazenda à beira do Rio das Mortes, no Campo das Vertentes. O jovem órfão, educado pelo padrinho, com quem aprende o ofício de extrair dentes e fazer curativos, até ingressar no Regimento Regular de Cavalaria de Minas e ocupar a patente de alferes, posto de comando da 6ª Companhia. O militar que patrulha em montaria os caminhos de Sete Lagoas, na entrada dos sertões das Gerais, e da Serra da Mantiqueira, a serviço da Coroa Portuguesa. O homem que não perde chance de cair nos braços das moças nas casas de alcouce, os lugares de prostituição da época. E, finalmente, o conspirador e mártir da Inconfidência Mineira, que muitos preferem chamar de Conjuração.
Os vários personagens acima apresentados fazem parte da vida, do martírio e da glória do mesmo homem: Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, cujo nome ficou gravado na história como herói nacional. Há 220 anos ele morria enforcado, no Largo da Lampadosa, no Rio de Janeiro, tendo em seguida o corpo esquartejado e partes espalhadas pela estrada que conduzia a Vila Rica, atual Ouro Preto, então capital de Minas. Nesse caminho, surgiram cidades, ergueram-se monumentos e se criaram mitos. Mas, desde os fins do século 18, ninguém consegue ficar indiferente à trajetória de Tiradentes, o único supliciado pela monarquia depois de esmagada a conspiração.
Que motivos levaram esse homem de outros ofícios, como mascate, tropeiro e dentista – ocupação que lhe valeu o apelido –, a se rebelar contra a rainha Dona Maria I, pôr a cabeça a prêmio e perdê-la, no sentido físico, jamais figurado? Para obter a resposta, é preciso sair do século 21 e voltar aos tempos da Capitania de Minas, a mais rica entre todas as possessões portuguesas na Ásia, América e África.
Para começar, no campo pessoal, o alferes não andava lá muito satisfeito com a sua situação no regimento, como explica o professor de história da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Luiz Carlos Villalta. “Ele pediu uma promoção, mas a melhoria no soldo acabou indo para o marido da amante do governador Luís da Cunha Menezes, que, de partida para Portugal, precisava recompensar quem aceitasse se casar com a mulher da qual se servira.”
Dentro e fora do quartel aumentava a insatisfação com a nova política de Dona Maria I, rainha de Portugal desde 1777, que tirava integrantes das elites de cargos no governo e de negócios lucrativos, legais e ilegais. A cada dia, a soberana buscava reforçar a dependência econômica da colônia em relação a Portugal, facilitando a entrada de mercadorias lusitanas em Minas, além de cercear o contrabando, pôr em dia os débitos dos contratadores de impostos e barrar os desmandos dos clérigos na cobrança de taxas por serviços religiosos, como confissões, casamentos e missas.
As ordens reais eram cumpridas, com maior ou menor atenção, pelos governadores da Capitania de Minas, Luís da Cunha Menezes (de 1783 a 1788) e Luís Antônio Furtado de Castro do Rio Mendonça, visconde de Barbacena (de 1788 a 1797). “Naquela época, Minas já tinha uma economia diversificada. Além da mineração do ouro, em decadência, e a dos diamantes, atividades como agricultura, pecuária e produção de tecidos grosseiros estavam em crescimento. As determinações da rainha, portanto, geravam insatisfação nas pessoas mais bem situadas na hierarquia social”, diz Luiz Villalta.
Mas que ninguém pense que a monarca tencionava unicamente acabar com a corrupção: o que sua política pretendia mesmo era explorar ainda mais as colônias, em especial a riqueza de Minas. Na época, Portugal cobrava o “quinto”, taxa de até 20% sobre a produção de ouro, além de estabelecer o recolhimento mínimo de 100 arrobas anuais do metal, sob pena da derrama – a cobrança da diferença por intermédio das câmaras municipais. Alguns dos representantes das elites mineiras estavam em débito com a rainha. É nesse clima de pressão, insatisfação e efervescência política e intelectual que a Inconfidência Mineira é concebida. Os inconfidentes estavam à espera da decretação da derrama, para que o descontentamento se alastrasse como o rastilho de pólvora que faria explodir a revolta em Minas.

2º ato

Por trás da imagem do mártir que passou à história havia um homem famoso pela boemia, mas também pelo apetite revolucionário

NA CAMA COM AS PILATAS

Das fazendas ao patíbulo, passando pelos caminhos da Estrada Real, casas de alcouce, tabernas, mesas de conspiração e flagelo. O menino Joaquim José da Silva Xavier não veio ao mundo em berço de ouro, mas também não era de família pobre. Quarto dos nove filhos do português Domingos da Silva Xavier, proprietário rural, e da brasileira Maria Paula da Encarnação Xavier, nasceu na Fazenda do Pombal, antigo distrito de Santa Rita do Rio Abaixo, hoje município de Ritápolis e na época pertencente a São João del-Rei, na Região do Campo das Vertentes. Adulto, revelou-se namorador por excelência, principalmente em Vila Rica, onde frequentava as casas das meretrizes, entre elas duas apelidadas de “Pilatas”. Muitas vezes não tinha dinheiro e, para não deixar as moças na mão, dizia em alto e bom som: “Os prêmios virão depois da revolução”.
Aos 29 anos, Joaquim José ingressa na tropa da Capitania de Minas. A carreira militar, no entanto, não trouxera as alegrias que o mineiro imaginava. “No dia a dia, Tiradentes falava mal, à boca pequena, da Coroa Portuguesa e da exploração imposta à colônia, em especial a Minas. A insistência em falar sobre a rebelião pode ter causado seu desprestígio na tropa”, diz o historiador da UFMG Luiz Carlos Villalta.
Fora da caserna, o alferes se envolvia com grupos igualmente revoltados com a situação de arrrocho imposta pela rainha, que entrou para a história como Dona Maria I, a Louca. E misturava os ares de liberdade que sopravam da Europa e da América às velhas tradições luso-brasileiras, das quais era grande representante o Padre Antônio Vieira (1606 – 1697), autor de um sermão reproduzido em boa parte – e “apimentado” – pelo alferes. Numa crítica à administração régia, o sermão se transformava em denúncia contra o sistema colonial.
Em Vila Rica, Tiradentes andava ladeira acima, ladeira abaixo com um ou outro volume do livro do francês Padre Raynal, História Filosófica e Política dos Estabelecimentos Europeus nas Duas Índias, de 1770, que criticava a colonização nas Índias orientais e ocidentais – obra considerada tão importante para o século 18 quanto o Manifesto Comunista, de Karl Marx (1848), para o 19. Em 1780, a obra ganhou um novo volume, que versava sobre a independência das 13 colônias inglesas que deram origem aos EUA. Nas mãos, levava também a Constituição dos Estados Unidos (Recueil des loix constitutives des Etats-Unis).
Tiradentes era muito falastrão e, ao saber, por exemplo, que o visconde de Barbacena poderia decretar a derrama, perguntava a seus interlocutores o que achavam do governador. Na sequência, emendava: “Que antes ele fosse um demônio; porque se disporiam as coisas ao estabelecimento de uma república; e que agora com a nova derrama se desesperariam os povos para fazer algum levante, ou o poderiam fazer; e que nas nações estrangeiras se admiravam do sossego desta América, vendo o exemplo da América Inglesa”.

LUZES DA MUDANÇA Em pleno século 18, chamado de século das luzes, muitos fatores contribuíam para as mudanças no Ocidente, entre eles as ideias dos pensadores iluministas franceses – Montesquieu (1689 – 1755), Denis Diderot (1713 – 1784), Raynal (1713 – 1796) e outros –, que criticavam o absolutismo dos reis, além da forma como eram tratados os assuntos coloniais e religiosos. Por isso, esses autores tinham os seus livros censurados. O presidente do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, Artur Cláudio da Costa Moreira, atesta: pesquisas recentes mostram que Tiradentes teria ido buscar inspiração e trocar ideias além das capitanias de Minas e do Rio. “Segundo os novos estudos, ele teria estado várias vezes em Portugal, inclusive em contato com a rainha, em Lisboa, e com pensadores em Paris e Montpellier, na França”, acredita.
Mas o professor da UFMG Luiz Villalta refuta completamente essa hipótese. Ele admite apenas que, das lendas que pairam sobre a Inconfidência, só uma parece ter consistência: a de participação de maçons (não da maçonaria como instituição) no movimento. Seria esse o caso, possivelmente, de José Álvares Maciel.
3º ato

O que inspirou a conjuração que envolvia de padres a militares. E como o motim sucumbiu a um traidor endividado com a Coroa

olhos do deLATOR
Os inconfidentes não tinham noção exata do que era o Brasil e a palavra brasileiro não era usada. Na verdade, queriam negociar com a Coroa Portuguesa, criar uma república incluindo apenas Minas, Rio de Janeiro e São Paulo, ou transferir a sede da monarquia portuguesa de Lisboa para a América. As palavras país, nação e pátria não tinham o mesmo significado de hoje. No entendimento deles, país era a Capitania de Minas e suas comarcas; a pátria, o local de nascimento, portanto, Minas; e nação, o povo súdito do mesmo soberano, unido também por compartilhar da mesma cultura – nesse caso, a nação portuguesa. “A imagem de que os conspiradores queriam libertar o Brasil de Portugal não corresponde à verdade dos fatos”, sustenta o professor de história da UFMG Luiz Carlos Villalta.
A conjuração era eclética e reunia desde a segunda autoridade militar da capitania, o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, ao Padre Rolim, um dos homens mais ricos da região, contrabandista de diamantes, passando pelo ouvidor de Vila Rica, Tomás Antônio Gonzaga; o advogado formado em Coimbra e ex-secretário de governo na capitania, Cláudio Manuel da Costa; o proprietário da Casa dos Contos, João Rodrigues de Macedo; o ex-ouvidor da Comarca do Rio das Mortes, José de Alvarenga Peixoto, e muitos outros.
Alguns dos representantes das elites mineiras estavam em débito com a Coroa e, na época, a mineração minguava. Os conspiradores acreditaram ser a hora certa de bradar pela liberdade. O plano era, tão logo fosse decretada a derrama, prender o governador. Ao mesmo tempo, Paula Freire e suas tropas ocupariam Vila Rica. Pessoas de outras vilas já estavam prontas para dar apoio aos inconfidentes. A derrama seria decretada pelo governador da Capitania de Minas, o visconde de Barbacena, em 1789, mas ele suspendeu a cobrança e sepultou a conspiração.
Entre os inconfidentes havia um delator. Era o coronel Joaquim Silvério dos Reis, contratador de impostos, personagem que tinha o direito de arrecadar tributos, mas que estava em débito com a Coroa. Na esperança do perdão da dívida, ele entregou a cabeça dos conspiradores.
Quando a tentativa de levante foi esmagada, Tiradentes estava no Rio de Janeiro. Sabendo de todos os meandros da conspiração, Silvério dos Reis foi ao encontro dele, a mando do vice-rei. O alferes se escondeu na casa de um amigo, mas foi preso em 10 de maio de 1789, com um bacamarte na mão. Em três interrogatórios, negou tudo. No quarto, em 18 de janeiro de 1790, confessou, assumindo sozinho a responsabilidade e eximindo os demais conspiradores.
Para a maioria dos historiadores, Tiradentes é o grande herói nacional, um personagem consagrado na memória popular como mártir e defensor da pátria. Um homem que tinha noção crítica do momento pelo qual a colônia passava e queria que a riqueza de sua “pátria” (o seu lugar de nascimento, Minas) não fosse drenada por meio de impostos excessivos e do monopólio comercial. Ele falava em liberdade, em um governo feito em boa parte pelos “mazombos”, homens de origem europeia nascidos no Brasil.
Professor do Centro de Pesquisa e Pós-Graduação da Academia de Polícia Militar, Francis Albert Cotta afirma que Tiradentes, patrono da PM, foi militar e morreu militar: “Nunca deu baixa da tropa, era um oficial reconhecido pelo cumprimento do dever”. Ele ressalta que o alferes era um homem do seu tempo, com todos os desejos e angústias típicos do século 18. “Houve muita manipulação quanto à sua imagem, em especial no período republicano”, afirma.

QUE FIM LEVOU SILVÉRIO DOS REIS?

O traidor dos inconfidentes, o português Joaquim Silvério dos Reis Montenegro Leiria Grutes (1756 – 1819), comandante do Regimento de Cavalaria Auxiliar de Borda do Campo, fazendeiro e minerador, terminou seus dias no Maranhão, sofrendo hostilidades dos moradores da terra. Já o outro denunciante, Basílio de Brito Malheiros, falecido em 1806, registrou em seu testamento que todo “o povo de Minas, todo o Brasil, em verdade, alimenta um ódio implacável contra si depois da projetada Inconfidência de Minas”.

Epílogo

De líder messiânico a militar esguio, Tiradentes tem representações oficiais que dificilmente correspondem
à realidade. Curiosamente, a verdadeira feição do mártir de tantas faces segue resistindo a anos de estudos

em busca de um rosto

Passados 220 anos da morte de Tiradentes, ninguém sabe exatamente como era o rosto do herói. As faces que conhecemos são idealizações: a versão do mártir de barbas e cabelos longos, que lembra Cristo, como mostra o primeiro registro, uma litografia de 1890, do pintor carioca Décio Villares (1851 – 1931), ou a imagem de porte esguio e elegante do alferes, enaltecida em quadro de 1940, que se tornou ícone da Polícia Militar de Minas Gerais. Segundo os estudiosos, a figura messiânica, de túnica branca, foi criada logo no início da república, que precisava de um símbolo forte para sepultar, de vez, a imagem cunhada no século 19 dos inconfidentes, retratados como poetas e românticos.
A única referência visual existente sobre Tiradentes revela um “homem de olhar espantado”, aspecto que denotaria um caráter ansioso e presença de certo tique nervoso. Mas, conforme os historiadores, no fim da vida ele não usaria barba. Ao ser preso, teve os bens sequestrados, mas deixaram que ele mantivesse na cadeia, conforme está documentado, um missal (livreto religioso) e duas navalhas, com certeza usadas para que se barbeasse.
O desconhecimento da face verdadeira do herói que, diz a história oral, teve a cabeça roubada em Ouro Preto depois do esquartejamento do corpo no Rio de Janeiro, sempre intrigou os pesquisadores. Em 1960, o Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais formou uma comissão para cuidar do assunto e traçar o retrato do mártir, sem chegar a uma definição. Na década seguinte, novo grupo se debruçou sobre o mesmo tema, chegando à conclusão de que o rosto do herói seria liso, tendo em vista a posse das navalhas no cárcere.
Autor do livro O Manto de Penélope – História, Mito e Memória da Inconfidência Mineira de 1788-9, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) João Pinto Furtado está certo de que a apropriação simbólica de Tiradentes é até mais importante do que ações de fato praticadas pelo herói. “Ele plantou a semente da liberdade, era um ativista, embora entre os planos dos inconfidentes não estivessem temas como a libertação dos escravos. Tiradentes tinha três deles quando foi preso, e os demais inconfidentes também eram donos de muitos escravos A emancipação dos negros, por sinal, já vinha sendo feita nos Estados Unidos”, conta o professor, que apresenta em seu livro as diversas leituras feitas, ao longo do tempo, sobre a face do herói. Apesar da controvérsia sobre o verdadeiro aspecto do mito, o historiador tem uma certeza: “Tiradentes ficou eternizado”.

ELE CONHECEU O MITO

Um documento garimpado pelo Ministério Público estadual, via Coordenadoria das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Turístico, em edição do Minas Gerais, Diário Oficial do Estado de 19 de novembro de 1892, joga mais luz sobre a figura de Tiradentes. Conforme relato de Severino Francisco Pacheco, então com 115 anos, ex-praça de cavalaria do Segundo Regimento de Ouro Preto, o alferes “era um homem alto, sympathico, bonito e gênio alegre”. Pacheco estava no início da adolescência quando viu Tiradentes várias vezes numa casa do Largo do Rosário “tocar violão e cantar modinhas, no que era perito”. Segundo o jornal, Pacheco, em 1892, era casado com uma “menina” de 60 anos.

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