UM NA MULTIDÃO: Beleza a favor da cidadania


Projeto social realizado por cabeleireira trabalha o resgate da autoestima, além da profissionalização de jovens e adultos carentes em Belo Horizonte.
Por:PAULA SANTOS
paula.santos@supernoticia.com.br

Aos oito anos, Dora perdeu o pai e o cabelo, mas não o sonho de ser alguém na vida e de ser vista pelo mundo. Hoje, ela é Dora Alves, um exemplo de cidadania e amor ao próximo. Foi por causa de uma experiência mal sucedida de alisamento, que a então menina decidiu se dedicar à arte da beleza. Começou com os primos, amigos e vizinhos, transmitindo os valores passados pelos pais. “Aprendi que trançar com arte podia mudar o rumo das pessoas”, afirma.

Ainda jovem, Dora abriu as portas da casa dos pais, no bairro Primeiro de Maio, região Nordeste de Belo Horizonte, para ensinar gratuitamente o que sabia da profissão de cabeleireira para pessoas carentes. Dessa forma, passou a ser referência para muitos jovens que desejavam, assim como ela, superar os obstáculos da vida e construir sua própria história.

Ciente do impacto do seu trabalho sobre as condições de vida das pessoas beneficiadas, Dora resolveu fundar a Associação Projeto Meninas de Dora, em 2007, no bairro Maria Goretti, também na região Nordeste da capital, onde mora atualmente.

O salão Dora Cabeleireiros proporciona o sustento da ONG. “Em primeiro lugar está Deus, devo tudo a ele. Depois vem minha família e meus clientes, pois são eles que me ajudam a realizar sonhos”, explica. Todas as funcionárias já foram suas meninas.

Já se passaram 40 anos e o resultado do trabalho dessa guerreira pode ser visto por toda capital. Eliete Martins, de 33 anos, é um exemplo. Começou aos 15 anos limpando o salão e, aos poucos, foi aprendendo o ofício. “Tudo o que sou e tenho devo à Dora. Hoje tenho o meu salão no Barro Preto, minha casa, meu carro e posso dar um conforto para a minha família”, conta orgulhosa.

Laisla, de 18 anos também é uma das meninas de Dora. Ela praticamente foi criada pela cabeleireira e aprendeu a profissão desde nova. “Sou muito grata. Se não fosse por ela, eu não sei o que seria de mim. Hoje, tenho o meu trabalho, meu dinheiro e sou muito feliz de viver da arte do cabelo”, confessa.

Outra parceira de Dora do salão é a filha Flávia, de 38 anos. “É um privilégio ser filha da Dora, tenho muito orgulho dela”. Para Flávia, a maior herança que um pai pode deixar para um filho é o conhecimento, uma profissão. “Na vida, nós ganhamos e perdemos o tempo todo, mas o nosso conhecimento ninguém pode tirar, e ela me deu esse grande presente”.

O marido, Célio Marques, funcionário público aposentado, também é um grande parceiro. “Ele me dá muita força. Muitas vezes, tira dinheiro do próprio bolso para me ajudar a ajudar o próximo”.

Futuro
No dia 23 de dezembro é a formatura da segunda turma de profissionais de beleza da Dora, a primeira em parceria com o Sesc. “Em 2010, formei a primeira turma graças ao apoio do Vicariato Agostiniano. É muito gratificante ver uma menina trocar um revólver e uma AR-15 por um pincel de maquiagem”, afirma com lágrimas nos olhos.

Hoje, o grande sonho de Dora é conseguir separar salão, ONG e vida pessoal. “Quero fazer o Dora Cabeleireiros funcionar como uma empresa, pois, só assim terei dinheiro para financiar a ONG. Além disso, preciso institucionalizar a associação”. Depois de organizar tudo, Dora quer ter mais tempo para cuidar da mãe, dona Edith. “Ela é minha musa inspiradora e merece todo o meu amor e cuidado, principalmente agora que está com 82 anos e com mal de Alzheimer”.

Conheça
A ONG Meninas de Dora fica na rua José Santiago da Silva, 144, no Maria Goretti. Contatos pelo telefone (31) 3022-0047 ou pelo e-mail meninasdedora@gmail.com. Já o Dora Cabeleireiros fica na avenida Amazonas, 1.049, Shopping São Vicente, loja 58. Telefone: (31) 3212-8487 e 3226-4680.
FOTO: PAULA SANTOS
Com o salão, Dora consegue o dinheiro para financiar suas ações sociais
Esperança para quem precisa

O trabalho de Dora vai além do bairro Maria Goretti. Onde existe alguém em situação de alto risco social, ela está. A cabeleireira realiza trabalhos em presídios, centros socioeducativos de internação para adolescentes, escolas públicas, quilombos, creches, comunidades negras, instituições que acolhem mulheres vítimas de violência, pastoral de rua. Os artistas em início de carreira, que muitas vezes não possuem recursos para se produzirem esteticamente, também são beneficiados pelo trabalho de Dora.

Muitas pessoas atendidas foram levadas para morar com Dora na casa dela devido a situação de risco em que se encontravam. “Acolho com muito carinho e respeito, como parte da minha família. E meu marido aceita e me apoia”.

Atualmente, a cabeleireira realiza um trabalho no Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto. Dora está profissionalizando 15 detentas, ministrando aulas duas vezes por semana. Só no presídio, são mais de 400 mulheres que pedem o apoio dela para que, ao saírem da cadeia, tenham uma forma de se sustentarem dignamente.

No Dia do Servidor Público, Dora propôs que as detentas produzissem as agentes penitenciárias. “No início, elas tiveram um pouco de resistência, mas, o resultado foi maravilhoso”. É com um sorriso de contentamento nos lábios que ela afirma que fez uma rebelião diferente. (PS)

Veja Vídeos de Dora:

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