A luta continua


Jovens artistas de BH buscam novas formas de atuação e apoiam causas sociais, mas avisam: não se encaixam no conceito de arte engajada. Ocupação é a palavra de ordem.
Por: Carolina Braga

“Esta palavra é complicada de falar nos dias atuais”, avisa o ator Carlos Henrique, do Grupo Trama. “É um termo datado, está conectado à canção de protesto dos anos 60 e 70”, concorda o músico Luiz Gabriel Lopes, da banda Graveola e o Lixo Polifônico. “É a atitude de querer fazer algo, modificar, propor”, define Léo Cesário, integrante do coletivo Família de Rua, organizador do Duelo de MCs, o evento de hip-hop mais importante da capital mineira. O tema em questão é a arte engajada. Apesar de desgastado, esse conceito vigora – repaginado – na cena cultural de BH.

Grupo reconhecido muda sua sede, dentro dos limites da Avenida do Contorno, para o Bairro Fonte Boa. Motivo: quer levar o teatro à comunidade de Contagem. Não estaria aí um exemplo de arte engajada? O que dizer do show de lançamento de um CD da banda independente no meio da comunidade Dandara, ameaçada de despejo? Grupo de rappers consegue reunir 800 pessoas debaixo de um viaduto, todas as semanas, faça chuva ou sol.

Por mais que a força do capitalismo e da cultura do entretenimento levem a crer que engajamento é coisa do passado, da era dos festivais e dos happenings nos anos de chumbo, o jovem artista do século 21 encontrou formas diferenciadas não apenas de se posicionar politicamente, mas também de ocupar. Resumindo: “engajamento” virou “ocupação”?

“Não sei dar um nome. Acho que é muito mais questão de não se omitir, de não se furtar a algo do cotidiano. É uma arte sensível às questões políticas, do mundo real”, diz o cantor e compositor Luiz Gabriel. Ele e o Graveola fizeram questão de lançar o novo disco com show para os sem-teto. É justamente nessa postura que está a força do rap. “Seja no grafite, na dança ou na música, os artistas do hip-hop estão sempre reivindicando, questionando. Dizemos algo para provocar a reflexão nas pessoas. Querendo ou não, a gente tem que ser engajado”, comenta Pedro Amorim, integrante da Família de Rua.

Desde 2007, às sextas-feiras, Pedro e os amigos do coletivo organizam o Duelo de MCs debaixo do Viaduto de Santa Tereza. O encontro, que chegou a reunir até 1 mil pessoas, surgiu despretensiosamente. “A gente queria mesmo era se divertir. Mas, a partir daí veio a necessidade de se engajar para que a diversão funcionasse”, confessa Léo Cesário.

Por causa da temporada de chuvas, depois de quatro meses se reunindo nas imediações da Praça da Estação, o grupo se abrigou debaixo do viaduto. A área deteriorada do Centro da capital se transformou em frequentado espaço cultural: o público aderiu e a ocupação acabou inspirando artistas de outras áreas. “O duelo foi a faísca para o surgimento de um novo pensamento para BH. A força coletiva é muito maior do que o individual. Conseguimos agregar pessoas, ampliar os relacionamentos e formar redes que realmente mudam alguma coisa”, afirma Cesário.

“O cenário já é outro. Hoje, as pessoas conseguem enxergar a legitimidade do que a gente faz. A atuação do Duelo, todo o movimento de crítica, o lance das ocupações, tudo isso faz parte do contexto que estamos vivendo. Muitos jovens da cidade têm se preocupado em pensar as questões conjuntamente”, completa Amorim.

Têm mesmo. É praticamente impossível conversar com Luiz Gabriel Lopes, do Graveola, sem que temas políticos ou as formas modernas de engajamento surjam no meio do bate-papo. Mas com um detalhe: Graveola e o Lixo Polifônico não faz música panfletária.

“Não é que, para se engajar, as temáticas devam girar em torno de um determinado naipe de assuntos, que seriam mais nobres que outros. Isso vale para o filme, a canção de amor, a comédia – tudo que não trata diretamente de questões políticas. É o artista para além da arte dele. Você vê muita coisa supostamente engajada que pode não ter relevância. Por isso, chamaria de uma postura mais sensível, com as questões do mundo”, observa Luiz.

Além de lançar Preciso de um liquidificador na comunidade Dandara, a banda está diretamente ligada à articulação de movimentos como Praia da Estação, que obrigou o governo a repensar critérios para eventos artísticos em vias públicas de BH, e até mesmo à recuperação do carnaval de blocos na capital.

Fora do eixo O engajamento do Grupo Trama vem justamente do fato de a trupe estar fora do eixo. “Hoje, nos preocupamos com o pertencimento, com o reconhecimento das raízes, com o passado. E em trabalhar o futuro”, diz o ator Carlos Henrique. Há um ano, a companhia decidiu abandonar a sede que funcionou por 10 anos no Bairro Floresta e se mudar para Contagem.

No começo, os artistas foram recebidos com certa desconfiança no Bairro Fonte Grande. Mas isso durou pouco. Além de espetáculos próprios e de convidados, oficinas de iniciação teatral e de bonecos são promovidas lá. “As pessoas entram e perguntam: que dia vai ter mais teatro? Estamos até com dificuldade de manter a programação”, comemora Carlos.

Para o Trama, interessa mais o conceito de pertencimento. “A ideia é estar fora da cultura comercial imposta. Procuramos trabalhar o local e nos perguntamos: por que estamos fazendo teatro aqui, para essas pessoas?”, completa. Depois do primeiro ano em Contagem, o Trama planeja para 2012 o evento Do local, se mostra. Artistas da comunidade vão se apresentar no espaço. “Quando saímos da Contorno, vimos como é diferente estar em ponto tido como nobre e aqui. Precisamos de outro olhar. Aqui, fazemos uma coisa que muita gente nunca viu de perto”, conta.

Léo Cesário debaixo do Viaduto de Santa Tereza: Duelo de MCs conquistou legitimidade (Túlio Santos/EM/D.A Press)
Léo Cesário debaixo do Viaduto de Santa Tereza: Duelo de MCs conquistou legitimidade

MEMÓRIA

Arte engajada

A história da arte sempre foi marcada por pessoas que fizeram de sua criação mais que simples produto cultural. No Brasil, as décadas de 1960 e 1970 assistiram ao engajamento na música, no teatro, no cinema e nas artes plásticas. Questionava-se o modelo social, econômico e político em vigor no Brasil, sobretudo a desigualdade social e, depois de 1964, a ditadura militar. Nos palcos, montagens como O rei da vela e Roda viva questionavam o sistema. Na MPB, festivais amplificaram canções protesto, como Pra não dizer que não falei das flores. Nas telas, o Cinema Novo propunha outros paradigmas para a estética e para a vida social.
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