O que é pecado


Série questiona a noção de pecado sob o ponto de vista de diversas religiões.
O que é pecado para um umbandista
Na umbanda há 16 anos, o filósofo e professor Thiago Luiz Ferreira Miranda, de 30, encontrou nos cantos da capoeira o início da sua trajetória na religião afrobrasileira. “Comecei a buscar, pesquisar e estudar muito”, lembra. Thiago desenvolveu sua mediunidade e, há quatro anos, é pai pequeno — um estágio anterior ao pai de santo — no Centro Espírita São Sebastião, que pratica a umbanda tradicional, mais próxima ao espiritismo, e foi o primeiro centro a ser registrado em Belo Horizonte, em 1933.

Thiago é cuidadoso ao falar de pecado na sua religião. Por ser uma doutrina descentralizada, que não tem uma figura cuja palavra seja a final, ele explica que há várias formas de percepção e pontos de vista em relação ao pecado. “Esta é minha opinião, não um discurso consensual da religião. A umbanda não trabalha a noção de pecado, de crime contra um dogma”, diz.

Segundo o filósofo, a ideia de pecado, “de Deus moral me olhando o tempo inteiro”, começou a perder peso em sua vida quando tomou conhecimento da multiplicidade de culturas e linhas de pensamentos e questionou alguns conceitos religiosos como forma de imposição política e cultural. “Essas coisas machucaram minha cabeça durante muito tempo. Em alguns momentos ainda penso: ‘Será que estou pecando?’. Hoje me dói menos, mas o processo é difícil, doloroso”, confessa.
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O que é pecado para um judeu
“Na minha prédica, gosto de trocar as palavras. Em vez de dizer ‘você pecou’, digo ‘você aprontou’”. A afirmativa de José Luiz Goldfarb adianta a leveza e o bom-humor que são sua marca, ao tratar as questões da vida – incluindo as religiosas. “Se alguém pensa diferente de mim, não sei se é pior ou melhor do que eu. É só diferente”, costuma dizer.

Físico formado pela USP, com especialização em história da ciência e professor dessa disciplina na PUC-SP, ele se acostumou durante anos a confrontar a ciência, questionando a ideia de verdades absolutas, porque elas podem mudar, de época para época, de pessoa para pessoa”. E é com visão igualmente liberal que encara o judaísmo. Sócio do clube Hebraica, de São Paulo, desde sempre, há 18 anos passou a ser diretor geral de cultura da instituição, onde também lidera o serviço religioso semanal e atende à comunidade em todo o ciclo da vida, do nascimento à morte, apesar de não ser rabino.

Em relação a quem apronta, Zé — como se refere a si mesmo — explica que, de acordo com a visão judaica, há consequências sérias. A pessoa se dará mal, mas não pelo sistema causa e efeito, do tipo “Deus vai fazer você pagar”. “Para mim, a vida é que vai fazer isso, se alguém balançou a água, vai ter uma região turbulenta”, ensina, completando: “Da hora em que alguém escova os dentes, de manhã, até escovar de novo, à noite, tudo o que faz implica sua vida”.

Apaixonado por livros, fundador de bibliotecas pelo Estado de São Paulo e curador do Prêmio Jabuti desde 1991, é para a Torah que José Luiz se volta espiritualmente. Apesar dos 613 mandamentos, entre positivos e negativos listados nos cinco livros de Moisés, ele escolheu não colocar o pecado no foco de seus estudos do texto sagrado ou de suas preleções. Mais do que temer e obedecer, a máxima de José Luiz é refletir, antes de obedecer. “Liberdade aliada à compreensão gera uma vida legal”, resume.
Por: Sabrina Abreu – Ragga
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O que é pecado para um budista

Psicólogo de formação, o paulista Kelsang Odro, aos 24 anos, decidiu abandonar tudo para se tornar um mestre budista. Hoje, aos 37, é o diretor espiritual nacional da Nova Tradição Kadampa (NTK), uma das vertentes da doutrina no Brasil. Odro tornou-se monge na Inglaterra, há sete anos. De lá para cá, segue à risca os preceitos de Buda, tentando se livrar do materialismo, do desejo, da luxúria e da ambição, sentimentos que seriam responsáveis pela dor da humanidade. Segundo ele, vem conseguindo. A única coisa de que ainda não se livrou foi da ajuda de custo de R$ 290, por mês, da NKT. “Tenho que comprar desodorante e creme dental”, lembra o monge, ainda contaminado pelo modo ocidental de viver. Mas o mestre Gen Odro, como gosta de ser chamado, não vê pecado nisso. Aliás, a palavra pecado no budismo não existe.

“Pelo menos com o cunho cristão”, lembra Odro. Segundo o mestre, a filosofia budista prega o fim do apego, do ódio e da ignorância. E isso só é possível ao se aceitar a imperfeição, a transitoriedade e a interdependência entre tudo e todos no universo, o que seria um pecado mortal para muita gente espalhada por aí. “Tudo está ligado. O que causa dor no outro pode ser analisado como pecado, apesar de a palavra não existir na sua concepção cristã”, reforça. Por isso, um dos princípios fundamentais do budismo é o desenvolvimento de uma atitude de compaixão ou benevolência. “O importante é a busca pela paz interior, mesmo que isso signifique abrir mão dos nossos desejos materiais”, recomenda.
Por:Alex Capella

O que é pecado para um mulçumano

No árabe, a palavra similar à “pecado” é “haram”. “Traduzindo para o português, haram significa o que é ilícito, proibido”, explica xeique Armando Hussein Salleh, filho de libaneses e membro do Conselho Superior da Mesquita Brasil, a mais antiga da América Latina, localizada em São Paulo. Para ele, o conceito do que é pecar, segundo a visão islâmica, está sempre na ponta da língua: “Não se pode fazer nada daquilo que o profeta, sendo inspirado por Deus, alertou que evitássemos”, sentencia.

Para um muçulmano, Alá é o único Deus e Maomé seu (último) profeta. Essas palavras são sempre repetidas e podem ser facilmente encontradas em mesquitas ou em países que seguem majoritariamente a fé islâmica, pintadas em muros, nas ruas.

Foi o Profeta Mouhamed, como é conhecido no idioma original, o responsável por revelar a definitiva vontade divina aos homens. “Nada pode mudar o que foi escrito”, afirma. Pode ocorrer, no entanto, de o cumprimento de uma lei se tornar muito difícil nos dias atuais e, por isso, prescrever.

“A pena por apedrejamento imputada a uma adúltera é legítima, de acordo com o Corão. Mas é preciso que três testemunhas vejam o ato ocorrendo. A punição acabou por ser banida, pela dificuldade de comprová-la”, pontua o xeique, que se esforça para cumprir todos os mandamentos, por exemplo, rezando cinco vezes por dia, todos os dias, ajoelhado na direção da sagrada cidade de Meca.
Por: Sabrina Abreu – Ragga
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O que é pecado para uma hinduísta
Cercada por símbolos e representações religiosas na sua loja, na Savassi, a empresária e professora de ioga Silvana Gomes não precisou ler o bemsucedido romance Comer, rezar, amar, da jornalista Elizabeth Gilbert, para acreditar na reencarnação do espírito, base do hinduísmo. Mesmo sem ser uma hinduísta fervorosa, Silvana pratica ioga há sete anos, caminho necessário para todo hindu que deseja atingir o nirvana, ou seja, o paraíso.

Tanto exercício e concentração fizeram dela professora na busca pelo contato com o divino. “Tive contato com a ioga na minha adolescência e transformei isso na minha vida”, diz. No complexo conjunto de doutrinas que surgiu na Índia há cerca de quatro mil anos, o pecado se dá no desrespeito às leis sagradas, que são milhares, assim como os deuses. No entanto, pode ser simplificado nas ações boas e ruins, que determinarão como o hindu virá na próxima reencarnação.

Na visão hinduísta, a vida é um eterno retorno. Por isso, os hindus não veem os problemas da existência como castigo ou pecado, mas como uma chance de a alma amadurecer, para se chegar à iluminação. De modo que as várias facetas existenciais são tidas como transitórias. “A vida hoje é o futuro do passado”, filosofa Silvana. Na busca pelo eterno amadurecimento espiritual, a empresária, em sintonia com o hinduísmo, prefere acreditar na máxima de que quem faz o bem, receberá o bem. “Isso deveria estar presente em todas as religiões. É uma questão de comportamento”, acredita.

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