FLÁVIO RENEGADO, RAPPER » Cidadão do mundo


Cria do Alto Vera Cruz, Flávio Renegado se apaixona por Londres e quer cantar em inglês.
Rap é a espinha dorsal de tudo o que faço. Esse disco tem mais canção, é mais livre. Estou cantando mais. É black music e é rap. Acima de tudo, quis misturar rap com MPB. Agora, se é rap ou não, cada um que ouça e decida. O que me importa é a música tocar as pessoas”

Flávio Renegado já havia descido o morro antes. Com seu disco de estreia, Do Oiapoque a Nova York (2008), conquistou elogios de todos os lados – mais que virar notícia fora de Belo Horizonte, onde nasceu, tornou-se revelação do rap nacional. Agora, tendo nas mãos o segundo CD, Minha tribo é o mundo, a diferença é que ele deu uma “voltinha” pelo mundo antes de escrever o punhado de boas canções que recheiam o novo trabalho, com produção assinada por Plínio Profeta. O show de lançamento será sábado que vem, no Music Hall, na capital mineira.

Para quem estranha o novo nome artístico, com o Flávio na frente, ele explica: “Renegado era uma forma de me proteger. Depois de Do Oiapoque a Nova York, conheci o mundo e estou me incluindo nele. Sinto que posso ser mais Flávio”, confessa. Aos 28 anos, conta que vendeu 7 mil cópias do álbum de estreia – produção independente, como o atual – e se anima ao falar das experiências em Cuba, França, Inglaterra, Espanha e Austrália, países onde fez turnês recentemente. Sem falar das dezenas de cidades brasileiras que andou visitando nos últimos anos.

“Conhecer o Velho Mundo foi surreal para mim. Fiquei em êxtase. Apaixonei-me por Londres, lá comecei a ouvir mais rock e a prestar mais atenção ao que rola nessa cena. Em Madri, vi de onde vem a nossa vibe latina”, conta. Na volta para casa, a constatação inevitável: apesar de “arranhar” um pouquinho de espanhol, precisa aprender inglês urgentemente. “Acima de tudo, sou um comunicador”, explica. Não por acaso, tem pensado em começar a escrever letras em inglês. “Minha meta é o mundo inteiro. Quero conquistar cada coração, ser multicultural e falar a língua do planeta. Não posso mudá-lo, mas pelo menos ajudar parte dele”, afirma.

Casa Mesmo com esse objetivo planetário e nada modesto, Flávio não pensa em deixar para trás a comunidade do Alto Vera Cruz, onde nasceu e cresceu. Mora lá até hoje com a mãe, Regina, e os irmãos Marco Antônio e Daniele. “Aprendi tudo no Alto. Lá, nasci sem maldade e aprendi a tê-la. Foi o que me deu base para conhecer o mundo. É o lugar dos meus amores, onde me fiz homem”, resume. Um de seus sonhos é comprar uma casa para a mãe, mas pouco importa se ela ficará naquela comunidade. “Sempre serei filho do Alto, tenho cada vez mais amigos aqui. Não temo ganhar dinheiro, fazer sucesso ou sair do morro. Tenho valores. Vivo o Alto. Eu sou o Alto”, completa.

Foi lá, quando Flávio tinha 13 anos, que começou a história dele com o rap. Dois anos depois, criou com outros músicos o grupo Negros da Unidade Consciente (NUC), que ganhou visibilidade ao participar da coletânea Funk Minas, lançada em 1998. Seguiram-se shows (inclusive em outros estados), a divulgação do trabalho em rádios, participação em mais projetos e, consequentemente, a ampliação da militância no Alto Vera Cruz. “Hoje, o NUC é uma ONG. Com a necessidade de cantar, apostei no trabalho solo em 2006”, lembra. Apesar de não ser mais o presidente da entidade, está sempre por perto dos companheiros.

Língua Até então acostumado a mostrar sua música principalmente dentro da comunidade, depois de Do Oiapoque a Nova York Flávio Renegado viu seu trabalho tomar outra dimensão. Passou a cantar para pessoas de várias idades e classes sociais. “Tenho ideia de quem seja meu público, mas ele vai mudando. Se toco à tarde no parque, vai criança, velho, playboy, jovem, favela. Numa boate, é só jovem”, exemplifica. Para se ter uma ideia dessa diversidade, um adolescente disse a ele que o conheceu por meio da indicação do pai, fã de seu disco.

Por isso, no segundo álbum Renegado buscou a simplicidade nas letras. “Oiapoque foi feito em São Paulo e Minha tribo é o mundo no Rio de Janeiro. O primeiro é mais centrado, papo reto, enquanto esse é mais alegre e dançante. Quis chegar às pessoas e fazer com que o disco fique no dia a dia delas. Um diálogo mais franco e aberto. Aquela coisa de pensar ‘Pô, isso acontece comigo também’. Ser simples é sempre mais difícil. Conversar com um moleque no morro sobre gíria nova já é mote para mim. Quando se pega o que está no ar, a coisa chega mais natural”.

Depois de tocar com Toninho Horta, Lenine, Aline Calixto e Fernando Catatau, Flávio quis dar ênfase à parte instrumental do segundo álbum. Para isso chamou grandes músicos, como o baixista Arthur Maia, o percussionista Marcos Suzano, o violonista Edu Krieger e o tecladista Humberto Barros. Da cena local, pinçou o baterista Laércio Vilar, o baixista Aloísio Horta e os violonistas Gustavo Maguá (com quem escreveu A massa quer dançar) e Thiago Delegado entre outros. “Vou mostrar que o rap também pode ser música sofisticada”, avisa.

Sendo assim, mesmo com tantas mudanças, ele continuar rapper? “Rap é a espinha dorsal de tudo o que faço. Esse disco tem mais canção, é mais livre. Estou cantando mais. É black music e é rap. Acima de tudo, quis misturar rap com MPB. Agora, se é rap ou não, cada um que ouça e decida. O que me importa é a música tocar as pessoas”, conclui.
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