Destrinchando: Contra a ditadura imposta ao duelo de MC’s


Uma das maiores manifestações culturais de BH está ameaçada devido ao abuso de poder de setores públicos.

Abuso de autoridade e poder. Não poderia deixar de mostrar minha indignação com uma ação truculenta feita pela Polícia Militar no mês passado. Vou iniciar este texto falando sobre partes do Art. 5º da Constituição da República: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”.

Não caberia aqui todo o artigo, mas cito alguns incisos para deixar bem claro do que vamos falar: “III ninguém será submetido à tortura nem a tratamento desumano ou degradante”; “IV — é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato”; “IX — é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença”; “XVI — todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente”.

É do conhecimento de quase todos os jovens da província belo- horizontina que, desde 2007, temos, às sextas-feiras, debaixo do Viaduto de Santa Tereza, o Duelo de MC’s, criado pelo coletivo Família de Rua e eleito uma das maiores manifestações da cultura hip hop nacional, conhecido por grupos culturais, imprensa, empresas patrocinadoras, entidades governamentais e não governamentais.

Para falar de hip hop, voltemos um pouco à história. O DJ americano Kevin Donovan, mais conhecido como Afrika Bambaataa, é reconhecido como fundador oficial do movimento, que floresceu nos bairros negros nova iorquinos na década de 1970. Nascido em 1957 e criado no Bronx, Bambaataa também é líder da ONG Zulu Nation, que tem como missão espalhar o verdadeiro espírito do hip hop.

O Duelo de MC’s tem alvará de funcionamento e, desde sua primeira exibição, os organizadores vêm pedindo ao poder público da cidade melhorias relacionadas à estrutura e segurança do local, como banheiros químicos e melhoria da iluminação. Segundo eles, nunca foram acatados os seus inúmeros pedidos.

Em uma das últimas reuniões do coletivo com representantes da Regional Centro-Sul da PBH e da Polícia Militar, foi solicitada por ambos os órgãos a transferência do local, sob alegação de que o espaço não comporta mais o público. Os responsáveis pelo evento não acataram, pois os motivos apresentados não haviam sido colocados em pauta antes, muito menos os seus pedidos atendidos.

No dia 2 de setembro, a Polícia Militar chegou ao local com o Juizado de Infância e Adolescência e uma emissora de TV prontos para o sensacionalismo. Afinal, o que eles não fazem por uns pontinhos a mais no Ibope? Foi fechado por 40 minutos todo o entorno do local e, além disso, a PM mandou abaixar o som, usando e abusando da autoridade. Prenderam alguns jovens e menores de idade que portavam drogas e bebidas alcoólicas e, debaixo de muita repressão e falta de diálogo, deixaram indignados os que ali sempre frequentam para assistir um evento pacífico de cultura e arte.

A pergunta é a seguinte: essa é a melhor forma de combate às drogas? Onde não tem droga neste país? Ela está nas ruas, na Zona Sul, nas próprias corporações que fazem a apreensão. O assunto é polêmico e, como tal, tem que ser discutido e não imposto. Geralmente, além de artistas, poetas e simpatizantes, o Duelo é frequentado por pessoas que não têm condição e não querem pagar por eventos fechados, que vêm de escolas públicas em sua maioria, que também pagam impostos e sofrem com a má qualidade da educação. Vou ficando por aqui, lembrando que todos têm o direito de se expressar, este é o meu. Assim como todos têm o direto de resposta. Está em aberto.
Por: Lucas Machado – Ragga
Vejam a PM Agindo:

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