Jovens do Iraque criam sua própria versão da cultura americana


Influenciados pelos EUA, iraquianos usam hip hop e dança para expressar insatisfação em sociedade com pouca liberdade individual
Com uma camiseta do New York Yankees, jeans bordados com as iniciais “USA” e sua saudação casual “what’s up” (“e aí?”, em tradução livre), o iraquiano Ali Jabbar, um rapper e aluno do curso de estudos islâmicos, parece um estrangeiro em sua própria cultura.

“Tenho um sonho: viajar para Nova York”, disse ele, em Bagdá, no Iraque. “Não sei o motivo, mas sinto uma ligação com a cidade.”

Para dois países que passaram tanto tempo juntos, os traços de um impacto cultural dos EUA no Iraque são fracos e devem diminuir cada vez mais após a retirada militar. Não há arcos dourados do McDonald’s, Dunkin’ Donuts ou Starbucks – embora um café recém-inaugurado tenha sido batizado de Facebook Coffee –, mas há uma cena hip hop.

Uma sala de recreação abafada, que já foi sede de uma milícia local, serve como clube e ponto de encontro para Jabbar e seus amigos, que aprimoram suas rimas e passos de dança. As paredes foram rabiscadas com pichações e adornadas com cartazes de Avril Lavigne e Bruce Lee.

O Iraque ainda pode ser um lugar definido pelo Islã, pela violência sectária e pela política corrupta, mas neste clube e em encontros maiores entre rappers e dançarinos em parques de Bagdá, notam-se gestos de desafio a uma ordem social com pouco espaço para a expressão individual, especialmente a que envolve costumes ocidentais.

“Vivemos em uma sociedade tribal muito religiosa e isso é contra as tradições islâmicas”, disse Adel Aksan Habeb, 28, usando uma camisa do Los Angeles Lakers. “O que estamos tentando mostrar ao mundo é que há algo de belo no Iraque”

Suas canções de rap são expressões de desencanto, de raiva juvenil em uma sociedade em que aparentemente não há lugar para as suas aspirações, além de uma tristeza a respeito do que aconteceu com seu país – os mesmos temas de alienação que animam o hip hop em qualquer lugar.

A tradução da letra de uma música diz: “Não está nas nossas mãos viver em paz em nossas terras; todas as noites eu rezo para o Senhor curar as feridas dos iraquianos, e tornar mais felizes os dias sombrios.”

Eles cantam rap em árabe e em inglês, abraçam a cultura americana, mas não necessariamente a guerra, e não veem razão para negar sua identidade islâmica, apesar de seus líderes e vizinhos os acusarem de ser apóstatas.

“Sou muçulmano e não preciso rejeitar isso”, disse Jabbar, 20, que ainda tem dois anos para cursar na Universidade Islâmica Sadr, uma universidade local.

“Misturamos música ocidental e assuntos islâmicos, música árabe e hip hop”, disse Habeb, cujo apelido é Predator. Outro rapper foi apelidado de Americano porque, segundo seus amigos, ele parece americano e usa roupas americanas. Ele já foi baleado por vestir shorts, um tabu cultural no Iraque.

O grupo encontra certo consolo no hip hop e na dança, e colocam em suas letras uma tristeza comovente sobre o que seu país se tornou.

“Minha ideia de democracia é que cada um tenha o direito de fazer o que quer fazer, sem prejudicar ninguém”, disse Abdul Jabbar, 29 anos. “A principal ameaça são os partidos e milícias islâmicos”, disse ele, acrescentando que a maioria dos líderes do Iraque “acha que a democracia é impor aos outros o que eles acreditam.”

Milhões de americanos passaram algum tempo no Iraque ao longo dos últimos oito anos, incluindo soldados, diplomatas e empreiteiros. Mas uma simbiose cultural, que começou cedo, quando os militares se misturavam livremente com os moradores nas ruas e em casas de chá, foi extinta quando a insurgência colocou os americanos atrás de muros altos e dentro de veículos blindados.

Naquela época, esses jovens pararam de se reunir, dançar e cantar. “Não podíamos nem mesmo sair de casa”, disse Ali Jabbar.

Ele é de Sadr City, bairro pobre xiita que é um bastião de apoio a Muqtada al-Sadr, o clérigo antiamericano. Ele afirma – sem dúvida com precisão – ser “o único rapper de Sadr City”.

Al-Sadr, que se comunica com seus seguidores respondendo perguntas online, foi recentemente questionado por um rapper de 17 anos de idade chamado Omar se o Islã permitia a sua paixão. Al-Sadr respondeu “é proibido”, e aconselhou o jovem a se arrepender, parar a gravação de canções de rap e “pedir perdão a Deus.”

Kanye West canta sobre dificuldades da vida, mas ele cresceu em circunstâncias confortáveis como filho de um fotojornalista e uma acadêmica. Aqui, não há nenhuma reivindicação de falsa credibilidade de rua.

Abdul Jabbar foi sequestrado em 2004, pego em seu clube por insurgentes. Ele foi torturado e tem as cicatrizes para provar isso – tudo por conta de sua paixão pela cultura americana.

“Eles me disseram: ‘Por que você está fazendo isso?'”, lembrou. “‘É proibido’. E continuaram a me bater.”

Agora é mais seguro fazer o que fazem, mas não totalmente. “Tenho certeza de que algo ruim vai acontecer comigo”, disse Jabbar, antes de acrescentar um refrão desafiador comum entre os iraquianos acostumados com o tormento. “Não tenho medo.”

Por Tim Arango e Yasser Ghazi
The New York Times
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