Bandidos de farda


Não apenas no Rio, mas em várias, senão em quase todas as unidades federativas do país, o combate ao crime passa necessariamente pela limpeza nas forças policiais.
Também urge promover a qualificação dos quadros, de modo a pôr fim à cultura da violência.
E se a promiscuidade campeia é porque o Estado faz vista grossa.

A prisão do tenente-coronel Cláudio Luiz Oliveira, que chegou a comandar dois batalhões da PM na região metropolitana da capital fluminense, revela as duas faces da moeda. De um lado, não surpreende a proximidade de membro da alta hierarquia da Polícia Militar com a bandidagem. De outro, acende uma luz no fim do túnel a ação imediata do governo do Rio de Janeiro, cujo resultado na área de segurança pública, apesar de previsíveis percalços, tem se mostrado animador.

Sem titubear, o aparato estatal agiu na medida exata da gravidade do caso ao pôr atrás das grades oficial formado pelo Bope (tropa de elite de festejada eficiência), com 26 anos de corporação, diante da existência de fortes evidências do envolvimento dele com a execução da juíza Patrícia Acioli, em Niterói, na madrugada de 12 de agosto. Na sequência, o comandante-geral da PM, coronel Mário Sérgio Duarte, se demitiu, apenas por ter sido ele quem havia levado o tenente-coronel para dirigir um batalhão. Agora o sucessor de Duarte promete uma corregedoria pró-ativa. Que funcione na medida, para expurgar de vez a banda podre.

Não apenas no Rio, mas em várias, senão em quase todas as unidades federativas do país, o combate ao crime passa necessariamente pela limpeza nas forças policiais. Cinco meses antes do assassinato da juíza, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cezar Peluso, já alertava, de forma categórica, em seminário sobre segurança pública, em São Paulo, ser crônica a corrupção na polícia brasileira. Uma faxina ética é, pois, imprescindível. Mas não só. Também urge promover a qualificação dos quadros, de modo a pôr fim à cultura da violência. Registros de espancamentos, torturas, elevados índices de mortes em supostos confrontos e a disseminação da formação de milícias nivelam o combate à criminalidade à atuação dos próprios bandidos. E se a promiscuidade campeia é porque o Estado faz vista grossa.

Em abril, o Itamaraty preferiu desqualificar relatório sobre direitos humanos divulgado pelo Departamento de Estado dos EUA que denunciava a violência policial e a impunidade no país. Na contabilidade do documento, a polícia do Rio (incluindo a Civil) matou, no ano passado, “mais de 500 pessoas em atos de resistência, frequentemente sem suficiente ou independente de investigação”. Na verdade, as mortes nessas circunstâncias teriam sido superiores a 800. Com essa realidade não se pode tergiversar. Sem dúvida, o relaxamento com questão tão grave foi que levou ao cúmulo de militares afrontarem o Judiciário a ponto de matarem uma juíza.

Até na escolha do nome, Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o governo fluminense foi feliz na definição de política de segurança destinada a devolver a cidadania a moradores de favelas tomadas pelo tráfico. É preciso firmeza para levar o processo adiante, sem deixá-lo cair na descrença. E as investigações não podem ficar exclusivamente a cargo das corregedorias, sujeitas ao corporativismo. Toda suspeita deve ser tratada com o máximo rigor, e a preparação dos policiais tem de ser conduzida com mais eficácia.
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