Em mãos erradas


Pesquisas do americano David Nichols, que se dedica há 40 anos ao estudo de substâncias psicoativas para o desenvolvimento de medicamentos, são desviadas para a produção de drogas high tech

Certo dia, um amigo do cientista norte-americano David Nichols enviou-lhe um artigo do Wall Street Journal sobre um ‘empresário’ europeu dono de um laboratório especializado em garimpar a literatura científica em busca de produtos para serem oferecidos no agitado mercado das drogas. Sempre à cata de novidades para esse tipo de comércio, ele procura estar um passo à frente das agências de controle dos psicofármacos. Quando detectada, investigada e proibida, sua mercadoria é retirada de circulação, o que o leva a estar sempre à procura de novos lançamentos.

Assim sendo, ninguém pode acusá-lo de ter feito algo ilegal. Mas nem tudo que é legal é moral, sabemos todos. Não há anjos nesse comércio. Tanto o empresário quanto quem compra seus produtos, que são substâncias psicoativas. Drogas high tech, ‘baratos legais’ que saltam da bancada dos laboratórios de pesquisa para as ruas e festas rave.

Antes de uma substância sintetizada em laboratório se tornar suficientemente conhecida para ser julgada perigosa e ilegal, ela pode ser posta em circulação por pessoas inescrupulosas, que não se preocupam com o bem-estar da freguesia.

Essas drogas costumam ser oferecidas como inocentes chás, suplementos dietéticos, artigos veterinários ou agrícolas, sais de banho. O céu é o limite para a imaginação de quem as comercializa. Os usuários conhecem as manhas, a novidade se espalha rapidamente e todos querem conhecer o novo brinquedinho, alheios a qualquer preocupação com os riscos que essas substâncias podem representar.

Nos laboratórios de química medicinal e farmacologia molecular da Universidade Purdue, em Indiana, nos Estados Unidos, o professor David Nichols se dedica ao estudo de drogas psicodélicas há 40 anos. Ele se interessou por elas pelo fato de descortinarem um campo promissor para o desenvolvimento de importantes medicamentos. O pesquisador vem sintetizando e estudando substâncias designadas para aliviar ou curar os sintomas da doença de Parkinson, bem como os problemas de memória e cognição comuns na esquizofrenia. Nichols também pesquisa o LSD (dietilamida do ácido lisérgico, produto feito em laboratório e que provoca alterações mentais) e a mescalina (substância alucinógena extraída de um cacto) – e foi nessa linha de estudo que publicou artigos sobre muitas moléculas que provavelmente teriam propriedades psicoativas mas não chegaram a ser testadas em seres humanos. Muitas dessas substâncias foram parar nas ruas, oferecidas como “baratos legais”.

“Há mais de 10 anos, tomei conhecimento de que havia químicos amadores e laboratórios clandestinos de olho nas minhas publicações. Em 1982, estávamos pesquisando a 3,4-metilenodioximetanfetamina, muito antes de ela se tornar muito conhecida em todo o mundo como MDMA ou ecstasy. Queríamos descobrir como ela atuava no cérebro, partindo da hipótese de que poderia ser um facilitador do processo psicoterápico”, explica.

Dentro desse enfoque, Nichols e sua equipe chegaram a estudar diversas moléculas de estruturas semelhantes. Uma delas era a MTA, que poderia inibir a enzima que metaboliza a serotonina no corpo. “Publicamos alguns artigos sobre o efeito da MTA em ratos, inclusive um que sugeria que a molécula demonstrava grande potencial para o tratamento da depressão, possivelmente superior a qualquer remédio disponível na época. Sem meu conhecimento, alguém começou a sintetizar a MTA, apelidando-a de ‘flatliner’. Algumas pessoas que a ingeriram morreram. Na época, fiquei muito abalado ao constatar que havia publicado informações que foram mal empregadas e levaram seres humanos à morte”, relata.

“Quem teve a capacidade de sintetizar a MTA também poderia e deveria se dar conta do perigo que ela representa. Não apenas provoca a liberação de serotonina, como impede sua metabolização, levando à perigosa síndrome serotoninérgica, que muitas vezes pode ser fatal. Mas quem oferece essas substâncias ao mercado incauto apenas visa ao lucro, não se preocupa com a saúde do usuário”, critica.

Não há como mudar o modo como publicamos nossos achados, mas em certa ocasião decidi não estudar ou publicar qualquer coisa sobre uma molécula que eu sabia ser muito tóxica. Tinha certeza de que algumas pessoas iriam morrer devido a ela.” Segundo o cientista, embora os pesquisadores não saibam ao certo aonde determinado estudo vai levá-los, é muito triste tomar conhecimento de que alguns resultados de trabalhos de tantos anos tiveram uso tão vil. “Esforcei-me ao longo de toda minha vida acadêmica para descobrir coisas que ajudassem as pessoas, pudessem curar doenças, aliviar sintomas, promover a saúde. Se meu trabalho é usado de forma negativa, isso me perturba”, pondera Nichols.

Ele conta que há mais de um ano passou a receber e-mails perguntando quais seriam os efeitos, nos seres humanos, de algumas substâncias estudadas em seu laboratório. “Recebo pedidos de amostras de drogas que alguns laboratórios forenses suspeitam ter aparecido no mercado negro, mas que são tão recentes que nem há padrões analíticos para reconhecê-las. As evidências de que esses ‘empresários’ continuam muito ativos estão mais fortes do que nunca”, revela.

“É claro que muitas moléculas que publicamos não são letais, pelo menos dentro de doses razoáveis. Mas em altas doses, ou misturadas a outras substâncias, sabe-se lá. Na verdade, não testamos sua segurança, porque esse não é o foco de nosso estudo. O que me amola é a irresponsabilidade dos laboratórios que jogam essas substâncias no mercado sem qualquer preocupação com sua segurança. A pouca informação que publicamos é usada de forma totalmente irresponsável. Essas drogas podem inclusive ter efeitos a longo prazo, dos quais ainda nem suspeitamos. Suponhamos que um desses ‘baratos legais’ populares nas pistas de dança e que parece ser bem inócuo tenha, a longo prazo, efeitos muito nocivos, e que aqueles que o usam desenvolvam algum problema hepático ou renal crônico e grave, que pode vir a ser fatal. Esse tipo de dúvida agora me atormenta”, diz.
Por: Cibele Ruas
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