É preciso enegrecer



A herança cultural racista permanece forte e se renovando. O racismo segue sua rota numa estrutura mais suave e amena, através de piadas e expressões que remetem à negação. Essas negações se utilizam de variadas linhas, desde simbólicas, subjetivas, até as mais objetivas e nítidas possíveis. Contudo, nossa capacidade de indignação é que não pode se adequar aos novos fluxos das expressões e linguagens racistas.

“Ser negro no Brasil é, com freqüência, ser objeto de um olhar enviesado. A chamada boa sociedade parece considerar que há um lugar predeterminado, lá em baixo, para os negros”. (Milton Santos)

A luta contra-hegemônica da esquerda deve combinar muitas táticas. A tática que citaremos trata da necessidade de lutar contra as ações do capitalismo que atacam a autoestima e afirmação da classe trabalhadora que, no caso do Brasil, possui um percentual maior de negras e negros. Labutadores que, por causa da lógica construída pelas elites, perseguem os símbolos, fetiches e formas eurocêntricos.
As crianças aprendem a dizer que o cabelo crespo é “ruim”. Sendo assim, o cabelo liso é o “bom”. Mas será que não seria o contrário, já que algumas pessoas acham que os cabelos crespos são até mais fortes? As bonecas brancas, loiras e ruivas invadem nossas casas, obviamente, seguindo o padrão racista dos “bebês bonitos”.

Essa é uma agressão sem tamanho, meninas são educadas para a maternidade e para desejar filhos com essa aparência.
Na religião, não é diferente. O candomblé não é respeitado como capital cultural popular. Não existem grandes produções cinematográficas que abordem e propaguem os deuses negros, nem como seres mitológicos. Voltando ao tema desta contribuição e associando-o à religião, vimos como são naturalizadas as expressões negativas que remetem aos negros. Ninguém é xingado assim: “Seu espírita!”, “Seu evangélico!”, “Seu mulçumano!”, nunca. Mas quem nunca ouviu alguém chamar outro, de forma pejorativa, de “macumbeiro”?

A ridicularização racial é vista como brincadeira, até quando citam algumas profissões. Pense, quando alguém chama outro de “lixeiro” ou brinca dizendo “você é minha empregada”, essas são ocupações de enorme predominância da população negra e há sempre execração quando se remetem a elas. Culturalmente, nos espaços onde há hegemonia da cultura negra, as maledicências sempre se reforçam.

Já as profissões tidas como de alto prestígio são aquelas onde há quase totalidade da população branca e onde há reforço da idéia de que são profissões melhores. Ficaríamos aqui durante muitas páginas citando as expressões racistas. Só para tentar fazer uma avaliação resumida, lembremo-nos de alguns fatos corriqueiros. Expressões do tipo “nuvens negras”, que remetem a tempo ruim, “ovelhas negras”, que são aquelas pessoas da família que, com certeza, não são as melhores.

Uma expressão clássica e muito usada no sudeste é “neguinho adora fazer isto ou aquilo ”. Este “neguinho” da frase sempre está ligado a fazer algo errado, conseguir vantagem de forma desonesta ou algo negativo. Nunca se ouve “neguinho adora estudar”, “neguinho adora ajudar as pessoas”. É nessa perspectiva que a linguagem racista cumpre um papel fundamental para o capitalismo. Seguimos dizendo que este movimento tem um motivo.

O povo que se afirma, que constroi autoestima e preserva sua identidade, com certeza, se organizará . A partir do momento no qual a população negra se coloque na condição de explorada e agredida, obviamente construirá revolta suficiente para lutar contra o sistema. Temos que renovar nossa opinião sobre a linguagem utilizada. Foi por isso também que criamos o Coletivo Nacional Enegrecer, no dia 15 de abril de 2007.

Chega de coisas “esclarecidas”, queremos usar a cultura, inteligência, força e heranças negras para enegrecer o Brasil e nossa linguagem. Enegrecer é transformar em negra, idéias, mentes, esperanças e lutas. E o que é negro ou negra não é ruim. Foi o sangue e o suor deste povo que construiu o Brasil. *Miguel Carvalho integra o Coletivo Nacional Enegrecer
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