Riachuelo: a celebração da barbárie


Em 11 de junho de 1865, às margens do arroio Riachuelo, afluente do rio Paraguai, na província argentina de Corrientes, esquadra paraguaia fracassava na mal organizada surpresa à divisão naval imperial, que pretendia abordar e conquistar, para com ela formar marinha de guerra para o país mediterrâneo. O fracasso da surpresa dificilmente mudou a conclusão inevitável da batalha do Riachuelo. Ou seja, a derrota dos navios mercantes paraguaios, armados para a ocasião, pelos navios de guerra da marinha imperial, então a mais poderosa da América ao Sul. A bem da verdade, o Paraguai possuía um e apenas um buque de guerra – o Tacuary. O combate naval ocorreu quando os governos imperial e argentino mitrista consideravam ainda que o confronto terminaria em poucos meses. Eles seriam apresentados como de tamanha transcendência que passaram a registrar a data magna da marinha de guerra do Brasil.

No primário e no ginásio, meus cadernos escolares traziam habitualmente gravuras do quadro “Combate naval do Riachuelo”, de Victor Meirelles, com mais de 32 m2, concluído imediatamente após o conflito, em 1872, por encomenda do Império, para a glorificação do confronto. O quadro tem como centro Barroso, na proa da nau capitânia, saudando a vitória, sobre os destroços dos barcos e corpos paraguaios. Nossos professores lembravam sempre a frase célebre do almirante cunhada para a ocasião: “O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever”. Décadas mais tarde, investigando a Revolta dos Marinheiros Negros de 1910, aprendi que muitos marujos que suportavam as mais pesadas tarefas dos navios de guerra imperiais eram trabalhadores negros escravizados!

Já nos primeiros momentos da República, os positivistas ortodoxos realizaram ampla e corajosa campanha contra a celebração de guerra imperialista que levara à literal destruição da pequena nação vizinha e do amplo campesinato proprietário e arrendatário que conformara sua singularidade. Viam apenas barbarismo na galvanização das “paixões belicosas” populares para a celebração da violência predadora das grandes nações contra as pequenas, onde deveriam ter imperado a fraternidade e o altruísmo entre os povos, sobretudo americanos.


Entre os positivistas comtianos a se levantar contra aquelas celebrações encontrava-se o futuro almirante Américo Brazilio Silvado, filho do comandante de mesmo nome, morto em 1866 no comando do encouraçado Rio de Janeiro, torpedeado no rio Paraguai. No seu combate de princípios, não perdoava o “pseudo rei-filósofo”, o Estado imperial e as classes dominantes do Brasil de então, por levarem o país a uma guerra de hegemonia e de conquistas que ceifou talvez cem mil brasileiros e esmagou o pequeno Paraguai. Exigia que esses fatos tristes fossem apagados como data referencial da marinha republicana que tanto amava.

No dia 9 passado, foi celebrada sessão solene no Congresso para festejar o transcurso do 146º aniversário da Batalha do Riachuelo, por requisição de deputados petistas e, acredite quem quiser, do PC do B, partido que abandona assim a consigna gloriosa que já levou em sua bandeira –  “Proletários de todo o mundo (inclusive paraguaios, uruguaios, argentinos e brasileiros) uni-vos!” – pelos vivas espúrios à guerra e à morte, se delas resultam ganhos para as classes dominantes nacionais.

Que não haja perdão para eles, pois sabem muito bem o que fazem!

Mário Maestri, 62, historiador, é professor do curso e do programa de pós-graduação em História da UPF.
E-mail: maestri(0)via-rs.net

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