Bala Perdida, Bala Certeira


Escrito por Roberto Malvezzi (Gogó)   
Para dourar a pílula, toda vez que uma bala alcança um cidadão comum, fala-se que morreu devido a uma bala perdida. Assim, a mãe que se deparou com seu filho morto no sofá pela manhã, teve o consolo de saber que ele foi morto por uma bala perdida.

De onde vem a bala pouco interessa. Ela pode vir de um “bandido” ou de um policial. O fato é que ela tem um endereço certo: um inocente.
Domingo estive numa capela, periferia de Juazeiro, para participar da celebração de Santo Antônio e Pentecostes. Bairro pobre, insalubre, dormitório de cortadores de cana e empregados da fruticultura. Quando estávamos na liturgia da palavra, escutamos alguns estampidos na porta da capela. Pensávamos que eram fogos de artifício. Mas, um apavorado sujeito invadiu a celebração, escondeu-se entre os participantes, que começaram uma corrida desembestada para fugir das balas de quem o perseguia.
Pelo menos dessa vez a Igreja ainda foi um lugar seguro. Por respeito, ou sei lá o que, o perseguidor parou na porta e fugiu. O sujeito levou dois tiros de raspão nas costas e saiu ileso. Foi preciso interromper a celebração, chamar um camburão da polícia para dar proteção ao fugitivo e permitir que a celebração fosse reiniciada.
Assim, de costas para a rua, se uma das balas tivesse acertado nossas cabeças, morreríamos sem saber como, quando e onde.
Quando a celebração terminou, uma mulher dizia ao fugitivo: “você agradeça a Deus porque foi salvo por Santo Antônio e pelo Espírito Santo”.
O que temos não são algumas balas perdidas, mas uma sociedade violenta, tanto no meio urbano como no meio rural. A companheirada da CPT do Norte anda com a corda no pescoço, ameaçada de todas as formas, quando não fazendo enterro de lideranças populares que fazem a defesa das pessoas e da natureza.
Pois bem, o Brasil é violento desde sua gênese. Não conseguimos superar esse pecado original. Ainda mais porque a violência provém da dinâmica do próprio modelo de desenvolvimento, justificado por gente como Aldo Rabelo. Em seu artigo na Folha de São Paulo diz textualmente que o “o Brasil perdeu mais de 23 milhões de hectares de agricultura e pecuária, em dez anos, para unidades de conservação, terras indígenas ou expansão urbana” (Folha de. S. Paulo – 14/06/2011). Ele não fala dos 80 milhões de hectares degradados que o agronegócio deixou por onde passou.
O raciocínio do deputado é daquelas cartilhas marxistas dos anos 70 do milênio passado. Para ele, a produção pode e deve passar sobre tudo que nos proporciona bem estar ambiental e, sobretudo, sobre as nações indígenas que atravessam os caminhos do capital. Esse já era o raciocínio do Borba Gato e outros bandeirantes.
Essa esquerda acaba pensando e agindo identicamente a Kátia Abreu, Ronaldo Caiado, Taradão e similares.
Desse jeito, só podemos ser salvos por Santo Antônio ou pelo próprio Espírito Santo.

Roberto Malvezzi é membro da Equipe Terra, Água e Meio Ambiente do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano).


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