Dinheiro não embranquece



Pesquisa com negros de classe média desconstrói mito da democracia racial

Por: Lia Brum


Muitas vezes ouvimos dizer que, no Brasil, não há racismo, mas sim preconceito contra classes econômicas mais baixas. Contudo, uma tese de doutorado defendida na Universidade de São Paulo indica que o abismo colossal entre ricos e pobres existente no país não explica completamente a discriminação social. A pesquisa mostra negros que conquistaram uma ascensão em seu poder aquisitivo, mas que não deixaram de ser julgados negativamente por sua aparência.

O antropólogo Reinaldo Soares entrevistou, entre 2001 e 2003, 24 afrodescendentes na faixa etária média dos 50 anos. Em sua maioria, eles haviam cursado o ensino superior completo, tinham casa própria e trabalhavam como profissionais liberais ou funcionários públicos. Apesar de levarem estilos de vida confortáveis, descreveram ocasiões em que foram discriminados por causa da cor de sua pele e disseram que não têm os mesmos privilégios que os brancos. Ainda contaram que não haviam estabelecido relações de amizade com brancos de classe média, tampouco com negros mais pobres.

Os negros de classe média entrevistados foram localizados em duas associações representativas desse segmento na cidade de São Paulo: um clube fundado exclusivamente para o lazer da classe média negra e uma organização não-governamental criada para o desenvolvimento social, cultural e educacional da comunidade de afrodescendentes brasileiros. Além dessas entidades, os entrevistados disseram que não participavam de nenhuma instituição negra, nem eram adeptos de religiões afro-brasileiras.

A grande maioria dos entrevistados se auto-identificou como negra e pertencente à classe média. Eles relataram trajetórias de estudo, trabalho e luta a fim de superar uma origem em patamares sociais inferiores ao atual. Também defenderam o esforço individual e a educação como instrumentos para alcançar o sucesso.

Esse ideal de progresso, entretanto, pode ser visto na classe média em geral. Portanto, o que diferenciaria essas pessoas como “classe média negra” é o seu crescente potencial como novo nicho de mercado. A veiculação de propagandas com negros, o lançamento de produtos étnicos e revistas voltadas para esse público acentuaram o interesse do autor da tese, que já havia estudado a temática da classe média negra em sua dissertação de mestrado.

Ao longo de sua pesquisa de doutoramento, Reinaldo Soares tentou definir um perfil desses consumidores. Os dados coletados mostraram, por exemplo, que 79% dos entrevistados compravam produtos étnicos. “Ao consumir esses produtos, os entrevistados estão fazendo menção a uma das formas como sua identidade social é construída, reconhecendo-se como negros que pertencem a um estrato específico que conseguiu a mobilidade social durante sua trajetória de vida”, analisa Soares. 

Lia Brum

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