Arquivos Mensais: abril \29\UTC 2011

Carta aberta ao Movimento Negro em geral e ao Movimento de Mulheres Negra, em particular.

Por Nairobi Aguiar,
Comunico às organizações de Movimento Negro e demais Movimentos Sociais e, em especial, às irmãs que compõem as organizações de movimento de Mulheres Negras, que eu, estudante do quinto semestre de Historia UNIJORGE – Centro Universitário Jorge Amado- fui agredida com um tapa na cara por um estudante que compõe a organização do Simpósio de História “Pesquisa histórica na Bahia” na referida faculdade.
Fui agredida fisicamente (com um tapa na cara!) por um homem branco, estudante, como eu, do 5° semestre do curso de história da UNIJORGE – Centro Universitário Jorge Amado. Enfatizo esse dado, por sabermos que o racismo e o machismo se articulam o tempo todo, para impedirem que pessoas como eu (preta “estilo favela!”) possam representar uma pequena minoria do curso de história (brancos, e classe média). Atualmente ocupo a posição de Coordenadora Acadêmica do Centro Acadêmico União dos Búzios, representação legítima dos estudantes do curso de história dessa Instituição.

Inicialmente, estávamos organizando com a coordenação do Curso de História uma atividade acadêmica (o simpósio de história); Entretanto, da noite pro dia fomos retirados da organização com a explicação de que o evento não deveria ter envolvimento do movimento estudantil, por parte um dos palestrantes, e que não iríamos assinar os certificados por quem estava organizando era a instituição.

Quando chegamos, no dia anterior ao fato, encontramos esse grupo de estudantes com a camisa da organização do evento (que até então era da universidade), fizemos algumas intervenções falando sobre a institucionalização da atividade do movimento estudantil e sobre a apropriação intelectual da atividade. (Tudo isso causou incômodo à organização do evento – Coordenação e estudantes envolvidos no processo)

Quando cheguei à atividade, no dia seguinte, fui impedida de assinar a lista de presença, que me legitimaria ganhar o certificado de carga horária do evento. Todas as pessoas assinaram, quando chegou a minha vez a organização da atividade recolheu a lista, e eu perguntei num tom alto no meio da palestra: ‘por que vou assinar a lista lá fora, já que todos assinaram aqui dentro?’ Na mesma hora todo mundo parou e me olhou… Esperei o evento acabar e chamei a coordenadora do curso pra pedir explicação, a mesma não deu atenção, acabei não comunicando sobre o ocorrido. Quando sai do evento me dirigi até o LUCAS PIMENTA (o agressor) e perguntei: ‘posso assinar a lista?’ Ele disse: “você é muito mau educada!”, eu o interrompi e falei, ‘não quero te ouvir, só quero saber se posso assinar, caso contrario vou conversar com a coordenação’. E ele disse: “Você ta tirando muita onda, não é de agora que eu to te aturando!” E me deu UM TAPA NA CARA! Quando eu falei que Eu sou oriunda do Movimento Negro, do Movimento de Mulheres Negras, e que não ia deixar barato que ia acionar a Lei Maria da Penha pra ele, ele se curvou e foi segurado pelos colegas enquanto tentava me dar murros.

Ao dizer “você ta tirando muita onda” e em seguida me agredir o Sr Lucas Pimenta revelou um sentimento de insatisfação, não apenas dele, isoladamente, mas de muit@s outr@s diante do fato de eu ser Coordenadora Acadêmica no CA de História da Jorge Amado. O fato de estarmos adentrando o espaço acadêmico, por si só, já fez membros da elite branca sentirem-se ameaçados. Mas, esse tapa na cara ocorre em retaliação a um fato mais insuportável ainda, para Lucas e demais membros da elite racista desse país: sou Negra “favelada”, jovem e o represento, em um espaço que o projeto genocida de Estado brasileiro historicamente reservou para os branc@s.
Por essas razões, conclamo meus irmãos e em especial às minhas irmãs para amanhã, na extensão desta atividade, manifestarmos politicamente a nossa indignação e repulsa, diante desse caso inequívoco de machismo e racismo.

Onde? Centro Universitário Jorge Amado – UNIJORGE (Paralela)
Concentração: 18h, praça de alimentação.
1938 – Dia do Osvaldão

Nasce em Passa-Quatro, MG, Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão da Guerrilha do Araguaia. Será um dos guerrilheiros mais admirados pelo povo do sul do PA, pela bondade, a coragem, a pontaria. Está desaparecido desde meados de 1974.

Saiba a diferença entre oxi, crack e cocaína


Drogas têm o mesmo princípio ativo e são usadas da mesma forma. Diferença está no que é usado para transformar a cocaína em pedra

O oxi é cada vez mais um problema de saúde pública no Brasil. A droga chegou ao país em meados da última década pelo Acre e pelo Amazonas, nas regiões das fronteiras com Bolívia e Colômbia. Agora, há registro de mortes no Piauí e a ameaça de que ela atinja o Sudeste. A Fundação Oswaldo Cruz já prepara um mapeamento da droga no território nacional.

A droga é derivada da planta coca, assim como a cocaína e o crack. Há diferenças, contudo, no modo de preparo. Existe uma pasta base, com o princípio da droga, e de seu refino vem a cocaína.

“A pasta base é como a rapadura e a cocaína é como o açúcar”, compara Marta Jezierski, médica psiquiátrica e diretora do Cratod (Centro de Referência de Álcool, Tabaco e Outras Drogas), ligado à Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo.

O crack e o oxi são feitos a partir dos restos do refino da cocaína. As três drogas possuem, portanto, o mesmo princípio ativo e um efeito parecido, que é a aceleração do metabolismo, ou seja, do funcionamento do corpo como um todo.

A diferença da cocaína para as outras duas está no que os especialistas chamam de “via de administração”.

Enquanto a primeira é inalada em forma de pó, as outras duas são fumadas em forma de pedra. Isso muda a forma como o corpo lida com a dose.

O pó da cocaína é absorvido pela mucosa nasal, que tem nervos aflorados, responsáveis pelo olfato. O efeito dura entre 30 e 45 minutos. No caso das outras duas drogas, a absorção acontece no pulmão, de onde ela cai na corrente sanguínea. O efeito dura cerca de 15 minutos, e por isso, é mais intenso que o da cocaína, o que aumenta o risco de que o usuário se torne um viciado.

“Quando menor a duração do efeito, mais viciante é uma substância”, afirma Jezierski.

“Se você usa uma que dá um ‘barato’ de 48 horas, você não precisa de outra dose tão cedo, mas se usa uma que dá um barato de 15 minutos e, em seguida, te dá depressão, vai querer outra dose”, explica a psiquiatra.

A grande diferença do oxi para o crack está na sua composição química. Para transformar o pó em pedra, o crack usa bicarbonato de sódio e amoníaco. Já o oxi, com o objetivo de baratear os custos – e atingir um número maior de usuários -, leva querosene e cal virgem.

Querosene e cal virgem são substâncias corrosivas e extremamente tóxicas. Por isso, o consumo do oxi pode levar à morte mais rápido que o crack – no qual o que é realmente nocivo é o princípio ativo da droga.

“A hipocrisia do suicídio é bem menor”, conclui Jezierski sobre o oxi, em relação ao crack.

Osvaldão: o comandante negro do Araguaia

220411_osvaldaoA Nova Democracia – Em meados dos anos de 1960 os primeiros militantes do PCdoB – Partido Comunista do Brasil começaram a ser deslocados para a região sul do Pará, conhecida popularmente como “Bico do Papagaio”.


Dezenas de militantes revolucionários oriundos de diversas regiões do país combateram nas selvas do sul do Pará, uniram-se aos camponeses e à população da região e deram início a luta armada revolucionária fazendo retumbar em todo o país e no exterior a deflagração da luta armada em 11 de abril de 1972.

“Durante mais de dois anos travou-se renhida luta. O exército realizou três grandes e aparatosas campanhas, em conjunto com a Aeronáutica, a Marinha e a Polícia Militar, contando com armamentos modernos e vastos recursos materiais. Na primeira – em abril/junho de 1972 – pôs em ação 5 mil homens; na segunda – em setembro/novembro de 1972 – empregou 15 mil homens; na terceira, de outubro de 1973 a maio de 1974, mobilizou de 5 a 6 mil soldados” [do documento Gloriosa jornada de luta, 1976].

Quase todos os guerrilheiros do Araguaia tombaram em combate. Entre eles, elevava-se, não somente pelos seus quase dois metros de altura, mas pelas suas qualidades de combatente, sua firmeza de comunista e sua indestrutível ligação com as massas camponesas e ribeirinhas, o comandante do destacamento B, Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão.

Osvaldo Orlando da Costa, filho de José Orlando da Costa e Rita Orlando dos Santos, nasceu em 27 de abril de 1938, em Passa Quatro, Minas Gerais.

Entre 1952 e 1954 morou em São Paulo, onde fez o Curso Industrial Básico de Cerâmica, o que lhe assegurou a condição de artífice em cerâmica. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde diplomou-se em técnico de construção de máquinas e motores pela Escola Técnica Federal no ano de 1958. Nesse período, participou ativamente das lutas estudantis.

Osvaldo Orlando, do alto de seus 1,98 metros de altura, pesando cem quilos e com seus sapatos número 48 fazia parte da equipe de boxe do Botafogo, e foi campeão competindo pelo time.

Também tornou-se oficial da reserva do exército brasileiro, após servir no CPOR/RJ.

Ingressou no Partido Comunista do Brasil – PCdoB.

Em Praga, Checoslováquia, formou-se em engenharia de minas.

Osvaldão foi um dos primeiros militantes do PCdoB a chegar à região do Araguaia, por volta dos anos de 1966-67 e tinha a tarefa de criar condições para a chegada de novos militantes e mapear a área. Embrenhou-se nas matas e percorreu os rios se apresentando como garimpeiro e mariscador. Tornou-se rapidamente conhecido e amigo dos camponeses, participou de caçadas e pescarias, trabalhou na roça, tornou-se grande conhecedor das matas. Em 1969, passou a viver na margem do rio Gameleira.

Foi comandante do destacamento B e dirigiu vários combates. Foi, ao lado de Dina (Dinalva Conceição Oliveira), o mais conhecido e respeitado guerrilheiro entre a população do Araguaia. Ele fazia parte do contingente guerrilheiro que rompeu exitosamente o cerco militar quando atacado por um grande número de tropas do exército em 25 de dezembro de 1973.

Segundo depoimentos de moradores da região, ele foi morto em abril de 1974, perto da localidade de São Domingos, próximo à Semana Santa. Foi ferido com um tiro de espingarda 22 na barriga disparado por Piauí, um bate-pau que fez isto por dinheiro. Em seguida foi fuzilado pelos militares. Seu corpo foi dependurado por cordas em um helicóptero que o levou de Saranzal, local onde foi morto, até o acampamento militar de Bacaba e de lá para Xambioá. Quando seu corpo foi içado pelo helicóptero, caiu e quebrou o pé esquerdo. Posteriormente sua cabeça foi decepada e exposta em público. Na base militar de Xambioá, seu cadáver foi mutilado por chutes, pedradas e pauladas dadas pelos militares e, finalmente, queimado e jogado no buraco, também chamado de “Vietnam” – vala situada ao final da pista de aterrizagem da Base Militar de Xambioá onde eram jogados os mortos e os moribundos. Com o término das operações militares nesta área, foi feita uma grande terraplanagem, que descaracterizou o local.

Os depoimentos colhidos pelos familiares nas diversas vezes que estiveram na região e as informações de jornais são coincidentes e se complementam.

O Relatório do Ministério do Exército diz que “foi morto em 7/fev/74”. [Dossiê dos mortos e desaparecidos políticos a partir de 1964, Companhia Editora de Pernambuco, 1995]

Em seu artigo O pugilista vermelho, Rui Moura narra duas das histórias que imortalizaram o guerrilheiro Osvaldão na memória da população do Araguaia:

“Um grileiro foi ameaçar tirar a terra de Osvaldão e acordou, na sua casa, com o cano de um 38 cutucando seu rosto e a ordem, dada por ‘um negrão de quase dois metros de altura e com dois braços que pareciam duas pernas’, segundo descrição dos que o conheceram:

— Em vez de você ficar com minha terra, você dá a sua a uma família muito necessitada. A família já está aí, esperando. Vou lhe levar até a rodoviária e você não aparece mais aqui, senão morre. E se achar ruim morre agora que fica mais fácil…

O grileiro saiu com a surpresa de encontrar os novos proprietários e mais de 30 pessoas das redondezas que aplaudiam a atitude de seu Osvaldão, homem justo.”

E outra:

“Estando de passagem em casa de uma família camponesa, encontrou a mulher desesperada porque não tinha dinheiro para comprar comida para seus filhos. Era uma casa pobre. Não tinham nada. Osvaldo perguntou-lhe se queria vender o cachorro. A mulher, sem outra alternativa, disse que sim. Tanto ela como Osvaldo sabiam o que significava a perda do cão: mais fome, pois na região, sem cachorro e arma é difícil conseguir caça. Osvaldão pagou-lhe o preço do cão e, a seguir, disse-lhe: guarde-o para mim que eu não poderei levá-lo para casa agora.”

Rio Araguaia

Composição de Cadinho Faria e Toninho Camargos

Brotará o teu sorriso

Teu olhar futuro

Teu amor sincero

Essa terra que te guarda

Conservou teu sangue

Levantou teu nome

Nunca há de te esquecer

Ficará tua certeza

Teu caminho oculto

Tua fantasia

Esse sonho vai ligeiro

Rio de águas turvas

Livre pelo tempo

Até o mar se enfurecer

E esse dia, quando o dia?

Eu não vejo a hora de

Gritar a festa

E essa festa

Vai acontecer

O teu sonho, lindo sonho

Veja, ainda é hora de

Levar à frente

E pela frente

Muito que aprender

No Araguaia passa um rio

Rio onde plantaste tua liberdade

Camponês, homem da terra

Vingará teu sangue

Sonhará contigo

Nunca há de te esquecer

Rodrigo Martins: Que democracia racial é essa?

*Rodrigo Martins

Apesar da redução das disparidades propiciadas por programas de segurança alimentar, como o Bolsa Família, o abismo que separa brancos e negros no Brasil continua gigantesco. Essa é uma das conclusões do 2º Relatório Anual de Desigualdades Raciais, divulgado na terça-feira 19, pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Por Rodrigo Martins*

Os indicadores foram compilados a partir de diferentes bases de dados do IBGE, dos ministérios da Saúde e Educação, entre outras instituições públicas. O estudo revela que os afrodescendentes têm menor acesso ao sistema de saúde (uma taxa de não cobertura de 27%, frente aos 14% verificados entre a população branca), a exames ginecológicos preventivos, ao pré-natal e sofrem com uma taxa maior de mortalidade materna.

Por dia, morrem cerca de 2,6 mulheres pretas ou pardas por complicações na gestação, enquanto este mesmo problema acomete 1,5 mulheres brancas. Entre 1986 e 2008, a taxa de fecundidade das afrodescendentes caiu de forma mais acelerada (48,8%) que a das brancas (36,7%). No entanto, as mulheres pretas ou pardas se sujeitam com mais intensidade a procedimentos radicais de contracepção, como as laqueaduras. Quase 30% dessa população em idade fértil estavam esterilizada em 2006, frente a uma taxa de 21,7% das mulheres brancas.

“Ninguém é contra o planejamento familiar. A queda na taxa de natalidade representa uma melhora na qualidade de vida das pessoas. Mas as afrodescendentes poderiam ter acesso a formas menos agressivas de intervenção”, avalia o economista Marcelo Paixão, coordenador do relatório. “A esterilização é uma solução radical demais. É como arrancar um dente para não tratar uma cárie. Por isso, causa preocupação o fato de parte dessa redução da fecundidade estar associada às laqueaduras.”

Nos últimos 20 anos, a média do tempo de estudos dos afrodescendentes acima de 15 anos passou de 3,6 anos para 6,5. Mesmo assim, está muito aquém da população branca, hoje com uma média de 8,3 anos de estudo. Além disso, 45,4% das crianças pretas ou pardas entre 6 e 10 anos estudava na série inadequada em 2008, frente ao percentual do 40,4% dos brancos. Entre as crianças de 11 e 14 anos, o problema é ainda mais grave, pois 62,3% dos afrodescendentes não estudavam na série correta. Entre os jovens brancos, a inadequação atingia 45,7%.

Por outro lado, as famílias pretas ou pardas beneficiadas pelo Bolsa Família conseguiram aumentar a quantidade de alimentos consumidos em proporção superior (75,7%) a das famílias brancas (70,1%). A elevação no consumo de arroz entre os afrodescendentes foi de 68,5%. Brancos: 31,5%. No caso do feijão, o consumo dos pretos e pardos cresceu 68%. Brancos: 32%.

“Apesar de melhorar a segurança alimentar dos afrodescendentes, o que é importantíssimo, em todos os outros setores percebe que a discrepância entre brancos e negros prevalece”, comenta Paixão. “Devido às elevadas taxas de desemprego, rotatividade no mercado de trabalho e informalidade, os pretos e partos tem um acesso bem menor à cobertura da Previdência Social. A diferença chega a dez pontos percentuais na população masculina e 20% entre as mulheres”, completa.

Outro dado que chama a atenção é o baixo índice de condenação por crimes de racismo no Brasil. Entre 2007 e 2008, 66,9% dos casos julgados nos Tribunais de Justiça de todo o País foram vencidas pelos réus e apenas 29,7% das supostas vítimas saíram vitoriosas. Na primeira instância, as vítimas tiveram sua demanda judicial contemplada em 40,5% dos acórdãos.

“Talvez os magistrados ainda acreditem no mito da democracia racial brasileira e, por isso, sejam mais brandos nas condenações e na aplicação das penas”, especula o professor da UFRJ. “Pela lei, o racismo é um crime inafiançável e imprescritível, mas não tenho notícia de um único racista condenado à prisão no Brasil. Vejo apenas punições pecuniárias, sobretudo indenizações, e pedidos de desculpas formais.”

*Rodrigo Martins é repórter da revista CartaCapital. Trabalhou como editor assistente do portal UOL e já escreveu para as revistas Foco Economia e Negócios, Sustenta!, Ensino Superior e Revista da Cultura, entre outras publicações. Em 2008 foi um dos vencedores do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.

Fonte: Carta Capital

Exposição Cidade Hip Hop

O Centro Cultural UFMG apresenta, de 20 de abril a 22 de maio de 2011, das 10h às 21h, na Sala Ana Horta, a exposição Cidade Hip Hop Continuar Lendo →

"Bróder" estreia oito anos depois de ser selecionado por Sundance

ANA PAULA SOUSA
DE SÃO PAULO

No ano de 2003, parecia que nada seguraria Jeferson De. Egresso do curso de cinema da USP e autor de curtas premiados, o diretor conseguira, num só ano, ser selecionado para o laboratório do Festival de Sundance, ganhar o edital da Petrobras e, de quebra, conquistar a Sony como parceira.

Tudo isso porque “Bróder”, que chega hoje a 45 salas do país, foi visto, de cara, como um projeto promissor. Diretor negro, periferia tratada de modo humanizado e desejo de ser pop atraíram não só a indústria como um elenco de primeira, que inclui Caio Blat, Cássia Kiss e Jonathan Haagensen.

Oito anos e dezenas de prêmios depois, a pergunta que “Bróder” suscita é: por que um filme aparentemente bem sucedido como esse, que até para o Festival de Berlim foi selecionado, demora tanto tempo para chegar ao circuito?

Divulgação
Caio Blat vive Macu, em "Bróder"
Caio Blat vive Macu, em “Bróder”

CONGESTIONAMENTO

“Primeiro, tem a dificuldade do estreante”, responde o diretor. “Os caras pensavam: será que ele vai dar conta mesmo? Então foi difícil completar o orçamento de R$ 3 milhões. E aí, quando voltei de Berlim [em fevereiro do ano passado], eu falei: ‘Agora é lançar logo’. Mas não era. Simplesmente, não tem cinema pra todo mundo.”

Cada vez que uma data de estreia era apontada, algum transatlântico do tipo “Harry Potter” surgia à frente de “Bróder”. Na última data planejada, foi “Tropa de Elite 2” que obrigou os distribuidores do filme a se recolherem.

“Vai dando uma agonia”, diz Jeferson. “Tirando Berlim, ganhei prêmio em todos os festivais. Mas e aí?”, pergunta, espantado com a sina.

Ele também ganhou todos os editais depois de ter o filme concluído — os chamados prêmios de finalização.

Longe de ser exceção, o caso de “Bróder” ilustra o nó na distribuição de filmes brasileiros. Como mostra o quadro ao lado, dos 72 filmes lançados no ano passado, 56 fizeram menos de 50 mil espectadores. Muitos deles, estrearam três ou quatro anos depois de terem sido rodados.

“Bróder” foi filmado em 2007. E a espera acabou fazendo com que, ao longo do tempo, a própria forma do filme fosse mudando.

Quando começou a montar, o cineasta achou que faria um filme silencioso, no estilo “Paradise Now”. Mas, no estúdio da gravadora Trama, foi se empolgando com as músicas que gosta de ouvir e acabou por colocá-las na primeira versão.

O espírito dos três amigos nascidos no Capão Redondo era dado, sobretudo, por duas canções de Jorge Ben Jor. Mas eis que, em janeiro, ao montar a última versão e entrar em contato com a editora do músico, descobriu que seria impossível pagar os direitos autorais. “Era mais fácil ter Beatles do que ele no filme”, espanta-se.

Saíram as canções e uma cena que prestava homenagem a Ben Jor. Entraram o silêncio da sequência de abertura, que só tem o som do Capão, e uma canção de Max de Castro. Há, ainda, Lucas Santanna, Nação Zumbi, Emicida e Racionais MC’s.

“Essas músicas são a cara da cidade”, diz Jeferson, que defende a negritude na fala, mas fugiu do panfleto no filme. “Na primeira versão, o filme era mais raivoso, mas mudei um pouco. Eu queria fazer um filme que meus filhos e minha mãe pudessem ver. Sou um cara sem herança pra receber e, pela minha melanina, já sou visto de forma diferente. Não precisava ficar levantando bandeira.”

Agora, Jeferson irá atrás de recursos para tirar do papel seu novo roteiro, “Música Romântica”. “É… Vou começar do zero de novo.”

A sutileza do racismo no Brasil

http://soniacorrea.blogspot.com/

Compareci a um evento na condição de acompanhante e assessora da Secretária Adjunta da Secretaria da Mulher do Governo do Distrito Federal, minha companheira de lutas, camarada de Partido e amiga Valesca Leão que, naquela oportunidade, tinha a tarefa de representar o Governador do Distrito Federal.

Ao chegarmos no evento, anunciamos para as recepcionistas quem éramos e a representação de Valesca. Uma das moças, imediatamente, foi chamar o responsável pelo cerimonial do evento, para que este recebesse a representante do Governador.

O chefe do cerimonial, sorridente e simpático, como lhe cabe a função aproximou-se e, dirigindo-se a mim, cumprimentou e informou que nos encaminharia aos nosso lugares. Então, informamos a ele que era a Valesca – e não eu – a representante do Governador. Ele foi absolutamente discreto nas suas expressões e nos conduziu a nossa mesa.

Eu confesso que aquilo me incomodou. Para o chefe do cerimonial, assim como para uma grande parte da nossa sociedade, o “natural” (sic) era que eu fosse a representante do Governo do DF, pelo simples fato de Valesca ser negra.

Então, agora pela manhã, conversando sobre isso pelo MSN com Jamys Ferraz (filho de Sandro Ferraz), que também é negro, ele me relatou como este racismo sutil também se manifesta com ele, que é o responsável por uma loja e “lan house” na zona leste de Porto Alegre.

Ele me contou que é frequente chegarem vendedores, por exemplo, pedindo a ele para falarem com o responsável pela loja. Quando ele informa ser o próprio, percebe as expressões de espanto no semblante das pessoas. E, mais do que isso, algumas destas pessoas sabem que é ele apenas que cuida da loja, mas insistem em pedir para falar com algum suposto “responsável” que não seja ele.

Parece que estou vendo chifre em cabeça de cavalo, mas não é. A invisibilidade dos negros é algo revoltante. Se a pessoa negra for mulher, tanto pior. A sutileza como o racismo se manifesta, principalmente se considerarmos que no Brasil ninguém admite seu preconceito racial, é abominável.

Ninguém nasce racista, homofóbico, machista, etc. São concepções cultuadas. Precisamos parar de varrer a sujeira para debaixo do tapete e enfrentar que vivemos numa sociedade repleta de convencionalismos asquerosos, que precisam ser sobrepujados.

Mais detalhes : http://soniacorrea.blogspot.com/

Denúncias de violência contra crianças triplicam durante carnaval




Campanha se tornará uma mobilização permanente

O número de denúncias recebidas pelo Disque 100 durante o período de carnaval deste ano triplicou em comparação ao mesmo período do ano passado. Segundo o Portal Direitos Humanos, foram registradas 965 chamados em 2011, já em 2010 o número foi de 297 denúncias. As capitais que registraram o maior número de denúncias foram Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).

A ministra-chefe da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR), Maria do Rosário, acredita que esse aumento foi fruto da campanha anual de combate à violência contra crianças e adolescentes, lançada pelo governo federal no final de fevereiro.

Com o tema “Tem coisas que não dá para fingir que não vê. Violência sexual contra crianças e adolescentes é crime. Denuncie. A bola está com você” , a campanha convocou a sociedade para uma ação conjunta que contribuisse para reduzir a incidência de casos de violência sexual contra este grupo, que aumenta em períodos festivos. Foram distribuídas peças publicitárias divulgando o Disque Direitos Humanos – o Disque 100 – serviço gratuito que funciona 24h nos sete dias da semana para receber denúncias de violência contra crianças e adolescentes. As denúncias também chegaram através do site www.disque100.gov.br e pelo email disquedenuncia@sedh.gov.br.

Lançada no aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, a campanha promoveu atividades em aeroportos de 17 capitais brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador, Vitória, Belo Horizonte, Cuiabá, Natal, João Pessoa, Florianópolis, Curitiba, Porto Alegre, Porto Velho, Brasília, Manaus, Fortaleza e Belém e contou com o apoio de autoridades federal, estadual e municipal e também o envolvimento de artistas, como a apresentadora Xuxa Meneghel.

Tendo como ícone uma grande bola amarela, pintada com bolas mais claras e um borrão vermelho, que representa a sociedade em torno de um problema que precisa ser combatido e o slogan “A bola está com você”, as peças mostraram que todos precisam estar atentos e prontos para denunciar atos de violência cometidos contra crianças e adolescentes.

Apesar de ser lançada durante o carnaval, a mobilização vai se prolongar por todo o ano. “O desafio é dar encaminhamento a todas as denúncias. “É muito significativo que a sociedade esteja fazendo a sua parte, denunciando as violações. Cada ligação recebida mobiliza uma rede de proteção das crianças para averiguar a situação e dar respostas”, explica Maria do Rosário.

Dados do disque 100

Nos últimos cinco anos, o aumento no número de denúncias registrado nos períodos do carnaval comprova a eficácia da campanha. Com a divulgação, a capilaridade do serviço também aumentou de maneira significativa. Enquanto em 2006 o serviço registrava denúncias de 882 municípios, em 2010 foram registradas ligações oriundas de 4.886 cidades brasileiras. Entre maio de 2003 e dezembro de 2010 o Disque já realizou um total de 2.556.775 atendimentos e encaminhou 145.066 denúncias de todo o país, atendendo a 89% dos municípios brasileiros.

Fonte: Rede ANDI Brasil, Brasília (DF), com informações do Portal Direitos Humanos – 14/03/2011

Homicídios ficam estáveis no país, mas crescem entre negros

CIRILO JUNIOR
DO RIO

Apesar de o número de homicídios no país permanecer estável nos últimos anos, o número de negros assassinados não para de subir, revela o Relatório Anual das Desigualdades Sociais, divulgado nesta terça-feira, no Rio.

A probabilidade de um homem preto ou pardo morrer assassinado é mais do que o dobro se comparado a de um indivíduo que se declara branco.

Enquanto os homicídios entre homens brancos vêm caindo ao longo dos últimos anos, o movimento entre negros e pardos é inverso.

Em 2001, homens pretos ou pardos representavam 53,5% do total. Ao mesmo tempo, os brancos significavam 38,5%.

Já em 2007, do total de homicídios registrados, 64,09% eram de negros. Já a proporção de brancos recuou para 29,24%.

Em 2007, para cada 100 mil habitantes, 59,8 homens pretos ou pardos morreram assassinados. Entre a população masculina branca, essa proporção 29,2 homens mortos a cada 100 mil habitantes.

No início da década, foram registrados 44.105 mil homens assassinados. Em 2007, esse dado ficou estatisticamente estável, recuando para 43.938.

Entre as mulheres, a razão de mortalidade das pretas ou pardas era 41,3% superior à observada entre as mulheres brancas, segundo os dados de 2007.

O estudo, desenvolvido pela UFRJ, foi feito a partir de dados do Ministério da Saúde e da Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios).

Negros são mais atingidos por abandono e repetência escolar

CIRILO JUNIOR
DO RIO

Abandono e repetência escolar afetam mais os estudantes negros, segundo o Relatório Anual das Desigualdades Sociais 2009-2010, divulgado nesta terça-feira no Rio.

A avaliação de jovens de 15 a 17 anos mostra que 8 em cada 10 estudantes pretos e pardos estavam cursando séries abaixo de sua idade, ou tinham abandonado o colégio.

Entre os brancos, 66% dos estudantes estavam na mesma situação.

Na população de 11 a 14 anos, 55,3% dos jovens brasileiros não estavam na série correta em 2008. Entre os jovens pretos e pardos, essa proporção chega a 62,3%, bem acima dos estudantes brancos (45,7%).

“Mais uma vez, os dados também refletem que o problema de repetência e abandono, ao longo das coortes etárias, incide de forma desproporcional sobre os pretos e pardos”, diz o relatório.

O estudo acentua que é justamente dos 11 aos 14 anos a fase em que crianças e jovens começam a abandonar a escola, daí a gravidade dessa questão.

Desenvolvido pelo Instituto de Economia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), o relatório evidencia que a população branca com idade superior a 15 anos tinha, em 2008, 1,5 ano de estudo a mais do que a negra.

Se comparado ao quadro de 1988, essa diferença entre brancos e negros pouco mudou. Naquela época, os brancos tinham 1,6 ano de estudo a mais, em média.

Atualmente, a população preta ou parda com mais de 15 anos tinha 6,5 anos de estudos em 2008, ante 3,6 anos em 1988. Entre os brancos, houve um salto de 5,2 anos para 8,3 anos de estudos.

Expectativa de vida de negros é 6 anos menor que de brancos

CIRILO JUNIOR
DO RIO

A esperança de vida da população negra segue inferior à da população branca, segundo o Relatório Anual das Desigualdades Sociais, lançado nesta terça-feira no Rio.

Entre a população preta e parda, a expectativa de vida, em 2008, era de 67,03 anos. Entre a parcela de cor branca, a perspectiva era de 73,13 anos.

Na média de toda a população brasileira, a esperança de vida era de 70,94 anos.

Entre os homens pretos e pardos, o indicador não passou de 66,74 anos. No contingente masculino da população branca, a expectativa alcançou 72,39 anos.

No estudo com as mulheres as mulheres, a esperança de vida entre pretas e pardas foi de 70,94 anos, abaixo dos 74,57 anos estimados para a parcela feminina da população branca.

O levantamento inédito foi feito pelo Nepo (Núcleo de Estudos de População) da Unicamp, e está incluído no relatório desenvolvido pela UFRJ.

Grafite tem maior retrospectiva da história em museu dos EUA


FERNANDA EZABELLA
DE LOS ANGELES

Um corredor escuro e grafitado, cheio de lixo amontoado e com barulho de trens, é uma das atrações de uma nova exposição que abriu no fim de semana em Los Angeles.

Tem também uma instalação com três manequins fazendo uma escadinha para pichar o alto de um muro, com destaque para a mão que segura a latinha de spray: ela se mexe, como aqueles bonecos de parque temático.

Apesar do clima Disneylândia às avessas, “Art in the Streets” (arte nas ruas, em livre tradução) quer ser uma exposição histórica, a maior do gênero já realizada por um museu americano. Fica em cartaz no Museum of Contemporary Art (Moca) até agosto e, a partir de março, abre no Brooklyn Museum, em Nova York.

Uma generosa linha do tempo, um tanto didática, dá conta das gangues pioneiras do grafite, desde o final dos anos 60, na Filadélfia, em Los Angeles e Nova York, com fotos dos Cornbread & Friend, Crips e Taki-183.

Até mesmo a origem da latinha de spray é decodificada: inventada em 1949, só passou a ser produzida em grande escala nos anos 60.

Revistas e jornais do começo dos anos 70 lembram que a discussão do status artístico do grafite vem de longe.

Bem como as campanhas contra, como uma da Filadélfia, de 1972, avisando que estavam sendo gastos mais de US$ 1 milhão na limpeza dos trens, alvos favoritos dos pichadores.

Fernanda Ezabella/Folhapress
Carro pintado por Keith Haring, em frente à tela de Chaz Bojórquez.
Carro pintado por Keith Haring, em frente à tela de Chaz Bojórquez.

NAFTALINA

“É o momento certo para uma retrospectiva. É provavelmente o movimento artístico mais popular atualmente”, disse à Folha Jeffrey Deitch, diretor do Moca. “Mas não é uma exposição definitiva, é o começo para entender a história. Ainda há muito para descobrir.”

Antes de assumir o Moca, em 2010, ele liderava a descolada galeria nova-iorquina Deitch Projects, representante de poderosos da “street art”, como Barry McGee, Swoon e os paulistanos Osgemeos, todos com grandes espaços na exposição.

Keith Haring (1958-1990), cujo espólio também era exibido pela Deitch, comparece com diversos trabalhos, incluindo um carro e alguns objetos que vendia a preços populares na sua Pop Shop, lojinha que abriu nos anos 80 no Soho, em Nova York.

Mais um sinal de que muito do que se discute hoje sobre “street art” –como a linha de roupas de Shepard Fairey– cheira a naftalina.

Apesar da boa faceta histórica, cansa a insistência de exibir sempre os mesmos artistas contemporâneos, que pulam de museu em museu há anos mostrando os mesmos tipos de trabalhos.

Sem dúvida, a parte mais visitada é onde estão as obras de Banksy, o britânico anônimo que vende milhões em leilões e foi recentemente indicado ao Oscar. Está lá uma de suas primeiras pinturas, “Riot Painting”.

“Foi a minha primeira tentativa de fazer uma pintura ‘apropriada'”, escreveu o artista num comunicado a jornalistas. “O que explica porque eu não tentei mais.”

Filhos de Cam, filhos do Cão



Escrito por Mário Maestri

Marco Feliciano, do PSC paulista, propôs em sua página no Twitter que os africanos descenderiam de “ancestral amaldiçoado por Noé”, conhecendo por isso a África Negra a “maldição do paganismo, ocultismo, doenças”, como a aids.

A sina terrível que pesaria sobre os afro-descendentes nasceria do primeiro ato de “homossexualismo da história”, praticado por um filho de Noé. Para o deputado federal, pastor e empresário, tais sandices não seriam racismo ou homofobia, mas teologia pura. Suas afirmações desvairadas constituem apoio às declarações do deputado Jair Bolsonaro, que motivaram repúdio nacional.

Na Antiguidade, a escravidão justificou-se, sobretudo, pela lei do mais forte. Mais tarde, Aristóteles inovaria propondo a inferioridade do “escravo” e servidão natural. Na retomada da instituição terrível, quando da luta pela Ibéria, cristãos e muçulmanos escravizaram-se mutuamente, por negarem, uns e outros, a verdadeira fé!

A rejeição da palavra divina mostrou-se justificativa perneta quando os portugueses passaram a levar para Portugal, em 1444, os primeiros cativos negro-africanos. Eles não eram infiéis, pois não negavam a doutrina reta, que desconheciam! No esforço português de racionalização da escravidão negra, muitas justificativas foram abandonadas por serem pouco funcionais. Entre elas, a maldição que pesaria sobre os negro-africanos, por descenderem de Cam. Uma história velha como o Dilúvio!

Conta a legenda bíblica que, após pousar a arca em terra seca, Noé e seus três filhos, Sam, Cam e Jafet, ocuparam o mundo purificado. Ao frutificar a terra, o patriarca cultivou as vinhas e descobriu o vinho. Ao beber o inebriante líquido, protagonizou o primeiro pileque da história, despindo-se “completamente dentro de sua tenda”.

Nesse ponto, divergem as versões bíblicas. As mais amenas, propõem que Cam viu o progenitor nu e contou aos irmãos. As mais infamantes, que fez muito mais com o progenitor desprotegido! Ao recuperar-se da esbórnia, Noé amaldiçoara a Canaã, filho de Cam, que nada fizera, mas responsável pelo pecado do pai, na visão da época. Eles e seus descendentes seriam doravante “escravos” dos tios e de seus descendentes.

Em meados do século 15, na célebre Crónica de Guiné, Eanes de Zurara registrou as primeiras capturas de negro-africanos nas costas da África e as tentativas moral-religiosas de justificá-las. O que não foi fácil, os africanos nada haviam feito contra os europeus, não motivando, portanto, sequer uma “guerra justa”.

O cronista real refere-se à predestinação bíblica ao cativeiro. Acreditava que os “negros” seriam já escravos dos “mouros”, “por causa da maldição que depois do dilúvio lançou Noé sobre seu filho Cam, pela qual o maldisse, que sua geração fosse sujeita (escrava) a todas as outras do mundo”.

Sem muito convencimento, lembrava partilharem daquela interpretação o arcebispo dom Rodrigo, de Toledo, “Sosepho, no livro das Antiguidades dos Judeus”, “Gualtero” e “outros autores que falaram das gerações de Noé depois do saimento da arca”. A maldição justificaria o tratamento como cães dos descendentes de Cam.

A explicação bíblica da escravidão negro-africana foi abandonada pelos primeiros ideólogos portugueses e europeus, por não haver no livro sagrado qualquer ligação entre os filhos de Cam e os negro-africanos.

Ao contrário, a ciência registra que as formas primordiais da espécie humana são velhas de 4 milhões ou mais de anos – não tendo a história da humanidade os 6 mil e pico anos sugeridos pela Bíblia. Propõe também a origem unitária do gênero humano, tendo como berço o Continente Negro. Para horror dos racistas orgulhosos e envergonhados, somos todos irmãos e africanos!

Mario Maestri é historiador e professor de história da UPF.

Mamãe no Tráfico.

Eus-R*

A mundo não está ameaçado pelas más pessoas, mas sim por aqueles que permitem maldade. Pois cada um de nós é responsável por nossos atos e opções. Continuar Lendo →

Por que não somos racistas

DE SÃO PAULO

No ensaio a seguir, o jornalista Carlos Alberto Dória mostra como o higienismo do começo do séc. 20 no Brasil e os avanços nos estudos sobre genética e hereditariedade invalidaram as teorias raciais no país. Tudo convergiu para mostrar que o ambiente é que rebaixava os negros e que cabia ao Estado atacar as doenças e a fome para garantir a plena adaptação do homem ao ambiente:

“Entre os brasileiros de hoje, o racismo mais se assemelha a um delito de opinião do que propriamente à tipificação de situações de opressão baseada na cor. Esta forma tênue de esconder contradições mostra o seu viés elitista. Um antidiscurso sobre o negro começa pela etiqueta, na qual figuram como “pessoas de cor”.

Entre o povão não é assim. No ano passado, sem muito alarde, o IBGE anunciou que a população negra e “parda” (sic) já era superior a 50% da população total do país. Considerando que o dado é autodeclaratório, isso quer dizer que a maioria da população é ou quer ser negra. Não é pouca coisa, pois enterra a tese de intelectuais sobre o “branqueamento” progressivo da nação, via miscigenação.

Em comparação com os norteamericanos, nem a elite se sente racista, apesar de que, quando a polícia atira, do outro lado caem mortos mais jovens negros do que brancos. Paradoxalmente, mais foi feito pelos negros nos EUA, já no século 19, por meio das emendas à Constituição de número 13 (abolição), 14 (proteção dos direitos civis dos negros) e 15 do que entre nós –visto que a abolição não foi além de uma espécie de “emenda 13”, deixando o negro à própria sorte.

Liberais como Joaquim Nabuco se preocupavam com a questão: o que “faremos” dos negros após a abolição? Suas ideias tacanhas sobre reforma agrária eram um ensaio de resposta à tragédia anunciada. Desigualdades de educação e fortuna se perpetuaram em desigualdades de oportunidades, salários etc.

Assim, as discussões sobre raças que ocuparam o último quartel do século 19 e as duas primeiras décadas do 20 visavam, basicamente, esclarecer as elites, pelo recurso à
pseudociência, sobre quais as chances que teríamos como nação, tendo levado tão longe o fardo da escravidão.

DARWINISMO

Por várias razões, o autor que liderou as discussões sobre raça no mundo ocidental de fins do século 19 foi o alemão Ernst Haeckel (1934-1919), um divulgador sui generis do evolucionismo em geral e do darwinismo em particular. Ele, na Alemanha, e Herbert Spencer, na Inglaterra, ocuparam o vazio que se formou depois da morte de Darwin
(1882), período que os historiadores chamam de “eclipse do darwinismo” e que se estende até 1910, quando se dá a popularização da genética de Mendel.

Em parte, o “eclipse do darwinismo” buscou responder às questões que Darwin não resolvera, como a hereditariedade, revisitando teses antigas de Lamarck e conferindo papel primordial à adaptação. Para essa teoria, chamada “neolamarckismo”, as espécies ou raças se desenvolvem reagindo ao meio num processo bem mais rápido do que aquele que Darwin havia pensado. Haeckel, em particular, acreditava que umas se desenvolviam mais do que outras e criou uma concepção hierárquica do mundo vivo, inclusive para a espécie humana e suas várias “raças”.

NOVA NAÇÃO

Nos moldes do “neolamarckismo” ou “haeckelianismo” lido pelos brasileiros, os negros e mestiços logo poderiam se adaptar ao meio brasileiro, constituindo, ao cabo de certo tempo, um
tipo humano “melhorado” no qual se apoiaria a nova nação. Ao menos esse era o entendimento de Silvio Romero, Euclides da Cunha e tantos outros intelectuais cujas divergências entre si giravam em torno da ideia combinatória de caracteres brancos, negros e índios.

Os haeckelianos pessimistas acreditavam que a miscigenação “piorava” o caráter do povo; outros, otimistas, imaginavam que melhorava pela subtração de caracteres. São ecos dessa discussão o que captamos em “Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter” (o que queria dizer, rigorosamente, sem caracteres próprios). Depois do início da década de 1910, o debate muda de figura: a genética esclarece como se dá a hereditariedade, e se passa a acreditar que o próprio ambiente (a falta de nutrição e as doenças) é que rebaixava os negros. A nova teoria culpava a omissão das elites, libertando o negro de atavismos.

Da ótica “melhorista”, as pesquisas nacionais sobre saúde, que tomaram impulso a partir da experiência bem-sucedida de Oswaldo Cruz no Rio de Janeiro, revelaram um mundo rural que mais se assemelhava a um “imenso hospital” cuja personificação dramática foi o Jeca Tatu de Monteiro Lobato. Para os sanitaristas e higienistas, males como o alcoolismo contribuíam “poderosamente para a decadência do povo, para a desmoralização da política e para a degeneração da raça”.

Contrario sensu, o antropólogo Franz Boas havia feito, nos EUA, estudos para o Congresso norteamericano, entre 1908 e 1910, sobre a assimilação dos imigrantes. Tais estudos mostraram, naquele novo meio, o maior desenvolvimento físico dos filhos de imigrantes em relação aos seus pais. Portanto, tratava-se de melhorar o meio em que viviam negros e pobres.

LOBATO

Como trincheira para a nova luta, Monteiro Lobato lançou a sua “Revista do Brasil”, onde reuniu em torno de si, durante a década de 1910, uma série de médicos sanitaristas. A sua visão sobre o problema era muito clara, conforme escreveu em 1918:

“A higiene é a defesa artificial que o civilizado criou em substituição da defesa natural que perdeu. Ela permite ao inglês na Índia uma vida próspera, exuberante de saúde, no meio de nativos derreados de lezeira […]. O nosso estado profundo de degenerescência física e decadência moral provém exclusivamente disso: desaparelhamento de defesa higiênica. O nosso povo, transplante europeu […] foi invadido pela microvida tropical, e verminado intensamente, sem que nunca percebesse a extensão da mazela. Só agora se faz o diagnóstico seguro da doença, e surge uma orientação científica para a solução do problema da nossa nacionalidade, ameaçada de desbaratamento pelo acúmulo excessivo de males curáveis […]. Sanear o país deve ser a nossa obsessão de todos os momentos. É a grande fórmula do patriotismo”.

Ainda que alguns analistas entendam que o “higienismo” foi uma forma disfarçada de racismo, este é um problema apenas intelectual. O fato é que ele, na crença de que o homem expressa o meio, colocou o Estado como principal agente a promover a adaptação do homem ao ambiente. As teorias raciais caíram em total descrédito e o racismo perdeu qualquer substrato intelectual para se alimentar.

OLIVEIRA VIANNA

É curioso ver como ecos distantes e isolados das velhas teorias –como o livro tardio de Oliveira Vianna, intitulado “Raça e Assimilação” (1932), no qual afirma que “a raça é, em última análise, um fator determinante das atividades e dos destinos dos grupos humanos”– foram violentamente rechaçadas por intelectuais e por servidores públicos.

Na crítica de Manoel Bomfim a Oliveira Vianna, esse é apresentado como “etnólogo oficial” –afinal era um funcionário público, do Tribunal de Contas– e, portanto, não poderia expor suas ideias como se fossem meramente pessoais, visto que o Estado tem que promover a convergência da população, não a sua divisão. Na mesma época, Bomfim dirá em “O Brasil na América” (1929) que “nas sociedades misturadas, muita gente conservará as suas repugnâncias carnais. Nada há que discutir, ou condenar. Serão esses, como muitos outros aspectos, que só dizem com a sensibilidade pessoal”. Em outras palavras, enquanto os valores envolvidos nas relações interraciais forem privados nada há a objetar publicamente.

FAMÍLIA

A ideia de democracia racial, que se difunde especialmente a partir dos anos 1930, é fruto desse tipo de concepção em que as relações raciais não foram transpostas para a esfera pública e em que a desigualdade permanece encapsulada na família ou na casa-grande, sem assomar como fator precípuo de dominação de classe. Estabelecem-se laços de família entre negros e brancos nos moldes expressos no poema de Carlos Drummond de Andrade (“Retrato de família”):

“Já não distingo os que se foram dos que restaram. Percebo apenas a estranha ideia de família viajando através da carne.”

Talvez por essa familiaridade entre negros e brancos –que responde pelo crescimento da população que quer ser negra– se tenha produzido uma legislação antirracista tão tímida entre nós. A tão celebrada Lei Afonso Arinos, de 1951 (que tipifica como crime a “recusa, por parte de estabelecimento comercial ou de ensino de qualquer natureza, de hospedar, servir, atender ou receber cliente, comprador ou aluno, por preconceito de raça ou de cor”), trata o negro basicamente como consumidor. Seria essa a velha esperança de Joaquim Nabuco quanto à integração do negro na nação?”

Drogas psiquiátricas provocam ‘efeito zumbi’ em pacientes

MARIANA VERSOLATO
DE SÃO PAULO

“Sabe quando você está numa ressaca brava? Era pior. Saía da cama e sentia uma coisa paranormal, como se não fosse eu. Era outra pessoa me controlando e eu assistindo à cena, sem controle. O remédio fazia eu me sentir assim, um zumbi.”

A sensação que o assistente técnico Ricardo Rodrigues dos Santos, 23, tinha o dia todo, por quase um mês, era efeito de um antidepressivo.

“Causava o resultado oposto ao que eu esperava. Me derrubou”, conta.

O remédio era para tratar a depressão grave que, segundo conta, desenvolveu trabalhando em telemarketing.

“Ouvia clientes me xingando sem parar, como se eu fosse responsável pelos problemas. E ainda tinha a cobrança da chefia. Aquilo me fazia mal. Até que tentei pular do prédio e me levaram para um hospital.”

Quando começou a se ver prostrado por causa da medicação, se sentiu “obrigado” a parar. “Depois de três semanas, nem esperei a consulta com a psiquiatra e parei.”

Passou a trocar de remédios e, com a médica, pesava benefícios e prejuízos de cada um. Ricardo sabe de cor a lista: “Em um ano, experimentei Fluoxetina, Rivotril, Risperidona, Sertralina, Paroxetina e Citalopram.”

Em dezembro de 2010, interrompeu o tratamento porque perdeu o convênio médico ao pedir demissão, mas diz que hoje está melhor.

“IDIOTA FELIZ”

Muitos usuários descrevem as consequências dos remédios psiquiátricos como “efeito zumbi”. Reportagem do jornal inglês “Guardian” deste mês mostra o caso de uma paciente que se disse “zumbificada” pelas drogas.

Quando começou a tomar medicamentos contra a depressão, em setembro de 2010, o jornalista Marcos Guinoza, 44, criou o blog “O Idiota Feliz!”.

E lá contou de seu medo de “embarcar na viagem à terra dos zumbis felizes e nunca mais voltar de lá”.

No começo, conta, se sentia aéreo na maior parte do dia.”É como sentir seu corpo mais leve, numa suave levitação, com a sensação de que você pode cair a qualquer momento.”

Mas, segundo a psiquiatra Doris Moreno, do grupo de doenças afetivas do Instituto de Psiquiatria da USP, o termo certo para essa sensação é torpor ou modorra -apatia, sonolência, insensibilidade, prostração mórbida.

Leticia Moreira/ Folhapress
Marcos Guinoza, 44, que está em tratamento ecriouum blog para descrever seu medo de ir para a "terra dos zumbis"
Marcos Guinoza, 44, está em tratamento e criou um blog para descrever o medo de ir para a “terra dos zumbis”

O psiquiatra Luis Altenfelder Silva Filho, que acaba de lançar o livro “Doença Mental, um Tratamento Possível” (Ágora, 304 págs.,R$ 71,90), concorda que as medicações que afetam o sistema nervoso podem causar tais efeitos, e critica a presença excessiva de medicamentos na relação paciente-psiquiatra.

“O número de prescrições só aumenta e, consequentemente, seus efeitos colaterais também, sem que as causas sejam tratadas.”

O motivo, acredita, é a influência da psiquiatria biológica norte-americana, que faz a consulta girar só em torno da receita médica. “Tem que se discutir a receita, mas também os efeitos dos remédios e os aspectos emocionais, sociais e profissionais daa vida da pessoa.”

Altenfelder defende ainda a prática da psicoterapia de grupo integrada ao tratamento medicamentoso, para que a pessoa preste atenção àquilo que pode mudar.

EFEITOS PERMANENTES

Ricardo diz que, quando começou a tomar antidepressivos, teve medo dos efeitos. “A gente sabe que existem reações indesejadas, mas nunca tinha sentido na pele. Tinha receio de que fossem permanentes.”

Esse temor é comum, segundo Altenfelder. “Muitas pessoas têm medo de perder o controle, sem volta.”

Por isso, afirma que é importante haver uma boa relação com o médico, que deve dar todas as informações sobre os efeitos esperados.

“Se o médico faz uma consulta apressada, a pessoa já pensa: “Ele nem me olhou, não prestou atenção à minha queixa. Não vou tomar mais esse remédio que, ainda por cima, me faz mal.”

A Ditadura escondida e a Ditadura revelada

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Os dias 31 de março e 1º de abril de 1964 ficarão para sempre marcados na história brasileira como as datas de inauguração da nossa Idade das Trevas. O Golpe Militar que enterrou de uma vez os pequenos suspiros democráticos que tínhamos no país – assim como temos hoje, apenas suspiros de democracia, mas ao menos podemos suspirar – aprofundou-se em 1968 com o AI-5, e aí todos sabemos o que aconteceu: repressão aberta, torturas, assassinatos, sequestros, ódio a todos os tipos de liberdade, etc etc etc.

A Ditadura Militar brasileira durou até 1985, e contou com a colaboração direta ou indireta de grandes empresários, entre eles alguns dos principais empresários da comunicação brasileira. Hoje, quando se discute cada vez com mais veemência a necessidade de revisar-se a Lei da Anistia – que deixou impune torturadores e assassinos – e abrir-se os arquivos secretos da Ditadura – a verdade sobre o próprio Estado e a própria História é um direito fundamental de todo cidadão – estes mesmos grupos de comunicação que, de uma forma ou de outra, colaboraram para a continuidade da Idade das Trevas brasileira, obviamente se retraem.

A cada vez que esse debate ganha corpo, ou a velha mídia brasileira se esquiva ou fala em revanchismo para descaracterizar a simples e óbvia luta pela verdade e pela punição de criminosos do mais alto grau. As razões também são simples e óbvias: além do suporte dado por alguns desses veículos aos militares e seus aliados civis, também muitos atuais patrocinadores da grande mídia injetaram muito dinheiro para manter o regime ditatorial no Brasil. E também lucraram com isso.

Já que, portanto, desse mato não sai cachorro, cabe aos comunicadores alternativos gritarem ainda mais alto em defesa do verdadeiro fim da Ditadura. Esse fim só acontecerá quando enterrarmos nossos mortos e deixarmos de admitir a tortura, a opressão estatal, a violência policial e os assassinatos cometidos pelo Estado – ontem e hoje. A mobilização nos blogs e nas redes sociais tem sido significativas, e o governo, em algum momento, terá que dar resposta aos apelos da sociedade organizada que pretende representar, ou se tornará dispensável.

Ao mesmo tempo, vemos, com relação à revelação da nossa verdadeira História, a proliferação de livros sobre a nossa Idade das Trevas. Jornalistas, sociólogos, historiadores e outros interessados têm escrito obras de grande qualidade que ajudam a compor a acusação que todos nós fazemos contra os agentes da Ditadura Militar. Clássicos que abordam o tema sob diversos ângulos, como “1968 – o ano que não terminou”, de Zuenir Ventura, ou a série de trabalhos de Élio Gaspari, unem-se a muitos outros esforços nesse sentido. AQUI uma lista interessante.

Destaco, porém, uma leitura recente: “Operação Condor – o sequestro dos uruguaios”, de Luiz Claudio Cunha. O jornalista, que era chefe da sucursal de Porto Alegre da então combativa revista Veja, testemunhou o início de um dos inúmeros sequestros da Operação Condor, que integrou a repressão política na América Latina. A partir daí, Luiz Cláudio Cunha e os fotógrafos Ricardo Chaves e J. B. Scalco tornam-se personagens de uma impressionante história de investigação que resultou na sobrevivência dos uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Diaz, na verdade os únicos sobreviventes que a Operação Condor teve que tolerar. Através de relatos e pontos de vista diversos, Luiz Cláudio Cunha reconta esse caso, e, talvez sem querer, vai além: retrata de forma ampla a forma como a Ditadura brasileira agiu durante todos aqueles anos. Como diz na contracapa o jornalista Juca Kfouri, “penetra fundo na podridão de toda uma época e amplia, com a visão de historiador, a cena de um humilde apartamento gaúcho que bem poderia se chamar Brasil, ou melhor, América do Sul”.

Postado por Alexandre Haubrich

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A Ditadura brasileira ainda viva – a cidadania torturada





010401_golpe2Jornalismo B – [Alexandre Haubrich] Aos quatro anos de idade, Edson Teles entrou em um prédio na Rua Tutóia, no bairro do Paraíso, em São Paulo para encontrar os pais, que não via há alguns dias. Simpáticos nomes o da rua e o do bairro. Edson ouviu a voz da mãe chamando seu nome, mas, quando se virou, não reconheceu o rosto e o corpo que portavam aquela voz. Em seguida, encontrou o pai, em outra sala, sentado em uma cadeira aparentemente normal para uma criança. Mas havia cintas de couro nos braços da cadeira. Era 1972, e Edson visitava os pais no DOI-CODI, centro da repressão da Ditadura Militar brasileira. “Meu filho perguntou ‘por que o pai é verde?’ e minha filha perguntou por que eu estava azul”, contou anos atrás a mãe de Edson, Maria Amélia de Almeida Teles.


Na última semana, em um seminário em Porto Alegre, Edson desabafou: “me envergonho de ser brasileiro. Oferecemos o Brasil para ser paraíso dos torturadores. Se torturarem em nome do Estado, aqui são anistiados”. E Edson e sua irmã Janaína não são um caso raro. Muitas crianças viram seus pais serem torturados pelo Estado brasileiro que, entre 1964 e 1985, impôs a seus cidadãos o fim da cidadania e de qualquer possibilidade de dignidade. Socos e pontapés eram carinhos. A violência vinha através de choques elétricos por todo o corpo, afogamentos, fuzilamentos simulados. Homens e mulheres, muitas vezes nus, eram pendurados em paus de arara, humilhados de todas as formas, reduzidos a nada. E se Edson e Janaína não são um caso raro, e tampouco a tortura a que foram submetidos seus pais foi um caso raro, também não foi a tortura a única forma pela qual cidadãos brasileiros foram agredidos por seu próprio Estado.

Assassinatos e sequestros também eram comuns. Sim, hoje ainda são. Mas, naqueles anos, quem cometia esses crimes era o Estado, e os cometia como Estado, não apenas através de indivíduos que corrompiam as instituições. O Estado e seus agentes eram os criminosos, os assassinos, sequestradores, torturadores. Brasil nunca mais. Muitos cidadãos brasileiros foram obrigados a fugir do país. Deixaram para trás seu lugar e seus familiares, amigos, colegas. Deixaram para trás toda uma vida para começarem a construir outra longe daqui.

O silêncio, para os militares e civis que referendaram o Golpe de 1964, era a causa pela qual lutavam. Gritos? Permitidos apenas nas salas de tortura, e apenas gritos de dor. Parte significativa da imprensa apoiou a Ditadura de seu início até as portas de seu fim, quando percebeu que, ou abandonava o moribundo, ou morreria junto. A outra parte da imprensa, porém, a parte séria, viu muitos de seus representantes torturados, desaparecidos ou acuados. O fetiche do silêncio.

Derrubada a democracia que se aprofundava no governo João Goulart, os golpistas não queriam mais saber de política, apenas de poder. Um professor falando sobre política em aula poderia ser denunciado por um aluno como terrorista. A mesma coisa em conversas de bar ou de qualquer lugar. O risco de tortura, assassinato ou “desaparecimento” sempre iminente. Se antes a política já era afastada do povo, em 64 o Estado tirou do povo o direito de se aproximar da política.

Com a chamada “abertura democrática” da década de 1980, não acabou-se verdadeiramente com a Ditadura. Até hoje suas sobras contaminam a vida dos brasileiros. A herança da Idade das Trevas tupiniquim está no autoritarismo e na violência policial, na despolitização popular, na agressividade da direita, na ignorância, no conservadorismo moral preconceituoso, racista, machista e homofóbico. Esses resquícios sobrevivem também no imaginário demente de alguns políticos e alguns militares que anseiam pela reinstitucionalização de todos esses absurdos.

Continuam dominando importantes setores do país as pessoas que financiaram e apoiaram de diversas formas a Ditadura Militar. Grandes empresários, destacados políticos, graduados militares. Os donos da comunicação brasileira também entram nesse bolo. É por tudo isso que, enquanto nossos países vizinhos agem para limpar a sujeira deixada por suas respectivas ditaduras – sem varrer essa sujeira para baixo do tapete –, aqui o silêncio segue imposto.

É para punir os responsáveis pelo massacre da cidadania brasileira que é necessário revisar a Lei da Anistia, assinada em 1979, que, ao mesmo tempo em que beneficiou quem lutava por um Estado democrático, absolveu automaticamente as pessoas que, em nome do Estado brasileiro, cometeram todos os tipos de crime. A tortura e o assassinato em nome do Estado foram permitidos, o que configura uma arbitrariedade e um desrespeito aos brasileiros representados por esse Estado. Os cidadãos que lutaram contra a Ditadura Militar já foram fortemente punidos das mais diversas formas ainda durante aquele período. Os representantes dessa Ditadura, não. Além disso, a Lei da Anistia foi aprovada pelos opositores ao regime com uma arma na cabeça. Da mesma forma que obtinham confissões através da tortura, os governantes de então impuseram sua própria imunidade como condição para deixarem o povo brasileiro ser re-empoderado minimamente.

A abertura imediata de todos os arquivos da Ditadura Militar e a ampla divulgação de seu conteúdo, assim como o trabalho de resgate histórico do que vivemos, é outra obrigação do Estado brasileiro. Os cidadãos têm o direito de conhecer sua própria história, a história de seu país. Se o Estado é uma instituição da sociedade, e esta é formada pelo conjunto dos indivíduos, o Estado somos nós, e nós temos o direito de conhecer a verdade e o dever de lutar por esse direito. Para que não corramos o risco de retornar àquela situação de terror precisamos saber detalhadamente o que nos levou a ela o que a manteve por tanto tempo. Só assim, com a punição dos gerentes da nossa Idade das Trevas e com o direito à verdade, poderemos realmente encarar de frente as heranças daquele tempo que ainda nos assombram.

Ditadura: Nós lembramos!


010401_abaixoEsquerda Marxista – 1º de Abril de 64: Os tanques saem às ruas e esmagam o governo. Os militares fecham o Congresso. O presidente foge. Não era piada de 1º de Abril. Era verdade. A piada foi que, para que o governo ditatorial parecesse sério, mudaram a data para 31 de março.


Mas a ditadura, afora esta piada, foi séria. Intervenção nos sindicatos, mortes de militantes, torturas, repressão armada, censura. E os que cometeram crimes, como torturas e mortes, estão soltos.

Ah, e vem nos dizer que se tratou de anistia, todos eram criminosos. Vejamos: alguns pegaram em armas (equivocadamente, como se viu, a maioria morreu jovem e sem que suas ações tivessem qualquer efeito além de justificar a repressão); outros torturaram e mataram indiscriminadamente, fossem seus adversários um guerrilheiro, um sindicalista, uma freira ou um padre que procurava esconder alguém procurado, um deputado que “falou demais” ou um jornalista que escreveu sobre o assunto.

Uns pagaram com prisão, tortura, morte e exílio. Outros, vivem sem nenhum um pingo sequer de remorso. E dizem os defensores dos torturadores, dos assassinos, foi tudo para proteger a pátria, a família e a propriedade, a lei e a ordem.

A lei foi jogada no lixo, a Constituição foi rasgada e substituída por uma feita pelos militares. A lei passou a ser a LSN (Lei de Segurança Nacional – ver mais abaixo) que subsiste até hoje. E a ordem era a ordem dos militares, do “sabe com quem tá falando?” que passava por cima de tudo e de todos. Ah, sim, a pátria foi preparada para ser vendida, a maioria dos setores econômicos foi liberada para o capital estrangeiro e o que sobrou, Collor e depois FHC trataram de liquidar. O Exército e a Polícia Federal continuam treinando nos EUA.

A família, somente a família dos generais, dos corruptos, dos que como Sarney ou ACM se tornaram quase que donos de um estado inteiro. A propriedade, esta sim, defendeu-se a propriedade burguesa e a única propriedade dos trabalhadores, a sua força de trabalho foi rebaixada de valor e só melhoraram os salários com as greves que vieram de 1978 em diante.

Grande ditadura! Sim, é verdade, eles não comemoram mais nas notas oficiais. Mas os “clubes” do Exercito, Marinha e Aeronáutica estão ai para soltarem suas notas defendendo o golpe e tudo, tudo, o que fizeram.

Está aí vivo, para quem quiser olhar e ver a triste miséria da ditadura, o seu mais digno e consciente porta-voz, o Sr. Bolsonaro, deputado que agride mulheres e negros, que diz que torturaria um filho se este namorasse um gay. Sim, digno representante deste tempo de tão dura memória que não querem lembrar.

Ah, sim, para lembrar que nestes tempos não tão antigos existiam marchas de religiosos apoiando e justificando o golpe, agora temos um deputado – Marco Feliciano (PSC-SP) – que vem explicar que os negros estão em condição “inferior” porque Deus os amaldiçoou, segundo o texto bíblico citado por tão ilustre figura.

Tristes restos da ditadura, racistas empedernidos, que não viram o tempo passar, que hoje as armas do exercito voltaram aos quarteis, que os trabalhadores se organizaram, construíram o PT, construíram a CUT e não estarão dispostos a se deixar espoliar novamente. Os trabalhadores, o povo, nas ruas, derrubaram a ditadura. E são eles, é o seu movimento, suas greves e manifestações, o que garante a democracia.

LSN – Lei de Segurança Nacional

O Brasil, ao longo de sua história republicana teve diversas Leis de Segurança Nacional: em 1935, 1938, 1942, 1953, 1967 e 1969, 1978. A última é de 1983 e foi promulgada pelo então ditador João Batista Figueiredo. Até hoje ela está em vigor.

Hoje, existe um projeto de até o final deste ano de 2011 a LSN, a mais temida do país, a de 1983, será transformada em Lei para a Defesa da Soberania e do Estado Democrático de Direito. Um seleto grupo constituído por quadros oriundos de vários ministérios trabalha em um texto que será o projeto de lei da nova lei.

A imprensa especula que um grupo ligado ao Min. Da Justiça quer uma lei especifica para enquadrar os crimes de terrorismo, os militares querem que sejam tratados na nova lei de segurança nacional, agora batizada de Lei para a Defesa da Soberania e do Estado Democrático de Direito.

Há 5 anos a Lei de Segurança Nacional serviu para enquadrar mais de 100 integrantes do MST que invadiram a Câmara Federal em uma manifestação dos sem-terra. Foram presos e acusados de crime político.

A antiga Lei, ainda em vigor, é sempre bom lembrar, prevê que serão enquadrados na mesma os seguintes casos:

1- Realizar atos de sabotagem: prevê pena de 10 anos, 15 anos se causar dano aos meios de defesa nacional e 30 anos se provocar morte.

2- EM seu artigo 16, a LSN proíbe a manutenção de associação, partido, comitê, entidades de classes, que tenha como objetivo mudar o regime político do país. A pena é de 1 a 5 anos de prisão.

3- Pena de 4 anos para aquele que caluniar ou difamar uma alta autoridade do Três Poderes.

Atenção – durante a ditadura, uma greve numa companhia elétrica podia ser classificada como “sabotagem” e nada diz que isso mudou. Criticar o atual Presidente do Senado (Sarney), por exemplo, está claramente tipificado como crime pela LSN. Por esta lei, o PT e a CUT deveriam ser colocados na ilegalidade, pois os dois propõem, em seus estatutos, modificar a sociedade para uma sociedade socialista!

Lei da Anistia e Comissão da Verdade

A Lei da Anistia que conferiu o mesmo status aos torturados e torturadores foi produto de uma vergonhosa negociação que igualou os combatentes da democracia aos assassinos saídos dos quartéis ou de bandos paramilitares. Os reacionários acusam de terroristas os que combateram o regime com uma equivocada tática da guerrilha e, portanto, “seus crimes” seriam enquadrados pela Lei de Segurança Nacional. Os torturadores, que são pelos reacionários qualificados de defensores da pátria e, da família, da lei, da ordem e da propriedade, sentarão ao lado dos ditadores no reino impune do capital.

Os marxistas que combateram contra a ditadura, pela anistia aos presos políticos e não pela anistia geral ampla e irrestrita; nós que combatemos pela libertação dos presos políticos de Itamaracá e contribuímos na construção do Comitê Brasileiro de Luta Pela Anistia, neste dia 31 de março, nos irmanamos a todos os que clamam por justiça e juntos exigimos que os criminosos torturadores e seus mandantes sejam levados ao banco dos réus. Exigimos que sejam desmanteladas todas as vergonhosas instituições herdadas da ditadura militar, exigimos que os nossos mortos, assassinados e desaparecidos no combate contra a ditadura militar, sejam localizados, identificados e que suas famílias possam enterrá-los como mártires da luta pela liberdade.

1º de Abril – O golpe norte-americano no Brasil

Brasil – Direitos nacionais e imperialismo

010411_golpeDiário Liberdade – [Laerte Braga] A grande preocupação do governo do presidente Lyndon Johnson e do secretário de Estado Dean Rusk com o Brasil é que, antes de Nixon, haviam percebido a importância do País em toda a América Latina – isso em tempos de guerra fria – e os tempos de euforia entre setores populares dessa parte do mundo com a revolução cubana de 1959.


As chamadas reformas de base que vinham sendo implementadas pelo governo do presidente João Goulart eram entendidas pelo governo dos EUA como o fermento para uma vitória eleitoral em 1965. Acreditavam que no curso dos acontecimentos as diferenças que separavam Leonel Brizola (ex-governador do Rio Grande do Sul e então deputado federal da antiga Guanabara com 25% dos votos do eleitorado) do governador Miguel Arraes (Pernambuco) acabariam por sumir resultando numa aliança que provavelmente faria de Brizola o candidato do antigo PTB a presidente e Arraes seu companheiro de chapa, como vice-presidente.

A constituição de 1946 não estabelecia a necessidade de maioria absoluta dos votos, sendo assim, de um segundo turno entre os mais votados e esse fato já havia sido levantado por Carlos Lacerda na tentativa frustrada de impedir a posse de JK, eleito em 1965 com pouco mais de 30% dos votos.

Como o quadro se completava com uma divisão entre as forças à direita, o golpe de 1964 começou a se delinear de forma concreta bem antes de sua materialização, na posse do próprio Goulart.

Os norte-americanos tinham consciência da aversão de boa parte das forças armadas brasileiras por Goulart (desde o manifesto dos coronéis em 1954 contra o aumento do salário mínimo em 100% e Jango era o ministro do Trabalho).

Carlos Lacerda e Magalhães Pinto já estavam com suas campanhas nas ruas, desde 1963, ambos da UDN, mas certo era que Magalhães deixaria o partido se percebesse que seria derrotado na convenção. Teria, à sua disposição um leque de partidos para apresentar sua candidatura, a fidelidade partidária era um termo até então desconhecido. E o PSD lançara o JK-65 no dia seguinte ao da posse de Jânio Quadros.

A aliança Brizola-Arraes de saída traria três importantes estados da Federação. A antiga Guanabara, o Rio Grande do Sul e Pernambuco. A direita sairia dividida em Minas com a disputa JK e Magalhães Pinto e Lacerda dependeria de sua retórica golpista, seus dramalhões fascistas para tentar empolgar o eleitorado de outros estados, mas ainda assim com o risco de dividir São Paulo (o maior colégio eleitoral do País e tradicionalmente votando à direita) entre ele Lacerda, Magalhães e JK, que dos três era o mais fraco naquele estado.

A presença de Ademar de Barros no governo paulista e o fracasso de Jânio com sua renúncia poderiam vir a acrescentar fôlego à candidatura de Juscelino, abrigo natural para o governador paulista, isso se não cismasse de tentar a presidência pela terceira vez (fora derrotado em 1955 e em 1960.

O grande feito do governo Goulart, fato que assustou mais ainda os norte-americanos, foi o despertar dos trabalhadores de um modo geral e incluir entre esses, os até então silenciosos camponeses, em franco processo de organização a partir das Ligas Camponesas criadas pelo deputado Francisco Julião (para se ter uma ideia da força de Julião, em 1962 foi eleito deputado federal e arrastou consigo candidatos com menos de cem votos, isso em Pernambuco).

A percepção que as reformas de base poderiam fortalecer uma eventual candidatura de Leonel Brizola e eram muito mais amplas que a reforma agrária e a tributária, tocavam em setores considerados vitais pela direita, o das comunicações, levou os EUA a indicar Lincoln Gordon para embaixador no Brasil e Vernon Walthers, um general, para adido militar.

A missão da dupla era derrubar Goulart. Gordon era especialista em missões desse gênero e Walthers um dos mais importantes militares norte-americanos à época (chegou a ser diretor da CIA), além do que amigo íntimo e Castello Branco, primeiro ditador. Falava português fluentemente.

Coube a Gordon aliciar o empresariado paulista (o mais expressivo do Brasil), o seu entorno em outros estados da Federação, ligá-los aos setores golpistas da UDN (Lacerda e Magalhães Pinto) e a Walthers formar os batalhões norte-americanos dentro das forças armadas brasileiras.

Um registro é importante. A derrubada de Vargas em 1945, significava muito mais que colocar um ponto final num governo errático do ponto de vista ideológico, mas ao mesmo tempo, com fortes bases populares e começando a dar sinais de inclinações para a esquerda. Sonhavam com o início de um Brasil aliado incondicional dos EUA elegendo o brigadeiro Eduardo Gomes presidente da República. Não elegeram, mas não perderam. Eurico Gaspar Dutra, ex-ministro de Vargas, marechal do exército, figura preponderante no golpe de 1937 virou presidente e os EUA ganharam. Em parte, mas ganharam.

Militares brasileiros de extrema-direita torciam o nariz para Dutra, desejavam a capitulação total.

Magalhães Pinto, fiel ao seu estilo de cobra peçonhenta, traiçoeiro e ardiloso, ao mesmo tempo que se uniu ao esquema traçado pelo embaixador dos EUA, de olho na sua disputa com Lacerda pela indicação presidencial, fingia-se aliado de Jango e articulava com dois generais de expressão menor dentro do Exército, Carlos Luís Guedes e Mourão Filho (com comandos em Minas) um golpe particular em que pudesse despontar como o grande líder civil do Brasil.

Mourão não saiu com as tropas da IV Região Militar sediada em Juiz de Fora de maneira aleatória. Tinha um compromisso com Magalhães Pinto e era amigo pessoal de JK, a quem visitou aliás, quando chegou ao Rio e alojou seus soldados no estádio do Maracanã.

O 31 de março não foi o início do golpe de estado. Foi a aventura de Magalhães Pinto (esteve na cidade de Juiz de Fora horas antes das tropas começarem a descida para o Rio).

O golpe decidido em Washington, planejado pelo embaixador e pelo adido militar dos EUA no Brasil começou de fato no dia 1º de abril, quando Castello Branco, alertado pelos norte-americanos conseguiu a adesão de militares supostamente leais a Jango, caso de Justino Alves Bastos, comandante do IV Exército (Nordeste) e Amaury Kruel (II Exército, São Paulo). Beneficiou-se da presença das tropas de Mourão já no Rio e o apoio de figuras como o general Muricy, o general Antônio Bandeira, todos em comandos secundários, mesmo tendo perdido o comando do III Exército, Rio Grande do Sul para o general Ladário Telles, leal a Goulart e sem o apoio de Âncora de Moraes, comandante do I Exército que preferiu deixar as coisas correrem à sua revelia sem tomar partido. A maior parte dos seus comandados tomou partido pelo golpe.

Aeronáutica e Marinha, no espectro político do País sempre foram forças à extrema-direita, aliaram quase que incondicionalmente ao golpe, a despeito da ação do brigadeiro Moreira Lima, ministro da Aeronáutica, que resistiu com bravura e dignidade na defesa da ordem constitucional.

Todos os líderes políticos envolvidos no processo, Lacerda, Magalhães e Ademar de Barros e quando da consumação do golpe JK, contavam com um breve período de intervenção militar e a realização de eleições presidenciais em 1965.

Castello assumiu esse compromisso com todos eles. Terminou peitado pelo seu ministro Costa e Silva e acabou morrendo em condições misteriosas assim que deixou o poder.

A exceção de Magalhães Pinto que se manteve no entorno do golpe (ministro das Relações Exteriores de Costa e Silva e presidente do Senado), todos os demais, Lacerda. JK e Ademar de Barros se viram privados dos seus direitos políticos.

Obcecado, Magalhães acreditou que num determinado momento os civis voltariam a governar o País e era preciso estar ali perto dos militares, nem que isso custasse toda a sorte de concessões possíveis, além dos negócios, evidente, o Banco Nacional.

Para qualquer eventualidade a IV Frota norte-americana estava em águas territoriais brasileiras. A hipótese de uma reação de Goulart e uma guerra civil garantiria aos golpistas o apoio necessário para a luta.

Perto de dois mil e quinhentos oficiais, suboficiais e sargentos das forças armadas foram expurgados num processo de alinhamento absoluto com os norte-americanos e de 1º de abril de 1964 até o último dia do governo do general João Figueiredo, o Brasil foi parte integrante de uma sinistra operação tramada em Washington, que varreu toda a América Latina e se transformou numa longa noite de trevas e sombras, onde o ódio, a tortura, a barbárie foram a regra geral.

O rosnar do governo Geisel na ruptura do tratado militar entre os EUA e o Brasil terminou na concessão a pesquisas petrolíferas e empresas de fora dentro do território nacional, o inicio do fim do monopólio estatal, mais tarde liquidado pelo governo FHC e recuperado em alguns pontos pelo governo do presidente Lula, justiça seja feita. Mas só em alguns pontos.

Essa parte da História do Brasil ainda está oculta. Os militares resistem a que seja contada, exposta.

Hoje, sexta-feira, 1º de abril, fala-se em desmoralização e desrespeito aos militares brasileiros. O terão de volta quando forem capazes de abrir os baús desse período trágico e nocivo ao Brasil e aos brasileiros e se constituírem em forças armadas brasileiras, nunca em “policiais” do continente latino-americano, sob comando dos EUA.

Quando se inspirarem em militares do porte de Teixeira Lott. Rui Moreira Lima, Ladário Pereira Telles, major Cerveira, Carlos Lamarca e muitos outros.

Há um detalhe histórico de importância capital e que precisa ser visto com outros olhos. Quando Luís Carlos Prestes, ele próprio militar, líder da Coluna Prestes, defendeu o que chamaram de “queremismo”, ou seja, eleições em 1945, mas com Getúlio no governo, uma transição de Getúlio para um presidente eleito, Prestes não estava fazendo concessões ao algoz de Olga, ao seu algoz. Estava percebendo e entendendo a História e isso o torna maior ainda no panteão dos grandes brasileiros, dos grandes militares brasileiros, compreendendo que o sacrifício por um ideal é maior que o soldo de Washington, que qualquer soldo que Washington possa pagar. Washington ou qualquer outro.

Os militares querem respeito? Que se façam respeitar cessando as reações e intimidações à barbárie que os homens de 1964 promoveram no Brasil em todos os sentidos.

E um detalhe, o governo de Johnson apavorou-se quando o governo Goulart começou a ceder concessões de rádios e tevês a sindicatos e a organizações populares, ameaçando quebrar o poder da mídia padrão GLOBO (desde aquela época).

Esse artigo, longe de ser História, mas fatos que somam a ela, me trouxe à lembrança o encontro de Goulart com Lacerda, em 1968, presentes o ex-presidente Juscelino e o ex-deputado José Talarico Gomes.

Lacerda, no voo para Montevidéu, estavam formando a Frente Ampla para enfrentar a ditadura, confessou a JK sua dificuldade em como cumprimentar Goulart, tendo sido ele o responsável, um dos principais, pela derrubada do governo. JK respondeu-lhe que não se preocupasse.

No encontro, na casa de Goulart, com os olhos cheios de lágrimas Lacerda disse a Jango – “presidente eu entendo que o senhor me tenha ódio, mas estou aqui de braços abertos pelo Brasil” –

Em sua extraordinária grandeza Jango abriu os braços e disse o seguinte – “não lhe tenho ódio governador, o senhor foi sempre meu adversário e me combateu pela frente. Não guardo ódios e nem rancores, mas desprezo pelo governador Magalhães Pinto que até a última hora se fingiu meu aliado. Esses são os covardes”.

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