Panorama conturbado





Escrito por Wladimir Pomar

As duas últimas semanas foram marcadas por movimentos conturbados no cenário internacional. A segunda onda da crise econômica mundial derrubou a Irlanda e ameaça quebrar Portugal e Espanha. A Coréia do Norte respondeu com tiros às anunciadas manobras militares conjuntas dos Estados Unidos e Coréia do Sul, e os comandos militares norte-americano e sul-coreano colocaram a guerra na península asiática a um passo da concretização.

O tom bélico estava num crescendo quando estouraram os vazamentos de documentos da diplomacia estadunidense através de WikiLeaks. Como num passe de mágica, a bolha coreana parece ter se esvaziado repentinamente, ao mesmo tempo em que os chineses, ao invés de puxarem as orelhas dos coreanos do norte, como queria o almirante chefe americano, acharam mais sensato sentar à mesa com eles e negociar através do diálogo.

Paralelamente, a diplomacia norte-americana se viu na contingência de jogar fora todo seu palavreado hipócrita sobre liberdade de opinião e expressão, e utilizar seus tradicionais métodos de pressão e chantagem para calar seus opositores, enquanto a grande imprensa mundial (incluída a brasileira) foi colocada na berlinda.

A pressão e a chantagem norte-americanas vão desde seus velhos métodos de liquidar os adversários através de pseudo-crimes desligados do assunto real, até pressões diretas sobre empresas financeiras e bancárias para fecharem ou congelarem as contas através das quais o WikiLeaks recebia recursos. Da mesma forma que muitos lutadores pelos direitos civis e os Panteras Negras norte-americanos foram condenados e liquidados por supostos tráfico de drogas e crimes sexuais e de sonegação de impostos, o fundador do WikiLeaks foi detido e pode ser condenado por estupro.

Se fossem os iranianos, cubanos, venezuelanos, chineses, coreanos do norte, ou outros países da lista negra do departamento de Estado dos EUA, que estivessem realizando um décimo do que está fazendo a grande nação do norte, esta e sua imprensa coligada estariam fazendo uma algazarra infernal em defesa da liberdade de expressão e da democracia. E é provável que Julian Assange fosse apontado para o Nobel da Paz.

Porém, alguém já leu alguma matéria de protesto da grande imprensa mundial, inclusive a brasileira, contra o que os Estados Unidos estão fazendo quase abertamente para cercear a publicação de documentos vazados por cidadãos desse próprio país?

Desse modo, a legitimidade dessa grande imprensa está cada vez mais em xeque. Ela deixou de ser veículo confiável para onde as pessoas possam encaminhar suas denúncias ou vazar documentos que demonstrem a imoralidade e a hipocrisia de governantes e empresas.

Grande parte da população, nos mais diversos países do mundo, já se deu conta de que essa imprensa se tornou porta-voz e instrumento de propaganda de interesses econômicos e políticos escusos de minorias encasteladas na economia e no poder.

No Brasil nós tivemos exemplo recente dessa situação, quando a grande imprensa fez tudo a seu alcance para evitar a eleição de Dilma Rousseff. Mas agora as pessoas podem ter mais certeza de que este não é apenas um fenômeno brasileiro. É, principalmente, um fenômeno intrínseco das grandes potências mundiais capitalistas. Neste contexto, WikiLeaks é apenas o resultado da necessidade de buscar canais por onde extravasar denúncias represadas. Contexto agora potencializado com instrumentos tecnológicos e redes informáticas difíceis de fechar.

Também para azar dessas grandes potências capitalistas, um dos modelos mais badalados de sucesso do neoliberalismo, a Irlanda, foi atingida pela segunda grande onda da crise mundial, cujo epicentro continua sendo os Estados Unidos. Onda que, depois de haver destruído a Islândia e a Grécia, está se movimentando no rumo da Espanha e de Portugal e coloca em risco a própria existência da União Européia e de sua moeda própria.

A saída preconizada, tanto por governos neoliberais e liberais quanto “socialistas”, consiste em desmantelar o que restava do antigo Estado de Bem Estar social europeu. Ou seja, os trabalhadores devem pagar as contas dos desatinos e do caos do mercado capitalista. Ao invés de dirigirem recursos para elevar o poder de compra de suas populações e fortalecer seus mercados internos, estão fazendo justamente o contrário, o que não é novidade.

Novidade são as grandes demonstrações e greves dos trabalhadores na Grécia, Irlanda, Espanha, Portugal e França. E as demonstrações estudantis na Inglaterra. Há indícios de que o longo período de descenso das lutas populares na Europa está chegando ao fim. Bem vistas as coisas, um feliz panorama conturbado.

Wladimir Pomar é escritor e analista político.

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