Mulher: o ser e o poder


É hora de projetar o direito de igualdade de condições na liberdade de produzir o que nos interessa como mulheres da classe trabalhadora


Roberta Traspadini

A campanha eleitoral de 2010 foi um bom retrato do que o capital projeta sobre as mulheres da classe trabalhadora: um tipo particular de escravidão econômica e de dominação política institucional. Uma aposta na posição periférica da mulher, na disputa e na execução do poder.

Analisemos três discursos públicos levantados a partir da construção de uma imagem sobre a mulher. O que nos interessa aqui é o papel colocado pelo capital para este sujeito, a partir da construção política de certas imagens.

1º. slogan: Dilma é guerrilheira

O tema da guerrilha nos exige fazer uma profunda e necessária discussão sobre o processo histórico da luta de classes no Brasil e na América Latina. Exige que revelemos com base no momento particular de nossa história, o processo da ditadura militar sustentada no Estado de exceção, que fomentava a disputa via luta armada.

Mas este fato deslocado do seu contexto ganha uma dimensão de loucura, perigo, temor quando deveria evidenciar a tomada de posição na guerra aberta entre capital e trabalho, dentro do território brasileiro.

2º. slogan: Dilma é homossexual

Esta frase tomou a forma de descaracterização do sujeito a partir de uma opção cuja orientação traz amarras com a ética e a moral religiosa tradicionalista.

Na verdade, a orientação sexual dos sujeitos não tem implicação direta na política pública, ainda que seja uma atitude política.

Uma vez mais, esta produção de valor moral, não revelou o perverso conteúdo de classe, cuja intenção é a de diminuir o sujeito a partir da manifestação preconceituosa de certas opções.

É mais uma forma encontrada pelo poder burguês para realçar o ponto de vista masculino dos produtores de imagem a partir da construção da idéia de que as qualificações técnicas passavam por esta escolha, baseada em um desvio de conduta.

Uma discriminação aberta que precisa negar o sujeito feminino, ao mesmo tempo em que o coloca em uma posição diminuída frente ao sujeito masculino.

3º. slogan: Dilma é favorável ao aborto

Este foi o mais ressaltado de todos os temas, em especial pela abertura política de visibilidade do poder das religiões de formarem juízos de valores sobre certos assuntos.

Em nenhum momento as posições de evangélicos e católicos foram acirradas para questionar o peso de uma decisão política baseada na tomada de partido nesta seara.

Aproveitou-se o tema para produzir um juízo de valor que reduz o debate à capacidade da mulher de ser capaz de decidir pela vida do outro ser, incluindo a opção de matá-lo.

O debate passou longe de dar visibilidade às reais condições concretas de sobrevivência das mulheres e do atual caráter de criminalização das mulheres.

Estas ausências explicitam o quanto este debate é bem mais profundo. Requer disputar politicamente o papel do Estado e das políticas públicas, em um momento histórico em que o número de mortes entre mulheres é muito alto, caracterizando um importante fato social.

Juntos, estes slogans revelam ao menos três violentas expressões do poder burguês.

1. A personificação do debate político

Infelizmente 2010 não será a última campanha eleitoral, em que presenciamos o tom pessoal e preconceituoso na disputa do poder institucional.

Uma das características da construção da disputa da direita é o de apelar para a conquista do apoio do outro a partir da ajuda, da caridade, no sentido dado ao voto.

Isto em lugar de se discutir projetos e a consolidação de programas cuja afirmação é a dos interesses da classe.

2. A construção de um ser mulher na ocupação do poder

Nas eleições de 2010 vivenciamos as históricas amarras sobre a função da mulher na sociedade, cujo papel é relegado, pelos mandatários, a um ser de bastidores.

Isto em meio às mudanças vividas cotidianamente por nós mulheres a partir de nossa inserção, sem volta, no mercado de trabalho e nos espaços políticos de representação e decisão.

Mudanças que provocaram uma intensificação de atividades em um tempo encurtado para dar conta de todas as demais tarefas historicamente relegadas a nós.

Vivemos uma explícita contradição entre o discurso masculino do poder e a prática múltipla das relações de gênero nas relações sociais.

3. A construção do juízo de valor ético e moral sobre o bem-mal, o certo-errado

Estes slogans estão ancorados em uma ética cuja moral é a de produzir um jeito único de se comportar frente aos múltiplos processos vividos em sociedade.

É fundamental para a ordem capitalista dominante que não seja permitido ao outro, liberdade no pensar e no agir.

A moral burguesa exige para o funcionamento em ordem do progresso que a ética manifeste a indução do livre arbítrio. Isto é uma produção política da ação dos sujeitos como espectadores em seu protagonismo restringido ao voto caridoso.

O que está por trás destas formas de construção?

Estes discursos não revelam a materialização do conteúdo de poder burguês, enquanto relação social dirigida pela classe dominante. Ocultam a necessidade de padronização das condutas que criam uma forma comum e específica de ser para a mulher, cujo conteúdo não pode ser politicamente distinto do que lhe foi concedido como destino pelos donos do poder.

O centro do debate é a relação de opressão e exploração de um sexo sobre o outro que reforça o domínio de uma classe sobre a outra e culmina na criminalização da mulher.

Estas formas evidenciam o processo de formação da consciência da classe dominante, em que o objetivo é padronizar para manter sua hegemonia no poder.

O voto faz saltar aos olhos que a voz do popular está muito distante de ser escutada e que dita indução do pensar, cria fetiches sobre o ser no poder.

Passado o plano eleitoral, é hora da reconstrução da classe, a partir da compreensão das particulares opressões de gênero e de raça-etnia.

É hora de projetar o direito de igualdade de condições na liberdade de produzir o que nos interessa como mulheres da classe trabalhadora. É hora de nos refazermos enquanto mulheres da classe.

É hora de exercermos o direito de disputar, construir e lutar pelo poder popular. Um novo poder que ao socializar os fatores e meios de produção garante para toda a classe o real sentido democrático da fraterna liberdade.

Roberta Traspadini é economista, educadora popular e integrante da Consulta Popular/ES.

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