Arquivos Mensais: novembro \30\UTC 2010

Apanha por causa de churrasco

Músico, que é deficiente físico e visual, foi espancadado e teve o maxilar e a clavícula quebrados, por sete homens em um bar
Publicado no Super Notícia em 30/11/2010
FOTO: THIAGO LEMOS

PRECONCEITO -Hudson Carlos de Oliveira está internado no Pronto-Socorro do Hospital João XXIII. A Polícia Civil aguarda comunicado da gravidade das lesões. Caso sejam consideradas graves, os suspeitos da agressão, poderão responder por lesão corporal. Ami
THIAGO LEMOS
PRECONCEITO -Hudson Carlos de Oliveira está internado no Pronto-Socorro do Hospital João XXIII. A Polícia Civil aguarda comunicado da gravidade das lesões. Caso sejam consideradas graves, os suspeitos da agressão, poderão responder por lesão corporal. Ami

Uma discussão iniciada por causa de um pedaço de carne em um churrasco terminou em pancadaria, anteontem à noite, em um bar no bairro Santa Efigênia, região Leste de Belo Horizonte. O músico Hudson Carlos de Oliveira, de 40 anos, que é deficiente visual e físico, foi espancado por sete homens que o acusaram de comer carne, sem autorização, durante o churrasco que eles promoviam. O músico, que teve o maxilar e a clavícula quebrados, disse que foi vítima de preconceito racial. Dois suspeitos das agressões foram detidos, mas foram liberados pela polícia.

De acordo com o diretor de teatro Lelo Silva, amigo da vítima que presenciou a confusão, ele, o músico e vários amigos estavam bebendo no bar, que fica na avenida Brasil. No mesmo local estava um outro grupo de pessoas que comemoravam o aniversário do jornalista Júlio César de Oliveira Anunciação, de 30 anos. Os dois grupos estavam em mesas na calçada em frente ao estabelecimento. Hudson conversava com o garçom que tomava conta da churrasqueira, quando o aniversariante se aproximou discutindo por achar que ele estava comendo sua carne.

Conforme o garçom, Charle Lúcio de Almeida, a vítima e ele conversavam quando aconteceu a discussão. “O dono da festa achou que ele estava pedindo comida e isso foi o que começou a confusão”. O diretor de teatro completou dizendo que o amigo pensou que a reclamação fosse uma brincadeira e perguntou para o jornalista se ele iria mesmo me negar um pedaço de carne. “O jornalista, de forma grosseira, disse que sim”, explicou Silva.

Revoltado com a afronta, Hudson insistiu em saber se aquilo era sério e perguntou novamente se o aniversariante estava “tirando ele”. Como a resposta foi positiva, Hudson pegou uma garrafa de cerveja para se defender, mas na confusão ela caiu e quebrou próximo do aniversariante. Os dois passaram a se agredir até que aproximadamente seis amigos do jornalista começaram a pancadaria. Tudo aconteceu a menos de 50 m do 1º batalhão da Polícia Militar.

Ferido, Hudson aproveitou que outros clientes do bar seguraram os agressores e conseguiu chegar ao batalhão, onde acionou os militares. Os amigos do músico ainda reclamaram que ele foi vítima de discriminação por parte dos militares. “Quando o Hudson chegou ao batalhão foi agredido com uma gravata pelo militar que estava na portaria. Depois, quando retornou ao bar, acabou sendo mais uma vez tratado como criminoso pelos outros militares que estavam no local”, disse o diretor de teatro Lelo Silva.

Moradores fazem protesto contra violência policial em Salvador

Os moradores do bairro Nordeste de Amaralina (Salvador, BA) realizam, neste domingo (28), a partir das 19h, caminhada pelas ruas do bairro, para exigir justiça e a punição dos envolvidos
na morte do garoto Joel, assassinado com um tiro na cabeça na noite do último domingo, dia 21.

Reprodução

Joel morreu vítima de um tiro quando estava em seu quarto, no bairro Nordeste de Amaralina (Salvador, BA).

A vereadora Olívia Santana (PCdoB) se solidariza com a família e vai participar do ato, pensado inicialmente para celebrar o mês da Consciência Negra. “Não podemos admitir que mais crianças tenham as suas vidas ceifadas. Joel foi vítima de uma sociedade racista, que vê em todo negro um marginal em potencial. Não vamos sossegar até que os culpados sejam punidos com severidade”, destaca a parlamentar.

Entenda o caso

Joel foi baleado na cabeça, por volta das 22h, do último domingo (21), quando se preparava para dormir. A criança estava dentro do seu quarto, no bairro Nordeste de Amaralina, em Salvador. Uma equipe da 40ª CIPM (Nordeste) fazia uma operação na região quando começou um tiroteio. O menino estava próximo à janela quando foi baleado. Joel foi levado para o Hospital Geral do Estado (HGE), mas não resistiu aos ferimentos e morreu. Filho de um mestre de capoeira, Joel acreditava que seguiria os mesmos passos do pai.

O secretário de Segurança Pública, César Nunes, visitou os pais do garoto no final da manhã de quarta-feira (24). “Quando ele colocou o dedo no buraco feito pela bala, começou a chorar”, contou a mãe de Joel, Mirian Moreno da Conceição Castro, 36 anos.

O Secretário de Segurança se emocionou e disse que também tem um filho, por isso entende a dor da família.

Nós viemos justamente para demonstrar o apoio da secretaria à investigação desse homicídio”, disse, emocionado. Sobre versões apresentadas, pela PM – de que o menino foi morto por traficantes – e pelos moradores – de que o tiro foi disparado pela polícia, o secretário disse que somente se pronunciará após o resultado da perícia. “Temos que ver a conclusão dos laudos para confrontarmos com as provas testemunhais”, declarou. O menino, em 2009, foi personagem de vídeo institucional do governo da Bahia.

Ela contou ainda que, enquanto conversavam no quarto onde o filho foi morto, o secretário chegou a perguntar se ela achava que houve ou não troca de tiros. “Eu disse para ele que não teve troca de tiros e que os PMs forjaram”. O secretário se comprometeu com a família a apurar o caso e encontrar o culpado, independente de ser um membro da corporação policial ou não. Ele afirmou ainda que o governador Jacques Wagner vai se reunir com a família da vítima, mas não precisou a data.

Protesto

Durante a visita do secretário, vizinhos fizeram manifestação e pedidos de justiça. O major da PM Josemar Pereira, responsável pelo inquérito administrativo, foi questionado sobre os nomes dos nove PMs envolvidos na operação. Ele disse que não serão divulgados por uma “decisão da instituição”.

Os moradores se queixam da forma de abordagem da polícia no Nordeste de Amaralina. “O que me dói é que não foi uma troca de tiros ou uma fatalidade, foi um assassinato. Como é que uma bala perdida veio na direção de meu filho?”, questionou indignada a mãe de Joel.

Depois do caso de Joel, a comunidade do Nordeste ficou ainda com mais receio das abordagens da PM. Os moradores se sentem acuados. “Eles já entram batendo. Não quer saber se é marginal ou pai de família”, relatou um mestre de capoeira que mora no bairro.

Menino de 15 anos relata agressões cometidas por policiais no bairro

Intimidação

No mesmo dia em que Joel foi morto, PMs da 40ª CIPM retornaram ao local e ainda ameaçaram um estudante de 15 anos que mora na região. É o próprio quem relata o fato. “Eles me mandaram ficar no chão, botaram o pé na minha cabeça e disseram que iriam me matar”, contou o menino, estudante da 8ª série. A ação só foi interrompida quando um vizinho saiu de casa e reconheceu o garoto.

“Ele é meu sobrinho”, mentiu para que os policiais parassem. O avô do estudante se emociona ao relembrar de quando a PM entrou na sua residência há quatro meses. “Estou com 79 anos. Nunca vi uma coisa igual”, disse chorando. As crianças estão traumatizadas. “Quando meu neto vê a viatura, fica com medo”, revelou, referindo-se a outro neto de 7 anos que presenciou os PMs revistarem a casa e ainda agredirem um tio. “A polícia aqui é pior que o vagabundo”, reforçou um morador.

A Polícia Militar não respondeu às denúncias feitas por moradores do Nordeste sobre a violência nas abordagem de policiais. Nesta quinta-feira (25), o major Josemar Pereira Pinto, comandante da 58ª Companhia, na Vila Laura, esteve na casa dos pais do menino Joel para visitar a família e notificá-los para depor na sexta-feira (26). Ele preside as investigações da Corregedoria da PM. A titular da 28ª Delegacia, no Nordeste, Jussara Souza, ouviu mais três testemunhas ontem. Elas confirmaram a versão de que os policiais chegaram ao local atirando.

Abordagem muda em cada bairro, diz PM

O presidente da Associação de Praças da Polícia Militar do Estado da Bahia, sargento Agnaldo Pinto, ao tentar negar a violência das abordagens policiais, admitiu a diferença das abordagens a depender do bairro. “Não existe isso. Trabalhei na rua e sei. Agora, a abordagem é uma coisa chata, antipática, ninguém gosta de ser revistado”, argumentou. Pinto, entretanto, admitiu que o alto índice de criminalidade do bairro exige mais energia da PM. “As pessoas têm que entender que a energia que a gente vai empreender numa abordagem no Nordeste não é a mesma do Caminho das Árvores, que é um bairro sem essa violência”, disse.

Para tentar justificar a violência com a população, o sargento chegou a acusar os moradores de colaboração como o crime organizado. Ele afirmou que as denúncias são uma forma de agradar traficantes. “Às vezes há uma cumplicidade com bandidos. No Nordeste, há grande quantidade de marginais. É melhor falar mal da polícia do que de bandido, senão morre”.

Polícia acha projétil 3 dias após crime

Ontem, três dias após o assassinato de Joel, agentes da 28ª Delegacia, no Nordeste de Amaralina, e do Departamento da Polícia Técnica encontraram um projétil na parede dos fundos da casa do garoto. A bala não foi vista na primeira perícia após o crime, no domingo.

“Estamos dirimindo dúvidas”, explicou a delegada da 28ª DP, Jussara Souza, que investiga o caso. A delegada disse que o procedimento não foi feito no dia em que ocorreu o crime porque “tinha muita movimentação”.

Da redação, Luana Bonone, com informações do Correio da Bahia

Batalha Internacional de B-Boys terá a participação de dois brasileiros

Neguim e Kapu representam o país em Tóquio neste sábado, 27

Redação – Ragga

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Dean Treml/ Red Bull Photofiles
O estreante Kapu treina seus passos em Tóquio

Os 16 melhores b-boys do planeta se reunirão neste sábado, 27, em Tóquio no Japão, para a Batalha Internacional de B-Boys. O Brasil está representado na disputa pelos b-boys Neguin – que impressionou o júri na competição de 2009 e Kapu, que participa pela primeira vez do evento.

Os 16 competidores foram escolhidos por um júri especializado, que avalia os candidatos por sua habilidade, personalidade e estilo. Estes quesitos também são determinantes durante a competição.

Em sua segunda participação, Neguin já figura entre os principais nomes do break dance internacional e vive na ponte aérea Nova York-Londres. Já o paraense Kapu, que ganha a vida com sua própria arte, afirmou que participar da competição é a realização de seus sonhos.

A Batalha Internacional de B-Boys é realizada desde 2004, sempre em uma cidade diferente do planeta. A edição deste ano será transmitida ao vivo, a partir das 8h da manhã (horário de Brasília), no site redbull.com.br.

Mulher: o ser e o poder

É hora de projetar o direito de igualdade de condições na liberdade de produzir o que nos interessa como mulheres da classe trabalhadora


Roberta Traspadini

A campanha eleitoral de 2010 foi um bom retrato do que o capital projeta sobre as mulheres da classe trabalhadora: um tipo particular de escravidão econômica e de dominação política institucional. Uma aposta na posição periférica da mulher, na disputa e na execução do poder.

Analisemos três discursos públicos levantados a partir da construção de uma imagem sobre a mulher. O que nos interessa aqui é o papel colocado pelo capital para este sujeito, a partir da construção política de certas imagens.

1º. slogan: Dilma é guerrilheira

O tema da guerrilha nos exige fazer uma profunda e necessária discussão sobre o processo histórico da luta de classes no Brasil e na América Latina. Exige que revelemos com base no momento particular de nossa história, o processo da ditadura militar sustentada no Estado de exceção, que fomentava a disputa via luta armada.

Mas este fato deslocado do seu contexto ganha uma dimensão de loucura, perigo, temor quando deveria evidenciar a tomada de posição na guerra aberta entre capital e trabalho, dentro do território brasileiro.

2º. slogan: Dilma é homossexual

Esta frase tomou a forma de descaracterização do sujeito a partir de uma opção cuja orientação traz amarras com a ética e a moral religiosa tradicionalista.

Na verdade, a orientação sexual dos sujeitos não tem implicação direta na política pública, ainda que seja uma atitude política.

Uma vez mais, esta produção de valor moral, não revelou o perverso conteúdo de classe, cuja intenção é a de diminuir o sujeito a partir da manifestação preconceituosa de certas opções.

É mais uma forma encontrada pelo poder burguês para realçar o ponto de vista masculino dos produtores de imagem a partir da construção da idéia de que as qualificações técnicas passavam por esta escolha, baseada em um desvio de conduta.

Uma discriminação aberta que precisa negar o sujeito feminino, ao mesmo tempo em que o coloca em uma posição diminuída frente ao sujeito masculino.

3º. slogan: Dilma é favorável ao aborto

Este foi o mais ressaltado de todos os temas, em especial pela abertura política de visibilidade do poder das religiões de formarem juízos de valores sobre certos assuntos.

Em nenhum momento as posições de evangélicos e católicos foram acirradas para questionar o peso de uma decisão política baseada na tomada de partido nesta seara.

Aproveitou-se o tema para produzir um juízo de valor que reduz o debate à capacidade da mulher de ser capaz de decidir pela vida do outro ser, incluindo a opção de matá-lo.

O debate passou longe de dar visibilidade às reais condições concretas de sobrevivência das mulheres e do atual caráter de criminalização das mulheres.

Estas ausências explicitam o quanto este debate é bem mais profundo. Requer disputar politicamente o papel do Estado e das políticas públicas, em um momento histórico em que o número de mortes entre mulheres é muito alto, caracterizando um importante fato social.

Juntos, estes slogans revelam ao menos três violentas expressões do poder burguês.

1. A personificação do debate político

Infelizmente 2010 não será a última campanha eleitoral, em que presenciamos o tom pessoal e preconceituoso na disputa do poder institucional.

Uma das características da construção da disputa da direita é o de apelar para a conquista do apoio do outro a partir da ajuda, da caridade, no sentido dado ao voto.

Isto em lugar de se discutir projetos e a consolidação de programas cuja afirmação é a dos interesses da classe.

2. A construção de um ser mulher na ocupação do poder

Nas eleições de 2010 vivenciamos as históricas amarras sobre a função da mulher na sociedade, cujo papel é relegado, pelos mandatários, a um ser de bastidores.

Isto em meio às mudanças vividas cotidianamente por nós mulheres a partir de nossa inserção, sem volta, no mercado de trabalho e nos espaços políticos de representação e decisão.

Mudanças que provocaram uma intensificação de atividades em um tempo encurtado para dar conta de todas as demais tarefas historicamente relegadas a nós.

Vivemos uma explícita contradição entre o discurso masculino do poder e a prática múltipla das relações de gênero nas relações sociais.

3. A construção do juízo de valor ético e moral sobre o bem-mal, o certo-errado

Estes slogans estão ancorados em uma ética cuja moral é a de produzir um jeito único de se comportar frente aos múltiplos processos vividos em sociedade.

É fundamental para a ordem capitalista dominante que não seja permitido ao outro, liberdade no pensar e no agir.

A moral burguesa exige para o funcionamento em ordem do progresso que a ética manifeste a indução do livre arbítrio. Isto é uma produção política da ação dos sujeitos como espectadores em seu protagonismo restringido ao voto caridoso.

O que está por trás destas formas de construção?

Estes discursos não revelam a materialização do conteúdo de poder burguês, enquanto relação social dirigida pela classe dominante. Ocultam a necessidade de padronização das condutas que criam uma forma comum e específica de ser para a mulher, cujo conteúdo não pode ser politicamente distinto do que lhe foi concedido como destino pelos donos do poder.

O centro do debate é a relação de opressão e exploração de um sexo sobre o outro que reforça o domínio de uma classe sobre a outra e culmina na criminalização da mulher.

Estas formas evidenciam o processo de formação da consciência da classe dominante, em que o objetivo é padronizar para manter sua hegemonia no poder.

O voto faz saltar aos olhos que a voz do popular está muito distante de ser escutada e que dita indução do pensar, cria fetiches sobre o ser no poder.

Passado o plano eleitoral, é hora da reconstrução da classe, a partir da compreensão das particulares opressões de gênero e de raça-etnia.

É hora de projetar o direito de igualdade de condições na liberdade de produzir o que nos interessa como mulheres da classe trabalhadora. É hora de nos refazermos enquanto mulheres da classe.

É hora de exercermos o direito de disputar, construir e lutar pelo poder popular. Um novo poder que ao socializar os fatores e meios de produção garante para toda a classe o real sentido democrático da fraterna liberdade.

Roberta Traspadini é economista, educadora popular e integrante da Consulta Popular/ES.

O Rap e Cozinha São Aliados e Rimam Perfeitamente.

Eus-R*

Uma vida é uma vida e deve ser vivida na sua total plenitude. Continuar Lendo →

A consciência negra

O Brasil celebra, comemora, protesta e entra definitivamente na sua conscientização negroide

Alexandre Braga

O Brasil celebra, comemora, protesta e entra definitivamente na sua conscientização negroide. Esse fato venceu as teses morenistas, que pregavam que seríamos uma nação atrasada por causa da nossa herança africana ou porque uma possível ascendência negra iria nos envergonhar. Todo esse repertório falacioso perdeu força e caiu no desgosto da população, apesar de se passarem tantos anos de exclusão étnica. Hoje, a consciência negra, que virou uma agenda pública mensal, significa o reconhecimento dessa importante herança negra para o sucesso societário brasileiro. As ações afirmativas, dela oriundas, são a aplicação prática dos preceitos que estão na Constituição Federal, na ideologia e no ethos do nosso povo. Mesmo que com um reconhecido atraso na disponibilização de ferramentas para superar as diferenças entre brancos e negros ( incluindo os próprios “morenos”, os pretos e os pardos), o Brasil está na rota certa para avançar na construção da democracia racial, que pode tornar-se realmente um fato. Somente na educação há em torno de 90 das melhores universidades que usam os mecanismos especiais de inclusão educativa para beneficiar os estudantes de camadas pobres, aplicando também o recorte étnico-racial. Na saúde, cultura, empregabilidade, também há ações voltadas para a inclusão de negros e seus descendentes.

Na literatura, teremos muito trabalho para revisar os livros didáticos usados por nossos pupilos nas escolas, como recomenda a Lei nº 11.645 – sobre o ensino da cultura afroindígena nos colégios brasileiros. Por exemplo, somente o IBGE calcula que precisaremos de pelo menos 20 anos de políticas voltadas para as ações afirmativas para colocar brancos e negros em níveis mínimos de igualdade. Portanto, a lembrança de datas como essas, do mês da consciência negra, têm um viés político muito forte: a resistência venceu a escravidão. Por isso, suas atividades vêm carregadas de tempero emocional. Dessa forma, o Dia da Consciência Negra traz consigo tantas e variadas atividades, como as marchas para aumentar a consciência do pertencimento étnico, os protestos mais raivosos e justos, e as homenagens aos homens e mulheres negros ( Zumbi e Dandara, líderes da República de Palmares; Osvaldão, líder da Guerrilha do Araguaia; Machado de Assis, escritor; André Rebouças, engenheiro especialista em engenharia hidráulica-ferroviária e de portos; Chiquinha Gonzaga, compositora, pianista e primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, João Cândido, líder da Revolta da Chibata; entre outros), que, de alguma forma, ajudaram na construção da riqueza da nação mais negra fora do continente africano. E o maior significado desse dia é que, longe do ranço contra quem quer que seja, hoje a população negra, ou os 49,8% do povo brasileiro, luta pelo cumprimento do plano de ação assumido na Conferência da ONU contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata ,em 2001, e pelas propostas da Conferência Nacional de Promoção de Igualdade Racial, organizada em 2005 pelo governo brasileiro.

Além disso, o Movimento Negro quer justiça social aos próprios negros, aos povos de tradição indígena e aos demais grupos que durante a construção dessa nação-continente tiveram seus direitos humanos violados. Ou seja, no século XXI o debate sobre as alternativas para o desenvolvimento sustentável, as soluções para superação dos conflitos étnicos e o combate ao preconceito e às desigualdades sócio-raciais se dão entrelaçadas pelo culto à capacidade de resistência dos povos e pelo clamor por equidade. É inegável a herança africana na culinária, na dança, no ethos do nosso povo, mas é inegável também o atraso com que o Estado brasileiro trata essas questões. Às vezes, quando as assumem, o faz lentamente e de forma mais para negro ver do que para negro ter justiça e respeito de fato.

Alexandre Braga é Coordenador de Comunicação da UNEGRO-União de Negros Pela Igualdade, Tesoureiro do FOMENE – Fórum Mineiro de Entidades Negras, africanista e articulista de jornais no Brasil e África. Seu e-mail é bragafilosofia@yahoo.com.br.

Desconstruir o preconceito contra o nordestino

Casos de intolerância contra nordestinos mostram como setores da sociedade agem para proteger a estrutura social da qual fazem parte

Eduardo Sales de Lima

da Redação

A estudante de direito Mayara Petruso clamou, por meio de uma rede social na internet, por um assassinato em massa. “Nordestino não é gente, faça um favor a São Paulo, mate um nordestino afogado!”. A moça proferiu isso por conta da vitória de Dilma Rousseff (PT) nas eleições presidenciais, atribuindo sua vitória ao voto dos nordestinos.

A atitude dela, entretanto, apenas traça uma caricatura histórica de alguns setores da sociedade brasileira, especialmente o sulista. É de muito que a infelicidade do preconceito encontra eco nas classes médias e elites do país.

Um exemplo disso. Diogo Mainardi, no artigo “Com Dilma, o PT chega em quinto”, escrito para a revista Veja, esbaldou-se da visão racista do jornalista carioca Euclides da Cunha (autor de Os Sertões, morto em 1909) para criticar o povo brasileiro e nordestino.

Diz o texto de Mainardi: “analisando a campanha de Canudos, Euclides da Cunha delineou perfeitamente o caráter nacional”. O articulista de extrema-direita, ao criticar a vitória de Dilma Rousseff e a continuidade do governo petista, capitaneado com relativo sucesso por um pernambucano, afirma que Euclides da Cunha compreende a mente e o comportamento dos brasileiros quando assemelha os seguidores de Antônio Conselheiro a “retardatários”, dotados de uma “moralidade rudimentar” e com uma série de “atributos que impediam a vida num meio mais adiantado e complexo”.

Construção

Como testemunha viva da história recente brasileira, o sociólogo pernambucano e professor aposentado da Universidade de São Paulo (USP) Chico de Oliveira, que trabalhou na Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste) ao lado do economista Celso Furtado, cita um exemplo e elucida ainda mais o papel de figuras da elite brasileira e paulista na construção do preconceito em relação aos nordestinos.

Eu ouvi de Júlio de Mesquita Filho, na minha cara e na cara de Celso Furtado, há quarenta anos, num seminário promovido aqui em São Paulo, dizer que os esforços para desenvolver e industrializar o Nordeste eram em vão, porque o nordestino não tinha mentalidade para a indústria”, conta. Tratava-se, segundo Chico, de uma afirmação, antes de tudo, racial. “Era um líder do jornal Estado de S. Paulo, e o pior é que o Estadão fez a cabeça de metade dos paulistas”, diz.

De fato, anos após a infeliz manifestação de Júlio de Mesquita Filho, ou das ponderações de Euclides da Cunha em Os Sertões, o preconceito contra o nordestino arraigou-se não apenas na elite, segundo comprova a recepcionista baiana Juciara Nascimento da Silva, de 25 anos, que vive no bairro do Capão Redondo, na zona sul de São Paulo, há seis anos.

Logo que chegou a São Paulo (SP), Juciara cursou o primeiro ano do ensino médio no Colégio Davi Aguiar Dias, no bairro onde mora. Ela revela que o fato de ser baiana e negra foi primordial para ser um dos alvos principais de gozação da turma. “Me chamavam de ‘nega preta’ e ‘nega encardida’; eu queria voltar para minha casa, na Bahia, e não ir mais para a escola”, conta.

Como o preconceito é, sobretudo, ideológico, segundo nos afirma a ex-prefeita de São Paulo e atual deputada federal reeleita pelo PSB (SP), Luiza Erundina, nem sempre ele aparece de forma explícita. “As próprias piadas e certas reações jocosas, aparentemente inofensivas, são expressão desse preconceito arraigado e incorporado em nosso comportamento”, salienta Erundina. Segundo ela, que é paraibana, ninguém está isento disso: “até mesmo nós, eventualmente vítimas desse tipo de comportamento, nos pegamos tendo reações que o reafirma”, pontua.

Desconstrução

Luiza Erundina pondera que os últimos atos de agressividade empenhados contra nordestinos – surgidos, sobretudo, no estado de São Paulo –, como o da estudante de direito, ocorrem em momentos mais “agudos” da história, de mudança. Ela lembra que o Brasil foi governado por oito anos por Lula, e, agora, terá como presidente uma mulher. Para a deputada, acontecimentos que fogem dos padrões provocam manifestações ideológicas, de intolerância contra o diferente – “do ponto de vista de raça, de gênero, de origem, de classe social” – que “ousa ocupar espaços historicamente ocupados por determinados segmentos da sociedade”.

Veio, então, uma sacada, com o fim de reforçar a desconstrução do preconceito contra o nordestino. Segundo conta Erundina, ela nunca se sentiu diminuída ou humilhada por sofrer preconceito. Ao contrário. “Fiz dessas questões das quais eu era vítima um pretexto para reforçar minha participação na luta contra o preconceito e a discriminação”, salienta.

Para ela, “se ficarmos recolhidos, vitimizados ou diminuídos, estaremos contribuindo para a reprodução dessa cultura que precisa ser mudada. E cultura não se muda nem por lei, nem por vontade de um e de outro, mas é uma mudança de mentalidade de uma maioria de determinada sociedade”, explica a paraibana.

A baiana Juciara engrossa o coro com a ex-prefeita e atesta que, quando retornar à sala de aula para completar o segundo e o terceiro anos do ensino médio, nenhum tipo de ato preconceituoso vai incomodá-la.

O conselho da paraibana à baiana e a todos os brasileiros afeitos à tolerância é: “temos que ter paciência histórica, como dizia Paulo Freire, e não nos sentir diminuídos; temos que travar essa luta”.

Portas abertas para artistas em vários projetos de BH

Thaís Pacheco – Estado de Minas

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Euler Junior/EM/D.A Press
Brenda Mars, Gustavo Bueno, Patrícia Mara, Ícaro Moreno Ramos, Geraldo Rodrigues e Leone Soares, que estão na mostra Fotografe jazz, no Café com Letras
Atenção trabalhadores da cultura: há vagas. Vários projetos em BH estão de braços abertos para receber novos artistas e ajudá-los a começar a mostrar a cara e o talento. As iniciativas partem de ações privadas ou de equipamentos dos governos municipal e estadual. “Gente que teve por onde não precisa de mim”, brinca Bruno Golgher, proprietário do Café com Letras, ao ser perguntado se quem o procura são artistas talentosos que não tiveram onde mostrar o trabalho.
Conhecido agitador cultural da cidade, o Café com Letras, localizado no coração da Savassi, promove diversos eventos protagonizados por artistas que ainda circulam longe dos holofotes. No espaço há apresentações de bandas de jazz e DJs, exposições de fotógrafos, individuais ou coletivas, concurso de design, além dos constantes lançamentos de livros, “principalmente de autores independentes”, como garante Bruno.
Outro projeto é fazer com que a arte vire renda para seus produtores. O Café criou uma parceria com o instituto Cidades Criativas (do qual Bruno é presidente) e está se tornando uma editora que já tem oito livros lançados. Em breve eles vão produzir e lançar discos. Na exposição em cartaz no espaço, Fotografe jazz, as imagens vão virar cartões-postais e, se vendidas, o valor arrecadado será dividido com o artista. A atual exibição mistura fotógrafos amadores e profissionais, escolhidos por concurso aberto e democrático.
Para fazer a curadoria, Bruno conta com o apoio de amigos especialistas, que formam bancas. As razões que o levam a manter as iniciativas culturais desde 1996 são, para ele, naturais: “Faço porque é legal. Parece-me a coisa certa a ser feita”. Ele garante que a ação é boa para o estabelecimento e acredita que seja interessante também para os artistas.
Cor local Do outro lado da cidade, no Centro de Cultura Lagoa do Nado, a chefe do departamento, Elke Houghton, garante que, como equipamento municipal, abrir esse espaço é função primordial. “Os centros de cultura seguem a política cultural de cidade de democratização do acesso aos bens culturais. Hoje, temos cerca de 17 centros culturais, sem contar os museus”, contabiliza. “Por estar próximos à população, os centros têm algumas especificidades. Além de trazer atividades, têm necessidade de abrir o espaço para a população. A função não é apenas participar dos eventos culturais, mas mostrar os talentos locais”.
O Centro Lagoa do Nado completa 18 anos em 23 de dezembro e recebe, em média, 70 mil pessoas por ano, que consomem cerca de 500 atividades no período. Entre elas, exposições, mostras de filmes, shows, peças de teatro, performances e até atividade ligada à gastronomia mineira. Há projetos voltados para a memória e patrimônio cultural e uma biblioteca com 7 mil títulos.
Além disso, o centro fica dentro de um parque. “Queremos unir os dois conceitos de diversidade: cultural e ambiental. Nos editais há dois documentos básicos, a Agenda 21 ambiental e a Agenda 21 da cultura”, conta Elke. Os editais para apresentação no Centro da Lagoa do Nado são abertos a todos e para todas as apresentações. “Em todos os editais é o mesmo valor. Cada projeto aprovado recebe R$ 800 como premiação. A gente acha que o valor ainda não é o ideal, mas é dentro dos nossos recursos”, explica a diretora.
Atualmente, o Centro de Cultura Lagoa do Nado está com as portas abertas para seleção de exposições, espetáculos de artes cênicas e apresentações musicais. As regras estão em http://www.pbh.gov.br/cultura – no link Licitações e Editais.
Poesia livre No Centro da cidade, nos jardins do Palácio das Artes, o governo estadual abriu as portas para o poeta Wilmar Silva. Em parceria com a Fundação Clóvis Salgado, ele realiza o projeto Terças poéticas. Para Wilmar, abrir portas é condição primária do evento. “Acho que abrir espaço é condição de qualquer projeto, seja de poesia ou outra manifestação artística, e não ficar repetindo a mesma coisa, por mais genial que seja. Não há como pensar, por exemplo, as diferenças entre gerações quando não reconhecemos que há diferenças”, define.
No Terças poéticas também há curadoria. Isso é necessário porque o fato de o poeta ser novo ou desconhecido não tem ligação com a qualidade do trabalho. “Se entrasse qualquer coisa, cairia no discurso de que tudo é arte. Tudo pode? Sim, mas nem tudo é arte. Aqui, o que determina uma obra de arte é a linguagem. Há de ter um relativo rigor estético, de linguagem”, justifica Wilmar.
No Terças poéticas, o trabalho também pode ser oferecido e vendido ao público, além de gerar visibilidade. “O poeta vai participar de um projeto que tem solidez, que ocorre dentro do Palácio das Artes, que ganha espaço na mídia e com público formado e assíduo”, garante o organizador. Também há pagamento para custear despesas. Os valores variam de acordo com a localização do poeta convidado, se é da capital ou se vem de outro município ou estado. Os valores variam entre R$ 178 e R$ 534. “No caso de poesia, se considerarmos o histórico, qualquer valor é uma remuneração”, conta Wilmar.
Também no Palácio das Artes, a primeira apresentação deste ano da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais cedeu o lugar mais importante para um estreante. Em março, o solista da apresentação foi o violoncelista Lucas Barros. O detalhe é que Lucas tem 13 anos. Foi convocado depois de vencer o 1º Concurso Jovens Solistas da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, na categoria cordas. O concurso foi público e aberto. A preocupação em abrir espaço para grandes musicistas é defendida pelo maestro Roberto Tibiriçá, que reconhece a falta de espaço para esses talentos, especialmente os mais jovens.
O que o artista precisa – além de um bom trabalho – é disposição de procurar as possibilidades e nenhuma timidez para entregar uma amostra do que produz a quem aponta com essa possibilidade. Seja entregando um CD na mão do dono do Café com Letras, enviando um e-mail para o Wilmar Silva (wilmarsilva@wilmarsilva.com.br) ou se inscrevendo em um dos vários editais disponíveis. Não há mágica. Além de inspiração, é preciso um pouco de transpiração.

A valorização e o dia da Consciência Negra em Brasília

22 de novembro de 2010


Eu já estava acostumado a ser feriado no dia 20 de novembro, dia da Consciência Negra, em São Paulo. Mas Brasília, assim como a maioria das cidades e/ ou unidades da federação, ainda não transformou esse dia em feriado. Sinto falta não só porque é um feriado, eba, piscina, mas também porque vi que, pelo menos, as pessoas param para saber do que se trata.
Tenho percebido e valorizado a importância da sensibilização, ou seja, das pessoas pelo menos saberem que aquilo se trata de uma pauta. Muitas vezes, os setores especializados, por exemplo, em Direitos Humanos, têm debates super qualificados e avançados. Mas aquilo não é uma pauta da sociedade, não ganhou corpo. Daí a importância da sensibilização, daquilo que o terceiro setor, com sua mania de produzir um jargão próprio, chama de awareness.
Eu percebia, em São Paulo, que seja pela piada (aê, feriado, viva os negão), seja pela curiosidade, haver um evento chamado de Consciência Negra, isso, de alguma forma, ainda insipiente, ainda inicial demais, chegava na cabeça das pessoas. Aqui, não teve feriado, foi só mais um dia. Em Brasília, capital federal, o dia da Consciência Negra, com o perdão do trocadilho, passou em branco.

Sô negão
Pensei nisso hoje. O presidente Lula falou do dia da Consciência Negra hoje, no seu programa semanal, dizendo que a desigualdade ainda está longe de acabar no Brasil etc. Publiquei uma matéria sobre isso (sou editor de política de um jornal diário, gratuito, distribuído majoritariamente para as classes C, D e E), com uma foto da Agência Brasil, de uma moça negra com um cartaz. Na mesma página, eu havia colocado uma matéria sobre o Senado. O diagramador, que é negro e tem o apelido nada original de “Negão”, colocou a foto do Senado como sendo a da matéria do Lula.

Pauta secundária
Isso me fez pensar, também, como há pautas que são consideradas “secundárias”, da extrema esquerda à extrema direita. A questão das mulheres e de gênero, a questão racial, a questão da infância e adolescência, a dos direitos humanos – são todas secundarizadas em detrimento do “que importa mesmo”, ou seja, a produção, o dinheiro, o poder. Vã inocência. Quem perceber que isso tudo está ligado ganha um prêmio.

Atraso
Mesmo dentro da esquerda, muitas vezes, há dificuldade em pautar essas coisas. Certas correntes de pensamento ainda, até hoje, acham que essas pautas “menores” distraem os militantes de esquerda da “real” luta, que é pelo poder.

Atraso ainda maior
Na chamada direita, então, nem se fala. Muitas vezes esse é o setor da sociedade mais atrelado a ideologias antigas, que, na minha modestíssima opinião, precisam ser desconstruídas, pois ainda fazem parte, muito fortemente, do senso comum, médio, da população.

Exemplos
Imediatamente me vêm à mente o juiz, suspenso recentemente pelo Conselho Nacional de Justiça, que não deu seguimento a um processo com base na Lei Maria da Penha por justificativas religiosas, dizendo que o mundo é masculino, que essa é a ordem divina, como está escrito na Bíblia, e que essa lei era demoníaca. Ou do deputado federal do Rio de Janeiro, reeleito mais uma vez pela orgulhosa família militar fluminense, que falou, em canal público, que está tudo bem bater em filho que está ficando “meio gay”, e que um monte de gente, hoje, agradece aos pais por terem tomando uns safanões.

Os outros e nós
Voltando à foto da moça negra que eu usei na matéria de hoje, sinto que há uma percepção generalizada, que tem a ver com tudo isso que eu escrevi da “secundarização” de determinados assuntos, de que esses temas, justamente, são secundarizados não só por quem está envolvido na política, mas pelo público em geral. O fato de, só porque a matéria falava do Lula, se colocar uma foto do Senado, porque é “dessas coisas de política”, e não da moça negra, mostra isso para mim. O que uma moça negra estaria fazendo em meio a um monte de gente “séria”, homens sisudos, de bigode, terno e gravata?

Ideologia média
Claro que, em nenhum momento, condenei o diagramador. Ele não tem obrigação nenhuma de ler a matéria, e eu que deveria ter indicado, com mais clareza, qual foto ia aonde. O erro foi meu. Só usei-o como exemplo, pois foi isso que me fez parar para pensar. Sem nenhuma intenção de expôr ninguém.

Rodrigo Mendes de Almeida, jornalista, colunista do NR é editor do Jornal da Comunidade em BSB.

A história que o país ignora

Revolta da Chibata completa um século como uma página em branco no meio acadêmico. Marco da insurreição dos negros, fato é desconhecido dos alunos e a data esquecida nas escolas

JULIANA ABADE
jgomes@jornaldacomunidade.com.br
Redação Jornal da Comunidade

Jacira da Silva, do MNU, diz que a participação do negro na construção da história do país é desvalorizadaFoto: Dênio SimõesJacira da Silva, do MNU, diz que a participação do negro na construção da história do país é desvalorizada

Nos livros de história do Brasil podemos conhecer importantes personagens do nosso passado, como o marinheiro João Cândido, herói da Revolta da Chibata. João Cândido liderou, há exatos 100 anos, o motim no qual dois mil marujos negros obrigaram a Marinha a extinguir punições desumanas praticadas contra eles. Os combatentes conseguiram seu objetivo, mas uns foram expulsos dos quadros da corporação; outros, presos ou mortos. Recentemente, João Cândido saiu da condição de personagem esquecido da história. Em 2008, uma lei concedeu anistia póstuma a ele e a outros marinheiros envolvidos no motim.

Porém, no ano do centenário da Revolta da Chibata, João Cândido e os demais revoltosos continuam esquecidos no meio acadêmico. No dia 22 de novembro a Revolta da Chibata completou um século e nada se ouve falar sobre a data nas escolas. Pelo contrário, o que se vê é a ignorância dos alunos, que desconhecem a história desse embate e de seu líder, que ficou conhecido como o Almirante Negro. Discriminado, perseguido, este herói brasileiro morreu de câncer sem ter seu feito reconhecido. Em 2005 seu nome foi escrito no Livro de Heróis da Pátria no Panteão, na Praça dos Três Poderes, em Brasília.

Jacira da Silva, coordenadora do Movimento Negro Unificado do Distrito Federal (MNU-DF), diz que existe uma desvalorização da participação do negro na construção da história do país. “Isso acontece desde o passado, desde o sistema escravocrata. Falta a participação do negro na mídia e nos postos de destaque das empresas”, reclama.

O MNU é uma entidade nacional que surgiu em 1978, após a ditadura militar. Em Brasília, o movimento surgiu em 1981 com o objetivo de combater o racismo, lutar pela superação das desigualdades que atingem os afro-descendentes, agindo de forma propositiva nos debates com variados setores da sociedade. “Estamos indignados com as instituições que esqueceram o centenário dessa luta contra o racismo que aconteceu na Marinha brasileira”, diz Jacira da Silva.

Jacira acha que a Revolta da Chibata somente começou a ser evidenciada no governo Lula. “Foi nesse governo que começou o processo de anistia. No ano passado a família de João Cândido esteve em Brasília e recebeu uma medalha do ministro da Educação. A anistia foi assinada. Os valores ainda não condizem com a luta de João Cândido, mas acredito que chegará o dia em que todo o esforço daquele homem será reconhecido”.


Episódio manchou uma República que mal começava

Em quase todo o mundo a Marinha jogou pesado com a marujadaEm quase todo o mundo a Marinha jogou pesado com a marujada

A Revolta da Chibata foi um motim importante do ponto de vista da luta contra a segregação racial, ocorrido no início do século XX na cidade do Rio de Janeiro, então capital da República. Começou no dia 22 de novembro de 1910.

Naquele período, a Marinha estava dividida: os oficiais eram brancos e a marujada formada por negros e mulatos, aos quais eram infligidos castigos físicos. As faltas graves eram punidas com chibatadas. Uma situação insuportável, tendo em vista que a escravidão havia sido abolida.
A chibata era um instrumento de tortura que consistia em um chicote com uma bola cheia de pregos em uma ponta. Aquela situação gerou uma intensa revolta entre os marinheiros. O estopim ocorreu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas por ter ferido um colega da Marinha, dentro do encouraçado Minas Gerais.

O navio de guerra dirigia-se para o Rio de Janeiro e a punição, aplicada na presença dos outros marinheiros, desencadeou a revolta. O motim se agravou e os revoltosos chegaram a matar o comandante do navio e mais três oficiais. Já na Baía da Guanabara, os revoltosos conseguiram o apoio dos marinheiros do encouraçado São Paulo. O clima ficou tenso e perigoso. O líder da revolta, João Cândido, que ficaria conhecido como “Almirante Negro”, redigiu uma carta reivindicando os termos da rendição: fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação para os marujos e anistia para todos que participaram da revolta. Caso não fossem cumpridas as reivindicações, os revoltosos ameaçavam bombardear a então capital da República.

Diante da grave situação, o presidente Hermes da Fonseca “aceitou” o ultimato dos revoltosos. Porém, após os marinheiros terem entregue as armas e embarcações, o presidente providenciou a expulsão de alguns revoltosos. Outros foram presos e enviados para a Amazônia, onde deveriam prestar trabalhos forçados na produção de borracha. Mas muitos foram assassinados no caminho. O líder da revolta, João Cândido, expulso da Marinha, acabou internado como louco no Hospital de Alienados. No ano de 1912 foi absolvido das acusações junto com outros marinheiros que participaram da revolta e morreu pobre, vendendo peixe na Praça XV, centro da cidade.


Estudantes revelam desconhecimento

Muitos estudantes não conhecem, ou esqueceram, a história da Revolta da Chibata. O aluno de ciência da computação na UnB Wesley Vágner, 20 anos, comprova isso. “Se não me engano a Revolta da Chibata ocorreu no Sul. Havia marinheiros que apanhavam, por isso aconteceu a revolta”, diz. A estudante de jornalismo Taise Côrte também admite que esqueceu a data. “A única coisa que ainda lembro sobre isso é que foi um movimento comandado por militares da Marinha e que o responsável foi o João Cândido Felisberto”.

Os estudantes afirmam que a história do negro não é ensinada nas escolas. “Sinceramente, na rede pública de ensino são poucos os professores que realmente ensinam história e não apenas mandam os alunos lerem o conteúdo do livro. Acredito que para ensinar história é necessário questionamentos e debates, principalmente quando se fala em história de toda as raças”, declara Wesley Vágner. Taise Côrte também critica a maneira de se ensinar história nas escolas. “É muito superficial, porque o negro sempre é relatado como escravo. Acho que é isso que sustenta o preconceito no Brasil”.

A Maior Multinacional de Todos os Tempos.

Eus-R*

Finalmente a grande mídia parece estar acordando, assim como segmentos no Congresso Nacional, estão saindo da omissão, estando todos repensando novas medidas de enfretamento para o problemas das drogas: Continuar Lendo →

Em busca de uma Polícia verdadeiramente cidadã


*Archimedes Marques

Vários fatores contribuem para o aumento desenfreado da violência e criminalidade no nosso país que traduz a crescente sensação de insegurança existente, contudo, o ponto nefrálgico de cobrança do povo em geral, é sempre a Polícia.

Realmente parece ser a Polícia a única responsável pela segurança da população, mas não é. Em verdade, apenas tem a instituição policial a função mais árdua de todas, porque atua na prevenção e na repressão ao crime, na garimpagem de criminosos e na execução da lei penal, a fim de torná-la efetiva ao exigir o seu cumprimento objetivando auxiliar a Justiça penal a solucionar os diversos conflitos inerentes.

A nossa Carta Magna vigente estabelece que a segurança pública é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos, assim, como pode ser percebido, a chamada Constituição cidadã, alicerçada no binômio direito e responsabilidade, embora imputando ao Estado o encargo principal, chama a população à co-participação para tão importante situação.

Atualmente, porém, é lugar comum a atribuição de culpa exclusiva ao Estado, mais de perto à Polícia, pela situação vexatória na qual nos encontramos. Fala-se sempre no direito à segurança, o que é correto, mas nunca na responsabilidade de todos no que tange ao tema. Aqui, mais uma vez, o pensamento liberal parece ser reinante, pois o direito é alardeado, enquanto a responsabilidade, esquecida.

Além da responsabilidade esquecida, para complicar ainda mais a situação, o povo generaliza que a Polícia é ineficiente, corrupta e corruptível, que todo policial é ignorante, arbitrário e irresponsável, quando na verdade, de uma maneira geral, tais entendimentos não passam de pensamentos ilógicos e insensatos, pois a Polícia também evoluiu com o tempo, não estagnou como continuam em teimar com tais concepções retrógradas.

A questão da violência policial de outrora que ultrapassaram todos os limites dos direitos do cidadão quando da ditadura militar que assolou o país por muito tempo, trouxe pechas marcantes e desagradáveis para a Polícia atual, pois daí nasceu o estigma da expressão polícia-repressão que foi passando de geração até os nossos dias. Repressão esta que não era em sentido de reprimir o crime e sim como sinônimo das atrocidades que ocorriam nos porões dos departamentos policiais, através das práticas de tortura e até desaparecimento de opositores ao regime do governo ditatorial. Pessoas não criminosas, e sim revoltosas, quedaram violentadas nos seus direitos fundamentais nas mãos da polícia ditatorial, da polícia-repressora, que ao invés de ser o órgão de conservação e garantidor da paz e da tranqüilidade pública, na verdade era o braço humano utilizado pelo governo nessas práticas covardes.

Esta espécie de tatuagem ideológica ainda não fora removida da mentalidade do nosso povo. Diminuída, humilhada, submetida, à polícia só restaram as críticas, as denúncias, as desconfianças, os despojos, o lixo proveniente das duas décadas do golpe militar.

O conjunto das regras que garante a segurança e a ordem que rege os atributos da Polícia se confundem com esses problemas citados e cria os preceitos verdadeiros de que vivemos uma atividade desprezada, uma função incompreendida, uma trajetória ilógica, uma vida atropelada dentro de uma classe tão humilhada.

Repensar esses conceitos irracionais é resgatar o próprio bem estar da coletividade. É lutar para que haja uma maior união e interatividade entre o povo e a sua Polícia. É sonhar que um dia haja a confiança do cidadão nas ações da sua Polícia. É ter esperança que em breve a sociedade possa ter a Polícia como sua amiga, como sua aliada no combate ao crime e no cumprimento das leis.

A Polícia cidadã, acima de tudo, é a guardiã da sociedade e da cidadania. No seu cotidiano o policial investiga, protege o bem, combate o mal, gerencia crises, aconselha, dirime conflitos, evita o crime, faz a paz e regula as relações sociais. O policial é também o sustentáculo das leis penais e deve seguir sempre o princípio primordial de jamais colocar as conveniências da sua carreira acima da sua trajetória moral.

Entendemos então que a Polícia cidadã que nasceu com a atual Constituição e ainda não se firmou apesar de mais de duas décadas de existência e tentativa, é o elo de boas ações que estabelece um sincronismo entre o seu labor direcionado verdadeiramente a serviço da comunidade.

Concluímos assim, que remediando esses males elencados, com a ajuda e a conscientização de todos os segmentos possíveis, teremos então uma Polícia verdadeiramente cidadã saída da teoria para a prática, que por certo alcançará os seus objetivos com mais presença para oferecer uma conseqüente melhor segurança pública para a sociedade.

*Delegado de Polícia no Estado de Sergipe, Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS. archimedes-marques@bol.com.br

Tapetes para além das grades

Patrícia Scofield

Foto: Arquivo Pessoal

A arte delicada de tecer tapetes passou a fazer diferença no cotidiano de detentos da Penitenciária de Segurança Máxima Nelson Hungria, em Contagem, Região Metropolitana de Belo Horizonte. A ideia partiu do artista plástico Ivã Volpi, que ao criar a técnica de tramar tapetes sem fazer o nó, imaginou que a tarefa “demorada” poderia transformar o ambiente “frio” de uma prisão. “Percebi o quanto o meu trabalho seria importante ali dentro, pois quando você tece, relaxa, fica em contato consigo mesmo, reflete e se entusiasma ao criar uma peça”, destaca. A autorização para concretizar esse sonho veio em 1999, quando Ivã ficou conhecido em Contagem pela oficinas de tapetes com sacos de aniagem – linho cru – ministradas por ele nesse município.

Na penitenciária, Ivã passou a ensinar para turmas de oito detentos, uma vez por semana. Já nas primeiras aulas, ele substituiu a aniagem por telas furadas, chamadas talagarças, e ensinou aos novos artistas a técnica de criar tapetes. Da segunda aula em diante, eles trabalhavam na produção das peças, montando desenhos na tela com retalhos doados por fabricantes de confecções da região. Com os produtos prontos, Ivã organizou a Mostra de Tapetes Estive Preso e Viestes me Visitar. “O pessoal fez um trabalho tão bacana, e tão rápido”, afirma, orgulhoso.

Confira a galeria de imagens

Mineiro de Papagaios, cidade a 144km da capital, o artista plástico alia suas criações à reciclagem de materiais não aproveitados por indústrias, além de preocupar-se em desenvolvê-los junto à comunidades. Ele se diz incomodado com o desperdício, e acredita que como artista, tem uma função social: “Eu não queria ficar com essa arte para mim. Queria ensinar pessoas e vi uma possibilidade para dar certo. Se tem material de sobra e mão-de-obra, por que não criar?”, ressalta Ivã. Nas cidades de Capim Branco, Matozinhos, Sete Lagoas, Nova Lima e Mateus Leme, Ivã também desenvolveu, desde os anos 1980, outras oficinas de tapetes ou de bandeiras com a população local, por meio da cooperativa Mão Poderosa, criada por ele.

Atualmente, o artista plástico está em Palmas, no estado do Tocantins, pesquisando, há um mês, a viabilidade de trabalhar com o buriti – espécie de palmeira -, em oficinas para comunidades locais. Ele conta que vê possibiliaddes para ajudar os artesãos de lá a aprimorarem suas técnicas, para refinar as peças fabricadas. No que depender de Ivã, disposição não vai faltar: “Aqui é um lugar novo para mim, tenho um material novo, novas pessoas, então vamos lá, não é?”, diverte-se.

Estamos Em Guerra!

Eus-R*

Quando a Rádio São Tarcísio 88,3 entrou no ar, lá se vão muitos anos, hoje já tem 08 anos que ela foi lacrada e ainda respondemos ao processo por operar serviço de radiodifusão COMUNITÁRIA sem outorga Continuar Lendo →

Há cem anos, marinheiros pediram fim da chibatada na Marinha

Há cem anos, em 22 de novembro de 1910, quatro navios encouraçados apontaram seus canhões para o Rio.
Por:DIOGO BERCITO
DE SÃO PAULO

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Marco Morel: Mestre-Sala dos Mares

Nos idos de 1957, o jornalista Edmar Morel (1912-89) foi até o cais da Praça 15, no Rio de Janeiro, onde lhe garantiram que acharia o ex-marujo João Cândido Felisberto (1880-1969), que, em 1910, ficara conhecido como “Almirante Negro” ao liderar a rebelião contra os castigos corporais na Marinha.

Por Marco Morel*

O encontro modificou a vida de ambos e gerou a escrita de um capítulo então obscuro da história do Brasil: a Revolta da Chibata, título que Morel criou para seu livro (no qual teve a colaboração do personagem principal) e que batizaria, a partir dali, o movimento.

João Cândido carregava cestos de peixe na beira da baía de Guanabara, palco da inédita rebelião na qual ele comandara, entre 22 e 27/11/1910, poderosa esquadra de guerra: vivia em situação de pobreza e dificuldades, nas periferias. Edmar, repórter e escritor, tinha o nome nas manchetes dos principais jornais desde os anos 1940, em matérias combativas e denúncias de grande repercussão. Nacionalista de esquerda e democrata, era “companheiro de viagem” do Partido Comunista do Brasil (PCB).

Surgiu entre o marinheiro e o jornalista cumplicidade, logo transformada em amizade. João Cândido considerou “A Revolta da Chibata” (lançado em 1959, já está na quinta edição, pela Paz e Terra), o livro, como “minha história” e literalmente assinou embaixo, participando de sessões de autógrafos. A convivência de ambos teve episódios sugestivos.

No lançamento da 2ª edição, em 1963, autor e personagem compartilharam estande no Festival do Escritor (antecessor da Bienal do Livro). O velho marujo, calejado de perseguições e da luta contra o açoite, foi cumprimentado por Jorge Amado, Rubem Braga, Clarice Lispector, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e outros. Ao fim da sessão, não havia mais transporte para a Baixada Fluminense, onde morava o “Almirante Negro”, numa rua sem calçamento, esgoto e luz elétrica.

Morel foi hospedá-lo num hotel no centro. Tentarem 12 estabelecimentos; os recepcionistas de plantão, após olharem a figura simples e altaneira de João Cândido, repetiam: “Não há vagas”. Racismo aberto e não declarado. Finalmente, conseguiu abrigo no Hotel Globo, na rua do Riachuelo, na Lapa.

Nos dias do golpe civil-militar de 1964, ao saber que Morel tivera os direitos políticos cassados, João Cândido, preocupado, foi até sua casa: “Teria sido por causa do livro?”. O jornalista brincou: “Um a mais não faz diferença. Vamos tomar um uísque?”. E o marujo retrucou: “Não posso, o fígado não deixa. Tem suco de maracujá?”.

Quando João Cândido faleceu, eu tinha 9 anos. Meu avô Edmar contou que me levara duas vezes à casa dele, mas não me lembro. Pelo que li e ouvi de meu avô, pelo que converso com Adalberto Cândido, Candinho, filho caçula, hoje com 72 anos, formei uma imagem do comandante escolhido pelos 2.300 marinheiros rebeldes no episódio ocorrido 22 anos após a Abolição oficial da escravidão.

João Cândido possuía aparência modesta, mas altiva. Alto, esguio, enérgico -vestia-se de maneira aprumada e sóbria. Em casa, ficava de tamancos e roupas confortáveis. Era um herói da plebe e vivia entre os pobres, sem intimidar-se diante dos poderosos ou dos letrados. O hábito de leitura impregnava seu cotidiano. Polido, reservado, recolhia-se quando não conhecia ou confiava no interlocutor. Mas, se o verbo fluía, a memória transbordava em detalhes precisos.

Sisudo, há poucas fotos suas sorrindo, mas era bem-humorado: às vezes, escapava um sorriso discreto do rosto vincado de anos e sofrimentos. Não expressava ódio ou ressentimento, compreensíveis num guerreiro com suas experiências. A face angulosa, nitidamente esculpida, apresentava um toque cândido. Tinha a dignidade de um mestre-sala dos mares.

*Marco Morel é doutor em história pela Universidade de Paris I, jornalista, professor do Departamento de História da Uerj e neto de Edmar Morel.

Fonte: Folha de S. Paulo

Congadeiros prestam homenagens a Nossa Senhora do Rosário Imortalidade de Zumbi dos Palmares


Flávia Ayer


No mês da consciência negra, evento reafirma cultura dos escravos (Cristina Horta/EM/D.A Press)
No mês da consciência negra, evento reafirma cultura dos escravos

Com a espada da guarda, o capitão Damião dos Reis, de 43 anos, puxa o cortejo. É o apito que rege o canto de uma multidão, embalada pelos tambores, pandeiros, chocalhos e, principalmente, pela fé. Em honra à Nossa Senhora do Rosário, padroeira dos negros, o coro forte atravessa o Parque Roberto Burle Marx, no Bairro Barreiro de Cima, no Barreiro, e emociona mesmo quem não é devoto da santa. E, no mês da consciência negra, a passagem das guardas de congado, neste domingo, ganhou mais responsabilidades: reafirmar uma cultura criada pelos escravos e fortalecer a luta contra o preconceito racial.

Era dessa forma que ele recebia cada uma das dezenas de guardas que entravam na área verde. Depois do cortejo, que seguiu da Paróquia Cristo Redentor até o parque, houve levantamento de mastros, missa conga, dança do pau-de-fita e espetáculos teatrais, além do almoço típico das comemorações do congado. Uma festa recheada de um significado político. “Estamos comemorando também a imortalidade de Zumbi dos Palmares e trabalhando para reparar 500 anos dessa história de preconceito”, ressalta a gerente de programas sociais da regional Barreiro, Silvânia Cecília da Silva.

O 5º Encontro de Congadeiros reuniu cerca de 1,5 mil pessoas em uma das mais belas áreas verdes da cidade. Estavam presentes guardas de congo e moçambique, caboclos, marujadas e outros grupos que cultivam o louvor à Nossa Senhora do Rosário em Minas Gerais. Cada uma faz referência a um momento da aparição da santa. A presença dos filhos de Gandhi, bloco de afoxé da Bahia, marcou a interação entre as diversas vertentes da cultura afro. “Pregamos a paz e pedimos a aproximação de boas vibrações”, explica o coordenador do evento e filho de Gandhi, Jordano Acácio, com queimador de incenso em mãos na porta do parque.

João Cândido, O Almirante Negro da Esquadra Revoltosa



100 anos da Revolta da Chibata – João Cândido, o almirante negro da esquadra revoltosa


Luiz Carcerelli
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Após a decretação da Lei de Terras, em 1850, ficou determinado que a terra só poderia ser adquirida pela compra e os ex-escravos ficaram impossibilitados de ter acesso à terra. Com a publicação da “Lei Áurea” em 1888, uma alternativa para os negros passou a ser o trabalho, como marujo, na Marinha de Guerra do Brasil. Nos navios, no entanto, as humilhações, exploração e brutalidade do tempo da escravidão não haviam findado, eram permitidos os castigos físicos contra os marinheiros que infringissem as regras draconianas. Obviamente, para o oficialato as regras eram outras. Tal fato diminuía o número de voluntários, que eram supridos com o recrutamento forçado, feito pela polícia. Tais castigos foram abolidos quando da Proclamação da República e restabelecidos um ano depois. Estavam previstas as seguintes penalidades:

“Para as faltas leves, prisão a ferro na solitária, por um a cinco dias, a pão e água; faltas leves repetidas, idem, por seis dias, no mínimo; faltas graves, vinte e cinco chibatadas, no mínimo.”

As melhores influências

Em 15 anos de carreira militar, João Cândido fez várias viagens pelo Brasil e por vários países, mas a que maior influência teve sobre ele foi para a Grã Bretanha em 1909, para acompanhar o final da construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro. Lá, além de vivenciar a diferença com a qual eram tratados os marujos britânicos e os brasileiros, tomou consciência da revolta do navio russo Encouraçado Potenkin, em 1905.

Ainda na Inglaterra, João Cândido montou clandestinamente um Comitê Geral para preparar a revolta. Esse comitê se ramificou em vários comitês revolucionários em diferentes navios. Em 1910, no Rio de Janeiro, se junta ao comitê Francisco Dias Martins, o Mão Negra, que havia ficado conhecido pela carta que escreveu sob este pseudônimo, denunciando a chibata.

Na noite de 22 de novembro de 1910, amotinou-se a tripulação do Encouraçado Minas Gerais. Quando o comandante retornou de um jantar em navio francês, tentou resistir e foi morto a tiros e coronhadas. Além deles, outros cinco oficiais foram executados. Alertados por um tenente ferido, os oficiais do Encouraçado São Paulo debandaram para terra e essa unidade da Armada também aderiu ao levante. O mesmo aconteceu com o Deodoro e com o Cruzador Bahia, além de embarcações menores, fundeadas na Baía de Guanabara.

Na manhã do dia 23, de posse dos navios e das armas, os marinheiros sublevados apresentaram ultimatum, ameaçando abrir fogo sobre a Capital Federal. João Cândido, o Almirante Negro, como ficou conhecido, liderava a revolta e a redação do documento foi de Francisco Dias Martins. Dizia a carta:

“O governo tem que acabar com os castigos corporais, melhorar nossa comida e dar anistia a todos os revoltosos. Senão, a gente bombardeia a cidade, dentro de 12 horas.”

E mais abaixo:

“Não queremos a volta da chibata. Isso pedimos ao presidente da República e ao ministro da Marinha. Queremos a resposta já e já. Caso não a tenhamos, bombardearemos as cidades e os navios que não se revoltarem.”

A Marinha esboçou um ataque com dois navios menores, prontamente repelidos pelos revoltosos que abriram fogo contra a Ilha das Cobras (base naval) e dispararam tiros de advertência sobre o Palácio do Catete (sede do executivo).

Surpreendido e temendo o combate, o Estado brasileiro na pessoa do marechal Hermes da Fonseca, então presidente da República, aceitou as exigências dos revoltosos. Mas a estratégia do governo ficaria clara alguns dias depois.

Hermes da Fonseca abole os castigos físicos e promete anistia para os que se entregassem. Os marinheiros depõem as armas e sucede-se o que sempre acontece quando se confia em um Estado reacionário.

A reação desencadeou feroz perseguição aos marinheiros revoltosos. Às dezenas, os marujos foram encarcerados em porões de navios ou nas masmorras da Ilha das Cobras. O barco de guerra Satélite foi palco de numerosos fuzilamentos.

Já no dia 28 de novembro, alguns marujos são expulsos da Armada por serem “inconvenientes à disciplina”. No dia 4 de dezembro, quatro marinheiros foram presos acusados de conspiração. Muito desorganizados, no dia 9, os fuzileiros navais da Ilha das Cobras sublevam-se e são duramente bombardeados, mesmo tendo hasteado a bandeira branca. Dos 600, sobrevivem apenas cem. Na sequência, vários foram desterrados e condenados a trabalhos forçados nos seringais da Amazônia, sendo que sete foram assassinados no caminho.

Mas esses monstruosos crimes não foram capazes de quebrar a rebeldia dos marinheiros. Muitos participantes da rebelião de 1910 ligaram-se anos depois ao movimento revolucionário. O marinheiro Normando, comandante de um dos barcos rebelados, ingressou nas fileiras do Partido Comunista do Brasil – PCB. Em 1924, os marinheiros novamente sublevaram-se no encouraçado São Paulo. Em 1935, incorporaram-se às centenas à luta da Aliança Nacional Libertadora e mais tarde, em 1964, compuseram a linha de frente da resistência contra o gerenciamento militar-fascista.

O ódio zoológico nutrido pela oficialidade da Marinha a João Cândido manteve-se irretocado e foi renovado ano após ano. Em 6 de dezembro de 1969, o líder da rebelião da esquadra de 1910 faleceu sem receber nenhum centavo da marinha.

Ainda na década de 1970, a reação destilava seu veneno contra João Cândido e seus companheiros. A censura do gerenciamento militar mutilou a bela música de João Bosco e Aldir Blanc, O mestre sala dos mares, trocando as palavras marinheiro por feiticeiro, almirante por navegante, bloco de fragatas por alegria das regatas, e outras mais, tirando muito de sua força.

Em 22 de Novembro de 2007, quando se completaram 97 anos da Revolta, foi inaugurada uma estátua em homenagem ao “Almirante Negro” nos jardins do Museu da República, antigo Palácio do Catete. A estátua, de corpo inteiro, de João Cândido com o leme em suas mãos, foi afixada de frente para o mar.

Em 24 de julho de 2008, 39 anos depois da morte de João Cândido, publicou-se, no Diário Oficial da União, a Lei Nº 11.756 que concedeu “anistia” ao líder da Revolta da Chibata e a seus companheiros. No entanto, a lei foi vetada na parte em que determinava a reintegração de João Cândido à Marinha do Brasil o reconhecimento de sua patente e devidas promoções e o pagamento de todos os seus direitos e de seus familiares.

Em 20 de Novembro de 2008, a estátua do Almirante Negro foi retirada do Palácio Catete e colocada na Praça Quinze de Novembro, no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Lá, às margens da Baia da Guanabara, a imponente figura de João Cândido certamente está mais à vontade, entre os populares que passam e param para lhe render homenagem, entre tantos filhos do povo como ele negros, pobres, explorados, revoltosos.

O Mestre Sala dos Mares

(João Bosco / Aldir Blanc)
Composição original

Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo marinheiro
A quem a história não esqueceu
Conhecido como o almirante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao navegar pelo mar com seu bloco de fragatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
Rubras cascatas jorravam das costas
dos negros pelas pontas das chibatas
Inundando o coração de toda tripulação
Que a exemplo do marinheiro gritava então
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve o almirante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
Mas faz muito tempo

Centenário da Revolta da Chibata

Em 1910 na Marinha de Guerra Brasileira, ocorreu a incorporação dos encouraçados Minas Gerais e São Paulo e o cruzador Bahia. Além dessas poderosas máquinas, o motim do dia 22 de novembro, contou também com o blindado “Deodoro“. “Esperavamos data e poderes, esperando a construção dos novos navios vindos da Europa, depois de estarmos com marinheiros de outras nações”. (João Candido) Além da reclamação referente ao excesso de trabalho, foi exigido a modificação do regime de punições, o fim da chibata, e melhora nos vencimentos. “Nada foi oferecido, nós impusemos, queremos isso e tem que se decidir por isso” (João Candido) Dos mais de sessenta canhões apontados para a cidade 24 eram de maior calibre existente. “Além dos conhecimentos que já tínhamos na Marinha, ganhamos mais conhecimentos durante o tempo em que estivemos lá assistindo à construção da nova esquadra. Eu, na Marinha posso dizer, a parte de governar navio não é difícil, mas é espinhosa…”. (João Candido) No Brasil os modernos navios substituíram arcaicos veleiros. A chibata como sistema disciplinar, foi abolida no século XIX nos países da Europa – na Espanha em 1823, na França em 1860, na Alemanha em 1872, na Grã-Bretanha em 1881. No Brasil o preconceito existente, e a herança recente de um longo período de escravidão, faziam daquele ato covarde uma punição normal aos olhos dos oficiais, brancos, descendentes de escravocratas. “Nós, que vínhamos da Europa, em contato com outras marinhas, não podíamos admitir que na Marinha do Brasil ainda o homem tirasse a camisa para ser chibateado por outro homem”. (João Candodo) A rendição do Congresso e da imprensa, foi fruto do medo. Após a falsa anistia, juntamente com a retaliação, ocorreu a expulsão de mais de mil homens da Marinha. E nas Escolas de Aprendises, ouve “maior critério de seleção“.

Fonte de Pesquisa:

MOREL, Edmar. “A Revolta da Chibata”. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

Revista de História da Biblioteca Nacional – Ano 1 – Nº 9 – Abril/2006.

Museu da Imagem e do Som. Rio de Janeiro. Entrevista com João Candido. 1968. (GRYPHUS/MIS, 1999)

Revolta da Chibata


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A Revolta da Chibata foi um importante movimento social ocorrido, no início do século XX, na cidade do Rio de Janeiro. Começou no dia 22 de novembro de 1910.

Neste período, os marinheiros brasileiros eram punidos com castigos físicos. As faltas graves eram punidas com 25 chibatadas (chicotadas). Esta situação gerou uma intensa revolta entre os marinheiros.

Causas da revolta

O estopim da revolta ocorreu quando o marinheiro Marcelino Rodrigues foi castigado com 250 chibatadas, por ter ferido um colega da Marinha, dentro do encouraçado Minas Gerais. O navio de guerra estava indo para o Rio de Janeiro e a punição, que ocorreu na presença dos outros marinheiros, desencadeou a revolta.

O motim se agravou e os revoltosos chegaram a matar o comandante do navio e mais três oficiais. Já na Baia da Guanabara, os revoltosos conseguiram o apoio dos marinheiros do encouraçado São Paulo. O clima ficou tenso e perigoso.

Reivindicações

O líder da revolta, João Cândido (conhecido como o Almirante Negro), redigiu a carta reivindicando o fim dos castigos físicos, melhorias na alimentação e anistia para todos que participaram da revolta. Caso não fossem cumpridas as reivindicações, os revoltosos ameaçavam bombardear a cidade do Rio de Janeiro (então capital do Brasil).

Segunda revolta

Diante da grave situação, o presidente Hermes da Fonseca resolveu aceitar o ultimato dos revoltosos. Porém, após os marinheiros terem entregues as armas e embarcações, o presidente solicitou a expulsão de alguns revoltosos. A insatisfação retornou e, no começo de dezembro, os marinheiros fizeram outra revolta na Ilha das Cobras. Esta segunda revolta foi fortemente reprimida pelo governo, sendo que vários marinheiros foram presos em celas subterrâneas da Fortaleza da Ilha das Cobras. Neste local, onde as condições de vida eram desumanas, alguns prisioneiros faleceram. Outros revoltosos presos foram enviados para a Amazônia, onde deveriam prestar trabalhos forçados na produção de borracha.

O líder da revolta João Cândido foi expulso da Marinha e internado como louco no Hospital de Alienados. No ano de 1912, foi absolvido das acusações junto com outros marinheiros que participaram da revolta.

Conclusão: podemos considerar a Revolta da Chibata como mais uma manifestação de insatisfação ocorrida no início da República. Embora pretendessem implantar um sistema político-econômico moderno no país, os republicanos trataram os problemas sociais como “casos de polícia”. Não havia negociação ou busca de soluções com entendimento. O governo quase sempre usou a força das armas para colocar fim às revoltas, greves e outras manifestações populares.

A REVOLTA DA CHIBATA 22 -11-1910

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Almirante Negro

João Cândido Felisberto, o Almirante Negro.

(Encruzilhada do Sul, 1880 — Rio de Janeiro, 6 de Dezembro de 1969)

Nascido numa província do Rio Grande do Sul, filho dos ex-escravos João Cândido Felisberto e Inácia Felisberto, apresentou-se na Escola de Aprendizes Marinheiros do Rio Grande do Sul, com uma recomendação de “atenção especial” escrita do Delegado da Capitania dos Portos em Porto Alegre. Esse cuidado devia-se à iniciativa de um velho amigo e protetor de Rio Pardo, o almirante Alexandrino de Alencar, que o encaminhara aquele delegado.

Desse modo, numa época em que a maioria dos aprendizes era recrutada pela polícia, João Cândido alistou-se com o número 40 na Marinha do Brasil em 1895, aos 13 anos de idade, fazendo a sua primeira viagem como Aprendiz de Marinheiro.

Em 1908, para acompanhar o final da construção de navios de guerra encomendados pelo governo brasileiro, João Cândido foi para a Inglaterra, onde tomou conhecimento do movimento realizado pelos marinheiros britânicos entre 1903 e 1906, reivindicando melhores condições de trabalho.

As eleições presidenciais de 1910, embora vencidas pelo candidato situacionista Marechal Hermes da Fonseca, expressaram o descontentamento da sociedade com o regime vigente. O candidato oposicionista, Rui Barbosa, realizou intensa campanha eleitoral, suscitando a esperança de transformações.

Entre os marinheiros, insatisfeitos com os baixos soldos, com a alimentação ruim e, principalmente, com os degradantes castigos corporais, cresceu o clima de tensão.

O uso da chibata como castigo na Armada já havia sido abolido em um dos primeiros atos do regime republicano. Todavia, o castigo cruel continuava de fato a ser aplicado, a critério dos oficiais. Num contingente de maioria negra, centenas de marujos continuavam a ter seus corpos retalhados pela chibata, como no tempo do cativeiro.

Em 16 de novembro de 1910, um dia após a posse do Marechal Hermes, o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido com 250 chibatadas, conforme os jornais da época, aplicadas na presença de toda a tripulação do Encouraçado Minas Gerais.

No dia 22 de novembro de 1910, João Cândido deu início à chamada Revolta da Chibata, assumindo o comando do Minas Gerais (capitânea da Armada), pleiteando a abolição dos castigos corporais na Marinha de Guerra do Brasil, quando foi designado pela imprensa, à época, como Almirante Negro. Por quatro dias, os navios de guerra São Paulo, Bahia, Minas Gerais e Deodoro apontaram seus canhões para a Capital Federal. No ultimato dirigido ao Presidente Hermes da Fonseca, afirmaram os marinheiros: “Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira”. Embora a rebelião tenha terminado com o compromisso do governo federal em acabar com o emprego da chibata na Marinha e de conceder anistia aos revoltosos, João Cândido e os demais implicados foram detidos.

João Cândido, durante entrevista a
um jornalista.

Pouco tempo depois, a eclosão de um novo levante entre os marinheiros, agora no quartel da ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, foi reprimida pelas autoridades.

Apesar de se declarar contra um novo levante dos marinheiros em Dezembro de 1910, João Cândido foi expulso da Marinha, sob a acusação de ter favorecido os rebeldes. Em Abril de 1911 seria detido no Hospital dos Alienados, como louco e indigente, de onde seria solto em 1912, absolvido das acusações juntamente com os seus companheiros. Banido da Marinha, sofreu grandes privações, vivendo precariamente, trabalhando como estivador e descarregando peixes na Praça XV, no centro do Rio de Janeiro.

Um fato triste, que apenas no seculo XXI começou a mudar, é que a marinha jamais aceitou a elevação dos revoltosos à condição de heróis. O próprio João Cândido nunca conseguiu ter acesso à sua documentação dos tempos em que era integrante da armada. Em depoimento no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro(MIS) do Rio em 1968, ele reclamou: “… os [arquivos] da Marinha são negativos, João Cândido nunca existiu na Marinha”.

A Marinha liberou, após 97 anos, documentos referentes ao então marinheiro de 1ª classe João Cândido Felisberto, e ajudou a localizar sua ficha no Arquivo Nacional.

O documento mais importante é a ficha funcional. João Cândido entrou para a Marinha como grumete em 10 de dezembro de 1895, chegou a ser promovido a cabo, mas depois foi rebaixado. Nos 15 anos em que permaneceu na Armada, ele foi castigado em nove ocasiões mas não há registro, na sua ficha de 24 páginas escritas à mão, de que tenha sido espancado, como era comum.

João Cândido, o “Almirante Negro
em 1957.

A ficha de João Cândido registra dez elogios e uma promoção a cabo (1903), revogada definitivamente em 1907. O último elogio por bom comportamento é de setembro, três meses antes de liderar a rebelião. João Cândido participou de dezenas de manobras em toda a costa brasileira, navegou pelos rios das bacias do Amazonas e do Prata e esteve duas vezes em longas viagens pela Europa.

Em 1933, João Cândido fez parte da Ação Integralista Brasileira e tornou-se o líder provincial do núcleo da Gamboa, no Rio de Janeiro. Em entrevista gravada em 1968, a disposição no Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro declarou a amizade com Plínio Salgado e o orgulho de ter sido integralista.

Em 1968, em um depoimento gravado para Ricardo Cravo Alvim no MIS (Museu da Imagem e do Som), João Candido, já velhinho, contava :

– “Fui integralista e lá era muito bem tratado, como chefe!”.

Em 1959 voltou ao Sul do País para ser homenageado, mas a cerimônia foi suspensa por interferência da Marinha do Brasil.

Discriminado e perseguido até ao fim da sua vida, faleceu de câncer no Hospital Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, pobre e esquecido, aos 89 anos de idade.

A sua memória foi resgatada pelos compositores João Bosco e Aldir Blanc, no samba O mestre-sala dos mares.

Em outubro de 2005, o Deputado nacionalista Elimar Máximo Damasceno (PRONA/SP) apresentou o projeto de lei n. 5874/05, determinando inscrever o nome de João Cândido no Livro dos Heróis da Pátria, que se encontra no Panteão da Liberdade e da Democracia, na Praça dos Três Poderes, em Brasília (DF).

Fonte: http://pt.wikipedia.org

Os órfãos do crack

Cresce a cada dia o número de crianças deixadas à própria sorte por causa do vício de quem deveria cuidar deles

A Gazeta

Anny Giacomin
agiacomin@redegazeta.com.br

Gabriel poderia ser mais um adolescente de 14 anos feliz, cujas responsabilidades são apenas frequentar a escola e jogar bola com os amigos. Mas seu corpo esguio – que aparenta, no máximo, o de um menino de 9 anos – e os olhos grandes, cheios de lágrimas, revelam as dores de quem lutou contra a violência dentro de casa desde cedo. Sua mãe é usuária de crack e há cinco anos abandonou o garoto e seus três irmãos – de 13, 10 e 8 anos – por conta do vício.

Não bastasse o abandono, Gabriel guarda na memória fatos que vão marcar para sempre sua vida. “Uma vez botaram fogo na minha casa e disseram que fizeram isso porque minha mãe mexia com coisa errada”, conta o menino, que cursa, hoje, a 3ª série do ensino fundamental, com cinco anos de atraso.

Gabriel e os irmãos nunca usaram drogas, mas são tão vítimas do crack quanto seus pais. Como eles, cresce a cada dia o número de crianças deixadas à própria sorte por causa do vício de quem deveria cuidar deles. Nos últimos meses, por exemplo, o número de denúncias de maus-tratos e negligência por parte de pais viciados em crack ao Conselho Tutelar de Vitória aumentou em 50%. Quando não são abandonadas, elas acabam fugindo de casa, por não aguentarem a rotina de violência.

Como gente grande

Gabriel, apesar do corpo franzino, já se viu diante de responsabilidades de gente grande. Um dia, deixado mais uma vez sozinho em casa com os irmãos, pulou a janela, numa noite fria, para tentar encontrar a mãe na rua e fazê-la voltar para casa. O menino conta como era:

Inúmeras foram as vezes em que o menino viu a mãe, o padastro e outros adultos fumando crack dentro de casa. Ou que os traficantes bateram à porta, fazendo ameaças de morte para receber o dinheiro das pedras. Mesmo assim, ele conseguiu dizer não quando amigos da mãe lhe ofereceram a droga. E transfere para os irmãos a esperança. “Hoje eu moro com os meus irmãos aqui no abrigo, e estamos felizes juntos. Sentia muita falta deles. Nem sinto mais saudade da minha mãe. Já vi que não vale mais a pena viver com ela.”

A realidade dura também não acabou com os sonhos do menino – ele não sabe se quer abrir uma academia de dança ou trabalhar como caminhoneiro. Mas seus olhos brilham quando fala do futuro. Ele quer o básico: trabalhar, ganhar dinheiro e ter uma família. “Quero andar à vontade, dirigir. Posso até ser guarda de trânsito. Mas agora queria ser adotado com os meus irmãos para que a gente possa ter uma família de verdade”, diz, abrindo um tímido sorriso.

De irmã a mãe

A história das irmãs Juliana, de 12 anos, e Clara, 9, também é marcada pelo vício da mãe no crack. As meninas moravam com uma vizinha, quando, há dois anos, um conselheiro tutelar esteve no local e levou as duas para um abrigo. Ambas não tinham nem certidão de nascimento. O documento só foi feito este ano, depois de a escola em que estudam denunciar o fato ao órgão.

Antes disso, a rotina da filha mais velha incluía cuidar da irmã e fazer bicos de garçonete em um bar. “Quando minha mãe não deixava a gente em casa sozinhas, mandava a gente pedir dinheiro para ela comprar droga. O que sobrava ela nos dava para comprar bala”, conta Juliana.

Com as bochechas vermelhas e uma cara sapeca, Clara conta que muitas vezes sentia vergonha de ter que pedir dinheiro na rua. “Mas aí minha mãe falava que vergonha era matar e roubar.” Elas chegaram a vender paçoca nos semáforos, debaixo do sol escaldante ou de chuva forte, e sem direito a sentar para descansar.

Hoje, a mãe vive nas ruas. Faz tempo que Juliana e Clara não a veem. A mais nova não consegue disfarçar a falta que ela faz, e lamenta, conformada:

Enquanto isso, Juliana, com seus 12 anos, tenta fazer o papel da mãe que elas não têm. Era ela que cozinhava quando a mãe saía de noite e não voltava.

Para conseguir dinheiro para comprar crack, a mãe chegou a obrigar Juliana a trabalhar em um bar, “de garçona”, como ela conta. Além de fritar salgadinhos e servi-los, com apenas 10 anos, a menina enfrentou situações constrangedoras nas mãos dos clientes do bar. Não faltaram propostas de sexo.

O abuso sexual de crianças que têm pais viciados é comum, como explica Marcelo Nolasco, titular da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA). Em abril, uma menina de apenas 4 anos foi abusada pelo companheiro da mãe, também usuário de crack. “O que mais choca é que a mãe da criança estava grávida novamente, de 7 meses”, conta o delegado.

O preço do abandono

A exposição ao risco acaba cobrando seu preço. Foi trabalhando em bares que Juliana começou a experimentar o álcool e o cigarro. “Já bebi, já fumei e peguei maconha escondido da minha mãe uma vez. Queria saber como era. Achei legal, fiquei tonta… Mas nunca fiz isso na frente da minha irmã e não vou deixar ela fazer isso nunca”, diz Juliana. Afinal, ela é a “mãe” de Clara.

A juíza Gladys Henriques Pinheiro, da 1ª Vara da Infância e Juventude da Serra, conta que muitos dos adolescentes que estão respondendo a processo na Justiça têm famílias envolvidas no tráfico de drogas ou são órfãos. “Essas crianças já são desestruturadas desde novas. Hoje, mais de 50% dos processos são por causa de tráfico”, ressalta.

Muitos dos pais desses adolescentes infratores são dependentes químicos. E, de acordo com a juíza, são poucos os casos de pais que superaram isso e que querem reaver os filhos. “A gente fica feliz quando isso acontece, mas sabe que essa não é a realidade. Além disso, tem a questão dos maus-tratos, do abuso, da negligência, e do álcool.”

Resgatando sonhos

O pior é que essas crianças sentem, além do abandono, culpa por não terem conseguido cuidar de quem deveria cuidar deles – os pais. Também abandonada pela mãe, Amanda, 11, sonha ser adotada por uma família da Itália, mas não planeja ter filhos. “Dá muito trabalho. Vou pensar só no meu futuro. Quero estudar e ser médica”, diz.

A assistente social Leidiane Santana Rocha, que trabalha em um abrigo na Serra, ressalta que a maioria dos internos do local pensa da mesma forma:

A conselheira tutelar Janine Barbosa conta que depois que o Ministério Público baixou uma carta recomendatória para que os hospitais informem aos conselhos tutelares quando as mulheres grávidas viciadas em crack ou em outro tipo de droga forem dar à luz, o número de notificações aumentou. “Isso é bom, porque, se fizermos essa abordagem logo no início, as crianças podem sofrer menos.”

Um desses casos aconteceu em setembro. Uma mulher de 32 anos, usuária de crack, deu à luz a uma criança e, depois, descobriu-se que ela já tinha um filho de 3, que era cuidado pela família. O recém-nascido foi levado para um abrigo da prefeitura depois que os familiares disseram que não tinham condições de cuidar dele também. Hoje, a mãe está presa, cumprindo pena por trabalhar para o tráfico. Quem sabe esse bebê não tenha um destino diferente?

*Os nomes dos entrevistados são fictícios para preservar suas identidades

Deflagrada há cem anos, Revolta da Chibata foi liderada pelo marujo João Cândido

Entre os dias 22 e 27 de novembro de 1910, a baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, foi palco de uma rebelião contra os castigos corporais na Marinha ao ser ocupada por uma esquadra de guerra chefiada pelo marujo João Cândido Felisberto (1880-1969), que ficou conhecido como “Almirante Negro”.

Movimento negro precisa ter unidade por cotas e contra a discriminação, afirma Abdias

Agência Brasil


O movimento negro brasileiro precisa de maior unidade para garantir conquistas históricas importantes como o sistema de cotas nas universidades e para combater o preconceito racial no trabalho. A análise é do ex-senador Abdias Nascimento, um dos precursores da luta pela igualdade racial no país e que aos 96 anos de idade continua atento aos acontecimentos.

“Uma das coisas que faz falta – e que realmente é uma ausência importante e muito necessária – é a unidade dos negros. É difícil fazer isso, mas as lideranças negras têm feito o possível”.

Abdias alertou para a necessidade de se garantir a aplicação do sistema de cotas nas universidades, conquista recente, mas ainda não universalizada pelo ensino superior.

“A vigilância [na aplicação das cotas] é necessária sempre. A liberdade exige que as comunidades destituídas estejam sempre alertas e sempre em ação. Não pode descansar, achar que já está tudo feito. É preciso luta, que a comunidade esteja alerta para conseguir além das cotas. Por exemplo, a garantia de emprego.”

A luta contra o preconceito racial no comércio foi justamente a primeira ação política de Nascimento, na década de 30. Segundo ele, passados 80 anos, o problema persiste. “Ainda há muita discriminação de toda a forma. O comércio em geral ainda tem discriminação e exclui o negro. É preciso mobilização, porque o racista está envolto nas dobras da sociedade”.

Nascido em 1914, quatro anos após a Revolta da Chibata, quando os marinheiros se insurgiram contra os castigos físicos aplicados na Marinha, Abdias reconheceu que sua trajetória de vida foi influenciada pela atitude de João Cândido, líder do movimento que passou à história como o Almirante Negro.

“Ela deixou de dar legitimidade ao castigo corporal ao ex-escravo, que continuava recebendo castigo de escravo. Foi um fenômeno bastante importante. João Candido me influenciou, pois deixou de ser legítimo alguém dar chicotada em negro”.

Abdias admitiu que houve avanços na luta contra a discriminação no governo de Luiz Inácio Lula da Silva, mas ressaltou que ainda há muita coisa a ser feita. Para ele, a responsabilidade agora está nas mãos das novas gerações.

“Olhem para o exemplo de Zumbi dos Palmares e sigam em frente. Não pensem que está tudo feito e conquistado. Tem muita coisa a ser vencida e isso depende da juventude que está aí”.

Perguntado se, depois de tantos anos de luta contra a discriminação racial no país, se sentia um vitorioso, o líder negro respondeu: “Eu não me sinto um vitorioso, mas a raça negra sim”.

Conheça a história de Zacimba Gaba, princesa africana que lutou contra a escravidão no Brasil

GABRIELA ROMEU
ENVIADA ESPECIAL A SÃO MATEUS (ES)

Ilustração Daniel Kondo
Zacimba lutou contra a escravidão
Zacimba lutou contra a escravidão

Por diversos cantos do Brasil, outros guerreiros negros resistiram contra a escravidão. Assim, são muitos os heróis e as heroínas que marcam essa história de luta.

Na região norte do Espírito Santo, é conhecida a saga de uma bela princesa: Zacimba Gaba, da nação africana de Cabinda, em Angola. Foi do porto de Cabinda que milhares de africanos embarcaram em navios que os trouxeram ao Brasil.

Contam que nas noites de Lua cheia a princesa negra clamava pela proteção dos deuses africanos. Até que chegou seu dia.

Zacimba envenenou o senhor da Casa Grande com “pó pra amansar sinhô”, preparado às escondidas na senzala, feito da cabeça (moída e torrada) de uma cobra. Tinha esse nome porque a vítima era envenenada lentamente, com pequenas doses colocadas em sua comida.

A princesa guerreira fugiu, ao lado de outros negros que libertou. Na mata, criou um quilombo e comandou muitas lutas para salvar seu povo.

Dizem que era na noite escura que ela e outros guerreiros, a bordo de pequenas canoas, dominavam a embarcações negreiras em alto-mar e libertavam os escravos.

Quem foi Zumbi?

Zumbi dos Palmares (1655-1695) foi um importante herói que lembra a luta dos negros contra a escravidão. Ele liderou um quilombo na serra da Barriga, em Alagoas.

O Dia da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, marca a data em que esse guerreiro foi morto.

Sou negro!


Que viva Zumbi e que viva a idéia poderosa da afirmação de Guerreiro Ramos: Sou negro, sou povo brasileiro!


Elaine Tavares

O cinema já imortalizou esta cena. Zumbi dos Palmares, resistindo até o último momento, no alto da Serra da Barriga, comandando mais de 50 mil almas, preferindo a morte digna que a rendição. Não sem razão que esta passou a ser a principal figura do panteão de heróis do povo negro. E haveria de ter muitos e tantos, sem nome ou rosto, que enfrentaram a escravidão nestas terras tropicais, trazidos, como bichos, nos navios negreiros ingleses, sustentando a economia daquele país que viria a ser um império.

Pois foi com os braços de homens e mulheres negros que os lordes garantiram a revolução industrial e a consolidação do sistema capitalista. Só o braço escravo, já bem contou Eric Williams, daria conta da colonização baseada na monocultura extensiva. Mas essa gente valente, que foi sequestrada de suas terras, nunca se rendeu. A liberdade era seu horizonte e tão logo escapavam das correntes criavam quilombos, comunidades livres, solidárias, auto-gestionadas. A maior delas: Palmares. E é em honra a esse povo, com Zubi à frente, que no dia 20 de novembro, se celebra o Dia da Consciência Negra.

A data não é uma lembrança ritual de um tempo que já passou. Ela é a ferida aberta de uma sociedade que segue vivenciando os pressupostos do tempo da escravidão, mergulhada no racismo e na discriminação. Basta ver o que aconteceu agora, no período eleitoral, com as manifestações raivosas contra os nordestinos. Por isso que é preciso lembrar, e lembrar, e lembrar o que resultou de todo o processo escravista nestas terras brasilis.

Desde quando os portugueses decidiram apostar na mão-de-obra escrava aqui, nas novas terras, foi necessário consolidar uma ideologia que respaldasse o absurdo. Era mais do que óbvio que a elite colonial não haveria de espalhar aos quatro cantos que esta era uma medida “econômica” necessária para garantir seus lucros. O melhor foi então criar a idéia de que os negros eram de uma raça inferior, tal qual os índios, gente de segunda classe aos quais não faria diferença ser escravizado. Ou melhor. Era natural que o fossem. E então foi só repetir, e repetir, e repetir. A coisa pegou. E tanto, que passados 300 anos de escravidão, até mesmo os escravos – pessoas das gerações que se seguiram e que nunca haviam conhecido a liberdade – acreditaram nisso.

Depois, com o fim do regime escravista, uma vez que já estava garantida acumulação do capital das famílias coloniais, a ideologia seguiu fazendo seus estragos. Os negros libertos ficaram ao léu. Não havia política para inclusão de toda uma multidão de gente que, de repente, se via livre. Muitos, já velhos, não tinham como vender a sua força de trabalho e perambulavam pelas ruas, a mendigar. Ao que o sistema acrescentou novos adjetivos: preguiçosos, vagabundos, marginais. Nas grandes cidades eles foram se encravando nos morros, buscando um canto para morar, já que o Estado lhes abandonava.

E então, como não havia como eliminar a presença do negro na vida nacional, uma vez que aqui eram milhões, a elite decidiu que era preciso “embranquecer” o país, já que, conforme sustentavam os ideólogos de plantão, a raça negra haveria de constituir sempre um dos fatores da inferioridade do país. Ou seja, depois de terem usado do braço negro para forjar suas riquezas, a elite os considera causa da desgraça nacional. Cínismo pouco é bobagem.

Desde então, sociólogos, antropólogos e cientistas sociais se debruçam sobre aquilo que chamaram e ainda chamam de “problema do negro”, buscando refletir os elementos do racismo e do preconceito. Diante desta diferenciada forma de capitulação ideológica, o sociólogo Guerreiro Ramos vai apontar sua metralhadora verbal. “Por que o negro é um problema? O que o faz ser um problema? Uma condição humana só é elevada a condição de problema quando não se coaduna com um ideal, um valor, uma norma. Se se rotula `problema´ao negro é porque ele é anormal. O que torna problemática a situação do negro é que ele tem a pele escura. Essa parece ser a anormalidade a sanar”. Ramos lembra que foi a superioridade européia no processo de colonização que criou estas manifestações – as quais chama de “patológicas” – de que o padrão estético dito normal e bonito só pode ser o branco. “ É uma tremenda alienação que não leva em conta a realidade local. Nossa país é um país de negros”.

Guerreiro Ramos argumenta que enquanto os estudiosos brasileiros não se libertarem da visão eurocêntrica da qual são cativos, muito pouco se poderá dizer sobre o racismo e a discriminação do negro no país. Os autores mais incensados, como Gilberto Freire e Nina Rodrigues, por exemplo, viam o negro como o exótico, o problemático, o não-Brasil. Euclides da Cunha acreditava que a fusão das raças era prejudicial e que o mestiço era um decaído, embora pudesse transcender e ser salvo pela civilização. Era uma espécie de tese de “embranquecimento” pela inclusão na vida nacional. Oliveira Viana chegou a dizer que a inferioridade seria passageira porque a tendência seria, pela mestiçagem, embranquecer.

Na tese defendida por Guerreiro Ramos a saída é a afirmação cotidiana da condição de negro, “niger sum”, pelo seu significado dialético numa sociedade em que todos parecem querer ser brancos por força da ideologia. “Sou negro, identifico como meu o corpo em que está o meu eu e considero minha condição ética como um dos suportes do meu orgulho pessoal”. Ele também defendeu, durante toda a vida, de que era necessário tirar do próprio negro a idéia de que havia um “problema do negro”. “O negro no Brasil é povo, o negro não é um componente estranho da nossa demografia”.

Hoje, o movimento negro atuante no Brasil tem trabalhado bastante essa tese, de afirmação cotidiana, mas não é fácil desfazer séculos de ideologia. Além do que é também possível encontrar entre algunas ONGs a idéia de que para o negro valem as políticas pobres como aquelas que, com dinheiro de fundações estrangeiras – como Ford, a Kellogs e outras que são inclusive responsáveis pela condição econômica de periferia de nossa gente – promovem cursos de cabelereira para mulheres negras e de garção para homens negros, como se a eles só pudessem ser garantidas estas profissões.

As cotas nas universidades avançaram em muito a dialetização da questão racial no Brasil, tanto que o racismo vivo e fulgurante se manifestou de várias maneiras, inclusive com estudantes brancos entrando na Justiça contra elas, como se as cotas já não fossem uma realidade nas universidades. Só que as cotas que existiam até então eram para os estudantes com cursinho particular, os nascido em berço explêndido e estes não admitiam “repartir” a vida universitária com estes que muitos ainda consideram “inferiores”, justificando a cristalização da ideologia implantada nos tempos coloniais.

Também o sistema capitalista é pródigo em cooptar as idéias e bandeiras do movimento negro, transformando em produto a idéia de afirmação racial, como se pode notar nas revistas especializadas que acabam dando destaque ao negro, mas sempre dentro dos padrões capitalistas, de consumo e de estética.

Por isso a lembrança de Zumbi é tão desconfortável, e não foi sem razão que, em Florianópolis, tenha sido recusada pela Câmara de Vereadores a proposta de um feriado no Dia da Consciência Negra. Porque quando se fala de Zumbi dos Palmares, se fala de outro modo de organizar a vida, auto-gestionada, cooperativa, solidária, comunitária, outros padrões de beleza e de relação com as coisas. Quando se fala em Zumbia se fala de luta aguerrida, armada, rebelde. Porque na sua história de líder de Palmares, Zumbi recusou a rendição, a composição de classe, a capitulação. Ele foi até o fim na proposição /niger sum/ (sou negro), e para a elite branca e racista isso pode se configurar num “mau explemplo”. Melhor encobrir ou ainda, tornar um produto.

De qualquer forma aí está o Dia da Consciência Negra nos interpelando, fazendo pensar que ainda há muito caminho a percorrer na destruição da ideologia racista inoculada desde os tempos coloniais.

Que viva Zumbi e que viva a idéia poderosa da afirmação de Guerreiro Ramos: Sou negro, sou povo brasileiro!

Elaine Tavares é jornalista.

Consciência Negra…

“Requilombô todo o povo, requilombô toda a gente”
Aí um dia me perguntaram: “Por que tem o dia da consciência negra, e não tem o dia da consciência branca?”Ora por que todo dia é o dia da consciência branca ainda precisa pontuar? É a mesma coisa do dia das mulheres, só faz sentido dentro de uma sociedade sexista, se a sociedade não fosse sexista não faria o menor sentido ter o dia das mulheres, todo dia é dia da mulher, todo dia é dia de todo mundo…

A idéia de você racializar o discurso não é para tomar uma oposição em relação ao branco, mas sim a idéia de que eu, quando digo que sou negro, assumo a minha ascendência, a minha história e estou disposto a construir o reino da diversidade… E ao mesmo tempo estar diante mestiçagem, mas a mestiçagem como reino da diversidade e não com uma idéia de que nós temos uma ascendência que precisa ser maquiada. Da diversidade real, não da fantasia. É como se você tirasse a máscara da “democracia racial” e, por trás dela, tivesse um Brasil verdadeiro e aí sim, diverso,ai sim mestiço. Mas mestiço neste sentido, não no sentido de ”vamos todos nos tornar cada vez mais brancos.” Você pode ser democrático, você pode ser diverso, mas sem abdicar de sua ascendência.

“Eu escutei um zum zum zum por aí,ouvi dizer que muita gente é Zumbi.”
Por isso datas como o 20 de novembro, são tão importantes. Porque unge-se um herói negro que se coloca como fonte da história.Aí você retira a idéia de que a abolição foi uma benesse do Estado Monárquico e traz a consciência de que o negro fez a história. ZUMBI!
“Requilombou todo o povo, requilombou toda a gente” (Refrão)
Mas agora a gente precisa avançar,porque os heróis somos todos nós Os heróis somos todos nós
Os heróis somos todos nós
Os heróis que sobrevivem no dia-a-dia
Os heróis somos todos nós
E não um herói que vai nos levar ao caminho da liberdade.
Os heróis somos todos nós
E cabe a nós não passarmos adiante a inferioridade
Os heróis somos todos nós
Cabe a nós retiramos o esteriótipo
e trazemos a identidade.
Isso é democrático. Ser agente da sua própria história.Se auto representar.
Isso é democrático . Se auto representar
Isso é realmente democrátco.
É ter a seguinte postura: sou negro sim, sou brasileiro, quero meus direitos e não estou tirando nada de ninguém. Não estou dizendo que branco é ruim, é pior, eu não estou dizendo nada disso, estou dizendo: sou negro, tenho orgulho de ser negro e quero meus direitos, como cidadão brasileiro.
Os heróis somos todos nós
Os heróis somos todos nós
Eu não preciso me integrar a sociedade
Eu sou a sociedade!


Dia da Consciência Negra é Dia de Luta


Em um país como Brasil que foi o ultimo a abolir a escravidão,em 1888, um regime escravocrata que durou 350 anos, ter um feriado da Consciência Negra é um grande avanço, na luta contra o racismo que ainda assola a sociedade brasileira. A data de 20 de Novembro não foi escolhida por acaso ela foi transformada em Dia Nacional da Consciência Negra pelo Movimento Negro Unificado em 1978 é uma homenagem a Zumbi, líder máximo do Quilombo de Palmares e símbolo da resistência negra, assassinado em 20 de novembro de 1695. Zumbi dos Palmares foi um herói brasileiro é o maior ícone de resistência negra ao escravismo e de sua luta por liberdade. Ele deixou para todos nos o exemplo de coragem e determinação, nunca mediu esforços lutou e morreu por uma causa, a Liberdade do Povo Negro.

Engana-se quem pensa que a luta acabou. Pelo contrário, os ideais de Zumbi permanecem mais vivos do que nunca. Pois a escravidão foi extinta no Brasil faz 122 anos e a situação do povo negro continua lastimável.

A população negra brasileira continua vivendo as margens da sociedade, excluída de poder usufruir seus direitos perante o Estado. Os negros foram obrigados a se refugiarem nas favelas, morros e vielas que se tornaram as Senzalas do Novo Século. E, continuam a serem perseguidos e exterminados pelos órgãos de repreensão do Estado, os capitães do mato agora andam fardados .O senhor da casa grande agora são os capitalistas, donos e monopolistas dos meios de produção.

Os dados são assustadores! Um adolescente negro tem 2,6 mais chances de ser assassinado do que um adolescente branco, é o que revela um estudo divulgado em julho/2009 pelo Observatório de Favela, Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da Republica , Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e Laboratório de Analise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

O estudo aponta ainda de que mais de 33 mil e 500 adolescentes brasileiros serão assassinados em um período de sete anos, que vai de 2006 a 2013. Pela primeira vez o índice de Homicídios na Adolescência (IHA) no Brasil, que mede a probabilidade de um adolescente ser assassinado, revela que o valor médio brasileiro é de 2,03, ou seja, de cada mil adolescentes, 2,03 serão vitimas de homicídios antes de completar 19 anos.

Em geral o adolescente assassinado é homem, negro e tem baixa escolaridade. Em todos os indicadores, os negros estão em desvantagens, são eternas vítimas de uma estrutura racista, exploradora e capitalista.,

É inadmissível aceitar que essa situação de exclusão e extermínio da população negra continue. É preciso de uma vez por todas ser rasgado o véu do mito da “Falsa Democracia Racial” que a sociedade elitista, burguesa, racista, que comanda esse país usa para tentar esconder o que esta tão evidente.

Não há outra saída . O povo brasileiro precisa se posicionar e se fazer ouvir.Chega de assistirem calados e de braços cruzados a esse genocídio da população negra. Quantos mais precisam morrer para que algo seja mudado? Quantas gerações mais serão perdidas para as drogas e para o crime, por falta de oportunidades que são simplesmente negadas pelo Estado, pela sociedade como um todo.

Esta na hora do Brasil começar a pagar sua enorme divida com a população negra, medida de políticas publica como Cota nas Universidades Publica, Mercado de Trabalho, Estatuto da Igualdade Racial, Programas Assistências a famílias carentes, são grandes conquistas mais não resolvem definitivamente o problema. A pirâmide da exclusão precisa ser derrubada, a sociedade brasileira precisa renascer baseada nos princípios das Igualdades de Direitos, essa igualdade não pode ficar somente no papel como é o caso da Constituição ela precisar ser colocada em pratica,

O direito a Cidadania precisa ser colocado em pratica, então 20 de novembro é mais do que um dia de festa para homenagear Zumbi é um dia de Luta, para deixar bem claro que a guerra ainda não foi ganha, e que enquanto você esta lendo essa reflexão, em algum lugar no Brasil um irmão negro está sendo discriminado ou assassinado.

A Revolução começa dentro de cada um de nós, que a chama de Zumbi permaneça acessa dentro de cada um, e que cada irmão consiga passar para o outro a idéia de não conformismo. Não se conforme com essa situação de exclusão, tenha orgulho da cor da sua pele, mesmo que o inimigo diga que ela é feia, mostre pra ele que feia é a consciência racista dele. E lute pela nossa Consciência Negra, não somente no dia 20 de novembro mais em todos os dias de sua vida.

Faça valer o sangue derramado de Zumbi dos Palmares, Dandara ,Anastacia .e tantos outros guerreiros, que morreram causa maior A Liberdade.

Texto: Paula Farias

Ps : 122 anos da tal abolição.

315 anos do Assassinato de Zumbi, inicio de uma luta que não tem fim!

Eustáquio Rocha

Dia Nacional da Consciência Negra

ZumbiMovimento Negro Unificado em 1978 – não foi escolhida ao acaso, e sim como homenagem a Zumbi, líder máximo do Quilombo de Palmares e símbolo da resistência negra, assassinado em 20 de novembro de 1695.

O Quilombo dos Palmares foi fundado no ano de 1597, por cerca de 40 escravos foragidos de um engenho situado em terras pernambucanas. Em pouco tempo, a organização dos fundadores fez com que o quilombo se tornasse uma verdadeira cidade. Os negros que escapavam da lida e dos ferros não pensavam duas vezes: o destino era o tal quilombo cheio de palmeiras.

Com a chegada de mais e mais pessoas, inclusive índios e brancos foragidos, formaram-se os mocambos, que funcionavam como vilas. O mocambo do macaco, localizado na Serra da Barriga, era a sede administrativa do povo quilombola. Um negro chamado Ganga Zumba foi o primeiro rei do Quilombo dos Palmares.

Alguns anos após a sua fundação,o Quilombo dos Palmares foi invadido por uma expedição bandeirante. Muitos habitantes, inclusive crianças, foram degolados. Um recém-nascido foi levado pelos invasores e entregue como presente a Antônio Melo, um padre da vila de Recife.

O menino, batizado pelo padre com o nome de Francisco, foi criado e educado pelo religioso, que lhe ensinou a ler e escrever, além de lhe dar noções de latim, e o iniciar no estudo da Bíblia. Aos 12 anos o menino era coroinha. Entretanto, a população local não aprovava a atitude do pároco, que criava o negrinho como filho, e não como servo.

Apesar do carinho que sentia pelo seu pai adotivo, Francisco não se conformava em ser tratado de forma diferente por causa de sua cor. E sofria muito vendo seus irmãos de raça sendo humilhados e mortos nos engenhos e praças públicas. Por isso, quando completou 15 anos, o franzino Francisco fugiu e foi em busca do seu lugar de origem, o Quilombo dos Palmares.

Após caminhar cerca de 132 quilômetros, o garoto chegou à Serra da Barriga. Como era de costume nos quilombos, recebeu uma família e um novo nome. Agora, Francisco era Zumbi. Com os conhecimentos repassados pelo padre, Zumbi logo superou seus irmãos em inteligência e coragem. Aos 17 anos tornou-se general de armas do quilombo, uma espécie de ministro de guerra nos dias de hoje.

Com a queda do rei Ganga Zumba, morto após acreditar num pacto de paz com os senhores de engenho, Zumbi assumiu o posto de rei e levou a luta pela liberdade até o final de seus dias. Com o extermínio do Quilombo dos Palmares pela expedição comandada pelo bandeirante Domingos Jorge Velho, em 1694, Zumbi fugiu junto a outros sobreviventes do massacre para a Serra de Dois Irmãos, então terra de Pernambuco.

Contudo, em 20 de novembro de 1695 Zumbi foi traído por um de seus principais comandantes, Antônio Soares, que trocou sua liberdade pela revelação do esconderijo. Zumbi foi então torturado e capturado. Jorge Velho matou o rei Zumbi e o decapitou, levando sua cabeça até a praça do Carmo, na cidade de Recife, onde ficou exposta por anos seguidos até sua completa decomposição.

“Deus da Guerra”, “Fantasma Imortal” ou “Morto Vivo”. Seja qual for a tradução correta do nome Zumbi, o seu significado para a história do Brasil e para o movimento negro é praticamente unânime: Zumbi dos Palmares é o maior ícone da resistência negra ao escravismo e de sua luta por liberdade. Os anos foram passando, mas o sonho de Zumbi permanece e sua história é contada com orgulho pelos habitantes da região onde o negro-rei pregou a liberdade.

Dia da Consciência Negra

Homenagem do Instituto Zequinha Barreto

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“Estamos em pleno mar” das desigualdades sociais,
Afundando no veleiro antigo da discriminação…
Chicoteando com os olhos os de costumes tribais
Indiferentes à fome, ao humano, aos desta nação.

“Estamos em pleno mar” de conflito ideológico,
Presos à mesma corrente do orgulho e preconceito,
Distraímos no mar do ego, do ciúme e “meu” direito,
Sem notar deveres, a fome, a sede, d’outro, é lógico.

“Estamos em pleno mar” loucos no tempo, sem tempo,
Atravessamos o dia, a avenida, só a alma d’outrem não.
Descuidamos do homem porque pensamos em aumento
As crianças não terão futuro na nossa nação, nem coração.

black_conscience_day_by_latuff2 Quando um corpo cai assustamos, só por um instante.
Esquecemos, temos que ir buscar e esmagar o porvir…
Escravizamos nosso ser, o ter, o viver, o modo elegante.
Pisamos, estupramos, abusamos da vida sem sentir.

“Estamos em pleno mar” das cotas, das notas, das mortas…
Crianças pelo crack, sem rumo, sem sina, sem nada.
Jogamos a âncora no dinheiro, no crédito, no cartão,
Na loteria, na correria, na fantasia, na depressão.

foto matéria 1 Do negro vemos pigmentação, do índio, nem a cultura,
Do branco, só a pele, do oriental, piada tradicional,
Do pobre a ignorância. Do rico achamos que o ter é a cura…
Por que mínimas diversidades, preconceitos criaram esse mal?

“E disse Deus: façamos o homem à nossa imagem”
Se formos assim, então Deus é um ser todo colorido.
Com sentimento, paixões, ilusões, vontades e amigos.
É dia de termos uma consciência que somos humanos.

Consciência que somos humanos… Humanos!
Iguais a ele, a nós, a vós, a “eu”, a “tu”, a todos.
Consciência negra, branca, indígena e das etnias.

de Daniel Rosa da Silva
Americana – SP

Carta a um amigo teólogo sobre o aborto nas eleições de 2010


Escrito por José Comblin

Caríssimo Arnaldo,

Você se lembra do golpe eleitoral que estourou na véspera do primeiro turno das eleições de 2010 quando apareceu todo um alvoroço sobre a questão do aborto. Esse alvoroço permaneceu durante todo o mês de outubro até o segundo turno. Nas igrejas e fora das igrejas foram distribuídos milhões de panfletos assinados pelos bispos da diretoria do regional Sul 1 para intimar os católicos a votar no candidato José Serra. O motivo era que os candidatos do PT, principalmente a candidata à presidência da república, queriam legalizar o aborto no Brasil e, por conseguinte, queriam implntar uma cultura de morte.

Esse incidente me levou a refletir um pouco sobre esse fato bastante estranho e o seu significado eclesial. Quero comunicar-lhe aqui alguma coisa dessas reflexões.

Os bispos denunciadores se diziam os defensores da vida, isto é, pessoas que lutam contra o aborto e lutam contra todos os políticos que defendem o aborto descriminalizado no Brasil. O seu linguajar foi o que usam os movimentos que se dizem defensores da vida porque condenam o aborto. Era um linguajar violento, condenatório. Somente por distração os autores esqueceram-se de comunicar que a descriminalização do aborto estava no programa do PV, e que o candidato Serra já tinha autorizado o aborto em certos casos quando era ministro da saúde, o que lhe valeu os protestos da CNBB. Com certeza foi um esquecimento por distração. Por discrição os bispos omitiram o que aconteceu um dia na vida do casal Serra, o que foi bom porque a vida privada não deve interferir com a vida pública

Sucede que a Igreja condena desde sempre o aborto, e estabeleceu uma pena de excomunhão para todos os que têm participação ativa. Conseguiu que houvesse no Brasil uma lei que criminaliza o aborto. Mas o Brasil é um dos países onde há mais abortos. Alguns dizem 70.000 por ano, outros estudos chegam a dizer que uma de cada 5 mulheres no Brasil já praticou um aborto. Sempre é um aborto clandestino e naturalmente é feito nas piores condições para os pobres. Pois para quem tem condições há clínicas particulares bem equipadas, conhecidas, porém jamais denunciadas pela Igreja. Sobre essas clínicas para os ricos o poder judicial fecha pudicamente os olhos. Afinal, trata-se de pessoas importantes As condenações da Igreja não têm nenhum efeito. A lei da república não tem nenhum efeito. Os defensores da vida não conseguem defender nada. Falam, falam, mas sem resultado. Condenam, condenam, mas o crime se comete com a maior indiferença pelas condenações verbais ou legais. Falam, condenam e nada acontece. Eles se dão boa consciência achando que defendem a vida, mas não defendem nada. Há um lugar no evangelho em que Jesus fala das pessoas que falam e não fazem nada. Impedem a descriminalização, mas defendem a situação atual, ou seja, são defensores do aborto clandestino, que é a situação atual.

O seu argumento poderia ser que a descriminalização aumentaria o número de abortos. No entanto, a experiência de outros países mostra que, pelo contrário, diminui o número de abortos. Isto se explica facilmente. Pois uma vez que uma mulher pode falar abertamente em aborto, as autoridades podem, com a ajuda de psicólogas, de assistentes sociais, de assistentes religiosos, dialogar com ela e buscar com ela outra solução, o que de fato acontece. Muitas mulheres não teriam feito o aborto se tivessem recebido ajuda moral ou material, quando estavam desamparadas.

Já que o documento era assinado por bispos, eu pensava que os bispos fossem explicar o que estão fazendo na pastoral da sua diocese para lutar contra o aborto clandestino, e fizessem propostas aos candidatos nas eleições na base das suas experiências pastorais. Mas não havia nada disso no panfleto. Teria sido interessante saber como fazia a pastoral diocesana para evitar que houvesse abortos. Mas não havia nada. Os bispos gritavam, assustavam, condenavam, mas não diziam o que faziam. Alguns leitores pensaram: já que não falam da sua pastoral para evitar o aborto, deve ser porque não existe essa pastoral. Falam contra o aborto, mas não fazem nada para evitá-lo. Condenam, e mais nada.

Pois, poderiam fazer muita coisa. Muitas mulheres que querem fazer o aborto são mulheres angustiadas, perdidas, desesperadas que se sentem numa situação sem saída. Muitas querem o aborto porque os seus pais não aceitam que tenham uma criança. Outras são obrigadas a fazer o aborto pelo homem que as estuprou, e que pode ser o próprio pai, um irmão, um tio, um padrasto. Outras estão desesperadas porque a empresa em que trabalham, não permite que tenham criança. Outras são empregadas domésticas e a patroa não aceita que tenham que cuidar de uma criança. Então essas meninas ou moças ficam angustiadas e não sabem o que fazer. Não recebem atendimento, não recebem conselho, não recebem apoio nem moral nem material, porque tudo é clandestino e nem sequer se atrevem a falar com outras pessoas a não ser algumas amigas muito próximas. Não achando alternativa, a contragosto e com muito sofrimento recorrem ao aborto. A Igreja não as ajudou quando precisavam de ajuda.

A Igreja poderia ter uma pastoral para olhar o que acontece na rua, no bairro, quais são as meninas ou moças que podem estar em estado de perigo porque estão numa dessas categorias de risco. Poderia acolher ou dar assistência moral e material, dialogar, buscar outras soluções. A experiência mostra que às vezes um simples abraço faz com que desistam de fazer o aborto. O aborto é o resultado da indiferença da comunidade cristã. Somos todos culpados, todos cúmplices por omissão e, em primeiro lugar, teríamos que pedir perdão pelo nosso descuido em lugar de acusar essas mulheres. Era o que se esperava de um documento assinado por bispos, que, afinal, representam o evangelho e a maneira como Jesus tratava os pecadores.

Jesus não condenou os pecadores e o que se espera da Igreja é que tenha muita misericórdia, muita compreensão e que ajude efetivamente essas pessoas que estão numa situação tão difícil. Poderíamos fazer sugestões ao poder legislativo no sentido de criar instituições para responder e tantos casos em que a vida humana está em perigo, e este é um deles.

Não faz sentido dizer que sou contra o aborto e estou defendendo a vida se não faço nada. Não estou defendendo vida nenhuma e o aborto está aí e não faço nada. O governo tem uma lei que criminaliza o aborto e essa lei não se aplica. Só serve para que o aborto seja clandestino, isto é, feito nas piores condições morais e físicas, salvo para as pessoas de boa condição. Essa lei é inaplicável e a Igreja nem se atreve a pedir que ela se aplique. Seria preciso construir milhares de penitenciarias e colocar nas prisões talvez um milhão de mulheres. A Igreja não pede isso e se conforma com o aborto clandestino. Na prática nada faz contra o aborto clandestino.

Existe a alternativa da descriminalização, que é para os nossos defensores da vida a proposta de Satanás. A chantagem dos chamados defensores da vida fez com que todos condenem a descriminalização, como faz a Igreja. Quem sou eu para julgar? Os bispos do Regional Sul 1 acham melhor o aborto clandestino. Quem sou eu para discutir? Porém, teria o direito de pedir mais discrição e mais humildade, porque afinal somos todos cúmplices por omissão se não fazemos nada para prevenir os abortos tão numerosos no Brasil. A condenação é inoperante. Mas uma pastoral da família ou uma pastoral específica para esse problema poderia evitar que muitas mulheres angustiadas e desesperadas tenham quer recorrer ao aborto que nenhuma mulher pede sem chorar. Porque esperar antes de desenvolver essa pastoral?

Então, qual foi o testemunho de amor que a Igreja deu com esse panfleto eleitoral?

José Comblin, grande pecador e cúmplice por omissão.

Originalmente publicado em http://www.adital.org.br/

A consciência negra

O Brasil celebra, comemora, protesta e entra definitivamente na sua conscientização negroide

Alexandre Braga

O Brasil celebra, comemora, protesta e entra definitivamente na sua conscientização negroide. Esse fato venceu as teses morenistas, que pregavam que seríamos uma nação atrasada por causa da nossa herança africana ou porque uma possível ascendência negra iria nos envergonhar. Todo esse repertório falacioso perdeu força e caiu no desgosto da população, apesar de se passarem tantos anos de exclusão étnica. Hoje, a consciência negra, que virou uma agenda pública mensal, significa o reconhecimento dessa importante herança negra para o sucesso societário brasileiro. As ações afirmativas, dela oriundas, são a aplicação prática dos preceitos que estão na Constituição Federal, na ideologia e no ethos do nosso povo. Mesmo que com um reconhecido atraso na disponibilização de ferramentas para superar as diferenças entre brancos e negros ( incluindo os próprios “morenos”, os pretos e os pardos), o Brasil está na rota certa para avançar na construção da democracia racial, que pode tornar-se realmente um fato. Somente na educação há em torno de 90 das melhores universidades que usam os mecanismos especiais de inclusão educativa para beneficiar os estudantes de camadas pobres, aplicando também o recorte étnico-racial. Na saúde, cultura, empregabilidade, também há ações voltadas para a inclusão de negros e seus descendentes.

Na literatura, teremos muito trabalho para revisar os livros didáticos usados por nossos pupilos nas escolas, como recomenda a Lei nº 11.645 – sobre o ensino da cultura afroindígena nos colégios brasileiros. Por exemplo, somente o IBGE calcula que precisaremos de pelo menos 20 anos de políticas voltadas para as ações afirmativas para colocar brancos e negros em níveis mínimos de igualdade. Portanto, a lembrança de datas como essas, do mês da consciência negra, têm um viés político muito forte: a resistência venceu a escravidão. Por isso, suas atividades vêm carregadas de tempero emocional. Dessa forma, o Dia da Consciência Negra traz consigo tantas e variadas atividades, como as marchas para aumentar a consciência do pertencimento étnico, os protestos mais raivosos e justos, e as homenagens aos homens e mulheres negros ( Zumbi e Dandara, líderes da República de Palmares; Osvaldão, líder da Guerrilha do Araguaia; Machado de Assis, escritor; André Rebouças, engenheiro especialista em engenharia hidráulica-ferroviária e de portos; Chiquinha Gonzaga, compositora, pianista e primeira mulher a reger uma orquestra no Brasil, João Cândido, líder da Revolta da Chibata; entre outros), que, de alguma forma, ajudaram na construção da riqueza da nação mais negra fora do continente africano. E o maior significado desse dia é que, longe do ranço contra quem quer que seja, hoje a população negra, ou os 49,8% do povo brasileiro, luta pelo cumprimento do plano de ação assumido na Conferência da ONU contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata ,em 2001, e pelas propostas da Conferência Nacional de Promoção de Igualdade Racial, organizada em 2005 pelo governo brasileiro.

Além disso, o Movimento Negro quer justiça social aos próprios negros, aos povos de tradição indígena e aos demais grupos que durante a construção dessa nação-continente tiveram seus direitos humanos violados. Ou seja, no século XXI o debate sobre as alternativas para o desenvolvimento sustentável, as soluções para superação dos conflitos étnicos e o combate ao preconceito e às desigualdades sócio-raciais se dão entrelaçadas pelo culto à capacidade de resistência dos povos e pelo clamor por equidade. É inegável a herança africana na culinária, na dança, no ethos do nosso povo, mas é inegável também o atraso com que o Estado brasileiro trata essas questões. Às vezes, quando as assumem, o faz lentamente e de forma mais para negro ver do que para negro ter justiça e respeito de fato.

Alexandre Braga é Coordenador de Comunicação da UNEGRO-União de Negros Pela Igualdade, Tesoureiro do FOMENE – Fórum Mineiro de Entidades Negras, africanista e articulista de jornais no Brasil e África. Seu e-mail é bragafilosofia@yahoo.com.br.

América Latina: onde floresce o Hip Hop político

Como na metáfora dos modernistas brasileiros, o continente promove uma antropofagia cultural, engolindo, digerindo e transformando a herança da diáspora negra

Spensy Pimentel

do Desinformemonos.org

Vinte anos atrás, o rap político chegava ao seu auge nos EUA. Grupos como Public Enemy, Boogie Down Productions (BDP) e Niggers with Attitude (NWA) expressavam, cada um a seu modo, o descontentamento dos habitantes dos guetos das grandes cidades do país com a falta de oportunidades econômicas para os mais pobres e a violencia policial, especialmente contra negros e latinos. A virulência das letras, recuperando muitas idéias e nomes do movimento negro dos anos 60 e 70, chamava a atenção, e os grupos chegaram a ser alvo de investigações do FBI. Congressistas da direita faziam discursos raivosos e paranóicos.

Causa? Efeito? Sintoma, de qualquer modo. Enquanto ecoavam pelos guetos negros e latinos dos EUA versos virulentos contra a polícia, como “Fuck the police” / “They have the authority to kill a minority”, do NWA, uma insatisfação crescente desembocou em uma série de revoltas em 1992, principalmente a partir de Los Angeles, onde policiais acusados de espancar o taxista negro Rodney King, flagrados por um cinegrafista amador um ano antes, foram absolvidos por um júri formado majoritariamente por brancos.

Logo depois, os ventos mudaram nos EUA. A sucessão de governos republicanos – que costumam cortar os gastos públicos, principalmente destinados à assistência social – foi interrompida em 1993 pela chegada do democrata Bill Clinton. A queda do muro de Berlim, em 1989, deu força ao projeto neoliberal traduzido no decálogo do Consenso de Washington, e os anos 90 foram marcados pela imposição dos padrões econômicos que interessavam aos mercados financeiros. Na América Latina, uma leva de governos francamente alinhados com os EUA produziu abertura dos mercados, privatizações e o desmantelamento da economia. Os rentistas – os que vivem de juros – lucraram como nunca. Em menor ou maior grau, o continente foi à lona e sofre até hoje as consequencias da adoção das famosas lições de casa de organismos como o FMI e o Banco Mundial.

A música dos guetos continuou a refletir o zeitgeist, o espírito do mundo. Favorecida pelas políticas de livre mercado, as privatizações e as novas tecnologias, com o advento da internet, sobretudo, a economia americana viveu um período de grande prosperidade. Em paralelo, o rap ganhou espaço no mainstream (3M: mercado, mídia, moda) ao mesmo tempo em que o protesto político passou a ser uma corrente minoritária. Ganhava espaço, principalmente, o gangsta rap, cada vez mais celebrando um modo de vida consumista de artistas que passavam a ganhar dinheiro com a música. Se os clipes de rap antes denunciavam a violência da polícia contra os jovens negros na rua, agora passavam a mostrar como, mesmo em um automóvel luxuoso de último tipo um negro ainda podia ser parado como suspeito. No fio da navalha entre as duas tendências ficavam figuras como certo filho de Afeni Davis, uma antiga integrante do Black Panthers Party, conhecido como Tupac Shakur, mais tarde 2Pac.

Mas a centelha de consciência política e revolta trazida pelo Hip Hop como herança dos movimentos negros dos anos 60 e 70 não morreu, apenas emigrou. Escondida nos porões das naus da globalização neoliberal, ela se espalhou pelos continentes. Na França, foi trilha sonora das revoltas dos jovens dos bairros pobres contra as políticas liberais e a violência policial. Na Palestina, embala a luta dos jovens na Intifada. À África, o fruto da diáspora negra voltou para semear a desobediência civil contra o autoritarismo.

E foi na América Latina que a semente do Hip Hop encontrou o solo mais fértil. Na região que sofre desde o século XIX com a sombra da presença norte-americana, os ensinamentos sobre o valor da organização comunitária local na produção cultural ganham nova dimensão. Enquanto o Hip Hop se torna parte do cerne da indústria cultural norte-americano no fim dos anos 90, na América Latina, ele se converte em catalisador de núcleos de formação política nas periferias urbanas e voz dos oprimidos.

Milhares de jovens, aos quais não falavam os partidos, os sindicatos ou os movimentos negro e indígena, de repente estão a ler obras de Malcolm X e Martin Luther King, a procurar informações sobre líderes como Zumbi dos Palmares, Che Guevara, Luisa Mahin ou Tupak Katari, ao mesmo tempo em que promovem festas, cursos de dança, desenho e poesia, além de trabalhos sociais nas comunidades onde vivem. A maioria absoluta não vai se tornar campeão de vendas, não vai se tornar milionário, mas terá, certamente, a vida mudada por essa sutil combinação de arte e política em que se converteu o Hip Hop.

Ao sul do Rio Grande também se dança

Os mexicanos, que são quase 30 milhões, entre os nascidos no México ou seus descendentes, vivendo nos Estados Unidos, têm tamanha presença nos guetos americanos que o país poderia ser considerado quase tão importante na composição dos elementos do Hip Hop como a Jamaica – de onde vieram vários dos primeiros envolvidos nas festas de rua (block parties) onde surgiu o movimento, com elementos como o DJing e o Mcing. O rap chicano se impôs nos anos 90, e a arte do lowriding, por exemplo, típica das comunidades mexicanas na região de Los Angeles, foi definitivamente incorporada ao Hip Hop. Não há como ignorar, ainda, a possível influência da arte latino-americana no grafite, particularmente o muralismo centroamericano.

Desde os anos 90, ao mesmo tempo que é um dos mais castigados pelas políticas neoliberais, o país também gerou um movimento que virou referência para a resistência contemporânea ao capitalismo, o zapatismo. Rappers como Olmeca, que mora em Los Angeles, e Boca Floja demonstram a influência do EZLN.

Outro país latino-americano cujos imigrantes estiveram fortemente ligados às raizes do movimento é Porto Rico. Alguns dos primeiros Mcs, Djs, breakers e grafiteiros tinham ascendência portorriquenha – ou cubana, ou ambas. Era portorriquenho, por exemplo, Julio 204, precursor do grafite e do próprio Taki 183, o primeiro praticante das tags a obter fama na mídia, em 1971. Outro descendente de portorriquenhos (e cubanos) era o DJ Disco Wiz, integrante de uma das primeiras crews de Mcs do Bronx.

Hoje, o rap político portorriquenho, conhecido como rap boricua, celebra a soberania do país e ataca os invasores norte-americanos. Em “Mano Dura”, Siete Nueve e Intifada denunciam a execução, por agentes do FBI, em 2005, de Filiberto Ojeda Rios, líder independentista. O vídeo de “Epica del Tiempo”, de Intifada, celebra a resistência à ocupação norte-americana, que já dura 112 anos.

Em 2008, na disputa entre Obama e McCain, o reggaeton, uma derivação latina do Hip Hop de apelo mais comercial, originária de Porto Rico, entrou na política eleitoral. Daddy Yankee declarou voto em McCain, e o rapper Siete Nueve pedia a ele: “Quedate callao!” Situação parecida ocorreu, também no governo Bush, com o sambista brasileiro Alexandre Pires, que chegou a chorar ao encontrar o presidente norte-americano. “Falhou, sujou, a bandeira brasileira / Envergonhando a América Latina inteira / Inocência, oportunismo, ignorância da história / Chorou nos braços de quem tem fama sem glória”, cantou para ele à época o rapper GOG.

No Brasil, o rap tornou-se, rapidamente, uma das principais expressões de um forte movimento de auto-afirmação da população negra e de reivindicação de espaços na política, na economia e na sociedade. Nomes como os dos Racionais MCs e GOG inspiraram milhares de jovens a procurar entender melhor sua história e sua vida. Toda uma geração de rappers obteve destaque no país desde o início dos anos 90, trazendo destaque à problemática da juventude negra nas periferias metropolitanas do país. São nomes como RZO, Sabotage, De Menos Crime, Conexão do Morro, MV Bill, Z’África Brasil, entre outros. Na década atual, os rumos dos trabalhos dos Racionais e de Bill, entre outros, causa debate no movimento, incluindo-se contratos com grandes empresas e aparições na maior rede de TV do país, a Globo, além de posicionar-se a favor de ações polêmicas do governo Lula como a coordenação da missão da ONU no Haiti.

Em tempos de bonança na economia, com um governo que tem aprovação de uma maioria absoluta da população negra e pobre, o rap político perdeu terreno. Ganhou espaço no país o funk carioca, por exemplo, uma derivação de um estilo do rap norte-americano, o miami bass, mais dançante e abordando temáticas mais ligadas à sexualidade. Ainda assim, o funk carioca enfrenta a criminalização, da mesma forma que outras manifestações culturais populares, principalmente devido a letras que abordam (e, do ponto de vista de alguns, exaltam) o crime organizado do Rio de Janeiro. Artistas do funk carioca como Deize Tigrona alçaram fama internacional.

Ao mesmo tempo, a maior consciência sobre os limites da tomada de poder por um partido de esquerda e a necessidade de continuar a luta social fora do âmbito estatal dão destaque a uma nova leva de ativistas-ativistas, como é o caso dos coletivos Lutarmada e Enraizados, ou mesmo do próprio movimento da literatura marginal ou periférica, uma transformação sui generis do Hip Hop, grande novidade dos últimos anos no país (vide, por exemplo, Donde Miras). A falência da indústria da música também enseja a reflexão sobre formas alternativas de distribuição, e novos padrões de comportamento diante da grande mídia e dos partidos políticos, como é o caso dos MCs Emicida, Rashid e Rapadura, ou dos grupos Facção Central e Tr3f – este último, do escritor Ferréz. Nem sempre se trata de uma “nova geração”. Há casos em que se trata de gente com anos de estrada no movimento, mas que representam esse novo momento que chegou para o Hip Hop no Brasil, diante da atual conjuntura política (o link acima é para um clipe do Facção Central que foi censurado pela Justiça em 1998).

Em outros países, como Venezuela e Cuba, onde há um explicito projeto socialista em marcha, os governos locais dão apoio massivo ao Hip Hop como forma de cultura jovem. Em Cuba, existe até mesmo um organismo estatal específico, a Agência Cubana de Rap, para dar suporte ao movimento. Intensa articulação com os afrocubanos nos EUA acontece em torno do evento Agosto Negro, que ocorre desde 1998 e envolve, entre outros elementos, a solidariedade com presos políticos negros nos EUA (como o padrasto de Tupac, preso até hoje) – por iniciativa da ativista Nehanda Abiodun, veterana do Black Power que obteve asilo político em Cuba. Nomes fortes dessa cena do rap político cubano são, entre outros, Anonimo Consejo, Los Aldeanos e Obsesión.

Na Venezuela, desde 2005, o governo ajuda a promover a Cúpula Internacional do Hip Hop, que é anual e já está em sua 5a edição. Aí estão grupos como o Hip Hop Revolución, Kultura Santa e Septima Raza. Em parceria com o governo, o movimento está criando a rede de Escolas Populares de Artes e Tradicoes Urbanas (Epatu). Pelas cúpulas venezuelanas já passaram grupos de vários países, como Legua York (Chile), Actitud María Marta (Argentina) e Metaforus (República Dominicana). E há, evidentemente, também, os que cantam contra o governo.

Uma das grandes novidades dos últimos anos, ainda, é o rap indígena. Na Bolivia, onde dois terços da população pertencem a algum dos mais de 35 povos originários do país, destaca-se a producao de El Alto, onde apareceu o grupo Wayna Rap, rimando em aymara (uma das duas principais etnias do país) e onde vivia o ativista Ukamau Y Ke, morto em 2009.

No Chile, os Mapuche, que são o principal grupo indigena do país, enfrentam pesada discriminação racial e violencia policial. A identificação com o Hip Hop é inevitável. Na fronteira do Brasil com o Paraguai, os Guarani-Kaiowa enfrentam situacao semelhante. Nas aldeias do grupo, superlotadas pelo confinamento promovido pelo governo brasileiro ao longo de todo o seculo XX, a fim de liberar as ricas terras da região para o agronegócio, os jovens enfrentam fome, doenças e falta de perspectivas sobre um futuro. O resultado tem sido muita violência, suicídios e, agora, como reação, o Hip Hop, cantado em guarani.

O Hip Hop na América Latina não para de evoluir e transformar-se. Como na metáfora dos modernistas brasileiros, evocando a herança dos índios tupi da costa brasileira, canibais à época da conquista, o continente promove uma antropofagia cultural, engolindo, digerindo e transformando a herança da diáspora negra. Neste momento, não só aparecem projetos que demonstram cada vez mais a consciência dessa realidade, como o recente disco Distant Relatives, do americano Nas e do jamaicano Damian Marley. Para além dos artistas de mais visibilidade, milhares de rappers, breakers, grafiteiros cada vez mais aproveitam oportunidades para viajar e promover encontros e intercâmbios. O resultado explosivo dessa união planetária será percebido em pouco tempo, tenho certeza.

Spensy Pimentel é colunista do Centralhiphop.uol.com.br e autor do Livro Vermelho do Hip Hop (disponível para download em português em

http://centralhiphop.uol.com.br/site/?url=biblioteca_detalhes.php&id=12 )

PS: mesmo não sendo mais a principal corrente do Hip Hop nos EUA, o rap político continua resistindo. Artistas como Dead Prez, Mos Def, Talib Kweli, The Roots, Erikah Badu etc. mantêm a linha de resistência. A presenca de latinos e descendentes como Immortal Technique e Zack de la Rocha continua forte – quem diria que uma banda de rock como o Rage Against the Machine ajudaria a manter a linha de ataque num período em que grande parte dos rappers está mais preocupada em exibir-se com carros, roupas e jóias. Há até mesmo um imigrante haitiano como Wyclef Jean que tentou se candidatar a presidente de seu país natal.

PS2: este texto é um esforço para sistematizar uma enorme quantidade de informação. Agradecemos por quaisquer correções, acréscimos ou apartes com os quais os leitores possam contribuir.

PS3: dou mais destaque ao rap do que aos demais elementos do Hip Hop neste texto pela facilidade que a canção oferece de explicitação de ideais políticos. Não quer dizer, absolutamente, que não haja política no break e no grafite, apenas que, talvez, seja mais difícil para o grande público perceber isso, pelas sutilezas das linguagens não verbais.

“O racismo fica escancarado ao olhar mais superficial”

Ao longo de seus 96 anos, Abdias esteve presente e participou de inúmeras passagens importantes das lutas negras do século 20, não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos e na África. Sua vida é ela mesma a própria história da luta negra


Joana Moncau e

Spensy Pimentel

de São Paulo (SP)

Desinformémonos.org

A luta pelo reconhecimento dos direitos, a dignidade e a autonomia da população negra tem heróis de muitos países, entre África e Américas. É uma luta tão antiga quanto a diáspora negra produzida pelo vergonhoso comércio de africanos que vigorou no Atlântico por quase quatro séculos. É por se tratar de uma luta de tantos povos, lugares, tempos e pessoas que impressiona tanto conhecer a vida do ativista brasileiro Abdias do Nascimento.

Ao longo de seus 96 anos, Abdias esteve presente em e participou de inúmeras passagens importantes das lutas negras do século 20, não só no Brasil, mas também nos Estados Unidos e na África. Nasceu em 1914, numa época em que ainda eram extremamente recentes as lembranças da escravidão no país, abolida em 1888. Nos anos 1930, engajou-se numa iniciativa pioneira, a Frente Negra Brasileira, na luta contra a segregação racial nos estabelecimentos comerciais de São Paulo. Por sua militância política, foi preso pela ditadura Vargas.

Nos anos de 1940, viajou pela América Latina como artista – é escritor, ator e artista plástico – com a Santa Hermandad Orquídea, e fundou o Teatro Experimental do Negro, entidade que organizou a Convenção Nacional do Negro em 1945-46. A iniciativa foi responsável pela formulação de diversas sugestões de políticas públicas para a população negra durante a Constituinte de 1946. Abdias ainda organizou o 1° Congresso do Negro Brasileiro em 1950.

Militante do Partido Trabalhista Brasileiro, foi perseguido pela ditadura militar, instalada pelo golpe de 1964. Exilado nos Estados Unidos, travou contato com o movimento negro no país, no auge da efervescência do Black Power. Nos anos 1970, participou do movimento pan-africanista e foi professor universitário na Nigéria. Nesse período, atuou em países como Jamaica, Tanzânia, Colômbia e Panamá, mantendo contato com lideranças como Aimé Césaire, Frantz Fanon, Léon Damas, Richard Wright, Cheikh Anta Diop, Léopold Sédar Senghor e Alioune Diop.

Ajudou a organizar o Movimento Negro Unifi cado (MNU), fundado em 1978, e, na redemocratização dos anos 1980, voltou ao país, foi eleito deputado federal e, depois, chegou a senador pelo PDT, sempre defendendo projetos em benefício da população negra. Junto com a esposa, Elisa Larkin Nascimento, fundou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), atualmente presidido por ela.

Na entrevista a seguir, respondida por e-mail por sua esposa, Elisa, e subscrita por ele, Abdias dá um recado à nova geração de jovens negros militantes: “O conselho que dou para essa juventude é estudar, aprender, conhecer e se preparar para, então, se engajar: agir, criar, interagir e participar da construção das coisas.”

Qual a importância de se criar o Dia Nacional da Consciência Negra? Por que o senhor lutou para que a data fosse instituída no dia 20 de novembro, dia da morte do líder Zumbi dos Palmares, e não no dia 13 de maio, dia da promulgação da Lei Áurea, data antes escolhida pelo governo?

Abdias do Nascimento – A demanda de se instituir o Dia Nacional da Consciência Negra no dia 20 de novembro surgiu na década dos 1970 a partir do Rio Grande do Sul, onde o saudoso poeta Oliveira Silveira militava no Grupo Negro Palmares. O movimento negro como um todo, organizado em entidades em vários estados do Brasil naquela época, a encampou. Eu já costumava dizer que a Lei Áurea não passava de uma mentira cívica. Sua comemoração todo ano fazia parte do coro de autoelogio que a elite escravocrata fazia em louvor a si mesma no intuito de convencer a si mesma e à população negra desse esbulho conhecido como “democracia racial”. Por isso o movimento negro caracterizou o dia 13 de maio como dia de reflexão sobre a realidade do racismo no Brasil.

O dia 20 de novembro simboliza a resistência dos africanos contra a escravatura. Essa resistência assume diversas expressões táticas e perpassa todo o período colonial. Durante esse período, em todo o território nacional, havia quilombos e outras formas de resistência que, em seu conjunto, desestabilizaram a economia mercantil e levaram à abolição da escravatura. Esse é o verdadeiro sentido da luta abolicionista, cujos protagonistas eram os próprios negros. Eles se aliavam a outras forças, mas, muitas vezes, foram traídos por seus aliados. Mais tarde, entretanto, a visão eurocêntrica da história ergueria os aliados como supostos atores e heróis da abolição. A comemoração do Dia Nacional da Consciência Negra em 20 de novembro tem como objetivo corrigir esse registro histórico e reafirmar a necessidade de continuarmos, nós, os negros, protagonizando a luta contra o racismo que ainda impera neste país.

O Memorial Zumbi, movimento nacional que agregava entidades do movimento negro de todo o país em torno da demanda da recuperação das terras da República dos Palmares, ergueu essa bandeira na década dos 1980. Tive a honra de participar desse movimento. O Memorial Zumbi instituiu a tradição de se realizarem peregrinações cívicas anuais às terras de Palmares na serra da Barriga, estado de Alagoas. Conseguimos, em 1989, a desapropriação dessas terras. O objetivo era instalar ali um polo de cultura de libertação do negro. Hoje, existe um monumento e assistimos a cerimônias cívicas no dia 20 de novembro em que participam altas autoridades do governo federal e estadual. Mas para nós, negros, o monumento lembra a necessidade de continuarmos lutando pelo fim da discriminação racial.

O senhor esteve no exílio, de 1968 a 1981, por conta da enorme repercussão que teve a sua “carta-declaraçãomanifesto” na qual denunciava a farsa do paraíso racial que se dizia viver na América Latina. Como o senhor avalia a questão da “democracia racial” no Brasil de hoje? Onde é possível dizer que a crítica a ela colheu frutos?

O racismo no Brasil se caracteriza pela covardia. Ele não se assume e, por isso, não tem culpa nem autocrítica. Costumam descrevê-lo como sutil, mas isto é um equívoco. Ele não é nada sutil, pelo contrário, para quem não quer se iludir ele fica escancarado ao olhar mais casual e superficial. O olhar aprofundado só confirma a primeira impressão: os negros estão mesmo nos patamares inferiores, ocupam a base da pirâmide social e lá sofrem discriminação e rebaixamento de sua autoestima em razão da cor. No topo da riqueza, eles são rechaçados com uma violência que faz doer. Quando não discrimina o negro, a elite dominante o festeja com um paternalismo hipócrita ao passo que apropria e ganha lucros sobre suas criações culturais sem respeitar ou remunerar com dignidade a sua produção. Os estudos aprofundados dos órgãos ofi ciais e acadêmicos de pesquisa demonstram desigualdades raciais persistentes que acompanham o desenvolvimento econômico ao longo do século 20 e início do 21 com uma fi delidade incrível: à medida que cresce a renda, a educação, o acesso aos bens de consumo, enfim, à medida que aumentam os benefícios econômicos da sociedade em desenvolvimento, a desigualdade racial continua firme.

Pensando o caso de Cuba, em específi co, como o senhor considera o fato de que um governo dito socialista, num país de população negra tão expressiva, aparentemente não mostra avanços na participação política dos negros?

A ideologia racial cubana é irmã gêmea da “democracia racial” brasileira. O ideal da “Cor Cubana” acompanha a constante referência ilusória à suposta cordialidade latina. A história recente envolve os ideais da revolução, o engajamento militar na África durante as guerras de libertação nacional e a atuação internacional de médicos em países como o Haiti. A dinâmica entre o sonho e a realidade do socialismo dá um tom distinto ao questionamento do sistema no que diz respeito à questão racial. Entretanto, não há como negar certos fatos:

(a) Os negros não estão presentes no poder político do regime cubano em número proporcional à sua participação na população.

(b) As desigualdades raciais perduraram ao longo do processo de mudança social implantado após 1959 e continuam sendo constatadas em pesquisas recentes.

(c) Há uma crescente discussão da questão racial em Cuba conduzindo ao reconhecimento de que a revolução não resolveu essa questão.

(d) Hoje, a demanda por uma abertura democrática do regime não é o discurso só de uma minoria elitista, branca, incrustada em Miami e aliada aos interesses do bloqueio. Há uma oposição de origem humilde, composta em parte por negros e mestiços que apontam processos de exclusão e de desigualdades raciais. Não podemos mais rechaçar essa oposição como um bando de criminosos cuja traição se basearia em mentiras fabricadas pela direita fascistoide.

Durante o período em que o senhor esteve exilado, pôde estabelecer o contato entre o movimento social negro norte-americano e o da América Latina, até então, quase desconhecido daquele. Esteve com movimentos inspiradores, como os Panteras Negras. Atualmente, muitos desses lutadores ainda pagam o preço da sua resistência, vários estão presos desde os anos 1970, condenados à pena de morte ou à prisão perpétua nos EUA. Como pode ser possível que se fale tão pouco desses presos políticos?

Como sabemos, a mídia é dominada pelo poder econômico e não lhe interessa divulgar esses casos. Mas não é só o poder econômico, também a ideologia pode contribuir para isso. Não é fato novo para mim. Na década de 1940, quando o Brasil passava por um processo de redemocratização depois do regime do Estado Novo de Getúlio Vargas, eu ajudei a fundar o Comitê Democrático Afro-Brasileiro.

Aguinaldo Camargo e Sebastião Rodrigues Alves participaram, além de outras lideranças, e nós nos reuníamos na sede da União Nacional de Estudantes, a UNE, uma organização de esquerda. O Comitê era aberto e defi niu como prioridade imediata a luta pela libertação dos presos políticos do regime. Entretanto, quando essa libertação foi conquistada e nós negros queríamos tratar das questões específi cas relacionadas à discriminação racial, nossos companheiros brancos de esquerda não aceitaram. Taxaram-nos de racistas e exigiram que fizéssemos autocrítica. Não entramos nessa conversa, evidentemente. O Comitê morreu de morte matada. Depois, na época em que eu voltava do exílio no final dos anos de 1970, havia um movimento pela anistia ampla e irrestrita. Mas a liderança esquerdista desse movimento não reconhecia a prisão dos negros por discriminação racial como uma forma de perseguição política. Morriam trabalhadores negros nas prisões, como continua acontecendo hoje. Nós negros consideramos isso uma questão política. Mas, para as forças de esquerda, presos políticos seriam apenas os fi lhos de classe média e alta, quase todos brancos, que roubavam bancos, jogavam bombas ou sequestravam embaixadores. Esses, em muitos casos, efetivamente haviam cometido atos de violência, enquanto não raro negros são presos e torturados sem terem cometido crime algum.

Qual a importância que o senhor credita ao hip hop, no Brasil, para o movimento negro e para a população negra em geral? É um movimento herdeiro das lutas que pioneiros como o senhor travaram?

Considero o hip hop um movimento muito importante, sobretudo no aspecto da autoestima, pois as letras de muitas músicas e a atuação social de muitos de seus integrantes ajudam os jovens negros e as jovens negras a elevar o conceito que têm de si mesmos e de sua comunidade. Certamente, o hip hop cuida de muitas questões que são as versões atualizadas dos problemas que o movimento negro tem enfrentado desde sempre, e o hip hop oferece para a juventude uma referência, uma esperança e uma visão diferente daquela que a sociedade dominante e os meios de comunicação cultivam e que a juventude reconhece como mentirosa e interesseira. Entretanto, creio que seus protagonistas tenham pouco acesso aos referenciais históricos das lutas anteriores, e, nesse sentido, sua condição de herdeiros seja um pouco simbólica. Por exemplo, me parece que eles conhecem mais a história do movimento negro nos Estados Unidos, o discurso de Malcolm X e Martin Luther King, e os referenciais do reggae da Jamaica do que os fatos e os discursos do movimento negro no Brasil dos séculos 20 e 21. Pode ser que eu esteja equivocado, espero que sim!

Depois de séculos de lutas, hoje vemos uma juventude negra que está conseguindo chegar às universidades, ter mais oportunidades econômicas, formando uma elite intelectual negra. Como o senhor compararia a atual situação da juventude negra com a da época do senhor, com a da Frente Negra? Quais os conselhos que daria a essa juventude?

As entidades negras atualmente promovem muitas iniciativas análogas às da Frente Negra. O Estatuto de Igualdade Racial e todos os outros dispositivos legais, programas governamentais e instituições ou órgãos de governo dedicados às políticas públicas de igualdade racial, por exemplo, são conquistas concretas, frutos da atuação política do movimento negro. Nenhum deles foi uma bênção ou dádiva dos governantes ou políticos, muito ao contrário. Se há uma crítica ao Estatuto, é porque, em razão da ferrenha oposição contra ele nos setores conservadores que dominam a política brasileira, o processo de negociação de sua aprovação no Senado impôs uma série de aparentes retrocessos na letra da lei em relação a programas de governo já implantados como resultado da atuação do movimento negro. Mas foi o movimento negro que conseguiu implantar esses programas, então ele está longe de se limitar a atacar o governo. Foi ele que inseriu na Constituição de 1988, por exemplo, o direito das comunidades quilombos à titulação de suas terras. O conselho que dou para essa juventude é estudar, aprender, conhecer e se preparar para, então, se engajar: agir, criar, interagir e participar da construção das coisas. Cada um tem seu talento e sua área de interesse. O importante é se colocar a serviço do avanço e dedicar-lhe as suas energias.

Muito se fala do movimento negro no âmbito urbano, mas o Brasil assistiu, nos últimos anos, ao crescimento do movimento negro rural, particularmente o movimento quilombola, para o qual também o senhor teve especial importância na garantia do direito fundiário das comunidades quilombos. Qual a importância da questão da terra para o movimento negro, hoje?

Como fruto da mobilização política do movimento negro, a Constituição de 1988 estabeleceu o direito à titulação das terras das comunidades chamadas “remanescentes de quilombos”. Em 1989, como fruto do trabalho do Memorial Zumbi e do movimento negro como um todo, criou-se a Fundação Cultural Palmares, que seria responsável pelo processo de titulação. Entretanto, a Fundação é um órgão do Ministério da Cultura que não dispõe dos recursos humanos ou fi nanceiros para executar o trabalho de titulação. Essa tarefa passou, então, para o Ministério da Reforma Agrária. Entretanto, a Fundação Palmares dá parecer sobre a questão fundamental da condição quilombola, que determina o direito à titulação. O grande argumento para negar o direito de uma comunidade é alegar que ela não tem ou não provou que tem antecedentes históricos que a qualifi quem como remanescente de quilombo. O processo tem sido muito lento. Alguns anos atrás, a Fundação Palmares publicou um levantamento em que identificou a existência de mais de três mil comunidades quilombos em todo o país, ressalvando que certamente não conseguiu realizar um levantamento exaustivo ou defi nitivo. A questão da titulação esbarra, evidentemente, em poderosos interesses contrariados que, no contexto rural, ainda exercem a violência como forma de se impor.

Vale observar, também, que é negra a grande maioria dos sem-terras hoje organizados e conduzindo uma luta que tem sido defi nida como um dos mais importantes fenômenos sociais e políticos do século 21. A importância da terra está fundamentalmente ligada ao fato de que as cidades estão inchadas, inviabilizadas, e não dão conta de oferecer condições de vida dignas à população que já as habita, tendo grande parte dela migrado do interior. A economia rural baseada na agroindústria não tem condições de sustentar a população rural, porque não oferece trabalho em condições dignas. A produção agrícola baseada em unidades pequenas, familiares ou comunitárias, é a única solução para o campo e ela precisa, hoje, de subsídios e políticas de Estado para se viabilizar. As comunidades quilombos fazem parte integral dessa solução e precisam de subsídios específicos e de políticas específi cas para o seu desenvolvimento como unidades comunitárias rurais.

Na América Latina em geral, a questão étnica tem ganhado uma importância fundamental nas lutas políticas dos povos, em países como Bolívia, Equador, México – com diferentes tons, mas sempre realçando o fator étnico sobre o fator classe. No Brasil, o fator étnico de maior potencial é justamente o negro. Qual o papel que o fator étnico ocupa na luta política nacional? Será que ele poderá ocupar papel de semelhante preponderância na luta política?

Não recorro ao eufemismo “questão étnica” porque creio que seu uso reforça o equívoco da suposta acepção biológica do termo “raça”. Esta é uma pista falsa cuja manipulação abastece de grande e valiosa munição aqueles que procuram desmoralizar e deslegitimar a nossa luta. A categoria social de “raça” é uma realidade socialmente construída que independe das justifi cações genéticas e biológicas. Estas constituem apenas um pequeno episódio no milenar processo histórico de construção das categorias sociais de “raça”, da subordinação e desumanização ideológica de grupos raciais e da discriminação racial institucionalizada em sociedades capitalistas plurirraciais modernas e contemporâneas. Os grupos discriminados nessas sociedades não correspondem a nenhuma etnia, portanto, é conceitualmente confuso e cientificamente incorreto falar de “discriminação étnica” quando o alvo desse tratamento vem a ser a população negra ou indígena, por exemplo. Um negro no Brasil, na Venezuela ou na Costa Rica não é identifi cado como ibo, acã, zulu, hutu ou ioruba, mas como negro ou afrodescendente. Os indígenas nas Américas não são discriminados na sua condição de maias, incas, quéchuas, aimaras, cheyenne, iroquois, sioux, tupis ou guaranis, mas como indígenas.

Adotar o eufemismo “questão étnica” significa, a meu ver, uma tática defensiva que instaura a confusão conceitual entre nós e entrega os pontos aos adversários que alegam que nós, ao defendermos os nossos direitos, estamos sendo racistas. Ao aceitar a defi nição deles, identificando a categoria social de raça com o critério genético biológico, nós nos submetemos ao discurso hegemônico que desmoraliza nossa própria luta e deslegitima nossa própria experiência histórica de opressão e discriminação. Dito isso, creio que fica evidente que considero o “fator racial” como uma questão eminentemente política e não a separo de uma suposta “outra” luta política “maior”. Considero a luta por justiça social e pela dignidade dos povos como parte integral da luta por nações mais justas e seguras, por uma comunidade internacional mais justa e coesa, e por um futuro de vida humana capaz de sustentar com dignidade nossa população, nossos ambientes e nosso planeta. (Publicado em Desinformémonos. Colaboraram Rafael Gomes e Gabriela Moncau)

Supercomputador chinês faz Pentágono tremer nas bases


Sessenta e um anos após o triunfo da Revolução Chinesa, a República Popular da China criou o mais rápido supercomputador do mundo.

Por Stephen Millies, no Workers World

Conforme o professor da Universidade do Tenessee, Jack Dongarra, o supercomputador Tianhe-1A, da China, é 47 por cento mais rápido que o mais veloz supercomputador dos Estados Unidos. Tianhe, que significa “Via Láctea”, é mais rápido que 175 mil laptops reunidos (www.metro.co.uk).

Supercomputadores podem resolver problemas científicos muito complexos, incluindo nisso a pesquisa médica e a previsão do tempo, para ajudar as pessoas.

O Complexo Militar-Industrial dos Estados Unidos usa supercomputadores para simular as detonações de armas nucleares.

O mais rápido supercomputador estadunidense, o XT5 Jaguar, está localizado no Laboratório Nacional de Oak Ridge, no Tenessee. Essa instalação fez parte do Projeto Manhattan, que fabricou as bombas atômicas que assassinaram milhares de pessoas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki.

Reis Ocidentais tomaram as invenções chinesas como a pólvora e o compasso e as utilizaram para desencadear o Holocausto Africano — o comércio transatlântico de escravos — e para exterminar os povos nativos do continente americano. Karl Marx mostrou como o mercado mundial capitalista nasceu do “sangue e do pó” por meio desses gigantescos crimes.

A monarquia britânica invadiu a China em 1841, porque os chineses pararam de importar o ópio dos capitalistas britânicos. Por mais de um século, os chineses foram humilhados e atirados à miséria, com milhões deles assassinados pelos ingleses. Assim como foram instaladas placas nos Estados Unidos e na África do Sul proibindo a entrada ou permanência de negros, durante a época do Apartheida, o Reino Unido instalou placas em parques chineses nas quais podia-se ler: “Proibida a entrada de cachorros e chineses”.

Um triunfo do planejamento socialista

A Revolução Chinesa mudou tudo isso. Mao Tse Tung declarou, em 1º de outubro de 1949, que “a China pôs-se de pé”.

Entretanto, nos últimos 30 anos, a China acabou se imiscuindo no mercado capitalista mundial. A corporação taiuanesa Foxconn, o maior fabricante mundial de componentes eletrônicos, emprega sozinha 420 mil operários na região de Shenzhen.

Mas a Foxconn e outros empresários não têm nada a ver com o supercomputador mais rápido do mundo. Foi o estado socialista da China que construiu o Tianhe-1A.

A despeito da introjeção do capitalismo e da reestruturação da indústria estatal, bilhões de dólares foram alocados pelo estado socialista para construir este computador. O planejamento econômico socialista foi o responsável por essa maravilha da tecnologia.

Em comparação, a Índia capitalista de centenas de milhares de talentosos cientistas na área de computação. Bangalores, naquele país, é o quartel-general da Wipro, uma empresa que emprega 120 mil operários. Ainda assim, a Wipro e outras empresas capitalistas da Índia não conseguiram construir o supercomputador mais rápido do mundo.

A União Soviética supreendeu o planeta ao lançar ao espaço o Sputnik (Companheirinho, traduzido do russo), o primeiro satélite artificial da Terra, em 1957, no 40º aniversário da Revolução Russa. Esse exemplo vívido do poder do planejamento socialista centralizado também alarmou os feitores da guerra no Pentágono, que ao mesmo tempo assistiam atônitos seus prosaicos foguetes explodirem nas rampas de lançamento do país.

A China ainda avança no desenvolvimento

Ao mesmo tempo que produziu mais de 500 milhões de toneladas de aço em 2009 e fabricou mais carros que os Estados Unidos, a China ainda é um país em desenvolvimento. Em muitas áreas ainda está atrasada em relação às economias capitalistas desenvolvidas — um dos grandes problemas que revoluções socialistas que triunfaram em países empobrecidos por séculos de colonização e imperialismo enfrentaram.

A resposta dos líderes chineses em relação à necessidade de tecnologia moderna foi convidar o capital estrangeiro, e muitos deles estão hoje profundamente preocupados com a cada vez maior desigualdade social que isso implicou.

Porém, em poucos anos a China deu um salto gigantesco em Ciência e Tecnologia, o que significa que necessitará cada vez menos das forças capitalistas hostis para construir sua economia. Ao mesmo tempo, protestos em massa por melhores salários e condições de trabalho se intensificaram.

Uma série de medidas pró-classe trabalhadora foram adotadas. Foram dadas pensões e aposentadorias a 140 milhões de trabalhadores imigrantes em 2007. No mesmo ano, uma lei sobre a assistência médica foi aprovada, garantindo atendimento na área de saúde a virtualmente toda a população.

Os sindicatos chineses forçaram o McDonald’s e o Wal-Mart a assinar contratos. Um exemplo enorme a essas duas corporações monstruosas que empregam cerca de 1,8 milhão de trabalhadores nos Estados Unidos, que são explorados impiedosamente por elas. Os detratores da China não informaram o mundo dessas conquistas sindicais chinesas.

Construir o supercomputador mais rápido do mundo mostra que a China tem o essencial para fortalecer seu desenvolvimento no rumo de uma economia socialista. Como o Sputnik, o Tianhe-1A é uma grande vitória contra Wall Street e o Pentágono.

Fonte: Workers World


José Guilherme Castro

O Que a Policia Anda Fazendo?

Eus-R*

Para nós, cidadãos comuns, não sabemos nada do que a Policia anda fazendo. Continuar Lendo →

União e consciência negra

A comemoração da memória do Zumbi é importante em um Brasil que ainda mantém uma herança de forte desigualdade social


Marcelo Barros

No Brasil, esta semana começa pela recordação do dia em que foi implantada a República (15 de novembro) e se encerra com o dia consagrado à União e Consciência Negra. Segundo historiadores recentes, no Brasil, a mudança da Monarquia para a República aconteceu quase por engano ou por acaso. Não era a opção profunda do Marechal Deodoro e de seus companheiros. E não significou uma verdadeira transformação da forma de exercer o poder que continuou com as elites (Cf. Fábio Konder Comparato em Caros Amigos, nov. 2010). O segundo fato recordado nesta semana ocorreu em 20 de novembro de 1696. Neste dia, Zumbi dos Palmares, líder da resistência negra contra a escravidão, foi martirizado. Atualmente, em várias cidades, este dia é feriado e conclui uma semana de comemorações culturais. Uma criança perguntou à mãe se união tem cor e o que significa “consciência negra”. A unidade das raças e a igualdade entre os seres humanos supõem que cada cultura e cada povo tenham consciência de sua dignidade. Chama-se “consciência negra” o fato das pessoas afro-descendentes assumirem sua identidade cultural, conscientes do imenso valor de sua cultura, para contribuir com as outras na riqueza intercultural do Brasil.

A comemoração anual da memória do Zumbi é importante em um Brasil que ainda mantém uma herança de forte desigualdade social. Em inúmeros casos, na realidade brasileira, ser negro é quase sinônimo de ser pobre e ter menos acesso à escolaridade e às condições sociais de outros brasileiros. José Vicente, reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, em São Paulo, afirma: “A cor negra da pele de homens e mulheres, assim como sua raça e cultura própria, foram motivos de crueldade humana e de barbárie que mancharam e continuam manchando a dignidade da humanidade” (Carta Capital, 12/11/2008,p. 60). Por isso, são sempre importantes e oportunos os programas que fomentam a igualdade de condições e a integração social de negros e brancos. Conforme a Constituição Brasileira, devem ser respeitadas e valorizadas as comunidades remanescentes de Quilombos. São grupos que, desde os tempos da escravidão, reúnem negros, seus aliados e descendentes, em uma comunidade com cultura e valores próprios. Eles devem ter direito à terra coletiva e merecem das autoridades públicas a proteção e o apoio necessários. Estas comunidades estão organizadas em quase todos os estados e somam mais de dois mil grupos e comunidades. Algumas delas mantêm elementos de idioma, de danças e costumes ancestrais que são de uma riqueza incalculável para todo o Brasil.

Uma das mais profundas riquezas das culturas afro-descendentes é a espiritualidade viva e bela das comunidades negras. A Mãe África permanece viva e atuante na memória religiosa dos seus filhos e filhas. Para serem escravas nos diversos países da América, foram sequestradas pessoas de diferentes áreas do continente africano. Para evitar rebeliões, os senhores separavam os escravos vindos do mesmo clã ou região. Misturavam etnias. Proibiam que falassem as suas línguas e praticassem as suas religiões. Mesmo impedidos de saber onde estavam outros membros de sua família, também sequestrados, os afro-descendentes conseguiram manter as línguas, contar a seus filhos as histórias dos seus antepassados, guardar as canções da Mãe-África e reconstituir muitas expressões culturais e religiosas. Só podiam cultuar à noite, enquanto os brancos dormiam. Como objetos de culto, só possuíam seus corpos, suas vozes e os terreiros das senzalas, seus templos. Foram obrigados a adaptar antigos costumes da África às novas condições de clima, ao pouco tempo livre de que dispunham e à sua extrema pobreza. Fundiram costumes religiosos, adaptaram mitos e elaboraram oralmente uma explicação religiosa do mundo e da sua história. Esta teologia narrativa deu origem a religiões novas como o Candomblé, o Batuque, o Tambor de Minas, a Santeria cubana e o Vodu haitiano. Durante séculos, de geração em geração, se transmitiram ritos, cânticos e histórias ancestrais.

Um Cristianismo, testemunha de que Deus é amor e inclusão, não pode deixar de respeitar e valorizar estas religiões que, na história, foram responsáveis pela resistência dos nossos irmãos e irmãs negras em meio a um sofrimento tão intenso e continuado. A base da fé cristã é que a Palavra divina se fez carne e se revelou no meio de nós através da pessoa de Jesus de Nazaré que assumiu toda a condição humana e todas as culturas com seus valores para revelar em tudo o que é humano a presença divina. Nós somos chamados a continuar este caminho de reverência amorosa e delicadeza no diálogo e na colaboração com as outras religiões e culturas.


Marcelo Barros é monge beneditino.

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