Arquivos Mensais: julho \31\UTC 2010

O Duo 6emeia

O duo 6emeia foi criado e desenvolvido pelos artistas Anderson Augusto conhecido como são, e Leonardo Delafuente conhecido como Delafuente, moradores do bairro da Barra Funda onde se iniciou o projeto com o intuito da mudança e transformação do cotidiano. O objetivo é modificar o meio ao qual todos vivemos propondo um novo olhar e uma reflexão em cima de temas gerados pelo trabalho inusitado e criativo, que consiste em pintar bueiros, postes, tampas de esgoto e qualquer outro objeto que construa o cenário urbano.
Com os bueiros pintados propomos um novo tipo de linguagem entre arte/cidade e arte/pessoas. Colocando a arte a serviço e alcance de todos. Mostrando que até o mais esquecido e indiferente objeto, se olhado com cuidado pode exalar arte. Os bueiros já pintados pelo 6emeia são como gotas coloridas em um imenso balde cinza. O trabalho é bem recebido por moradores e transeuntes dos locais onde são pintados. Afirmando dessa maneira que a arte não necessita necessariamente estar vinculada ou pendura em paredes de galerias ou museus.

Em uma cidade tensa, confusa e mergulhada em cores como o cinza e bege, o duo 6emeia destoa da paisagem com sua paleta de cores, levando vida e bom humor a todos.

Depois de um ano e meio pintando bueiros em bairros da região central como Barra Funda, Bom Retiro, Santa Cecília, Higienópolis, Pacaembu e Campo Limpo da zona sul da cidade, o duo 6emeia é chamado para expor as fotos que são feitas a cada fim de trabalho no Clube Berlin parte integrante do “circuito-rock-indie.
A exposição que inicialmente estava programada só para o mês de agosto é estendida para o mês seguinte, setembro, devido à grande repercussão principalmente internacional que o duo 6emeia alcança, sendo destaque no Wooster Collective, matéria no Fotolog, no jornal italiano La Repubblica, no irlandês Metro de Dublin e na revista francesa Shoes Up, entre tantos outros. E na mídia brasileira em sites e jornais como UOL, Veja, Folha de São Paulo, Globo e na rede televisiva com matérias para a TV Gazeta, Amaury Jr. e Multishow.

Ganhando notoriedade, o duo 6emeia é convidado a participar da exposição Toy Art Chysler, da fabricante de carros Chysler, onde foi customizado uma réplica em miniatura do carro PT CRUISER, lançamento então em terras brasileiras.

Depois da bem sucedida participação, foi convidado pela RN Construtora e Incorporadora a pintar todos os 63 metros que cercavam a futura construção do mais novo prédio a ser lançado. Desde então o duo 6emeia continua pintando os bueiros da Barra Funda, fazendo assim acontecer espontaneamente, um fervor em cima das ruas do bairro, atraindo admiradores e curiosos em conhecer a intervenção urbana. O mais novo ponto turístico inusitado da cidade.

Duo 6emeia reflete com humor bueiros de São Paulo



Por Beth Ferreira


Tags: Artes , 6emeia , graffiti , arte urbana

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Os grafiteiros Anderson Augusto (o SÃO) e Leonardo Delafuente (Delafuente) formaram o projeto 6emeia e criaram uma nova forma de interferir no espaço urbano. Eles fazem grafites em bueiros, mostrando uma nova visão bem humorada para o buraco que leva a sujeira das ruas para o esgoto da cidade.

Moradores da Barra Funda, bairro da região central de São Paulo, a dupla do 6emeia tem grafitado bueiros e muros de outros bairros das redondezas como Bom Retiro, Santa Cecília, Higienópolis, Pacaembu e Campo Limpo.

Veja galeria de fotos e vídeo que mostra entrevista com o 6emeia:

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Problemas na escola vêm de casa

Estudo revela que os tipos de problemas apresentados na escola pelas crianças estão diretamente ligados à dinâmica familiar

Livia Valim

Ambientes familiares pouco equilibrados prejudicam o comportamento das crianças fora de casa. Mas um recente estudo da Universidade de Rochester, em Nova York, procurou explicar como são estes efeitos. Os pesquisadores dividiram as famílias infelizes em dois grupos: de um lado, ficam as famílias frias e controladoras e, de outro, aquelas conflituosas e intrometidas.

Foto: TV Globo/Renato Rocha Miranda

“A Grande Família” retrata confiança e respeito: modelo de família coesa

Nos três primeiros anos de escola, as crianças que convivem com o primeiro grupo – as famílias frias – têm cada vez mais problemas, que vão de comportamentos agressivos a depressão e alienação. Já o segundo grupo – famílias intrometidas – causa ansiedade e afastamento nos pequenos. “Famílias podem servir de apoio para crianças que entram na escola – ou podem ser fontes de estresse, distração e comportamentos inadequados,” declarou Melissa Sturge-Apple, coordenadora da pesquisa e professora-assistente de psicologia da Universidade de Rochester, ao site da instituição.

Com duração de três anos, o estudo examinou padrões em 234 lares que tinham filhos de 6 anos de idade e identificou três perfis de famílias: uma feliz (chamada de coesa) e duas infelizes (classificadas em não-comprometidas ou entrosadas).

Dá para reconhecer as coesas por suas relações harmoniosas, calor emocional e papéis firmes, porém flexíveis, para pais e crianças. Um exemplo deste tipo de relação é a família de Lineu e Nenê no seriado “A Grande Família”. Apesar dos problemas, eles estão sempre prontos para ajudar os filhos e têm muito amor e respeito um pelo outro.

Famílias disfuncionais

Foto: TV Globo/ Divulgação

Marta é assombrada pela filha em “Páginas da Vida”: mãe controladora e fria é característica da família não-comprometida, que leva crianças à agressividade

Uma família entrosada pode estar envolvida emocionalmente e demonstrar carinho, mas também apresentar níveis altos de hostilidade, intromissão destrutiva e pouca percepção da família como um time. O filme “A Sogra”, com Jane Fonda e Jennifer Lopez, mostra uma mãe que ama o filho e se sente no direito de atrapalhar seu noivado para não perdê-lo – esta é uma família entrosada. Durante o estudo, os filhos vindos deste tipo de família entraram na escola com comportamentos parecidos aos de famílias coesas, mas com o tempo passaram a apresentar níveis altos de ansiedade e sensação de solidão e alienação.

Já as famílias não-comprometidas são marcadas por relacionamentos frios, controladores e distantes. Um caso que ilustra este tipo de família é o de Marta (Lília Cabral), a fria mãe de Nanda na novela “Páginas da Vida” (2006). Ela desaprovou a gravidez da filha e rejeitou a neta com síndrome de Down. Crianças vindas destes tipos de família começam a vida escolar com níveis altos de agressividade e maior dificuldade para aprender e cooperar com as regras da classe – e este comportamento destrutivo cresce à medida em que as crianças avançam na escola. “Frieza geralmente gera depressão, que pode ser externada com agressividade. É como se a criança estivesse se vingando dos pais através da escola”, explica a psicopedagoga Maria Irene Maluf.

Trabalhar em equipe

Para chegar a estas conclusões, os psicólogos analisaram como os pais se relacionavam entre si, notando se havia agressividade e distanciamento, e observando suas habilidades de trabalhar como uma equipe na presença da criança. Os cientistas decodificaram a disponibilidade emocional dos pais em relação aos filhos, se ele ou ela elogiava e aprovava ou simplesmente ignorava os pequenos durante atividades compartilhadas. Os observadores também perceberam como a criança se dirigia ao pai e à mãe, notando se as tentativas de se aproximar deles eram breves e superficiais ou sustentadas e entusiasmadas.

Os autores do estudo enfatizam que outros fatores, além de família desestruturada, podem levar a comportamentos problemáticos na escola. Vizinhanças violentas, escolas despreparadas e traços genéticos também determinam se as crianças terão ou não dificuldades no aprendizado.

Resistência no discurso de rappers de BH exalta valores como solidariedade, revela monografia da Comunicação

Fotos Mariana Garcia
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Cena de batalha: duelo de rimas

Como os discursos de resistência se materializam em versos, rimas e gestos nos duelos de MCs de todas as sextas-feiras debaixo do Viaduto Santa Tereza, em Belo Horizonte? Foi munida dessa pergunta central que Carolina Abreu Albuquerque chegou pela primeira vez, no dia 12 de março, à arena que abriga as já famosas batalhas dos rappers da capital mineira. Ela iniciava ali a pesquisa de campo para a monografia que fechou sua habilitação em jornalismo no curso de Comunicação. Três meses depois, Carolina tinha encontrado diversas respostas. “Eles exaltam a marginalidade, mas em sentido diferente daquele do discurso hegemônico, e valores que guiam em geral os movimentos sociais, como a solidariedade”, ela resume.

Carolina destaca que, se a atuação do movimento hip hop, nos anos 1980 e 90, esteve ligada, entre outras bandeiras, à valorização da cultura negra e da periferia e à reivindicação da cidadania, ele dá sinais claros de renovação, incorporando outras lutas dos movimentos sociais e dialogando com a indústria cultural. “O movimento sai da periferia e ocupa o centro, trazendo a classe média para dentro de suas ações. E recorre a novas abordagens em relação ao poder público”, afirma a jornalista no trabalho Debaixo do viaduto – Performances da resistência no duelo de MCs.

Neófita no que se refere ao rap – “meu conhecimento se resumia a um disco do Gabriel, O Pensador que estourou nas paradas quanto tinha nove anos”, ela conta –, Carolina escolheu seu tema a partir de interesses teóricos. Para iniciar sua pesquisa, ela precisou aprender que as batalhas de MCs são comuns desde os guetos nova-iorquinos, berço do rap, e invadiram o espaço urbano brasileiro. As batalhas lembram o repente nordestino, com provocações e respostas improvisadas e calcadas no recurso da rima. O Duelo de MCs, que existe desde 2007, é promovido pelo coletivo Família de Rua.

Observação participante
Carolina Albuquerque tomou emprestada da etnografia a posição de observadora participante: frequentava os eventos todas as sextas-feiras como espectadora comum e mantinha conversas espontâneas. Assistia desde os primeiros rounds envolvendo oito MCs, dois a dois, passando pelas rodas de break e poesia urbana no intervalo até chegar aos duelos finais. Um episódio de briga que provocou a interrupção do evento por cinco semanas acabou servindo para enriquecer a pesquisa. “Aquilo incrementou a campanha pela paz que tem marcado o movimento, reforçando reivindicações antigas do grupo. Na volta dos duelos, eles conseguiram não só apoio de policiamento, mas também banheiros químicos e iluminação”, conta a pesquisadora.

Segundo ela, a interrupção revelou aspectos atuais da postura política do movimento hip hop, que atua na legalidade e com base na negociação. Carolina ressalta que o coletivo encaminha suas questões com o poder público recorrendo a argumentos. “Além disso, chama a atenção a forma como eles desenvolvem suas ações políticas e, articulação a outros movimentos sociais, como os que defendem as mulheres ou condenam a violência”, ela explica.

‘Heróis dos vagabundos’
Para efeito de análise, Carolina dividiu as batalhas em dois tipos. Nos duelos tradicionais, os oponentes incorporam personagens, com o objetivo de destruir um ao outro com violência simbólica, que respeita regras como não usar palavrões. Nesse contexto, segundo ela, manifesta-se a resistência individual. “São as batalhas de afirmação como MCs, quando eles se classificam como ‘heróis dos vagabundos’. O hip hop como expressão da periferia aparece como pano de fundo”, Carolina explica.

O outro gênero de duelo é chamado “de conhecimento”. Sob inspiração de palavras-chaves, os versos giram em torno de temas como meio ambiente. O movimento hip hop ganha então o primeiro plano, e seus membros defendem ideias mais amplas. “As duas posturas não são conflitantes, convivem no imaginário do hip hop. A noção de resistência se alarga”, define Carolina Albuquerque.

Sem perder o discurso contracultural, o movimento logra novas conquistas, como influir positivamente no espaço urbano. “A ida da Família de Rua para o Viaduto Santa Tereza (os duelos eram realizados originalmente na Praça da Estação) provocou mudanças no local, que hoje é habitável e não inspira insegurança nos passantes e frequentadores”, comemora a jornalista recém-formada, que confirmou o gosto pela pesquisa e se prepara para tentar em breve o mestrado.


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Dançarinos de rua e poetas se apresentam nos intervalos

Mundano transforma tintas em arte e crítica social

Postado por Mandrake

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Mundano transforma tintas em arte e crítica social

Se você avistar graffitis de rostos, com olhos arregalados, expressões sérias e frases de protesto pelas ruas de São Paulo, pode ter certeza que Mundano passou por alí

Mundano é o grafiteiro que mais vem se destacando com a sua arte, que mistura protesto com crítica social.

Mundano, que segundo o próprio artista afirma: é o trabalhador que pega mais de 2 horas de ônibus no trânsito pra ir e pra voltar do trabalho diariamente. Mundano é a moça que assiste à novela anestesiada. Mundano é o gari que tenta limpar uma cidade que está emporcalhada de corrupção. Mundano é a madame que gasta em apenas uma bolsa, o equivalente a renda mensal de 10 famílias mundanas. Mundano é o carroceiro que trabalha honestamente reciclando o lixo que o cidadão Mundano que buzinou pra ele produziu. Mundano é a criança que cresce numa cidade monstruosa como São Paulo onde os verdadeiros valores estão desaparecendo. O ser Mundano é a voz de um povo calado.

O Portal RAP NACIONAL traz uma entrevista exclusiva com esse grande talento das ruas, confira:

Portal RAP NACIONAL- Como aconteceu seu primeiro contato com o grafite?

Mundano– Desde pivete eu observo muito a cidade e sempre curti coisas exóticas que destoam da paisagem cinzenta e pálida de São Paulo. Sendo assim, conhecer o graffiti foi algo natural, mas antes de começar no barato eu fiz muito pixo por ai. Eu não conhecia ninguém que fazia graffiti, então a coisa nasceu dentro de mim por necessidade de compartilhar na rua minhas idéias e de bater de frente com o que eu acreditava estar errado. E como tem coisa errada por ai.

P.R.N-Nesses anos todos que você grafita nas ruas de São Paulo, você já sofreu alguma retaliação policial?

Mundano-Já fui parado por viaturas incontáveis vezes, mas na maioria dos enquadros meus argumentos por estar pintando, mesmo que ilegal, convenceu os policiais de que o graffiti é necessário em uma cidade caótica como São Paulo. Tem tanta coisa pior para polícia combater que perder o tempo repreendendo artistas de rua chega a ser ridículo. Claro, que tem vezes que não tem conversa depende do que você está pintando, do humor do policial, de quem fez a denúncia e também de sorte. Em duas ocasiões eu assinei crime ambiental por estar dedicando meu tempo, minhas tintas em muros cinzas de São Paulo. O primeiro processo, que foi julgado em 2007, foi quando me pegaram pintando pela 13ª vez o mesmo pico em frente da Assembléia Legislativa de São Paulo, pois nos meus graffitis eu questionava diversas problemas da cidade em cerca de 48 horas já estava tudo cinza novamente. A outra foi pitando os tapumes cinzas da reforma do Teatro Municipal, que na minha opinião deveriam estar pintados desde que começou a reforma. O mais engraçado e contraditório é que fui convidado pela Virada Cultural para pintar os mesmos tapumes do Teatro Municipal que três meses antes sete viaturas me enquadraram e me levaram pro 3° DP.


P.R.N- Você esta desenvolvendo um trabalho social junto com os catadores de lixo de São Paulo, explique como funciona esse projeto?

Mundano- O projeto questiona a marginalização desse trabalho que é tão importante para todos, mas que a grande maioria da população tem preconceito e desrespeita a categoria. É revoltante ver motoristas buzinando e xingando os carroceiros como se fossem criminosos e moradores de rua, e é isso que o projeto procura mudar através de frases de questionamento pintadas nas carroças. É uma espécie de graffiti ambulante que usa a própria ferramenta de trabalho dos carroceiros para transmitir mensagens criadas durante longas conversas que tive com os mesmos. Mergulhei nesse universo e hoje enxergo a cidade com outros olhos. Os catadores fazem o que a prefeitura deveria fazer e não faz, pois são cerca de 20.000 catadores que coletam cerca de 80% dos resíduos desatinados à reciclagem em São Paulo. É muita gente vivendo do resto do consumo de outras pessoas e foi isso que, mais me chamou a atenção. Como estou sempre pintando na rua o meu contato com eles é inevitável e o projeto já conta com 86 carroças que estão, nesse momento, circulando nas ruas e avenidas com diversas frases de impacto. Sei que podemos fazer muito mais socialmente pela categoria, mas a primeira delas é respeitar os trabalhadores e valorizar a atividade.

P.R.N- Mundano você é um grafiteiro diferenciado que usa a arte como uma forma de critica social, quando que surgiu essa iniciativa no seu trabalho?

Mundano- Surgiu de observar as pessoas interagindo com os graffitis na rua, percebi que podemos ir muito mais além do graffiti feito apenas por EGO, que infelizmente é o que tem por ai nas ruas. O graffiti por ser ilegal é uma arte livre, e por estar na rua ao alcance de todos é democrático. Isso me fez pensar que eu devesse pintar coisas que eu acreditava e que muitas vezes são encobertas na imprensa. Com um novo olhar sobre a importância do graffite, comecei a escrever frases de questionamento em relação aos problemas da cidade e a ter um retorno de pessoas que realmente liam, refletiam e interagiam sobre minhas mensagens. Um exemplo recente é o vídeo clipe da música Multicultural do Pentágono http://vimeo.com/8069084 que inseriu vários graffites meus para ilustrar a mensagem da música.

P.R.N- Qual a principal mensagem que você quer passar?

Mundano– Para resumir meus questionamentos em um só, acho que seria o fato de sermos muitos individualistas. Precisamos pensar e agir coletivamente.

P.R.N- Seu trabalho já foi reconhecido internacionalmente você passou um mês em Nova Iorque, participou de uma exposição. Como foi essa experiência?

Mundano- Foi uma experiência nova e ao mesmo tempo uma oportunidade de conhecer de perto a cultura de uma cidade monstruosa. Fiquei impressionado com o acervo dos museus, com a funcionalidade do transporte público, mas o que mais chocou foi o consumismo desenfreado que eles têm lá. Isso me inspirou a criar uma instalação com um carroceiro que construi utilizando os materiais encontrados na rua. O conceito era que os norte-americanos deveriam reciclar essa idéia de consumo exagerado e nem um pouco sustentável, e o resultado da instalação e da exposição me deixou satisfeito e com vontade de levar minha arte a mais e mais lugares. E por meu negócio ser mesmo pintar na rua e Nova Iorque ser o berço do graffiti, é claro que eu tive que levar essa mesma mensagem para as ruas, que é realmente onde o povo está.

Clique aqui e veja centenas de fotos.

P.R.N- O grafitte, a arte assim como o rap resgatam muitas vezes jovens das periferias, da criminalidade , o que poderia ser feito na sua opinião para expandir mais o grafitte entre os jovens, em escolas públicas, bairros carentes não só de são Paulo mas do Brasil?

Mundano- Certo, primeiro precisamos separar o graffiti original que é o ilegal feito na rua, do “graffiti art” que é autorizado e pode ser visto como muralismo. Portanto se o jovem fizer o graffiti de verdade ele continuará na criminalidade, pois a constituição brasileira enxerga isso como um crime ambiental para o patrimônio público e privado. Agora se ele seguir o caminho da produção de murais ele pode realmente ter um futuro muito melhor do que ele tinha na criminalidade, pois ele pode fazer trabalhos comerciais e viver disso. Acho que deveria ser inserido nas escolas públicas um curso de artes bem estruturado, para dar a oportunidade para todos jovens brasileiros entenderem o universo das artes e os que gostarem e tiverem determinação poderem seguir isso em suas vidas. Além do curso acho que as pessoas precisam dar mais valor a arte no Brasil e o governo precisa estimular e dar mais reconhecimento aos artistas, pois é lamentável pensar que incontáveis jovens artistas com muito talento da periferia já tiveram que largar a arte por falta de apoio e entraram na vida do crime que é o caminho mais fácil.

P.R.N -Você recentemente pintou uma releitura da bandeira do Brasil, gravou um vídeo com a trilha sonora de uma música do Sabotage, como nasceu esse projeto?

Mundano- Recebi um convite do Rodrigo Piza, um amigo que estava gravando um documentário na ocupação, para pintar o local. Ele disse que o pico estava bem degradado e que estava precisando de um graffiti meu bem colorido. Aceitei na hora e sem ter nada planejado fomos pra ocupação. Conheci o local, os moradores e as lideranças do movimento que liberaram as paredes do fundão para eu pintar e aí então o Piza resolveu gravar. Editamos o material e o vídeo circulou na internet e assim as pessoas tomaram conhecimento da ação, mas a real é que eu e outros grafiteiros fazemos ações como essa sempre e às vezes nem registramos nada. Pintamos apenas com o intuito de mexer com o cotidiano das pessoas que vão interagir com o trabalho.

P.R.N- A escolha da Música “Cabeça de Nego” do Sabotage que é um grande ídolo do Rap Nacional, mostra que o Mundano também gosta de rap? O que você escuta?

Mundano- Claro que gosto, rap e graffiti é lado a lado. Eu sempre morei no Brooklin, e por isso o Sabotage sempre foi uma referência forte para mim. Eu lembro que entre 1998 e 2002 eu era fanático por Rap e ficava horas e horas escutando meus CDs e também estava sempre ligado no Espaço Rap da 105FM. Agora eu continuo ligado no movimento, mas com menos intensidade devido à correria e as responsabilidades que consomem meu tempo. Além do Sabotage eu curto muito Racionais, Facção Central, 509-E, Contra Fluxo, Gog, MV Bill, Faces da Morte, entre outros. A cena de Rap Nacional, assim como o graffiti, está crescendo, evoluindo, mas ao mesmo tempo acho que está se perdendo. Em minha opinião, o rap nacional do bom será sempre aquele que com uma pegada original relate o cotidiano das pessoas, despertando na mente dos ouvintes a reflexão para questões importantes desse contexto. E não como boa parte do rap norte-americano que a maioria das rimas giram em torno de mulheres, carros de luxo e vadiagem.

P.R.N- Qual a mensagem que você deixa para as crianças que gostam de graffiti e que tem você como um exemplo…

Mundano- Quando eu estou pintando de quebrada sempre junta uma molecada interessada e fica falando ” Ae tio, me descola um Spray pra eu pixa também”, aí eu digo que não é assim, que para sair pintando por aí tem que antes desenhar bastante com caneta e entender como funcionam as coisas na rua. Graffiti envolve riscos e a tinta no Brasil é muito cara, por isso que as famílias normalmente são contra. Eu falo também que Graffiti é como qualquer outra atividade, ou seja, para ser bem sucedido é necessário gostar muito do que faz, estudar e ser bastante determinado.

Obrigado Paula, Mandrake e todos do portal Rap Nacional pela oportunidade de mostrar um pouco mais sobre o meu trabalho.

Aproveito pra deixar meu e-mail pra quem quiser dar um salve, e o meu site pra quem quiser ver mais trabalhos mundanos.

artetude@gmail.com e http://www.flickr.com/artetude

Entrevista : Paula Farias

Assistência Social e Conselho Tutelar – Atribuições e Desafios



O Estatuto da Criança e do Adolescente, na definição precisa de Emílio Garcia Mendez, é a lei que cria condições de exigibilidade para os direitos da criança que estão na Constituição, nas leis brasileiras e nas normas internacionais referentes aos Direitos Humanos da população infanto juvenil. Sua missão, portanto, além de fazer, é fazer-fazer, isto é, atuar influindo junto aos demais órgãos do ramo social do estado e da sociedade civil organizada, para que eles cumpram seus deveres e obrigações em relação às crianças e adolescentes no que diz respeito à promoção e defesa dos seus direitos, por meio da prestação de serviços obrigatórios previstos na legislação.
No campo do fazer a missão do Conselho Tutelar é receber, estudar e encaminhar para a rede de atenção direta casos de crianças e adolescentes violadas ou ameaçadas de violação em seus direitos à integridade física, psicológica e moral e ao acesso aos serviços sociais básicos. Trata-se, portanto, de um órgão garantista, um órgão destinado a fazer com que os demais cumpram seus deveres e obrigações em relação a cada caso que passa pelo seu atendimento. Nas palavras do jurista e educador Edson Seda, fazendo uma analogia com o Código de Defesa do Consumidor, o Conselho Tutelar funciona como uma espécie de PROCON na área do atendimento à população infanto-juvenil em situação de risco pessoal e social.
Já no campo do influir o Conselho Tutelar possui três ferramentas, que são também três armas para trabalhar e lutar pela aplicação da política de atendimento nos termos previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente. São eles: (i) a requisição de serviços aos demais órgãos governamentais e não-governamentais de atendimento; (ii) a petição ao Ministério Público e (ii) a fiscalização de entidades de atendimento. Além disso, cumpre-lhe subsidiar com fatos, dados e informações a elaboração pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente do plano de ação do município nessa área. Como se vê, o Conselho Tutelar, quando dotado de condições de exercer plenamente suas atribuições, é um poderoso instrumento de uma sólida política dos direitos humanos da infanto-adolescência.
Quanto à política de assistência social, ela atua no âmbito da coordenação das ações de atenção direta, cabendo-lhe prover o conjunto de bens e serviços demandados pelo Conselho Tutelar, visando assegurar os direitos de seus destinatários. Esta coordenação e integração da rede de atenção direta está hoje funcionando na órbita dos CRAS (Centro de Referência em Assistência Social) e dos CREAS (Centros de Referências Especializados em Assistência Social). Daí, se pode concluir que a assistência social e os Conselhos Tutelares não são instâncias que atuam de forma conflitiva ou divergente, ao contrário, elas são convergentes, intercomplementares e sinérgicas. A esfera do Conselho Tutelar é o trabalho e a luta pela garantia dos direitos. Já, a da assistência social é a da prestação dos serviços para garantir eficiência, eficácia e efetividade no atendimento a esses direitos. Portanto, temos duas ordens de atuação: uma do lado da demanda e a outra do lado da oferta.
Atualmente, a divisão de trabalho se dá da seguinte maneira: a assistência social atua na implementação das medidas protetivas e das medidas socioeducativas em meio aberto. E, o Sistema de Administração da Justiça Juvenil, através de órgãos executores estaduais, na execução de medidas privativas de liberdade aplicadas pela justiça da infância e da juventude aos adolescentes em conflito com a lei.
Este é o caminho que vem sendo adotado pelo Brasil no que diz respeito à relação entre os Conselhos Tutelares e a nova Política de Assistência Social. O grande desafio é fazer funcionar essa complexa engrenagem jurídico-social em favor da promoção e defesa dos direitos das novas gerações: crianças, adolescentes e jovens. O enfrentamento desse quadro pressupõe e requer um amplo e profundo reordenamento institucional, implicando mudanças no que fazer (conteúdo), no como fazer (método) e no como conduzir as ações para atingir o objetivo superior e comum a todas elas (gestão).

Tereza: Raiz, consciência e realidade

Especial *

Não sou conhecedora do movimento hip-hop, contudo procuro dar ao meu olhar o mesmo ar de curiosidade com que as crianças olham as coisas a sua volta, procuro manter meu copo d’água sempre pela metade e não me furto às oportunidades de poder completá-lo com novos conhecimentos, mesclando assim as minhas coisas com as coisas do mundo. Li o livro Hip Hop a Lápis há algum tempo e quando acabei de lê-lo fiquei muito a fim de falar a respeito. Falei. Daí o convite e a oportunidade para estas linhas.

Quando o convite chegou fiquei me perguntando: “vou falar de que, vou falar o que, já não sou critica literária?”. Nesse dilúvio de questionamentos, resolvi falar dos vários paralelos entre o livro e eu.

Vivi a contradição de ser negra e filha da classe media campineira, o que para muitos era “difícil” a mim nuca paralisou ou me deslumbrou, na minha cabeça ter oportunidade de ter podido estudar e adquirir um pouco de conhecimento só teria serventia se isso pudesse ser compartilhado, se pudesse, de alguma forma, contribuir, se não com o macro mundo, com o micro mundo dali de onde eu vivia, sendo assim, sempre entrei e sai da favela, seja para dar aula de evangelização para a molecada da igreja, seja para tomar uma “breja” com os pseudomarginais da época, que hoje ou estão presos ou já foram colher as margaridas do reino do senhor.

Nos últimos anos tive algumas oportunidades de trabalhar na periferia de São Paulo através da Comunidade Solidária e num projeto do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) voltado para profissionalização de jovens afrodescendentes em Sorocaba. Na verdade, eles nem eram tão jovens assim. A diferença entre nós era que eu havia tido melhores oportunidades, o que fazia de mim não melhor que eles e sim agente de, quem sabe, alguma transformação, acima de tudo da minha, pois aprendi com eles sobre consciência negra, discriminação, preconceito, violência, enfim uma infinidade de assuntos que, na prática nunca vivi, que aprendi na descrição dos livros. Escutando a molecada, vendo de perto as condições em que eles vivem, tive a certeza de que livros e vida real, na grande maioria das vezes, são coisas que nada têm nada em comum.

As lacunas proporcionadas pelo sistema não nos permitem perceber os caminhos a serem trilhados para diminuir as diferenças sociais. Passei a ver o que é estar ali, o que significa ver a “fita” de perto e assim ter melhores condições de poder falar das necessidades e também dar soluções para um cotidiano tão complexo como é o da periferia, principalmente dos jovens que vivem lá. Aprendi que usar a teoria e os livros para falar de violência, desemprego, racismo, preconceito, educação, acaba transformando, num amontoado de gráficos e estatísticas, necessidades que estão na ordem do dia.

O movimento hip-hop tem força, função social e traz pra si a responsabilidade de tratar com consciência, através da cultura e da arte, assuntos como juventude, violência e inclusão social. Se não entendermos porque as coisas estão acontecendo, será cada vez mais difícil sermos agentes dessa tal transformação da sociedade, que poderia acontecer com maior facilidade através do incentivo à cultura. Contudo, a falta dessa visão acaba nos colocando tão à margem das soluções como os jovens à margem da sociedade.

O livro mostra de maneira muito clara o quanto a arte pode ser usada para ensinar e conscientizar, de uma forma lúdica, através da criatividade e das infinitas possibilidades que ela apresenta, e dessa maneira conseguiríamos avançar nas tentativas de diminuir as diferenças sociais e principalmente a violência. O entendimento do dia a dia, das aspirações, sonhos e desejos desses jovens é que vai nos aproximar deles. Na minha opinião a melhor forma de se descobrir isso é através das manifestações dos próprios jovens na música, dança, grafite, poesia ou em qualquer outro tipo de manifestação que venha deles.

Já ouvi muitos os Racionais. Lembro de alguém falar que as letras eram pesadas, mas ouvia também a seguinte resposta: “Elas são o retrato da realidade logo ali, no quarteirão de baixo”. Não esqueci. Talvez venha daí minha tomada de consciência e as tentavas, eu sei que por vezes pequenas, as quais tenho me lançado na tentativa de que os quarteirões não sejam coloridos só pela metade, sem tons de cinza no contraponto.

Teresa

Talita: Realidade carcerária, revolta e repressão

Especial *

A comunidade carcerária é sem dúvidas, uma das populações mais oprimidas, discriminadas, humilhadas e violadas em seus direitos.

O sistema prisional, muito longe de oferecer algo ligado à educação, existe apenas como depósito de seres humanos a serviço da burguesia, onde o castigo e a punição são contínuos.

Considero o cárcere por si só uma séria violação de condição humana. É impossível almejar algo bom prendendo e excluindo o ser humano.

O cárcere é a vingança do Estado contra os pobres. Contra as pessoas que não se aliam aos seus mecanismos de opressão.

A comunidade carcerária, além do veneno de estar excluída, convive diariamente com as covardias ilegais praticadas por funcionários do Estado (agentes penitenciários, policiais…) que descontam ali seu ódio do povo.

Torturas, humilhações, superlotação, ociosidade, isolamento, castigo, morosidade judiciária, condições precárias de higiene, péssima alimentação, falta de assistência médica e odontológica, doenças, violação de pertences pessoais, etc… são aracterísticas do cotidiano prisional. E isso só gera muito ódio e muita revolta.

Qualquer grupo discriminado/oprimido só consegue ter seus direitos ouvidos e respeitados com sua união e luta.

Assim foi com o movimento de mulheres, com o movimento negro, com o movimento homossexual… E assim foi também com a comunidade carcerária.

A criação de uma organização específica dentre um grupo oprimido é uma reação natural para responder à ação de seus opressores.

Assim, não é estranho saber que existem organizações articuladas dentro das prisões.
(Quem melhor pode saber de suas urgências do que a própria pessoa que sente a desgraça na pele?)

Aqui em São Paulo, os dias 12,13,14 e 15 de maio de 2006 foram totalmente voltados aos acontecimentos exaustivamente explorados (assassinatos,ações,rebeliões, etc,etc,etc).

Acontecimentos esses que só tiveram aquela proporção enorme devido a irresponsabilidade da mídia, que é sensacionalista, mentirosa e sedenta por ibope.

Os meios de comunicação e (des) informação – televisão, internet, rádio, jornal, revista – são formadores de opinião e distorcem a notícia, manipulando-a de maneira que fique do jeito que o expectador mais irá consumir, mais irá gerar lucros.

A sociedade, que é apática e engole tudo sem questionar, fica em choque e se tranca num “toque de recolher” imposto unicamente por ela própria e pela mídia sensacionalista. Ou você acha que se a televisão não existisse o desenrolar seria o mesmo?

A imprensa manipula a notícia para manipular a sociedade.

Você acredita mesmo que foi tudo do jeito que a mídia expôs?

Qualquer pessoa, por mais alheia que seja, tendo um pouco de bom senso, no mínimo questionaria “furos” como uma tal entrevista (forjada) com o Marcola que a TV mostrou (se o cara nunca na vida deu entrevistas, seria naquele momento que iria falar ?),etc, etc.

No mínimo, questionar. E na real, desacreditar

Porque é mentira. A mídia oficial mente. E mente muito, por ser o meio de comunicação sustentado pela classe dominante, cheia de conchavos.

A revolta não foi sem motivo. As rebeliões simultâneas ocorridas em 80 unidades prisionais também não.

** Presos apontam egoísmo do governo como causa da revolta.

Durante muitos anos a SAP (Secretaria de Administração Penitenciária) recebeu informação de direções e funcionários das unidades prisionais que tinham atitudes ditadoras sobre sentenciados, muitas vezes geradas por animosidades pessoais, ou pela ânsia de punir os sentenciados.

No dia 11, apesar de há muito reinar a paz no sistema carcerário, governantes e autoridades ligadas ao sistema realizaram na calada da madrugada a remoção de aproximadamente 800 presos de todas as unidades do Estado para a unidade de Presidente Venceslau 2.

Problema algum haveria em realizar as remoções se não tivessem sido feitas sem o conhecimento sequer das direções e de presos, com benefícios montados e que problema algum de disciplina vinham causando nas unidades em que se encontravam.

E pior, na véspera do Dia das Mães. Ressaltam que impedir o sentenciado de conquistar um benefício, sonhar com a liberdade e de receber o amor de seus familiares é o mesmo que arrancar-lhes pernas e braços.

A revolta ocorrida se deu por essa atitude egoísta do governo e de autoridades que visam apenas seus próprios sucessos políticos e não por reivindicações absurdas como telões e visitas íntimas no RDD (Regime Disciplinar Diferenciado), como noticiam os periódicos. Esclarecem que a revolta se deu no sistema carcerário, onde os únicos prejudicados foram eles próprios.

Quanto na rua, é importante dizer que houveram muitos oportunistas. E pessoas que acabaram de tirar suas diferenças pessoais contra policiais e etc.

E sempre salientar que os sentenciados são seres humanos com anseios, sentimentos e esperanças. Desejam que não seja tirado deles o desejo de sonhar, ter esperança de uma vida melhor. E serem tratados com dignidade e respeito. **

Mas essa realidade não é divulgada, porque para os setores médio/alto não interessa o que se passa atrás das grades.

A sociedade se nega a enxergar que sua (i)lógica inescrupulosa de acumular riquezas gera os por ela denominados “marginais”.

Aqui no Brasil, os 10% mais ricos da população são donos de 46% do total da renda nacional, enquanto os 50% mais pobres – 87 milhões de pessoas – ficam com apenas 13,3%.

Enquanto uma maioria miserável no Brasil enfrenta diariamente a fome, o país abriga a segunda maior frota de helicópteros particulares do mundo.

Para mim, e pra toda periferia, fatos como os que ocorreram não são novidade. O povo pobre é tomado pelo terror todos os dias, tendo suas casas invadidas pela polícia, tomando geral ou porrada nas ruas, entupindo as prisões, não tendo oportunidades para organizar suas vidas, sendo discriminado quando volta pro mundão…

Mas no jogo (que virou) a parte atacada foi aquela que sempre atacou.

Polícia que mata, morreu

E o medo, o tiroteio…invadiram o asfalto. Burguês viveu dias de horror, dias de favela… Sendo que o molho foi temperado com muitos boatos, mais boatos do que fatos.

Mas o fato real é que a repressão governamental/policial/social ganhou campo para ser “justificada” e aceita.

Porque a sociedade contraditória pede “paz” e “harmonia” na base da porrada.
Pede endurecimento das leis. Pede mais polícia. Mais prisões. Mais mortes.
Autoriza o genocídeo do povo pobre. Um problema com origem social vira caso de polícia.

Os sentenciados conhecem a LEP (Lei de Execução Penal) que não é cumprida, sabe de seus direitos, tem suas broncas (com muita motivação) e seu alvo bem direcionado.
O “ataque” foi contra os órgãos policiais e não contra o povo

Mas a força governamental e seu braço armado e fardado viu aí uma ótima ocasião para descaradamente atentar contra a população mais humilde, contra os jovens pobres.

Houve uma reação conservadora por parte da sociedade, que vem pedindo leis ainda piores.

Pedem pena de morte, que é a face mais cruel da (in)Justiça. Querem legitimar a bárbarie. As leis criminais (assim como acontece com todas as leis) são ditadas no afã para satisfazer a opinião pública.

Atualmente, pedem também para “endurecer” (?) o já inconstitucional e absurdo RDD que consiste em manter presos condenados ou presos provisórios (aqueles que ainda nem foram condenados) “que ocasionem subversão da ordem ou disciplina internas” em celas solitárias (isolados) por até 360 dias (podendo expandir esse período por até um sexto da pena). Com visitas semanais de duas pessoas com duração de duas horas e só podem sair da cela por duas horas diárias para o banho de sol, ficam incomunicáveis e sem acesso à fotos, revistas, jornais ou televisão.

Vemos aí que o pote (que sempre existiu e existe na surdina em todos os presídios, isolando o preso no castigo – minúsculo e podre) virou lei, apenas mudando o nome e o aspecto.

Uma lei que é ilegal (pois fere a Constituição federal e atenta contra a Norma Internacional de Respeito aos Direitos Humanos).

Se o próprio sistema carcerário nunca permitiu, não permite e nunca permitirá progresso algum na vida do ser humano, imagine nessas condições.

Puro castigo

Lembro aqui que, em 1983, já era muito bem colocado no escrito “O Crime e a Pena na Atualidade” : “Proíbem-se e castigam-se aquelas ações que infringem algumas das condições constitutivas da ordem jurídica criada pelos dominadores em seu próprio benefício.”

Isso é real e pudemos confirmar nas muitas impunidades recentes de gente como: coronel Ubiratan Guimarães; do Massacre do Carandiru. Pimenta Neves; assassino confesso da namorada. Suzane; assassina confessa de mãe e pai. Os vários do Mensalão e por aí segue a interminável lista…

Estamos em ano eleitoral. Não é por acaso a exposição de politiqueiros explorando o máximo essa situação.

Vimos reaparecer figurinhas como Paulo Maluf, coronel Ubiratan Guimarães, Romeu Tuma, Geraldo Alckmin, Fleury, Conte Lopes… e tantos outros que tem em seus currículos participação em crimes cruéis, como o Massacre do Carandiru, grupos de extermínio, rota, torturas e assassinatos na Febem, etc ,etc…

E a mídia oficial (que se diz imparcial) só abre espaço pra esse tipo de gente falar.
Com certeza, na eleição de outubro, o discurso repressivo vai estar em evidência em todas as propagandas.

Na região mais burguesa aqui da cidade se vê faixas de ataque aos Direitos Humanos e de apoio à candidatura desses sanguinários citados.

A burguesia, com medo de ter suas riquezas (adquiridas na base da exploração do povo pobre) ameaçadas, faz campanha para que o Estado realize em nome dela aquilo que tanto querem fazer: sua “limpeza social”, tratando os pobres como lixo, varrendo-os pro cemitério.

O poder ostensivo soube explorar e aproveitar bem os acontecimentos. Só que nenhum acordo foi feito com o povo.

O povo está morrendo

Foi instaurado pelos policiais um massacre. Saíram por aí querendo vingança e com o propósito de matar.

Atacam todos os dias, na covardia, gente indefesa, desarmada.

É concreta a volta dos Esquadrões da Morte, os grupos de extermínio. Numa audiência na Assembléia Legislativa dia 16 de maio haviam dois policiais vestindo camiseta com a escrita “Scuderia detetive Le Cocq, esquadrão da morte Brasil”.

Nos dia 12,13,14 e 15 de maio a polícia matou oficialmente 79 “suspeitos”, em diferentes pontos da cidade. Todos esses assassinatos seguem com o velho discurso de “resistência seguida de morte” que, como sabemos, tira do policial qualquer tipo de culpa.

Só em Guarulhos, na Grande São Paulo, município com denúncias desde 2003 da existência de grupos de extermínio formados por policiais, foram registradas mais de 40 execuções. Em Guarulhos, foi onde morreu um policial.

Em São Mateus, periferia da zona leste da capital, no mesmo ponto de ônibus onde ocorreu a morte de um policial, a polícia encapuzada e em carro sem placa assassinou 5 pessoas.

Coincidência ou vingança?

Foi uma violência covarde, onde a periferia mais uma vez foi o alvo. As famílias desfalcadas seguem mutiladas, revoltadas e ameaçadas.

Dessa vez, o que sempre foi feito na miúda, teve repercussão e foi mostrado. E o pior, foi aplaudido pela classe abastada, que é preconceituosa, conivente e desinformada.

No período dos dias 12 a 15 de maio o IML (Instituto Médico Legal) esteve superlotado com a chegada dos corpos das vítimas da violência policial. Essa superlotação inclusive desencadeou problemas sanitários na conservação dos cadáveres em decomposição, pelo alto número de corpos que chegaram ao local.

Estando evidentes os sinais de execução, foi organizada uma comissão independente formada por pelo menos 10 grupos de defesa dos direitos humanos, para cobrar informações e providências.

Como previsto, foi negada a essa comissão o direito de acompanhar as investigações.

A polícia até agora não entregou todos os documentos solicitados e a Secretaria de Segurança Pública se nega a divulgar os nomes de todos os mortos.

A parte da documentação que foi entregue, se deu após o prazo estipulado.
Mas aposto que não haverá punição alguma aos (ir)responsáveis.
As evidências das execuções são tantas, que o número oficial de 79 mortes inicialmente divulgadas foram agora diminuídas para 31, depois da divulgação de que a maior parte das vítimas assassinadas nem sequer tinham antecedentes criminais.

Essas vítimas foram comprovadamente executadas estando rendidas, com tiros disparados do alto, na cabeça, braços, mãos. O que descarta a hipótese de revide e reforça as provas de execução.

E os corpos das outras vítimas do primeiro informe oficial? Será que foram parar em cemitérios clandestinos? Não duvido.

Como essas mortes se deram dentro de um processo de conflito, há a possibilidade de que acabe sendo pouco investigadas e logo sejam arquivadas e esquecidas.

Vemos exaustivamente, por parte das forças repressoras, o ataque aos Direitos Humanos, que sempre defendeu a vida, principalmente daquelas pessoas que não tem acesso à justiça.

Os Direitos Humanos vem sendo usado como “bode expiatório”. Seus militantes vem sendo ameaçados. Recentemente picharam uma suástica no banco em frente à paróquia frequentada pelo padre Julio Lancelloti, grande e notório defensor dos D.H., além de outras várias intimidações a vários outros ativistas.

Querem endurecer a lei também contra as pessoas que lutam por liberdade

Vale dizer que os Direitos Humanos há muito tempo vem denunciando as violações inaceitáveis que ocorrem dentro dos cárceres.

Como “resposta” às rebeliões simultâneas houveram, no mínimo, 18 presos mortos.
Dessas vítimas encarceradas então, nem se ouve falar…

Na Penitenciária de Ribeirão Preto os presos foram obrigados apagar o fogo com o próprio corpo; vem correndo frequentes espancamentos e isolamentos de adolescentes internos na Febem de Vila Maria e de presos das penitas de Lucélia, Campinas e Hortolândia.

As famílias dos presidiários foram absolutamente humilhadas e ameaçadas nas portas dos presídios (onde buscavam informações sobre seus parentes). Foram xingadas, empurradas, dispararam tiros em sua direção.

Mas isso não interessa à sociedade…

Esses “fatos” me recordam os acontecimentos de 11 de setembro de 2001 nos EUA, onde numa manobra governamental foi decretada uma suposta “guerra ao terror” que desencadeou o terrorismo de Estado visto pelo mundo todo, com intenso e constante ataque aos Direitos Humanos dos povos.

Aqui, como lá, o Estado deu licença para matar. E, na prática, a violência vai aumentar. Nos remete também ao período da ditadura militar.

Enquanto o fator social continuar sendo tratado como “caso de segurança pública” e a sociedade continuar cega, surda, muda e injusta. Invariavelmente o caos irá acontecer, como resultado da revolta e desesperança gerada pela intensa discriminação que sofrem as pessoas excluídas dessa tal sociedade.

São Paulo viu uma guerra sim. A guerra de classes. A velha guerra dos detentores do poder contra o povo injustiçado.

Essa guerra, que massacra o povo pobre, acontece todos os dia sem aparecer na mídia. A história de vida das vítimas do sistema caem para sempre no esquecimento, como se nunca tivessem existido.

É importante e urgente criar alternativas visando uma solução que não defenda o cárcere.

E enxergar que a repressão/violência legislativa/policial é um meio ineficaz para combater a criminalidade, cujas raízes, sabemos todos, está na desigualdade social que impera em São Paulo, no Brasil e no mundo.
Justiça no Cárcere!

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** essa parte sinalizada foi baseada no manifesto divulgado pela comunidade
carcerária**

Talita , 22 anos.
Ativista independente e apartidária na luta contra as prisões e a favor dos
Direitos Humanos. Edita os zines: “Justiça no Cárcere” (com participação da comunidade carcerária) e “Mulher Viva!” (dedicado à libertação feminina)

Estadão: Hip-Hop de cultura a movimento político

Especial *

Matéria do Estadão no sábado 9 de agosto por Bruno Paes Manso e William Glauber

Ao menos 30 representantes do estilo lançam candidatura, no Estado

Nas quebradas, rádios e bancas de CDs piratas de São Paulo, o rap abre espaço para o funk ”malicioso” do Rio e anda em baixa, ao menos se comparado à explosão do fim dos anos 1990. Nos palanques, escolas e governos, o hip-hop, no entanto, mostra cada vez mais a cara e, aos poucos, transforma-se em movimento político, estruturado em todo o País. Neste ano, lançam-se ao menos 30 candidaturas a vereador e uma a prefeito, ancoradas nos dividendos sociais de um movimento que nasceu da expressão cultural da periferia.

”O funk é moda. No baile, tocam uma ou duas músicas dos Racionais, porque música é para dançar. O importante para o garoto é que ali ele não é discriminado, está entre os iguais e quer ganhar a menina”, diz o antropólogo João Batista Félix, que no doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) estudou hip-hop, cultura e política. Enquanto o rapaz do baile corteja a ”mina da noite”, integrantes da Nação Hip-Hop Brasil se colocam à frente de um projeto de conquista de poder, articulados nos 27 Estados brasileiros.

Além de apoio às candidaturas, o grupo indica representantes a conselhos de educação, saúde e cultura. ”Não basta simplesmente fazer denúncias. Tem de apresentar propostas de políticas públicas, a partir do olhar dos jovens da periferia”, diz Erlei Roberto de Melo, o Aliado G, do Faces da Morte, candidato pelo PCdoB a prefeito de Hortolândia (SP), com cerca de 200 mil habitantes. ”São candidatos do meio, legitimados e respeitados, mas não são lançados pelo hip-hop. São integrantes com ligação partidária ao PCdoB, PT e outros partidos. O movimento cresceu do interesse pela dança, grafite e música,” pondera o antropólogo.

A participação nos conselhos, explica Felix, é benéfica na medida em que concretiza projetos do hip-hop. ”A presença nessas esferas não é apenas da Nação Hip-Hop Brasil. É uma característica de vários grupos do movimento para atuar e influenciar, como faz o movimento em defesa da criança e dos direitos da mulher. As propostas do hip-hop para a sociedade são viabilizadas com essas ações e com verbas do Estado”, diz Felix. Como exemplo, ele cita a conquista de bibliotecas públicas na periferia paulistana, capitaneadas pelo Força Ativa.

O hip-hop ganhou espaço nos governos principalmente com a aprovação, em 2003, da lei que institui o ensino da cultura afro-brasileira. A partir deste mês, pelo terceiro ano seguido, o projeto Africanidade vai levar a oito Centros Educacionais Unificados oficinas e eventos ligados à cultura africana. ”Em 17 anos como professora de escolas da periferia, sempre me perguntei como posso ensinar. Vi como o hip-hop pode ser uma linguagem para quebrar barreira entre aluno e professor”, afirma Anair Novaes, coordenadora do Africanidade.

Embrenhada em projetos em parceria com o setor público, a diretora nacional da Nação Hip-Hop, Maria Mercedes de Alencar, conta que, pela ONG Reação Positiva, já treinou em dois anos 8 mil jovens do Primeiro Emprego. Aulas profissionais, como ensino de elétrica e mecânica, ficam com os técnicos. Legislação trabalhista, cidadania, com discussões que vão da gravidez à arte e violência, usam a linguagem hip-hop. ”Temos cerca de 20 educadores que vieram do hip-hop”, diz.

”Com essa inserção, a militância se profissionaliza, o que é muito bom. O jovem, além da dança e da música, estuda, faz faculdade, especializa-se e surge uma nova geração no hip-hop”, afirma o antropólogo João Batista Félix. O especialista ressalta que o hip-hop, em alguns anos, vai contar com representantes nas universidade. ”E acredito que os primeiros políticos devam ser eleitos, como deputados estaduais ou federais, na Bahia ou Rio”, aposta.

Exemplo dessa nova geração é Guilherme de Souza Neto, o Oráculo, de 24 anos, da Nação Hip-Hop Brasil, que vai coordenar visitas às escolas do Estado. Ele engrenou nos estudos com ajuda do hip-hop. Aos 15, em 1999, ainda era o Enigma e pichava muros, traficava e assaltava. Na turma de reforço, uma ”professora sagaz” lançou um desafio ao vê-lo escrever rap: explicar o hip-hop a outros alunos. ”O choque cultural entre professores e alunos na periferia é muito grande. O hip-hop ajuda a melhorar o diálogo”, avalia.

Guilherme e a professora conseguiram que o diretor da escola levasse os alunos à Casa do Hip-Hop, em Diadema, onde pesquisaram temas para palestras. Na volta, a escola parou para assistir aos seminários, que levaram dançarinos de break, grafiteiros, DJs e MCs – os quatro elementos do hip-hop. Passado o tempo, em 2003, Oráculo gravou seu primeiro CD. Dois anos depois, tornou-se presidente do diretório estadual da Nação Hip-Hop Brasil.

Tráfico, favelas e violência

Espaço Social

Os últimos incidentes referentes à luta entre policiais-militares e o tráfico, ocorridos na cidade do Rio de Janeiro ganharam espaço nas grandes mídias do Brasil e de inúmeros países do chamado Primeiro Mundo. Como se sabe, o Brasil não está em guerra interna ou externa. Por aqui, não há motivo aparente, no atual contexto, para espetáculos de ações diretas, registrados e reproduzidos fartamente pelas mídias.

É estranho que um helicóptero tripulado por soldados da PM tenha sido abatido em pleno vôo, com duas mortes e dois feridos. A tragédia não foi maior porque foi possível o pouso forçado da aeronave em chamas, em campo aberto. As imagens de sua completa destruição física parecem cenas da Guerra do Iraque, da Colômbia ou do Afeganistão. Mas, não são. Tudo ocorreu em um outrora pacato bairro da Zona Norte – Vila Isabel. Este é ocupado por parcelas das classes médias da cidade, que são vizinhos de muitas comunidades faveladas e foi um dos berços do samba moderno brasileiro.

Jamais isto tinha ocorrido antes. Parece, que existiram tentativas, mas esta foi a primeira vez que se conseguiu concretizar a façanha. Acendeu-se uma lâmpada de alerta. O Rio de Janeiro é uma cidade conflagrada. Talvez, se isto tivesse acontecido antes de sua escolha para sediar as Olimpíadas de 2016, o resultado tivesse sido outro ou a vitória bem mais difícil.

A política de segurança adotada por sucessivos governos da cidade e do Estado comete equívocos e dialoga com público, através das mídias, de modo ainda mais equivocado. Ao não aceitar ajuda federal, o atual governador situou o problema na esfera local, dizendo que, por ora, tinha como resolvê-lo. As questões de fundo que são as verdadeiras causas de tudo isto foram, mais uma vez, para debaixo do tapete da política e da história.

Os problemas sócio-urbanos do Rio de Janeiro são muito graves e se arrastam desde o fim da escravidão, ou mesmo de antes. Tem-se uma cidade dividida entre uma parcela mais rica que mora no ‘asfalto’ e cerca de 600 ou mais comunidades faveladas construídas, em sua maioria, em morros, muitos deles de difícil acesso. Estas comunidades são, de há muito, usadas pelo crime como local de recrutamento e homiziamento. Obviamente, que nada disto é exclusivo à esta cidade, mas nela, esta situação ganha características especiais.

Mais do que um, em cada três cariocas, mora em uma das favelas da cidade. Diferentemente de outras, a geografia do Rio levou e continua levando os excluídos e os imigrantes para os morros e algumas regiões planas de baixo interesse imobiliário. Estas são, por vezes, distantes e periféricas. A origem destas comunidades remonta à época da escravidão. Nesta, negros fugidos – quilombolas – ou abandonados pelos seus senhores usavam os morros para morar e muitas vezes plantar e criar animais.

Quando do fim da Guerra de Canudos (1897), o Morro da Favela, nas proximidades da Central do Brasil, abrigou muitos retirantes do conflito, que vieram para a velha capital. Daí, a origem e a popularização do nome. No local, ainda existe uma impressionante favela, que parece debruçada sobre uma pedreira – o Morro da Providência – que é um dos locais de conflito na cidade. Sua antiguidade e pobreza testemunham anos e anos de descaso público.

Estas comunidades cresceram todas as vezes que houve ciclos de prosperidade no país. Parece paradoxal, mas o que ocorria e ainda ocorre é que imigrantes, vindos para trabalhar na construção civil e outras atividades urbanas, não tinham como morar nos prédios que levantavam e nos bairros onde trabalhavam. A opção era a de construir barracos, se possível, no morro mais próximo de onde labutavam.

Hoje, quase não existem mais barracos. A madeira ficou cara. O tijolo e o cimento são abundantes e relativamente mais baratos do que no passado. As habitações são, quase sempre, construídas em tijolos. Como nem sempre há dinheiro para o reboco externo, muitas favelas, vistas de longe, parecem jogos infantis avermelhados e amontoados. A alvenaria externa é mais facilmente encontrável nas favelas mais antigas e nas mais “ricas”, onde se concentram trabalhadores empregados com carteira assinada ou biscateiros bem-sucedidos. É lógico, que numa mesma favela é possível encontrar as duas situações, bem como se podem ver ainda barracos, agora, construídos com resto do lixo urbano.

O mundo favelado é altamente complexo e não cabe neste pequeno artigo. Nele existe uma estrutura social com imensas diferenças internas. A maioria dos seus habitantes são trabalhadores ou desempregados. Um pequeno percentual dedica-se às atividades criminosas. O preconceito do “asfalto” é antigo, até porque grande parte dos seus moradores e negra, quase negra, de origem nordestina, mineira e vindos de outros bolsões da miséria brasileira. Para as classes médias mais reacionárias, favela é lugar de marginal, de gente que não presta. Esta mesma gente não tem qualquer cerimônia em explorar o trabalho dos que lá vivem.

Entre os governos de Carlos Lacerda e de Chagas Freitas prevaleceu a idéia de que a solução para a questão favelada era a remoção para conjuntos habitacionais construídos pelo governo na periferia do Rio de Janeiro. Pouco a pouco, a proposta de remover perdeu terreno pela a da urbanizar. Aliás, o atual prefeito levantou a mesma questão da remoção, sem nada ainda ter feito de concreto nesta direção. Também, junto com o atual governador do Estado foi feita a polêmica proposta de algumas favelas serem ‘separadas’ por muros do resto da cidade. Os atuais PACs têm projetos engajados em algumas obras de urbanização básica dos mesmos locais.

Os casos de remoção conhecidos nada mudaram para os favelados, liberando terrenos valiosos para a especulação. Os mesmo problemas que existiam na origem foram remontados nos conjuntos habitacionais, rapidamente favelizados. Os projetos municipais urbanizadores, tal como o chamado Favela-Bairro, mudaram muito pouco a realidade destas comunidades. A questão central é que em nenhum destes projetos desenvolvidos ou propostos até hoje houve a preocupação com a distribuição de renda entre os habitantes. O problema do desemprego continuou a ser gravíssimo, afetando, com muita força, os jovens.

Existem milhares e milhares de jovens favelados sem emprego, escolas decentes, comida em casa, saneamento básico, tratamento médico necessário. Os que conseguem trabalho ganham mal e não raro não têm seus direitos respeitados. Neste quadro, fica fácil ao tráfico e a outras atividades criminosas fazer o recrutamento constante. A cada preso ou morto há uma fila de substitutos, de gente capaz e disposta a arriscar a vida para alguns momentos fugidios de glória e de ascensão. A política de matar, torturar e prender em massa nada muda. Ao contrário, cria heróis e mártires, estimulando novas adesões. Por isto, é difícil crer que se deseje, de fato, acabar com o problema.

De todas as favelas cariocas, em torno de dezoito, teriam bolsões mais nítidos do tráfico. O Rio não é Mendellin, na Colômbia. Por aqui, não existem cartéis e nem máfias muito organizadas. A droga vendida no Rio, como se sabe, ou vem do Nordeste (maconha), do Paraguai, da Bolívia, da Colômbia e do Peru. Logo, ela atravessa, certamente por terra, alguns milhares de quilômetros, até está disponível em um ponto de revenda local. Como passa desapercebida, é um ‘mistério’ a resolver. Parte destes carregamentos sai do Rio para a Europa e EUA. Logo, a cidade é também um entreposto.

Em parte das favelas, onde não existe tráfico ou ele foi banido, funcionam as famosas milícias – nova versão do crime social local, com a clara participação de pessoas de algum modo ligadas às forças repressivas. Quase em todas comunidades existem pequenos grupos de pessoas que se dedicam a vários tipos de atividades criminosas. É difícil que o número de criminosos em uma favela seja superior a um por cento de seus moradores. O número de desempregados ou de subempregados pode chegar a mais da metade do conjunto da comunidade.

Os grupos de traficantes mais comuns são pequenos bandos de, em torno, vinte pessoas, desarticulados e por vezes inimigos entre si que adotam siglas de organizações que só existem atualmente no universo nebuloso das mídias, sem muito respaldo no real. No Rio, felizmente, não há nada como o PCC paulista. É verdade, que uns atiram nos outros e/ou tentam tomar o território dos rivais. O capo, normalmente é alguém mais velho, com várias passagens policiais e com ligações com o crime mais ou menos organizado existente dentro dos presídios. Os soldados do tráfico são jovens, por vezes bem jovens, que têm uma esperança de vida média de dois anos nesta atividade para lá de perigosa.

As armas de guerra que conseguem por efeito da corrupção e do dinheiro acumulado pela venda de drogas, são as mais usadas nas lutas entre as facções. Muitas delas foram produzidas nos EUA, na Inglaterra, em Israel e em países do Leste europeu. Outras, sobretudo munições, se originam também em aquisições feitas no contrabando e as que são oficialmente compradas pelas forças armadas e policiais brasileiras. Sabe-se, que com dinheiro e contatos, não é difícil comprar um fuzil-metralhadora moderno, bem como a munição necessária. O problema está em se imaginar como circulam estes artefatos no mundo contemporâneo. Certamente, há muitos interesses em jogo.

O episódio do helicóptero chama a atenção, porque jamais algo similar havia acontecido. Normalmente, os traficantes atiram na polícia somente quando estão encurralados, que é o que deve ter acontecido. Eles preferem guardar suas balas para seus iguais e para garantir seus reinados nas comunidades onde atuam. Eles evitam um confronto maior com as polícias, porque sabem que serão, no passo seguinte, perseguidos até o destino final.

A atual política de ocupações policiais permanentes de algumas favelas, três até o momento, funciona bem nos locais tomados pela polícia. Mas, tem como efeito colateral estimular os bandos a buscar a quem invadir outras criando guerras, como a que se viu no Morro dos Macacos em Vila Isabel.

Trata-se de uma situação complexa que precisa ser analisada a fundo e que sejam tomadas medidas que tenham efetivo poder de desmontar as bombas relógio sociais da atual fase da modernidade. Uma política de emprego, de divisão de renda, de escolarização real e não formal para todos, de respeito aos direitos humanos e, sobretudo, o exemplo de honestidade pública do poder poderiam fazer a diferença. A exclusão semeia a violência e o caos, levando à uma realidade sem saída.

Autor: Luis Carlos Lopes

13 de maio: quem festeja a pantomima?

No ano de 1983, uma foto estampada na primeira página do Jornal do Brasil renderia ao seu autor, o repórter-fotográfico Luiz Morier, o Prêmio Esso de fotojornalismo. Nela, um grupo de negros atados pelo pescoço por uma corda é levado pela polícia, após uma das frequentes batidas em favelas do Rio de Janeiro. Assemelhando-se àquelas pinturas do século XIX, em que aparecia o capataz com seu chicote ao lado de escravos amarrados, a fotografia de Luiz Morier era encimada por um sugestivo título: “Todos negros” A pergunta remete a duas questões que permanecem dolorosamente atuais: por que a data referência da libertação dos negros continua sendo o 13 de maio e qual é seu exato significado?

Talvez o questionamento mereça mais desdobramentos. Por que a crença de que vivemos numa democracia racial permanece tão enraizada no pensamento da maioria da população brasileira quando, ao nos determos no cotidiano social deste país, percebemos as profundas desigualdades que ainda envolve distintas etnias? A constatação de que os negros e não-brancos em geral são aqueles que possuem empregos menos significativos socialmente não seria evidência suficiente para demolir de vez um imaginário construído ao longo de dois séculos?

Apesar do contrapondo estabelecido pela criação do dia da Consciência Negra, permanece o costume frequente de nos curvamos diante do ritual do 13 de maio. A mesma elite que não aceita políticas de cotas, que protela a sanção do Estatuto da Igualdade Racial, enaltece a libertação dos escravos como inicio de uma nova era de liberdade. Sequer se dá conta de que notórios abolicionistas como Nabuco, Patrocínio, Rebouças e Antônio Bento, entre outros, afirmaram que a abolição só se cumpriria de fato com a reforma agrária e a entrada dos trabalhadores num sistema de oportunidade plena e concorrência.

Mesmo os setores mais progressistas, ao denunciar as condições sócio-econômicas dos negros depois de 122 anos de abolição, justificam a situação atual como resquício do passado escravo. Isso explicaria a permanência de mecanismos não institucionais de imobilização que atingem o segmento negro da população, produzindo distâncias sociais enormes, jamais compensadas? Ou é cortina de fumaça para preservar a aura de “bondade” da princesa branca? Estudos feitos sobre a época da chamada Abolição, mostram que 70% da população dos escravos já estavam livres antes de 1888, ou por crise econômica de algumas frações da classe dominante ou por pressões dos próprios negros, através de lutas, fugas e rebeliões.

A Lei Áurea foi, na verdade, uma investida bem sucedida das elites pelo controle político de uma situação que lhes fugia das próprias mãos. Sua eficácia ideológica pode ser atestada até hoje com os festejos do 13 de maio.O que é um indicador preciso da recorrente capacidade de antecipação política da classe dominante continua sendo percebido como ” gesto magnânimo”, exemplo da cordialidade vigente em nossa história política. A teoria dos resquícios (que de fato existem) tenta ocultar um fato relevante: os mais de um século de modo de produção capitalista e seus mecanismos de exclusão da população negra não permitem jogar todo débito na conta do passado.

Como observa Fátima do Carmo Silva Santos, secretária da União Negra Ituana( UNEI), a Lei Áurea foi na verdade um passo importante, mas como veio desacompanhada de reformas estruturais, resultou em “uma demissão em massa do povo negro, já que eles não tinham emprego, educação ou qualquer condição de conseguir um trabalho que não fosse com os seus senhores em troca de um teto”.

Embora o processo de desestruturação do mito da “democracia racial” tenha avançado muito nos últimos anos, no terreno da luta social e política perdura um grande atraso a ser superado. Cabe à República completar a Abolição com políticas públicas eficazes. Enquanto tivermos um Demóstenes Torres( DEM-GO) responsabilizando os ex-escravos por sua própria escravidão- e publishers escravocratas pagando a capatazes magnolis para descer o açoite em jornalistas que noticiaram o fato- é fundamental que usemos a data para destacar a dimensão cultural, a construção social e ideológica de “raça” como elementos reprodutores de desigualdades sociais perpetuadas.

É a única comemoração possível em Paços Imperiais que, desde 1888, alforriam as más consciências de uma elite incapaz de elaborar projetos republicanos. As mesmas que criminalizam o MST para manter inalterada a estrutura fundiária que vem da Lei de Terras, aprovada em 1850. As mesmas que acham possível falar em libertação sem nenhuma política de inserção aplicada. O condimento neoliberal não esconde a essência escravocrata da direita brasileira. É bom pensar nisso em outubro.

Autor: Gilson Caroni Filho é professor de Sociologia das Faculdades Integradas Hélio Alonso (Facha), no Rio de Janeiro, colunista da Carta Maior e colaborador do Jornal do Brasil.

Para que serve o sistema prisional?


Qual o objetivo de encarcerar alguém num ambiente insalubre, superlotado e sem a menor condição de ressocialização? Para que serve a prisão? Ou para que deveria servir? Castigo ou ressocialização?

Pedro Serápio/ Gazeta do Povo

Pedro Serápio/ Gazeta do Povo / Cadeia pública do Foz: superlotação.Cadeia pública do Foz: superlotação.

Ao trancafiar os pequenos bandidos como bichos, não estamos dando um tiro no pé, transformando-os em grandes bandidos? Não será prejudicial mais tarde para a própria sociedade ter de acolher um indivíduo piorado?

Para o membro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária do Ministério da Justiça e membro da diretoria da Associação dos Magistrados dos Paraná (Amapar), o desembargador José Laurindo de Souza Netto, vivemos uma barbárie institucionalizada.

“O preso é tratado como na idade da pedra, o que contribui para um círculo vicioso. Ainda estamos com os grilhões”, opina.

Souza Netto defende a incrementação da utilização de medidas alternativas. “Em certos crimes é necessário o tratamento prisional, mas para tantos outros não. Precisamos de reabilitação social para que não haja mais pratica do crime. A política criminal passa por uma transformação”, diz.

Veja na edição deste domingo a situação das unidades prisionais no estado do Paraná. Na segunda-feira, a reportagem continua ao mostrar as falhas do sistema judiciário e penitenciário no estado.

Um primo e o crack, aos 11 anos


Marcelo Elias/Gazeta do Povo

Marcelo Elias/Gazeta do Povo / João: efeito devastador da droga.João: efeito devastador da droga.

Há cinco meses na Chácara dos Meninos de 4 Pinheiros, em Mandirituba, região metropolitana, João experimentou o crack com 11 anos de idade com um primo um pouco mais velho. Fez furtos e roubou para sustentar o vício recém-adquirido. “Meu primo traficava e teve um dia que nós compramos R$ 1 mil em pedra. Passei a noite inteira fumando”.

Ele diz que não lembra muito bem dos momentos que passou com o primo, no uso das drogas. Está na 3.ª série, não pela primeira vez, e diz que “no geral” tem se concentrado e conseguido “fazer bem as coisas”. Com, ao menos, outros seis irmãos, afastados da mãe, cada um em um abrigo, João sente falta, principalmente da irmã de 3 anos, com quem chegou a ficar por sete meses em outro abrigo antes de vir para a chácara.

Com a mãe moram, atualmente, apenas um irmão mais velho, de 18 anos, e um bebê, que acaba de nascer. Quanto às drogas, João diz, bastante seguro, que não quer mais e que não sente vontade. Sua meta desde que chegou na chácara é ser motorista de caminhão, objetivo que está fixado no Painel dos Sonhos do refeitório da chácara, onde os meninos colam figuras e desenhos sobre o que querem ser quando crescer.

Na mira do tráfico

Ontem liguei para a psicóloga Caroline Fernanda Rocha, da Casa de Recuperação Água da Vida (Cravi), para saber como estavam os meninos que entrevistei para a série sobre o crack, que a Gazeta do Povo vem publicando desde domingo e que hoje mostra o efeito devastador sobre a infância.

Ela me disse que todos estavam bem, menos Daniel*, um garoto bonito de
15 anos, mas com tamanho de 11 (uma provável consequência do uso de maconha e crack, tanto por ele, quanto pela mãe durante a gestação) que está na matéria de hoje da série.

Caroline me disse que foi após uma conversa com a tia, que é quem cria Daniel, que ele ficou perturbado e acabou fugindo. Ele estava em tratamento há apenas poucas semanas e durante a entrevista demonstrou ainda bastante insegurança e negação em relação ao vício. Caroline me disse que teme que ele volte a usar drogas como antes e pior, que está ameaçado de morte no local onde vive, em Almirante Tamandaré.

*nomes fictícios

Em dois anos, da maconha para a pedra

Fabiane Ziolla Menezes

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Daniel*, que ficou internado durante poucas semanas na unidade masculina da Casa de Recuperação Água da Vida (Cravi), em Almirante Ta­man­daré, na região metropolitana de Curitiba, nem parece ter 15 anos. Começou a usar maconha aos 7 anos e crack aos 9. De estatura baixa e mãos pequenas, o menino de feições bonitas tem lembranças confusas. Fala ter repetido a 3.ª série “sete vezes”, como se fosse possível. Diz que experimentou o crack duas ou três vezes, mas, felizmente, não gostou. “Me deu dor de cabeça”. Não conta muito da família. Morava com a tia antes de ir para a comunidade terapêutica. Não vê a mãe, que também era usuária de maconha e crack, nem os irmãos, mas a tia o informa sobre todos. Segundo as psicólogas, a tia se culpa por ter trocado de turno no trabalho e deixado o menino mais tempo sozinho. Teria sido depois dessa troca que ele passou a ficar mais tempo na rua e acabou entrando em contato com as drogas.

Na semana passada, perturbado por causa de uma conversa com a tia, Daniel acabou largando o tratamento e fugiu para casa. A psicóloga Caroline Fer­nanda Rocha teme que ele volte para o mesmo nível de dependência de antes.

*nomes fictícios

Dez anos de vida, dois no vício do crack

Fabiane Ziolla Menezes

A vida de Fábio* é composta por flashes, momentos dos quais ele não lembra muito bem. No encontro com a reportagem, dias atrás, não soube informar a própria idade. Fernando Gois, coordenador da Chácara Meninos de 4 Pinheiros, onde Fábio está há quase um ano, teve de interromper a entrevistar e dizer: 10 anos. Há dois, o menino começou a usar maconha. Passou pela cola de sapateiro e pelo solvente e experimentou o crack ao fugir de casa. Uma casa que não era sua, mas sim de pais adotivos que eram traficantes. “Meu ‘pai’ me batia porque queria que eu vendesse droga pra ele”, conta.

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Fábio não sabe explicar muito bem por que e nem quando foi parar nessa casa. Algo a ver com a mãe não ter dinheiro para cuidar dele. Só sabe que fugiu e foi viver na rua, com um amigo diferente todo dia e a droga para compartilhar. “Antes de vir para cá ele não parava em nenhum lugar. A FAS (Fundação de Ação Social) o recolhia, mas ele fugia no dia seguinte. Mesmo aqui, logo no início, chegou a fugir algumas vezes para a BR (116, caminho para Mandirituba)”, conta Gois.

Ao que tudo indica, Fábio está encontrando seu caminho. Frequenta a escola, apesar de ter sido afastado algumas vezes por causa do comportamento inquieto e, por vezes, agressivo – motivo pelo qual toma remédios e passou a entrevista inteira batendo com uma caneta na mesa e o olhar baixo, vago. Também está retomando o contato com a mãe biológica e o irmão que ficou em uma cadeira de rodas depois de levar seis tiros por causa do envolvimento com o tráfico.

*nomes fictícios

Família Desestruturada e Falta de Objetivos

Fabiane Ziolla Menezes - Colaborou Aline Peres

Nos casos de crianças acolhidas que contam com interferência da Justiça, o que se encontra são famílias desestruturadas. “Os pais perdem totalmente a noção de cuidados com os filhos, se largam em ‘mocós’ para fumar o crack e esquecem da vida”, relata a juíza da 1.ª Vara da Infância e Juventude de Curitiba, Lídia Munhoz Mattos Guedes. “No convívio com eles, crianças muito pequenas, de 3 ou 4 anos, nos contam como a droga é usada e a chamam pelo nome.”

Entre adolescentes, é cada vez maior o envolvimento com a droga. Meninas usuárias engravidam de namorados também usuários. Vão para hospitais sob efeito da droga, provocando o acolhimento institucional do bebê. “Atendi um caso assim na semana passada. Uma menina de 17 anos, com família estruturada, se envolveu com um namorado drogado. Perdeu a filha para o abrigamento, mas se recusa a procurar tratamento”, conta a juíza.

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Desespero

Por dia, a chácara Meninos de 4 Pinheiros, em Mandirituba, na região metropolitana de Curitiba, recebe 20 ligações de pais querendo abrigar os filhos. “Uma parte é de famílias de classe média, mas minha prioridade são os mais pobres. Como não posso deixá-los desamparados, marco um encontro e converso com eles, passo uma orientação, que em famílias mais estruturadas tende a funcionar”, diz o coordenador da chácara, Fer­nando Gois.

Uma das primeiras iniciativas é o estímulo ao sonho.“Trabalho há 30 anos com moradores de rua (de 80 assistidos, 16 são moradores de rua) e a primeira coisa que percebo quando os meninos chegam é que eles não têm objetivo de vida algum”, conta Gois. “Na primeira conversa tentamos incentivá-los a pensar em uma profissão, uma meta.” Um painel pendurado no refeitório retrata desejos para o futuro. Em pequenos bilhetes, as mãos que manipularam a droga começam a formalizar metas através de palavras. “Todo dia pergunto para eles como vai o sonho. Isso faz com que eles tenham um objetivo a cada passo do dia”, diz Gois. O contato com a família também é importante. “Às vezes levamos vários meses para localizar um pai ou uma mãe”, revela o coordenador.

Para a juíza Lídia Guedes, o crack revela um grande problema: as pessoas não têm ideia do que é ter um filho e educá-lo. “Se eximem da responsabilidade dizendo que precisam trabalhar e depois pedem ao conselho tutelar e à Vara de Infância que cuidem de seus filhos.” Para ela, as crianças devem passar mais tempo na escola e os pais devem aprender o que é cuidar de um filho. “Não podem ensinar o que não aprenderam”, justifica.

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Infância Esquecida

Problemas familiares e abandono fazem com que o crack avance entre as crianças. Centros de Atenção Psicossocial de Curitiba têm 67 pacientes em tratamento

Fabiane Ziolla Menezes

Os dados são escassos e os números do estado, ainda mais raros, porque os registros de atendimento são municipalizados. Mas um levantamento inédito de fichas, feito pela coordenadoria de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde de Curitiba a pedido da reportagem da Gazeta do Povo, dá uma ideia da ameaça que o crack representa para a infância. Na 1.ª Vara de Infância e Juventude de Curitiba, 60% dos casos de acolhimento institucional de crianças se deve ao uso de crack pelos pais. Nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) da capital há 67 pacientes com idade entre 11 e 15 anos em tratamento por causa da pedra – neste ano, um enquadrado na faixa de 8 a 10 anos deu entrada.

No Paraná, o único recorte possível é o dos 168 leitos psiquiátricos reservados ao internamento de meninos (90) e meninas (78). Segundo a Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), esses leitos são usados, em sua maioria, por adolescentes de 15 a 17 anos com dependência do crack. Um perfil mais apurado da ala psiquiátrica do Hospital Universitário do Oeste do Paraná, em Cascavel, que possui 17 leitos, indica que, ao menos, 11 pacientes entre 10 e 12 anos passaram pela instituição neste ano – entre março de 2007 e março de 2009 foram nove nessa faixa etária. O levantamento, feito pelo enfermeiro da ala Sérgio de Arruda Dias, a acadêmica de Enfermagem da Unioeste Ângela Gonçalves da Silva e a professora da universidade Nelsi Salete Tonini, apontou o crack como o motivo mais frequente de internação, seguido da maconha.

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Fator de risco

Trauma aumenta predisposição

Uma convivência intensa com situações como a separação prolongada da mãe, a negligência e os maus-tratos seria suficiente para danificar a estrutura e o funcionamento cerebral, predispondo a criança ao uso de substâncias psicoativas. Essa relação é indicada por um estudo de 2002 do Departamento de Psiquiatria da Escola Médica de Harvard, nos Estados Unidos, intitulado “Neurobiologia do Desenvolvimento Infantil Exposto ao Estresse e ao Trauma”.

Os autores partem da hipótese de que a forma final do cérebro humano e seus padrões são esculpidos pela experiência e não vêm totalmente de uma fórmula genética pré-determinada. A exposição a situações traumáticas na infância, principalmente antes dos 5 anos, modificariam para sempre algumas regiões do órgão e fariam aumentar a vulnerabilidade a problemas como transtorno de estresse pós-traumático e depressão.

Em relação ao uso de substâncias psicoativas, os autores apontam a região do vermiscerebelar (parte do cerebelo). Quando tem um tamanho reduzido, esse ponto indica problemas como déficit de atenção e hiperatividade, fatores de risco para o uso de drogas. Essa situação também deixa o sistema límbico (relacionado com a regulação dos processos emocionais e do Sistema Nervoso Autônomo) mais irritável, outro fator para o uso de substâncias psicoativas.

Na Associação San Julian, em Piraquara, que atende Curitiba e região, a idade média é de 14 a 15 anos. O assistente social Wilsun José Gonçalves Araújo, coordenador da unidade de adolescentes, no entanto, diz que de 2009 para cá quatro pacientes de 12 anos passaram pela instituição. Segundo ele, o contato com a droga tem começado aos 7 anos. “Quando eles saem daqui, depois de uma internação que varia de 30 a 45 dias, têm dificuldade em dar seguimento ao tratamento e acabam voltando. São poucas cidades que têm o Caps 1, infantil (são três em Curitiba e sete em outras cidades grandes do estado) e nos outros centros (Caps 2 e AD, para dependentes químicos) não há equipes preparadas”, afirma.

Vício

Nas clínicas e abrigos, as histórias são semelhantes: alguém da família é usuário e/ou traficante, o que torna a droga algo comum na vida da criança. Além disso, a ausência do pai e da mãe pode levar a uma rotina livre de cobranças e disciplina. Crianças mais velhas às vezes traficam e chamam os mais novos, que na esquina de casa ou no campinho de futebol são surpreendidos pela fissura quase imediata proporcionada pelo cachimbo do crack. Duas vezes, em média, são suficientes para viciar. O cérebro, ainda em estruturação e maturação, absorve as consequências.

“Entre os 5 e 7 anos de idade, o esboço do cérebro está formado para uma maturação que acontecerá até os 21 anos, mas a massa encefálica, que é o filtro do órgão, ainda não está totalmente formada, deixando o cérebro mais vulnerável do que na adolescência e na vida adulta”, explica o psiquiatra Marcelo Ribeiro de Araújo, da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas do Departamento de Psi­quiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Bastam 5 segundos para o usuá­rio entrar em um estágio onde não há percepção do que está ao seu redor. Segundo o neurologista Maccleiton Gehlen, do Hospital Milton Muricy, a fuga do real transita para o quadro eufórico – com bem-estar e atenção –, mas dura muito pouco. Em 5 minutos, o usuário quer mais. Conforme Gehlen, não há relação necessária entre o tempo de uso e o vício. “Pode ser da primeira vez ou no prazo de semanas. Depende da suscetibilidade de cada pessoa.”

Gravidez na idade da pedra

Hedeson Alves/ Gazeta do Povo / Andressa (nome fictício) engravidou quando estava sob o efeito do crack. A filha mora com avós e ela luta contra o vício Andressa (nome fictício) engravidou quando estava sob o efeito do crack. A filha mora com avós e ela luta contra o vício Risco

Em seis meses, 52 usuárias de crack foram atendidas em três maternidades de Curitiba

Aline Peres e Fabiane Ziolla Menezes

O número de gestantes usuárias de crack é desconhecido. A informação não é um registro obrigatório nos hospitais; quando existe, fica no prontuário da paciente, com acesso restrito a ela e à família. De dez maternidades consultadas em Curitiba, só três repassaram dados sobre o assunto à Gazeta do Povo. No primeiro semestre deste ano, o Hospital Evangélico, o Hos­pital do Trabalhador e a Maternida­de Victor Ferreira do Amaral totalizaram 52 casos. Situação semelhante ocorreu em Porto Alegre em 2009, quando um levantamento em quatro das principais maternidades da cidade indicou 117 partos de usuárias de crack em cerca de um mês. É como se a cada três dias um bebê vítima da droga nascesse na capital gaúcha.

O coordenador de Gestão de Al­­to Risco do Hospital Presidente Var­­gas, em Porto Alegre, André Cam­­­­pos da Cunha, e a coordenado­ra da UTI Neonatal, Cristina Vi­­ves, dizem que os dados em relação ao uso e aos efeitos do crack na gestação são escassos. Mas, com base em estudos disponíveis no exterior, afir­­mam que em média 3% das mu­­lheres usam alguma droga ilícita durante a gravidez. Segundo eles, cerca de 30% das mulheres preferem suspender o uso no primeiro trimestre da gravidez e 93% durante o terceiro trimestre. De­­pois do parto, é grande o número de mulheres que voltam a usar a dro­­ga. Segundo o National House­hold Survey on Drug Abuse, dos Estados Unidos, a faixa etária mais jovem (de 18 a 30 anos), a au­­sência de um parceiro fixo e níveis de escolaridade baixos aumentam o risco de uso de drogas na gestação.

Luta difícil

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Estatísticas

Falta de notificação ainda é comum

A ausência de estatísticas mostra despreocupação em relação aos problemas causados pelo crack. De dez hospitais maternidade de Curitiba procurados pela reportagem, só três fazem o registro de mães usuárias de drogas. A simples omissão da gestante em relação ao uso e a falta de um perfil de atendimento que motive a compilação dos números são os principais motivos desse vazio estatístico.

Segundo o ginecologista Gerson Riguetto Júnior, que atende na maternidade Milton Muricy e no Hospital do Trabalhador, na maioria das vezes a gestante usuária não faz pré-natal e procura o hospital só na hora do parto. Geralmente, a mãe não fala por vontade própria. Riguetto, porém, alerta que o médico deve colher informações ao perceber o estado do bebê ao nascer. Ele lembra ainda que a laqueadura poderia ser feita para evitar gestações de risco. “Legalmente, os médicos não estão amparados. Mas isso deveria ser feito para diminuir os casos. O Estado tem que ser responsável pelo controle, mas não o faz.”

Nos seis primeiros meses desse ano, o Hospital Evangélico de Curitiba atendeu 24 mulheres usuárias de drogas. No Hospital do Trabalhador, foram 12 casos no período. Segundo a enfermeira Thaís Antunes Betin, do Núcleo de Epidemiologia Hospitalar, na primeira entrevista as pacientes são perguntadas sobre o uso de drogas. Quando elas não informam, o médico não pode notificar. Na primeira semana de julho foram dois casos: uma jovem de 26 anos deixou o bebê para a adoção e uma grávida de 40 anos fugiu em meio a uma crise de abstinência.

Na Maternidade Victor Ferreira do Amaral, 16 atendimentos a gestantes usuárias de crack foram registrados nesse ano. O número representa 36% do total de notificações por uso de drogas e negligência em 2010. No ano passado foram 78 notificações por uso de crak. A assistente social Regiane Jarzinski diz que o aumento no total de gestações problemáticas de um ano para o outro (43,5%) aponta para uma perspectiva de alta no número de casos.

Depoimento

Suzana*, 24 anos, um filho

“Abandonei tudo quando vi seu rosto. E comecei uma nova história”

O filme “Eu, Christiane F. – 13 Anos, Drogada e Prostituída” serviu como uma forma de atração e não de prevenção para mim. Tinha 11 anos quando o vi na escola e pensei: quero ser igual a essa menina.

Aos 14 anos, mudei de escola e conheci uma menina que usava drogas. Nessa idade, a mistura do álcool com a maconha era comum e bombástica. Entrava em salas de bate-papo da internet e marcava encontro com os meninos. O grupo se reunia em frente ao Passeio Público e, certo dia, conheci um carrinheiro que fumava crack. Estava ali minha oportunidade de experimentar algo mais forte.

Nessa época, comecei a usar também o Benflogin, remédio anti-inflamatório que virava uma droga misturada ao álcool, tipo LSD genérico. Tive minha primeira internação pelo conjunto que usava. Fiquei um pouco mais de um mês, mas recaí três dias antes de completar um ano de abstinência.

Era Ano Novo e todos os amigos estavam na praia. Uma menina se aproximou e me ofereceu cocaína. Quando voltei, falei na clínica e eles me internaram mais dez dias. Se da primeira vez fiquei feliz por poder estar limpa e fazer parte dos 30% que se salvam, dessa segunda vez “larguei os betes”. A cada três meses eu recaía e voltava a procurar as drogas.

Foi nessa época que virei visitante de favela. Dos 17 aos 18 anos usei só crack. O pessoal que vendia drogas no Parolin e no Capanema me conhecia. No início, comprava a pedra e ia fumar em casa, na garagem. Depois, comecei a consumir lá mesmo.

Chegava à favela, fumava o que tinha de dinheiro e quando acabava ia pedir no sinaleiro. Cheguei a me prostituir. O máximo que fumei em 24 horas foram 30 pedras. Ficava sem dormir, alerta. Não tinha fome, sono e nem dor. Um dia minha mãe se cansou e me mandou embora. Fiquei um mês longe da família. Meu pé, de tanto andar, era uma bola. Mas eu não sentia dor. A droga era um anestésico da dor física e da dor moral.

Aos 22 anos queria engravidar porque achava que assim eu ia parar de vez. O meu namorado, também viciado, aceitou e em 15 dias o resultado do teste de gravidez deu positivo. No entanto, com dois meses de gestação, eu voltei para o mesmo mundo. Não conseguia passar mais do que duas semanas limpa e isso me fazia chorar e rezar, pedindo a Deus para que o bebê nascesse normal.

As meninas da favela que já eram mães me consolavam. “Os meus (filhos) são como touros. Fortes. O teu também vai ser”. Durante o período da gestação fiquei internada três vezes. No total, desde que comecei na vida das drogas, foram 12. O namorado sumiu quando eu estava no quarto mês. Tinha dias que o meu filho mexia muito. Outros em que ficava quietinho. A médica sabia de tudo e me avisava do perigo.

Para minha felicidade, ele nasceu perfeito e sem crise de abstinência. Minha mãe já tinha avisado que o tiraria de mim, mas não foi preciso. Abandonei tudo quando vi seu rosto. E comecei uma nova história.

* Nome fictício.

Nas clínicas e comunidades terapêuticas de Curitiba, as gestantes que usam crack são um público cada vez mais frequente, mas que procuram as instituições há pelo menos cinco anos. Na Casa de Re­­cuperação Água da Vida (Cravi), com atendimento particular e por convênios públicos, cerca de 20 gestantes deram entrada de 2009 para cá. “A maioria vem procurar ajuda depois, quando já fez o uso durante a gestação”, lamenta a psicóloga Rafaela Di Lascio Rosendo.

É o caso de Andressa*, 29 anos, que está internada há quatro me­­ses na unidade feminina depois de oito meses desaparecida. Há três anos, em um momento de uso da droga, ela engravidou. Não sabe quem é o pai e não lembra de co­­mo aconteceu. Constrangida, diz à família que não quer contar. Ten­tou se controlar durante a gestação, mas acabou cedendo. Geral­mente esses lapsos começavam com a ingestão de bebida alcoólica. “A bebida me puxava para o crack. Hoje tenho plena consciência dessa associação”, admite. A filha, ho­­je com 3 anos, vive com os avós. A voz de Andressa quase some quando fala da filha. “A culpa é um dos sentimentos mais fortes nessas mães. Boa parte delas acaba doando os bebês, que chamam de criança do crack”, diz Rafaela.

Negação

Ao contrário de Andressa, que está ciente da luta que tem pela frente, Sônia*, 40 anos, ainda está na fase da negação. É mãe de duas meninas, de 15 e 5 anos. A primeira foi gerada depois de ela usar cocaína, maconha e álcool. O pai também era usuário. A segunda, com o crack. Sônia diz que “deu sorte” e que as filhas são “normais”. Mas, se­­gundo as psicólogas da Cravi, a mais velha tem um cisto sobre o ner­­vo ótico que mantém a pálpebra de um dos olhos fechada o tempo todo – problema que pode ter sido causado pelo uso de drogas. A pequena, aparentemente, não tem nada. “Mas é cedo para dizer”, adverte a psicóloga Caroline Fer­­nanda Rocha.

Sônia está há pouco mais de um mês na instituição. Estava em tratamento no início do ano, mas fu­­giu no Dia das Mães. Brigou com o padrasto, agrediu a mãe e foi agressiva com a filha mais nova. Uma ordem judicial impede que Sônia se aproxime dela.

Tanto Andressa quanto Sônia estão tentando reatar os laços com a família e a vida social, mas quando deixarem o tratamento o básico continuará faltando: uma casa, um emprego e boas companhias. Fatores com os quais terão de lutar para se manterem longe do crack.

Cérebro e fígado do bebê são os mais afetados

Quando inalado pela gestante, o crack atinge o cérebro do feto e tende a matar os neurônios. Os detritos presentes na droga entram no pulmão e o que é absorvido pelo sangue percorre o corpo inteiro. Assim, o cérebro e o fígado são mais afetados. O cérebro recebe os estímulos e o fígado fica responsável por limpar as impurezas do sangue. “Com o acúmulo de detritos dá uma sobrecarga”, diz o psiquiatra José Leão de Carvalho Júnior, da Clínica Nova Esperança.

Tanto o peso quanto o comprimento do bebê são afetados pela cocaína, segundo estudo do psiquiatra Sandro Sendin Mitsuhiro, da Universidade Federal de São Paulo. Das mil gestantes entre 11 e 19 anos acompanhadas por Mitsuhiro em 2006, cerca de 6% fizeram uso de drogas na gravidez.

Aos 7 anos, as crianças apresentam duas vezes mais chances de ficar abaixo da porcentagem de 10% na curva de crescimento. Logo após o nascimento podem ser observados tremores, irritabilidade e agitação psicomotora. Nos três primeiros dias após o parto pode haver síndrome de abstinência. Os principais sintomas são sucção deficiente, irritabilidade, hipertonia, bocejos e espirros. O comprometimento neurológico, comportamental e de aprendizado aparece depois dos 3 anos. A pesquisa aponta que o uso médio de sete pedras por semana durante a gravidez provoca um risco maior de retardo mental aos 2 anos de idade.

Durante a gestação a cocaína inibe a recaptação de substâncias como dopamina, norepinefrina e serotonina, causando eu­­foria. A ação periférica cardiovascular (vasoconstrição, hipertensão e taquicardia) gera efeitos adversos durante a gestação e os primeiros dias após o nascimento.

A atividade da colinesterase, enzima que metaboliza a cocaína, é menor na gravidez. Isso aumenta o tempo em que a substância fica no corpo. O descolamento prematuro de placenta e o trabalho de parto prematuro são as consequên­cias mais comuns.

* Nomes fictícios.

Pedras de fabricação própria

Narcotraficantes brasileiros absorvem conhecimento e começam a processar matéria-prima vinda da Bolívia, do Peru e da Colômbia

Fabiane Ziolla Menezes e Aline Peres

Os narcotraficantes brasileiros estão se tornando empreendedores num ramo em que até então figuravam apenas como atravessadores. A expansão dos negócios, com uma carteira de clientes que só cresce, levou-os a investir no processamento da matéria-prima vinda da Bolívia, da Colômbia e do Peru. Até há pouco, apenas importavam o pro­­­duto já pronto, em pó ou pedra. A prática levou-os a perceber que o lu­­­cro é maior quando se importa a pasta-base de coca para eles próprios fazê-la render. Homens de visão, puseram o país num novo status e agora suas pedras levam o selo Made in Brazil.

A razão dessa tendência está, como em qualquer ramo, no custo-benefício. Um quilo de pasta-base rende entre 12 e 15 mil pedras de crack. Levar um quilo dela é mais fácil do que carregar um saco de pedras. Os números são elucidativos. O volume de pasta apreendida em 2009 no Brasil cresceu mais de três vezes em relação ao ano anterior. Saltou de 412 quilos para 1,4 tonelada. Já neste ano, o Narcodenúncia mostra aumento de 60% na apreensão dessa matéria-prima no Paraná. Desde 2003 foram confiscados 24,5 quilos por ano, em média. Mas só no último semestre a quantidade já chega a 32 quilos.

As polícias conseguem retirar de circulação apenas uma parte do que chega ao consumidor final. Ainda assim, os dados oficiais são preocupantes porque revelam a fabricação do pó e da pedra em território nacional, tendência confirmada com a descoberta de 11 laboratórios de refino no país entre março e maio deste ano, segundo a Agência Brasil. Um deles funcionava na Cidade Industrial de Curitiba. Nessa semana, a polícia do Paraná prendeu em Santa Catarina e em São Paulo dois dos maiores traficantes de Curitiba. Um deles mantinha um laboratório de refino de pó e pedra na capital paulista.

Os números podem ser ainda maiores se considerado que nem toda pasta-base apreendida é identificada como tal e acaba sendo registrada como cocaína. “A diferenciação entre pasta-base, crack e cloridrato (pó) é, muitas vezes, realizada de forma técnica, quando da elaboração do laudo pericial (depois da apreensão). Daí a distorção dos números. Muitas vezes se apreende pasta-base e, para fins estatísticos, entra no ‘bolo’ de apreensões de cocaína apenas”, explica o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal (PF) no Paraná, Rivaldo Venâncio.

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Efeito é imediato e devastador

Inalado pelo pulmão, o crack tem um efeito bem mais devastador do que a cocaína, que chega ao organismo por outras vias. “A superfície de absorção do pulmão é grande e permite a entrada de uma quantidade muito maior da droga. Além disso, o acesso do pulmão ao cérebro é quase imediato”, diz o psiquiatra Félix Kessler, vice-diretor do Centro de Pesquisa em Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Segundo o Centro Brasi­­­­leiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), os efeitos do crack podem ser sentidos entre 5 e 15 segundos, enquanto os da cocaína cheirada ocorrem em 10 a 15 minutos, e o da injetável entre 3 e 5 minutos.

O perfil do usuário mudou nos últimos anos. Se antes a droga estava atrelada ao consumo pelas classes mais baixas (como D e E), hoje ela circula livremente em outras camadas sociais e em outros perfis. Na fissura do crack encontram-se pessoas de várias idades, embora o perfil majoritário seja de homens entre 18 e 35 anos de idade. O consumo na infância, pela mãe durante a gestação e amamentação, e na idade mais avançada, tornou-se mais frequente de cinco anos para cá. (FZM)

Leia entre amanhã e quinta-feira na Gazeta do Povo a continuidade desta série de reportagens sobre cada um desses perfis de usuários do crack.

Sujeira aumenta o volume

A composição química da coca (Erythroxylon coca) possui de 30% a 50% de alcalóides de cocaína. Na primeira fase de extração de cocaína, que acontece em laboratórios dos países fornecedores (Colômbia, Peru e Bolívia), as folhas são tratadas (prensadas) com um solvente orgânico, como querosene ou gasolina, e ácido sulfúrico, formando uma pasta de até 90% de sulfato de cocaína. Se a essa pasta for adicionada ácido clorídrico, produz o cloridrato de cocaína, o pó. Se a pasta e o cloridrato forem misturados, junto com bicarbonato de sódio (produto sem controle específico da Agência Nacional de Vigilância da Sanitária ou da PF, encontrado em farmácias para outros usos), e aquecidos várias vezes tem-se a cristalização do pó, o crack.

Em nome do lucro, traficantes aumentam os volumes de pó e pedra com substâncias absurdas. “Em média, a cocaína apreendida no país tem pureza de 30%, segundo perícias do Instituto Nacional de Criminalística. Os outros 70% são substâncias como pó de mármore, talco e vidro moído, só para dar volume”, explica o delegado licenciado e ex-secretário especial Antidrogas de Curitiba, Fernando Fran­­cischini. O pouco que sobra de cocaína na mistura, no entanto, já é suficiente para viciar. O comprometimento é tanto que, segundo avaliação do de­­le­­gado da PF Wagner Mesquita, se o usuário brasileiro usar a cocaína pura, ele pode morrer de overdose. (AP e FZM)

Operação

Líderes em Curitiba, presos em SP e SC

O Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc), da Polícia Civil do Paraná, prendeu nessa semana na Operação Madrugada os dois maiores traficantes do Bairro Alto, em Curitiba: Maikon Rubens Bonete Alves, 25 anos, conhecido como Bauduco, e Carlos Roberto Oliveira, 44 anos, cozm o apelido de Baiano. Ao todo, a operação cumpriu 34 mandados de busca e apreensão e 24 mandados de prisão em cidades do Paraná (Curitiba, Pinhais e Araucária), Santa Catarina (Joinville) e São Paulo (capital, São Bernardo do Campo e Diadema), resultantes de uma investigação que começou há seis meses, a partir das atividades no bairro da região norte de Curitiba. Seis pessoas ainda estão foragidas.Só repressão não resolve

Na opinião do delegado do Departamento Estadual de Narcóticos (Denarc), Julio Reis, é preciso existir mais do que repressão, trabalho desenvolvido pela polícia. A prevenção e o tratamento também são pontos onde as ações devem melhorar. “Enquanto houver demanda, haverá tráfico”, diz. Em uma recente operação na região Oeste do estado, onde foram apreendidos 25 quilos de pasta-base, em Céu Azul, os traficantes presos comentaram que para cada quilo de pasta seriam fabricados 10 quilos de cocaína, que por sua vez, produziria 100 mil pedras.

Ainda em março, a Junta Inter­­­­na­­­cional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife) tinha apontado que o aumento de apreensões se deve ao crescimento do cultivo e da produção de coca no Peru e, principalmente, na Bolívia, e na consequente queda no preço da matéria-prima. O Relatório Mundial de Drogas, divulgado em junho pelo Escritório sobre Drogas e Crime da Organização das Nações Unidas (ONU), repetiu o alerta. “Tem se tornado cada vez mais vantajoso adquirir a pasta, que depois se transforma em cocaína (pó) ou crack (pedra), do que traficar a cocaína pronta, muito mais volumosa e fácil de identificar”, diz o delegado licenciado da PF Fernando Fran­­cischini, ex-secretário especial Anti­­­dro­­­gas de Curitiba.

Contudo, Venâncio afirma que, via de regra, o crack entra pronto no país. “A exceção é a fabricação”, diz. Por quanto tempo, no entanto, não se sabe. “A quantidade de pasta-base apreendida pode parecer pequena, mas não é um dado a desconsiderar”, lembra o delegado da PF em Foz do Iguaçu, Rodrigo Perin Nardi.

Já em Guaíra, também na fronteira do Paraná com o Paraguai, onde se apreendeu quase 4 dos 17 quilos de pasta-base recolhidos em 2009 no estado, o delegado local da PF, Érico Ricardo Saconato, lembra que a fabricação do crack é muito simples e que o fechamento de um laboratório da droga não é tão frequente. “O crack é fabricado em casa. Tivemos um caso no ano em que o indivíduo estava fazendo a mistura em uma forma de bolo, na residência.”

Laboratório e refino

Laboratório é o local onde a folha da coca é transformada em pasta base ou cocaína e refino é onde a droga á batizada com mais produtos e cresce em volume, seja em forma de pó ou pedra. Segundo o delegado da PF Wag­­­ner Mesquita, o Brasil não teria laboratórios, mas apenas refinos. Os laboratórios não são de processamento. “O que é fechado no país é o local onde é feito o batismo da droga. Por exemplo, 100 quilos de pasta-base podem virar 500 quilos de cocaína”, explica.

Paraná é corredor do tráfico

A pasta de coca e seus derivados têm chegado ao Brasil principalmente da Bolívia, mas também do Peru e da Colômbia. Entram no Brasil pelo Acre; por Cáceres (MT) e Guajará-mirim (RO) rumo ao Nordeste; por Corumbá e Ponta Porã (MS); e por Guaíra e Foz do Iguaçu, via Paraguai, rumo a Curitiba e outras cidades do Sul e do Sudeste do país. Parte segue para Europa e África, via Brasil. De acordo com o chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Federal no Paraná, Rivaldo Venâncio, as cidades de Entre Rios do Oeste, Pato Bragado e Santa Helena, no Oeste do Paraná, também são entradas da droga no estado.

Por aqui, as cargas chegam geralmente via carros de passeio e caminhões. As principais estradas usadas são a BR-271, de Guaíra, e a BR-277, segundo o che­­fe de Policiamento e Fiscaliza­ção da Polícia Rodoviária Federal do estado, inspetor Gilson Cor­tia­­­no. A corporação é a campeã nacional de apreensões de crack e com uma média considerável nas de cocaína. Do primeiro se­­mestre do ano passado para o mesmo período de 2010 houve aumento de 150% nas apreensões de cocaína (de 45,6 para 113,9 quilos) e o dobro nas de crack (118,9 para 240,6 quilos).

Em Guaíra, o delegado da PF Érico Ricardo Saconato diz que as apreensões de cocaína e derivados nos primeiros meses de 2010 já superam as do mesmo período do ano passado: de 24,4 para 52,8 quilos, aumento de 54%. As cargas de pasta e pedras são transportadas em pequenas quantidades. “O número de pessoas trabalhando para o tráfico aumentou, enquanto a quantidade diminuiu. A pasta vem em três ou quatro quilos”, diz. Saconato conta que o crack tem tomado conta da região Oeste e que foi verificado o uso da droga até mesmo no meio rural, entre cortadores de cana. “É uma droga tão barata que vem substituindo a maconha.”

Em ascensão

Em Foz do Iguaçu, a situação não é diferente. O delegado Rodrigo Perin Nardi lembra que a droga mais apreendida é a maconha (18 toneladas em 2009, contra 15 em 2008), mas a cocaína e seus derivados têm crescido. “Neste ano foram 3,1 quilos de pasta-base, 36 de cocaína em pó e 47 de crack, além de 64 quilos de lidocaína (uma das substâncias usadas para batizar e dobrar o volume da cocaína). No ano passado foram 280 quilos só de cocaína recolhidos pela delegacia de Guaíra”. Nardi explica que, enquanto o quilo da maconha é comercializado a R$ 50 no Paraguai, o da cocaína chega a R$ 9 mil. “Isso também explica as diferenças no tráfico, modo de transporte e quantidade de uma droga e outra.”

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“Meu corpo não suporta mais”

Roberto*, 48 anos, usuário de crack há 13, internado há 50 dias

Antes do crack eu usei muita maconha, anfetamina e glicose na veia, desde os 15 anos. Aos 30 passei a usar cocaína. Experimentei o crack em 1997, com 35 anos, e larguei o resto. Uma pessoa me apresentou e me explicou como fazia. No começo eu mesmo fabricava, em casa, para fumar. Para você ter a mesma sensação que o crack dá na primeira fumada precisa cheirar várias carreiras de cocaína, que é mais cara.

Nos anos seguintes, entre 1998 e 1999, já comecei a achar para vender em algumas favelas. Era mais difícil de comprar do que agora. Hoje, em qualquer esquina você consegue. Principalmente no Centro, à noite. Se quiser de dia, é só ir na favela.

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Foi com o crack que perdi a família (era casado e teve um filho com síndrome de Down, hoje com 23 anos). Só não perdi o trabalho porque tinha me acidentado de moto sob o efeito da droga. Tive traumatismo craniano e nesse período de recuperação fui interditado. Fiquei aqui na clínica [Nova Esperança] por um ano e seis meses – o período mais longo que já fiquei sem usar nada. Hoje sou aposentado e declarado incapaz. Nunca roubei ou assaltei, mas me afundei em dívidas. Comecei a prejudicar a minha família com a cocaína. Depois, pelo crack, fiz mais empréstimos. São uns R$ 60 mil de dívidas. Não tenho casa, carro, roupas, nada. Moro em uma pensão, sozinho, e como fiado.

Fui internado umas 15 vezes, mas sempre forçado. Nunca quis parar de usar. Essa é primeira vez que me trato por vontade própria. Vim pra cá porque não conseguia ficar mais de um dia sem usar a pedra. Quero parar. Meu corpo não suporta mais.

* Nome fictício

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“Se tivesse, fumava na sua frente”

Alcides*, 58 anos, usuário de crack há 15 e em tratamento há 45 dias

Experimentei o crack em uma noite com mulheres, com 43 anos, depois de usar muita maconha, cocaína e outras drogas. O plano era usar ecstasy, mas acabou e elas tinham a pedra. Caí no crack por problema financeiro. O crack é a droga mais barata, mais fácil de encontrar. É só ver um cara mais novo, meio alucinado, numa esquina. É o “trafiquinho”, o cara que tem a pedra. Se você usar duas vezes, está perdido. Você esquece de tudo, se apaixona por aquela fumaça. O crack veio para arrebentar o povo – quem tem dinheiro usa cocaína e ecstasy.

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Eu cheguei a roubar até comida e produtos de limpeza de casa para comprar crack. Na favela quem vende a droga são as famílias, tanto faz trocar por dinheiro ou um quilo de sabão em pó. Quando você quer fumar, manipula de todo jeito para conseguir. Fiquei algumas vezes preso, mas por pouco tempo. Minha família descobria onde estava, dizia que eu estava em tratamento e o delegado me liberava. Com a cocaína eu conseguia viver, mas o crack me deixa de joelhos. Cheguei a ficar seis meses morando na Praça Eufrásio Correia.

Minha vida não é normal. Fico cada dia na casa de um filho. É clínica, é hospital, é tratamento de várias sequelas. Tomo oito tipos de remédio todos os dias. Não peguei HIV por Deus mesmo. Não trabalho, mas recebo uma porcentagem da lanchonete da família. Se sair do tratamento, eles me mandam embora. Não ando com dinheiro para não correr o risco de comprar. Faço oficinas e curso de panificação, porque penso nisso o tempo todo. Nesses dias tive que usar cocaína duas vezes para não usar o crack.

* Nome fictício

Para o tráfico, idade não conta

Aline Peres

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Apesar de menos frequente que os jovens, o envolvimento de pessoas mais velhas no tráfico também acontece. Nos últimos meses, a imprensa noticiou vários casos em Saramandaia, no interior da Bahia. Em março, Laudelina Maciel de Jesus, 77 anos, foi presa como traficante. Ela estava com mais de 100 pedras de crack no bolso e disse que precisava sustentar quatro filhos e 20 netos, além de reformar a casa onde mora. Em casa, os policiais encontraram mais 33 pedras. Para cada 60 pedras vendidas, ela ganhava entre R$ 20 e R$ 40. Ela disse em depoimento que não usava a droga, mas já tinha sido presa em duas ocasiões. Há 18 anos, por porte de maconha. Na segunda, foi abordada quando chegava em casa com uma sacola de pedras de crack.

No dia 18 de abril, um homem de 66 anos foi preso com 28 kg de crack na cidade de Japaratuba, no interior de Sergipe. A droga estava escondida em um fundo falso do porta-malas do carro conduzido por Ari Castelain. A apreensão partiu de uma denúncia. Além da posse da droga, Castelain respondia a 56 processos e tinha 13 mandados de prisão expedidos pela Justiça contra ele. Segundo o acusado, a droga seria levada para Alagoas.

Há dois meses, em Uberlândia (MG), Expedito Pereira da Silva, 63 anos, foi preso pela PM com 30 pedras de crack. O suspeito foi preso em um bairro da região norte da cidade. No local havia diversos usuários de drogas. O suspeito foi capturado depois de tentar se esconder em um matagal.

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No fim da linha, o crack

Com mais de 50 anos, usuários de outras drogas migram para a pedra e aumentam os riscos. Tendência já foi verifidada nos Estados Unidos e no Brasil

Aline Peres e Fabiane Ziolla Menezes

Não é comum, mas mais pes­­soas na faixa dos 50 anos de idade têm começado a usar crack. O uso geralmente está ligado ao vício do álcool e outras drogas e muitas vezes a uma vida complicada, de morador de rua. Desde 2009, 24 pacientes com idade entre 51 e 57 anos e três entre 58 e 60 anos deram entrada nos Centros de Atenção Psicossocial de Curitiba (Caps). O levantamento, feito a pedido da reportagem da Gazeta do Povo, é o primeiro do gênero. Segundo a coordenadoria de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde, pacientes mais velhos não costumavam aparecer até 2008.

Em pouco mais de uma semana de buscas, a reportagem encontrou dois homens viciados em crack em Curitiba, um com 48 anos e outro com 58. Há mais pelas ruas, alguns frequentando a Fundação de Ação Social (FAS), da prefeitura de Curitiba, mas em números bem menos significativos que os do perfil majoritário, dos 18 aos 35 anos.

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Para o tráfico, idade não conta

Apesar de menos frequente que os jovens, o envolvimento de pessoas mais velhas no tráfico também acontece. Nos últimos meses, a imprensa noticiou vários casos em Saramandaia, no interior da Bahia. Em março, Laudelina Maciel de Jesus, 77 anos, foi presa como traficante.

“Se tivesse, fumava na sua frente”

Experimentei o crack em uma noite com mulheres, com 43 anos, depois de usar muita maconha, cocaína e outras drogas. O plano era usar ecstasy, mas acabou e elas tinham a pedra. Caí no crack por problema financeiro.

“Meu corpo não suporta mais”

Antes do crack eu usei muita maconha, anfetamina e glicose na veia, desde os 15 anos. Aos 30 passei a usar cocaína. Experimentei o crack em 1997, com 35 anos, e larguei o resto. Uma pessoa me apresentou e me explicou como fazia.


Embora duas pessoas não sirvam como base para uma estatística, os casos indicam um fenômeno percebido recentemente nos Estados Unidos, onde pesquisadores têm verificado uma migração do álcool para o uso de drogas ilícitas. Segundo um estudo do epidemiologista norte-americano James Anthony, isso pode estar relacionado a um efeito cascata do uso da maconha, que ainda é considerada uma porta de entrada para outras drogas.

Anthony é autor de uma teoria da progressão do uso de entorpecentes: quem usa álcool teria três vezes mais chances de consumir maconha. Quem usa maconha, por sua vez, teria 11 vezes mais chances de passar para a cocaína, e assim por diante. Para o crack não há um cálculo, mas espera-se uma progressão semelhante.

No Brasil, o tema tem sido explorado por estudiosos como o psiquiatra Philip Ribeiro, do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP). “O uso dessa droga [maconha], que antes era feito aos 16 anos, agora está aparecendo aos 24 ou 25 anos, o que levaria também à cocaína e ao crack em idade mais avançada. Por que isso acontece, ainda não sabemos”, diz o psiquiatra.

Segundo Ribeiro, em São Paulo o número de usuários de crack mais velhos, com mais de 65 anos, também não é significativo, mas eles podem ser encontrados em locais como a Cracolândia, no centro da capital paulista.

O uso prolongado da droga entre alguns dos entrevistados pela Gazeta do Povo não o surpreende. “A sobrevida do jovem, da criança e do adolescente é muito pequena, mas mais por conta da violência, pelo envolvimento com o tráfico. Com o passar do tempo criou-se uma falácia de quem usa crack, independentemente da idade, morre cedo. Mas não é bem assim.”

Consequências

O consumo do crack na faixa dos 50 ou 60 anos é ainda mais perigoso por causa dos problemas típicos da idade, como os cardiovasculares, que potencializam os efeitos da pedra. Se considerados outros problemas adquiridos com o consumo de outras drogas ao longo da vida, os riscos são ainda maiores. “Se no jovem a causa da morte pode estar mais ligada ao tráfico, no idoso a conjunção de outras doenças, como a hipertensão, pode ter conseqüências fulminantes”, afirma o neurologista Maccleiton Gehlen. “Se ele já tem outras doenças, a tendência é piorar. Ele acaba tendo mais chances de ter um derrame, uma crise convulsiva um ou quadro demencial.”

Segundo o médico geriatra José Mário Tupiná Machado, o organismo de pessoas de idade mais avançada tem dificuldades para se adaptar a novas substâncias, o que pode dificultar o tratamento. “Quanto mais tempo se vive, menos capacidade de adaptação e tolerância a mudanças o organismo tem”, explica Machado. “O nome para isso é reserva funcional. Quanto mais tempo eu vivo, mais ela diminui. Qualquer mudança de ambiente ou introdução de nova medicação, por exemplo, fica mais difícil.”

Os homens ouvidos pela reportagem apresentaram dificuldade de concentração e de raciocínio durante as entrevistas. Além disso, listaram uma série de problemas de saúde, como hipertensão, dentição prejudicada e hepatite, entre outros. Atualmente eles não trabalham: um por invalidez, depois de sofrer um acidente de moto sob o efeito da droga; o outro recebe uma porcentagem da renda da lanchonete da família enquanto está em tratamento. A rotina de solidão, sem amigos ou familiares, que muitas vezes atinge os idosos, chegou mais cedo para esses personagens. Por enquanto, visualizar um futuro além da abstinência é difícil.

Filme é usado no combate à exploração sexual das brasileiras

“Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado”, filme de Joel Zito Araújo, mostra o sonho de cinderela de brasileiras que buscam encontrar um marido estrangeiro. O longa-metragem foi exibido para os participantes do curso de formação de multiplicadores do Projeto de Prevenção à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes nesta terça-feira (13).

Exploração sexual

O sonho das cinderelas brasileiras, via de regra, vira pesadelo.

De acordo Elisabeth Bahia, do Ministério do Turismo (MTur), promotor do curso, a exibição do documentário teve o objetivo de sensibilizar e promover a reflexão entre os participantes do curso. Ela lembra que em busca da concretização do sonho de cinderela, muitas mulheres acabam entrando no caminho da prostituição e das drogas. Algumas delas entram ainda meninas no universo da exploração sexual, buscando melhores condições de vida.

“Muitas vezes, o turismo é o meio utilizado para a exploração sexual de crianças e adolescentes. Nossa meta aqui é contribuir para que os estados tenham condições de elaborar e implementar ações para prevenir este tipo de crime dentro de hotéis, restaurantes, bares e outros estabelecimentos ligados ao setor”, destaca a coordenadora.

Para Maria Alice Araújo, representante do Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente do Estado de Tocantins, é importante levar adiante esse entendimento. “Sexo com alguém que tenha menos de 18 anos é crime, é exploração, não é simplesmente prostituição. A sociedade não pode aceitar como algo normal”, acrescenta.

O curso na Região Centro-Oeste, que teve início terça-feira (13), vai até a próxima sexta-feira (16), com a participação de cinco representantes de cada estado, todos de órgãos e empresas ligadas ao turismo. Na semana que vem, será a vez da Região Sul receber o curso.

Serviço:

A exploração sexual de crianças e jovens até 18 anos incompletos é crime. A legislação brasileira prevê punição para quem pratica ou facilita. Para denunciar os casos, ligue gratuitamente para o Disque 100 ou procure o Conselho Tutelar mais próximo.

Terapeutas Infantis apoiam lei contra violência infantil

A terapeuta infantil Daniella Freixo de Faria acredita e apóia a lei que coíbe bater nas crianças. Para ela, ao iniciar a violência contra os filhos pequenos, os pais ensinam muitas coisas. Quando castigada fisicamente, a criança logo entende a agressão como um comportamento válido e normal.

A força bruta passa a ser escolhida, ao invés do diálogo. “A experiência que a criança vive dentro de casa, literalmente mostra o quanto é abrupta, violenta e capaz de interromper qualquer situação. Poderá funcionar para ela quando precisar de forma cabível”, alerta Daniella.

Obviamente, como adultos, os pais são mais fortes, e essa imposição de temor, acompanha a criança por toda sua vida. E aí que mora o perigo. A especialista em terapia infantil analítica, afirma que talvez este pavor apareça futuramente em forma: de medo do chefe, aquela pessoa autoritária no ciclo de amizade, etc. Ao bater em um filho, o pai ou mãe demonstra um total descontrole emocional: “são um exemplo vivo de que na ausência de diálogo essa atitude é aceitável. E mais, os famosos “tapinhas” normalmente acontecem em busca de alguma retomada de controle, ou seja, é uma postura absolutamente paradoxal, oposta ao que se pretende”, diz.

Normalmente o tapa acontece no susto. A criança passa então a não ter noção exata do que está acontecendo com os pais. Por isso, nos momentos em que a violência acontece, os filhos não constroem a noção de causa e conseqüência. Não aprende portanto. As coisas começam a se modificar quando essa criança começa a bater em seus amigos na escola, quando a agressividade começa a aparecer de forma bastante visível e preocupante.

Com a lei que proíbe bater nos filhos gerou repercussão desde o seu início, entre pais e educadores. Mas para a terapeuta Daniella, “os filhos precisam e pedem reconhecimento, direcionamento com amor, exemplo e presença. Com isso, cada criança, cada indivíduo que se apresenta poderá SER quem realmente é. Uma relação de confiança, de respeito, da certeza do amor , da presença começa, passa e termina no absoluto cuidado pelo Ser do outro, que inclui o corpo físico, mental, emocional e espiritual. Lembre-se que cuidar do outro é cuidar de todos, de todos nós” finaliza.

Cineastas da favela criticam Cidade de Deus e Tropa

Os diretores dos cinco episódios do filme 5x Favela, Agora por Nós Mesmos criticaram, em debate durante o festival de cinema de Paulínia, produções que tratam de favelas, como Cidade de Deus e Tropa de Elite.

Comandado por Cacá Diegues, 5x Favela, Agora por Nós Mesmos custou R$ 4 milhões e traz cinco curtas-metragens escritos, dirigidos e interpretados por moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro. Retoma uma ideia original de 1962, em que cinco cineastas de classe média do Rio, entre eles Diegues, mostraram a vida dos moradores de favelas no clássico Cinco Vezes Favela.

Os diretores dos curtas disseram que não se vêem representados nos filmes de Fernando Meirelles e José Padilha. Por isso, produziram episódios em que moradores de comunidades cariocas são apresentados em uma perspectiva positiva.

Cidade de Deus é um filme que o cara de fora [da favela] viu os traficantes e fez um filme sobre isso. Tropa de Elite foi um cara de fora [da favela] que viu a polícia e fez um filme sobre isso. Agora [5x Favela, Agora por Nós Mesmos] é um filme com a nossa visão”, disse Luciano Vidigal, de 32 anos, cineasta morador do morro do Vidigal, diretor do episódio Concerto para Violino, o mais violento, trágico e pretensioso do filme, em que policiais e traficantes se unem para recuperar armas roubadas por bandidos.

Mais jovem dos diretores de 5x Favela, a estudante Manaíra Carneiro, 22 anos, diferencia o longa de Cidade de Deus e de Tropa de Elite. “A temática de 5x Favela não é a favela. É um filme que se passa na favela, mas acima de tudo um filme sobre solidariedade, esperança e ética, sobre pessoas que vivem em situações limite. Cidade de Deus é um filme de época, maniqueísta”, afirmou.

Manaíra é codiretora de Fonte de Renda, o primeiro episódio, sobre um rapaz da favela que se vê forçado a vender drogas para os “playboys” da faculdade de direito em que estuda, para poder comprar livros. O jovem reluta muito em entrar para o crime e sai dele assim que consegue um emprego. E tem um final feliz, não é punido por se envolver com o tráfico, como provavelmente ocorreria se a história tivesse saído da cabeça de alguém de fora da favela.

O final feliz, à exceção de Concerto para Violino, marca todos os episódios. Segundo os diretores, isso foi proposital. Os cinco curtas foram escolhidos entre dezenas de argumentos desenvolvidos pelos jovens das comunidades em oficinas preparatórias para o filme.

“No processo de escolha dos argumentos, foi nítida essa necessidade de fazer um retrato positivo da favela”, contou Cacau Amaral, 37, morador de Duque de Caxias, na periferia do Grande Rio, um dos diretores do programa Espelho, de Lázaro Ramos, no Canal Brasil.

Amaral, assina, em parceria com Rodrigo Felha, o episódio Arroz com Feijão, um dos mais divertidos, apesar da situação trágica. No curta, dois meninos lavam carro e catam cocô de cavalo para conseguir dinheiro e comprar uma galinha para que a mãe de um deles sirva um jantar digno para o pai, no dia do aniversário dele. Em uma das cenas mais “ideológicas” de todo o filme, os dois garotos são roubados por alunos do colégio mais elitista do Rio de Janeiro.

“Essa ideia da positividade foi de todo mundo. Tem desgraça na favela, mas decidimos mostrar a desgraça com humor. Pobre ri pra caramba, não só chora”, disse Manaíra.

5x Favela, Agora por Nós Mesmos estreia nos cinemas de São Paulo e Rio em 27 de agosto. Veja abaivo o trailer do filme:

Ao que é bom, deve ser dada a palavra

Weber: Eu queria saber o que o 20 de novembro representa pra nós pretos.

GOG: A gente tem que tirar uma conclusão bem complexa disso né! Palmares existiu durante 100 anos e 1695 é a data da imortalidade de Zumbi. Acho que trás a ancestralidade da resistência. Então é sempre preciso resistir, ocupar espaços, ocupar mentes com o pensamento de Zumbi que era bem agregativo. Hoje é um dia bastante importante, e mais importante é a reflexão que a gente precisa ter da África, que hoje é aqui também.

Então, que Áfricas temos? O continente africano, os problemas, as doenças…e a gente precisa refletir também sobre a afro consciência hoje…É uma coisa prática. Ser um afro consciente hoje é trabalhar de forma bastante produtiva e incansável com perpectiva de melhores dias pro nosso povo….

Weber: E os movimentos sociais tem que estar nessa? Como você vê os movimentos sociais hoje, qual a importância do movimento negro nessa discussão…?

GOG: Eu acredito que tudo que é sério tem que ser ouvido, tem que ser dada a palavra. Acredito que o movimento hip hop tem que se integrar nos movimentos sociais com a literatura periférica. Você vê o que o hip hop conseguiu nessa entrada de século. Eu não acredito em muito acordo com a grande mídia, em nome de muita conversa, a gente tem que tratar as pessoas bem….o hip hop passou por um momento de expansão, mas que não pode ser feita com cooptação, não pode ser com negociação com o opressor, com o opressor não pode ter negociação…..

Mandela: 92 anos de universalidade

Nelson Mandela completa hoje 92 anos de vida e 67 anos dedicados à liberdade e paz. A história desse homem me emociona sempre, por sua coerência de convicções e energia que emana. Exibe uma ligação tão forte com o sentido de raiz, que provoca uma avalanche de sensações. Ver o lindo semblante iluminado e enrugado com as marcas da maturidade traduz sua trajetória, com muitas linhas incisivas e marcantes deixadas como exemplo nesse Planeta. Apesar do cansaço físico, ainda consegue contagiar o mundo com esperança, honra e o verdadeiro sentido positivo da persistência. É um exemplo de homem público que deve servir de inspiração em ano de Eleições, pois não é calcado em falácias.

Talvez eu esteja me excedendo em adjetivos, mas não consigo ficar inerte à importância desse cidadão. É uma pessoa que nos faz bem. Nossos políticos deveriam se espelhar na autenticidade e coerência desse homem sul-africano, que dedicou sua vida a lutar por uma nação sem apartheid e a um mundo fraterno. Os quase 30 anos que ficou detido devido a um regime de segregação só o fortificaram, e extrapolaram as paredes das celas, contagiando o planeta. Os resultados nas urnas ocorridos em seu país, em 1994, deflagraram essa verdade. Uma verdade de luta, solidariedade, igualdade racial, socioeconômica…da sustentabilidade.

Agora, dia 18 de julho é mais uma data instituída no calendário da Organização das Nações Unidas (ONU). Entretanto, com profundo sentido, que deve ser explicada às nossas crianças e adolescentes. Nesse dia nasceu um homem que faz a diferença nesse mundo tão desigual.

Violências contra a mulher



Escrito por Frei Betto

O hediondo crime que envolve o goleiro Bruno – a mulher, após ser assassinada, teve o corpo destroçado e devorado por cães, segundo denúncia – é a ponta do iceberg de um problema recorrente: a agressão masculina à mulher.

Entre 1997 e 2007, segundo o Mapa da Violência no Brasil/2010, 41.532 mulheres foram assassinadas no país. Um índice de 4,2 vítimas por cada grupo de 100 mil habitantes, bem acima da média internacional. O Espírito Santo apresenta o quadro mais grave: 10,3 assassinatos de mulheres/100 mil.

O Núcleo de Violência da Universidade de São Paulo identifica como assassinos maridos, ex-maridos e namorados inconformados com o fim da relação. Ao forte componente de misoginia (aversão à mulher), acresce-se a prepotência machista de quem se julga dono da parceira e, portanto, senhor absoluto sobre o destino dela.

A Central de Atendimento à Mulher (telefone 180) recebeu, nos primeiros cinco meses deste ano, 95% mais denúncias do que no mesmo período do ano passado. Mais de 50 mil mulheres denunciaram agressões verbais e físicas. A maioria é de mulheres negras, casadas, com idade entre 20 e 45 anos e nível médio de escolaridade. Os agressores são, em maioria, homens com idade entre 20 e 55 anos e nível médio de escolaridade.

Acredita-se que o aumento de denúncias se deve à Lei Maria da Penha, sancionada em 2006 pelo presidente Lula, e que aumenta o rigor da punição aos agressores. Apesar desse avanço, tudo indica que muitos lares brasileiros são verdadeiras casas dos horrores. A mulher é humilhada, destratada, surrada, por vezes vive em regime de encarceramento virtual e de semi-escravidão no trabalho doméstico. Sem contar os casos de pedofilia e agressão sexual de crianças e adolescentes por parte do próprio pai.

A violência contra a mulher decorre de vários fatores, a começar pela omissão das próprias vítimas que, dependentes emocional e financeiramente do agressor, ou em nome da preservação do núcleo familiar, ficam caladas ou dominadas pelo pavor frente aos efeitos de uma denúncia. Soma-se a isso a impunidade. Eliza Zamudio, ex-namorada do goleiro Bruno, teria recorrido à Delegacia de Defesa da Mulher, sem que sua queixa tivesse sido levada a sério. Raramente o poder público assegura proteção à vítima e é ágil na punição ao agressor.

A violência contra a mulher não ocorre apenas nas relações interpessoais. Ela é generalizada pela cultura mercantilizada em que vivemos. Basta observar a multiplicidade de anúncios televisivos que fazem da mulher isca pornográfica de consumo.

Pare diante de uma banca de revistas e confira a diversidade do “açougue” fotográfico! Preste atenção nos papéis femininos em programas humorísticos. Ora, se a mulher é reduzida às suas nádegas e atributos físicos, tratada como “gata” ou “avião”, exposta como mero objeto de uso masculino, como esperar que seja respeitada?

Nossas escolas, de uns anos para cá, introduziram no currículo aulas que abordam o tema da sexualidade. Em geral se restringem a noções de higiene corporal para se evitarem doenças sexualmente transmissíveis. Não tratam do afeto, do amor, da alteridade entre parceiros, da família como projeto de vida, da irredutível dignidade do outro, incluídos os/as homossexuais.

Nas famílias, ainda há pais que conservam o tabu de não falar de sexo e afeto com os filhos ou julgam melhor o extremo oposto, o “liberou geral”, a total falta de limites, o que favorece a erotização precoce de crianças e a promiscuidade de adolescentes, agravada pelos casos de gravidez inesperada e indesejada.

Onde andam os movimentos de mulheres? Onde a indignação frente às várias formas de violência contra elas?

Os clubes esportivos deveriam impor a seus atletas, como fazem empresas e denominações religiosas, um código de ética. Talvez assim a fama repentina e o dinheiro excessivo não virassem a cabeça de ídolos de pés de barro…

Frei Betto é escritor, autor de “Diário de Fernando – nos cárceres da ditadura militar brasileira” (Rocco), entre outros livros. www.freibetto.org – twitter:@freibetto

Mais do que atitude, Casa do Hip-Hop e escola de samba ensinam cidadania

MAYRA MALDJIAN
DE SÃO PAULO

João Brito/Folhapress
João Pedro, 14, frequentas as oficinas de DJ por hobby
João Pedro, 14, frequentas as oficinas de DJ por hobby

Quando o hip-hop nasceu, nos guetos norte-americanos da década de 70, deram a ele o sobrenome “atitude”.

Cabelo black power, calça larga, tênis Nike, gíria na ponta da língua, pose de mano. O estilo natural de quem vivia essa cultura começou a ser copiado por quem se identificava com ela.

“É natural um jovem assistir a um videoclipe e querer se vestir como o artista. É uma forma de fazer parte daquela tribo”, explica Nelson Triunfo, chefe de cultura da Casa do Hip-Hop de Diadema (SP) e um dos fundadores do movimento no Brasil.

Mas nada disso basta se a sua contribuição ao movimento for apenas visual.

“Acho “style” quem se veste assim, mas hip-hop é mais que isso”, explica João Pedro, 14, aluno da oficina de DJ do centro cultural.

Fã de Racionais MCs, aprendeu a gostar de rap com os primos. “Mas eu também ouço Black Eyed Peas, David Guetta e Shakira”, enumera, sem titubear.

“A ideia é abrir a mente do jovem. Ele pode curtir a Beyoncé, o Luiz Gonzaga… O importante é navegar pela diversidade cultural e não deixar que os outros carimbem você”, explica Nelson.

Por isso, o quinto e mais prezado elemento do hip-hop é o conhecimento. Sem ele, dizem, a arte da discotecagem, da dança, da rima e do grafite se tornam vazias.

Há 11 anos, a Casa do Hip-Hop oferece oficinas gratuitas e ainda mantém um centro de estudos sobre essa cultura.

CASA DO HIP-HOP
Centro Cultural Canhema (r. 24 de Maio, 38, Diadema, SP)
Tel.: 0/xx/11/4075-3792
No dia 31 de julho, a Casa do Hip-Hop celebra 11 anos com uma festa em sua sede, com shows de Rappin´ Hood, Emicida e Doctor MCs, DJ Dandan nos toca-discos, Fernandinho Beat Box, batalha de MCs, batalha de break, palestra com King Nino Brown e Cassia Preta. A apresentação será do MC Cérebro. De graça, das 10h às 22h.

João Brito/Folhapress
Jorge Raiol, 20, toca surdo na bateria principal da escola de  samba
Jorge Raiol, 20, toca surdo na bateria principal da escola

Jorge Raiol, 20, começou a tocar tamborim na Camisa Verde e Branco em 2002. Treinou, treinou, mas só foi para a avenida em 2004.
Hoje, toca surdo, instrumento que até então era restrito aos mais experientes da escola de samba paulistana.

Consciente de que teria de ralar muito, não se intimidou. Driblou seus limites técnicos e até ajudou a montar a bateria mirim da escola. “Quem tem atitudes como essa é visto com outros olhos pela velha guarda.”

Interagir com os membros mais antigos é imprescindível para quem quer entrar para a “família”. “Eu chegava na quadra e pedia a bênção. É uma forma de mostrar respeito”, explica.

Quem está ali só de passagem no Carnaval também precisa se envolver. “Tem gente na bateria que gosta de rock, outros de Lady Gaga, mas, na hora do batuque, a atitude é a do samba.”

“A escola é um espaço de sociabilidade, mas que preserva uma cultura de cem anos de idade”, explica Tadeu Augusto Matheus, vice-presidente do Camisa.

Fundada em 1914, como Grupo Carnavalesco da Barra Funda, a instituição tem hoje um departamento jovem que cuida do resgate de seu legado cultural e de atividades como as oficinas gratuitas.

Além disso, a Camisa Verde e Branco tem convênio com universidades que oferecem bolsas de 25% a 75% aos filiados mais ativos. “Nosso papel não é apenas fazer carnaval, mas formar cidadãos”, afirma Tadeu.

ESCOLA DE SAMBA CAMISA VERDE E BRANCO
Quadra (r. James Holand, 663, São Paulo)
Tel.: 0/xx/113392-1621
No dia 29 de agosto, a escola promove a terceira feijoada do departamento social, com roda de samba e Tarde das Musas. A partir do meio-dia, por R4 20.

Arte
arte folhateen

50 Cent faz show embolado em Belo Horizonte

Thiago Ventura / Portal Uai / DA Press

Pout-pourri. Comum principalmente na música popular, e também conhecido por medley, este termo é usado quando um artista emenda apenas trechos de músicas em uma única sequência. O termo também pode ser usado para resumir a apresentação do rapper 50 Cent em Belo Horizonte, no dia 16 de julho, que foi rápida, confusa e embolada.

Eram 22h50 quando 50 Cent subiu ao palco, acompanhado de dois backing vocals e um DJ. Enquanto as pessoas da pista normal se espremiam na grade para tentar ver mais de perto o cantor, um imenso espaço na pista vip deixava claro que é necessário repensar a divisão deste tipo de evento.

Mesmo com a separação, o público no Mineirinho estava diversificado e representou o encontro do pessoal do hip-hop da quadra do Vilarinho, de roupas largas, espalhafatosas e bonés de aba reta com as patricinhas de salto alto que se balançam ao som de rappers americanos na boate NaSala, o que mostra que o rap já foi assimilado pela indústria cultural e não está mais preso à um nicho.

O rapper não é exatamente um exemplo de carisma e conversou pouco com a plateia. Ao invés de falar, ele preferia jogar peças de roupa como bonés, jaquetas e toalhas, que eram disputadas à tapa na pista. Os objetos arremessados eram retribuidos com outros bonés, camisas e bandeiras do Brasil. Sua maior interação foi quando uma fã na primeira fila tirou o sutiã para jogar no palco. O rapper viu, parou o show e agachou até ela, para ter certeza de que pegaria o precioso troféu, que prendeu na calça e não largou mais.

Apesar disto, era vísivel a alegria de 50 Cent, que sorria o tempo inteiro e apontava para os fãs que se apertavam na frente do palco. O rapper mostrou que tem seus fãs na palma da mão, com cada movimento de seu braço imediatamente acompanhado pela plateia e cada deixa para o público cantar, respondida.

Porém, a falta de conversa com o público prejudicou também o entendimento do show. 50 Cent emendava uma música na outra, sem pausas. Sucessos como Pimp, Candy shop e In da club ficaram perdidos em meio à sequência e muitas vezes não se percebia que uma nova música havia começado. O público não se importava e cantou em uníssono, quando reconheceu, os hits do rapper.

Além do pout-pourri escolhido para apresentar as músicas, colaborou para criar uma massa sonora a notória e péssima acústica do Mineirinho. A impressão era de estar em uma obra. Não o inferninho, mas uma construção mesmo, com um barulho incompreensível e ensurdecedor e com o cantor se esforçando para ser ouvido em meio a isto tudo.

As pessoas pareciam ignorar a lei antifumo estadual, que proíbe o uso de cigarros em locais fechados de uso coletivo e fumavam livremente. Perguntado sobre a situação, um segurança disse que não havia nenhuma ordem específica sobre o assunto e, num rompante de sinceridade, especulou que “se bobear, tão fumando é coisa até pior”.

Como uma deixa, no palco 50 Cent sai para trocar o figurino e deixa o comando com os cantores que o acompanham, que perguntam para a plateia quem fuma maconha, e emendam um trecho de uma música do Bob Marley com outra, cuja criativa letra dizia apenas “smoke weed” (fume maconha, em tradução livre).

Exatamente 1h10 e 33 músicas depois, 50 Cent agradeçe e sai do palco. A plateia fica esperando pelo bis, que não acontece. Fim de papo no Mineirinho de um show, que apesar de confuso e curto, deixou muita gente satisfeita na plateia apenas pela oportunidade de ver de perto o cantor e mesmo com todos os problemas, fica a expectativa de um retorno, para um apresentação mais coesa e em um lugar com o som melhor.

Dependência econômica impede que vítimas deixem parceiros violentos, diz estudo

Daniela Fernandes

De Paris para a BBC Brasil

Mulheres sofrem com falta de opção de moradia.

Mulheres sofrem com falta de opção de moradia.

Centenas de milhares de vítimas de violência doméstica na América Latina permanecem nos lugares onde sofrem maus tratos porque não têm opção de moradia, revela um estudo de uma ONG com sede em Genebra, na Suíça, divulgado nesta sexta-feira.

O relatório do Centro pelo Direito à Moradia contra Despejos (Cohre), intitulado “Um Lugar no Mundo”, analisa a questão da violência contra a mulher no Brasil, na Argentina e na Colômbia.

Nesses países, diz o estudo, “a falta de acesso a uma moradia adequada, incluindo refúgios para mulheres que sofrem maus tratos, impede que as vítimas possam escapar de seus agressores”.

“A dependência econômica aparece como a primeira causa mencionada pelas mulheres dos três países como o principal obstáculo para romper uma relação violenta”, diz o estudo.

A organização de direitos humanos entrevistou dezenas de mulheres que já foram vítimas – ou continuam sendo – de violência doméstica em cada um desses três países analisados.

“A partir dessas entrevistas, surge claramente que o importante para essas mulheres é saber para onde poderão ir quando decidem romper o círculo da violência doméstica.”

Segundo a Cohre, “a falta de solução para o problema da moradia pode ser determinante para que elas decidam continuar ou não uma relação violenta”.

Muitas das mulheres vítimas afirmaram à ONG ter a alternativa de se mudar para a casa de um amigo ou parente logo após sofrerem uma agressão.

“Mas, com o passar do tempo, e se sentido incapazes de assegurar uma solução permanente ou mesmo de transição para o problema de moradia, essas mulheres, frenquentemente, não têm outra saída a não ser voltar a viver com seu agressor”, diz o estudo.

O estudo afirma que, apesar de a maioria dos países da América Latina ter altíssimas taxas de violência doméstica, entre 30% e 60% das mulheres da região, dependendo do país, as políticas públicas “quase nunca” levam em conta a questão do direito à moradia das mulheres.

A ONG afirma que esse problema afeta sobretudo as mulheres pobres que vivem em comunidades carentes.

Muitas mulheres, principalmente as das classes desfavorecidas, realizam trabalhos em setores informais da economia ou se dedicam às atividades do lar (podendo fazer ambos) e ficam sujeitas à renda do companheiro.

No caso das mulheres entrevistadas pela Cohre, boa parte cuida apenas das tarefas do lar: 27% no Brasil e quase 25% na Argentina e na Colômbia. Muitas relataram que não trabalham a pedido dos maridos.

Elas também afirmaram viver mais episódios de violência em épocas de crises econômicas ou de aperto no orçamento, quando são tratadas como “inúteis, gastadoras e más administradoras do dinheiro”.

No Brasil, os números da violência doméstica compilados por organizações internacionais não são recentes.

Uma mulher em cada quatro já foi vítima de agressões por seu marido ou companheiro, segundo o informe nacional brasileiro ao Comitê para a Eliminação para a Discriminação contra as Mulheres (CEDAW, na sigla em inglês), que corresponde ao período de 2001 a 2005.

Depois da Copa

Escrito por D. Demétrio Valentini

Terminou a Copa do Mundo. Os campeões têm direito a festejar, pela proeza de terem chegado vitoriosos ao final.
Mas todos podemos ter motivos de alegria, pelos valores positivos que apresentou esta Copa do Mundo, a primeira a se realizar no continente africano. O mundo tem uma grande dívida com a África.
É muito provável que ela tenha sido o berço da humanidade. Já isto seria motivo de olhar com respeito para a África. Mas nos séculos recentes, a África foi terrivelmente explorada, sobretudo pelas nações européias, que dividiram entre si os territórios africanos, para subjugá-los como colônias, postas a serviço dos interesses dos países dominadores.
Ainda hoje a África paga o pesado preço de ter sido espoliada pela Europa. As próprias fronteiras entre os atuais países africanos, impostas pelo processo colonizador, muitas vezes não correspondem às divisas entre povos e culturas diferentes. Este fato estimulou muitos atritos, que às vezes degeneraram em guerras fratricidas. Tudo porque forçaram populações homogêneas a se separarem, obrigando-as a conviveram com outras de culturas diferentes.
E assim daria para lembrar tantas injustiças cometidas contra a África, da qual se procurou explorar a força humana pela imposição da escravidão, e roubar suas riquezas, deixando para trás rastros de pobreza e de miséria.
Neste sentido, valeu a realização da Copa do Mundo na África do Sul, palco de descriminação racial por longo tempo, cujas conseqüências ainda permanecem em grande parte.
Se houvesse um vencedor a ser designado pelos objetivos de reparação de injustiças e de reconhecimento da dignidade dos contendores, este vencedor seria, sem dúvida, o povo africano.
Independente do campeão, quem merece nossa admiração e nosso apoio é o povo sofrido da África, que tem todo o direito de definir sua vida e traçar o seu futuro.

Levantemos a taça, como brinde para o povo africano!

D. Demetrio Valentini é bispo da diocese de Jales.

Website: http://www.diocesedejales.org.br/

Copa: futebol, racismo e política

Vai chegando ao final a primeira Copa do Mundo de Futebol realizada na África. Talvez a frustração da torcida brasileira, combinada com uma destrambelhada cobertura midiática, – que exortou sentimentos racistas contra paraguaios e de hostilidade gratuita contra argentinos – não tenha permitido compreender que o simples fato da Copa ter sido na África do Sul é uma grande vitória contra o racismo internacional e contra as grandes potências capitalistas que tentaram boicotar ou desmoralizar os africanos. Mas, sobretudo, é a vitória de um país e de um povo que sequer participou da Copa. Cuba, que ao derrotar o exército racista sul-africano em Cuito Cuanavale, Angola, para onde enviou 400 mil soldados, deu o passo fundamental para a libertação da África do Sul. “A Batalha de Cuito Cuanavale foi o começo do fim do apartheid. E isto devemos a Cuba”, disse Mandela, após ser liberado de 27 anos de prisão. A torcida mundial deveria ser amplamente informada destas verdades.

Quando Lúcio, o aplicado capitão da seleção canarinho, leu mensagem condenando o racismo antes daquela fatídica partida contra a Holanda, talvez não pudesse medir o grande alcance de seu gesto, que nos obriga a recuperar um fase da história recente. Condenar ali mesmo o racismo era imperioso pois era respeitar aquele povo e também alertar para as novas expressões racistas que estão se projetando em outros países, inclusive países que estavam ali disputando o certame.

Sob o apartheid não haveria Copa na África do Sul

O certo é que a Copa do Mundo só estava se realizando ali em território sul-africano porque milhares de seres humanos deram suas vidas contra o animalesco regime do apartheid, que com o apoio de países como Estados Unidos e Inglaterra, principalmente, massacrou de maneira cruel a pátria de Mandela. A África do Sul racista, imperialista, ditatorial, que foi recebendo sanções internacionais quanto mais crescia a resistência popular em seu interior e mundo a fora, levando-a a receber algumas sanções internacionais, jamais poderia ser a sede de uma Copa do Mundo se estivesse sob o apartheid.

Queremos, portanto, estender a oração do capitão Lúcio para fazer justiça a um povo que não estava disputando a Copa, mas que foi fundamental para que a Copa ali se realizasse para alegria e orgulho da nova África do Sul. A declaração de Lúcio tem raízes na história da solidariedade revolucionária que Cuba ofereceu á África, a começar pelo envio de médicos para a apoiar a Revolução na Argélia, onde esteve trabalhando o próprio Che Guevara.

Enquanto Mandela ainda estava preso, Cuba já estava apoiando os vários processos de libertação em território africano. Libertação que veio a receber um grande impulso a partir da Revolução dos Cravos, em Portugal, liderada por jovens capitães, muitos deles egressos das então colônias portuguesas em território africano, onde aprenderam muitas lições de dignidade por parte daqueles povos a quem deveriam esmagar. Houve capitães que mais tarde relataram que em território angolano se convenceram que a razão da história estava com os guerrilheiros angolanos. Por isso mesmo, chegavam a organizar certas incursões pelas selvas, onde deixavam deliberadamente suas armas para serem recolhidas pelos soldados do Movimento Popular para a Libertação de Angola, simulando que haviam sido desarmados, quando estavam a dizer, com aquele gesto, que apoiavam a causa da libertação africana.

Estes gestos dos militares portugueses floresceram em Cravos Vermelhos pelas ruas de Lisboa, após soarem os primeiros acordes da canção “Grândola, Vila Morena”. A razão histórica venceu! Não sei se o capitão Lúcio, na sua juventude de uma vida dedicada ao futebol, teve oportunidade de informar-se sobre isto antes de ler aquela importante declaração contra o racismo, num gesto de grandeza da nossa seleção.

Cuito Cuanavale: começo do fim do apartheid

Quando Cuba atendeu ao chamado do presidente angolano, o médico, poeta e guerrilheiro Agostinho Neto, para que enviasse ajuda militar para assegurar a libertação de Angola, conquistada em 11 de novembro de 1975, com pronto reconhecimento de Brasil e óbvia contrariedade dos EUA, abria-se uma nova página na história da África, mas também da solidariedade internacional.

A hipocrisia e a malignidade intrínseca da mídia comercial não deu a conhecer aos milhões de torcedores do mundo inteiro de olhos magnetizados no televisor uma linha sequer desta luta heróica para derrotar o apartheid e permitir, afinal, não apenas a libertação de Angola e da Namília, mas também de Nelson Mandela e a erradicação total do regime racista, derrotado no campo militar em Cuito Cuanavale e, mais tarde, novamente derrotado pelos votos que elegeram Mandela seu primeiro presidente da república, o primeiro com legitimidade!

Não tínhamos nenhuma dúvida da bravura e da grandeza do gesto do povo cubano ao fazer a travessia do Atlântico no sentido contrário àquela rota feita pelos navios negreiros que vieram para o Brasil e também para o Caribe, nos unindo para sempre na dor, no sangue, na música, na cultura e também no compromisso de saldar esta imensa dívida que toda a humanidade tem para com os povos africanos. Porém, Cuba decidiu pagar antes de todos e para lá enviou 400 mil homens e mulheres, negros e brancos, inclusive a brancura da filha de Che Guevara, que também já havia lutado em Cabinda, enclave angolano próximo ao Congo. O médico brasileiro Davi Lerer estava exilado em Angola naquele período, ensandecido de solidariedade e de compromisso com a libertação angolana. Foi quando começou a perceber que alguns dos feridos de guerra por ele tratados, falavam espanhol. Era fruto da Rota do Atlântico feita no sentido contrário, no sentido da libertação. Todos devemos à Mama África. Mas, só Cuba teve a audácia de pagar esta dívida com armas nas mãos!

Armas nucleares contra Cuba

A nobreza do gesto provocou o instinto assassino das chamadas democracias imperialistas. Acaba de ser divulgado que Israel ofereceu armas nucleares à África do Sul para serem lançadas sobre as tropas cubanas no sul de Angola. Com o apoio dos aviões Migs de fabricação soviética, as tropas do exército racista da África do Sul foram enxotadas de território angolano, postas para correr também do território da Namíbia, cujas forças revolucionárias também formavam aquele formidável exército de libertação. Chegou-se a discutir nas forças de libertação a ida até Pretória!. Por isto os imperialistas cogitaram o uso de armas nucleares contra o exército cubano, pois o seu exemplo de internacionalismo proletário era por demais poderoso à humanidade! Tudo isto resultou no agravamento da crise do regime de Botha, na libertação de Mandela, no fim do apartheid, nas eleições diretas, e, por fim, na conquista da realização da Copa do Mundo, pela primeira vez, em território africano!. Vitória da humanidade, após tantas vitórias que abrilhantam a linda história de justiça da humanidade, unindo a Revolução Cubana à Revolução dos Cravos de Portugal! As armas nucleares na foram utilizadas daquela vez. Não se atreveram! Não se sabe se as utilizarão agora contra o Irã.

Racismo nos países imperialistas

A condenação ao racismo lida pelo nosso capitão, é atualíssima. Tem endereço. Depois da desclassificação das seleções dos EUA e da França, vimos pipocar novamente manifestações de racismo contra negros, imigrantes, árabes, hispânicos, sobretudo nestes dois países. Há os que considerem a França uma democracia exemplar, mas não querem prestar atenção nas declarações de Zidane, o craque da seleção francesa de origem argelina. Contrariando a tese dos acadêmicos pouco atentos, ele questiona a democracia francesa: “Eu posso ser campeão do mundo com a camisa da França, orgulho nacional, mas não posso eleger o presidente?” Agora o deselegante técnico da seleção francesa atira a culpa pelo fracasso aos jogadores de origem africana, à cultura dos bairros de periferia das grandes cidades francesas. Nenhum questionamento ao sistema político francês que é tão duramente combatido pelos jovens das periferias pobres na França, sem perspectiva de estudo ou de emprego!

Nos EUA não foi muito diferente. Buscam-se justificativas para a desclassificação, mas, as vozes racistas voltam a falar alto, sobretudo contra hispânicos, asiáticos e afro-descendentes. A gigantesca contradição política vivida pelos Eua só tende a se agravar, certamente de forma dramática, já que o presidente Obama tem sido pressionado pelo complexo militar-industrial a reforçar sua presença armada mundo afora. Já mandou mais 30 mil soldados para o Afeganistão, continua a ordenar bombardeios de povoados matando crianças e destruindo alvos civis naquele país empobrecido. Esqueceu-se das torturas de Guantânamo? Manda uma frota nuclear para as proximidades da costa do Irã. Multiplica o orçamento do Pentágono. O prêmio Nobel da Paz vai se revelando o Prêmio Nobel da Guerra e continua colecionando cadáveres e mais cadáveres!

Na linha inversa, o Brasil aprova o seu Estatuto da Igualdade Racial e cria a Universidade Lusoafricana Brasileira (Unilab), na cidade cearense de Redenção, a primeira em extinguir o escravagismo no Brasil. Lá teremos professores e studantes africanos, estudando gratuitamente. É a forma brasileira de também começar a apagar a enorme dívida que temos para com os povos africanos, como assinalou Lula. É verdade que estes dois gestos concretos nos chegam com 112 anos de atraso. Há muito ainda para caminhar, mas a linha é a de continuar a abrir espaços para que os negros sigam aumentando sua presença qualificada nas universidades, para que os Territórios dos Quilombos sejam definitivamente escriturados em nome dos remanescentes dos escravos, que as políticas públicas de habitação contemplem as necessidades da população negra, ainda alvo de desumana discriminação no mercado de trabalho, recebendo ainda os piores salários, ocupando as piores funções, e, ainda por cima, confinada à invisibilidade nos meios de comunicação, salvo as honrosas exceções da comunicação das tvs públicas e comunitárias, que registram alguma justiça racial televisiva.

Rivalidades exageradas são contra a cooperação

O mau exemplo vem exatamente das tvs comerciais. Ofendem gratuitamente ao povo paraguaio ou insuflam uma exagerada hostilidade contra argentinos, certamente, fazendo um tipo de jornalismo de desintegração, exatamente quando nós latino-americanos estamos a organizar e por em prática, por meio de vários governos, políticas públicas de integração econômica, energética, comercial, cultural educacional. Seguindo as orientações dos que querem impedir que sejamos solidários e cooperativos entre nós – por acaso, as mesmas nações imperiais que antes apoiaram o apartheid e recentemente tentaram boicotar a realização da Copa na África – cria-se um clima para uma rivalidade exacerbada, agressiva, verdadeira hostilidade, por exemplo contra argentinos e paraguaios.

Basta recordar o comportamento do capitão da seleção uruguaia, Obdúlio Varela, que ,em 1950, fez o Brasil todo chorar quando derrotarem a equipe canarinha em pleno Maracanã. Varela sentiu tanta segurança e confiança no caráter amistoso do povo brasileiro que foi comemorar a vitória uruguaia com brasileiros na noite carioca, sendo tratado com fraternidade e nobreza olímpicas pelos nosso povo. Diante de comportamento tão elevado dos brasileiros, certos narradorestelevisivos de hoje, apesar de frequência em certames internacionais, revelam-se verdadeiramente torpes e ineptos para alcançarem um padrão de jornalismo desportivo minimamente olímpico, tal como a Grécia Antiga – não a atual induzida á falência pela oligarquia financeira – legou à humanidade. Querem animalizar, embrutecer, despertar baixos instintos, estando portanto, em choque frontal com os princípios e valores que a Constituição pauta para os meios de comunicação, exigindo que sejam educativos, respeitosos aos mais nobres valores humanos e destinados à elevação cultural da sociedade.

As nações imperiais sabem perfeitamente da utilidade destas rivalidades fomentadas, muitas vezes artificialmente. Sobretudo contra povos que possuem grande potencial de cooperação entre si, como é o caso de Brasil e Argentina, cuja integração das bases produtivas poderia acelerar e encurtar sobremaneira os prazos históricos para a integração da América Latina. Por isto fazem o jornalismo da desintegração. Pela mesma razão, são incapazes, como meios de comunicação, de informar sobre o papel que Cuba desempenhou na história recente de libertação da África.

Jornalismo de integração

As nossas tvs públicas precisam fazer o contraponto. A diversificação e a pluralidade informativas, neste episódio, seriam extremamente válidas. Sobretudo se permitisse ao povo brasileiro conhecer quanta história existe por detrás da declaração contra o racismo que o capitão Lúcio fez naquele estádio repleto de sul-africanos libertos do regime do apartheid. E também conhecer quanta manipulação se faz do esporte, em nome de causas mesquinhas e anti-civilizatórias, como as que pretendem reviver o racismo e o impedimento ideológico da cooperação e da solidariedade entre os povos que tem um destino comum. O da unidade, da cooperação e da solidariedade.

(*) Beto Almeida é diretor de Telesur
Autor: Beto Almeida.
Fonte: Carta Maior

O Desarmamento e a Segurança dos Bandidos

(Archimedes Marques)

Vivemos em um país em que muitas vezes os valores se invertem e, nessa espécie de guerra urbana e social contra a violência diária, contra a marginalidade que cresce assustadoramente, contra a criminalidade que aumenta gradativamente a todo tempo em todo lugar, comprova-se que o Estado protetor mostra-se ineficiente para debelar tão afligente problemática e por isso teima em produzir programas emergentes que surgem e insurgem sem atingir os seus reais objetivos. Um deles, pelo menos até agora, ao invés de proteger a sociedade deu maior segurança aos bandidos, ou seja, inverteu os seus valores.
O projeto desarmamento estudado e executado pelo Governo Federal desde 2003, contra a vontade popular, demonstra ser no âmago do seu curso uma ação derrotada e inócua que age infrutuosamente na tentativa de reduzir a criminalidade no país e deixa cada vez mais a população órfã de proteção.
Enquanto a população brasileira foi literalmente desarmada por conta do Estatuto do Desarmamento, a bandidagem está cada vez mais armada. Enquanto foi tolhido o direito do cidadão de se defender do bandido com a proibição de sequer possuir uma arma de fogo em sua própria casa sem passar por extrema burocracia, o bandido por sua vez, facilmente consegue armas até mesmo com alto poder de fogo, para se defender da Polícia, atacar o povo e ferir a ordem do país.
É fato presente que o chamado crime organizado, pernicioso organismo que alimenta o tráfico de drogas, criminosos perigosos e contumazes, quadrilhas de assaltantes, consegue transitar e abastecer a marginalidade com armamento privativo das forças armadas, tais como: Metralhadoras, fuzis, bazucas, morteiros, granadas, ou mesmo outras mais usadas a exemplo das escopetas, pistolas e revolveres. Essas armas provindas de diversas nacionalidades ingressam pelas nossas gigantescas e mal guarnecidas fronteiras e chegam às mãos dos bandidos de maneira inexplicável.
Retirar as armas de fogo das pessoas de bem foi muito fácil, pois essas pessoas, não sendo marginais, logo cumpriram a Lei e depuseram suas armas com a esperança de que a violência fosse realmente estancada, contudo ainda não foi, muito pelo contrário, aumentou substancialmente, pois o desafio da Polícia em desarmar os bandidos parece ser intransponível. Quanto mais se prendem os marginais armados mais armas aparecem em poder de outros e até dos mesmos quando são postos em liberdade pela Justiça.
Os fatos violentos e corriqueiros ocorridos nos quatro cantos do país demonstram que os discursos e as noticias desarmamentistas para justificar o suposto sucesso do plano e iludir o povo parecem ser apenas meras cortinas de fumaça, tendo na linha de frente a diminuição dos homicídios eventuais por desavença ou domésticos, perpetrados nas comunidades por meio de arma de fogo a querer encobrir o recrudescimento da criminalidade dos outros tipos penais. Vale lembrar também que apesar de ter diminuído os índices de homicídios cometidos via arma de fogo nos casos citados, aumentou substancialmente os índices do mesmo crime perpetrados por arma branca ou outros meios, comprovando então, que o cidadão quando quer, mata o seu desafeto de qualquer jeito.
Assim, o povo vive acuado, desarmado e preso por grades, cercas elétricas, alarmes, nas suas próprias residências e, os diversos criminosos andam soltos nas ruas a caça das suas vítimas, aumentando de forma geométrica o número de latrocínios, roubos e sequestros em todos os lugares.
A Polícia por mais diligente que seja, em virtude da falta de contingente adequado, de uma maior estrutura, de uma melhor organização, de um verdadeiro incentivo com salários condizentes aos seus membros, não consegue romper tais obstáculos e sempre é considerada culpada erroneamente por inoperância pela nossa sociedade como se fosse a única responsável por tal situação.
Atacam-se carros blindados com armamento potente, derrubam-se helicóptero com tiros de fuzis ou metralhadoras antiaéreas, inúmeros assaltos se valem de armas de guerra no país inteiro, policiais são frequentemente mortos no labor das suas funções por criminosos possuidores de armas poderosas adquiridas no câmbio negro do crime organizado.
O cidadão nas ruas literalmente virou um alvo em determinados locais. Um alvo que tem que ser um maratonista, velocista, contorcionista, trapezista e até mágico para se esquivar das balas perdidas. Um alvo que tem que optar por dar apoio aos traficantes de drogas sob pena de morte. Um alvo no seu veículo ultrapassando os sinais de transito e recebendo multas para não ser seqüestrado ou assaltado e morto. Um alvo desarmado sem direito a defesa própria contra o marginal sempre bem armado. Um alvo que tem que contratar segurança particular para sobreviver. Um alvo que ainda tem que agradecer ao criminoso por apenas lhe levar seus bens materiais. Um alvo esperando sempre que apareça algum policial para lhe salvar.
O desarmamento veio para o seio da sociedade brasileira como uma ação insidiosa de tirar-lhe o direito de defesa própria e da sua família ao mesmo tempo em que deu total segurança ao bandido de fazer o que quiser com a sua vulnerável vítima.
O estatuto de Desarmamento não deu e não dará certo enquanto não tivermos uma séria e efetiva política de combate ao crime organizado, enquanto não colocarmos atrás das grades os grandes traficantes de armas e drogas, enquanto não prendermos as pessoas inescrupulosas que dão suporte e proteção aos traficantes e enriquecem sob o julgo desse crime, enquanto não consigamos enfim proteger as nossas fronteiras desses criminosos fazendo com que não mais entre armas no nosso país.
Enquanto isso não acontece, para concluir o texto, faço minha as sábias palavras do Ministro aposentado do Superior Tribunal Militar, FLÁVIO BIERREMBACH, hoje advogado e escritor:
“Desarmar as vítimas é dar segurança aos facínoras”…
“O cidadão de bem tem o direito de possuir uma arma para se defender dos criminosos”…
“Os bandidos já se sentem muito mais seguros para atacar os pobres, os trabalhadores e os homens de bem, porque sabem que provavelmente irão enfrentar pessoas desarmadas”…
“Uma sociedade em que apenas a polícia e os facínoras podem estar armados não é e nem será uma sociedade democrática”…

Autor: Archimedes Marques (delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela Universidade Federal de Sergipe) archimedes-marques@bol.com.br

O Bullying começa em casa

No livro “Bullying – mentes perigosas nas escolas” (Rio de Janeiro: Editora Fontanar, 2010), a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva analisa o perfil dos bullies, ou seja, dos agressores que cometem Bullying. Na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, à IHU On-Line, ela revê o início dos estudos acerca desse problema crescente no mundo todo e lembra que o marco se deu em 1982, quando “o norte da Noruega foi palco de um acontecimento dramático, onde três crianças com idade entre 10 e 14 anos se suicidaram por terem sofrido maus-tratos pelos seus colegas de escola”.

A médica explica que não é apenas no ambiente escolar que o agressor pode ser reconhecido. “No ambiente doméstico, mantém atitudes desafiadoras e agressivas com relação aos familiares. São arrogantes no agir, falar e se vestir, demonstrando superioridade. Manipulam pessoas para se safar das confusões em que se envolveram”, indica.

Ana Beatriz Barbosa Silva é médica com pós-graduação em Psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e com especialização em Medicina do Comportamento pela Universidade de Chicago (EUA). É professora nas Faculdades Metropolitanas Unidas (UniFMU) e membro da Academia de Ciências de Nova York.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quando se começou a estudar o Bullying?

Ana Beatriz Barbosa Silva – O Bullying escolar ocorre desde que existe a instituição de ensino. Porém, a partir das décadas de 1970 e 1980, passou a ser objeto de estudos científicos nos países escandinavos, em função da violência existente entre estudantes e suas consequências no âmbito escolar. No final de 1982, o norte da Noruega foi palco de um acontecimento dramático, onde três crianças com idade entre 10 e 14 anos se suicidaram por terem sofrido maus-tratos pelos seus colegas de escola. Nesta época, Dan Olweus [1], pesquisador norueguês, iniciou um grande estudo, envolvendo alunos de vários níveis escolares, pais e professores.

IHU On-Line – Se o Bullying é algo que acontece há muito tempo, por que só agora tomou as dimensões que tem hoje?

Ana Beatriz Barbosa Silva – O individualismo, cultura dos tempos modernos, propiciou essa prática, onde o ter é muito mais valorizado que o ser, com distorções absurdas de valores éticos. Vivemos em tempos velozes, com grandes mudanças em todas as esferas sociais. Nesse contexto, a educação tanto no lar quanto na escola se tornou rapidamente ultrapassada, confusa, sem parâmetros ou limites. Os pais passaram a ser permissivos em excesso, e os filhos cada vez mais exigentes, egocêntricos.

As crianças tendem a se comportar em sociedade de acordo com os modelos domésticos. Muitos deles não se preocupam com as regras sociais, não refletem sobre a necessidade delas no convívio coletivo e sequer se preocupam com as consequências dos seus atos transgressores. A instituição escolar é corresponsável nos casos de Bullying, pois é nela que os comportamentos agressivos e transgressores se evidenciam ou se agravam na maioria das vezes.
É ali que os alunos deveriam aprender a conviver em grupo, respeitar as diferenças, entender o verdadeiro sentido da tolerância em seus relacionamentos interpessoais, que os norteiam para uma vida ética e responsável. Infelizmente, a instituição escolar é o cenário principal dessa tragédia endêmica que, por omissão ou conivência, facilita a sua disseminação.

IHU On-Line – Qual é o perfil das “mentes perigosas” que existem nas escolas?

Ana Beatriz Barbosa Silva – Na escola, os agressores (ou bullies) fazem brincadeiras de mau gosto, gozações, colocam apelidos pejorativos, difamam, ameaçam, constrangem e menosprezam alguns alunos. Perturbam e intimidam, por meio de violência física ou psicológica. Furtam ou roubam dinheiro, lanches e pertences de outros estudantes. Costumam ser populares na escola e estão sempre enturmados. Divertem-se à custa do sofrimento alheio.

Já no ambiente doméstico, mantém atitudes desafiadoras e agressivas com relação aos familiares. São arrogantes no agir, falar e se vestir, demonstrando superioridade. Manipulam pessoas para se safar das confusões em que se envolveram. Costumam voltar da escola com objetos ou dinheiro que não possuíam. Muitos agressores mentem, de forma convincente, e negam as reclamações da escola, dos irmãos ou dos empregados domésticos.

IHU On-Line – E geralmente qual é o perfil das vítimas?

Ana Beatriz Barbosa Silva – As vítimas típicas são os alunos que apresentam pouca habilidade de socialização. Em geral são tímidas ou reservadas, e não conseguem reagir aos comportamentos provocadores e agressivos dirigidos contra elas. Normalmente, são mais frágeis fisicamente ou apresentam algo que as destaca da maioria dos alunos: são gordinhas ou magras demais, altas ou baixas demais; usam óculos; são “caxias”, deficientes físicos; apresentam sardas ou manchas na pele, orelhas ou nariz um pouco mais destacados; usam roupas fora de moda; são de raça, credo, condição socioeconômica ou orientação sexual diferentes… Enfim, qualquer coisa que fuja ao padrão imposto por um determinado grupo pode deflagrar o processo de escolha da vítima do Bullying. Os motivos (sempre injustificáveis) são os mais banais possíveis. Normalmente, essas crianças ou adolescentes “estampam” facilmente as suas inseguranças na forma de extrema sensibilidade, passividade, submissão, falta de coordenação motora, baixa autoestima, ansiedade excessiva, dificuldades de se expressar. Por apresentarem dificuldades significativas de se impor ao grupo, tanto física quanto verbalmente, tornam-se alvos fáceis e comuns dos ofensores.

IHU On-Line – Você afirma que as escolas públicas sabem lidar melhor com o Bullying do que as instituições particulares. Por quê?

Ana Beatriz Barbosa Silva – Na verdade, o Bullying existe em todas as escolas, o grande diferencial entre elas é a postura que cada uma tomará frente aos casos de agressão. Por incrível que pareça, os estudos apontam para uma postura mais efetiva contra o Bullying entre as escolas públicas, que já contam com uma orientação mais padronizada perante os casos (acionamento dos Conselhos Tutelares, Secretaria de Educação etc.). Já nas escolas particulares, os casos tendem a ser abafados, uma vez que eles podem representar um “aspecto negativo” na boa imagem da instituição privada de ensino.

IHU On-Line – O que move uma criança a cometer Bullying?

Ana Beatriz Barbosa Silva – Primeiramente, precisamos identificar que tipo de agressor ele é, uma vez que existem causas diferenciadas. A maioria se comporta assim por nítida falta de limites em seus processos de educação. Por ausência de um modelo educacional que associe autorrealização pessoal com atitudes socialmente produtivas e solidárias. Este modelo faz com que os jovens busquem atitudes egoístas e maldosas, já que isso lhes confere poder e status.

O agressor pode estar vivenciando momentos de dificuldades circunstanciais, como doenças na família, separação dos pais ou até mesmo por estar sofrendo Bullying também. Nesses casos, a violência praticada pelo jovem trata-se de um fato novo em seu modo de agir e de se relacionar com as pessoas que, geralmente, é passageiro.

Uma minoria se comporta assim por apresentar a transgressão pessoal como base estrutural de sua personalidade. Neste caso, falta-lhe o sentimento essencial para o exercício do altruísmo: a empatia. Trata-se de jovens que apresentam transtorno da conduta e são perversos por natureza. Eles apresentam desde muito cedo tendências psicopáticas, e se divertem com o sofrimento do outro.

IHU On-Line – O problema do Bullying começa em casa?

Ana Beatriz Barbosa Silva – Sim, sem dúvida. Para que os filhos possam ser mais empáticos e agir com respeito ao próximo, é necessário primeiro rever o que ocorre dentro de casa. Os pais, muitas vezes, não questionam suas próprias condutas e valores, eximindo-se da responsabilidade de educadores. O exemplo dentro de casa é fundamental. O ensinamento de ética, solidariedade e altruísmo inicia ainda no berço e se estende para o âmbito escolar, onde as crianças e adolescentes passarão grande parte do seu tempo.

IHU On-Line – O “mundo virtual” é uma ferramenta do Bullying?

Ana Beatriz Barbosa Silva – O ciberbullying ou Bullying virtual é uma das formas mais agressivas de Bullying. Os ataques ocorrem através de ferramentas tecnológicas como celulares, filmadoras, máquinas fotográficas, Internet e seus recursos (e-mails, sites de relacionamentos, vídeos). Além da propagação das difamações serem praticamente instantâneas, o efeito multiplicador do sofrimento das vítimas é imensurável. O ciberbullying extrapola, em muito, os muros das escolas, e expõe a vítima ao escárnio público. Os praticantes dessa modalidade de perversidade também se valem do anonimato e, sem qualquer constrangimento, atingem a vítima da forma mais vil possível.

Notas:
[1] Dan Olweus é considerado o pioneiro em pesquisas sobre Bullying no mundo. Criou o Olweus Bullying Prevention Program, um programa de prevenção ao Bullying que é referência mundial.

Como James Brown tornou-se um militante negro

Recém-lançado no Brasil, o livro O Dia em Que James Brown Salvou a Pátria (ed. Zahar), do jornalista James Sullivan, biografa o principal formulador do funk norte-americano a partir de um episódio crucial: a influência que o furacão Brown exerceu sobre a população negra dos Estados Unidos nos dias que se seguiram ao assassinato do reverendo Martin Luther King Jr. em 4 de abril de 1968.

Por Pedro Alexandre Sanches, em Ooera Mundi
Pode parecer a princípio um mero mergulho no passado histórico da nação ao norte. Mas de modo indireto o livro, originalmente nomeado The Hardest Working Man (How James Brown Saved the Soul of America), tem muito a dizer e revelar para leitores do Brasil de 2010, que se acostumam, aos poucos e aos sobressaltos, a encarar questões sensíveis como cotas, políticas afirmativas, reparação, direitos civis, reivindicações de minorias.

A trama gira em torno de um tenso show do cantor e compositor sulista (de Barnwell, Carolina do Sul) na cidade nortista de Boston, um dia após a morte do militante pelos direitos civis Luther King, quando a população negra dos EUA estava conflagrada e ensaiava levantes por vezes violentos país adentro. Após nervosas negociações de gabinete, decidiu-se que a apresentação seria exibida ao vivo (e a seguir reprisada) pela TV local.

Para alguns, esse estratagema teria servido para manter a população em casa, fixada nos quadris do astro pop, garantindo assim a pacificação das ruas da cidade (os tradutores do título em português desmontam ambiguidades e compram essa hipótese, ainda que em 5 de julho de 1968 Brown pudesse no máximo ter salvo Boston, e não a pátria inteira).

Para outros, igualmente contemplados no livro, aquele ato significaria a cooptação do cantor pelo poder branco – integrantes do movimento negro deixariam ali de chamá-lo de “Irmão Número 1 do Soul”, trocando a alcunha para “Irmão Vendido Número 1”.

Sullivan documenta a grande viagem empreendida por Brown nos anos 1960, de artista restrito ao público negro a poderoso comunicador e proprietário de três estações de rádio – mas, também, de homem inconsciente de sua própria identidade negra a militante e coinventor do “black power”.

Mesmo para quem defende que o Brasil não é racista em 2010, há de doer a constatação crua da discriminação explícita e da segregação profunda vigentes nos EUA nos primeiros anos daquela década, menos de 50 anos atrás. “As celebridades negras costumavam obter mais destaque quando suas personalidades eram menos desafiadoras”, afirma o autor a certa altura.

A questão aparentemente superficial do alisamento capilar aparece em depoimento transcrito da autobiografia do aguerrido ativista negro Malcolm X (assassinado em fevereiro de 1965): “Esse foi meu primeiro passo para a autodegradação, quando enfrentava aquela dor toda, literalmente queimando minha carne, para ter cabelo de branco”.

Brown também alisava o cabelo, e só em julho de 1968 adotaria um corte natural (e curto), exigindo o mesmo dos integrantes da banda. “Queria que as pessoas soubessem que uma das coisas que eu mais prezava e à qual renunciei foi o meu cabelo. Era um verdadeiro atrativo para a minha carreira. Mas eu o cortei pelo movimento”, afirmaria mais tarde, segundo Sullivan.

O trauma do assassinato de Luther King motivaria Brown a lançar também sua canção mais engajada politicamente, Say It Loud – I’m Black and I’m Proud (1968). O autor contempla a hipótese de que fosse uma estratégia do artista para reagir à desconfiança gerada pelo show televisionado de Boston. Por outro lado, evidencia que musicalmente o funk de Brown foi se tornando maciço e corpulento na mesma medida em que os movimentos pelos direitos civis dos negros cresciam e tomavam as ruas norte-americanas.

O futuro “Poderoso-Chefão do Soul” progredia e se consolidava enquanto incendiava de orgulho e raça funks como I Got You (I Feel Good) (1964), Papa’s Got a Brand New Bag (1965), a protopolitizada Don’t Be a Dropout (1967), Cold Sweat (1967), Hot Pants (1970), Get Up (I Feel Like Being a) Sex Machine (1970)…

Nesse ínterim, tornou-se um militante incansável a favor da educação para a população negra – sempre demarcando que ele próprio não tivera esse privilégio. Prestou apoio ao governo de Richard Nixon (1969-1974), devido a compromissos assumidos pelo político republicano em relação a ações afirmativas, renda mínima, iniciativas empresariais de minorias e empreendedorismo negro. “Embora o apoio a Nixon tenha deixado alguns de seus melhores amigos perplexos, ele jamais se arrependeu disso”, escreve Sullivan.

Se temas como esses traçam alguma semelhança com debates do Brasil de 2010, no ano de 1968 daqui a ditadura militar e seu AI-5 sufocavam qualquer respiro para lutas por direitos civis de minorias. Toni Tornado, Erlon Chaves e Dom Salvador foram brutalmente reprimidos quando levaram a cabo um levante funk (e sexy) no Festival Internacional da Canção da Globo em 1970.

Jorge Ben homenageou o atuante Muhammad Ali e tateou um “black is beautiful” à brasileira em Negro É Lindo (1971), mas permaneceu tímido e discreto a esse respeito. Wilson Simonal compôs e gravou um Tributo a Martin Luther King (1967), antes mesmo do assassinato do reverendo, e nos anos seguintes ensaiou comandar um “black power” tropicalista – sucumbiu definitivamente em 1974, condenado, preso, encrencado à esquerda e à direita.

Brown teria mais sorte e longevidade que Simonal, mas morreria decadente em 2006, apequenado por episódios de violência doméstica e prisões por burlar o fisco. “Você paga quando goza de todos os seus direitos. Não gozei dos meus direitos. Não tive essa chance”, justificou-se numa autobiografia.

Percalços à parte, o que o mantém e o manterá vivo séculos afora é o testemunho gravado no calor da perda de Luther King, em Say It Loud – I’m Black and I’m Proud: “Eu trabalhei com meus pés e minha mãos/ mas todo o trabalho que fiz foi para o outro homem/ agora exigimos uma chance de fazer as coisas por nós mesmos/ estamos cansados de bater nossas cabeças contra a parede/ e de trabalhar para os outros”.

Se escravizados e escravizadores ficaram ou não confinados no passado das Américas, cabe à consciência de cada um de nós responder.

Universidade no Brasil: agora “é nóis”!

Sérgio José Custódio*

O sinal fechado para o direito à universidade no Brasil sempre foi uma senha do poder de mando de uns e a obediência de outros. Não à toa, depois de 200 anos de universidade, o País não bate a casa dos 15% da população no ensino superior. Distante do tempo em que diploma na parede era sinal de sabedoria e autoridade intelectual, para cima (até os pós-doutorados) e para baixo (até a educação de zero a três anos), o Brasil rema para se posicionar na sociedade dita do conhecimento.

O desafio para o Movimento dos Sem Universidade (MSU) e o conjunto das ONGs, sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos comprometidos com o processo de transformação e negação da desigualdade social histórica no Brasil passa pelo alerta à pauta do direito à universidade. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), com a Escola Nacional Florestan Fernandes, marcou um gol nesta direção. O Sindicato dos Bancários, após anos de encontros gigantescos dos MSU na quadra dos bancários, em São Paulo, encampa a ideia de organizar uma universidade, outro gol.

A luta pelo ensino superior no Brasil deve ser feita com coragem, conceito e criatividade. Coragem para levantar a voz à nação e clamar por este direito aos quatro ventos; conceito para qualificar aquilo mesmo que se quer da universidade, por exemplo, que ela não seja, no imaginário popular, mero adereço de consumo, como loja de shopping, mas que saiba dialogar com as necessidades maiores do nosso povo, coletivas e individuais. O padrão da universidade não pode ser feito de fome, transporte lotado, livros sob o braço e não na cabeça, correria cotidiana para se formar, sem tempo de respirar, muito menos tempo para ter inspiração. É preciso salvar o planeta e isto não se fará sem conhecimento, sem desenvolvimento novo. O Brasil, além das muitas bolsas hoje felizmente existentes para os pobres, terá que criar bolsas simplesmente para os pobres, negros e negras, indígenas passarem o dia estudando, por quatro, cinco até doze anos. O Brasil terá que garantir renda para as pessoas estudarem e acabar com a correria que não é estudo.

A expectativa de vida e o perfil etário mudaram. Não se pode manter o privilégio dos ricos de terem seus pupilos entrando no mercado para trabalhar só depois da graduação ou do doutorado nas universidades públicas, enquanto o povo nas periferias rala para ter um diploma na doideira e na correria enquanto trampa ou se sacode por uma renda familiar de vida. Criatividade para não esperar as coisas caírem do céu e nem o momento ideal para lutar, como foi a mobilização nacional de 2007 que ocupou a Faculdade de Direito da USP.

De boa, com luta, suor, lágrimas e sorrisos, no governo Lula, via política pública, abrimos duas estradas de acesso à universidade no Brasil para a escola pública, negros e indígenas: o Prouni, Programa Universidade para Todos (estrada privada) e as novas universidades, como a Universidade Federal do ABC (estrada pública). Mas ainda falta muito: a reserva de vagas para a escola pública, negros e indígenas, por turno e por curso, conquistada pelo MSU na Câmara dos Deputados, no dia 20 de novembro de 2008, dia de Zumbi, precisa virar lei de fato. A batida policial encenada pelo MSU no Senado em 2009 não deixa dúvida para ninguém onde está a exclusão da universidade no Brasil e qual é o desafio.

* Sérgio José Custódio é presidente nacional do Movimento dos Sem Universidade (MSU)

* Artigo publicado originalmente na revista Sem Terra (edição nº 54). Saiba mais em: http://www.mst.org.br/


Terceira Mostra Luta, inscricões abertas
“A Mostra Luta! é uma mostra nacional de vídeos, fotografias, poemas e quadrinhos que exibe e debate as lutas travadas contra a exploração e a opressão capitalista. Organizada pelo Coletivo de Comunicadores Populares de Campinas.” Inscrições abertas até 15 de julho pelo site http://www.mostraluta.org

‘Luta pela Igualdade Racial nega luta de classes e naturaliza ordem capitalista’

Escrito por Valéria Nader

A versão do Estatuto da Igualdade Racial recém aprovada pelo Senado foi bastante discutida nas últimas semanas. Tratando-se de um daqueles temas amplamente abordados tanto pelos grandes veículos de comunicação, como também por aqueles menores, mais alternativos e com um viés à esquerda, nem por isso as opiniões suscitadas são capazes de consolidar um entendimento mais fundamentado de questão tão complexa.

Deparamo-nos os leitores, essencialmente, com a visão daqueles que defendem as políticas afirmativas de inclusão, em contraposição àqueles que não as vêem como positivas, na medida em que reforçariam a ‘racialização’ da sociedade brasileira. A defesa das cotas para negros em universidades é o tópico em que se concentram os maiores esforços dos primeiros, como forma de se contrapor minimamente às injustiças históricas e arraigadas em um país de passado colonial e escravocrata. Os críticos à racialização não têm, por sua vez, espaço amplo e diversificado o suficiente para a apresentação de seus argumentos,

O historiador Mário Maestri, entrevistado especial do Correio, amplifica os termos desse debate, tomando-o a partir da atual sociedade capitalista, uma sociedade dividida entre as classes ligadas ao capital e ao trabalho, e na qual se desenvolvem as relações sociais e as relações de produção. O historiador alerta para que as discussões estão sofrendo pesada influência das forças do capital, deixando na ‘penumbra a diferença de qualidade entre a luta anti-racista e a proposta da luta pela igualdade racial’.

Ainda segundo Maestri, para a ideologia da igualdade racial não haveria mal na existência de opressores e oprimidos, desde que ambos os segmentos se caracterizassem pelo equilíbrio étnico. Confira entrevista exclusiva a seguir.

Correio da Cidadania: Qual a importância da discussão sobre a igualdade racial e do Estatuto da Igualdade Racial, para regulamentá-la?

Mario Maestri: Trata-se de debate fundamental, até agora dominado pelas forças do capital e sofrendo sua influência, que tem mantido na penumbra a diferença de qualidade entre a luta anti-racista e a proposta da luta pela igualdade racial. O anti-racismo é luta democrática contra a discriminação na escola, no trabalho, na educação etc. É parte da luta geral, no aqui e no agora, contra os exploradores, pela extinção da sociedade de classes, base das opressões econômica, nacional, sexual, étnica etc. A luta anti-racista é parte do programa do mundo do trabalho, é mobilização democrática, progressista, revolucionária.

A proposta de igualdade racial propõe a existência de raças diversas, que devem ser igualadas no que se refere ao tratamento e, sobretudo, às oportunidades no seio da sociedade atual. Por além de eventual retórica radical e apesar do indiscutível unitarismo da espécie humana, recupera e trabalha com o conceito medonho de raça e reduz a opressão social à opressão racial de negros por brancos. É programa regressista e conservador, parte das estratégias do capital contra o mundo do trabalho e seu programa.

A proposta de igualdade racial avança essencialmente no combate às desigualdades de oportunidade. Denuncia o tratamento, no melhor dos casos, igual, dos desiguais. Através da discriminação positiva, os discriminados negativamente concorreriam em igualdade com os privilegiados, estabelecendo-se, assim, a justiça social. Nos fatos, naturaliza e recupera positivamente a competição social, pilar essencial da retórica capitalista. Para essa ideologia, não há mal em haver opressores e multidões de oprimidos. Desde que exista equilíbrio étnico nos dois segmentos!

A África do Sul é exemplo patético e cada vez mais gritante dessa política. Durante décadas, o apartheid serviu para a dura exploração das terras e dos braços negro-africanos. Por isso, o movimento de libertação articulava corretamente a luta contra o racismo e contra a exploração capitalista. Com a derrota mundial dos trabalhadores em fins dos anos 1980, a direção do CNA (Congresso Nacional Africano) terminou aceitando substituir a já superada elite racista na gerência da exploração das massas negras sul-africanas.

No governo pós-apartheid, mantiveram-se as relações de propriedade e de exploração, ou seja, econômico-sociais, sob gestão de classe política e lumpén-burguesia negro-africana, a serviço do capital e do imperialismo. O fim do apartheid estabilizou a opressão de classe, a tal ponto que o país acolhe hoje uma Copa do Mundo, sendo apresentado como exemplo a ser seguido!

A miséria e a opressão dos trabalhadores e populares sul-africanos seguiram aprofundando-se, sob a batuta de políticos negro-africanos tão corruptos e venais como os brasileiros. Atualmente, eles se preocupam, essencialmente, em formar uma classe média negra, para maior estabilização da nova ordem!

Correio da Cidadania: Qual a sua opinião sobre as cotas universitárias, o principal e mais discutido tópico de reivindicações do movimento negro?

Mario Maestri: A proposta de igualdade racial e discriminação positiva (cotas estudantis) não se preocupa com as multidões de jovens negros (pardos, brancos etc.) marginalizados em diversos graus pelo capitalismo. Pretende sobretudo conquistar equilíbrio racial entre os privilegiados. De certo modo, é como se propusesse colocar pesos nos corredores brancos, esguios, para igualá-los aos negros, mais pesados, devido a handicaps sociais históricos. Equilibrando-se as desigualdades, os vencedores serão os mais capazes.

O problema é que essa corrida premia os cem primeiros chegados e marginaliza os 9.900 perdedores, em diversos graus. O que importa é conquistar equilíbrio racial entre os cem laureados. Uma proposta que sequer vislumbra a possibilidade e necessidade de se pôr fim à competição canibal, para que todos sejam vencedores, segundo seus esforços, capacidades e necessidades. Trata-se de mobilização por um mundo de exploradores e de explorados sem diferenças raciais, desde que no paraíso dos privilegiados e opressores haja vagas cativas para privilegiados e opressores negros.

Estudar nas melhores universidades, em geral públicas, é privilégio de pequena minoria de jovens, principalmente brancos ou quase brancos. A política cotista promete que, um dia, nessa minoria de felizardos, haverá um número proporcional de negros. O que já é uma falácia, pois a base da desigualdade social apóia-se essencialmente na posse e no domínio da propriedade. A proposta cotista despreocupa-se com as multidões de jovens marginalizados – em forte proporção, negros. O fundamental é mais generais, advogados, médicos, engenheiros, farmacêuticos, capitalistas negros. Todos ferrando a população trabalhadora, branca e negra, como fazem normalmente os congêneres brancos.

As principais justificativas dessa proposta são duas. A primeira é que, enquanto não chegamos a uma sociedade justa (socialismo), há que melhorar a realidade na sociedade capitalista. O problema é que essa proposta correta justifica o incorreto abandono da luta, no aqui e no agora, do ensino universal, gratuito e de qualidade, parte do programa democrático – e não socialista. Esse programa inarredável das classes populares foi imposto, substancialmente, pelo mundo da democracia e do trabalho, em países como a Alemanha, a França, a Bélgica, a Itália, a Suécia etc., todas sociedades capitalistas!

A segunda justificativa é que o Brasil não teria recursos para garantir esse privilégio para todos. Defendendo o programa cotista, Valério Arcary, intelectual pró-cotista, afirmou, sem enrubescer, que sequer um “governo dos trabalhadores, pelo menos nas fases iniciais da transição ao socialismo, num país como o Brasil, poderia garantir acesso irrestrito ao ensino superior para todos “! O governo brasileiro entrega bilhões a banqueiros e capitalistas, nacionais e internacionais, mas não tem os meios para implementar programa cumprido por Cuba, um país pobre, literalmente desprovido de recursos naturais e de capitais!

Correio da Cidadania: Dessa forma, a quem interessa a política de igualdade racial e as propostas de discriminação positiva na escola, partidos, serviço público etc., rejeitadas pelo Senado quando da aprovação do Estatuto da Igualdade Racial?

Mario Maestri: Por primeiro, interessa ao capital, grande responsável pela defesa, propaganda e impulsão dessa política nos EUA, em fins dos anos 1950. Ela foi consolidada, como política de manipulação da questão racial, após a repressão geral e não raro massacre físico da vanguarda negra classista e revolucionária estadunidense, nos anos 1960 e 1970. Ela começou a ser introduzida no Brasil pela Fundação Ford, entre intelectuais negros, nos anos 1980. Não é por nada que a senhora Hillary Clinton, em recente viagem ao Brasil, na única atividade não oficial, foi prestigiar essas políticas em faculdade brasileira organizada a partir de critérios raciais.

Mas qual foi e é o resultado das cotas nos EUA? No frigir dos ovos, meio século após a implantação da política cotista, a droga e sobretudo o cárcere são a solução prioritária para a questão negra estadunidense. Os EUA, com 5% da população mundial, possuem 20% dos prisioneiros. Deles, 50% negros! No país mais rico do mundo, com recursos inimagináveis, o jovem negro acaba normalmente nos braços da droga e da prisão e raramente em universidade e emprego razoáveis.

E, apesar disto, o Estatuto da Igualdade Racial propõe nada menos que o Brasil esteja, “no mínimo, meio século atrás dos Estados Unidos em matéria de cidadania para o povo negro”! Isso porque, ali, o fundamental para essa política foi atingido – temos presidente, alguns generais, médicos, diplomatas, capitalistas etc. negros.

A política cotista é estratégia do grande capital, pois prestigia e naturaliza a ordem capitalista; nega a luta social e de classes; procura dividir os trabalhadores e oprimidos por cor e raça; fortalece a base social da sociedade opressora. E tudo isso, em geral, sem custos ao Estado.

A política de escola pública, gratuita e de qualidade exige investimentos, que são feitos onde ainda dominam os princípios democráticos e republicanos dos serviços públicos básicos universais. Ao contrário, a política cotista não exige que o Estado gaste um real, ao destinar 30%, 60% ou 90% das vagas das universidades públicas – dos cargos federais, postos de trabalho etc. – para negros, índios, mulheres etc. O Estado não gasta nada, pois são investimentos já feitos. Só redistribui os privilégios e as discriminações.

E, com as políticas cotistas, além dos dividendos político-ideológicos, o Estado classista, prestigiado, vê cair a luta e a pressão popular pela extensão desses serviços. Ao igual que nos EUA. Não é por nada, portanto, que as atuais lideranças do movimento negro cotista não exigem ensino público, livre e gratuito universal. E imaginem só a saia justa do governo, do Estado e do capital, se a juventude popular e trabalhadora, como um todo, tomasse as ruas, exigindo ensino universal, público e de qualidade! Se não obtivessem tudo que pedissem na primeira vez, levariam certamente muito.

As propostas de igualdade entre as raças, na ordem capitalista, interessam também a certo tipo de liderança negra. Defendendo as políticas do capital de racialização da sociedade, inserem-se no jogo da representação política e institucional, sendo por isso gratificada econômica, social e simbolicamente. Não creio que tenha sido estudada a gênese-consolidação dessa representação étnica nascida à sombra do Estado, fortemente impulsionada durante os governos Lula da Silva. Porém, mutatis mutandis, não parece ser processo diverso do ocorrido com as representações sindicais e populares cooptadas pelo Estado, após a enorme derrota dos trabalhadores de fins dos anos 1980.

Finalmente, essas políticas interessam a segmentos médios e médio-baixos negros. É segredo de Polichinelo que as políticas de cotas privilegiam sobretudo os segmentos negros relativamente mais favorecidos, em detrimento dos trabalhadores e marginalizados de mesma origem. O filho do professor negro vence o filho do pedreiro negro, na disputa de uma cota. Ao igual do que ocorre com filho do engenheiro branco, ao disputar com o do zelador de mesma cor no vestibular. Ainda que, em bem da verdade, os filhos dos zeladores e dos pedreiros sequer sonhem com um curso universitário.

Correio da Cidadania: E quem está contra o Estatuto da Igualdade Racial? O que você pensa da participação do senador Demóstenes Torres na relatoria desse projeto, após declarações preconceituosas sobre a escravidão e a opressão aos negros?

Mario Maestri: No Brasil, a oposição às políticas de igualdade racial tem duas grandes vertentes, essencialmente opostas (com posições intermediárias, é claro). A vertente minoritária, com escasso espaço na mídia e no debate, é formada por um punhado de intelectuais, ativistas, sindicalistas, lideranças sociais etc., negros e brancos, de tradição republicana, democrática, socialista e revolucionária. Em geral, ela expressa, direta ou indiretamente, os interesses do mundo do trabalho e, portanto, da grande população trabalhadora e marginalizada negra, discriminada e esquecida pelas propostas retóricas de igualdade racial. Essa vertente mobiliza-se pela luta anti-racista e pelos direitos democráticos gerais, no aqui e no agora, sem qualquer exceção e privilégios.

A vertente majoritária, com grande presença na mídia, formada sobretudo por políticos, jornalistas, intelectuais, é impulsionada por preconceitos elitistas, racistas e corporativistas. É formada essencialmente por brancos e alguns oportunistas não-brancos. O senador Demóstenes Torres é representante exótico desta corrente, assim como, por exemplo, o jornalista Ali Kamel constitui defensor refinado das mesmas visões.

A primeira vertente, ao refletir, direta ou indiretamente, o mundo do trabalho e seu programa, tem consciência das conseqüências dramáticas das propostas de racialização da sociedade brasileira para a luta e as conquistas sociais e para a própria organização e convivência nacionais. A segunda representa os setores sociais médios brancos em parte deslocados por essas políticas, em favor dos setores da classe média e médio-baixa negra, como proposto.

No último caso, trata-se de defesa conservadora de privilégios das classes médias brancas, contra as políticas raciais conservadoras do grande capital, despreocupado no geral com aqueles segmentos. Trata-se de um movimento em algo semelhante à resistência final dos racistas sul-africanos, quando o capital decidira a entronização da nova classe política negro-africana. Resistência que se mantém até hoje em forma já residual na África do Sul. Não devemos esquecer que o capital não tem cor. Historicamente, ele se serve do racismo para impor sua dominação e obter super-exploração. Porém, quando necessário, ferra sem dó os segmentos racistas.

Correio da Cidadania: O Senado retirou do projeto a obrigatoriedade do registro da cor das pessoas nos formulários de atendimento do SUS, considerado por muitos como o retrocesso maior, já que os índices referentes à saúde da população negra denunciariam fortemente a discriminação racial.

Mario Maestri: É enrolação estatística dizer que os negros, por serem negros, são mais desfavorecidos que os brancos, por serem brancos, por exemplo, no relativo à saúde. Comparemos os engenheiros negros e os pedreiros brancos. Nesse caso, a saúde dos brancos é certamente pior do que a dos negros. E se cotejarmos a saúde dos médicos brancos à dos médicos negros certamente ela será, no geral, idêntica.

O fato de que há maioria de negros entre as classes exploradas e maior número de brancos entre os privilegiados determina diferença social que pode ser percebida artificialmente como racial, e não social. Seria estatisticamente mais interessante registrar e tornar pública a situação sócio-profissional dos atendidos pelo SUS, registrando a enorme insuficiência das classes trabalhadoras e marginalizadas, brancas, negras e pardas, quanto à saúde e à esperança de vida. Realidade não retida, como devia ser, no relativo à remuneração e à idade de aposentadoria.

No essencial, as propostas da obrigação da definição da cor (no fato, da pretensa raça) quando de registros públicos procuram impor literalmente racialização artificial do país. Para essa proposta, você não seria mais simplesmente brasileiro. Mas, obrigatoriamente, brasileiro branco ou brasileiro negro.

Trata-se de proposta anti-republicana, antidemocrática e profundamente racista determinar pela lei que todo cidadão assuma uma identidade racial aleatória ou oportunista. Uma identidade racial que, no novo mundo proposto, poderia ensejar privilégios em relação ao resto da população. Esta proposta se apóia igualmente na concepção da necessidade da definição da raça quando do atendimento médico, pois, segundo ela, negros e brancos, de raças diversas, exigiriam tratamentos e procedimentos médicos diversos! Ou seja, que brancos e negros seriam biologicamente diversos, como defendiam já os escravistas e seus ideólogos racistas, como o celerado e farsante conde de Gobineau (1816-1882).

Proposta racista, de caráter acientífico, que demonstra sua enorme obtusidade, ainda mais no Brasil, onde a auto-definição racial tende no geral a sequer possuir uma correspondência genética mais precisa. Os estudos científicos apontam para que, em uma enorme quantidade, os brasileiros são produtos de uma forte mescla genética de população das mais diversas origens européias, americanas, africanas, asiáticas etc. E não devemos esquecer que aquelas populações já resultavam de enormes interações genéticas.

Correio da Cidadania: Como você enxerga as lamentações do movimento negro, que definiu a aprovação dessa versão do Estatuto como traição a lutas históricas e que seria melhor brigar mais dez anos pela aprovação de versão satisfatória? Você incluiria o projeto aprovado no rol de recuos do governo Lula da Silva, em praticamente todas as pautas de caráter mais progressista?

Mario Maestri: Foi enorme a cooptação pelo Estado de dirigentes populares no governo Lula da Silva. Hoje, enorme parte das direções negras tem ligações diretas ou indiretas com o lulismo, com o petismo, com o Estado, com os quais não arriscam oposição e dissidências. Ao igual que as direções sindicalistas, camponesas, populares etc. também cooptadas.

Jamais vimos essas lideranças do movimento negro mobilizando-se contra a ocupação do Haiti pelo Exército brasileiro. Ou levantando-se contra o tratamento bestial do sistema prisional brasileiro, habitado por enorme população negra. Ou denunciando o quase total abandono das populações flageladas dos últimos tempos. Silêncio de túmulo.

A reprovação do Estatuto no Senado parece ter causado apenas as assinaladas lamentações das lideranças responsáveis por sua apresentação. Ele não interpretava as necessidades da população negra pobre e explorada, que continua abandonada à sua sorte, sem conseguir construir suas verdadeiras lideranças e programas, ao igual que a maioria dos trabalhadores e oprimidos dos campos e das cidades do Brasil.

Correio da Cidadania: Por fim e diante de todos os pontos expostos, você acredita que se realizou um debate público a contento, com a participação efetiva da sociedade, na discussão das políticas de discriminação racial positiva, em geral, e do Estatuto, em particular?

Mario Maestri: Houve debate, superestrutural e institucional: programas de rádio e de televisão; artigos e livros jornalísticos e acadêmicos; alguns editoriais. Porém, o debate jamais alcançou a população nacional, a ser enquadrada pelo Estatuto, seja qual for a sua cor. Se fizéssemos um levantamento, a imensa maioria dos brasileiros não sabe o que seja o Estatuto e a quase totalidade não sabe realmente o que ele propõe.

O debate jamais foi realmente enfrentado, mesmo pela esquerda, que, paradoxalmente, no passado, destacou-se pela ênfase da importância da escravidão e do racismo na sociedade de classes no Brasil. No século 20, foram efetivamente militantes marxistas e comunistas que contribuíram fortemente para que a questão negra se transformasse no Brasil em problema histórico e teórico de larga discussão – Astrogildo Pereira, Edison Carneiro, Benjamin Perét, Clóvis Moura, Décio Freitas etc.

A vanguarda da esquerda organizada aceitou as propostas de racialização da sociedade nacional sem crítica e reflexão, como parte das novas e antigas sensibilidades ambientalistas, feministas, anti-racistas etc. Contribuíram nessa aceitação acrítica e passiva a escassa formação política e, sobretudo, os frágeis vínculos com o operariado nacional. Operariado em franca regressão, no Brasil e no mundo, sobretudo após a derrota histórica de fins de 1980, que ensejou depressão dos valores universalistas, racionalistas, socialistas etc. Ou seja, com a crescente fragilidade do programa dos trabalhadores, fortaleceu-se a influência das propostas ideológicas e conservadoras do capital, também entre a própria esquerda, como no caso das visões raciais da sociedade.

Nas razões dessa renúncia passiva ao programa socialista ajuntaríamos uma espécie de consciência culpada, por parte de militantes em geral com origem na classe média e médio-baixa branca, no contexto de escassa importância dada à questão, vista tradicionalmente como periférica aos problemas centrais da revolução, mesmo quando destacada nos programas políticos. Foram também importante as pressões da juventude negra estudantil radicalizada, conquistada para essas propostas no processo de flexibilização de organizações de esquerda, como o PSTU, de frágeis vínculos sociais e políticos com os trabalhadores.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; colaborou Gabriel Brito, jornalista.