Arquivos Mensais: fevereiro \28\UTC 2010

Onde estão os Panteras?

Os ex-deuses mostraram sua vulnerabilidade e
foram destruídos. Os líderes que sobreviveram acabaram
absorvidos pelos partidos políticos tradicionais dos EUA.

Por Neusa Maria Pereira • Versus 20 • abril de 1978

Desde que o Partido Revolucionário dos Panteras Negras foi destruído pelos agentes do F.B.I. os negros americanos ficaram sem uma opção política na qual realmente confiassem. Se o F.B.I. entrou com força total para acabar com o Poder Negro, este também teve sua parcela de culpa para que isso acontecesse. Isso se deu no momento em que esses ativistas tornaram-se ultra-esquerdistas, afastando-se da massa negra, perdendo seu apoio e virando presa fácil da polícia americana.

Mesmo assim, no pouco tempo em que estiveram em ação, os Panteras conseguiram alguns resultados positivos. Ensinaram seus irmãos a ter orgulho de sua raça, a se reconhecerem belos e, principalmente, despertaram na massa a combatividade. Afastaram dela o medo de enfrentar o regime segregacionista que lhe fechava todas as portas de emprego, escola, ônibus, hospitais e moradias.

Foram tempos duros. Inúmeros jovens brutalmente assassinados, alguns dos mais importantes líderes do Movimento no exílio, para depois, ao voltar, irem para as sórdidas cadeias americanas, desumanas principalmente para negros, e fundamentalmente para negros com idéias revolucionárias. Após dez anos, o F.B.I. provou que seu trabalho foi bem executado. Não existe um movimento negro, hoje, capaz de incomodar o bem-estar da classe dominante. Os ex-deuses de carne negra mostraram ser vulneráveis e foram destruídos. Os que conseguiram escapar graças a seu carisma foram absorvidos pelo governo em seus partidos políticos.

Angela Davis, que atualmente tem um escritório na Califórnia onde desenvolve um trabalho na área judiciária visando obter julgamentos mais honestos para os negros, entrou para o Partido Democrata, cama de racistas sulinos. Também Hucy Newton, um dos fundadores dos Panteras Negras, que, antes, dizia que a violência nos Estados Unidos era tão comum como torta de maçã, entrou para o Partido Democrata de Jimmy Carter.

Bobby Seale, um dos teóricos dos Panteras, entrou para o Partido Democrata também, e candidatou-se a prefeito de Oakland, local onde até hoje os Panteras são respeitados, pois foi lá que surgiram. Eldridge Cleaver agora encontrou Deus e virou pastor, anda pregando a Bíblia. Há dez anos, ele falava que somente o socialismo seria a salvação para os povos oprimidos do terceiro mundo e dos Estados Unidos. A violência não conseguiu destruir Stockley Carmichael. Apesar de perseguido – atualmente está proibido de sair do país – fundou a seção americana do Partido Revolucionário de Todos os Povos Africanos, que levanta bandeiras reivindicatórias específicas. Stockley vive dando conferências nas universidades americanas, denunciando todos os crimes do regime capitalista americano. Até quando?

Os muçulmanos, dos quais os Panteras Negras sofreram grande influência por intermédio de Malcolm X (que antes de morrer havia rompido com eles pelo fato de não quererem participar das lutas gerais da sociedade), estão calmos. Fecharam suas bocas para assuntos políticos. Deixaram de pensar num Estado Negro separado, pelo menos por enquanto. Estão apenas rezando e aprimorando seu ódio contra o branco.

Não há mais grandes mobilizações de negros nos Estados Unidos. A ação do F.B.I. contra os Panteras faz todo mundo pensar duas vezes antes de agir. A falta de uma política conseqüente fez a comunidade negra cair no conto de Jimmy Carter. Dos 25 milhões de negros existentes nos EUA, mais de 40% votaram em Carter para presidente, atraídos por promessas de empregos, escolas, moradias, melhores condições de vida. Mais uma vez foram enganados.

Assim que entrou na Casa Branca, o defensor dos direitos humanos esqueceu tudo. Hoje, 25% da população está desempregada. Está cada vez mais difícil encontrar casa para morar. Aí o sistema capitalista-racista atira cada vez mais pessoas para os porões famintos e fedidos do Harlem, Washington, Detroit, cidades onde é grande o número de negros. A pequena burguesia foge para o subúrbio deixando a sujeira, a miséria e o crime para os moradores dos grandes centros urbanos: negros, chicanos, porto-riquenhos e sul-americanos.

Existe ainda o problema das escolas, que são poucas, com professores deficientes e mal pagos pelo governo. São inferiores às escolas brancas. Para que o povo não reclame muito, o sistema utiliza seus “testas de ferro”, os prefeitos negros que não lutam por melhores condições de vida para sua comunidade. O mais novo boneco do sistema americano é Andrew Young, discípulo de Martin Luther King, pacifista e apenas preocupado em interromper o avanço das lutas do povo negro.

A crise internacional do capitalismo, mesmo no país matriz, faz a corda arrebentar do lado mais fraco. É preciso sobreviver, e só há uma maneira para milhares de negros americanos: roubar, que também é uma forma de contestar o sistema capitalista. Mas, na maioria das vezes, isso custa caro. Custa a prisão. Segundo dados da Anistia Internacional, as cadeias dos Estados Unidos estão lotadas de pessoas condenadas por suas crenças, origem racial e social. A maioria desses presos são negros. Muitos deles continuam na prisão, acusados de praticarem delitos comuns, mesmo depois de provarem sua inocência. Apesar de tudo, o “paladino dos direitos humanos” exige que outros países cumpram o que ele não faz no seu próprio país, disse Angela Davis, recentemente em Paris.

Dissidência no tráfico de drogas gera campanha e guerra contra o crack

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Por Archimedes Marques, de Aracaju

Crack na latinha

Traficantes em campanha e em início de batalha mortal não por disputas de territórios, mas para conter o avanço do crack, que mata os dependentes de drogas.

O povo assiste atônito às consequências nefastas advindas do crack, a chamada “droga do século”, que chegou para arruinar a vida de muitos, piorar ainda mais a vida de toda a sociedade brasileira e agora até em contrariedade aos interesses de vários traficantes de drogas que em mudança de opinião, em discordância ao seu comércio, já fazem campanha e iniciam guerra contra o seu uso.

Crack e desgraça são indissociáveis e quase palavras sinônimas. Relatos dos seus usuários e familiares, fatos policias diários e opiniões de especialistas sobre os efeitos e as consequências funestas da droga podem ser resumidos em três palavras tão básicas quanto contundentes: sofrimento, degradação e morte.

A composição química do crack é simplesmente horripilante e estarrecedora. A partir da pasta base das folhas da coca acrescentam-se outros produtos altamente nocivos a qualquer ser vivo, tais como o ácido sulfúrico, querosene, gasolina ou solvente e a cal virgem, que ao serem processados e misturados, transforma-se numa pasta endurecida homogênea de cor branco caramelizada, onde se concentra mais ou menos 50% de cocaína, ou seja, meio a meio cocaína com os outros produtos citados.

O seu usuário pode sofrer convulsão e, como consequência desse fato, parada respiratória, coma ou parada cardíaca. Além disso, para o debilitado e esquelético sobrevivente, seu declínio físico é devastador: infarto, dano cerebral, doença hepática e pulmonar, hipertensão, acidente vascular cerebral (AVC), câncer de garganta, além da perda dos seus dentes, pois o ácido sulfúrico, que faz parte da composição química do crack, assim trata de furar, corroer e destruir a sua dentição.
O crack é tão perigoso quanto degradante e mortal que até o próprio traficante dele não faz uso e agora já começa a repensar o seu comércio.

Recentemente, o jornalista e cientista político Segadas Viana, escreveu sobre a questão de um ponto do tráfico do Rio de Janeiro estar fazendo campanha contra o crack. São trechos básicos da matéria jornalística denominada Tráfico veta copinho pra acabar com crackudo vacilão: “Salve um crackudo… Rasgue o copo. As palavras, escritas em um cartaz ao lado da foto de três jovens fumando crack e da imagem de um copo de plástico, fazem parte de uma campanha para tentar dificultar o uso da droga. Como os usuários preferencialmente utilizam copinhos de guaraná natural, a idéia é convencer os fãs da bebida a rasgá-los antes de jogá-los fora.

Mais inusitado que a campanha é o local em que ela tem sido feita: o cartaz foi encontrado durante uma incursão policial no Morro do Pavão, em Copacabana, na zona sul do Rio. Ele estava colado em uma das bocas-de-fumo controladas por traficantes ligados à facção criminosa Comando Vermelho (CV), na principal entrada da favela.

Abaixo do “slogan da campanha”, um texto expõe motivos para conquistar adeptos: “Pow mano, ta ligado que o bagulho ta ficando sinistro em todas as favelas do Rio de Janeiro, né? Aonde vc passa tem um menozinho correndo igual doido com as calças caídas, descalços. Que vergonha. Ou então vê uma mina toda ruim, toda torta, toda magrela. (…)”

Mas o cartaz não é a única bandeira na tentativa de desestimular o uso do crack. Um funk batizado como “Crackudo vacilão” tem sido tocado nos bailes realizados nos morros e favelas. A letra da música diz: “Pedra pura, deixa a gente no maior tédio / Vendendo a roupa do corpo / E a janela do prédio / Mas depois triste num canto sozinho / lembra que se derramou / a madrugada num copinho / aí vem o desespero / tô com maior cabelão / eu vendi a geladeira, a tv e o fogão / aí vem o desespero / tô com maior cabelão / eu vendi a porra toda, eu sou um crackudo vacilão” (…)

Em outra matéria jornalística, desta feita no Rio Grande do Sul, publicada no jornal Zero Hora, em 19/11/2009, o jornalista Humberto Trezzi assim discorreu em parágrafo basilar do seu artigo denominado Traficantes vetam crack em Santa Cruz: “A quadrilha que domina a venda de drogas no bairro mais populoso de Santa Cruz do Sul decretou: não vai vender mais crack. Além disso, anunciou “represálias severas” a quem comercializar a droga na sua área de atuação… venderão os estoques. Depois, vai vigorar a pena do submundo contra quem violar a regra – que pode incluir morte.”

Segundo o jornalista, o recado foi repassado em uma reunião em que fizeram parte aproximadamente cem pessoas na associação de moradores do bairro Bom Jesus e confirmado por repórteres do jornal Gazeta do Sul.

Tais campanhas realistas do tráfico contra o crack demonstram a preocupação dos traficantes quanto à perda substancial dos seus compradores ou consumidores, que logo morrem em decorrência da ação devastadora da droga, ou seja, estão perdendo mercado porque estão matando seus próprios clientes. Com isso há a diminuição de lucro e, em consequência do fato, também resta enfraquecido o comércio das outras drogas, daí a motivação desta suposta boa ação que estão a praticar para a sociedade.

É fato realmente inusitado: traficantes em campanha e em início de batalha mortal não pela disputa de território, mas na tentativa desesperada de conter o avanço dos malefícios do crack, que muitos teimam em reproduzir. É de bom alvitre alinhavar que campanhas legais e vitoriosas como Crack nem pensar, Droga mata, Anti drogas, A droga da morte, A pedra da morte, Montenegro contra o crack, dentre outras que arrastam adeptos importantes e adorados pelo povo como artistas, atletas, cantores ou demais celebridades, formadores de opinião pública, somados ao combate incansável efetuado pela força pública através da Polícia, tem sido de suma importância na prevenção, repressão ou na recuperação de drogados, fazendo com que aumente ainda mais a frustração dos traficantes.

Assim, nesta nova modalidade de guerra do tráfico de drogas, que pode ser batizada de guerra do crack, uma vez que supostamente o Comando Vermelho já tomou partido, pode haver o aumento da dissidência e, como resultado, uma grande quantidade de mortes.

21/10/2010

Fonte: ViaPolítica/O autor

Joaquim, o missionário do financiamento comunitário .

Por Sílvia Lisboa

Na primeira semana vivendo entre catadores, em um lixão de Fortaleza, João Joaquim de Melo Neto Segundo soube que dali em diante todas as suas escolhas estariam ligadas àquela iniciação radical. O seminarista de 18 anos havia há pouco deixado a casa dos pais em Belém do Pará e aceitara com um misto de resignação e civismo a missão a ele incumbida por Dom Aloísio Lorscheider, o cardeal da época, de viver em uma favela. Em 36 semanas dormindo em um barraco, sempre inebriado com o forte cheiro de comida putrefata, Joaquim viu o homem perder a distinção da espécie. Ali, onde ser humano, animal e lixo eram um só, decidiu que dedicaria sua vida para debelar a pobreza.

Anos mais tarde, já formado em Teologia, essa escolha feita quando ainda adolescente o levou a renunciar à vida eclesiástica poucos meses antes de ser ordenado padre. Para a maioria dos celibatários, a ajuda aos desvalidos era parte do ofício de um religioso. Mas, para Joaquim, era a própria religião. Como sacerdote, pensou, teria de melhor dividir as horas dedicadas às missas e confissões no Conjunto Palmeiras – local onde morava desde que deixara o lixão, um bairro em que 25.000 pessoas viviam sem água encanada, luz elétrica e rede de esgoto. Optou por dedicar todo o seu tempo de leigo para mudar a realidade do conjunto, que acabou se transformando na sua própria casa. A tarefa no Palmeiras, também confiada por Dom Aloísio, era ajudar os moradores a alcançar as mínimas condições de sobrevivência.

“Eles precisavam se organizar para lutar, para conseguir o que eles não tinham, e eles não tinham nada. Mas, sem ajuda, pessoas nessas condições não conseguem se unir. Então, comecei o trabalho organizando o movimento chamado ‘Habitando o Inabitável’’’, conta ele, que deixou a confortável casa dos pais para ingressar no seminário.

A experiência no Conjunto Palmeiras, que culminou na criação do primeiro banco comunitário do Brasil, era o motivo da sua presença no Fórum Social Mundial (FSM) 2010, em Porto Alegre, naquela manhã abafada de quarta-feira. Joaquim usava jeans e uma camisa social bordô, presa na cintura por um cinto preto largo que franzia as calças e expunha uma magreza mantida aparentemente sem sacrifícios. Era o único entre os palestrantes do provocativo painel “Economia e Gratuidade” que tinha um testemunho prático a dar. O recifense de 47 anos começou a falar da criação do Banco Palmas no púlpito, como os colegas de bancada. Mas logo desceu do palco improvisado em um dos galpões do cais do porto da capital gaúcha. Sentia-se melhor estando na mesma altura de plateia, hábito adquirido nos tempos em que evangelizava nas favelas. Sua fala, porém, não guardava qualquer semelhança com os sermões monocórdios dos padres. Tampouco o conteúdo.

“Para criar uma comunidade cooperativa é preciso enfrentar a força de uma sociedade baseada no ódio e na competição, reforçada pelo Big Brother. Todo dia eu ligo a televisão e escuto a frase: ‘Quem você vai eliminar hoje?’ São 24 pessoas dentro de uma casa tentando eliminar o outro”, disse e sorriu, satisfeito de ver risos e cabeças balançando em aprovação na plateia.

No Conjunto Palmeira, sede do Banco Palmas, Joaquim instituiu uma lógica oposta à do Big Brother. Era final dos anos 80, quando fundou a primeira associação de bairro da comunidade. Conseguiu conscientizar as pessoas de que era preciso união e espírito colaborativo para melhorar as condições de vida. Ao longo de uma década, graças a passeatas e movimentos de pressão organizados por ele, o conjunto habitacional ganhou luz, saneamento básico, um posto de saúde, creche, uma praça e asfalto. Na metade da década de 90, transformara-se em um bairro urbanizado. Mas algo permanecia preocupantemente imutável. Seus moradores continuavam pobres. O progresso criou um paradoxo: a própria comunidade que se orgulhava da inscrição no centro da praça “Deus criou o mundo, e nós construímos o Conjunto Palmeiras”não tinha condições de pagar o IPTU. Enquanto muitos partiam em debandada, Joaquim saía pelas ruas do bairro questionando: “Perguntava para todo mundo por que éramos pobres. Em geral, todos diziam a mesma coisa: porque não temos dinheiro. Mas essa resposta era tão óbvia que não podia ser verdade”.

E não era, ele logo descobriu. Um levantamento do consumo no bairro, capitaneado por ele, mostrou que os moradores gastavam, por mês, R$ 1,2 milhão em compras de alimentos, roupas e produtos de limpeza. Um montante nada desprezível considerando a renda rarefeita que ali circulava. O problema era onde ia parar todo esse dinheiro. A resposta era a chave para entender a penúria do Palmeira: cada centavo gasto acabava na mão de grandes supermercados ou em shoppings, onde em geral as pessoas fazem suas compras. Ou seja, a comunidade era pobre porque perdia todo o dinheiro suado do final do mês, concluiu.

Em janeiro de 1998, Joaquim juntou R$ 2 mil e criou o Banco Palmas. Criar um banco era a única forma de fomentar o empreendedorismo e estancar a sangria de divisas, pensou o líder comunitário, debruçado sobre livros de economia solidária de Paul Singer, o secretário de Lula. O Palmas nasceu baseado na máxima de que não há desenvolvimento sustentável que não seja endógeno. “Era preciso quebrar a lógica da competição em que um ganha e o outro perde. Era preciso reorganizar o território para que ele se tornasse colaborativo” explicou, em tom professoral e cadenciado, durante a entrevista às margens do Rio Guaíba.

A nova filosofia exigiu a criação de um mapa de produção do Palmeira que mostrava as chances de um negócio prosperar sem prejudicar ninguém ao redor. Cruzando os dois mapas, o da produção e o do consumo, Joaquim conseguia avaliar “se a tapioca da Dona Maria tinha chances de sucesso”. Em caso positivo, Dona Maria estava autorizada a pegar um empréstimo do banco sem precisar apresentar garantias. A operação se tornava pública quase que instantaneamente. Seu nome ia parar no site do banco. “Nada melhor do que o vizinho para dizer se a Dona Maria que quer montar uma banca de tapioca sabe fazer tapioca mesmo”, exemplificou.

O banco do teólogo, que se auto-intitula um sócio-economista popular, deu tão certo que hoje o Palmeiras abriga 240 pequenos negócios. Joaquim calcula que cerca de 30% dos R$ 1,2 milhão antes gastos fora das fronteiras do bairro circulam agora dentro do conjunto. Mesmo aqueles que não querem investir em um negócio próprio são estimulados a comprar das empresas do bairro. E com vantagens. Quem compra na Palma Fashion, a grife da camisa bordô que Joaquim vestia na palestra do FSM, ganha 5% de desconto com o Palma Card, o cartão de crédito local. Dentro do bairro, os reais perdem espaço para os “palmas”, a moeda caseira criada para garantir o PIB da comunidade. “Os palmas são aceitos em todo o comércio do bairro e não saem dali. É a forma de o dinheiro não fugir do bairro”, descreve Joaquim, destacando com a mão esquerda a etiqueta com inscrição “Palma Fashion” da camisa.

A fórmula bem-sucedida do Banco Palmas está hoje replicada em 51 bancos comunitários brasileiros, presentes em nove estados. Joaquim quer criar 1 mil até final de 2012 e agora luta pela aprovação de uma lei em tramitação no Congresso, que estabelece o marco legal dos bancos comunitários. Hoje, esse tipo de instituição opera à margem do sistema bancário oficial e não pode realizar operações básicas, como manter uma poupança. Apesar da demora em aprovar a lei, a experiência dos bancos comunitários brasileiros inspiraram a criação de iniciativas semelhantes na Venezuela, no Equador e em países africanos. A cada seis meses, Joaquim viaja a Caracas para dar consultoria aos venezuelanos envolvidos com a gestão de 3,6 mil bancos populares, que representam 64 vezes mais que o número do país que serve de inspiração.

Depois da palestra do FSM, Joaquim não teria tempo para dar entrevistas. Havia se comprometido em chegar ainda na noite de quarta-feira a Fortaleza para ajudar a estudante americana que está fazendo um mestrado sobre o Banco Palmas. A aluna da Universidade de Columbia saiu da gélida Nova York para a calorenta Fortaleza disposta a avaliar o impacto social e econômico do banco comunitário. A conclusão do estudo pode ser decisiva para aumentar o interesse de investidores nos bancos, que, apesar da sua lógica outsider, dependem de um capital para deslanchar. Nesse momento, a explicação do recifense se torna semelhante a um discurso que poderia levá-lo ao Fórum de Davos. “Nós precisamos que as empresas do Palmeiras invistam em tecnologia e inovação. Hoje o que temos é muito artesanal. É preciso criar escala e investir em métodos ambientalmente responsáveis que aumentem o valor agregado dos nossos produtos”, disse, respondendo à pergunta sobre o que faltava no desenvolvimento do bairro.

Apesar do sucesso do Banco Palmas – que já lhe rendeu a indicação para o prêmio de Transformadores, na categoria Desprendimento, da revista Trip, e a indicação ao Prêmio Empreendedor Social 2009, do jornal Folha de S.Paulo –, Joaquim não deu a pobreza por vencida. A renúncia ao celibato foi a primeira de uma série de sacrifícios em prol da causa. A outra é a opção de não ter filhos. O esforço para subverter a lógica da competição “é tão grande”, explica, que seria “mais responsável não procriar”. Do casamento, porém, não abriu mão. Mas tudo indica que não foi preciso investir muito esforço na conquista.

As duas mulheres da sua vida são moradoras do Palmeira e tão envolvidas com a comunidade como ele. A primeira presidia a associação de moradores do bairro antes de se engajar no movimento feminista que a fez trocar Fortaleza pela Europa. A segunda e atual é Sandra Magalhães, 38 anos, coordenadora de Relações Institucionais do Banco Palmas, criada no Palmeira, a quem Joaquim chama carinhosamente de “minha baiana transgênica”, referindo-se ao penteado rastafári com fitas coloridas que a mulher exibe no cabelo. A rotina de viagens de Sandra é tão intensa como a do marido. Esse é um dos motivos que ela aceitou, sem grandes dramas, abrir mão da maternidade. Quando questionado sobre as dificuldades de manter a palavra, o marido responde: “Nosso filho é a humanidade”.

E a ajuda a ela, sua religião.

Grafite de rua vira peça de colecionador

storm-drain-graffiti-54As placas de metal pintadas pelo grafiteiro Onesto, que protegiam um terreno baldio em um muro na rua da Consolação, agora decoram um galpão do empresário David Chammas, 60 anos. Continuar Lendo →

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o Brasil

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) e o Brasil


Escrito por Daniel Chutorianscy

O Acidente Vascular Cerebral no Brasil não é causa grave para Saúde Pública, e sim Segurança Nacional.

No Brasil, morrem por ano 250.000 pessoas de Acidente Vascular Cerebral (AVC) – ou “derrame”. Quem sabia isso? E ainda mais, milhões de brasileiros ficam seqüelados, tornando-se “invisíveis” para a sociedade. Ninguém sabe, ninguém viu….

É a maior causa de mortes no país, superando infartos, câncer, acidentes de trânsito. Esses dados são fornecidos pelo canal oficial de informações do governo, a TV Globo (novembro 2009, “Bom Dia Brasil”). Talvez seja muito mais. Quem sabe?

A cifra de 250.000 é um número assustador, corresponde ao tamanho das guerras e tragédias como furações ou “tsunamis”. E ninguém sabe nada disso… Perguntamos: como é que pode, nenhuma informação ou prevenção?

Para os governos atuais ou do passado, trata-se do fenômeno da “invisibilidade”, não vê, não existe, não toma nenhuma medida e deixa rolar.

Certamente existe uma vinculação imediata do AVC com as indústrias de fumo, álcool, drogas (lícitas ou ilícitas), alimentação (o Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos, o transgênico tomou conta do mercado do consumidor brasileiro), baixíssimos salários, hipertensão, diabetes e o “tigre nosso de cada dia” que é o estresse de enfrentar essa realidade alienadamente, uma espécie de “AVCerização” social. Um sistema de saúde (saúde?) moribundo, com a mídia propagando aos quatro ventos o consumo de bens pouco duráveis, repetindo a “invisibilidade” com o mesmo bordão: “não vê, não existe… e deixa rolar”. A doença não traz lucros institucionais.

O acidente vascular cerebral é uma interrupção do circuito cerebral. Pode ser de dois tipos: isquêmico (85% dos casos) e hemorrágico (15% dos casos). Saiba você que até quatro horas após um incidente de AVC isquêmico, pode-se usar medicamento específico (o trombolitico alteplase), cuja performance é de 50% de melhoras, não deixando seqüelas.

Tal medicamento existe no Brasil, aprovado seu uso em protocolos do Ministério da Saúde. Você sabia? Não. É somente usado em alguns poucos hospitais particulares, a preço muito alto.

Milhares de vidas podem ser salvas, milhares de pessoas podem dispensar a “invisibilidade ou AVCerização social”, mas a que preço?

Investir na doença ou na saúde? A opção pela saúde implica em remover a “AVCerização social” e começar a nos mexer. “Ninguém quer adoecer ou morrer”, “ter saúde é o principal”.

Forcemos, já que é nosso direito, as campanhas nacionais de informação e prevenção, inclusive o diagnóstico rápido, os hospitais do SUS e conveniados, bem como os particulares, a ter o medicamento adequado; organizemos grupos nas unidades de saúde de pacientes avecerizados e seus familiares, repetindo o modelo dos grupos de hipertensos, diabéticos etc.; revisemos os critérios de aposentadoria para pacientes com AVC; forcemos o governo e o Ministério da Saúde a “verem” o que não querem “ver”.

Temos certeza absoluta de que, quando conseguirmos detonar essa campanha, o país inteiro cobrará as medidas, em vez do “avecê social”, teremos um verdadeiro “pulando a cerca” de saúde, cidadania, solidariedade e justiça. “Pular a cerca” é dar visibilidade, não é a sacanagem habitual, aquela do fenômeno da invisibilidade “não vê, não existe…”.

Daniel Chutorianscy é médico, teve um AVC cerca de um ano atrás, não se manteve “invisível”, voltou a trabalhar com algumas seqüelas, não fez uso, lamentavelmente, do alteplase, fundou o Grupo AVC-PULANDO A CERCA em agosto de 2009, que, neste pequeno período de tempo, continuou brigando pela Saúde, e “pulando a cerca” pela visibilidade, pela justiça e contra a “avecerização” social. Que o AVC, ou derrame, não mais seja um “derrame” de alienações e engodos. Exigimos Saúde, Educação, Justiça como instâncias primeiras.

Daniel Chutorianscy é médico. CRM: 52-27646-7

Curso Desenvolvimento e Gestão Cultural

O Programa Pensar e Agir com a Cultura e a Fundação Clóvis Salgado promovem, no período entre 9 de março e 26 de junho, a 8ª edição do curso gratuito de capacitação de gestores e agentes culturais “Desenvolvimento e Gestão Cultural 2010”. Os interessados tem até o dia 2 de março para se inscrever por meio do site http://www.pensareagircomacultura.com.br

Os alunos que forem selecionados terão aulas práticas e teóricas que irão capacitá-los para a construção de projetos, programas e políticas culturais comprometidos com o desenvolvimento local e microrregional. O curso será ministrado na Sala de Educação Continuada do Palácio das Artes, às terças e quintas das 19h às 22h30 e Sábados (13/3; 24/4 e 19/06) das 9h às 17h30.

Desenvolvimento e Gestão Cultural 2010: Histórico

Há sete anos o programa Pensar e agir com a Cultura articula ações de formação e informação nas áreas da gestão e da diversidade cultural. Nesse período, foram capacitados para o trabalho efetivo, criativo e transformador com a cultura em sua diversidade, centenas de gestores e agentes culturais, artistas, arte-educadores, pesquisadores e pessoas que atuam em circuitos formais e informais de cultura, educação e comunicação.

Entre as formas de intervenção do Programa Pensar e Agir com a Cultura, está o Curso Desenvolvimento e Gestão Cultural. Sua primeira edição aconteceu em 2003 e, desde então, esteve presente em mais de 35 cidades-pólo de Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. É um curso livre, estruturado em sete módulos conceituais, duas imersões criativas e três laboratórios práticos.

Informações:
Tel:(31) 3463-3141
e-mail: info@pensareagircomacultura.com.br

Feira de Vinil

Carolina Braga / Guarani FM

Carolina Braga

A única fábrica de Vinil em operação na America Latina está com produção super ativa. É a Polysom. Foi desativada em 2007, voltou a operar no início deste ano e está pronta para atender a demanda de todos os selos e gravadoras do Brasil.

Ou seja … vai ter fila porque agora é super cult fazer e ter vinil. Os primeiros que saem do forno no momento retomada são Onde brilhem os olhos seus, de Fernanda Takai, Chiaroscuro de Pitty, Fome de tudo de Nação Zumbi e Cinema, dos gaúchos do Cachorro Grande.

A previsão é de que os LPs já estejam disponíveis para venda em março.

E falando em Vinil a Discoteca Pública promove no próximo dia 6 de março a Décima Terceira Feira do Vinl e CDs independentes … nessa dá para achar o que é raro.

13º Feira do Vinil e CDs Independentes

Data – 06 de Março de 2010 – Sábado

Horário – 10H às 18H

Entrada Franca

Local – Rua Machado, 207 – Floresta

Próximo ao Colégio Batista – Ônibus – 8107

Contato (31) 3036-2919

Tropa Sagaz: quem disse que rap é coisa (só) de menino?…

divulgacao

O Gente é pra brilhar deste domingo conversou com Silvia Santana, a Sil Kaiala, integrante do grupo feminino de rap Tropa Sagaz. O grupo, formado por quatro mulheres, moradoras de Brotas, Narandiba e Tancredo Neves, considerados bairros desfavorecidos de Salvador, está na ativa desde o ano passado e vem garantindo o seu espaço no Movimento Hip Hop baiano. São mulheres que optaram por reivindicar e compartilhar com a sociedade, as suas ideias através do rap, usando as rimas, o compasso e dinâmica, próprios do som, importado dos negros americanos. Confira a entrevista com Sil Kaiala, além das fotos do Tropa Sagaz – “uma flor de quatro pétalas no solo da favela”.

Como e quando surgiu o Tropa Sagaz? Todas vocês já faziam parte do Movimento Hip Hop?

O Grupo surgiu em 29 de março de 2009. Decidimos formar o grupo através de uma conversa que tivemos. Na verdade foi uma ideia que surgiu em uma reunião da Família STN (um clã composto por vários grupos de rap de Salvador). Mc Nana fazia parte do Grupo Fase Ideológica (grupo de rap do bairro de Narandiba); Mc Nete é esposa de um dos integrantes do Fase Ideológica, ela fazia participações no grupo juntamente com a Nana; Yaiá Reis canta no grupo de rap Ilusão Obscura e eu, que cantava em um grupo de rap feminino chamado Hera Negra. Bom, em um evento que ocorreu no Bairro de Sussuarana, eu e Yaiá cantamos com Mc Nete e Mc Nana. Vendo o que aconteceu, decidimos em uma reunião, nos juntarmos e formarmos o Tropa Sagaz.

tropa_sil

Eu – Sil Kaiala – faço parte do Movimento Hip Hop há 10 anos. Cantava com o grupo Hera Negra, formado só por mulheres, era membro da Possi Orí (que hoje é a rede Aiyê), e do Movimento as “Maloqueiras” (composto pelas mulheres da rede Aiyê). Mc Nana nunca fez parte do Movimento Hip Hop, ela só cantava no Fase Ideológica, só veio conhecer mais do Movimento através do Tropa Sagaz; Mc Nete também não conhecia nada do Movimento Hip Hop, só fez participação no Fase Ideológica; Yaiá Reis conheceu o Movimento Hip Hop há três anos por fazer parte do CRIA (uma ONG que trabalha com adolescentes). Lá ela conheceu pessoas que eram envolvidas com o Movimento, mas não fez parte. Começou a cantar Rap naquele mesmo ano com seus amigos da ONG, depois daí se engajou e hoje está no TROPA SAGAZ.

Por que um grupo só de mulheres?

Bom, primeiro, porque amamos cantar, cantar e cantar rap. Segundo, porque aqui em Salvador não se vê mais grupos de rap feminino, e é muito bom poder representar as mulheres. Alguns grupos de rap, convencionalmente, não falam das mulheres como tem que ser falado. Falam de uma forma reversa, comparando com objetos e relacionando sempre ao sexo e não estamos aqui para aceitar esse tipo de coisa.

Vocês dizem que são da periferia, de onde exatamente? É de onde vocês moram que vem a inspiração para as letras das músicas?

(risos) Somos sim da periferia de Salvador, eu moro em Brotas, mas não é na área nobre (risos), Mc Nete e Nana moram em Narandiba e Yaiá Reis mora em Tancredo neves. As inspirações vêm de tudo que vivemos e passamos. Tanto da periferia, pelas coisas que ouvimos e vemos e também pelas coisas que sentimos.

integrantes

Quais as principais críticas que vocês fazem ao Estado, nas letras?

Ah são tantas coisas. O descaso e a falta de respeito com nosso povo, falta de oportunidade.. Não nos queixamos pelo que temos, mas sim pelos que nos é negado! Não queremos migalhas do Estado e sim nossos direitos.

E a Tropa Sagaz, está sobrevivendo bem no mercado da música em Salvador, que é abafado pelo axé music? Onde vocês fazem show?

Sobrevivendo não, paralelamente ao que fazemos temos as nossas correrias. Não dá pra viver de rap aqui em Salvador. Quem dera que o mercado da música olhasse também para esse estilo musical. Bom, tocamos em vários lugares, é mais comum tocarmos em bairros do que em casa de show. Fizemos alguns sons no Pelourinho e também em São Paulo.

A Tropa Sagaz tem CD gravado? Onde pode ser encontrado?

Ainda não, estamos providenciando isso para 2010.

Qual a maior vantagem do grupo ser totalmente feminino? Existe algum ponto negativo nisso? Sofrem algum preconceito?

Não diríamos vantagem, mas é sempre novo e diferente ver mulheres reunidas na militância do rap. O que há de bom nisso é a curiosidade que despertamos nas pessoas… Todos parecem muito interessados em conhecer o tal grupo de mulheres que cantam rap, até as pessoas que não são do Movimento Hip Hop se interessam em conhecer nosso trabalho. Existe, sim, o preconceito que é fruto do machismo. Muitos homens, antes de nos ver em ação, fazem algumas piadinhas sem graça, mas isso tiramos de letra!

cantando

Vocês gravaram a música “Chuva de Ideias” em São Paulo, com outros grupos de rap. Então o alcance da Tropa Sagaz já ultrapassou os limites de Salvador?

Foi uma experiência maravilhosa para o Tropa, saber que o pessoal de Sampa curtiu o nosso som é muito bom. Ainda não saímos de Salvador. São Paulo foi o primeiro lugar que fomos, mas, com a fé em Jah, vamos sim ultrapassar esse limite que tanto queremos.

Quais as metas do grupo?

Gravar o nosso CD e expandir nosso trabalho.

Todas têm trabalhos paralelos ou vivem exclusivamente do grupo?

Dizer que vivemos do rap é utopia, temos trabalhos paralelos, como citamos, não dá para viver de rap aqui em Salvador. Quem dera (risos).

“Uma flor de quatro pétalas no solo da favela” é como vocês se definem. Qual a mensagem que o grupo quer passar com essa frase?

Queremos dizer que em meio a tanta sujeira, tanta desordem e descaso nas nossas periferias, nós existimos e resistimos. Queremos expor a beleza que existe no olhar de um povo sofredor, no sorriso de uma criança, na garra e coragem das mulheres de fibra que a cada dia vem conquistando seu espaço. Nós estamos aqui e queremos ser vistas, escutadas e sentidas.

Caso queira falar sobre algum assunto que não foi abordado acima, fique à vontade.

Na verdade não quero falar de nenhum assunto, mas mandar um Salve para todos e todas que fazem o Hip Hop crescer aqui na Bahia, e para a galera que apoia o TROPA SAGAZ e que curte nosso som: Com o discurso afiado e a voz firme, somos uma Tropa com atitude Sagaz!”

(*) Entrevista publicada originalmente em À queima roupa – jornalismo com segurança.

100 anos de Historia de Luta pela Igualdade

Nos 100 anos desde a instituição desta data, muitas lutas e muitas histórias como as que lhe deram origem se sucederam em todo o mundo.

Por Abgail Pereira*

Gerações de mulheres combateram a opressão capitalista e a discriminação de gênero, muitas vezes sob as mais violentas formas de repressão, obtendo conquistas de grande vulto, que mudaram radicalmente o papel desempenhado pela mulher na sociedade na busca da superação dos conceitos históricos de inferioridade e submissão ao homem, ao mesmo tempo em que abriram caminho para a compreensão das causas da opressão de gênero.

No Brasil, as mulheres têm uma trajetória não menos vitoriosa. Conquistaram o direito ao voto, estão no mercado de trabalho, lutaram pela democracia nos longos anos da ditadura militar, lutaram pelos direitos humanos, combateram a violência de gênero, o desemprego e a precarização do modelo neoliberal . Foram às ruas e às urnas exigir a igualdade na lei e na vida.

Neste trajeto, inúmeras conquistas foram alcançadas, com destaques para a ampliação da licença maternidade, a proibição da discriminação sexual no trabalho, o direito a posse da terra em nome da mulher rural, a lei Maria da Penha para fazer frente à violência doméstica, e a reforma no Código Civil, para citar as de maior impacto.

No entanto, apesar do crescimento da inserção no mercado de trabalho e a elevação do nível de escolaridade, a desigualdade salarial, a dupla jornada, o assédio moral e sexual e a violência e opressão ainda são fatores marcantes na vida das mulheres, demonstrando a necessidade de crescer na organização e mobilização para continuar a luta contra a discriminação de gênero e de classe.

A Secretaria da Mulher da Central de Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) marcará os 100 anos do Dia Internacional da Mulher com a divulgação da Campanha aprovada no 2º Congresso da Central, que contempla as principais reivindicações das trabalhadoras: Igualdade Salarial e de Oportunidades, Creches Públicas, a Licença Maternidade de 180 dias para todas as trabalhadoras, obrigatória e não facultativa bem como a aplicação imediata da Lei Maria da Penha e do Plano Nacional de Direitos Humanos, como instrumentos de combate à violência contra a mulher. Ao mesmo tempo, mobilizará as trabalhadoras para a luta em defesa da Redução da Jornada de Trabalho, da Reforma Agrária e do Fim do Fator Previdenciário.

Merece destaque o fato de que o Dia Internacional da Mulher, proposto por Clara Zetkin, em 1910, foi instituído dentro da perspectiva da luta pela construção do socialismo. Hoje, passados cem anos, essa perspectiva continua viva, no coração e nas mentes das mulheres que buscam a igualdade. Por isso, também mobilizaremos as trabalhadoras, para que nas eleições gerais deste ano se posicionem firmemente em defesa da continuidade das mudanças, na busca de um projeto de desenvolvimento nacional que tenha como perspectiva a consolidação da democracia, impedindo qualquer tentativa de retrocesso neoliberal da direita, bem como com vistas à ampliação da representatividade política das mulheres.

Queremos seguir, juntos, a luta de homens e mulheres que combatem o sistema capitalista e buscam a construção de um novo modelo econômico, político e social, um mundo sem fome, sem miséria, sem excluídos, sem opressão, porque temos a firme convicção de que a perspectiva da igualdade social é a principal luta do Movimento Emancipacionista Feminino!

Viva o 8 de março e as mulheres de todas as gerações na luta por um novo mundo, de igualdade!

*Abgail Pereira é Secretária da Mulher da CTB

TRÁFICO EM GUERRA CONTRA O CRACK


(Archimedes Marques)

Crack e desgraça são indissociáveis e quase palavras sinônimas. Relatos dos seus usuários e familiares, fatos policias diários e opiniões de especialistas sobre os efeitos e as conseqüências funestas da droga podem ser resumidos em três palavras tão básicas quanto contundentes: sofrimento, degradação e morte.

A composição química do crack é simplesmente horripilante e estarrecedora. A partir da pasta base das folhas da coca acrescentam-se outros produtos altamente nocivos a qualquer ser vivo, tais como o ácido sulfúrico, querosene, gasolina ou solvente e a cal virgem, que ao serem processados e misturados se transforma numa pasta endurecida homogênea de cor branco caramelizada onde se concentra mais ou menos 50% de cocaína, ou seja, meio à meio cocaína com os outros produtos citados.

O seu usuário pode ter convulsão e como conseqüência desse fato, pode levá-lo a uma parada respiratória, coma ou parada cardíaca. Além disso, para o debilitado e esquelético sobrevivente seu declínio físico é devastador, como infarto, dano cerebral, doença hepática e pulmonar, hipertensão, acidente vascular cerebral (AVC), câncer de garganta, além da perda dos seus dentes, pois o ácido sulfúrico que faz parte da composição química do crack assim trata de furar, corroer e destruir a sua dentição.

O crack é tão perigoso quanto degradante e mortal que até o próprio traficante dele não faz uso e agora já começa a repensar o seu comercio.

Recentemente o jornalista e cientista político SEGADAS VIANA, escreveu sobre a questão de um ponto do tráfico do Rio de Janeiro estar fazendo campanha contra o crack. São trechos básicos da matéria jornalística denominada Tráfico veta copinho pra acabar com crackudo vacilão: “Salve um crackudo… Rasgue o copo”. As palavras, escritas em um cartaz ao lado da foto de três jovens fumando crack e da imagem de um copo de plástico, fazem parte de uma campanha para tentar dificultar o uso da droga. Como os usuários preferencialmente utilizam copinhos de guaraná natural, a idéia é convencer os fãs da bebida a rasgá-los antes de jogá-los fora.

Mais inusitado que a campanha é o local em que ela tem sido feita: o cartaz foi encontrado durante uma incursão policial no Morro do Pavão, em Copacabana, na zona sul do Rio. Ele estava colado em uma das bocas-de-fumo controladas por traficantes ligados à facção criminosa Comando Vermelho (CV), na principal entrada da favela.

Mas o cartaz não é a única bandeira na tentativa de desestimular o uso do crack. Um funk batizado como “Crackudo vacilão” tem sido tocado insistentemente nos bailes realizados nos morros e favelas.

Em outra matéria jornalística, desta feita no Rio Grande do Sul, publicada no Jornal Zero Hora, dia 19/11/2009, o jornalista HUMBERTO TREZZI assim discorreu em parágrafo basilar do seu artigo denominado Traficantes vetam crack em Santa Cruz: “A quadrilha que domina a venda de drogas no bairro mais populoso de Santa Cruz do Sul decretou: não vai vender mais crack. Além disso, anunciou “represálias severas” a quem comercializar a droga na sua área de atuação… venderão os estoques. Depois, vai vigorar a pena do submundo contra quem violar a regra – que pode incluir morte.”

Tais campanhas denotam a preocupação dos traficantes quanto a perda substancial da sua clientela que logo morre em decorrência da ação devastadora da droga, ou seja, o tráfico está perdendo mercado porque um dos seus produtos está matando mais rápido os seus próprios clientes, daí a motivação desta suposta boa ação que estão a praticar para a sociedade.

É fato realmente inusitado: traficantes em campanha e em início de batalha mortal não pela disputa de território, mas pela tentativa desesperada de conter o avanço dos malefícios do crack que muitos grupos teimam em reproduzir.

Assim, nesta nova modalidade de guerra do tráfico de drogas, que pode ser batizada de guerra do crack, vez que supostamente o comando vermelho já tomou partido, pode haver o aumento da dissidência neste comércio e como conseqüência, uma grande quantidade de mortes.

Autor: Archimedes Marques (delegado de Policia no Estado de Sergipe. Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Segurança Pública pela UFS) – archimedes-marques@bol.com.br

As Causas da Criminalidade

Pedro Mundim

http://www.pedromundim.net

As causas do fenômeno da criminalidade são variadas e complexas – não podem ser, sequer, apontadas com exatidão, muito menos eliminadas.

A desigualdade social pode favorecer alguns tipos de crime, mas mesmo se eliminada, ainda sobrariam mil outros motivos para se cometer crimes. Embora a associação entre miséria e banditismo, no Brasil, seja notória, eu jamais ouvi falar de um chefão de tráfico da favela que tenha começado sua vida como criança de rua. Crianças de rua se tornam, no máximo, trombadinhas. O perfil do criminoso profissional é outro: em geral é pobre, mas não miserável, e soube adaptar-se bem ao meio marginal onde se criou, explorando as oportunidades de ganho. Não se trata de um chefe de família desempregado que torna-se bandido para matar a fome da família – esse criminoso ocasional até existe, mas nunca é de alta periculosidade, é alguém que vai, no máximo, assaltar um botequim ou padaria, e quase sempre se dar mal na empreitada, já que não tem experiência. O verdadeiro criminoso profissional entra para o crime simplesmente porque compensa, uma vez que são altos tanto os ganhos quanto as chances de impunidade – ainda que ele vá preso, ele sabe que ficará pouco tempo atrás das grades.

Penso que a relação entre pobreza e crime é indireta: comunidades pobres tendem a ser desorganizadas e abandonadas pela polícia, daí que indivíduos neste meio que decidam se tornar criminosos encontrem pouca resistência, ao contrário do que acontece nos bairros da classe média, onde um garoto que furta para comprar drogas tem a desaprovação de seus pais e de seus colegas, e se um vizinho o vir furtando o rádio de um carro, não terá receio de chamar a polícia.

O fenômeno do crime não tem uma solução cartesiana, tipo eliminada a causa, desaparece a conseqüência. O crime não pode ser nunca eliminado, pode no máximo ser mantido a níveis toleráveis. A mudança do regime político do capitalismo para o socialismo apenas muda o perfil do criminoso: de fato, em um país como Cuba de nada adianta roubar um vizinho que não tem nada de valor em casa, muito menos seqüestrá-lo se ninguém de sua família tem dinheiro para pagar o resgate. O crime nos países socialista é de outro tipo: uma vez que, por definição, só se pode roubar quem possui algo, e sob o comunismo apenas o Estado é proprietário, então todos roubam o Estado: operários desviam das fábricas, funcionários das lojas desviam dos estoques, médicos desviam dos hospitais e tudo vai parar no mercado negro, onde é vendido por dólares. Quando o comunismo acaba, toda essa podriqueira vem à luz e explode como um tumor espalhando pus para todos os lados: é por isso que todo ex-país comunista torna-se paraíso das máfias (vide a ex-URSS). Vocês acreditam que todas essas quadrilhas surgiram da noite para o dia em que o capitalismo voltou? Ora, existe leite em pó instantâneo, mas não existe máfia instantânea. Essa quadrilhas com certeza existiam desde muito antes, comandadas pelos burocratas do regime. Não me admira isso. Os socialistas começam dizendo que é lícito roubar, pois se trata de “expropriação”. O que se pode esperar de um regime que justifica o roubo, senão, a gestação de um país de bandidos?

Penso que a legitimidade da propriedade privada é o ponto fundamental do combate ao crime, e não apenas dos crimes contra o patrimônio.

Os Novos Campos de Concentração na Forma de Favelas


As favelas se apresentam como campos de concentração, pois seus moradores são despojados de seus direitos enquanto cidadãos e despojados de sua condição de humanso. Assim como no passado, tudo acontece com a prática, conivência e omissão daqueles que estão no poder.

Quando vemos imagens ou relatos de pessoas que passaram pelos campos de concentração, de imediato nos indignamos diante de tal barbárie humana. Assim como fatos atuais, esses fatos já foram presentes e hoje são passados, no entanto, no auge do acontecido, na época a opinião pública foi isolada de qualquer informação sobre o que aconteceu, porém não podemos esquecer que tais atos tiveram a conivência por parte de alguns países e omissão de outros, pois havia interesses econômicos e políticos em jogo.O campo de concentração serviu não só como espaço de experiências científicas, mas principalmente como uma demonstração de superioridade de uma ideologia sobre uma parcela da população que não apresentava utilidade dentro de uma determinada concepção de sociedade traçada por grupos específicos.Diante de uma atual realidade política, econômica, social e cultural podemos perceber que pessoas são jogadas a residirem em favelas, a lutarem pela sobrevivência e são jogadas a própria sorte. São pessoas de origens diversas, de culturas diversas, de olhares diversos mais que possuem algo em comum, ou seja, o ato de sonharem. Assim como nos campos de concentração, aos poucos vão perdendo seus sonhos, e são colocadas nas câmaras de gases do vício das drogas, do desemprego, da falta de perspectivas na perda de identidade enquanto pessoas. São desassistidas pelo Estado, pois as políticas públicas fundamentais são repassadas de forma a não terem resultados positivos. Imaginemos a saúde, a segurança, o transporte e as demais políticas públicas que não existem nem de fato e nem de direito.Assim como no passado, os problemas das favelas são criados a partir de uma lógica de extermínio, só que de forma mais branda e lenta, para que não cause indignação imediata, logo as coisas são passadas de forma pensada para que se tenha uma imagem de naturalidade. Os grandes beneficiários do passado são justamente as grandes potências de hoje. E os beneficiários do presente, são justamente aqueles que almejam o poder. Pois ainda está em jogo os mesmos interesses do passado, porém de forma mais estratégica.Uma de suas principais estratégias é sempre ligarem drogas a favelados, enquanto seus reais beneficiários não são nem favelados e nem pobres. No futuro as autoridades atuais serão repugnadas e tidas como coniventes e omissas diante do extermínio em massa também de forma fria, cruel e desumana, porém lenta, com uma população que se aglomera em favelas, assim como fazemos hoje com as autoridades do passado com os campos de concentração, seus executores, aliados e omissos.

Hip Hop: Educação para Subversão

By Nelson Maca - Arquivo Blackitude

Nelson Maca · Salvador, BA

vereadores, prefeitos, deputados, governadores, ministros, presidente já deram as caras… ou as cartas…. já existem mcs, b.boys, djs e grafiteiros de carteira assinada, batendo ponto, saindo à luz do dia pro trabalho… concorrendo a prêmios de artista-operário padrão… já tem alunos de escolas de belas artes falando dos tais núcleos de graffiti.. djs em banda de bossa nova… b.boys na dança clássica… departamentos e lojas inteiras de hip hop… malhação com rap… ginásticas hip hop… já tem grafiteiro divulgando telefone nos trabalhos…. já tem b.boy em propaganda de cursinho pré-vestibular… já tem mc vendendo coca-cola… os djs se alastram como praga… muita roupa…. muitas fantasias… e haja fotos, zines, fotologs, sites, blogs, listas…. e haja artigos, ensaios, monografias, dissertações e teses… e livros… diante de tanta “luminosidade” de fora, eu pergunto: afinal, qual é a do hip hop? como manter sua luz própria? qual é a nossa? a legalidade ou a marginália? a realidade ou a lealdade? a subversão ou a moralidade? o muro ou o museu? as páginas ou as paredes? a praça ou o teatro? a boca ou o disco? as ruas ou as universidades? a sombra ou a luminosidade? o centro ou a quebrada? fazer tantas questões não significa que eu tenha tantas respostas. aliás, não tenho nenhuma… sei que existe um filme chamado “bomb the system” que deixa qualquer espectador intrigado, e emocionado. retrata a parceria de dois grafiteiros: um mais novo e o um bem mais velho; um branco e um preto; um fiel às ruas, à aventura; o outro com uma nova namorada, chamando-o para a “evolução” da arte. tudo situado no submundo urbano: ruas, festas, dinheiro, drogas, sprays roubados, esquadrão anti-vândalos, crimes, perseguições, peripécias e muita estética nas margens. tudo narrado por um terceiro personagem. um atento e leal aprendiz que se envolve até os ossos nessa arte sujeita a chuvas, dias de sol e trovoadas; tempestades e calmarias. este filme trágico-filosófico problematiza a discussão acerca da razão de ser do graffiti e do grafiteiro com destreza, espontaneidade e beleza. não dá para assisti-lo e sair ileso. quando terminam os 95 minutos de projeção, o espectador já não é o mesmo do começo. inevitavelmente, cresceu! e crescimento é uma palavra que, atrelada às palavras liberdade, beleza, verdade, rebelião e transgressão, sustentam a credibilidade do hip hop que comungo. no hip hop, ninguém deve sair como entrou. ou é isso, ou não é hip hop. porque o hip hop é revolução permanente. quando deixar de ser assim, será o início do fim. com o hip hop na moda, há muita sedução, alienação, engano, vaidade, traição, angústia, disputa. a verdade dos rebeldes tem que ser ecológica: divulgar, fortalecer e discutir criticamente a cultura hip hop como forma de evolução humana e impedir que o hip hop seja entregue aos saqueadores e/ou colonizadores da cultura de rua. mas não se deve esquecer do hip hop – muita política e pouco hip hop tem sido a tendência do movimento. ou, ao contrário, muitos artistas e poucos ativistas. como sempre: precisamos encontrar o equilíbrio. fazer mais do que preciosismo ego-centrado, ou ser mais que joguete nas mãos dos que não tem compromisso com a nossa tragédia urbana, o hip hop tem que proclamar a independência da arte e do artista: independência humana, política, étnica e estética. tem que promover o crescimento integral dos ativistas e simpatizantes. tem que contaminar os desatentos e enfrentar com consciência, convicção, altivez e firmeza os desafetos. não há outro caminho, na minha concepção, senão o caminho da rebeldia contra todas as formas de prisão que sempre tentam apagar, calar ou cooptar os rebelados. o rap, o break, o graffiti, o dj que se quer sério não pode obedecer uma confraria de manjadas comadres; mas, também, que não seja um balaio de gatos, misturando ratos e cachorros numa harmonia insustentável. como ouvi na minha adolescência, e passei a dizer para mim mesmo: os radicais não tem escolha. então, penso que não há concessões ou pretextos: hip hop é hip hop! hip hop é informação! hip hop é denúncia! hip hop é agressão! hip hop é transgressão! hip hop são vozes, linhas, movimentos e cores! hip hop são técnicas! hip hop é consciência! o hip hop que me interessa tem que ser mais que uma galeria de fotos e desenhos. mais que um sonzinho bom. mais que um corpo elástico ou mecânico. mais que riscos no vinil. mais que teses universitárias ou programas de televisão. tem que ser independente, para experimentar na forma e discutir a vida com profundidade e sem restrição alguma. tem que problematizar a cena, para que se diferencie o joio e o jogo. precisa debater as iniciativas governamentais, os contornos das nascentes profissões que o envolve e sua legalidade. saber dos falsos manos. precisa compreender a ação da academia enquanto faca de dois gumes. diferenciar o ativista em liberdade do carregador de bandeiras. diferençar a expressão vital e visceral e o sub-produto comercial baixo. precisa discutir os graffitis banidos da cidade pelos agentes governamentais que cobre as grafias de iniciativas não governamentais. da polícia que vê nos artistas de rua vândalos em potencial. da inflação dos vinis nacionais e sobre-taxação dos importados. do desprezo ao rap enquanto estética possível nas política culturais. o hip hop precisa indagar como projetos oficiais pretendem atingir as periferias mais periféricas, respeitando suas especificidades – longe das câmeras de televisão e do olhar dos ilustres turistas. a cultura hip hop em que acredito deve se perguntar a cada novo número: afinal, qual é a do hip hop? a legalidade ou a marginália? a realidade ou a lealdade? a subversão ou a moralidade? o muro ou o museu? as páginas ou as paredes? a praça ou o teatro? a boca ou o disco? as ruas ou as universidades? a sombra ou a luminosidade? o centro ou a quebrada? o hip hop, ao contrário de um problemático sincero como eu, deve sair de cima do muro, e arriscar algumas respostas…
e, antes que eu esqueça, declaro meu respeito e admiração por Sérgio Vaz, grafando-o, maiusculamente, com S de Sabedoria e V de Verdade, pois o hip hop de que falo e que acredito só é possível com Homens que tenham a estatura desse poeta – aliás, H de Humildade fecha a tríade de conceitos que define esse guerreiro da linha de frente da da cooperifa.

com respeito,
nelson maca (blackitude)

São Lourenço proíbe rap e funk no Carnaval


Decisão da Prefeitura foi tomada em conjunto com representantes da Segurança

Jéssica Balbino

“Que tempo bom, que não volta nunca mais (…)”, esse pequeno refrão é parte de uma música do Thaíde e DJ Hum. Para quem não sabe, a dupla ficou famosa nos anos 80 por lançarem o Rap – ritmo e poesia – no Brasil.

Saudade do tempo em que a ditadura ia por água abaixo, junto com a censura e era possível cantar os protestos e pregar a paz, o amor, a união e a diversão, incentivadas por Afrika Bambaataa, pai da cultura hip hop.

Entretanto, não é de hoje que a cultura feita nas ruas vem sendo depreciada e barrada em eventos, como aconteceu na Virada Cultural em 2008 quando o palco do “Baile Chique” foi colocado a quilômetros de distância das demais atividades e policiais, com a agressividade costumeira, revistavam os adeptos da cultura, tratando-os como bandidos.

A novidade fica por conta da decisão tomada pela prefeitura de São Lourenço, que proibiu, através de um decreto o rap e o funk no Carnaval.

Se eu quiser estar na cidade e dançar ao som de James Brown ou do rei do pop Michael Jackson não vou poder?! Ah …porque eles fazem funk.

Quer dizer que eu, como jornalista e muitos de nós, escritores da nova geração contemporânea e referência nacional somos pessoas que incitamos a violência o desrespeito à autoridade?

Será mesmo? Porque sou adepta do hip hop e por conseguinte do rap ! Adoro o ritmo e as letras nacionais. De Racionais MC’s ao novo Emicida, passando por raps regionais como o do grupo UClanos e do Elemento.S da capital mineira.

Voltamos ao tempo da ditadura, da censura. Proibir determinado estilo porque querem resgatar o axé e as marcinhas? Não estou dizendo que uma música é melhor do que a outra, mas o decreto (absurdo) dita regras para a festa popular. Se é popular é feita pelo povo. Isso está claro e não deve ter restrições quanto ao estilo musical ou manifestação cultural.

Sim, porque o funk, seja o antigo ou o carioca, gostem ou não, são manifestações culturais. Crime ou cultura? O som dá medo…e prazer ! E isso está presente em teses de doutores, em livros de escritores urbanos e contemporâneos e sendo ensinado nas escolas, quer queiram, quer não.

Além da execução pública do rap e do funk pelos grupos que participam do Carnaval o decreto proíbe os estilos até mesmo em carros particulares que circulem pela área onde ocorre o Carnaval. Aaaah, dá licença. Não vou a São Lourenço, mas se vivesse na cidade, escutaria o que quisesse no carro, seja onde fosse. O carro é meu, o som também. O gosto então, nem entro nesse mérito. Qualquer pessoa tem o direito de ir e vir. Mais ainda de ouvir o que quiser onde quiser. Faça-me o favor. É Carnaval. É festa popular. É manifestação. Aliás, a maior do país.

Como assim eu não posso ouvir e dançar ao som do rap e do funk?! A notícia diz mais, que a decisão foi tomada pela Prefeitura em conjunto com o juiz do Juizado Especial, Ronaldo Ribas (parabéns, magistrado), representantes da Polícia Militar e do setor de turismo da cidade.

Segundo a notícia, a proibição tenta preservar uma festa baseada em seus ritmos originais.

Não por nada, mas o funk já se tornou um ritmo original no Brasil. O rap, a mesma coisa. Por que proibir? Por que incomoda tanto? Uma cidadezinha do interior mineiro pode calar alguns gatos pingados que vão para a estância curtir o Carnaval, mas não consegue calar o grito de protesto que emana dos becos, guetos e vielas de todo país, seja por meio da oralidade do rap, das batidas do funk ou da literatura marginal, que se utiliza destas e de outras armas, dadas por esta mesma comissão de segurança carnavalesca, para guerrear contra a humilhação, a repressão e a censura.

Conseguem calar, mesmo que brevemente, algumas pessoas em seus carros e em seus blocos de Carnaval, mas não vão parar a nossa mídia, o jornalismo e tampouco a literatura. Pensaram que não sabíamos ler e estamos escrevendo livros. Tomem conhecimento disso, elite. Escrevemos sobre rap, escrevemos sobre funk, nossa cultura o hip hop. Somos marginalizados mas não nos tornamos marginais. Temos sim, direito de trabalhar e exercer nossas profissões e ainda mais, de termos o que os outros estilos musicais têm. Temos o DIREITO de cantar a nossa música. No seu carro, no meu, no de quem quiser, QUALQUER pessoa tem o direito de ouvir o que bem entender ! Seja marcinha, MPB, funk, gospel, eletrônica, enfim, cada um tem um gosto!

É rídulo achar que vão acabar com a violência proibindo o rap e o funk. Por que não cuidam da violência, não olham para o que precisa ser visto. Sugiro que acabem com o BBB também, pois é violento contra minha inteligência. É depravação pura. É pior que o funk.

Sugiro ainda que a comissão de segurança que apresentou o projeto aprovado pelo prefeito cuide do tráfico de entorpecentes, que sim, gera a violência em todo país.

Valores contrários ao Carnaval?! O que seriam estes valores? Será que eles existem só nas músicas que cantam as mazelas do povo e que a elite quer calar. Sim, porque ambos estilos são gritos daqueles que sofrem na pele e no dia-a-dia o descaso e a violência incitada por gente que acredita que este tipo de ação vai resolver os problemas do país. E as marionetes (alienados, zé povinho) acham lindo !

O crime organizado existe justamente por que tem gente com a cabeça tão fraca que acha que proibindo determinados tipos de música vão acabar com a violência. Será que quem adora marchinhas não compra lança-perfume do tráfico? Aaah..porque são elitizados não é tráfico?! Será que os que ouvem axé e outros estilos não usam drogas que financiam esse crime organizado?

Aaaahh vá ! Acredita mesmo que proibindo o rap e o funk a violência vai deixar de existir no Carnaval?! E depois dele? Vão continuar proibindo?

Daqui a pouco vão nos queimar na fogueira …Holocausto puro ! Seria preciso bem mais do que proibir as músicas para acabar com a violência. Seria necessário que esta mesma comissão olhasse por ’tias’ de creche, que acabei de ver na TV, espancam crianças, cujos pais trabalham o dia todo para por o pão na mesa e que neste Carnaval não tem sequer o direito de curtir e se morarem em São Lourenço, nem de ouvir as músicas que gostam. Faça-me o favor !

No mais, acho que todos queremos é a Paz.

Jéssica Balbino – mineira, 24 anos, moradora da periferia de Poços de Caldas, jornalista formada, autora do livro Hip Hop – A Cultura Marginal, integrante do livro Suburbano Convicto – Pelas periferias do Brasil, colunista do site Ciranda Internacional de Informação Independente, e do Literatura Periférica defendendo as causas da cultura hip hop. (leia-se rap e funk neste contexto) Voluntária de trabalhos com hip hop na periferia, atualmente atuando como repórter no Jornal Mantiqueira, idealizadora da série de reportagens Ás Margens da Sociedade, com pessoas de muito conteúdo e excluídas do restante da população.

Mantém o blog Cultura Marginal: http://www.jessicabalbino.blogspot.com

Cai interesse do brasileiro por dança, exposições e livros

O brasileiro hoje lê menos livros, visita menos exposições de arte e assiste a menos espetáculos de dança que em 2007. A queda foi detectada em uma pesquisa realizada pela Fecomércio do Rio de Janeiro, cujo objetivo é o de mensurar os hábitos de lazer relacionados à cultura. Em compensação, as pessoas aumentaram sua ida ao cinema e mantiveram o mesmo índice de visita ao teatro e aos shows de música.

O levantamento teve alcance nacional e foi realizado em mil domicílios situados em 70 cidades, incluindo 9 regiões metropolitanas. As apurações, realizadas em dezembro tanto no ano passado como em 2007, buscavam entender a visão da população sobre atividades culturais de lazer e os motivos que a levam a procurar por essas atividades. Também interessou descobrir a avaliação dos consumidores sobre sua participação no ambiente cultural.

As conclusões não foram animadoras. Para a questão a respeito do hábito cultural, como ler um livro, assistir a um filme no cinema, visitar exposições, ir ao teatro e a espetáculos de dança, 60% das pessoas responderam não ter praticado nenhuma daquelas atividades (em 2007, a cifra era de 55%). Motivo: falta de hábito ou gosto.

Já entre aqueles que desfrutaram ao menos um dos hábitos, a maioria (ou seja, 23%) disse ter lido um livro. A leitura, porém, parece estar cada vez mais em desuso pois, dois anos antes, a mesma atividade era confirmada por 31% das pessoas consultadas.

A partir dessas cifras, a pesquisa buscou dissecar os motivos da queda: 60% das pessoas responderam não ter o hábito da leitura, enquanto 22% foi direta, afirmando não gostar de ler. A restrição econômica não aparece como determinante, uma vez que apenas 6% confessaram não ter como pagar pelos livros. O teatro enfrenta situação semelhante, pois 38% das pessoas disseram não ter o hábito de frequentar as salas de espetáculo, enquanto 27% afirmaram não gostar de assistir a uma peça teatral.

Fonte: O Estado de S.Paulo

Black Rio

FILÓ: uma nova postura do negro, num contexto de repressão e autoritarismo
Asfilófio de Oliveira Filho (Filó), produtor da primeira banda Black Rio, esteve, desde o início, no centro dos agitados bailes soul dos anos 70, no Rio de Janeiro. Num momento do país em que as liberdades civis foram suprimidas, milhares de jovens negros reafirmaram sua identidade e fizeram dos bailes um exercício de liberdade, desafiando a repressão e o autoritarismo.
Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
Foto: Januário Garcia Fotos do Filó : Januario Garcia.
Páginas e mais páginas de histórias. Aos 60 anos e 40 deles dedicados à cultura negra, Asfilófio de Oliveira Filho – o produtor cultural Filó, contribuiu decisivamente para a criação dos bailes black nos anos 1970. Viu nascer a primeira roda de samba do Brasil, no Clube Renascença. E conviveu com grandes nomes da dramaturgia e da MPB: Elizete Cardoso, Roberto Ribeiro, Paulinho da Viola, Dona Ivone Lara, Zezé Motta, Zózimo Bulbul, Nei Lopes, Elis Regina, Belchior. Só pra citar alguns. Consciência negra, atitude, diversão e arte desviaram o caminho do jovem engenheiro. Dividia-se entre a administração da agência de automóveis da família e o agitado circuito Zona Norte-Zona Sul do Rio-e-Baixada Fluminense. Filó é figura histórica do showbusiness nacional. E tudo começou com a juventude reunida no clube negro Renascença. Embalou mais de um milhão de jovens do Rio de Janeiro no ritmo da Black Music. Ergueu a Soul Grand Prix. Disputou as paradas de sucesso e venda de LPs de Coletâneas de Soul, superando Roberto Carlos por semanas. Foi colunista do Jornal do Brasil e da Última Hora. Não escapou da repressão da ditadura, passou pelo DOPS. Virou alvo da grande mídia. Mas essa é mais uma das muitas revelações dessa entrevista ao Ìrohìn, que teve a participação de Carlos Alberto Medeiros (Coordenadoria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial do Rio de Janeiro) e Januário Garcia (excepcional fotógrafo e ativista) também personagens desse período que continuam na ativa.

Ìrohìn – Fale um pouco de você e de sua família.
Filó – Nasci no Rio, em 1949. Fui criado em várias comunidades, mas me fixei no Jacaré, próximo à Vila Isabel e ao Méier. Sou de família pobre: pai mecânico e mãe empregada doméstica. Meu pai conseguiu comprar e vender carros. Tornou- se dono de agência de automóveis e sócio de grandes empresários da época. Essa ascensão possibilitou a mim e à minha irmã a entrada na universidade. Fiz engenharia civil, na Fundação Souza Marques, que até hoje é de propriedade de família negra. Mas antes já tinha feito mecânica na Escola Técnica Nacional. A partir dos 17 anos, era o organizador da estrutura contábil administrativa da empresa, porque meu pai não tinha nem o primeiro grau (atual ensino fundamental).

Ìrohìn – Como começou seu envolvimento com a área cultural?
Filó – Com a comunidade. Aos 18 anos, ganhei um carro e comecei as andanças pelo Rio. Os negros tinham dificuldade de deslocamento. Zona Norte era Zona Norte, Zona Sul era Zona Sul, a Baixada era Baixada. Segregação socioespacial! O que unia eram as festas da Penha, os piqueniques na Praia de Guaratiba e Paquetá. Oportunidade para conhecer os sambistas, as tias, as comidas… Lembro que eu ia pro Irajá e quem mandava lá era o Nei Lopes. Saíamos da Zona Norte pra Zona Sul – no Beco da Fome, onde os artistas se reuniam. Lindaura era a tia do local. Servia três ou quatro pratos, só para os artistas que circulavam por ali: Toni Tornado, Tim Maia, Simonal. Era o meu point. Tinha vários amigos, como o Roberto Ribeiro, que estava começando.

Ìrohìn – Você já era sócio do Renascença?
Filó – Sim. Naquele momento, o Renascença era voltado para a família. Os diretores eram advogados, aposentados, engenheiros. Tinham posição, mas eram pessoas discriminadas em outros locais. Aconteciam festas básicas, como Miss Renascença, reuniões de almoço, baile da flor, baile de debutante. Havia pouco espaço para nós, jovens, e isso foi se tornando pesado. Chegamos ao ponto de que o grupo decidiu assumir o comando cultural do Renascença. Na época, Volnei da Almeida, Maneca, o falecido Haroldo de Oliveira e Airton Guimarães. Esse grupo fez com que o Renascença se transformasse num ponto cultural.
Medeiros – O pessoal tradicional do Renascença fazia festas tocando música erudita. A idéia era se diferenciar do negro pobre e do branco de classe média.
Filó – Exatamente. Havia a seguinte divisão: de agosto até março era o período do samba. As escolas de samba comandavam. Todos nós tínhamos as nossas alas. Grande parte do Renascença saía na ala Comigo Ninguém Pode da Mangueira. E eu estava lá. Mas tinha a galera do Salgueiro e da Portela. Acabou o carnaval, o que acontecia? Os grandes bailes! Era Ed Lincoln, Lafaiete. O esquema era cabelo gomado, visual todo trabalhado, sapatos de bico fino.

Ìrohìn – Como a dramaturgia entrou no clube? Qual o seu papel no grupo?
Filó – A palavra era transformação. Zona Sul, Zona Norte do Rio e Renascença começavam a mudar. E isso se deu através da cultura. Foi criado um grupo de teatro negro com Haroldo de Oliveira, Zózimo Bulbul, Zezé Motta, Geraldo Rosa. Montamos a peça Orfeu Negro com patrocínio da Letra S/A, que bancou um cenário sem cobertura, ao ar livre, no Renascença. Foi o maior sucesso. A música era do Paulo Moura e do Martinho da Vila. Só fera! Aquilo ali fez com que as portas se abrissem para essa galera jovem. Trabalhava como ator, mas minha praia era produção. Fiz iluminação e sonorização.

Ìrohìn – Aí você percebeu que tinha um potencial para a produção?
Filó – A partir do momento que se abriu espaço para a juventude, começamos a fazer uma atividade nas quintas-feiras. O ICBA (Instituto Cultural Brasil-Alemanha), através do nosso parceiro Itamar Fagundes, cedia equipamento e materiais. Convidamos a massa toda da comunidade local negra, principalmente das favelas do Macaco, Andaraí e Salgueiro. Havia uma onda de doença de Chagas, os barbeiros, e fazíamos palestras para a comunidade. Para atrair o pessoal, colocávamos filmes. E aquilo ali virou sucesso, todo mundo queria ouvir um som, começava a balançar. Aí começaram a nascer as atividades de domingo,os bailes . O Renascença se fortalece a partir dessa movimentação de saúde e cidadania. Nada de fazer festa pra ganhar dinheiro, nada disso. Tinha o samba do Bola Preta. Só que a casa não era nossa, não tinha identidade racial. Levamos esse desenho pro Renascença e montamos a primeira roda de samba do Brasil. Foi aí que o Renascença explodiu, ganhamos dinheiro pra caramba.

Ìrohìn – As rodas de samba aconteciam nos finais de semana?
Filó – Nas sextas-feiras acontecia uma roda de samba comandada por Elizete Cardoso. Só fera! Elizete Cardoso, Maestro Cipó. Surgiram Dona Ivone Lara, Emílio Santiago, Martinho da Vila, Roberto Ribeiro, Beth Carvalho. Tudo começando ali. E as grandes feras, Paulinho da Viola, Martinho já tinha estourado com a música Casa de Bamba. Elizete Cardoso era quem comandava. A roda de samba se tornou sucesso. Eu entrava com a produção, o visual, o som. O Renascença explodiu dessa forma. Tínhamos o Almeida na publicidade. Conseguimos fazer um projeto gráfico maravilhoso. Não havia computador, era tudo feito à mão.

Ìrohìn – Samba, teatro negro. E a agitação dos bailes Black e da Soul Music?
Filó – Era 1970, 1971. Costumam atribuir a Big Boy e Ademir Lemos, no Canecão, o surgimento do soul no Brasil. Mas isso não é verdade! O fato é que nós tínhamos intervenções no subúrbio por conta de vários outros companheiros, que se reuniam pra fazer festas nas casas. Baile não tinha, eram reuniões. O mesmo que acontecia no Rio acontecia em Salvador, com Vovô do Ilê Aiyê e Jorge Watusi. Paralelamente a isso, a Rádio AM 860 tocava black music. Quem era? Big Boy. Ele tocava eminentemente o rock! Botava lá um “James Brownzinho” no final do baile. Então ele não era o black da hora, só que tinha o material. Outra coisa. O primeiro baile não foi no Canecão. O primeiro baile foi na Zona Norte! O Big Boy só fazia no Canecão, porque a sua clientela era eminentemente branca. Só que houve a oportunidade de James Brown vir ao Brasil, ao vivo no Canecão. Foi aí que eles se projetaram.

Ìrohìn – Os bailes do Renascença eram conhecidos como “Noite do Shaft”. Por que a escolha desse nome?
Filó – Porque na época tinha um filme americano em que um ator negro interpretava, pela primeira vez, um detetive, figura central. A trilha musical era de Isaac Hayes, um dos nossos ícones. Aquela música foi fantástica. Aquilo ali mexeu. Pegávamos uma Kodak e fotografávamos. A garotada que ia ao baile anterior se via nas semanas seguintes. Eu cortava, fotografava e fazia o slide. Ali a gente tinha a foto do Januário ao lado do James Brown, do Isaac Hayes. Assim a gente associava a questão da auto-estima. E havia também as mensagens: “Eu estudo, e você?”, “Família negra”, “Seu brilho está em como você se vê”. O cara está dançando aqui e está se vendo lá. Era auto-estima pura. E tinha a hora da parada do baile, música lenta, e nessa hora você passava a mensagem, que era o nosso forte. Eu deixei de ser DJ para ser o MC. Todo mundo se vendo e olhando para o público. Nossa auto-estima era, até então, muito ruim, dentro de casa a gente se autodiscriminava. Se o cabelo estivesse passando um centímetro, já era macaco. Os moleques davam cascudo na gente. A gente tava cansado daquela onda. Aquilo era muito careta.
Medeiros – Os americanos estavam bombardeando com essas imagens de black.
Filó – Foi quando surgiram os blacks. E começamos a assumir dentro de casa. Cinco anos depois, meu pai já usava black, minha mãe deixou de alisar o cabelo. Mudou o contexto da família negra, o visual, e a auto-estima foi lá em cima! Os artistas mais sensíveis nós conseguimos atrair porque eles se reuniam no Teatro Tereza Raquel ou no Teatro Opinião às segundas-feiras. Participavam Milton Gonçalves, Zezé Motta, Haroldo Oliveira, Zózimo Bulbul. Uma porção de gente reunida e discutindo questão racial, mas sob observação da ditadura. Conseguimos atraí-los para o Renascença. A primeira festa do Shaft foi um grande sucesso. Em paralelo, tinham as reuniões – que eu posso falar melhor, porque eu participava – mas na festa todo mundo estava lá. Na criação do IPCN (Instituto de Pesquisa das Culturas Negras) a gente se reunia na Universidade Cândido Mendes.

Ìrohìn – Quando foi criado o IPCN?
Medeiros – Em 1974, conheci Filó. As coisas estavam efervescendo. Aconteceu a primeira reunião na Cândido Mendes relativa ao 13 de maio, no Centro de Estudos Afro-asiáticos em Ipanema, com José Maria e Luiz Pereira à frente do processo. Depois, foi criado a Simba (Sociedade Brasil-África) e, em 75, foi fundado o IPCN.

Ìrohìn – E quando você percebeu mais concretamente a presença da repressão?
Filó – A repressão começa lá atrás, a partir do momento em que recebo meu diploma em 74. Um ano antes eu já tinha sido ameaçado. ‘Corta esse cabelo, tira essa bata africana, esse chinelo que na verdade é um tamanco, tira essa mochila, se não você não vai passar’. Era meu professor de Cálculo, e eu era o único aluno não militar. Tony Tornado na época falou: ‘Revolucione, estou contigo! Tinha que botar aquela beca e o chapéu. Eu tinha um terno todo branco, ele me deu um chapéu amarelo deste tamanho. “Negrão, é contigo”! Na hora em que eu fui chamado pra pegar o diploma, tiro a beca, pego o diploma, boto o chapéu e levanto o punho erguido.

Foto: Januário GarciaÌrohìn – Havia repressão aos bailes?
Filó – Antes da repressão bombar, a Soul Grand Prix estava crescendo e lançou o primeiro LP, que ganhou disco de ouro. Era uma coletânea de música soul e vendemos mais de 106 mil cópias em poucas semanas. Chegamos à frente do Roberto Carlos. A capa tinha uma black em cima duma moto – um negócio revolucionário na época. O primeiro disco foi lançado em 74/75; o segundo, em 76; e o último, em 77/ 78. Os bailes estavam atingindo um milhão de jovens no Rio de Janeiro – até então ninguém estava sabendo. Até que começam a se preocupar. Quando a coisa começou a pegar fogo, passamos a ser o foco da repressão. Aqueles que não tinham estrutura não podiam fazer o baile por algum motivo. E nós, o que fizemos? Viramos empresa. Pagamos impostos, não podiam dizer não porque pagávamos impostos.
Medeiros – Em 1976, sai uma reportagem que acabou dando nome ao movimento que até então não tinha nome. Uma reportagem no Jornal do Brasil, Black Rio, de quatro páginas, mostrando aquele fenômeno que já estava rolando há anos na Zona Norte.
Filó – Passamos a escrever regularmente como JBlack a ponto do Zé Reinaldo, na época como diretor da Última Hora, me conceder um documento dizendo que eu poderia, por trabalhos prestados, ser um jornalista, que na época não existia.

Ìrohìn – Como você foi parar no DOPS?
Filó – Eu tinha uma sala na Central do Brasil, onde era o escritório da Soul Grand Prix. Bateu um cara, você via que o cara não era black, mas botou uma roupa de black. Os caras queriam introduzir a droga pra incriminar a gente. Aí não deu.. A TV Globo e outras emissoras começaram a desqualificar e ridicularizar todos os negros. Elis Regina resolve conversar conosco, porque gravou “Black is beautiful” do Marcos Valle. E alguns artistas começaram a cantar a questão da negritude nesse âmbito do soul, Tim Maia, Simonal. Nesse burburinho, os caras me chamam pra uma conversa e quando eu vi me botaram um capuz preto. Só lembro que me jogaram dentro do camburão e rodaram pela cidade. Eu fui parar dentro do DOPS. Eles tiraram o capuz, jogaram uma luz que não me permitia ver ninguém, e perguntavam: “Cadê o milhão de dólares que a CIA te deu? Quem é?”. Era uma das lendas urbanas daquela época. A estratégia era a violência verbal e emocional. Já tínhamos lançado o segundo disco na Warner, onde o Janu (Januário Garcia) entra para fazer a produção das várias capas. Tínhamos também o Volnei trabalhando. Todos profissionais, ganhando legal. E tinha Gil, Candeia, Zezé Mota, Belchior. A Soul Grand Prix contratando oficialmente. Tudo na legalidade. Só que a imprensa…
Medeiros – A revista “Veja” até dizia que a nossa forma de atuar era divertida. O jornal Movimento, que era jornal da resistência, fez uma reportagem de última página dizendo que, entre outras coisas, o soul era o pior tipo de música americana. Eles não sabiam nem o que era soul. Discoteca estava começando, eles não sabiam o que era discoteca e o que era soul e confundiam tudo.
Filó – Antes disso a gente só tinha uma opção, que era o rock brasileiro: The Pops, The Brazilian Beetles, tudo imitação dos Beatles. No livro “Anos 70. Dicionário da música brasileira”, de Nelson Motta e de Ana Maria Bahiana, o Black Rio faz parte da música popular brasileira. Nelson Motta sempre falou isso. Somos o divisor de água entre a música americana e a MPB. Fizemos uma experiência com uma música americana, adaptamos com elementos brasileiros e virou um sucesso nos bailes blacks. A partir dessa música foi criada a banda Black Rio
Medeiros – Filó foi produtor da primeira banda Black Rio e depois veio a Warner e colocou essa música “Locomotivas” na novela Locomotivas da rede Globo (1977).
Filó – E aquilo explodiu de tal forma que virou business. Deixou de ser uma questão de “divertimento de negro pobre”. E, naturalmente, a elite se posicionou. Era Nei Lopes, Filhos de Gandhy, Quilombo e Soul. Aquilo ali era uma coisa fantástica. Rompemos com a visão de que nós não podíamos, nós conseguimos muito. E convivendo com a TV Globo num contexto autoritário.

Ìrohìn – Afinal de contas, qual o problema em se tomar como referência a produção cultural de negros norte-americanos e, a partir dessas referências, negros brasileiros mobilizarem outros negros, fortalecerem a identidade de outros negros? Vamos fazer uma síntese, Medeiros? Que balanço seria possível fazer?
Medeiros – Recentemente, a pesquisadora Márcia Conti lançou um livro sobre os bailes blacks, com base num estudo de 1994. Ela ouviu lideranças negras e notou que os bailes tiveram importância na identidade. É a ênfase na identidade negra que faz com que as pessoas melhorem a sua auto-estima, essa é a grande força do Soul. O Soul é uma espécie de trilha sonora da luta negra americana dos anos 1960. Lembro-me das primeiras vezes em que fui ao baile do Filó, vi gente chorar. Chegar e chorar, porque você se deparava com milhares de cabeças com cabelos afros balançando. Esse choro diz muito do impacto que tudo isso teve naquela época sobre quem pôde de alguma forma participar do processo, ir aos bailes.

Foto: Januário GarciaÌrohìn – E você, Filó, não pretende registrar em livro toda essa experiência?
Filó – Não só a minha fala. O importante seria recuperarmos a fala de todos que viveram o período, cada um tem um olhar. Pra você ter uma idéia, o nosso DJ foi um branco. Por que ele era branco? Porque ele trazia as informações da zona Sul. O nome dele era Luiz Stelzer, conhecido como Luizinho do Jockey Soul. Tocava na zona Sul, tinha uma visão e gostava da música Black. Ele era dançarino, abria os bailes das boates top e gostava de ouvir James Brown. Aquele nicho musical a gente trazia pra zona Norte para as nossas festas, porque a maioria era comprada nas importadoras. Sinfonie, Modern Sound, que eram os locais onde você comprava os discos importados. Era caríssimo. A outra opção era alguém trazer os discos dos Estados Unidos, alguém como aeromoça, piloto. Era assim que era o processo. Foi um momento de desconstrução do pensamento social brasileiro, segundo o qual não há racismo no Brasil, porque o negro sabe o seu lugar. E foi nesse momento que o negro saiu do lugar dele. Desconstruiu.

Ìrohìn – Quais os filhotes do soul?
Filó – Conscientemente falando é o Movimento Hip-Hop. Você tem algumas células que são fundamentais, como a célula da Bahia, através do Blackitude, movimentos como a Casa do Hip-Hop em São Paulo, que criou um consciência e reconhece o soul como um pai. Aqui, o Atitude Consciente deu o primeiro passo para a implantação do Hip- Hop no Rio. Paralelo a isso, temos os filhos não conscientes, mas que são também uma realidade. E uma realidade é o funk. O que faltou ao funk? A liderança que o soul tinha. A comunicação que o soul tinha e que o funk não soube absorver. Não tem essa liderança e, infelizmente, foi para um outro lado.

*Edson Cardoso entrevistou (Rio 04.06.09) e Isabel Clavelin editou.

Fotos do Filó : Januario Garcia

O negro no topo intimida

Edson Lopes Cardoso
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Comentando o filme “Simonal – Ninguém Sabe o Duro que Dei”, Marcelo Coelho, articulista da “Folha de S. Paulo”, disse que, nos anos 60, a imagem de um negro no topo da pirâmide social intimidava os brasileiros ( edição de 03.06.2009).

Por que se assustavam os brasileiros, o que temiam ou receavam? Parece natural supor que os brasileiros que estavam no topo da pirâmide receassem simplesmente ficar fora dele. Deixar o topo da pirâmide social deve ser mesmo uma coisa assustadora.

Isso foi há cinqüenta anos, mas há evidências de que o referido temor não tenha ficado restrito ou localizado na década de 60 do século passado. “É esse debate alarmado e alarmista, pautado pelo racismo científico do século XIX, que acompanhamos ao longo desse livro”. Estas são palavras de Célia Maria Marinho de Azevedo, no Posfácio à 2ª edição do indispensável “Onda Negra, Medo Branco” (Annablume, 2004). Onda negra que se forma, na visão de senhores de escravos no século XIX, a partir das “ações anárquicas da ‘gente de cor’, as quais pretendem nivelar a sociedade com seu desrespeito à hierarquia social, à família, à propriedade” (p. 246).

O deputado federal Ìndio da Costa (DEM-RJ) participou do grupo de trabalho que discutiu reforma eleitoral na Câmara dos Deputados. Sua reação enfática à sugestão de inclusão do quesito cor/raça no projeto de lei então em elaboração baseou-se no argumento de que, se houvesse identificação da cor/ raça dos candidatos, os negros em seguida reivindicariam cotas na representação partidária. Uma reivindicação, como se sabe, que é expressão de desrespeito à hierarquização social e política. Com exceção de dois votos femininos, seu conselho de prudência foi acatado pelos demais parlamentares.

No dia 16 de junho, o deputado Carlos Santana (PT-RJ) encaminhou, por sugestão do Ìrohìn, uma indicação (INC 4349/2009) ao Tribunal Superior Eleitoral, propondo a introdução do quesito cor/raça, nos termos adotados pelo IBGE, nos formulários de registros de candidaturas eleitorais, e a ampla divulgação de informações sobre candidatos e eleitos, segundo cor/raça, a toda a sociedade brasileira.

É um caminho possível e o ministro Carlos Ayres Britto, presidente do TSE, expressou ao deputado Carlos Santana, a Regina Adami, Graça Santos e ao representante do Ìrohìn seu interesse em discutir o processo de afirmação identitária no campo da política. Quantos negros, quantos índios se candidatam? Quantos se elegem?

A omissão, no registro das candidaturas, da cor dos candidatos é reveladora dos limites da democracia no Brasil. É expressão da dominação racial no campo da política e os partidos não parecem dispostos a negociar nada que possa alterar os desequilíbrios de poder entre brancos e não-brancos.

Em março, comentei no site do Ìrohìn (www. irohin.org.br) resultado de pesquisa do Ibope, segundo a qual “77% dos entrevistados afirmaram que votariam em um homem negro e 75% elegeriam uma mulher negra para qualquer cargo público, número maior dos que votariam em mulheres de qualquer raça”.

A pesquisa ilustrava a existência de pessoas dispostas a votar em candidatos que, a rigor, não existem. Semelhante concepção da identidade política poderia parecer estranha, mas o fato é que a mobilização política do negro passa mesmo ao largo dos partidos.

Se existe um critério objetivo para avaliar a abertura partidária para o tema da luta contra o racismo e a superação das desigualdades raciais, a partir do início dos anos 80, esse critério é a composição étnico-racial das bancadas federais, estaduais, municipais.

Pesquisa realizada pela revista Época e o Instituto FSB com 247 congressistas incluiu uma questão sobre a representatividade do negro no Congresso Nacional: Muito alta – 0,4%; Alta – 3,3%; Mediana – 16,7%; Baixa – 47,3%; Muito baixa – 32,2% (Época, edição de 6 de julho de 2009, nº 581, p.44). Embora cerca de 80% dos parlamentares considerem que o negro está mal representado no Congresso Nacional, isto não significa que estejam dispostos a alterar o grave quadro de exclusão. A argumentação do deputado Ìndio da Costa, como vimos, só encontrou a resistência de dois votos femininos e as mulheres são apenas 7% dos parlamentares.

Na noite da quinta-feira 29.05.2009, em intervalo do “Jornal Nacional”, da Rede Globo de Televisão, foi ao ar mais um programa do Partido dos Trabalhadores. Eram claros todos os personagens que tinham expressão partidária, institucional ou sindical. Eram escuros os representantes do povo agradecido e o apresentador do programa.

No “governo de todos”, a parte que representa o todo é clara. Os escuros, emocionados e dramáticos, agradecem as benfeitorias. O programa do partido mais “popular e democrático” tem a força da evidência que nenhuma manipulação verbal pode ocultar. Os negros não são visíveis nas propagandas partidárias, nem o são também no Congresso Nacional, em Assembléias e Câmaras. Menos ainda nos cargos executivos.

A pesquisa do Ibope revela uma dinâmica acentuada de parte da sociedade brasileira, que coexiste com persistentes limitações no seio dos partidos e nas estruturas do Estado quanto às formas de representação da diversidade étnicoracial. O negro é dimensão do eleitorado a ser levada em consideração ( na TV os apresentadores – modelos e atores – e o povo agradecido ou indignado expressam os limites da preocupação com o voto), mas deve ser excluído da participação política que lhe permitiria acesso ao poder. Como dizia Lima Barreto, em seu “Diário Ìntimo” (p. 82), “É singular essa República”.

Pagar tratamento de dependente químico devasta orçamento familiar


Marinella Castro – Estado de Minas

Publicação: 21/02/2010

R. abraçado pelos pais, em frente à clínica onde está sendo tratado: carro já foi vendido e próximo passo agora é se desfazer do apartamento da família, na Região Oeste de BH - (Cristina Horta/EM/D. A Press )
R. abraçado pelos pais, em frente à clínica onde está sendo tratado: carro já foi vendido e próximo passo agora é se desfazer do apartamento da família, na Região Oeste de BH

Tratar a dependência química não é mais uma decisão apenas do paciente, mas do quanto o orçamento doméstico é capaz de pagar. O tratamento, que pode custar mais de R$ 10 mil por mês nos centros especializados, consome não só o amor das famílias, mas as economias de vários anos, a paz e, em alguns casos, o patrimônio. Mesmo assim, o esforço de pais, avós e parentes costuma não ser suficiente para arcar com a conta do hospital. O peso deveria ser dividido com os planos de saúde, mas a cobertura para o tratamento ainda não é uma realidade ampla, apesar de ser garantida pelas normas do setor. O mais grave, contudo, é que a defasagem entre a pequena oferta das empresas frente à escalada da dependência química está transferindo a delicada decisão para a Justiça.

A dependência química é uma doença social descrita pela Organização Mundial de Saúde (OMS), com números que assustam o mundo. No país, estima-se que 11% da população tenham envolvimento com álcool e outras drogas. De acordo com a regulamentação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), a internação, sem limite de tempo, é um direito de quem contratou um plano de saúde, desde que seja uma prescrição médica. Mas, na realidade, quando o tratamento não é feito na rede pública, ele acaba sendo bancado pelo orçamento doméstico. Os motivos variam desde a ausência de vagas na rede de tratamento conveniada até a baixa adesão dos planos aos convênios com centros de tratamento a médio prazo.

Um dia depois de descobrir que o filho adolescente R. havia se tornado usuário de cocaína, droga que, junto com colegas entre 13 e 16 anos descobriu na escola particular, Silvia (*) e o marido João deram início à fase mais difícil de suas vidas. Os dias se transformaram em uma batalha para salvar o filho, e agora a família se prepara para discutir, na Justiça, o direito à cobertura médica. R. é um garoto de classe média, que tem plano de saúde. Ele engrossa as estatísticas que apontam o crescimento do envolvimento de adolescentes com substâncias lícitas e ilícitas. Segundo os últimos dados do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas (Cebrid), 23,5% dos jovens entre 12 e 17 anos já experimentaram algum tipo de droga.

Aos 16 anos, o menino charmoso de sorriso manso tornou-se agressivo em casa, até mesmo com o pequeno L., o irmão de 8 anos. Quando sem controle e transtornado, avançou contra os pais com o propósito de agredi-los. Só foi contido em uma ação policial. Por determinação médica, e também como uma medida judicial de proteção, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, o menino deveria ser imediatamente internado, já que, naquele momento de surto, representava uma ameaça para si mesmo e para terceiros.

Apesar de a indicação médica e da Justiça, a vaga não foi liberada pelo plano de saúde. “Assim que descobrimos que nosso filho havia se envolvido com drogas, tentamos o tratamento ambulatorial e uma internação rápida, que não deu resultado. Ficamos desesperados. R. fugiu de uma clínica, ficou perdido por vários dias. Quando reapareceu, tornou-se extremamente agressivo em casa, e a Justiça determinou: ou a internação ou a cadeia”, conta, emocionada, a mãe do adolescente.

Como a família já havia vendido o carro, instrumento de trabalho do pai do garoto, para pagar a primeira internação de desintoxicação, decidiram acionar a Unimed-BH. “Foi aí que começou o nosso desespero. Precisamos internar R. com urgência e o plano, em um primeiro momento, disse que não tinha nenhum hospital credenciado”, lembra a mãe.

Depois de uma semana, a conversa avançou e a Unimed-BH ofereceu uma carta com a opção de duas instituições: o Hospital André Luiz e a Clínica Pinel, ambos para tratamento psiquiátrico. “Acontece que os dois hospitais se negaram a internar o meu filho, por ele ser menor. A Pinel, além de não trabalhar com crianças e adolescentes, também não interna involuntários, como era o nosso caso”, diz a mãe. O primeiro hospital entregou aos pais uma carta explicando a negativa de atendimento. A reportagem do Estado de Minas entrou em contato com a Pinel e recebeu a confirmação de que a instituição, de fato, não trabalha com menores.

(*) Os nomes dos personagens foram trocados para preservar a identidade das fontes

Pena Branca: encantador de cuitelinhos


Ao lado do irmão Xavantinho, Pena Branca é dono de um invejável cancioneiro sobre o homem do campo. Leia a seguir um perfil recheado por entrevistas recentes em que Pena Branca fala da vida e das cantorias


Aloisio Milani

de São Paulo (SP)

Pena_Branca_Secom-MGA varanda da casa no Jaçanã, no caminho da Serra da Cantareira, em São Paulo, era um pequeno paraíso: “lugar das ‘prantinha’ e dos ‘passarim’”, dizia Pena Branca. “Ali, também toco minha viola”. O instrumento de dez cordas era de estimação, cravado no tampo seu nome, preso ao pescoço com corda fina. O braço da viola ainda era outra farra. O cantor foi fotografado certa vez com o truque matuto de pendurar na viola um bebedouro de beija-flor. Então, só aguardava os “cumpanheiro”. “Mano, cuitelinho é um bichinho sem-vergonha, qualquer água com açúcar ele vem mesmo”, comentava às risadas. Pena Branca nunca ficou rico com sua música, mas vivia exclusivamente dela desde a década de 80, quando abriu com o irmão Xavantinho uma nova trilha entre os caipiras. Morreu no dia 8, depois de um infarto fulminante, dentro de casa. Aos 70 anos, com alma de criança, Pena Branca partiu e findou a história de uma das principais duplas da música raiz.

José Ramiro Sobrinho – nome de batismo de Pena Branca – nasceu no dia 4 de setembro de 1939, poucos dias depois da invasão da Alemanha sobre a Polônia, na Segunda Guerra Mundial. Mas a pequena Igarapava, no interior paulista, era bem longe. As notícias só chegavam pelo rádio na colônia de trabalhadores da fazenda Usina Junqueira onde o pai de Pena Branca morava. Família de negros fortes, frondosos, bonitos. Na mesma cidade, no mesmo ano, havia nascido Jair Rodrigues, outro negro da música. Em entrevistas gravadas com o autor deste artigo nos últimos anos, Pena Branca contou sua história. “Com 10 dias de vida, meu pai se mudou com a gente para Cruzeiro dos Peixotos, uma vilinha perto de Uberlândia”, dizia. Pena Branca se tornou mineiro de criação. “Comecei a falar muito uai, né”, brincava, “e meu irmão Xavantinho é mineiro de inocente”. Ambos conheceram cedo as festas religiosas enfeitadas de música. Acompanhavam o pai, tocador de cavaquinho, nas folias de reis para adorar o menino Jesus e nas congadas em devoção à Nossa Senhora do Rosário.

Do Cio da Terra

“Naquela época a gente tomava conta de uma fazenda. Quem era arrendatário, era arrendatário. Quem era meieiro, era meieiro. A gente arrendava, mas era tanto tempo ali que sentíamos como se a terra fosse nossa”, disse. Pena Branca era três anos mais velho que o irmão Xavantinho – na verdade, Ranulfo Ramiro Sobrinho. O mais antigo aprendeu viola, o mais moço o violão. No começo, viver a música era ver o pai. Por pouco tempo, porque ficaram órfãos muito cedo, aos 12 e 9, respectivamente. Ambos foram então para a lavoura, semear o sustento da mãe e cinco irmãos. As toadas e modas de viola agora dividiam o tempo com a enxada e o arado. “O ‘cabôco’ na roça, quando assim passa por uma tormenta, igual nós que ‘perdêmo’ nosso pai, fica de cara achando que ir para a cidade é boa saída. Mas chega aqui e não é assim. Se puder escolher, penso que o ‘cabôco’ passa ‘mió’ na roça, ‘quietim’”. Para ele, o que interessa mesmo é o trabalhador ter “Tonico e Tinoco”. Sabe o que é? “Arroz e feijão, isso não pode faltar na mesa”. Pena Branca lembrava que essa rotina de fazenda levou 30 anos de sua vida. Fez os estudos até o “quarto ano”, nada mais. Só conseguiu se dedicar à cantoria depois de adulto.

Capa-Cio-da-Terra-recorte_ReproduçãoNo Triângulo Mineiro, a dupla se apresentava nas fazendas e nas pequenas rádios. Começou com um nome pomposo, dado por um coronel: Peroba e Jatobá. Mas não gostaram. Na semana seguinte, já era Barcelo e Barcelinho. Um dia, na escola, a professora falava dos índios. “Ela disse que tinha uns índios ainda muito fortes, os xavantes. Aí, eu olhei ‘pro’ meu irmão e disse: ‘tá aí’! O que acha de Xavante? Ele gostou. E o Xavante não tem filho? Xavantinho, uai”, recordava. Esse foi o nome da dupla até a partida de Xavantinho para a capital São Paulo em 1968. Ele estava empregado na transportadora Caçula como motorista de caminhão. No ano seguinte, arrumou um emprego da mesma companhia para trazer o irmão mais velho e reunir a dupla de outrora. Na chegada da capital, buscaram rádios sertanejas e festivais de viola. “A gente ‘ralemo’ demais”, contava. De cara, um revés. Já existia em São Paulo uma dupla com o nome de Xavante. Pena Branca falava: “Eles vieram para nós e falaram que podíamos comprar o nome deles. Aí pensamos: o que é isso? Nós, que viemos pobres de Minas e temos que comprar nome agora. Isso é esquisito demais. Aí virou Pena Branca e Xavantinho de 1970 para cá”.

Estrelas com raízes

A dupla dos irmãos Pena Branca e Xavantinho era como se fosse um só. Formaram desde pequenos uma relação perfeita de vozes, como tinham os ídolos Tonico e Tinoco. Ao estilo caipira, divididas em terças, as vozes eram coringas. Uma olhada de lado ou uma batida de viola os fazia trocar quem soltava primeira e segunda vozes. Os tons agudos dos dois faziam a diferença. Chegavam às finais dos festivais de música, mas ainda não levantavam o vôo do sucesso. Em 1980, numa apresentação da orquestra de viola de Guarulhos com a cantora Inezita Barroso, foram notados como as vozes mágicas do grupo. “Eu cantava e não acredita no que ouvia atrás de mim. Quando terminamos, virei e disse que precisavam sair da orquestra para lançar a dupla em disco. Eles eram muito bons. Pena me chamava de madrinha até hoje”, conta Inezita Barroso, na época estreante no comando do programa Viola, minha viola. “Assim, eles se apresentaram pela primeira vez no programa cantando ‘Velha morada’ e ‘Cio da terra’. Foi lindo”. Começava a carreira com 10 discos gravados – após a morte de Xavantinho, em 1999, Pena Branca seguiu carreira solo e gravou mais três discos, sendo que um ganhou o Grammy Latino de melhor disco sertanejo.

Colecionaram amigos na música caipira. Eram adorados. “E dobra esse carinho aí para a MPB”, dizia Pena Branca. Isso porque misturaram os gêneros dentro do sotaque caipira. “Não existia isso antes. Era cada um no seu canto. Aí gravamos ‘Cio da Terra’. A gente levava na rádio sertaneja e eles falavam que aquilo era MPB. Na rádio de MPB, eles diziam que era coisa de caipira. Era de lá para cá”, divertia-se Pena Branca. O cantor lembrava que um crítico musical paulistano dizia que Milton Nascimento tinha assinado o próprio atestado de óbito ao gravar com a dupla, “uns desconhecidos”. “Mas prefiro não falar o nome dele não. Deixa ele no anonimato agora que é mais gostoso”, dizia. No rol de compositores da MPB que gravaram, estão: Milton Nascimento, Chico Buarque, Renato Teixeira, Guilherme Arantes, Théo de Barros, Djavan, Tom Jobim, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Dominguinhos, Ivan Lins, Paulo César Pinheiro, João Pernambuco, Hermínio Bello de Carvalho e vários outros. “Era queijo com a marmelada para fazer Romeu e Juleita… quer dizer, é goiabada, né? (risos)”, resumia Pena.

… os óio se enche d´agua

Pena-Branca_Divulgação“O disco que fiz com eles em 1992 ao vivo em Tatuí é um marco na minha carreira e na deles”, conta o amigo Renato Teixeira. Pena Branca adorava a música “Cuitelinho”, folclore recolhido e adaptado por Paulo Vanzolini. A música era figurinha carimbada em seus shows. Depois de 1999, contudo, se sentia sozinho. A morte precoce do irmão Xavantinho, de uma doença degenerativa na medula, o levou a seguir carreira solo. Precisava continuar a cantar. Era o que sabia fazer e ainda precisava se sustentar. Mantinha um grupo de amigos músicos para se apresentar em Uberlândia e outro em São Paulo. Emocionava-se sempre com a lembrança do irmão, segundo ele, “o cabeça da dupla, o estudado, o letrista, é uma parte de mim que foi embora”. Várias pessoas lhe diziam que viam ou sentiam a presença do irmão em seus shows. Pena acreditava. “Eu sinto o mano ‘véio’ mesmo. Ele me ajuda demais. E rezo muito para ele”, falava. “Ele divide espaço com meu anjo da guarda”.

Caipira de nascença e criação, Pena Branca vivia na zona norte paulistana há mais de 40 anos. Montava ali o seu reduto roceiro. Gostava de comer em casa, cozinhava muito bem, não abria mão de um queijo fresco. Sua última apresentação na TV foi justamente no “Viola, minha viola” onde cantou “Vaca Estrela e Boi Fubá”, “Peixinhos do mar” e “Cio da terra”. No dia de sua morte, dizem os amigos, teve um dia normal, até tocou viola. Passou mal no começo da noite, depois de um dia de forte calor na capital. Socorrido após o infarto, não resistiu. Foi enterrado no túmulo onde está o seu irmão, Xavantinho. Novamente juntos. A dupla de pretos com nome de índios, bem brasileiros.

A impunidade é gêmea da incoerência.

Por Zillah Branco

O regime oligárquico que o colonialismo deixou como herança nos países mais novos, copiou leis e princípios estrangeiros para fazer de conta que criava um Estado democrático. Este “faz de conta” desenhou uma estrutura respeitável e democrática que só é aplicada para os cidadãos mais desprotegidos enquanto que os poderosos descaradamente revelam a sua incoerência deixando impunes os amigos prevaricadores. Apesar das mudanças ocorridas nos últimos anos, mais favoráveis à democracia, sobram remanescentes do velho poder de elites que dispõem dos cargos públicos e do dinheiro do povo para se banquetearem impunemente enquanto que a população trabalha duro para superar as crises e acabar com a miséria.

Ao contrário do que se apregoa, a maioria dos jovens em todo o mundo não se entrega à droga e à formação cretinizada imposta pelo sistema capitalista que proíbe que cada cidadão pense e aja conforme os seus próprios princípios. É natural que se sintam um tanto perdidos, pois ainda não encontraram as lideranças e organizações necessárias para encetarem um caminho limpo para a conquista da dignidade social. No entanto, os exemplos de jovens participantes são muitos, no esforço de solidariedade para amenizar a miséria, para salvar os companheiros que são marginalizados, para criar uma nova linguagem (poética e musical) que unifique os movimentos políticos e sociais, para repudiar o autoritarismo das velhas oligarquias que ainda sustentam o seu poder criminoso que esbanja falta de vergonha, que se afunda na corrupção, que corrompe as instituições nacionais servindo de apoio ao crime organizado.

Na Itália, Luis, um jovem universitário de esquerda não contém as lágrimas envergonhado pelo nível político que um Berlusconi levou aquele país de lutas políticas exemplares fazendo o povo parecer hoje amorfo e inexpressivo. Nos Estados Unidos a tristeza dos apoiantes de Obama é visível ao perceberem que o seu ídolo foi manietado pelo poder imperial que faz guerras “justas” para sair da crise econômica sem criar empregos honestos e produtivos para a população norte-americana. No Brasil, e em tantos outros países onde a luta popular pelo desenvolvimento nacional e cidadão se dá a duras penas, também sofremos a vergonha de assistir processos indefinidos contra os casos de corrupção e outros crimes praticados por políticos crapulosos que ainda têm poder para manterem a impunidade.

A prática da corrupção tornou-se de tal modo freqüente que passa a ser tolerada exigindo-se apenas que seja reduzida de tempos em tempos. Assim como as mortes por acidente de transito ou criminalidade tem sido banalizada como uma fatalidade moderna, a corrupção que conduz políticas públicas também entrou no conceito de normalidade para o sistema vigente. Parece que o ambiente político impõe a condição de tolerância com as “mazelas” do sistema, para os que ainda pretendem melhorar um pouco a situação dos países. Chega-se à conclusão de que os cidadãos são condicionados pelas instituições que, por seu lado, estão amarradas às condutas criminosas e fraudulentas dos que detêm o poder. É um círculo vicioso, sem saída, e os cidadãos sem poder é que pagam o pato.

As novas gerações, no entanto, absorvem os protestos populares e pensam com a própria cabeça sobre a falta de lógica do sistema que apregoa o bom comportamento, faz leis que o regulamentem, mas fecha os olhos aos furos institucionais que permitem a impunidade de alguns dos espertos oligarcas que sobrevivem à democracia. Felizmente no Brasil começam a surgir lutas internas nos vários poderes institucionais que correspondem ao conceito de democracia real. Deixamos para trás o velho hábito de unificar a voz dos poderes dando uma caiação sobre habituais conchavos anti-populares. Existem as contradições que estão a nu no cenário nacional para que os cidadãos possam escolher os seus representantes e banir os bandidos. Fervilham os debates, sobressaem novos lideres com coragem de romper a falsa unidade de uma elite poderosa. A coerência é a meta democrática e revolucionária. A coerência é que inspira o interesse e a coragem da juventude. É o parâmetro para a sua formação cidadã.

As críticas à juventude que perambula desmiolada pelas ruas e os antros que existem em toda a parte, em geral resume-se na frase: “não têm perspectiva de vida”. Mas isto é a consequência de uma sociedade que destrói as instituições organizativas do Estado anulando as leis com a prática da impunidade. Os responsáveis pelo poder organizado estarão sendo incoerentes com os princípios que apregoam ou simplesmente cínicos na traição à confiança popular? Será necessário rever o âmbito dos vários poderes que se contrariam impedindo que o Estado possa funcionar democraticamente.

Nos últimos meses assistiu-se, no Brasil, a mais uma novela policial à cata de corruptos. Foram várias as que animaram os espectadores, com final de pizza. Ninguém mais espera que os bandidos ou criminosos fiquem na cadeia e devolvam os milhões roubados ao Estado. Mas há outros eventos que paralelamente vêm acontecendo, considerados “crimes por razão fútil” que, passo a passo, vão eliminando heróis das comunidades que formam movimentos de negros, de moradores do morro, que sendo filho de catadores de rua chegam ao curso superior de medicina. Por acaso? E o agravamento da criminalidade no Rio de Janeiro que será a sede Olímpica em 2016? Acaso, também?

O Brasil evolui inegavelmente nos dois mandatos de Lula que conquistou o título internacional de Estadista Global. Os trabalhos comunitários de desenvolvimento do cidadão que já existiam alcançaram um alto nível de consolidação e o Estado deu um efetivo apoio combatendo preconceitos e estimulando as associações de moradores. Apesar das várias contradições que ainda permanecem no comportamento dos responsáveis pelos poderes institucionais, o caminho traçado tem meta democrática, portanto popular. Ocorrem então os atos terroristas dos que perdem o velho poder definido como oligárquico. Sempre tem sido esta a seqüência nos movimentos sociais bem sucedidos. Lembremos os tempos em que o samba era criminalizado, os sambistas considerados vadios, o carnaval um perigo. Quantos, dos nossos melhores interpretes da música brasileira foram perseguidos e até presos? E hoje o bom “rap” não é mal visto pelos conservadores empedernidos? Todo sopro de liberdade, de estímulo à cidadania forte e saudável encontra uma oposição, que quando o ambiente é democratizado, atua disfarçadamente pela mão de marginais.

Que a PAZ seja a nossa meta, a liberdade a nossa esperança, a coragem a nossa ferramenta para unir as gerações e construir uma sociedade sólida, confiável, saudável. O futuro depende de um conhecimento objetivo da realidade e da ação coerente dos que lutam por uma sociedade melhor.

Cooperifa: leia o livro, veja o filme e ouça o disco

CULTURA PERIFÉRICA

Série de obras artísticas celebra os saraus que ajudaram a construir o conceito de cultura periférica — e o mundo de iniciativas que está surgindo a partir deles. Trabalhos ressaltam opinião da jornalista Eliane Brum: “A Cooperifa é um abalo sísmico a partir de uma esquina de quebrada”

Eleilson Leite


O Sarau da Cooperifa, que acontece todas as quartas-feiras no Bar do Zé Batidão, Chácara Santana, periferia da Zona Sul de São Paulo, não pára de surpreender. Não bastasse a ousadia de sua existência e longevidade (comemora sete anos neste inverno), esses poetas acabam de ter sua história registrada em livro e filme documentário. Sergio Vaz, criador e criatura deste Sarau, lançou, no dia 20 de agosto, o livro Cooperifa – Antropofagia Periférica, dentro da Coleção Tramas Urbanas, da Editora Aeroplano, do Rio de Janeiro.

Já o filme, Povo Lindo, Povo Inteligente – O Sarau da Cooperifa, lançado no dia 1º de setembro, no Cinesesc, foi dirigido por Sergio Gagliardi e Maurício Falcão, numa produção da DGT Filmes. As duas obras somam-se ao CD Sarau da Cooperifa, lançado em 2006 pelo Itaú Cultural, que reproduziu em estúdio a magia da poesia declamada por 26 poetas cooperiféricos. Este CD, por sua vez, foi precedido pela coletânea Rastilho de Pólvora, lançada no finalzinho de 2005, com o apoio da mesma instituição. Esgotada há muito tempo, essa coletânea já está com os originais prontos para lançamento de um segundo volume.

Sergio Vaz escreveu um livro de memória, uma autobiografia poética. Ele parte de sua infância, a vida na periferia, a escola, futebol, os primeiros bailes, o trampo no bar de seu pai, o mesmo bar do Zé Batidão. Então, a adolescência inocente encontra-se com a adulto insurgente. Veja. Depois de serem despejados do Garajão, bar no Taboão da Serra onde o Sarau firmou-se nos dois primeiros anos, Vaz não teve dúvida: Zé Batidão. O atual proprietário do bar comprou o estabelecimento do pai do Sergio Vaz ainda na década de 1990, e lá o poeta fez alguns eventos no início de sua carreira literária, anterior à Cooperifa — inclusive o lançamento de seu terceiro livro, Pensamentos Vadios. O Zé acolheu os poetas e até viabilizou um transporte para a galera vir do Taboão. Não saíram mais de lá. Essa e outras histórias, contadas no livro, ganham imagem no filme.

Generoso, Sergio Vaz dá nome a todos e todas que fazem a história da Cooperifa. Não passavam de quinze, na primeira noite, ainda em Taboão da Serra. Já eram multidão quando o sarau aportou na periferia sul de São Paulo

Centrado na figura de Sergio Vaz, o livro não deixa de registrar a participação dos que estavam junto dele. Generoso que é, o poeta dá nome a todos e todas que fizeram e fazem a história da Cooperifa. Na primeira noite do recital de poesia, ele dá a escalação do time. Não passava de 15 pessoas. Quando o sarau aportou no Zé Batidão, a lista de nomes era infindável, e ocupa quase uma página do livro. Estão quase todos lá, segundo Vaz, que já não confia tanto na lembrança. O livro é saboroso. É daquelas obras que a gente lamenta quando chegam ao fim, como a de um amigo que nos fazia uma boa companhia e de repente se foi. Vaz escreve poesia em prosa. Para quem tem o prazer de conhecê-lo, é como se estivéssemos ouvindo tudo pessoalmente. Ele só não registra bem as datas deixando a mim, historiador de formação, um tanto aflito.

O documentário aborda o Sarau a partir do depoimento de alguns de seus freqüentadores. As câmeras partem do cotidiano de cada um, seja em suas casas, seja no trabalho; persegue o poeta até a Cooperifa e registra o êxtase que é, para um autor, declamar um poema diante de uma platéia sedenta, atenta e rigorosa. Cada poesia provoca uma avalanche de aplausos. Captadas com enorme sensibilidade, as imagens do filme Povo Lindo, Povo Inteligente revelam a fúria, a doçura, a alegria, o escárnio, a paixão e todos os sentimentos que afloram em quem declama e em quem ouve a poesia. É muito bonito.

Um desavisado ficaria surpreso ao ver qualquer dos protagonistas do filme declamandos poema num Sarau. Estão lá a Rose (musa da Cooperifa), falando de sua relação com a poesia da mesa do escritório onde trabalha como secretária. Ela, que no começo não se arriscava nos versos, foi se soltando e se envolveu tanto com a literatura que voltou a estudar. Rose relata com especial encanto o dia em que anunciou que ficaria afastada dos encontros poéticos, por causa das aulas. O Sarau da Cooperifa transforma vidas.

Assim como o filme, o livro do Vaz traz diversos poemas transcritos — dele e de muitos poetas. São obras impregnadas pelo objeto de observação: a poesia e a memória. A lembrança é um fio que não tem fim, um novelo perpétuo

Jairo Barbosa, taxista de profissão, hoje educador na Fundação Casa, também dá seu depoimento, no sentido da mudança de perspectiva que teve ao começar a freqüentar o Sarau. Já o “seu” Lourival, aposentado que fez 70 anos em 2008, conta o quanto se delicia com o ato de declamar sua poesia. Casulo é outra figura. O cara é funileiro, tem um fusca customizado, para usar um termo na moda, chega no sarau com uma leveza de espírito cativante e manda uma poema de crítica social contundente sem perder a ternura. É bola num canto e goleiro no outro; o povo vai ao delírio.

Assim como o filme, o livro do Vaz traz diversos poemas transcritos — dele e de muitos poetas. São obras documentais, porém impregnadas pelo objeto de observação: a poesia e a memória. A lembrança é um fio que não tem fim, um novelo perpétuo, uma história puxa a outra. Quando nos damos conta, estamos tão envolvidos que nos sentimos parte do lemos ou vemos. Sergio Vaz, Maurício Falcão e Sergio Gagliardi conseguiram o que queriam. Juntaram memória e literatura numa sinergia perfeita e envolvente.

É certo que nada supera a realidade. Portanto, leiam o livro, vejam o filme, ouçam o CD, mas não deixem de ir à Cooperifa. Lá a gente entende o que a jornalista Eliane Brum diz em mágicas palavras, no seu depoimento no livro do Sergio Vaz: “Não é sempre que a gente testemunha a história em curso, percebe o instante exato em que o mundo balança. A Cooperifa é isso, um abalo sísmico a partir de uma esquina de quebrada”. Não é sempre que um movimento cultural consegue a façanha de produzir tanto. E a Cooperifa é uma árvore frondosa de abundantes frutos. Muitos outros movimentos começaram a partir dela ou dela se serviram para se afirmarem.

A idéia contemporânea de cultura de periferia deve muito à Cooperifa. Felizmente isso está registrado, graças à generosidade de pessoas e instituições que se juntam ao movimento para fortalecer sua autonomia e não para se apropriar ou tutelar. Assim acontece com a DGT, Editora Aeroplano, Itaú Cultural, Sesc, Global Editora, Ação Educativa, Casa das Rosas, ASSAOC, prefeituras de Taboão da Serra e Suzano — entre outras instituições públicas e privadas, com ou sem fins lucrativos. A Cooperifa, graças principalmente à liderança e capacidade de negociação de Sergio Vaz, consegue agregar apoiadores que se tornam parceiros, que depois se tornam amigos e que, enfim, se tornam parte do movimento.

A Cooperifa concede, desde 2005, um simpático prêmio no final do ano a todos os que contribuíram para uma periferia melhor. Quando a Ação Educativa recebeu pela primeira vez a homenagem, dissemos lá que os prêmios servem para distinguir as pessoas — ou seja, colocá-las em outro plano, acima dos demais. O Prêmio Cooperifa, não. Ele serve para colocar a gente no mesmo nível dos demais, fazendo parte de um grupo onde ninguém é mais que ninguém, uma família. E a família Cooperifa não para de crescer. O livro e filme que acabam de sair vão servir para agregar mais e mais gente e fortalecer ainda mais esse movimento. Preparem-se. Vem muito mais por aí. Sergio Vaz e sua trupe são muito abusados.

Ruralistas defendem a escravidão no país

Os lucros obtidos, o envolvimento de setores dinâmicos da economia e a atuação de setores reacionários incrustados no Estado mostram o poderio e os interesses que movem essa atividade criminosa

Após 120 anos da lei que aboliu a escravidão, o trabalho escravo continua sendo uma realidade em nosso país. Nas mãos de pessoas ávidas por lucros fáceis e rápidos, a propriedade privada da terra transforma-se num instrumento poderoso para escravizar seres humanos, cerceando a liberdade e usurpando a dignidade de milhares de brasileiros. Como denunciou, em nota, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), são trabalhadores aprisionados por promessas, tratados pior que animais e impedidos de romper a relação com o empregador.

São práticas de trabalho forçado, onde se mantêm o domínio pela força das armas; da servidão, assegurada por dívidas; de jornadas de trabalhos exaustivas, indo além dos limites do corpo humano; e de trabalhos degradantes, onde estão ausentes as condições básicas de saúde e de segurança. No governo de Fernando Henrique Cardoso cerca de 6 mil e no governo Lula outros 30 mil trabalhadores foram resgatados nessas condições, semelhantes as do trabalho escravo.

Enquanto as fazendas de gados representam o maior número de propriedades com trabalho forçado, os canaviais detêm o maior número de trabalhadores escravizados. E repete-se a prática nas áreas de atuação das madeireiras e das carvoarias. Enganam-se os que pensam que essas práticas estão restritas aos rincões do Brasil ou limitam-se aos latifundiários remanescentes das oligarquias rurais mais violentas e atrasadas. A imposição da super-exploração aos trabalhadores se espalha por todo o território nacional e abrange os mais diversos ramos da atividade econômica, inclusive no meio urbano.

Os dados do Ministério Público do Trabalho, divulgados dia 25 de janeiro, colocam a região sudeste – a mais desenvolvida economicamente – na liderança das regiões em que consta a prática do trabalho escravo. Dos mais de 3,5 mil trabalhadores resgatados, envolvendo 566 propriedades rurais, em todo país, cerca de 1.300 se encontravam na região sudeste. Nas palavras do juiz do trabalho, Marcus Barberino, o trabalho escravo é uma atividade sistemática, que perpassa toda cadeia produtiva, está na mesa de todos os brasileiros e, ao contrário do que se pensa, não é exceção: é termômetro do mercado de trabalho que continua a explorar o trabalhador de uma forma excessiva.

Para o diretor da Anti-Slavery International, Aidan MacQuaide, a escravidão contemporânea está presente nos setores mais dinâmicos da economia capitalista, seu combate exige fortalecer os sindicatos dos trabalhadores para que os próprios possam reivindicar seus direitos básicos e ter consciência que o combate a essa prática não se restringe ao cenário nacional e sim extrapola para o âmbito internacional. A diretora da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil, Laís Abramo, vai além. Para ela o trabalho escravo tem crescido no contexto da globalização, uma vez que é um fenômeno mundial, presente na cadeia produtiva de grandes e modernas empresas transnacionais. Estima a OIT que, em todo mundo, pelo menos 12 milhões de pessoas estão submetidas ao trabalho escravo, gerando um lucro, em 2009, que passa dos 30 bilhões de dólares.

Os horrores dos porões dos navios negreiros deixaram de cruzar os mares. No entanto, o sistema capitalista mostra que é incapaz de deixar de promover atrocidades humanas quando lucros vultuosos estão ao seu alcance.

O Brasil, no cenário internacional tem se destacado no combate a essa prática criminosa de tratar os trabalhadores. A atuação das organizações da classe trabalhadora, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), de organizações não-governamentais e de alguns setores progressistas do Poder Judiciário, Legislativo e dos dois últimos governos promoveram significativos avanços no combate ao trabalho forçado.

Mas ainda há muito o que se fazer. Os lucros obtidos, o envolvimento de setores dinâmicos da economia e a atuação de setores reacionários incrustados no Estado, azeitando as engrenagens de proteção e impunidade, mostram o poderio e os interesses que movem essa atividade criminosa. Certamente não será encontrado um único parlamentar, nem mesmo a senadora Kátia Abreu (DEM/TO), que defenda abertamente o trabalho escravo – o crime é previsto no Código Penal, artigo 149.

No entanto, o que justifica que até hoje não foi aprovada no Congresso Nacional a proposta de emenda constitucional 438/2001, a PEC do Trabalho Escravo? Essa emenda constitucional determina a expropriação, sem nenhuma indenização, das propriedades onde houver a prática de trabalho escravo e as terras serão destinadas à reforma agrária. A proposta já passou pelo Senado Federal em 2003, foi aprovado em primeiro turno na Câmara dos Deputados em 2004. Mas, é preciso ser feita uma nova votação, em segundo turno, na Câmara. Contudo, desde agosto de 2004 a proposta não é votada por resistência da banca ruralista.

A sociedade civil está mobilizada, recolhendo assinaturas para romper com a resistência dos setores reacionários do Congresso Nacional e exigir a aprovação da PEC 438/2001. É uma medida imprescindível para a erradicação do trabalho escravo em nosso país. Mas que necessita somar-se com a mudança radical no atual modelo agrícola baseado no agronegócio e na realização de uma profunda reforma agrária em nosso país.

Implicações Epistemológicas da Invisibilidade


José Geraldo da Rocha Unigranrio

Dentre os tantos problemas em relação ao negro na sociedade brasileira, encontramos a sua invisibilidade. Independentemente do seu quantitativo no universo da população, em várias instâncias de decisões ele não está representado. Nesse caso trata-se de uma negação presencial. Em outros espaços, mesmo estando presentes fisicamente, a desconexão com sua consciência negra o torna invisível do ponto de vista de fazer valer as coisas e elementos associados à sua identidade, à sua pertença étnica e cultural. Ainda existem os espaços e circunstâncias, onde sua presença é ignorada intencionalmente, ou não, conscientemente ,ou não. Na perspectiva da invisibilidade é que se coloca o questionamento relativo à produção do conhecimento. Os espaços privilegiados de produção do conhecimento na sociedade brasileira são espaços embranquecidos. Nesses espaços, não só é preocupante a ausência física sistemática de negros, como a quase absoluta inexistência de possibilidades de formulações teóricas. Talvez aqui coubesse uma pesquisa mais abrangente e detalhada sobre produção e sistematização de conhecimento a esse respeito nas teses de doutoramento ao longo da história das universidades brasileiras. Evidentemente, que a ausência, por tanto tempo, dos negros nesse espaço privilegiado de produção de conhecimento, corroborou substancialmente para esse quadro. Consequentemente, a parcialidade tornou-se uma marca do conhecimento produzido. Ao negar a possibilidade do negro ser nesse espaço, nega-se também o saber sobre ele. O Ser que não é visto, torna-se o Ser que não é apreendido. A negação da diversidade, da diferença, acaba obstaculizando o próprio saber. Nesse sentido, afirma Marcondes: Ver o ser é possuir o saber. Possuir o saber é obter a visão do todo, superando a visão parcial, ver os ser na sua totalidade.(MARCONDES,2006,27) À luz das afirmações de Marcondes, nos deparamos com um grande problema filosófico no trato com as questões relativas ao negro no Brasil. Ver o ser negro na sua totalidade é verdadeiramente algo não costumeiro na sociedade brasileira. Ao contrário, o que se naturalizou a respeito do negro é que ele é pobre, favelado, pagodeiro, sambista ou jogador de futebol, quando não é bandido. Essa rotulação naturalizada na verdade acaba sendo uma redução do Ser negro. Tal redução aplasta dimensões e valores constitutivos da dignidade requerida do Ser. É o mesmo que dizer: olho um nego e vejo um Ser. Ser esse que é humano, portador de riqueza, de beleza, de valores e tantos outros atributos constitutivos do Ser. Nesse sentido, o pensamento de Leibniz trabalhado em Marcondes parece-nos extremamente relevante. Em vez de duvidar de tudo que possa parecer incerto, é preciso considerar os graus de aceitação ou discordâncias que cada afirmação possa produzir, ou seja, examinar suas razões(…)Toda verdade deve ter uma razão segundo a qual ela é verdade(… )a tarefa da filosofia consiste na integração da totalidade do conhecimento humano.(MARCONDES,2006,192) Muitas são as verdades sobre o negro no Brasil, que os “ouvidos” da sociedade brasileira não querem, não suportam, não admitem ouvir. A impregnação e a incrustação do racismo na mente coletiva , não apenas cegam os olhos mas também entopem os ouvidos. Obviamente, tal realidade, inviabiliza toda e qualquer possibilidade de compreender o Ser negro na sua totalidade e consequentemente viabilizar a integração da totalidade do conhecimento. Enquanto Descartes afirmava “cogito ergo sum” – penso logo êxito, como forma de estabelecer os fundamentos do conhecimento, no universo de uma epistemologia afro, tal afirmação seria modificada pelo “ sou porque vós sois”. O fundamento do conhecimento está no sentido da existência, não está no pensar. E o sentido da existência está no relacionar-se. Ora, do ponto de vista filosófico, isso encerra um enorme riqueza presente numa matriz cultural na sociedade. Entretanto para que isso se torne algo a ser partilhado nos espaços privilegiados de produção de conhecimento, necessário se faz um redimensionamento da inclusão presencial e relacional da diferença. A sociabilidade é a conseqüência imediata das faculdades mais ligadas ao ser do homem, que são: o conhecimento, a corporeidade, a linguagem, a liberdade e o amor. O conhecimento põe-no em contato com todo o mundo que o circunda, particularmente com o mundo humano. A linguagem permite-lhe trocar com os outros as suas idéias próprias, os próprios sentidos, os próprios projetos. O corpo dá lhe a possibilidade de trabalhar, jogar, divertir-se etc. junto com os outros. O amor e a liberdade colocam-no à disposição para dar-se aos outros e para fazê-los participantes das próprias coisas e do próprio ser. (MONDIN, 2005, 170-171) Os preconceitos e a discriminação são impeditivos à vivência e à sociabilidade do ser. São realidades que bloqueiam a expressão do ser., assim como o impede de desenvolver do ponto de vista do conhecimento, que vai desde a negação da oportunidade até a sedimentação de entraves psicológicos. Cria-se nessa perspectiva, processos de desconexão do ser com o mundo que o envolve e fundamentalmente com o seu mundo interior. É a chamada negação de si mesmo. Ao considerar um ser que nega a si mesmo, a sua dimensão corpórea não lhe permite estabelecer relacionamentos dignificantes enquanto ser humano. Desencadeia-se se assim uma invisibilidade de si mesmo. O ser negro não se vê enquanto ser. A perda da consciência corpórea desvincula o ser de si mesmo. Em Marx essa perda de consciência aparece como alienação, ou seja, o indivíduo se torna estranho a si mesmo em razão das artimanhas do sistema capitalista. É verdade que Marx não está preocupado com a questão da discriminação. Sua preocupação está centrada na exploração que a classe dominante exerce sobre a classe trabalhadora. Então a linguagem do ser não mais significa possibilidade de trocar com os outros. Trocar o que se a discriminação faz com que o que se é não tenha reconhecibilidade e aceitabilidade? Isso encerra uma implicação extremamente prejudicial a sociabilidade desencadeia dessa situação. As idéias, os projetos e o sentido da vida são desvirtuados. Quando um individuo perde esse referencial, a relação que ele vai estabelecer com a sociedade estará obviamente desfocada do eixo da humanização. Como falar de amor a esse ser? Falar de liberdade, de disposição para dar-se aos outros, se o que recebe dos outros são gestos e práticas discriminatórias, que só o diminui e o aniquila enquanto ser? É notório na sociedade brasileira que essa invisibilidade do negro é algo construído socialmente e culturalmente. As marcas das culturas dominantes estão presentes nos mais diferenciados setores e aspectos da vida cotidiana do povo brasileiro. A negação, quando conveniente, dos aspectos culturais relacionados aos negros cumpre um papel político e ideológico. Nesse sentido, o pensamento de Mondin é ilustrativo. É possível constatar a complexidade que está presente culturalmente na sua origem, na sua forma e na sua finalidade

A cultura é um fenômeno complexo e a melhor maneira para entendê-la é a de fixar suas principais características. Elas podem ser agrupadas segundo três aspectos: a origem, a forma e a finalidade. Do ponto de vista da origem a cultura é humana, social e laboriosa (…) Do ponto de vista da forma, a cultura é sensível, dinâmica, múltipla e criativa (..) Do ponto de vista da finalidade, para alguns é considerada essencialmente religiosa, para outros humanistas, e por outros naturalista ( MONDIN, 2005, 179 -181) Dada a complexidade do tema em questão, todos os esforços em busca de garantir uma visibilidade epistemológica, sao poucos, diante do tanto tempo que tal realidade foi relegada.

Referencia Bibliográfica MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia: dos Pré-Socráticos a Wittgenstein. Rio de Janeiro: ZAAR, 2004. MONDIN, Battista. O Homem, Quem é Ele? Elementos de Antropologia e Filosofia. São Paulo: Paulus, 12ª Edição, 2005.

Mandela e Martinho: das vilas para o mundo

Jairo Junior *

Comemorou-se na África e em vários locais do mundo os 20 anos do fim do apartheid, sistema segracionista que perdurou na África do Sul por cinco décadas. E o marco do fim deste perverso e cruel regime foi a libertação, em fevereiro de 1990, do líder Nelson Rolihlahla Mandela. Principal representante do movimento anti-apartheid, considerado pelos povos um guerreiro em luta pela liberdade. Um herói que deu ao mundo lições de politica, resistência e determinação.

A sua perseverante luta emocionou o mundo, que até o reverencia. Talvez uma das duas personalidades mais marcantes do século passado, e que já marca também o século atual. Ao lado de Fidel Castro, líder cubano, sem dúvida nenhuma é um dos maiores líderes da nossa época.

De etnia Xhosa, Mandela nasceu na pequena vilao de Qunu, distrito de Umtata, na região do Trans kei. Aos sete anos, Mandela tornou-se o primeiro membro da família a frequentar a escola, onde lhe foi dado o nome inglês “Nelson”. Seu pai morreu logo depois, e Nelson seguiu para uma escola próxima ao palácio do Regente. Seguindo as tradições Xhosa, ele foi iniciado na sociedade aos 16 anos, seguindo para o Instituto Clarkebury, onde estudou cultura ocidental.

Como jovem estudante do direito, Mandela se envolveu na oposição ao regime do apartheid, que negava aos negros (maioria da população), mestiços e indianos (uma expressiva colônia de imigrantes) direitos políticos, sociais e econômicos. Uniu-se ao Congresso Nacional Africano em 1942, e dois anos depois fundou com Walter Sisulu e Oliver Tambo, entre outros, a Liga Jovem do CNA.

Depois da fajuta e contestada eleição de 1948 dar a vitória aos afrikaners (Partido Nacional), que apoiavam a política de segregação racial, Mandela tornou-se mais ativo no CNA, tomando parte do Congresso do Povo (1955), que divulgou a Carta da Liberdade – documento contendo um programa fundamental para a causa anti-apartheid.

Mandela e seus camaradas foram obrigados a recorrer às armas após o massacre de Sharpeville, em março de 1960, quando a polícia sul-africana atirou em manifestantes negros, matando 69 pessoas e ferindo 180.

Em 1961, ele se tornou comandante do braço armado do CNA, o chamado Umkhonto we Sizwe (“Lança da Nação”, ou MK), fundado por ele e outros. Mandela coordenou uma campanha de sabotagem contra alvos militares e do governo e viajou para a Argélia para treinamento paramilitar.

Em agosto de 1962, Nelson Mandela foi preso após informes da CIA à polícia sul-africana, sendo sentenciado a cinco anos de prisão por viajar ilegalmente ao exterior e incentivar greves. Em 1964, foi condenado à prisão perpétua por sabotagem (o que Mandela admitiu) e por ser acusado injustamente de conspirar para ajudar outros países a invadir a África do Sul (o que Mandela negou e nega).

No decorrer dos 27 anos que ficou preso, Mandela se tornou um símbolo da oposição ao apartheid e o clamor “Libertem Nelson Mandela” se tornou o lema das campanhas anti-apartheid em todo o mundo.

Durante os anos 1970, ele recusou uma revisão da pena e, em 1985, não aceitou a liberdade condicional em troca de não incentivar a luta armada. Mandela continuou na prisão até fevereiro de 1990, quando a campanha do CNA e a pressão internacional conseguiram que ele fosse libertado em 11 de fevereiro, aos 72 anos.

Nelson Mandela recebeu o Prêmio Nobel da paz em 1993, em uma solenidade marcada pela polêmica divisão do prêmio com o seu algoz de quase três decadas. Provocado pelo seu antecessor na entrega do prêmio, Mandela respondeu a altura, sendo ovacionado pelos presentes.

Como presidente do CNA (de julho de 1991 a dezembro de 1997) e primeiro presidente negro da África do Sul (de maio de 1994 a junho de 1999), Mandela comandou a transição de forma exemplar, ganhando respeito internacional por sua luta em prol da reconciliação interna e externa. O que não foi fácil, pois o que ocorreu naquele país foi uma verdadeira revolução, nada pacifica, muito pelo contrário. Foi cruel e cruenta, muitas mortes e provocações que foram enfrentadas de forma firme e flexivél por Mandela e o CNA, que tinha em seu seio a forte presença dos comunistas do Partido da África do Sul.

Por esta razão, comemorar os vinte anos do fim do apartheid é comemorar a vitória incontestavél da maioria sofrida e explorada do povo daquele importante país da África, que animou todo o mundo progressista em pleno apogeu da crise do Socialismo

Mas também foi em fevereiro que nasceu o nosso Martinho José Ferreira, em Duas Barras, Rio de Janeiro, em 12 de fevereiro de 1938. Filho de lavradores da Fazenda do Cedro Grande, veio para o Rio de Janeiro com apenas 4 anos. Cidadão carioca criado na Serra dos Pretos Forros, sua primeira profissão foi como Auxiliar de Químico Industrial, função aprendida no curso intensivo do SENAI.

Um pouco mais tarde, enquanto servia o exército como Sargento Burocrata, cursou a Escola de Instrução Especializada, tornando-se escrevente e contador, profissões que abandonou em 1970, quando deu baixa para se tornar cantor profissional.

Sua carreira de cantor profissional iniciou-se, na verdade, no início de 1969 quando lançou o LP intitulado Martinho da Vila, que foi o maior sucesso do Brasil em execução e vendagem, com grandes sucessos como Casa de Bamba e O Pequeno Burguês e outras que se tornaram clássicos – Quem é Do Mar Não Enjoa, Iaiá do Cais Dourado e Tom Maior.
Ai “nascia” Martinho da Vila, das vilas, dos sambas, das lutas.

Nacionalmente conhecido como sambista, Martinho da Vila é um legítimo representante da MPB, com várias composições gravadas no exterior e considerado por muitos críticos como o melhor cantor do Brasil, interpretando músicas dos mais variados ritmos.

Embora compositor indutivo e cantor sem formação acadêmica, tem uma grande ligação com a música erudita e idealizou, em parceria com o maestro Leonardo Bruno o Concerto Negro, espetáculo sinfônico que enfoca a participação da cultura negra na música erudita. Participou do projeto Clássicos do Samba, sob a regência do saudoso maestro Sílvio Barbato. Além de compositor e cantor, é escritor autor de 10 livros.

Mas a comemoração deste artigo que registra com alegria o 72º aniversário deste grande mestre que é na verdade um mito do samba e das causas da negritude. Todo sambista o reverencia e respeita, todos. Zeca Pagodinho ao grupo Revelação, do Jorge Aragão a Leci Brandão, de Alcione a Beth Carvalho e com razão, pois em um momento em que o samba era mal visto pelas elites e até por outras parcelas da população no Brasil, ele emplacou suas composições nos festivais e, a partir daí, o Brasil, ainda bem, jamais deixou de ouvir falar no Martinho da Vila.

Mas o que este humilde escrivinhador faz questão de registrar que é como militante de uma causa que este cidadão do mundo deixa exemplos em suas atitudes. Com sua música e através dela conheceu o mundo, chegou à África e lá encontrou suas origens e até hoje é figura fundamental nas lutas que travamos. Não só na aproximação do nosso país com o continente africano, notadamente Angola, mas também principalmente por alinhar sua sensibilidade poética com a nitidez de rumos. Sua capacidade artística com a consciência social.

Vida longa ao nosso Martinho, nós que somos companheiros de luta e de sonhos desejamos muitos, mas muitos anos de vida e muita felicidades.

Que a Vila Isabel, cujo samba enredo que leva a avenida é de sua autoria, seja iluminada para como de costume estar à altura de Noel Rosa e de Marinho da Vila, sempre!!! A luta continua mas nós estamos acostumados com o balanço do mar e não enjoaremos.

Axé!!!!

* Presidente Associação Brasil Angola (AABA); Diretor do Centro Cultural Africano (CCA); Coordenador do Congresso Nacional de Capoeira (CNC)

Defensoria lança cartilha para comemorar Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa



O Núcleo de Combate a Discriminação, Racismo e Preconceito da Defensoria Pública preparou uma cartilha informativa para celebrar o dia 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa. O material explica para os leitores o que é religião e liberdade religiosa, quais as obrigações que o Estado e as pessoas têm para garantir que este direito seja respeitado por todos.

“Viver numa sociedade multicultural como a brasileira é respeitar o outro nas suas mais diversas dimensões, inclusive a religiosa”, informa a cartilha. “O Estado não pode criar obstáculos para o exercício de qualquer religião e deve tomar atitudes para garantir que a liberdade religiosa seja respeitada por todos”, expressa.

A cartilha ainda diz quais as atitudes que devem ser tomadas em caso de discriminação pela religião ou pela falta dela, bem como os dispositivos legais que podem ser aplicados nesta situação. Por fim, o material traz, ainda, diversas instituições onde as vítimas podem buscar informações e atendimento no Estado de São Paulo.

A cartilha também pode ser acessada na internet, no Portal da Defensoria: http://www.defensoria.sp.gov.br/dpesp/repositorio/0/folder%20religiosa.pdf

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Brasil ocupa quarto lugar no ranking da pornografia infantil



Do clipping da Andi

Comissão de Direitos Humanos da Câmara registrou, entre janeiro e abril de 2006, quase dez mil denúncias de pornografia infantil

Dados colhidos pela Associação Italiana para a Defesa da Infância Telefono Arcobaleno, em 2003, mostram que a rede de pornografia infantil abriga 17.016 endereços na internet. No Brasil, são 1.210. Pelos dados, o Brasil ocupa o quarto lugar no ranking mundial. A Comissão de Direitos Humanos da Câmara registra, entre janeiro e abril de 2006, quase dez mil denúncias de pornografia infantil na internet. Vale lembrar que o Brasil ainda não se filiou à Convenção de Budapeste, acordo firmado por 40 nações para imprimir legalidade internacional à busca e punição de criminosos em ação no sistema mundial de comunicação eletrônica.

[Estado de Minas (MG) – 01/02/2010]

Adolescentes consomem álcool cada vez mais cedo

do clipping da Andi
Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, a psicóloga Rosely Sayão, apresenta dados de uma pesquisa que aponta o álcool como a droga mais usada por adolescentes. O consumo vem aumentando, principalmente entre os mais novos e entre as meninas. Hoje quase metade dos jovens com idade entre 12 e 17 anos já ingeriu bebida alcoólica, enquanto na década de oitenta, o consumo iniciava-se entre os 16 e 17 anos.
O uso constante também tem crescido entre pessoas com menos de 18 anos. Rosely levanta hipóteses com o intuito de sugerir possíveis causas dessa precocidade. A primeira delas relaciona o uso cotidiano da bebida alcoólica a um estilo de vida desejado pelos jovens (popularidade, alegria, beleza e outros) aliado à permissão dos pais. Segundo a psicóloga, muitos adultos acreditam que oferecer bebida aos filhos em casa é uma atitude aconselhável e dão festas para os adolescentes nas quais permitem bebidas, por exemplo.
Outro alerta é sobre a lei que proíbe a venda de bebida alcoólica para menores de 18 anos, que não é respeitada. Muitos estabelecimentos comerciais as vendem sem pedir documentos aos jovens e muitos adultos aceitam o pedido deles para passar a bebida em sua compra.
Ainda de acordo com Rosely, os jovens bebem, entre outros motivos, porque o álcool provoca euforia, desinibição e destrava os mais tímidos. Entretanto, afeta a coordenação motora, os reflexos e o sono, além de interferir na percepção do que o jovem considera certo e errado. Ela afirma que “os mesmos pais que ensinam o filho a beber não o ensinam sobre os cuidados que podem reduzir seus efeitos, como alimentar-se bem antes, não misturar diferentes tipos de bebida e ingerir muita água”.

Fonte: Folha de S. Paulo (SP), Rosely Sayão – 26/02/2009

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Religiosa é ameaçada por denunciar pedofilia no Pará



A irmã Henriqueta Cavalcante, coordenadora da Regional Norte 2 da CNBB (Pará e Amapá), recebeu ameaças de morte por telefone, de acordo com notícia divulgada no dia 24/03/09 pela Comissão de Justiça e Paz (CJP). O motivo seria sua atuação junto à CPI que apura denúncias de pedofilia no estado do Pará.

As ameaças foram divulgadas pelos jornais O Globo, do Rio de Janeiro (RJ) e o Liberal, de Belém (PA), com destaque para o trabalho de apuração que está sendo feito pela Polícia Civil.

A Regional da CNBB disse que a Igreja do Pará não vai se intimidar com as ameaças e continuará trabalhando em favor das causas sociais e humanas. A Comissão Brasileira de Justiça e Paz (CBJP), organismo vinculado à CNBB, em Brasília, afirmou, por meio do secretário-adjunto Daniel Seidel, que está em permanente contato com as autoridades para que sejam tomadas as devidas providências, e também faz contato diário com a irmã Henriqueta Cavalcante, com as autoridades locais como a governadora do Pará, a Assembleia Legislativa do estado, o Congresso Nacional e o Ministério da Justiça .

Fonte: site do CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)

Pesquisa revela que os pais são os principais algozes nos casos de maus-tratos



do clipping da Andi
De acordo com dados reunidos entre janeiro de 1999 e janeiro de 2009 pelo Sistema de Informação para a Infância e Adolescência (Sipia), do Ministério da Justiça e do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), pais e mães figuram entre os principais violadores dos direitos de crianças e adolescentes no Brasil. A mãe aparece em primeiro lugar, em 228.443 denúncias e o pai em 198.614. Já o padrasto figura em 17.376 casos e a madrasta em 4.020.
O Sipia recebe informações de vários Conselhos Tutelares de 21 estados e do Distrito Federal. Pesquisa do Laboratório de Estudos da Criança (Lacri), da Universidade de São Paulo (USP), revela a ocorrência de mais de 160 mil casos de maus-tratos a meninos e meninas entre 1996 e 2007 em todo o País. Além disso, aponta a existência de uma cultura do silêncio, principalmente na classe média, que limita novas denúncias. “Quanto maior o poder aquisitivo da família, mais velada fica a violência doméstica contra crianças e adolescentes. Quando se mora num apartamento de classe média, a prática de denúncia não existe. Quando há denúncia, é a escola que encaminha”, explicou a conselheira tutelar de São Bernardo do Campo, na região do ABC, Vera Lúcia de Oliveira.
Na capital paulista, conforme informações desse estudo, pelo menos 307 meninas e meninos morreram vítimas de violência doméstica entre 2000 e 2007. Em números absolutos, foram assassinados no Brasil 8.700 crianças e jovens de zero a 19 anos em 2005, segundo o Ministério da Saúde. Em 1995, eram 5.638 assassinatos. “Qualquer suspeita tem de ser denunciada, senão pode virar óbito”, avisa Lígia Vezzaro Caravieri, do Centro Regional de Atenção aos Maus-Tratos na Infância (Crami).
Fonte: O Estado de São Paulo (SP) – 17/02/2009

Clique aqui para conferir a pesquisa

Castigo contra filhos resulta em perda do Poder Familiar



Do clipping da Andi

Antes conhecido como Pátrio Poder, o Poder Familiar é a responsabilidade que o pai e a mãe têm sobre a criação dos filhos. A perda desse poder exige uma longa discussão nos tribunais e pode ocorrer em casos bastante específicos. A aplicação de um castigo moderado é suficiente para justificar um processo de suspensão ou destituição do poder familiar. Segundo a promotora da Vara da Infância e da Juventude de Londrina, Édina Maria de Paula, os casos de violência extrema contra os filhos são resultado da falta de autoridade dos pais e da punição justamente no momento em que estão com raiva.

”O pai e a mãe têm que ter pulso firme e impor limites. A criança precisa conviver com um padrão linear de comportamento. Mas os pais não podem agredir o filho, principalmente para descontar a raiva na criança. A distância entre o tapa e a agressão física criminosa é uma cortina de fumaça”, ressalta. O termo Pátrio Poder foi instituído pelo Código Civil de 1916. Com a reforma do Código, em 2002, passou a se chamar Poder Familiar.

A suspensão ou destituição pode ser requisitada tanto por algum parente quanto pelo Ministério Público e pelo Conselho Tutelar, em casos de abandono e prática de atos contrários à moral e aos bons costumes. O amplo direito de defesa dos pais é uma parte do trâmite do processo de destituição de poder familiar, que pode arrastar-se por até cinco anos. O destino da vítima é definido pelo juiz, e, caso a sentença seja favorável à destituição, a criança ou adolescente pode ir morar na casa de algum familiar próximo, que queira cuidar dele, ou em um abrigo.

Fonte: Folha de Londrina (PR), Fernando Rocha Faro , 28/01/2009

Parto é a primeira causa de internação de adolescentes no Brasil



do clipping da Andi
Segundo pesquisas divulgadas pelo Ministério da Saúde e pela Agência Norte-Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), entre 1986 e 1996, dobrou o número de jovens que tiveram sua primeira relação sexual entre os 15 e os 19 anos.
Enquanto o número médio de filhos de mulheres adultas vem caindo há décadas, a taxa de fecundidade entre adolescentes está em crescimento constante. Anualmente, 14 milhões de adolescentes no mundo tornam-se mães e 10% dos abortos realizados são praticados por mulheres entre 15 e 19 anos.
No Brasil, o parto é a primeira causa de internação de adolescentes no sistema público de saúde. Em 2002, 18% das jovens com menos de 15 anos já tinham pelo menos um filho e de cada dez mulheres que hoje têm filhos, duas são adolescentes.
Os especialistas em adolescência alertam, de 1,1 milhão de meninas de 15 a 19 anos que dão à luz a cada ano no Brasil, cerca de 25% já são mães. O mais preocupante é que essas adolescentes afirmam que voltaram a engravidar sem querer. Ao contrário do que se imagina, isso não ocorre apenas entre as camadas sociais mais pobres.
Muitas jovens de classe média também integram o universo das grávidas reincidentes. Um misto de falta de informação e inconsequência é o principal motivo. Outra explicação aponta que os jovens são muito imediatistas. Ante a possibilidade de fazer sexo, sobretudo quando esperaram muito por isso, não pensam nas consequências: valem-se do desejo imediato, ignorando os resultados.
Fonte: Diário da Manhã (GO), Paulo Arantes – 17/01/2009

HPV: 25% das adolescentes que fazem sexo têm o vírus



do clipping da Andi
Pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, informa que uma em cada quatro adolescentes sexualmente ativas está contaminada pelo HPV, um vírus transmitido durante o ato sexual que pode causar câncer de colo de útero. O vírus foi detectado em meninas que tinham iniciado a vida sexual há apenas um ano. A porcentagem de infectadas sobe para 40%, quando chegam a cinco anos de atividade sexual.
Segundo o ginecologista Otto Baptista, as adolescentes estão iniciando sua vida sexual muito cedo, sem proteção e com uma grande variedade de parceiros. Como a doença demora a se manifestar, a pessoa continua a ter relações, multiplicando os casos. No Brasil, estima-se que 3% das mulheres infectadas pelo vírus HPV poderão desenvolver câncer de colo uterino. “Isso depende muito do estado imunológico do paciente. Algumas vezes, a doença só se manifesta na gravidez, mas a menina continua infectando os parceiros”, ressalta o médico.
A infecção ataca a pele e as mucosas e pode causar corrimento e verrugas na região vaginal que podem demorar anos para aparecer, quando a doença já estiver muito grave. O tratamento é dolorido. É preciso usar ácidos e fazer cauterização, uma espécie de choque quente. Em estágio avançado é preciso amputar o colo do útero ou até retirar o órgão, o que leva à infertilidade.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de colo do útero é responsável por aproximadamente quatro mil mortes por ano no País. O tratamento é caro e demorado, composto por três doses de vacina que deve ser tomada em intervalos de seis meses. Elas custam R$ 400,00 cada uma e o uso é restrito a mulheres entre nove e 26 anos de idade, grupo no qual a eficácia do medicamento já foi comprovada.
Fonte: A Gazeta (ES), Elaine Vieira – 14/01/2009

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Guarda compartilhada minimiza traumas e sofrimento



do clipping da Andi
Os pais não precisarão mais entrar na Justiça para decidir quem ficará com a guarda definitiva do filho. A Lei 11.698, sancionada em agosto de 2008, cria a guarda compartilhada dos filhos de pais separados. A tutela, que é opcional, poderá ser fixada por escolha do pai e da mãe ou por determinação judicial. Antes, só existia a guarda unilateral. Ou seja, o filho ficava apenas com um dos pais, que decidia sobre a vida da criança.
Com a nova lei, a grande vantagem é que o sofrimento da criança para decidir com quem ficar será menos traumático. Segundo o psicólogo Cristiano Antunes da Silva, a lei anterior poderia eximir um dos genitores de acompanhar o desenvolvimento e, sobretudo, a educação do filho. Quem está separado e enfrenta problemas com a guarda unilateral pode recorrer ao juiz em busca da guarda compartilhada.
Na nova guarda, o pai e a mãe passam a dividir direitos e deveres relativos aos filhos e às decisões sobre a rotina da criança ou do adolescente. Definição da escola e de viagens, por exemplo, passa a ser conjunta. O tempo que o filho passará com cada um dos pais será decidido entre eles.
Fonte: Diário da Manhã (GO) – 05/01

Saúde mental e crianças e adolescentes em situação de rua



Maria Cláudia Baima

“Saúde mental e criança e adolescente em situação de rua” foi o tema da palestra do Professor Doutor Walter Ferreira de Oliveira, da Universidade Federal de Santa Catarina, durante o I Fórum Regional Criança e Adolescente em Situação de Rua e Trabalho Infantil – Experiências, Perspectivas e Desafios, que aconteceu nos dias 4, 5 e 7 de agosto, na Câmara Municipal de São Vicente, São Paulo.

O Professor começou sua palestra citando uma frase do psiquiatra inglês Ronald David Laing: “toda vez que nasce uma criança renasce a possibilidade de perdão” e outra frase do educador Paulo Freire: “temos que ser impacientemente pacientes”. Segundo ele, a essência desses pensamentos é bem oportuna para os profissionais que lidam com saúde mental de crianças e adolescentes em situação de rua e/ou de trabalho infantil, pois problemas complexos exigem soluções complexas.

Ao afirmar que cada criança e/ou adolescente é uma vida única e deve ser entendida e tratada como tal, o Professor Walter Oliveira convida a platéia a se perguntar se a psiquiatria é o canal certo para resolver problemas mentais. Será que é o único canal?

De acordo com Oliveira, na lógica da psiquiatria as pessoas com doença mental não têm cura. “Hoje, o grande movimento da saúde mental é desconstruir essa lógica antiga. Saúde mental está contida em um contexto muito mais amplo que o canal da psiquiatria, que só prescreve medicação e internação. Saúde mental hoje é um movimento social de cidadãos que entendem a amplitude desse contexto”, diz ele.

Sabemos que as instituições psiquiátricas no Brasil seguem, historicamente, o paradigma da exclusão. Esse é, segundo o palestrante, o paradigma da chamada escola de “higiene mental” do começo do século XX, cujas idéias se afinam com o conceito de eugenia, ou seja, da raça pura, na qual o anormal é visto como doença, como perigoso. Mas hoje, diz ele, o tema predominante da saúde mental moderna é a auto-estima da pessoa.

Para o Professor, o perigo que corremos no atendimento de crianças e adolescentes é nos limitarmos à visão clínica. E isso, no Brasil, segundo Oliveira, é mais perigoso pois ainda não temos campos de estudo nessa área. “Nos Estados Unidos, por exemplo, existe o campo de estudo sobre o desenvolvimento da juventude. O mesmo acontece na Holanda, na Espanha. Precisamos criar campos de saber que fujam dessa lógica de diagnóstico, medicação, tratamento com internação e encontrar a lógica da subjetividade capaz de olhar, de fato, para o outro”, afirma.

Os perigos dessa visão clínica são, na opinião do palestrante, a atitude de ver o outro não como pessoa, mas como doente, e assim passar a acreditar que essa pessoa é irrecuperável, improdutiva e perigosa. “Os profissionais que atuam somente com essa visão clínica agem como controladores sociais para atender ao clamor da exclusão que emana da sociedade”, diz Oliveira.

Para concluir sua fala o Professor recorre a Edgar Morin quando ele diz que “o fortalecimento das comunidades é nossa única saída. E questiona: “quem somos nós? Somos cidadãos que podem sentir orgulho da nossa nação? Somos orgulhosos da forma com que cuidamos das crianças?”

Deixando essas questões para reflexão individual, o palestrante lembra um pensamento presente na cultura africana: “criar uma criança é algo que depende de toda a comunidade”.

Confira a apresentação:

“Saúde mental e criança e adolescente em situação de rua”,

obs: o texto acima foi adaptado da palestra proferida no I Fórum Regional Criança e Adolescente em Situação de Rua e Trabalho Infantil, dia 07/08/09, na Câmara Municipal de São Vicente, SP.

Câmara proíbe demissão de marido ou companheiro de grávida por um ano

do clipping da Andi
A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados (CCJ) aprovou no dia 4 de dezembro projeto de autoria do presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), que proíbe as empresas de demitir funcionário cuja mulher ou companheira esteja grávida. Essa estabilidade provisória deve durar 12 meses e começará a contar a partir da concepção da criança. A proposta foi criticada por empresários. Entretanto, segundo Chinaglia, para quem vive de salário, é muito pobre, não tem recursos guardados ou boa condição financeira, o projeto é vital para o bem-estar da família.
“Uma demissão do marido causa abalo emocional que pode afetar a saúde da mulher e do feto”, justifica. Em nota, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) considerou a proposta inoportuna, pois agrega mais um risco associado à legislação trabalhista, com reflexos negativos sobre a gestão de empresas e pode gerar efeitos colaterais indesejados e até mesmo inibir a geração de empregos.

Impunidade protege quem abusa sexualmente de crianças e adolescentes



Gilberto Costa
Da Agência Brasil

No dia 26 de novembro do ano passado, Vera Maria depôs encapuzada na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa do Maranhão, que investiga casos de abuso sexual infantojuvenil e práticas de pedofilia no estado. Ela tenta obter na Justiça o direito a uma pensão para o filho que teve há 12 anos, quando ainda era adolescente, mas que não foi registrado pelo pai, hoje prefeito de uma cidade do interior do estado.

Vera diz que já procurou a Justiça na comarca de sua região e na capital, São Luís, mas não conseguiu sequer que uma intimação fosse entregue ao político. “Na época, ele estava sem mandato e o oficial de Justiça alegou não saber o endereço”, conta. Ela espera, agora, que a CPI pressione o político a fazer o exame de DNA.

A impunidade de autoridades e pessoas bem posicionadas socialmente foi um dos principais motivos para a instalação, em outubro do ano passado, da CPI – a segunda no estado que investiga casos de abuso sexual infantojuvenil e de pedofilia. A primeira comissão a apurar esse tipo de crime foi concluída em 23 de abril de 2004.

“Nós temos uma absolvição grande no estado”, afirma a presidente da CPI, Eliziane Gama (PPS-MA). Segundo a deputada, a impunidade protege prefeitos, advogados, funcionários públicos professores e empresários.

Contra isso, a maranhense Francisca do Carmo luta para que o caso de sua filha adolescente não caia em esquecimento. Há cerca de dois anos, a menina foi levada depois da aula, com duas colegas, para um motel em São Luís por um advogado conhecido na cidade. Para a surpresa da mãe, o processo foi arquivado pela Justiça “por falta de prova”. Ela relatou à CPI do estado, no entanto, que a Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente não chegou sequer a tomar o depoimento de todos envolvidos.

Para o promotor de Justiça da Infância e Juventude de São Luís, Márcio Thadeu Silva Marques, o país avançou muito na legislação que visa a coibir e punir o abuso sexual. “Hoje qualquer ato sexual com menores de 14 anos é crime, com pena de oito a 15 anos [de prisão].”

O promotor acredita, porém, que ainda exista uma “cultura jurídica que precisa ser modificada”. Ele citou decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) favorável a dois réus de Campo Grande (MS) que fizeram programas com adolescentes e foram absolvidos porque, segundo a decisão, elas eram “prostitutas reconhecidas”.

O promotor também avalia que a impunidade também ocorre por causa do foro privilegiado ao qual as autoridades têm direito em tribunais. A mesma opinião tem o presidente da Associação de Magistrados Brasileiros (AMB), Mozart Valadares Pires.

“O que se verifica é que o foro privilegiado se transforma em um mecanismo de impunidade. Os tribunais superiores não têm a tradição da instrução processual, do colhimento de provas”, assinala defendendo o fim da prerrogativa.

Para o representante da Comissão da Criança e do Adolescente do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Ariel de Castro Alves, “a imagem da impunidade é verdadeira e notória”.

Segundo ele, há “pouquíssimas” delegacias da criança e do adolescente e delegacias especializadas com policiais preparados para fazer investigação sobre abuso sexual.

Além da impunidade, outro fator que dificulta a responsabilização em casos de violência sexual contra crianças é a falta de estrutura especializada na polícia e também no Judiciário para a produção de provas.

“Esse sentimento [de impunidade] tem um pouco de informação equivocada para quem não conhece o procedimento de apuração”, pondera a promotora de Justiça em Santa Catarina Helen Sanches.

“Crimes de violência sexual são crimes que têm uma dificuldade de prova muito grande, esse crime não é praticado na presença de testemunhas, normalmente não deixa vestígios”, completa a promotora, que também é primeira-secretária da Associação Brasileira de Magistrados, Promotores de Justiça e Defensores Públicos da Infância e da Juventude (ABMP).

O juiz da 5ª Vara Criminal de Brasília Márcio Evangelista Ferreira Silva também acredita que a falta de provas leva à absolvição. Segundo ele, os tribunais dão muito valor à palavra da vítima, “mas tem que vir acompanhada de provas”, avalia o magistrado.

“Quando a gente fala em combate à impunidade temos que pensar a nossa polícia investigativa, no sentido de que sejam buscados outros elementos de prova [como os exames de DNA], para que as pessoas que têm conhecimento dos fatos e a própria vítima tenham segurança para denunciar”, reforça a promotora Helen Sanches.

*Os nomes de crianças e adolescentes que sofreram violências sexuais e de seus parentes foram trocados

Cidadania: modo de usar


Todos reclamamos dos políticos, da corrupção insidiosa e sistêmica. Reclamamos da mídia “conservadora e golpista” (como nos ensina, diuturnamente, Paulo Henrique Amorim no seu imperdível Conversa Afiada). Reclamamos da já intolerável violência urbana, da crescente precariedade e descaso para com a saúde pública e a educação. Reclamamos do real sobrevalorizado, da taxa de juros que não cai com a celeridade necessária ao desenvolvimento da nação – alô, alô, turma do Banco Central! Dessa vez a Selic tem que ser reduzida em, pelo menos, 0,75%, pois 0,50% já é dado como favas contadas até pela ortodoxia do deus mercado e seus súditos fiéis. Reclamamos e reclamamos, ainda bem que reclamamos – e com razão – de muitas coisas.

O problema é que, quase sempre, reclamamos apenas numa espécie de resmungo, num solilóquio inaudível. Reclamamos nas conversas de boteco, junto aos nossos iguais. Reclamamos junto aos ouvidos, quase sempre desinteressados, do nosso vizinho ou colega de trabalho. É preciso amplificar essa reclamação. Reclamar mais, de diversos modos e em variados meios (ou mídias). Mais que isso: se reclamar é preciso, agir, mais ainda, é essencial. Porém, fica sempre a questão: como agir? Como ir além do mero queixume? Como exercer, em sua plenitude, a cidadania? Uma vez que mal temos tempo para cuidar dos nossos problemas, que já são tão complexos e numerosos? Temos que pagar as nossas contas, educar nossos filhos. Temos que viver enfim. Ou melhor, sobreviver.

Em primeiro lugar, e isso é essencial, devemos deixar a preguiça um pouco de lado e ler mais, nos informar mais e melhor – até para reclamar há que se ter consistência/solidez nos argumentos. Ler livros, sim, na medida do possível (que tal um a cada dois ou três meses?). Ler livros, não só jornais, revistas e sites ou blogs – mas não deixar de ler jornais, revistas, sites e blogs (e, destes dois últimos meios, tirar proveito da interatividade e soltar a voz e o verbo).

Sim, é necessário fazer esse “sacrifício” do exercício da leitura, já que ler implica também em esforço, paciência, dedicação e… sacrifício – seja de tempo, recursos ou de outras tarefas possivelmente mais cômodas ou aprazíveis. Um pouco de disciplina e sacrifício não faz mal a ninguém, ao contrário, ajuda a moldar o caráter – isso serve para monges, sacerdotes e homens santos, mas serve também para reles mortais e pecadores como nós.

Porém, esclareça-se, devemos ir além das fontes fáceis, óbvias de informação e notícias. Aquelas que nos são oferecidas, quase como num processo de osmose, hipnose e massificação, pelos grandes veículos da mídia (todos já – não à toa – em franca decadência, registre-se). Veículos como a Folha, o “Estadão”, o Globo, a revista Veja, a TV Globo etc, todos pertencentes às oligarquias parasitas que floresceram e fizeram fortuna à época da ditadura militar, devem ser evitados, para que não se fique com a consciência pesada e aprisionada em uma bem urdida teia de mentira e manipulação. É preciso buscar fontes alternativas e variadas de informação – sim, é fundamental o exercício da pluralidade e do contraditório. Ler opiniões diversas, divergentes, conflitantes: à esquerda e à direita.

Aqui vai uma dica essencial ao exercício da cidadania: desligue o aparelho de TV. Só o ligue para assistir filmes, no DVD ou no videocassete, ou programas jornalísticos/educativos. Mas o mais prudente é mesmo deixar o aparelho desligado. Já existem estudos sérios, de renomados intelectuais e especialistas, que apontam a televisão como um agente destruidor de neurônios e sinapses – assim como o álcool e outras drogas.

Sabe-se que os homens e mulheres de hoje passam quase que a totalidade do seu tempo livre assistindo a novelas e programas de auditório na TV. Isto é extremamente nocivo à saúde mental das pessoas: o cérebro desses indivíduos está encolhendo numa velocidade impressionante. A falta de leitura, associada à completa e excessiva imersão nas imagens e raios luminosos aprazíveis da televisão, causa perda progressiva da memória e da capacidade cognitiva: é o que se chama hoje de “aleijão cognitivo”. Portanto, desligar a TV é, também, ação essencial na busca pela cidadania. Além de ser, decerto, gesto primeiro na busca da boa saúde mental.

Apesar de todos os muitos problemas, ainda por resolver, ao ritmo e embalo de toda essa nossa “reclamação cidadã”, o Brasil está mudando – e mudando para melhor. Observem as mais que perceptíveis melhoras na Economia: seguidos recordes de saldos na Balança Comercial, agora sobejamente superavitária; o crescimento do PIB entre 4% e 5% neste ano e projetado para os próximos; os principais indicadores macroeconômicos favoráveis; os mais de R$120 bilhões de reservas; a inflação baixa; o aumento dos investimentos; a expansão da massa salarial e o crescimento do número de contratações de trabalhadores com carteira assinada; os avanços no combate à corrupção e na implantação de políticas públicas voltadas ao atendimento das necessidades das classes menos assistidas.

Pequenos e significativos passos estão sendo dados para, enfim – até que enfim! -, sairmos do fim do poço, do fim do buraco em que fomos jogados ao final do governo FHC (sim, é inegável que nossa vexatória dívida social é secular, ou, no mínimo, vem de muitas décadas, mas, e isso é do conhecimento de todos, conhecemos o fim do poço mesmo, os “ínferos”, no governo de Fernando Henrique Cardoso).

O Brasil está mudando. Precisamos, todos enfim, além de reclamar – reclamar sempre que necessário, claro – falar disso por aí: o Brasil está mudando! Espalhar essa boa nova. E que essa boa nova, como uma onda, se espalhe e contagie a todos com sua alvissareira, benfazeja e entusiástica mensagem: O Brasil está mudando!

Os professores, nas salas de aula (nas escolas e Universidades); os padres e pastores, em suas igrejas e templos; os militantes, nos movimentos sociais; os sindicalistas, em seus sindicatos; os escritores, em suas palestras e artigos; os músicos, em seus shows devem falar aos homens de bem: o Brasil está mudando! Muito ainda há por se fazer, mas está mudando. E mudando, em vários aspectos. Esforços estão sendo feitos no sentido de distribuir, um pouco que seja, e paulatinamente, a riqueza. Os corruptos e corruptores estão sendo processados e presos, para assim se coibir a sangria de recursos públicos, escassos por natureza (estima-se que cerca de R$40 bilhões/ano escorrem pelo ralo imundo da corrupção). Alguns figurões encararam algema e camburão, e foram recolhidos ao xilindró (mesmo que a prisão seja, ou tenha sido, apenas temporária ou preventiva, vá lá).

Precisamos fazer, nós todos, a nossa parte e ajudar/colaborar nessa mudança, para que ela se espalhe realmente na ação cidadã de cada um e seja definitiva. Como? Cada um à sua maneira, e dentro do seu papel ou profissão – por mais singelo(a) que seja o papel ou a profissão. Sim, precisamos mudar também! Nós mesmos! Precisamos, em primeiro lugar, tornarmo-nos cidadãos.

Ler mais, debater mais, participar mais, fiscalizar mais, exigir mais – e, por fim, agir. E assim cobrar, com conseqüência, com competência e voz ativa (e audível), melhorias nos serviços de saúde e educação públicas (notadamente nos estados e municípios, mas também da União); (re)clamar por mais segurança nas pequenas e grandes cidades; participar ativamente de sindicatos ou associações de classe; ou mesmo, na condição de servidor público, ajudar a fiscalizar as empresas públicas e seus gestores, denunciando ao Ministério Público a má utilização de recursos públicos e casos suspeitos de corrupção.

O Brasil está mudando! Mude também, junto com ele! Seja cidadão!

(*) Texto originalmente publicado na Agência Carta Maior.

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Ilustração: Táia Rocha
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> Lula Miranda, 41, é poeta e cronista. Natural de Salvador (BA), mas vive na cidade de São Paulo há 15 anos. Cursou Economia (UCSal) e Letras (UFBa e USP). Foi um dos expoentes da poesia marginal na Bahia na década de 1980. Atualmente colabora com veículos da imprensa alternativa, como os sites da revista Caros Amigos e da Agência Carta Maior. É secretário de Formação e Cidadania do Sindicato dos Trabalhadores em Editoras de São Paulo. Contato: poetalulamiranda@yahoo.com.br.

A história de um outro Luiz, também filho do Brasil

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Olhos que vivenciaram a tortura psicológica e física. Olhos que sofreram com o abuso sexual, preconceito e a miséria. Olhos que sentiram fome. Olhos que ainda têm fome. Fome de uma sociedade mais justa e solidária. Este olhar sonhador pertence ao jovem Luiz Roberto Lima, 35 anos, estudante de jornalismo e coordenador do Diretório Acadêmico de Comunicação da PUC-Campinas. Luiz foi um dos quatro selecionados para o concurso mundial de fotografia “Humanizando o Desenvolvimento”, promovido pelo Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) que selecionou 50 imagens de 27 países.

Participaram do concurso fotógrafos profissionais e membros da sociedade civil. O conteúdo enviado foi avaliado por representantes do IPC-IG, do Programa de Voluntários das Nações Unidas (UNV) e um fotógrafo profissional. Os olhos que já presenciaram o pior das mazelas sociais, hoje, registram por meio da lente fotográfica a realidade, rumo à construção de um mundo melhor. Militante de direitos humanos, Luiz explicou que o objetivo da foto, feita em 2009 em uma oficina de meio ambiente no distrito de Sousas, em Campinas, foi mostrar exemplos de superação social.

Já no 3º ano de jornalismo na PUC, Luiz é bolsista do Prouni e carrega uma história de luta e sobrevivência. Abandonado pela mãe na maternidade, ele cresceu em um orfanato, onde sofreu todos os tipos de violência possíveis. “Tinha muitos afazeres domésticos, como cuidar dos menores. Passava a noite inteira acordado, pois se os bebês chorassem, eu apanhava muito. Qualquer travessura era motivo para ficarmos sem comida. Muitas vezes, cheguei a comer pasta de dente, mesmo com uma dispensa enorme cheia de comida que, inclusive, chegava a estragar, mas eles não nos deixavam comer”, contou.

foto_onuFoto do jovem Luiz Roberto Lima premiada pela Onu.

Entre espancamentos, assédio moral e fome, Luiz não foi imune ao preconceito, já que é negro. “O fato de ser negro pesava muito. Eu pedia a Deus para ser branco e assim ser adotado para libertar-me daquela situação. Apanhava feito um condenado, por motivos banais. Nós não podíamos contar para visitas, pois as surras eram piores”, relatou Luiz lembrando que seu apelido era “Negrinho do Pastoreio” e, por este motivo, simplesmente pelo fato de ser negro, recebia surras homéricas, assim como outros companheiros negros.

Além de negar comida e espancá-lo, as pessoas responsáveis pela instituição que o acolheu também surravam os bebês, segundo Luiz. “Quando as crianças de berço choravam muito, as tias pressionavam a cabecinha delas contra o berço. Na hora do banho, batiam muito. As crianças viviam marcadas. Lembro-me de um menino negro, chamado Jorginho, ele tinha um ano e meio aproximadamente. Ele chorava muito e quanto mais chorava, mais apanhava. O menino, coitado, só queria ficar no meu colo. Ele me via e chorava. Às vezes, a tia me fazia passar a noite inteira com ele no colo e não podia dormir”, declarou.

Mesmo com inúmeras doações à instituição, as crianças e os jovens não recebiam nada. De acordo com Luiz, sua principal memória do Natal era quando uma fábrica de brinquedos fazia uma imensa doação e as crianças nunca chegavam a ver os tais presentes. “Num determinado Natal aprontamos alguma coisa. Era comum no final de ano, algumas famílias nos levarem para suas casas, mas neste ano, devido a alguma travessura, passamos todos nós lá, com fome, vendo a caseira comemorando com a família e todos muito bem arrumados”, denunciou.

E o Luiz cresceu

Aos 11 anos, Luiz foi transferido para uma instituição para adolescentes. O menino sonhava que poderia viver melhor, pelo menos com mais tranquilidade e sem surras, mas não foi bem esse quadro que ele encontrou. “Diálogo era o da porrada. Era como se fosse um quartel, com as regras mais arcaicas que podiam existir, baseada na submissão e violência. Tinha um cara que cuidava da gente, chamado Benê, negro também. Ele era o mais violento batia com murros e pontapés. Era um ambiente de medo, revolta. Parecia um caldeirão com todos os ingredientes presentes, prontos pra explodir”, ele contou.

Mesmo com o corpo dolorido de violência e a alma castigada pela injustiça, Luiz alimenta um sonho: o de conhecer sua mãe. “Desde criança olho para as mulheres negras que encontro imaginando como seria minha mãe e, assim, meu olhar foi envelhecendo com as dificuldades para encontrar minha verdadeira família, mas a esperança ainda persiste em mim”.

Aos 16 anos, ainda sem perspectiva de adoção, Luiz pediu emancipação e foi morar em uma pensão. No entanto, pouco tempo depois, ele perdeu o emprego e foi morar na rua. “Aí que realmente eu vi o que era sofrer. Descobri que a violência, o abuso sexual sofrido na primeira instituição não chegavam perto do que era a rua – nua e crua”, revelou.

De acordo com levantamento feito pelo Ministério de Desenvolvimento Social, há uma predominância masculina (82%) entre as pessoas em situação de rua. A maior parte, 53%, situa-se na faixa etária de 25 a 44 anos. Nesta população, 30% se declararam negros, índice bem acima da média nacional, que é de 6,2%. Já o percentual dos que se consideram brancos é de 29,5% (esse índice é de 54% entre o conjunto dos brasileiros) . “Conheci alguns “menores de rua” e comecei a acompanhá-los. Tentei furtar pra comer, mas não dava certo, eu não conseguia, diferenciava- me, dos demais. Alguns dos meninos e homens de ruas mais velhos, diziam que a rua não era pra mim. Na verdade, a rua não é pra ninguém”, alertou Luiz.

belem1“O preconceito marcou a história de Luiz, também filho do Brasil”.

Depois de passar três anos em situação de rua, Luiz começou a viver com a solidariedade das pessoas que lhe ofereciam abrigo, comida e ajuda. Começava a construir uma nova vida e, desta vez com o apoio de amigos e companheiros.

Outro fato que revelou o preconceito aconteceu em um shopping center de São Paulo. “Comecei a trabalhar e já podia comprar minhas roupas de marca, que é o sonho de jovens da periferia. Fui com um amigo comprar o tão sonhado tênis. Mas como paguei à vista o vendedor, achou que eu era bandido e avisou o setor de segurança. Fui algemado pelo segurança em uma cadeira e comecei a levar tapa na cara, com um revólver apontado pra minha cara. O interessante é que meu amigo, branco, não apanhou. Eu gritava e o segurança pegou dois fios ligado na tomada e passou a dar choque, querendo saber do resto do dinheiro, querendo saber de que quadrilha eu era”, disse Luiz lembrando que todos os seus documentos estavam certos e não havia qualquer indício para que o acusassem. “As ameaças eram cruéis, a ponto de ele dizer que ia me penetrar com cabo de vassoura. Para minha sorte, chegou um chefe de segurança do turno da noite, e perguntou o que estava acontecendo, o segurança relatou e eu relatei”. Foi nesse momento que o rapaz foi liberado.

Após este episódio traumático, Luiz resolveu entrar em um supletivo e em um cursinho, momento em que passou no Curso de Ciências da Educação da UERJ, logo depois transferiu para Ciências Sociais. “O cursinho foi fundamental na minha trajetória, pois ele era alternativo, então me deu uma base socialista, de esquerda. Lá aprendi música, teatro, poesia, arte e esperança. Esperança para uma nova vida”. Sem dinheiro, ele resolveu arriscar e iniciou sua faculdade. Inicialmente, conquistou uma bolsa-auxílio, mas o governo da época (Garotinho) cortou o benefício e Luiz teve de abandonar no 3º ano e retornar à Campinas. “Procurei um emprego na cidade e fui trabalhar num call center. Fiquei um ano sem estudar e depois entrei na Puc para fazer Direito pelo Prouni. Fiz um ano e mudei para o Jornalismo”.

E foi como estudante de jornalismo que Luiz transformou seu olhar estético e crítico em visão de mundo. “Acredito que a revolução se faz no cotidiano. A construção de um mundo melhor, de um Brasil mais justo e mais igualitário se faz todos os dias e o jornalismo tem um papel fundamental na consolidação da democracia”, concluiu Luiz que caminha pelas esquinas de Campinas com máquinas fotográficas emprestadas, com passos pesados da vida, mas braços prontos para a construção de um mundo melhor.

A menina e o arcebispo


“Qual a atitude mais certa: matar duas vidas em prol da integridade da menina ou deixar a gravidez acontecer na esperança de tanto a menina quantos os gêmeos sobreviverem? Pelo que estou acompanhando, o risco de morte, segundo os médicos, seria apenas da menina, ou seja, se não abortasse, duas vidas seriam salvas e não o contrário. Ainda defendo o descontentamento da Igreja Católica”. O texto acima pode ser encontrado entre um dos mais de 90 comentários que esta coluna recebeu a respeito do artigo sobre o aborto da menina de nove anos, de Alagoinhas, Pernambuco. O assunto foi o mais controverso da semana. A excomunhão da mãe da garota e dos profissionais de saúde envolvidos no procedimento médico escandalizou o País, muitos brasileiros fizeram questão de expressar sua revolta através de cartas aos jornais e sites de notícias. Mas não faltou, mesmo entre os leitores de CartaCapital, quem justificasse a posição de D.Eduardo Cardoso Sobrinho. O texto acima sintetizou bem esta linha de pensamento. Segundo ela, era preferível arriscar (“apenas”) a vida da menina na esperança de serem colocadas mais duas vidas neste belíssimo e justo mundo. 2X1, duas vidas contra uma. Se não fossem gêmeos seria 1X1, mas mesmo assim o raciocínio prevaleceria, pois trabalharia com a hipótese de mãe e filho sobreviverem. Esses leitores não se comoveram com o fato de a menina ter sido estuprada desde os seis anos, pesar 33 quilos, ter 1,36 m de altura, estar anêmica e desnutrida e, nessas condições, correndo o risco de ter o parto prematuro e também ser vítima de eclâmpsia (é a maior causa de morte materna do Brasil, uma convulsão decorrente de hipertensão). Conhecendo estas condições, eu pensei que não fosse possível que um exemplar de homo sapiens, além do arcebispo, continuasse se opondo ao aborto. Enganei-me O Direito Canônico e o leitor que me escreveu são claros: só Deus pode tirar a vida de alguém e os dois fetos de 15 semanas já eram filhos de Deus. Discussão encerrada, segundo o leitor e vários outros comentários recebidos. A Igreja Católica diz isso, sempre disse, sempre vai dizer. Quem estiver de acordo siga, quem não estiver, saia. Ou não entre. D. Cardoso apenas teria cumprido sua obrigação, excomungando “automaticamente” a mãe e os médicos. De agora em diante, eles isentados pelo Código Penal brasileiro, não podem casar na Igreja, serem crismados, nem batizados. Só se “se arrependerem” do crime que perpetraram. Os dados de um estudo de Recife mostram que um de cada três casos de menores de 14 anos grávidas é oriundo de violência doméstica, dados revelados pela revista Época. O triste é que este caso ficou célebre no País, não por conta da tragédia que é expressa por estes números reveladores de nossa miséria. O caso tomou vulto exatamente por conta da reação, para muita gente inacreditável, do arcebispo de Olinda e Recife. Dias depois, a CNBB, Confederação Nacional dos Bispos do Brasil, sustentou a posição do arcebispo e nenhum superior seu se posicionou pela revogação das excomunhões. O chefe do Departamento do Conselho Pontifício para a Família do Vaticano, Gianfranco Grieco, confirmou a posição de d.Cardoso. No mundo da política, louve-se o presidente Lula, que se colocou clara e prontamente em defesa dos médicos e da mãe e, como católico que é, questionou a posição da Igreja. Não fiquei sabendo de pronunciamentos de governadores e prefeitos. No final de semana o caso já tinha saído das páginas dos jornais e da tela da Globo, Fantástico incluído. Hoje, 9 de março, um dia depois do Dia Internacional da Mulher, o assunto maior é o gol do Ronaldo contra o Palmeiras. O secundário é a crise econômica internacional. A vida segue. Em dois meses tivemos 4.700 denúncias oficiais sobre abusos a crianças no Brasil. 31% delas referiam-se a violência sexual. Portanto, 1457 casos em 60 dias. Ou 24 por dia. Mantida esta proporção no mês de março, teríamos em nove dias, 216 casos contabilizados oficialmente (reitero o “oficialmente”). Quantos semelhantes ao da menina subnutrida e anônima de Alagoinhas? Quantos foram do conhecimento da Igreja Católica? Em quais ela se posicionou? Vinte e quatro casos de violência sexual contra crianças por dia no Brasil. Um por hora.

Texto: Fonte: Celso Marcondes/Carta Capital

A Classe "C" vai ao paraíso!


“Casamento na Roça”, de P

Os resultados estão aí, brotando do fundo da sociedade brasileira: entre 2003 e 2005, 27 milhões de pessoas mudaram de patamar social no Brasil, ascendendo para uma condição social superior, mais digna e mais humana. Também a desigualdade regional foi atacada e recuou nos últimos cinco anos. O Nordeste cresceu a um ritmo “chinês” atingindo 7.7% ao ano. Mesmo sofrendo os efeitos da crise, o país foi capaz de oferecer oportunidades e esperança de vida melhor para 91 milhões de brasileiros. O artigo é de Francisco Carlos Teixeira.

Francisco Carlos Teixeira*

“Vejam essa maravilha de cenário

É um episódio relicário

Que o artista num sonho genial

Escolheu para este Carnaval”

(Aquarela Brasileira, Silas de Oliveira, Império Serrano, 1964).

A Fundação Getúlio Vargas (Rio), através do seu Centro de Políticas Sociais, publicou uma recente pesquisa na qual vemos a chamada classe “C” – aquelas pessoas cujos lares recebem entre R$ 1.115 e R$ 4.807 por mês – tornarem-se 49.22% do total da população brasileira. Houve, na verdade, um salto fantástico: em 2003 eram 37.56% da população, passando em 2008, para 49.22% do total de brasileiros. Podemos acreditar que não fosse a crise econômica mundial de 2008/09 este coeficiente seria bem mais alto.

A luta contra as desigualdades

Qual o verdadeiro significado destes números? Simples e direto: a desigualdade social foi, em cinco anos, reduzida drasticamente. Mesmo com um crescimento baixo, mesmo sofrendo os efeitos da crise (nem ”marolinha”, nem tsumani!) o país foi capaz de oferecer oportunidades e esperança de vida melhor para 91 milhões de brasileiros. Para tornar mais claro o impacto podemos citar um jornal que não pode ser, de forma alguma, considerado “chapa-branca”, O GLOBO: “… essa migração em massas alterou o rumo da divisão historicamente desigual do bolo no Brasil…”.

Desde os anos ’30, do século XX, quando a Questão Social deixou de ser caso de polícia e virou desafio do Estado, a discussão sobre os métodos de sanar as justiças sociais tem sido o centro do debate político no país. Durante os anos ’30, de 1930 até 1945, Getúlio Vargas acreditou que o autoritarismo político, a repressão, e um jogo dual entre patrões e trabalhadores seriam o suficiente para alterar a injusta divisão social do país. Foram dados, então, passos enormes, se comparamos com o imobilismo e a repressão vigente na República Velha (1889-1930). Justiça do Trabalho, sindicalismo oficial, CLT forma passos de refundação da Questão Social no Brasil. Porém, o autoritarismo político, a perseguição da esquerda não varguista e o atrelamento ao Estado constituíam o lado quase oculto da “dádiva” varguista.

Após a estagnação de Dutra – de quem Pablo Neruda disse ter “ojos de cerdo” – voltou-se, ainda com Vargas, agora entre 1951-1954, para um modelo mais descomprimido de distribuição social. Ainda aí o Estado foi o agente básico da justiça social, estabelecendo o salário mínimo como referência de justiça (o então ministro do trabalho, Joao Goulart, dará um aumento de 100% do mínimo, despertando a ira da classe patronal. No Primeiro de Maio daquele fatídico ano de 1954 o salário mínimo era descongelado, para horror das associações patronais. Abriu-se aí a crise cujo desfecho será um tiro solitário num dos salões do Palácio do Catete, em agosto de 1954.

1954 contra 1964

Com um tiro no peito, Getulio adiou em 10 anos o golpe da UDN: os políticos de direita do país, cansados de perder as eleições e a escolha popular, e com calos nos dedos de tanto bater à porta dos quartéis (expressão do amigo, Marco Aurélio Garcia!) foram enfim atendidos. Deu-se, então, o Estado Novo da UDN. Uma “santa aliança”, quer dizer bendita pela Igreja organizada nas “Marchas da Família com Deus pela Liberdade ( ou seria pela Propriedade?)”, entre empresários, mídia, classe média (assustada, com a maré montante de um jovem proletariado urbano).

Desde 1964, todos se reuniram em torno da ditadura civil-militar (não podemos esquecer a participação, o apoio civil – os governadores eleitos do Rio, São Paulo e Minas Gerais eram as lideranças do Golpe – e das entidades ditas “de classe”, quer dizer patronais) ao regime que durou de 1964 até 1985.

Mesmo aí, as classes patronais ficaram insatisfeitas com os rumos da Questão Social: os sindicatos dos trabalhadores estavam amordaçados, suas direções presas, exiladas ou ainda pior… Arrocho salarial, reforma regressiva da CLT, fim da liberdade de expressão, etc… eram as marcas do novo regime. Mas, após o surto liberal – Roberto Campos, ex-embaixador nos EUA, assumiu o ministério do Planejamento e em nome do combate à inflação reduziu drasticamente os direitos dos trabalhadores! – os próprios militares foram tomados de uma febre nacionalista e desenvolvimentista.

Malgrado a repressão, brutal entre 1969 e 1978, anos de chumbo, anos de terror (onde mais uma vez os civis tiveram um papel central, como na Operação Oban), vários setores da ação do Estado foram fortalecidos e alguns programas sociais foram montados, tais como o Estatuto da Terra (1964 ) e o Funrural (1967). Trata-se, é claro, de medidas preventivas, visando esvaziar o movimento social, e não a fim de atendê-lo. Contudo, mesmo isso, migalhas da mesa do “Milagre Brasileiro”, era demais para as “classes patronais”.

Democratização e Imobilismo

Pegando carona, de forma imoral, posto que só elas lucrassem com a ditadura, estes mesmos setores embarcaram na luta pela democratização. Inscreveram, aí, ao lado das exigências básicas da população, uma enorme lista de ações que deveriam reduzir o Estado, transformá-lo em Estado Mínimo. Acusavam os militares de “estatismo”. Eram dados os exemplos de Thatcher ou Reagan, os teóricos da chamada Escola de Chicago, the chicago’s boys, para “consertar” o país. Um país que nunca dera escola às suas crianças, onde a fome batia à porta de milhões (salve, salve, Betinho!), onde faltava água limpa e esgoto corrente, deveria ter seu Estado reduzido ao mínimo.

As exigências (neo)liberais, em tal contexto, assemelham-se, nos países pobres, ao genocídio puro e simples. O Consenso de Washington seria, em verdade, economizar em escolas, em merenda escolar, em estradas, em hospitais para, em fim, pagarmos a dívida sem risco para os fundos de pensões norte-americanos e europeus. Nossa elite aplaudiu. Aplaudiu a maior transferência de renda regressiva da história, canalizando o fruto do trabalho dos povos do hemisfério sul para as economias centrais do capitalismo.

Contudo o projeto de modernização autoritária e regressiva faliu. Deu-se a crise do petróleo. A crise da dívida externa. A crise dos preços das commodities – da re-inteiração da condição colonial. O movimento social, autônomo desde as greves do ABC, em 1980, fortemente ancorado numa opinião pública exigente e crítica baniu, em um final melancólico, o regime autoritário.

Esperanças e Frustrações

A redemocratização trouxe grandes esperanças. Principalmente a idéia generosa que os direitos cívicos não mais se resumiam em votar e ser votado, em poder exprimir sua crítica presa na garganta, em gritar o grito daqueles desde sempre sem voz. A redemocratização do Brasil, no início dos anos ’80 do século XX – bem como de toda a América do Sul – exigia os direitos cívicos básicos e muito mais. Cidadania era, então, um conceito expandido, alargado para abranger educação, saúde, moradia, transporte e, mais além, igualdade social, racial, de gênero e de opção sexual.

Contudo, desde a reunião da Assembléia Nacional Constituinte, a direita tradicional e a nova direita liberal uniram-se, no chamado “Centrão”, para paralisar as reformas necessárias. E aí vivemos anos seguidos de incompetência – governos Sarney, Collor e Itamar – somados aos anos de reformas regressivas, na Era FHC. Esta se inicia, no próprio discurso de posse do Presidente FHC, prometendo encerrar a “Era Vargas”. Ora, o que seria a “Era Vargas”? Tratava-se, em verdade, de impor o Estado Mínimo, aceitar a captura do Estado pelos interesses privados, acobertados pela instituição de agências reguladoras, a ameaça de um Banco Central dito “independente” (mas, constituído de personagens saídos e chegados da grande banca) e a total ausência de qualquer política pública de desenvolvimento, emprego ou trabalho. O fundamentalismo monetário, o medo pânico de destruir uma arquitetura de controle da inflação tão frágil que qualquer solavanco de crescimento do PIB poderia derrubar o Plano Real. Era como o médico que para extinguir a febre mata o paciente. Acreditava-se que o país, para controlar a inflação, não poderia crescer. Inflação ou crescimento: este era o falso dilema do liberalismo.

Rompendo com o passado

A vitória do Partido dos Trabalhadores veio exatamente romper, como no caso do nó górdio, o dilema. A questão é: como crescer, como erradicar a desigualdade social, sem inflação? O papel do Estado como condutor do processo, a criação de políticas corretivas das desigualdades sociais e regionais, bem como olhar o povo como cidadão, e não como mão de obra fácil e disponível, eis a resposta proposta desde 2003. Tudo isso recusando o autoritarismo e o paternalismo. Não se tratava de “encerrar a Era Vargas”. Tratava-se de ir mais além!

Os resultados estão aí, brotando do fundo da sociedade brasileira: entre 2003 e 2005, 27 milhões de pessoas mudaram de patamar social no Brasil, ascendendo para uma condição social superior, mais digna e mais humana. São novos consumidores, que exigem seus direitos sociais expandidos: “… os anos 2000 permitiram ao [novo] consumidor não só comprar, mas escolher o produto com que mais se idêntica” (O GLOBO, 7/02/2010). Também a desigualdade regional foi atacada e recuou nos últimos cinco anos: segundo Marcelo Néri, o Nordeste – aquele mesmo Nordeste de personagens como Baleia, de Graciliano Ramos ou do “lobisomem amarelo” (o homem atingido pelas doenças) de José Lins do Rego – cresceu a um ritmo “chinês” atingindo 7.7% ao ano.

Em suma: vivemos num país melhor, mais justo e menos desigual.

*Francisco Carlos Teixeira Da Silva, professor da UFRJ, é autor, com Maria Yedda Linhares, de “Terra Prometida: uma história da questão agrária no Brasil”.

Fonte: Agencia Carta Maior

Responsabilidade pela vida




Escrito por D. Demétrio Valentini

Estamos no carnaval. São dias para expressar a alegria de viver. Assim deveria ser. Assim pode ser, se formos responsáveis em nosso proceder. Sobretudo se tivermos o cuidado pela vida. Ela é ao mesmo tempo preciosa e frágil.

Por mais que estejamos atentos, sempre são válidas as advertências, sobretudo em tempos como estes, em que o entusiasmo pela alegria de viver pode nos deixar desatentos aos perigos que sempre rondam a fragilidade da vida.

Cada ano, passado o carnaval, comparecem as tristes estatísticas, feitas de acidentes de trânsito, de desentendimentos, violências e assassinatos. Todos gostaríamos que estas cifras não existissem. Mas elas se repetem, ano a ano.

Resulta evidente a urgência de cultivarmos, conscientemente, a cultura do cuidado pela vida, da prevenção, e da redobrada atenção, sobretudo em tempos de carnaval, quando os acontecimentos podem surpreender, e colocar em risco a vida das pessoas.

Em recente artigo, o ministro Patrus Ananias trouxe dados colhidos pelo governo federal, que impressionam pelas cifras que apresentam. Em todo o Brasil, no ano de 2008, foram registrados 39.076 assassinatos. É um número que inquieta. Quantas tensões, desequilíbrios, excessos na bebida, perda de motivações salutares, abandono de perspectivas religiosas que dão sentido à vida, impasses mal resolvidos, que estão por trás dos tristes episódios que redundam em homicídios. Como faz falta o clima de fé, que aponta valores, que ilumina situações, que anima para a tolerância, para o bom senso, para o diálogo e para a superação dos conflitos!

Outro dado trazido pelo ministro: em 2008 foram registradas mais de 36 mil mortes em acidentes automobilísticos, perfazendo um total de 247 mil em sete anos.

Certamente são diversos os fatores que explicam esta incidência tão grande de mortes no trânsito. A extensão continental do país dificulta a manutenção das rodovias em boa qualidade. A rápida mudança vivida pela maioria da população brasileira, que passou diretamente do carro de boi ou da cavalgadura para os automóveis que convidam para a vertigem da alta velocidade, que surpreende os incautos e os desprovidos de reflexos adquiridos e assimilados, tudo isto ajuda a explicar. Mas deveria ajudar a prevenir. Toda vez que nos colocamos nas rodovias, em nosso país, deveríamos ligar o alerta máximo de atenção a todos os imprevistos, que nos fazem cuidar de nós, mas também dos outros, na tentativa de prevenir possíveis acidentes que podem acontecer por motivos muito variados.

Estas circunstâncias já servem de alerta. Mas elas necessitam da motivação maior e mais consistente, que resulta da consciência do valor da vida. É a vida que merece todo o nosso apreço, e todo o cuidado possível.

Ela é o ponto culminante da natureza. É o prodígio maior, que coroa a realidade existente no universo. A possibilidade de vida qualifica nosso planeta, e o constitui como referência entre bilhões de outros astros que o prodigioso universo é capaz de conter. Tirada a vida, o universo fica vazio e frustrado.

Mais ainda o prodígio da vida assume importância quando concretizado em forma humana, acolhido de maneira individual, resultando em pessoas capazes de dialogar com o universo e se posicionar de maneira consciente diante do mistério da vida, que assumem feições de interlocução pessoal, que se tornam a expressão mais sublime de toda a existência.

A percepção da singularidade da vida leva à consciência de sua sacralidade. A vida ultrapassa a unicidade de cada pessoa. Não somos donos da vida. Ela é um dom de Deus, que nos cabe acolher com respeito e gratidão, e administrar com responsabilidade.

O carnaval pode assumir o seu sabor melhor, na medida em que possibilitar um maior respeito pela vida, junto com o encantamento por seu mistério, que nos leva a colocar a vida como referência ética fundamental e indispensável para todos.

Com este espírito vale a pena viver o carnaval, a quaresma, e a páscoa inteira!

D. Demetrio Valentini é bispo da diocese de Jales

Ações pedem respeito aos direitos sexuais das mulheres

Durante o ano de 2010, a Anistia Internacional México realizará, em parceria com entidades que defendem os direitos sexuais e reprodutivos, ações de sensibilização sobre a violação destes direitos femininos e sua ligação direta com a pobreza. A promoção do acesso aos direitos sexuais e reprodutivos também é uma das finalidades da campanha que teve início no último dia 6 em Chiapas e Puebla.

As ações acontecerão em várias cidades do México com o intuito de convidar as mulheres a estarem vigilantes para os seus direitos e para as reformas que “atentam sobre sua vida, saúde e liberdade”. As manifestações públicas também deverão pedir, entre outras medidas, a eliminação dos obstáculos para que as mulheres grávidas em virtude de violação, agressão sexual ou incesto possam interromper a gestação.

Outra solicitação é que estas mulheres que optaram pelo aborto tenham total atenção médica, acesso a medicamentos, assessoramento e apoio psicossocial e legal. Também é importante que seja oferecido apoio e informações para as vítimas de violação e para as que decidiram interromper a gestação. Contudo, isto só poderá ser feito mediante reforma urgente da legislação.

O respeito à liberdade feminina para decidir sobre sua vida e saúde é latente nas solicitações da Anistia Internacional. A entidade pede que seja “anulada toda legislação que permita encarcerar ou impor qualquer outra pena a mulheres por solicitar ou se submeter a um aborto, e qualquer outra lei que preveja prisão ou outras penas unicamente por informar sobre o aborto ou por praticar abortos”.

Ainda sobre a polêmica questão do aborto é demandado que seja uma obrigação do Estado a oferta de “disponibilidade, acessibilidade, aceitabilidade e qualidade” nos serviços de aborto para as mulheres com casos específicos de violação, agressão sexual, incesto ou gestação de risco para a mãe.

O planejamento familiar também tem espaço nas reivindicações. Neste sentido, é pedido que homens e mulheres tenham acesso garantido a informações para decidir sobre sua vida sexual e familiar sem qualquer tipo de “coação ou discriminação”. Contudo, não apenas na fase de decisão as famílias precisam de apoio. Por este motivo, também carecem ser reforçadas as assistências pré-natais, maternais e pós- nascimento, além de ajuda e apoio na criação dos filhos.

A luta de organizações e das mulheres mexicanas pelo respeito aos diretos sexuais e reprodutivos e por seu direito de decidir tem se intensificado com as constantes reformas nas leis locais. Após a aprovação de 17 modificações que defendem a vida desde o momento da fecundação, mais uma lei restringe os direitos e criminaliza o aborto.

Além de entrar em contradição com outras leis aprovadas recentemente em Chiapas, a legislação viola o direito à igualdade, à não discriminação, ao direito de receber educação laica desvinculada de qualquer religião e baseada no direito à liberdade, à proteção da saúde e à intimidade. Sendo que todos estes pontos estão garantidos na Constituição Política do México.

Por estas medidas consideradas de retrocesso e desrespeito, as defensoras dos direitos humanos e as profissionais da medicina exigem que seja assegurada a continuidade de seus trabalhos no sentido de alertar sobre os efeitos negativos da lei reformada e defender os direitos das mulheres.

Fonte: Adital

Praia da Estação, o mar revolto das Minas Gerais


O Belo Horizonte da capital mineira brilhava em sol escaldante naquele primeiro sábado de fevereiro. Munidas de seus biquínis, protetor solar, esteiras, cangas, bóias e outros apetrechos, as moças de Minas, conhecidas pela sua beleza, foram curtir mais um dia de praia. Saindo de várias partes da cidade, se dirigem até a Praça da Estação. É tradição secular mineira pegar o trem que sai dali para o litoral capixaba. No último mês, porém, o trajeto não precisa ser percorrido. A praia é na Praça.

Desde o dia em que o prefeito da cidade, Marcio Lacerda, soltou o decreto proibindo qualquer evento naquele espaço, Belo Horizonte viu nascer a mais criativa, irreverente e envolvente rebelião dos últimos anos. O decreto nº13.798 tem apenas uma frase: “Fica proibida a realização de eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, nesta Capital” (DOM 2010). Uma frase que vem causando muita confusão. Por quatro sábados seguidos jovens se banharam na praça para promover uma verdadeira desobediência civil, lírica, lúdica, bela, ousada e singela. Uma alegre forma de se encontrar e de uma geração inventar novas formas de lutar.


A Praça que viu milhões pedirem Diretas Já e cantarem Lula-lá, não aceitou se calar. Se espreguiçando e sambando, sem lenço, nem documento a galera tomou conta do pedaço. Lutando com novas armas, se mobilizando pelo twitter, lançando manifesto em blogs, se comunicando por sms, postando vídeos no Youtube. Em comum com a geração dos pais, os cabelos longos, as barbas mal feitas, as cangas coloridas, o violão que de vez em quando entoa as mesmas canções de esperança de outrora geração.

Não-praça

A justificativa apresentada pela Prefeitura é que a publicação do decreto visa preservar o bem público. Um argumento que só serve para alguém que não conhece o local, pois a Praça sofreu uma grande reforma no início da década, onde criou-se um amplo vazio, uma quase não-praça, justamente para abrigar grandes eventos, como prova o decreto publicado em 2001, época de sua re-inauguração. Texto diz: “a revitalização do espaço público, dotando-o de infra-estrutura adequada para manifestações culturais com grande aglomeração de pessoas” (DOM de 2001).

O lado autoritário do prefeito de Belo Horizonte, que ficou conhecido na campanha de 2008 quando disse ter vontade de pisar no pescoço dos adversários, voltava à tona. Acostumado com a vida empresarial, jamais pensaria Lacerda que tal atitude geraria tanta revolta. No meio da semana passada, o mandatário teve que anunciar um recuo. Como de praxe, montou uma burocrática comissão para analisar o caso. Entre os membros, nomes da administração sem um único representante da sociedade civil, o que se tornou mais um motivo de atrito com os manifestantes.

Urbanidades

Antes das manifestações, conta o jornalista Luther Blissett, um coletivo já se reunia mensalmente embaixo do Viaduto de Santa Tereza para debater entre outros papos a ocupação dos espaços urbanos. “Realizávamos alguns encontros aqui na Praça da Estação e este ano descobrimos a proibição imposta pelo decreto”. O resto da história nem precisou contar.

Para uma jovem que protege o corpo branco com uma canga colorida, a medida do prefeito só vem piorar a cena cultural de BH que é carente de locais de exibição e aglomeração. “Belo Horizonte falta espaço para eventos e a Prefeitura acaba com este. A verdade é que criamos um grande encontro cultural aqui na Praia da Estação. Todo sábado tá rolando algo de novo. Sábado passado teve uma roda de capoeira, hoje contamos com a presença de uma escola de samba”, conta a jovem que também se chama Luther Blissett.

A escola de samba em que se refere é a Cidade Jardim, a mais tradicional do carnaval belo-horizontino. Não por coincidência, os foliões estavam ali também naquele sábado. A Escola tem sido perseguida pela Prefeitura nos últimos anos e conhece bem o lado repressivo da administração. A agremiação foi despejada da sua própria quadra que ocupa há mais três décadas. “Nós também consideramos um absurdo este decreto”, diz o diretor da Escola, Eric Maciel. “Estamos aqui para lutarmos juntos, esta galera que está batendo tambor também é prejudicada por este autoritarismo”. “A Praça é do Povo”, completa o carnavalesco Eric Maciel.

Praia mineira

Mesmo quem já percorreu areias banhadas por muitos oceanos se surpreende com a beleza daquela Praia criada em cima daquele concreto. “É a melhor praia que já fui em minha vida, e olha que já conheço muitas”, conta o professor de geografia Léo Dasantiga. Um pouco acima da fase etária predominante no protesto, ele justifica “só fica velho quem quer” e completa, “temos que cobrar nas próximas manifestações é a areia, que é obrigação do prefeito, pois ele que criou esta situação”, discursa em voz alta o professor, que concluiu “eu estou aqui só porque é errado”.

Quando o sol esquenta pra valer os miolos, uma jovem com um chapéu de praia começa a recolher tostões dos banhistas para contratar um caminhão pipa e refrescar a galera. Em poucos minutos, os 150 reais estão na mão e em outros minutos estaciona na Avenida Andradas, que margeia a praia, digo Praça, o mar belo-horizontino em forma de um caminhão tanque. Este esforço não seria necessário se não fosse a pequenez do prefeito Marcio Lacerda, que desde o primeiro protesto suspendeu o funcionamento da fonte que fica ligada habitualmente.

Mar caipira

Quando todos se preparavam para um mergulho, eis que surgem dois policiais militares. Os comedidos banhistas, no intuito de manter o caráter pacífico do manifesto, resolvem não ir para o confronto e pedir ao motorista que dê uma volta no quarteirão para despistar os oficiais. Plano cumprido e logo jorrava água da mangueira em direção à multidão que eufórica recebia a água como se estivesse no Deserto do Sahara.

E para quem pensava que nesta manifestação irreverente não existem as palavras de ordem, escutem estas pérolas guardadas de cabeça pela reportagem, pois o bloco de papel com a caneta ficou longe para que o repórter também se refrescasse naquelas águas. “Eh polícia, a praia é uma delícia”, “Salvador é paia, quem foi que disse que mineiro não tem praia?”, “Ei Lacerda, seu decreto é uma merda”.

O jagunço Riobaldo, personagem de Guimarães Rosa, ensinava que o “real não está nem na saída, nem na chegada. Ele se coloca pra gente é no meio da travessia”. Parece que para aqueles jovens pouco importa o destino do maldito decreto. O que importa é a forma nova de luta e de vida que Belo Horizonte experimenta. Até mesmo porque eles já são vitoriosos, A PRAÇA NUNCA FOI TAO LIVRE!!!!!

Aviso aos navegantes: Para os desavisados que não entendem porque alguns os personagens desta reportagem têm o mesmo nome, saibam que os organizadores, que não aceitam esta definição também, preferem se identificar com o “pseudônimo coletivo“ de Luther Blisset. O pseudônimo multi-usuário surgiu na europa na década passada e serviu de inspiração para os mineiros. Na página do personagem no Wikipedia, ele é assim definido: “uma identidade em aberto, adotada e compartilhada por centenas de hackers, activistas e operadores culturais em vários países, desde o verão de 1994”.

De Belo Horiozonte,
Luther Blissett

Em defesa dos Direitos Humanos




Escrito por Margarida Genevois

Há uns anos atrás, na década de 90, ouvi na TV, durante campanha eleitoral, um candidato a deputado dizer: “Se eu for eleito, vou combater os direitos humanos”. Este absurdo inacreditável, que em qualquer sociedade democrática seria repudiado, aparentemente não causou maiores comoções; entre nós, Direitos Humanos (DH) eram – e ainda são – lamentavelmente mal entendidos, por desinformação ou má fé.

Para muitos, DH eram considerados como “direitos de bandidos” ou artimanhas dos “subversivos”. No período da ditadura militar, a repressão (assassinatos, torturas, “desaparecimentos”) atingiu opositores membros das classes médias, como professores e estudantes, advogados e jornalistas, artistas e religiosos, além dos suspeitos de sempre, como ativistas e sindicalistas da cidade e do campo. A maioria, que nunca tinha visitado prisões, passou a sentir na pele a situação desumana dos ditos “presos comuns”, estes oriundos das classes populares. Passou também a constatar a tragédia do sistema prisional e a inoperância dos órgãos do judiciário. A partir daí, a defesa dos direitos humanos passou a ser confundida como luta pelos direitos dos presos, e não em nome da dignidade de toda pessoa humana, conforme a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a grande conquista moral do século XX diante das atrocidades cometidas durante a segunda guerra mundial.

Os defensores dos DH foram testemunhas da forma como foram torturados os opositores do regime de exceção, instaurado em 1964, e os presos políticos. Ficamos conhecendo o pau de arara, a cadeira do dragão, sufocamentos, queimaduras com cigarros, afogamentos. Evidentemente, tais notícias não saíam nos jornais, eram contadas pelos advogados, por parentes das vítimas. Mas a maioria das pessoas simplesmente se recusava a acreditar e dizia: “Isso é mentira, coisas de extremistas. O brasileiro é profundamente bom – nunca faria essas barbaridades.”

Com o processo de democratização em andamento, as entidades da sociedade civil mais atuantes no campo dos DH, assim como ex-presos políticos e familiares – movidos por convicção de justiça, por sentimentos cristãos ou por ambos – passaram a concentrar sua luta na defesa dos direitos de todos, sobretudo daqueles “que não têm voz”, a começar por aqueles esquecidos e mal tratados nas delegacias e nas prisões. O reconhecimento da dignidade da pessoa humana, independentemente do crime e do julgamento moral, é o fundamento da defesa. Os que cometem crimes devem ser julgados de acordo com a lei e, se condenados, devem cumprir a pena, mas não podem ser torturados e humilhados.

Passadas mais de duas décadas – e já 10 anos no novo século – a questão dos direitos humanos ressurge com a polêmica provocada pelo PNDH 3. Hoje não mais se diz cruamente que DH são direitos de bandidos; de certa forma, é sabido que DH são exigência da democracia, são direitos amplos para uma vida digna a todos, e não apenas para uma minoria privilegiada: direitos civis e liberdades individuais, direitos sociais e econômicos, direitos culturais e ambientais. Isto é, saúde, educação, moradia, segurança, trabalho, seguridade social, lazer, participação política, informação e comunicação.

O Programa Nacional de Direitos Humanos 3 abrange o conjunto desses direitos, dando ênfase a situações específicas dos grupos mais vulneráveis na sociedade, como crianças e adolescentes, deficientes físicos, idosos, indígenas, trabalhadores rurais, migrantes, negros e as demais vítimas de preconceitos por orientação sexual ou condição social.

Ao que parece, as propostas do Programa – na sua maioria já afirmadas na Constituição de 1988! – incomodam, pois provocaram reações raivosas até mesmo de algumas pessoas bem informadas, no meio jurídico, na academia, na política, nos meios de comunicação. Ficamos com a impressão de que certas pessoas ou grupos temem ser prejudicados se os direitos dos outros forem respeitados.

Na verdade, pouca gente leu o Programa, o que não impediu que o acusassem de ser “ditatorial”. A maioria dos opositores não sabe ou continua sem querer saber que a preparação do texto decorreu do processo de 27 encontros em 20 estados, com diferentes segmentos representativos da sociedade civil. As conclusões desses encontros, exaustivamente discutidas, foram levadas à 11ª Conferência Nacional de Direitos Humanos em Brasília, em dezembro de 2008.

É importante lembrar que este novo Programa dá continuidade aos dois primeiros, publicados e iniciados no governo de Fernando Henrique Cardoso (1996 e 2002), mas pouca gente por eles se interessou. Hoje, em ano eleitoral, a questão dos direitos humanos entra no jogo das disputas partidárias. Ora, Direitos Humanos estão acima de partidos e interesses particulares, são a base da paz, da justiça e da democracia.

A criação da Comissão da Verdade vem sendo duramente criticada. Durante a ditadura militar cerca de 400 brasileiros foram mortos ou estão desaparecidos. Suas famílias procuram, até hoje, onde eles foram sepultados. Esses crimes não podem ser esquecidos. Se a verdade não vier à tona ficará a idéia de que os militares têm medo e preferem proteger um grupo extremado que torturou e matou. As respeitáveis Forças Armadas, das quais nos orgulhamos, não podem ser respingadas com crimes de alguns, a verdade tem que aparecer.

Comissões da Verdade foram criadas nos países irmãos, onde também imperaram ditaduras militares; aqueles responsáveis pelas violações de direitos humanos foram identificados, muitos foram julgados e condenados. Por que só no Brasil não podemos conhecer a verdade? Não se trata de “revanchismo” – como a crítica alega – pois cabe à Comissão apenas conhecer os fatos e não retribuir o mal que foi feito, sendo que eventuais punições, rigorosamente dentro da lei, caberão ao Poder Judiciário.

O PNDH é um programa para alcançarmos “uma sociedade livre, justa e solidária”, como afirma o art. 3º de nossa Constituição. Suas propostas se coadunam com as metas do milênio propostas pela ONU, visando diminuir a miséria do mundo. O PNDH identifica e enfrenta problemas sérios da nossa sociedade, com coragem e determinação. É obrigação moral de todo cidadão brasileiro, que quer o bem do seu país, conhecer, debater, ampliar essas propostas e lutar pela sua execução.

Margarida Genevois, 86, socióloga e ex-presidente da Comissão Justiça e Paz de São Paulo.

Rap responde a Boris Casoy

Rap responde a Boris Casoy

Excelente rap em resposta ao “comentário infeliz” de Boris CCCasoy – aquele jornalista muito conhecido que na juventude fez parte do grupo fascista Comando de Caça aos Comunistas (CCC), como mostra a revista O Cruzeiro (clique aqui).

:: Direção, imagens e edição: Maia
:: Voz e letra: Garnett
:: Selo: Pegada de Gigante
:: Assistência/Criação: Robson Ribeiro, Evelyn Albuquerque, Douglas Campolim, Marcos Maia e Daniel Olmedo
:: Direitos de Imagem gentilmente cedidos por: Bruno Ruguê, Diogo “Jhow” Castilho, Hion Silva, Rafael Dan, Rafael Scotto, Rudão Brandolin

Fonte: Conexão Brasília Maranhão