Arquivos Mensais: janeiro \30\UTC 2010

A história do Haiti é a história do racismo’

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.
Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.
E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.
Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado… de artistas.
Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem “uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização”. Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: “Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses”.
O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: “O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro”.
Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: “Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos”. Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro “pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras”.

A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.
A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.
Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.
A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

* Escritor e jornalista uruguaio

Fred Zero Quatro: mercado da música pode estar ameaçado

Atualmente o compartilhamento, legal e ilegal, de arquivos pela internet, tem gerado inúmeras polêmicas e discussões. A digitalização mundial realça cada vez mais questões sobre direitos autorais, pirataria e a decadência da indústria do entretenimento. Dentro do meio musical, artistas se dividem nas posições sobre a disponibilização de material na rede. Fred Rodrigues Montenegro, o músico Fred Zero Quatro, é um dos defensores do download pago.

Segundo ele, a cadeia produtiva musical se torna, a cada dia, mais inviável e a sociedade não mensura as grandes conseqüências do compartilhamento gratuito para atividade profissional de músico.

“Acho que existe um pouco dessa coisa meio furtiva e divertida quando se vai baixar o novo disco do ‘fulano’. Porém isso é algo de curto prazo, é um prazer imediato. À medida que as cadeias vão ficando mais inviáveis, a reprodução e a própria proteção da atividade do compositor e do músico vão diminuindo”, revela em entrevista concedida à IHU On-Line.

Sendo um dos expoentes do movimento musical mangue beat, surgido no Brasil na década de 90, em Recife, Zero Quatro é autor do manifesto “Caranguejos com cérebro”, que discutia a formação de uma cena musical tão rica e diversificada como os manguezais.

O mangue beat concedeu ao Recife o título de centro musical, mas, segundo o músico, as tecnologias que temos hoje certamente não aumentariam a eficiência do movimento. “Na internet não existe território. Muitas ondas novas que surgiram aqui têm muito mais ‘adeptos’ na Indonésia, do que no Recife. Na época do mangue havia um comprometimento cooperativo na cidade”, garante.

Fred Zero Quatro é compositor e vocalista do grupo Mundo Livre S/A. Graduado em comunicação social, com habilitação em jornalismo, atualmente é presidente do Conselho de Cultura na Secretaria de Cultura de Recife. Confira a entrevista.

IHU On-Line: Como tu vês a questão do compartilhamento de arquivos, principalmente os das tuas músicas, na internet?

Fred Zero Quatro: Acho que o artista deve ter noção do creative commons e ter autonomia sobre a forma como a música será utilizada. No meu caso, fiz há pouco uma trilha para um espetáculo de dança em Recife. Fiz sete músicas, são quarenta e sete minutos de material inédito e acho natural compartilhar isso na internet para uso livre.

Agora, tem determinado tipo de material meu que posso querer preservar os direitos. Não sou contra o compartilhamento e o download gratuito, sou contra o download de material protegido. É diferente você estar passeando numa mata, ou mesmo em um terreno baldio qualquer, que por acaso tenha uma fruteira. Uma coisa é você colher material que está disponível na natureza, outra coisa é você ir numa feira livre, pegar uma quantidade de tomate e sair sem pagar.

Por outro lado acho que estamos vivendo um momento em que alguns artistas, e a grande maioria do público consumidor e dos internautas, ainda não tiveram tempo de mensurar as conseqüências desse tipo de consumo para a própria sociabilidade de uma atividade profissional, como a musical.

O que mais vemos agora é a cadeia produtiva se tornando, cada vez mais, inviável. Empresas, gravadoras, lojas e selos estão fechando, e fora da área da música, jornais e revistas estão fechando. É algo que envolve a atividade profissional de muita gente. Agora a web 2.0 completou dez anos, mas se em uma década nada pode substituir isso, acho difícil achar uma solução em curto prazo.

Se não houver nada novo em termos de mecanismos que propiciem um novo tipo de cadeia de comercialização, acho que em breve ficará mais claro que isso tem efeitos danosos e negativos, até mesmo para o próprio consumidor.

Eu sou da geração em que ainda não havia muita proteção em determinados ambientes, como livrarias e magazines, e que a coisa mais divertida do mundo era o pequeno delito, um ato de aceitação. Roubar um livro de uma livraria que se gosta e levar para casa por estar sem grana, ou até mesmo estando com grana.

Existem figuras míticas neste campo do crime, como aquelas duplas famosas, e isto envolve uma coisa romântica e selvagem. Acho que existe um pouco dessa coisa meio furtiva e divertida quando se vai baixar o novo disco do “fulano”.

Porém isso é algo de curto prazo, é um prazer imediato. A medida que as cadeias vão ficando mais inviáveis, a reprodução e a própria proteção da atividade do compositor e do músico vão diminuindo. A médio prazo, o consumidor vai começar a sentir falta do novo álbum e da nova música, pois não haverá mais produção.

A cadeia produtiva da música envolve casa de shows, empresários, revistas, críticos, estúdios, compositores, lojas de instrumentos e discos. Porém sempre achei muito simplório pensar que, em uma cadeia de muitos anos e que tem uma interdependência, um dos elos será eliminado, como o elo mais poderoso que é a gravadora, que mais injeta recurso e investe na cadeia, pode sair e não afetará o resto.

Estou em um cargo público agora, na Secretaria de Cultura de Recife e tenho freqüentado muitos debates e palestras oficiais, além de conversar com muita gente que não esperava que o negócio fosse ficar tão “bravo” assim. É cada vez maior o número de artistas e bandas que não têm como lançar discos ou montar uma turnê, e é ingênuo achar que a desestruturação de toda uma indústria não irá afetar o mercado de músicas.

Estas bandas que estão se formando em um novo ambiente de consumo, com o compartilhamento desenfreado, tem mais dificuldade de manter um público fiel. Se você tem um iPod onde você baixa trinta mil músicas todo o mês, você estará ouvindo coisas ali que nem faz idéia do que são. Aquela noção do público fiel está cada vez mais ameaçada. Isto ameaça também o mercado de shows. Música agora é só uma porcaria qualquer que se está baixando aos milhares, porque se pagar para ver um show, por exemplo?

IHU On-Line: A partir dessas novas tecnologias, tu acreditas que a indústria do entretenimento está ameaçada? Por quê?

Fred Zero Quatro: Acredito que alguns setores da indústria com certeza irão passar por grandes transformações, e outros, como no caso da música, irão virar uma espécie de subdivisão de outras cadeias. Acho incrível que no Brasil, por exemplo, pouca gente refletiu se houve algum trabalho, inclusive a nível acadêmico, sobre um fenômeno que considero emblemático e que passou quase despercebido.

Simplesmente o rei do entretenimento do Brasil, Roberto Carlos, passou a fazer shows em navios. Um cara que raramente podia ser visto ao vivo, uma vez por ano aparecia na TV, agora convive durante semanas com pessoas que podem pagar um cruzeiro. Lógico que isso não é uma coisa absolutamente nova.

Elvis Presley no final de sua carreira estava em um cassino em Las Vegas. Mas em um cruzeiro de navio, até pouco tempo atrás, só tinham artistas de quinta categoria. Tenho amigos que já participaram de turnês em navios, como músicos acompanhantes de bandas, e é algo deprimente. Claro que o esquema do rei é outro, mas há pouco tempo falava-se que cantar em um navio era coisa de cantores de barzinho.

Neste caso vemos que o rei, que não é um músico qualquer, está sendo vendido num pacotão, e que a musica irá ficar, cada vez mais, como uma subdivisão de uma coisa maior. A pessoa está indo para um grande cassino ou cruzeiro porque um grande artista estará lá. A própria tragédia com o Michael Jackson. Tudo bem que é um caso a parte, pois envolve overdose de remédios, mas ele devia estar vivendo uma pressão muito intensa de profissionais para voltar a fazer turnê, coisa que ele não fazia há muito tempo.

A música não está deixando de ser uma indústria, mas será só um braço dentro de uma indústria maior, seja da comunicação com essas novas mídias, seja do cinema e de outras coisas. Cada vez mais com esses novos equipamentos envolvendo a indústria editorial, jornais e revistas também irão passar por esse processo de reformulação. Tudo terá de ser recombinado e remixado, pois a recombinação será algo mais valorizado que a criação literária.

IHU On-Line: O Tecnobrega ganhou espaço por gravar seus CDs e distribuir para os camelôs. Tu consideras isso um incentivo à pirataria?

Fred Zero Quatro: Com certeza. As pessoas têm que tomar cuidado com esta questão da música on-line, pois os músicos e os compositores estão ficando cada vez mais irrelevantes. Tudo é feito de forma amadora e caseira. Inclusive o papel do compositor e do instrumentista está mais irrelevante.

No caso desta cultura, não só do tecnobrega, mas de vertentes como o fuleragem music, o povo vai lá e faz a versão que quiser de Michael Jackson, Madonna ou Chico Buarque. Antigamente não se tinha problema em fazer essa releitura nos shows, mas se fosse gravar precisava de uma autorização técnica do autor. Aí se deviam os direitos que garantiam a sustentabilidade da atividade do compositor.

Agora não existe mais isso. O que o cara cantou foi gravado ao vivo mesmo, e jogado na rua. O direito do compositor se foi. Aí cito o caso de Gilberto Gil. Quando Gil começou a carreira profissional ele sentiu a motivação de algo estável, que ele já tinha como executivo. Mas, com uma situação compartida como essa, com a indústria cada vez mais decadente hoje, o cara não pode largar um emprego em uma multinacional para gravar um disco.

O que está ficando ameaçada é essa motivação do compositor de dedicar energia e tempo para criar algo novo. Eu falo isso com sinceridade. Tenho um filho de sete e um de três anos. Até uns cinco anos atrás, eu estimulava meu filho mais velho a gostar de algum instrumento.

Hoje eu o estimulo a ouvir músicas boas, mas jamais vou estimulá-lo a atividade profissional de músico. Agora dizem que eu virei porta-voz da indústria, mas todos sabem que a indústria como vinha sendo praticada era perversa. Uma coisa é se defender uma indústria mais transparente e democrática, outra coisa é ficar, ingenuamente, defendendo o fim da indústria.

IHU On-Line: Tu defendes o download pago. Se o artista vende suas músicas pela internet, essa noção de ganho muda?

Fred Zero Quatro: Um cantor que quer gravar algo de um compositor que gosta e que pagou direito autoral para a editora, quer proteger o material quando for lançado para não ter prejuízo. Isto é um direito dele, para ter um retorno do capital que investiu. Não é só o tempo, a criatividade e a dedicação, há um custo.

Eu concordo totalmente que a prática de preços que a indústria vem exercendo é absurda. Pagava-se muito mais pelo jabá e pela forma de corromper o sistema de comunicação, do que pela própria produção. O preço é completamente irreal. Agora, um preço que garanta que o autor seja remunerado e que o capital retorne de alguma forma, é completamente racional, é questão de sustentabilidade para a atividade.

Tem uma coisa curiosa, que não sei se tem diretamente a ver com o download, mas com certeza tem algo a ver com o desmonte da indústria hegemônica. Eu, como compositor estou tendo uma receita muito maior hoje em dia. Talvez tenha a ver com o escritório arrecadador que defende os direitos do autor em parceria com associações, e o com o mercado que está agindo com muito mais rigor, inclusive na parte de shows.

É aquela história, antigamente o mercado tentava ser mais ativo na cobrança de emissoras de TV e tal, mas nos shows em geral havia uma cobrança menor, pois o artista receberia com a venda de discos. Como a venda de discos hoje diminuiu, o Ecad está conseguindo fechar acordos com um grande número de organizadores de eventos, prefeituras, governos e fundações.

Existe uma coisa estigmatizada envolvendo o Ecad, que é de interesse dos próprios meios de comunicação, como da Rede Globo e da MTV, que querem estigmatizar o Ecad para não pagá-lo, para queimá-lo. A experiência que tenho com o Ecad é que se trata de um pessoal ultra sério, que repassa dinheiro e que faz um trabalho competente.

Isto tudo também tem a ver com o desmonte da indústria. O rádio era tão atrelado às gravadoras, que artistas e compositores acabavam entrando no grande esquema e recebendo direito autoral. A medida que a hegemonia das grandes gravadoras foi entrando em decadência, pouquíssimas gravadoras continuaram a receber jabá, a programação das emissoras foi ficando mais livre. Muitas rádios que antes não tocavam Mundo Livre S/A e outros artistas mais alternativos, porque estavam muito vinculadas às prioridades das gravadoras, hoje estão tocando.

IHU On-Line: Sobre a questão do manguebeat, tu achas que se a internet tivesse presente na época do manifesto dos “caranguejos com cérebro”, o movimento teria sido diferente, mais eficiente?

Fred Zero Quatro: É difícil avaliar isso. Em primeiro lugar, nem a Nação Zumbi, nem a Mundo Livre S/A teriam tido condições de gravar os primeiros discos de forma caseira. A galera da Nação Zumbi, os percussionistas, não tinha grana para comprar instrumentos profissionais e montar um estúdio em casa. Hoje em dia 90% do material que está no My Space, por exemplo, são de pessoas que gravam música no laptop em casa. O perfil da galera do mangue não era esse, nem o perfil socioeconômico, nem de formato musical.

Voltando à questão da indústria, por mais que houvesse a lógica concentradora da grande indústria, não podemos negar o papel primordial da Sony e dos clipes na MTV, em toda essa história que envolvia a cadeia produtiva da indústria com toda sua cauda longa, na época com os grandes contratos prioritários e os selos menores, como o Banguela, com o orçamento menor.

Não podemos esquecer o papel de motivação para a cena do Recife, depois de décadas estagnada. Viu-se clipes da Nação Zumbi e da Mundo Livre S/A bombando na MTV e na novela. Isso provocou uma avalanche de novas bandas surgindo em Recife.

É difícil avaliar se a internet, o MySpace e o You Tube poderiam ter proporcionado reações em termos de contágio em toda a cidade. Uma coisa primordial, na efervescência da cena do mangue, foi o comprometimento de toda a comunidade cultural da cidade.

Antes da assinatura com as gravadoras, os primeiros clipes foram feitos por produtoras que ficaram contagiadas com a história do caranguejo com cérebro, isso motivou o pessoal do audiovisual. Na internet não existe território. Muitas ondas novas que surgiram aqui têm muito mais “adeptos” na Indonésia, do que em Recife. Na época do mangue havia um comprometimento cooperativo na cidade.

IHU On-Line: Tu tens formação em jornalismo e uma carreira musical longa, mesmo antes da Mundo Livre S/A. Tu achas que a música tem que ter compromisso com uma causa, tem que conscientizar?

Fred Zero Quatro: Não. Seria tão presunçoso isso quando a atitude que tem a OMB, de que querer ordenar música. Não se pode fazer tango eletrônico instrumental, sem o compromisso único e exclusivo com a criação e a estética. Mas isso é de cada um. Essa opinião no meu caso vem da minha formação e por fazer comunicação, sempre interessado no jornalismo e na experiência alternativa.

Na própria faculdade tive certa militância na imprensa de laboratório, reivindiquei melhores condições de ensino e participei de greves. Com diria Tom Zé: “a questão é de defeito de fabricação”. Sempre achei os encartes de CDs um desperdício ou inconseqüência, por exemplo, por não se utilizar aquele espaço da melhor forma possível.

IHU On-Line: Passados 18 anos do manifesto, como está a cena musical hoje, em Recife?

Fred Zero Quatro: Estamos num processo de curadoria da grade do carnaval por parte da prefeitura, em respeito à quantidade de coisas novas que aparecem. Lógico que nem tudo tem a originalidade e a criatividade que almejamos, mas é aquela historia, a quantidade também gera qualidade.

Há também renovação nos festivais, e em eventos de periferias. A própria prefeitura tem uma atividade muito saudável de estimular esse tipo de atividade, como fóruns de músicas, não só dentro do Conselho de Cultura Municipal, mas nas comunidades, onde há um diálogo. Há um crescimento progressivo na questão de cidadania, o que interfere no sentido cultural. Até há algum tempo era surreal imaginar que haveria um fórum de música, era uma categoria pouco engajada até então. Hoje existe a AMP e o fórum de música, ligado ao orçamento participativo.

Outra questão é a qualidade, há muita coisa bacana e espontânea surgindo. 2010 promete marcar uma retomada na cena daqui com uma reivindicação muito antiga de quem mexe com música em Recife, que é criação de uma radio pública. O radio sempre foi o gargalo musical no pólo musical em Recife, e agora temos a noticia de que, até abril, estaremos com a rádio Frei Caneca no ar.

O desafio de ser mulher na África do Sul


O país possui altos índices de violência sexual e de pessoas com o vírus da Aids


Ana Maria Amorim,

Cidade do Cabo, África do Sul

A voz que sobe no palco pede silêncio por alguns instantes. A pausa é para uma poesia. Recitada na maior parte em africâners, alguns versos em inglês insinuam a força das palavras – é um pedido de respeito, é uma denúncia contra os ataques aos direitos humanos. As palavras são de Janine Van Rooy, cantora da Cidade do Cabo. Pérola Negra, como é conhecida, morou nos guetos da capital durante sua infância onde vivenciou as “doenças sociais” da capital sul africana.

janine_van_rooyDentre os desafios que enfrentou durante sua vida, estava o peso de ser mulher em um país marcado pelo machismo. “Eu tinha doze anos quando percebi que as coisas não faziam sentido, e isso estava nos pequenos momentos do cotidiano. Na hora do lazer, por exemplo, eu era obrigada a sentir o medo dos meus pais caírem sobre mim”, relata a cantora. O medo estava em seu gênero: enquanto mulher, Janine era privada de se expressar, de estar em espaços públicos. “Quando não conseguia mais me imaginar neste mundo, comecei a escrever sobre como me sentia. Enquanto escrevia, chorava. E após chorar, me sentia mais livre”, conta.

Durante sua vida, Janine presenciou as mais diversas formas de violência contra a mulher. Para ela, o maior desafio está em combater a violência dentro dos mais variados ambientes e em todas as possibilidades de manifestação: seja física, emocional, psicológica. Junto com outras mulheres que se inserem também na luta pelos direitos das mulheres, Janine participa da publicação “Sparkling Woman”, iniciativa recente que busca possibilitar a troca de experiências nas variadas lutas feministas do país. “Todo dia é um desafio para que esta luta possa dar melhores frutos. Além dos direitos das mulheres, trabalho junto a organizações que visam educar e cuidar de pessoas que tem Aids”, diz.

Em poucas palavras, Janine mostra duas linhas doentias que se cruzam na África do Sul. O país possui altos índices de violência sexual – cerca de 150 mulheres são violadas diariamente, segundo os dados do Instituto Sul-Africano para Relações Raciais – e um dos mais altos índices de pessoas com o vírus da Aids – 17% de todas os infectados do mundo estão na África do Sul, conforme o programa das Nações Unidas para o combate da Aids, a Unaids. Janine diz que, apesar das atuais condições das mulheres e infectados pela Aids no país, espera que o ano de 2010 possa representar avanços e conquistas. Com ironia, ressalta: “é o ano da Copa do Mundo”.

As mulheres na Copa

“A Copa do Mundo de 2010 será o maior evento esportivo que a África já acolheu. A África do Sul estará no centro das atenções. Mas existem alguns obstáculos: pode isto alegrar os 5 milhões de infectados pela Aids e 1,2 milhões de órfãos por causa da pandemia deste vírus?”. Este é o alerta do South Africa Project, organização que trabalha pela igualdade de gênero, suporte a vítimas de violência sexual e portadores de Aids. Assim como foi na Copa do Mundo da Alemanha, em 2006, a proximidade do evento faz a polêmica questão da descriminalização da prostituição ser pautada no país-sede.

Com a maior parte do público masculino, a realização dos jogos da Copa do Mundo é comumente associada ao aumento do turismo sexual. Na Alemanha, quatro anos antes da realização dos jogos, a indústria do sexo foi legalizada. A África do Sul espera que ao menos 450 mil turistas visitem o país motivados pelo evento esportivo. Enquanto o evento não chega, as opiniões sobre a legalização da prostituição se enfrentam.

O ativista Tim Bannet, do World Aids Campaign, acredita que, caso o trabalho das prostitutas seja reconhecido, a taxa de transmissão de Aids poderá sofrer uma diminuição significativa. A opinião sustentada por Bannet se assemelha com a do Conselho Nacional de Aids da África do Sul (Sanac, sigla em inglês). Para o Sanac, faltam programas específicos de saúde para pessoas que trabalham com o sexo, mesmo que medidas para aplicação de tais programas sejam previstas no Plano Estratégico Nacional de Combate à Aids. A Sanac avalia que “descriminalizar a prostituição seria um passo positivo, visto que significaria que o trabalho com o sexo seria mais seguro e os turistas e ‘clientes do sexo’ estariam mais protegidos”.

O contraponto às opiniões favoráveis a descriminalização é encontrado naqueles que divergem na concepção do corpo da mulher enquanto mercadoria. O temor também pesa quanto a capacidade do país fiscalizar as possíveis consequências da descriminalização. A Organização Internacional de Migração (IOM, sigla em inglês), por exemplo, enxerga na medida um caminho para o incentivo do tráfico de mulheres na África do Sul.

Enquanto as opiniões se afloram e o debate ocorre no país-sede da Copa do Mundo, a lei da África do Sul continua intacta pelo menos até março de 2010 – e nenhuma mudança constitucional deverá ser aprovada antes de 2011. As decisões acerca do comércio do sexo só poderiam ser realizadas em casos extraordinários, como o projeto de lei que tramita na Comissão de Reforma Legislativa da África do Sul, mas as decisões – tal qual as polêmicas – sobre o tema não devem se encerrar no prazo da Copa do Mundo.

Homofobia, um fenômeno muito difundido na África

Mesmo vista do Ocidente, a homofobia que reina com frequência no Senegal pode surpreender. É preciso compreender que ela não é própria do “país da Téranga” [a cordialidade da população senegalesa]. É um fenômeno que afeta todo o continente negro. E os dirigentes políticos africanos “frequentemente sopram as brasas”.

Em termos de homofobia, vários dirigentes políticos não estão imunes. O presidente de Gâmbia, Yaya Jammeh, deu no ano passado “24 horas para os homossexuais e outros criminosos deixarem o país”. “Se não os contraventores terão a cabeça cortada”, ele acrescentou. Não sabemos se muitos obedeceram, mas eles sabem que não são realmente apreciados nesse pequeno país que separa a Casamance do norte do Senegal.

Robert Mugabe, o velho presidente de Zimbábue, no poder desde 1980, também se especializou nas diatribes homófobas. Ele apresenta a homossexualidade como uma “doença ocidental”, retomando assim uma tese muito popular na África: a ideia segundo a qual a homossexualidade teria sido “importada” pelos ocidentais para o continente negro. E que essas práticas seriam estranhas à cultura africana.

Na África, os defensores dos direitos dos homossexuais são extremamente raros. Cheikh Ibrahima Niang, professor de antropologia social na Universidade de Dacar, recentemente causou sensação no Senegal ao defender os direitos dos homossexuais. Mas ele estava bem isolado em seu país.

Ele constata até um aumento da homofobia: “Sempre houve correntes homofóbicas na sociedade senegalesa, mas elas se tornam cada vez mais fortes”, ele salienta em uma entrevista dada à Agência France Presse. Esse aumento da homofobia é instrumentalizado pelos religiosos radicais, muito contentes em denunciar os “danos morais provocados pela ocidentalização da sociedade”.

Desde então os homossexuais se escondem. Suas famílias e seus amigos ignoram tudo sobre sua preferência sexual. No continente, a homossexualidade é um assunto que faz muita gente se esconder.

Mesmo a “muito séria” BBC fez recentemente esta pergunta surpreendente a seus ouvintes em um programa destinado à África: “Deve-se matar os homossexuais?” Uma formulação tão chocante que sem dúvida serve para atrair audiência. E para “cativar as imaginações”. Mas certamente não para fazer progredir a tolerância.

Fonte: Le Monde
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves / UOL Mídia Global

MANIFESTO CONTRA A INTOLERÂNCIA DO CÔNSUL DO HAITI NO BRASIL

MOÇÃO DE REPÚDIO

Historicamente todos os símbolos que traduzem a herança africana foram usurpados, relegados à condição de subalternidade e negados do processo de contribuição da formação da cultura brasileira, a exemplo disso citamos a religião. Homens e mulheres tiveram que criar formas de resistência e camuflar sua fé, originando ao que conhecemos como sincretismo religioso. Pois bem, o bonde da história se movimenta e hoje seguidores e seguidoras das religiões de matriz africana em todo país, engrossam as fileiras da luta contra a intolerância religiosa, se pautando inclusive na Constituição brasileira, quando garante a liberdade de culto. É preciso rememorar que a perseguição religiosa culmina em várias formas de violência, ferindo os direitos da pessoa humana.

Neste contexto de releituras e circularidade cultural, surge o inaceitável, duras manifestações de preconceito a cultura africana na diáspora conjugada a requinte de crueldade de colarinho branco. Tudo traduzido no nefasto comentário do cônsul geral do Haiti em São Paulo, o Srº Gerge Samuel Antoine, que em meio à comoção mundial pelo duro golpe que a natureza deu no Haiti e que arrasou vidas, repartiu famílias e dilacerou o resquício de esperança do povo haitiano, disse “A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui, fica conhecido. Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o que é aquilo… O africano em si tem maldição. Todo lugar que tem africano lá tá f…” (fonte: SBT Brasil)

Num momento em que o mundo volta sua solidariedade para o povo do Haiti, os negros do Haiti, deve ser repugnada qualquer manifestação de racismo, preconceito e ódio à cultura religiosa de matriz africana, extensível a todos os brasileiros. Assim, a infeliz manifestação do cônsul não pode ser desculpada, e se for pelo governo brasileiro, não o será em nome dos mais diversos movimentos sociais nacionais, notadamente porque entendemos que esse pedido de desculpas se dá pelo fato do seu pensamento ter se tornado público, nada mais. Ter em nossas terras um homem que semeia o desamor e o oportunismo selvagem, sobretudo, num momento de dor, é como cultivar um câncer em nosso país. Não basta ter que conviver com os nossos racistas ainda vamos ter de nos omitir sobre essa reprovável manifestação de racismo?Até quando vamos ter que conviver com o mito da igualdade racial e as várias facetas que o preconceito apresenta?

Neste sentido a CUFA – Central Única das Favelas, entidade representativa em todo território nacional e com bases internacionais (Alemanha, Argentina, Áustria, Bolívia, Chile, Colômbia, Espanha, Hungria, Itália, Paraguai, Portugal, USA e Angola), vem por meio dessa moção solicitar ao governo brasileiro que encaminhe esse senhor a acalmar todo seu sentimento em outras terras e que assim seja imediatamente convidado a deixar essa casa nação brasileira, bem como, o afastamento imediato do cargo que ocupa, por ser incompatível com suas convicções racistas, desumanas e contrária a cultura da paz. É preciso que as instâncias de poder se posicionem e intervenham, como símbolo de respeito aos ossos irmãos e irmãs haitianas, à dignidade do povo brasileiro e como resposta as agressões proferidas à cultura advinda de África, pois somos parte dela mesmo que neguem.

Por fim, nos negros e não negros brasileiros e brasileiras afirmamos que não temos nenhuma maldição e como tal desejamos a ele toda a sorte e felicidade do mundo em outra missão que não seja a de representar os negros do Haiti em território brasileiro. E se ainda assim o Srº Gerge Samuel Antoine continuar como referência do povo do Haiti no Brasil então deveremos reconhecer que realmente somos um povo amaldiçoado.

Imperialismo e sub-imperialismo de mãos dadas no Haiti




Escrito por Duarte Pereira

Está se consumando a crônica anunciada e previsível da nova ocupação do Haiti pelos Estados Unidos, desta vez aproveitando o terremoto que devastou o país e sua capital.

Os Estados Unidos já desembarcaram 11 mil militares no país. Ontem, com tropas armadas e uniformizadas para combate, transportadas em helicópteros de guerra, ocuparam o palácio presidencial em Porto Príncipe. O aeroporto, não esqueçamos, continua sendo controlado e operado pelos Estados Unidos, que hastearam sua bandeira no local e decidem que aviões podem pousar.

Nos últimos dias, deram prioridade a suas aeronaves, principalmente militares, prejudicando o desembarque da ajuda enviada por outros países e por organizações não-governamentais. A prioridade foi a segurança, não a vida da população haitiana, principalmente pobre. O ministro francês da Cooperação, Alain Joyandet, chegou a protestar: “Precisamos ajudar o Haiti, não ocupá-lo.”

É verdade que, tendo cumprido o cronograma inicial de desembarque de suas tropas, os Estados Unidos poderão autorizar, nos próximos dias, o pouso de um número maior de aviões de outros países, com técnicos e equipamentos para remoção de destroços, médicos e remédios para atendimento dos feridos, água e alimentos para a população desabrigada e desempregada. A essa altura, porém, a possibilidade de encontrar pessoas soterradas com vida será mínima e excepcional.

Sem que a mídia dê atenção a este aspecto, os Estados Unidos estão aumentando também o controle do porto que dá acesso à capital e de toda a área litorânea do Haiti, com um porta-aviões, um navio equipado com um hospital de campanha e vários navios da Guarda Costeira, visando a socorrer feridos, mas também a selecionar e controlar a aproximação de navios de ajuda de outros países, como o enviado pela Venezuela com combustível, e a impedir a emigração desesperada de haitianos para a costa estadunidense em pequenas embarcações.

Não podendo justificar suas ações arrogantes e unilaterais com ordens das Nações Unidas, o governo de Washington tem argumentado que atua a pedido do governo haitiano. Mas que soberania pode ter um governo, como o do presidente René Préval, que não dispõe sequer de forças policiais e de equipamentos de comunicação e transporte para manter a ordem pública e organizar o salvamento de seus cidadãos?

É significativo também que o plano de salvamento e reconstrução do Haiti pelos Estados Unidos tenha sido anunciado em conjunto pelo presidente Barack Obama e pelos ex-presidentes Clinton e Bush – o mesmo Bush que demorou tanto a agir quando o furacão Katrina destruiu uma grande área dos Estados Unidos. Quando os interesses estratégicos da superpotência estadunidense e de suas empresas transnacionais estão em jogo, prevalece como sempre o consenso bipartidário entre “democratas” e “republicanos” – aliás, uma confluência bipartidária semelhante se ensaia agora no Brasil com o PSDB e o PT, apesar das acirradas disputas nas fases de eleição.

O jornalista Roberto Godoy, especializado em assuntos militares, escreveu no Estadão: “Os Estados Unidos estão fazendo no Haiti o que sabem fazer melhor: ocupar, assumir, controlar. Decidida em Washington, a operação de suporte às vítimas da devastação, em quatro horas, tinha 2 mil militares mobilizados – e metade deles já seguia para Porto Príncipe – enquanto o resto do mundo apenas tomava conhecimento da tragédia. (…) É a Doutrina Powell, criada no fim dos anos 80 pelo então chefe do Estado-Maior Conjunto, general Colin Powell, aplicada em tempo de paz. Ela prevê que os Estados Unidos não devem entrar em ação a não ser com superioridade arrasadora. (…) No sábado, oficiais americanos (seria mais correto escrever estadunidenses, porque americanos somos todos nós) estavam no comando do tráfego aéreo. Os paraquedistas da 82ª Divisão e os fuzileiros navais (…) são treinados para o combate e também para missões de resgate. Movimentam-se em helicópteros e veículos convertidos em ambulâncias leves. A retaguarda é poderosa. Um porta-aviões virou central logística e um navio-hospital de mil leitos chegou no domingo. Ontem, aviões dos Estados Unidos ocupavam 7 das 11 posições de parada remanescentes no aeroporto.”

A mídia do grande capital, exagerando os saques e os conflitos, cumpriu seu papel de preparar a opinião pública para aceitar a operação político-militar dos Estados Unidos como necessária e benevolente. Na realidade, os Estados Unidos têm contribuído para acirrar os conflitos ao atrasar a ajuda humanitária de outros países e utilizar aviões e helicópteros para despejar suprimentos aleatoriamente sobre uma população sedenta, faminta e desorganizada.

Até mesmo o general brasileiro Floriano Peixoto, comandante da Minustah (Missão de Estabilização das Nações Unidas), ponderou em videoconferência que os casos mais graves de violência não são generalizados e disse que as ruas de Porto Príncipe estão desobstruídas, o que facilita a ação das forças de segurança. Na avaliação do general, a situação se mostra menos grave do que a versão difundida pela imprensa.

Além disso, quem tem experiência política e já participou da resistência a regimes entreguistas e autoritários não pode deixar de receber com ceticismo a qualificação fácil e indiferenciada, difundida pela mídia, de que todos os presos que escaparam dos presídios destruídos pelo terremoto são criminosos comuns e integrantes de “gangues de bandidos”. Muitos oficiais e soldados do antigo Exército haitiano formaram milícias, que declararam seu apoio ao último presidente livremente eleito, Jean-Bertrand Aristide, depois que ele foi deposto em 2004. Seqüestrado por tropas estadunidenses e levado à força para a África do Sul, bem longe do Haiti, o ex-presidente Aristide continua impedido de voltar ao país e seu partido foi proibido de participar das últimas eleições realizadas sob o controle da Minustah.

Com as diferenças secundárias de motivação e de situação interna, o roteiro seguido pelos Estados Unidos no Haiti é, portanto, essencialmente o mesmo adotado no Iraque ou no Afeganistão: primeiro, destroem-se os Estados nacionais que esbocem qualquer rebeldia, instalando a devastação econômica e social e o caos político; depois, utilizam-se essas circunstâncias deterioradas para justificar a construção de Estados satélites; por último, esses Estados satélites e corruptos se revelam incapazes de garantir a paz, resgatar a dignidade nacional e melhorar o padrão de vida da população (com as exceções de praxe das elites colaboracionistas), justificando que a ocupação estadunidense se prolongue indefinidamente. A crise aprofundada pela intervenção externa cria, enquanto isso, oportunidades de novos negócios lucrativos para os fabricantes de armas, as empresas de segurança e as grandes construtoras dos Estados Unidos e de seus aliados.

Para dissipar dúvidas sobre as reais intenções da intervenção “emergencial” e “humanitária” dos Estados Unidos no Haiti, o diplomata Greg Adams, enviado ao país caribenho como porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos, declarou ao Estadão, em Porto Príncipe: “É muito cedo para estabelecer prazos (para a retirada das tropas estadunidenses) e ficaremos aqui o tempo que for necessário (lembremo-nos de declarações semelhantes tornadas públicas no início da ocupação do Iraque). Havia tropas estrangeiras no Haiti antes do terremoto (ah, é?). Com a tragédia, além de todos os outros problemas, não vejo uma data-limite no futuro próximo para falarmos aos haitianos ‘ok, agora é com vocês’. Ficaremos aqui por um bom tempo e acho que o Brasil também.”

A referência à ação coadjuvante e subordinada do Brasil foi bem esperta. Que autoridade moral pode ter o governo brasileiro de protestar contra a ação estadunidense se tem participado da intervenção política e militar nos assuntos internos do Haiti, ainda que com a chancela formal das Nações Unidas, chancela já utilizada ao longo da historia da entidade para encobrir tantas outras intervenções? Participando das operações de segurança – ou seja, em bom português, de repressão – com o beneplácito e em benefício dos Estados Unidos, o Brasil espera ganhar o prêmio de consolação de tomar parte nos negócios de reconstrução do país. Aliás, grandes construtoras brasileiras, como a OAS e a Odebrecht, já enviaram equipes técnicas e equipamentos pesados para o Haiti, posicionando-se para a disputa que virá.

Quem afirma que não existe mais imperialismo no século XXI ou põe em dúvida o conceito de sub-imperialismo, utilizado para caracterizar a política externa atual do Brasil, principalmente na América Latina e no Caribe, tem assim a oportunidade de aprender, em cores e online, o conteúdo concreto desses conceitos e dessas práticas.

Abrindo bem os olhos, os patriotas e democratas brasileiros têm o dever de exigir que o Brasil renuncie ao comando militar da Minustah, retire progressivamente suas tropas do Haiti e se limite às ações de cunho efetivamente humanitário. O Haiti não precisa só de ajuda, precisa de soberania. Que os Estados Unidos realizem seu plano de intervenção e de construção de um Estado satélite no Haiti com seus próprios recursos humanos e materiais e sob sua exclusiva responsabilidade. Assim, pelo menos, a situação ficará mais clara e se tornará mais fácil mobilizar as forças antiimperialistas e democráticas no Haiti e nos demais países da América Latina e do Caribe. Não percamos de vista que um império em declínio, na desesperada tentativa de reverter o curso histórico que o debilita, pode tornar-se mais perigoso e aventureiro do que um império em ascensão e paciente.

Estou fechando este parêntese sobre a tragédia haitiana, porque já está claro que não se trata apenas de uma tragédia natural e humanitária, mas, sobretudo, política e militar. Recentemente, um terremoto devastou uma grande região da China, deixando 87 mil mortos, segundo as estimativas oficiais. Porque havia e há na China, apesar de sua pobreza ainda grande, um Estado soberano e ativo, foi possível lidar com as conseqüências da tragédia sem permitir a intervenção estrangeira no comando das operações de socorro e reconstrução ou o desembarque de tropas de outros países.

A grande tragédia do Haiti foi a destruição progressiva de seu Estado nas últimas décadas, com a dissolução de suas forças armadas e policiais, a precarização de seus serviços públicos e a desorganização e divisão de sua população.

Duarte Pereira é jornalista.

MV Bill e Racionais MCs se reúnem na Cidade de Deus

MARY PERSIA
da Folha Online

Um encontro raro mudou a rotina da Cidade de Deus. Uma das comunidades mais conhecidas do Rio de Janeiro presenciou a reunião de ícones do rap nacional.

Os Racionais MCs, representados por Mano Brown e Ice Blue, foram visitar MV Bill na CDD (famosa sigla para a área) –algo que haviam feito uma década atrás. Os paulistanos estavam em terras cariocas para o festival Hutúz, que premia os destaques da cultura negra.

O encontro, registrado neste vídeo, aconteceu no último dia 28 de novembro, um sábado, e teve também a presença de dois nova-iorquinos –o grafiteiro Daze e Fab 5 Freddy, figura dos primórdios do hip hop e ex-apresentador do “Yo! MTV Raps” americano–, Du Bronk’s, do grupo Rosana Bronk’s (apadrinhado dos Racionais), e o produtor Devasto.

“Na época do primeiro encontro, não tínhamos a visibilidade de hoje. Nossas agendas ficaram lotadas, graças a Deus, e acabamos não nos vendo com tanta frequência. Foram dez anos nos falando pouco”, diz MV Bill, que em retribuição deverá visitar as zonas norte e sul de São Paulo, áreas dos quatro integrantes dos Racionais MCs.

“Temos uma amizade, mas falta tempo”, concorda Ice Blue, que não descarta uma parceria com o rapper carioca. “Vamos tentar ficar mais próximos, quem sabe fazer algum trabalho juntos.”

Almoço e música

Neste vídeo, Mano Brown aparece descontraído, se exercita na praia, conversa e dança durante um almoço no bar da dona Lurdinha, corta o cabelo na barbearia do Rabisquinho e faz uma parada final no bar da Rosa –figuras emblemáticas da Cidade de Deus.

A produção do encontro coube à Chapa Preta, produtora de MV Bill, com apoio audiovisual da Cufa (Central Única das Favelas).

Ficha técnica do vídeo: Nino Brown e Anderson Quak (produção), Édipo Pereira (câmera e edição), Fernando Barcellos (câmera), Karina Spinoza (câmera adicional

RAP COM SAMBA, CARIMBÓ E MANBO


Grupo de rap Cearense é atração do Espaço Cultural da Barroquinha nessa sexta-feira – 22/01/10

Nesta sexta-feira aporta em Salvador um dos mais criativos e originais grupos de rap da atual safra musical brasileira – O grupo cearense Costa a Costa, eles fazem apresentação única na cidade, dia 22/01 às 18h, no Espaço Cultural da Barroquinha (Praça Castro Alves), os ingressos antecipados custam apenas 5 reais, maiores informações no tel 8180-7178.

Formado pelos Mc’s Don L.e, Nego Gallo e pelo Dj Flip Jay essa rapaziada de Fortaleza que ficou conhecida em rede nacional no ano de 2008 através do Programa Minha Periferia de Regina Case, já ganhou importantes prêmios, entre eles, o mais expressivo da cultura Hip-Hop na América Latina – O Prêmio Hutuz. Na noite de sexta, eles dividem o palco com os rappers baianos Lukas Kintê o grupo Otra Vidda, os Mc’s Duende, Fall e Kalibre. Já a discotecagem fica por conta do Dj Bandido que esquenta a pista com muito samba rock, reggaeton, rap nacional e outros bits de sua própria autoria.

O evento tem como objetivo fortalecer e divulgar as diversas expressões da música negra dando uma injeção de energia, ousadia e sonoridade na Agenda Cultural de Salvador promovendo um evento plural que surge na cidade numa época em que a maioria dos shows é de Axé e Pagode. Então, aparece lá e para você que nunca ouviu o som dessa rapaziada clica no www.myspace.com/costaacosta e confere a maravilha.

SERVIÇO:

O que? Costa a Costa faz apresentação única em Salvador

Quando? Dia 22 de janeiro de 2010 (sexta-feira), às 18h

Onde? Espaço Cultural da Barroquinha, Praça Castro Alves – Salvador

Quanto? R$ 5.00 – Antecipado. R$ 10.00 – No local

Mais Informações:

(71) 81455297 / 81807178

Dj Branco

Seminário: “A cultura HIP HOP – Políticas públicas para a juventude e produção cultural

Nesta sexta-feira 22 de janeiro de 2010
Local: Forte de Santo Antonio Além de Carmo – forte da Capoeira
14h – “Políticas públicas e o universo hip hop”
Palestrante: Márcia Guena (Jornalista, mestre em América Latina, pesquisadora de temas ligados ao ativismo negro e fundadora do Jornal do Beiru)
15h – “Produção cultural em Salvador”
Palestrante: Nelson Maca, professor do curso de Letras da UCSal, coordenador do coletivo Blackitude
16h – Experiências da Rapaziada da Baixa Fria e os elementos do hip hop
Participação dos grupos Independente de Rua, Opanijé, Os Agentes; os grafiteiros Zezé e Marcos Costa; o MC Markão II, do grupo paulista DMN, e DJ Q.A.P.

Herança escravista X direitos humanos




Escrito por Osvaldo Russo

Neste centenário da morte de Joaquim Nabuco, O Abolicionista, lembramos que este importante homem público, primeiro defensor da Reforma Agrária no Brasil, dizia que o fim da escravidão no Brasil era inseparável da democratização do solo rural pátrio. A elite imperial não lhe deu ouvidos: proclamou a abolição da escravatura sem distribuir terra aos escravos e sem garantir-lhes trabalho, casa ou escola. Aos novos homens e mulheres livres – afrodescendentes – restaram apenas os quilombos, os mocambos, as favelas, as prisões, a tortura, a fome e a dura e corajosa luta pela sobrevivência.

Porta-vozes dessa elite colonial, travestidos de republicanos modernos, escrevem que os sem-terra, acampados ou assentados são como baldes medievais e gente arruaceira. Concede-se até dar um pedaço de terra e pequena ajuda financeira a eles se assim o país puder se voltar inteiramente para o agro rico, com uso indiscriminado de sementes transgênicas e lucros fabulosos dos seus negócios. Nenhuma palavra sobre o latifúndio improdutivo ou agronegócio predador, como se estes fossem obra da imaginação e do radicalismo dos sem-terra e de suas organizações.

É possível avançar ainda mais no apoio à agricultura familiar e acelerar a reforma agrária, aprofundando o diálogo democrático com as organizações sindicais e os movimentos sociais, no sentido de garantir conquistas específicas do setor, respeitando-se o meio ambiente e os direitos humanos. Esse é o sentido do Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH-3 – aprovado pelo Presidente da República e isso não tem nada de medieval ou esquerdista: apenas resgata uma dívida social – colonial e escravista – com cinco séculos de exploração e violação de direitos dos camponeses no Brasil.

Diante da crise mundial do capital e dos resultados revelados pelo Censo Agropecuário 2006, não era de se espantar ou surpreender que um dos objetivos estratégicos do PNDH-3 fosse o fortalecimento de modelos de agricultura familiar e agroecológica, de modo a garantir que nos projetos de reforma agrária e agricultura familiar sejam incentivados os modelos de produção agroecológica e a inserção produtiva nos mercados formais; fortalecer a agricultura familiar camponesa e a pesca artesanal, com ampliação do crédito, do seguro, da assistência técnica, extensão rural e da infra-estrutura para a comercialização.

Contemporâneo com o novo século, o PNDH-3 também visa garantir pesquisa e programas voltados à agricultura familiar e pesca artesanal, com base nos princípios da agroecologia; fortalecer a legislação e a fiscalização para evitar a contaminação dos alimentos e danos à saúde e ao meio ambiente causados pelos agrotóxicos; promover o debate com as instituições de ensino superior e a sociedade civil para a implementação de cursos e realização de pesquisas tecnológicas voltados à temática sócio-ambiental, agroecologia e produção orgânica, respeitando as especificidades de cada região.

Em contraposição à política de repressão e criminalização dos movimentos sociais, um outro objetivo estratégico estabelecido pelo PNDH-3 constitui a utilização de modelos alternativos de solução de conflitos, de modo a, entre outras ações programáticas, fomentar iniciativas de mediação e conciliação, estimulando a resolução de conflitos por meios autocompositivos, voltados à maior pacificação social e menor judicialização. Recomenda ainda aos estados, ao Distrito Federal, aos municípios, ao Poder Judiciário, ao Ministério Público, à Defensoria Pública e à sociedade civil o desenvolvimento e incentivo à utilização de formas e técnicas negociadas de resolução de conflitos. Isso é radicalmente democrático.

Em pleno século 21, entretanto, com o Brasil afirmando-se como nação soberana e garantidora de direitos, os novos escravocratas reagem ao PNDH-3 olhando pelo retrovisor conservador da história. Em vez de se guiarem pelo exemplo de Nabuco, buscando a universalização de direitos, querem a manutenção de desigualdades e privilégios no campo.

Os herdeiros da escravidão contrapõem-se à afirmação dos direitos humanos como política pública, estruturada em programas, serviços e benefícios. O conservadorismo se escandaliza com a rebeldia dos injustiçados, mas se cala diante de sua repressão.

Osvaldo Russo, ex-presidente do Incra, é coordenador do Núcleo Agrário Nacional do PT.

POR TRÁS DAS COTAS RACIAIS….


Texto:
Capitão Marinho

Atualmente, vêm crescendo de forma acentuada as reivindicações e aspirações em prol de um Brasil mais igual. A busca por esta igualdade, como qualquer manifestação por mudança de status quo, é uma questão política. E a política – como nos ensina João Ubaldo Ribeiro – nada mais é que o exercício de alguma forma de poder.


Zumbi, maior símbolo de resistência, suportou até a sua respiração derradeira o exercício de um poder perverso, que obrigava o negro a ser igual a um animal de carga que tem como dono uma pessoa insensível. Enquanto pode usufruir dos seus serviços, dará comida, água e um pouco de descanso. Quando não mais consegui tirar proveito dele, por já estar moribundo na iminência da morte – esta será precoce devido aos maus-tratos – tentará vendê-lo. Caso não tenha êxito, o seu dono, totalmente desprovido de sentimentos humanos, o abandonará na primeira esquina. Foi contra esta situação análoga à vida de um animal de carga, de dono insensato, que Zumbi liderou milhares de negros para resistir e lutar até por termo às suas vidas.

Superada a situação de escravo de senzala, surgiu o novo desafio: solucionar a discriminação racial incomensurável e pública. Um dos ícones na superação deste novo desafio foi Lima Barreto, pois de uma forma bastante singular, usou o seu perfil intelectual para denunciar e protestar contra uma sociedade discriminante e ingrata às pessoas que a ajudaram a prosperar. No seu romance “Recordações do Escrivão Isaías de Caminha”, Lima Barreto relata a saga de um mulato que sonhava em ser doutor, pois achava que o simples fato de ser portador de um diploma o isentaria de ser discriminado, entretanto será desiludido. Este romance é a tradução da vida dele, pois indignado por não granjear o título de doutor na sua vida, retorna do Rio de Janeiro para o interior e escreve, neste romance, todo o preconceito sofrido por quem tem todos os requisitos para ser vencedor, como, por exemplo, honestidade, inteligência, bondade, sonhos, menos um – a cor.

O racismo ser tratado como crime inafiançável e imprescritível é exemplo de que a sociedade denunciada por Lima Barreto já não mais existe. Entretanto surgem novos desafios: o de superar o insulto social contra os negros – não conheço nenhum ator negro, de telenovela, que nunca fez papel de bandido ou serviçal – e o racismo velado que ludibria as leis. Mas, para superar estes novos desafios, são imprescindíveis políticas públicas afirmativas.

As cotas raciais fazem parte das políticas públicas afirmativas. Contudo o exercício do poder, mediante políticas públicas, faz com aqueles que estão “cedendo” espaço, naturalmente, discordem e criem teorias para defenderem suas posições. Consequentemente surgem os bordões: “não somos racistas”, “no Brasil não tem negros e nem brancos, mas sim brasileiros”, “somos exemplo de democracia racial”. E quando se apercebem que o racismo no Brasil é inquestionável, mudam os bordões: “cotas é racismo às avessas”, “as cotas vão segregar o nosso país”, “as cotas tem que ser para os pobres”, “o Brasil precisa é de uma boa educação”. Assim, “a inveja nossa de cada dia” (Joaci Góes, o mais novo imortal da Bahia), ou os nossos princípios, impulsiona a mobilização em torno de um tema muito polêmico – as cotas raciais – que consegue fazer o brasileiro opinar. É impressionante o alcance do debate, pois, até quem não tem interesse pelo tema emite uma opinião, quer seja a favor, quer seja contra.

As cotas estão fazendo com que os brasileiros dialoguem sobre o racismo e a educação. O racismo sempre esteve presente na sociedade brasileira, e quando reconhecemos o problema, torna-se mais fácil a solução. As cotas estão fazendo com que as pessoas reflitam e concluam que a ideologia da “miscigenação brasileira” naturalizou o racismo através da sua negação. Quanto à educação, “nunca na história deste País” se falou tanto que a educação é a solução, e que os pobres – os negros na sua grande maioria – devem ser educados.

Como acho que todos ganham quando há o debate, afirmo: por trás das cotas raciais, existe algo muito bom para o Brasil!
Texto: Capitão Marinho

DROGAS E VIOLÊNCIA: QUEM SÃO OS VERDADEIROS VILÕES?

Este assunto – drogas e violência – é difícil de ser analisado tecnicamente, mas como os desafios fazem parte da vida, vamos lá!

Texto :

Capitão Marinho

Quanto às drogas, não há dados que permitam afirmar que o consumo vem aumentando ou diminuindo, apesar da sensação de que o consumo de drogas vem aumentando de forma assustadora, sendo o “crack” o tipo de droga que mais nos passa a impressão de ter tido o seu consumo aumentado em progressões geométricas. Quanto à violência, no Brasil, em 2008, só em acidentes de trânsito morreram, aproximadamente, 35.000 (trinta e cinco mil) pessoas no local do acidente e somadas as mortes pós-acidente, esta estatística estarrecedora ultrapassa o número de 80.000 (oitenta mil) mortos. Levando em conta que, segundo estimativa feita pelos DETRAN, para cada pessoa morta, quatro ficam com seqüelas e duas ficam inválidas, o número de vítimas de violência do trânsito – somados mortos e feridos – é mais de 500.000 (quinhentas mil) pessoas por ano. Segundo alguns estudos, entre 60 a 70% dos acidentes foram causados por pessoas que consumiram algum tipo de droga (álcool, maconha, cocaína). O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) afirma que, só com mortes no trânsito, o Brasil teve um prejuízo que ultrapassou a quantia de 30 bilhões de reais. Em relação à violência produzida por arma de fogo, no ano passado, morreram 40.000 (quarenta mil) pessoas. Quanto aos feridos, é desconhecido este número, assim como, a relação de mortes por arma de fogo com as drogas, exemplo: disputa por ponto de venda, dívidas com traficantes, balas perdidas em conseqüência da “guerra do tráfico”, entre outros motivos.

Diante dos números apresentados, surgem as indagações: o quê fazer? Atuar nas causas a fim de erradicar os problemas ou buscar responsáveis para os números alarmantes que não param de crescer? Será que podemos pontuar os responsáveis? E como fazer para que as leis sejam respeitadas, mitigando, assim, os números estatísticos? Diante das indagações, as autoridades, infelizmente, adotam o Direito Penal como a panacéia para todos os problemas brasileiros.

O Direito tem como objetivo principal harmonizar as relações entre os indivíduos da sociedade, protegendo as condições básicas para o convívio profícuo do ser humano em coletividade. Cabendo ao Direito Penal aplicar sanções – penas – as pessoas arredias ao que foi estabelecido no pacto social e traduzido em normas. A pena tem como escopo evitar condutas nocivas à sociedade, que foram reconhecidas através de leis. Ela busca prevenir as condutas delituosas através da retribuição de um mal ao autor da infração, sendo classificada em: geral (tem como finalidade impedir que os membros da sociedade pratiquem crimes) e especial (retira o criminoso do meio social, impedindo-o de delinqüir e procurando ressocializá-lo). Cabe destacar que toda sanção penal visa proteger algo, um bem.

Cingindo-me à questão das drogas ilícitas, a sociedade – através de leis – entendeu como nociva à saúde pública o consumo de certas substâncias entorpecentes. Cabendo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) relatar as substâncias entorpecentes consideradas ilegais para o consumo. A fim de garantir a proteção da saúde pública, a Lei de entorpecentes prevê sanções a quem atentar contra o bem tutelado. Surge o primeiro impasse na política criminal anti-drogas: quem fere a saúde pública é quem consome a droga e não quem a vende, entretanto a Lei penaliza de forma rigorosa quem a vende, e não quem a consome. Pior, apesar de ser inquestionável a afirmação seguinte: “quem consome drogas ilícitas financia a violência”, a Lei procura passar uma idéia de que o consumidor é uma vítima, um “pobre coitado”, só faltando afirma que os “monstros” dos traficantes, de armas em punho, obrigam as pessoas a consumirem as drogas ilícitas, sem sequer alertar os “ingênuos” dos males causados ao organismo humano por ocasião do consumo desses entorpecentes. A Lei, também, não estabelece de forma precisa como as autoridades responsáveis pela repreensão do consumo de drogas ilícitas devem distinguir, de forma segura, quem é o traficante e quem é o consumidor, ou seja, quem é o “lobo mau” e quem é a “chapeuzinho vermelho”, competindo esta distinção – entre consumidor e traficante – ao subjetivismo do policial por ocasião do flagrante delito.

As autoridades, como “legítimos” donos da verdade, afirmam que os pobres – na grande maioria negros – que são consumidores acabam traficando para sustentar o vício, ou seja, pobres serão sempre traficantes e processados por crimes hediondos. Já os ricos, estes sim, serão sempre vítimas de um sistema perverso e desumano que destrói de forma insidiosa as suas famílias, acabando com a harmonia dos seus lares. Sendo assim, as autoridades de segurança pública tentando acabar a qualquer custo com os traficantes, e não com o tráfico, fazem dos seus estados verdadeiros Teatros de Operações (local onde se desenvolve as guerras regulares entre as nações), passando a ser os verdadeiros algozes da saúde pública, causando a morte e o ferimento de milhares de pessoas, anualmente, com as “políticas de enfretamento” ou “a guerra contra os traficantes”.

É estarrecedor afirmar que, em um Estado Democrático de Direito, onde todos deveriam ser tratados conforme o Princípio da Igualdade, o policiamento repressivo – tiroteios – que tem por finalidade a proteção da saúde pública, desenvolve-se em áreas carentes de ações sociais (leia-se pobres) matando e ferindo milhares de pessoas (balas perdidas) que não têm qualquer relação com o tráfico de drogas.

Não precisa fazer doutorado de Economia na Universidade de Havard (considerada a melhor universidade do mundo) para saber que existe no mercado a lei da oferta e da procura, e que este não admite lacunas no seu interior; por isso, enquanto existir pessoas interessadas em comprar drogas ilícitas, haverá pessoas dispostas a vender, a fim de obter lucros. Logo, posso afirmar que por mais eficiente que seja a repressão contra o comércio ilegal de entorpecentes, as autoridades não vão acabar com o tráfico – traficantes – enquanto houver consumidores. Ou seja, há uma notória inversão de valores na Lei de Entorpecentes do Brasil, que faz com que as pessoas que moram nas comunidades carentes – conhecidas, também, como áreas de risco – sejam, constantemente, vítimas da violência causada pela transação de substâncias ilegais. Apesar de Hélio Luz (quando chefe da Polícia Civil do estado do Rio de Janeiro) afirmar, categoricamente, que: “Ipanema brilha à noite”, referindo-se ao elevado consumo de cocaína naquele bairro de classe média alta da cidade do Rio de janeiro, lá ninguém morre vítima de tiroteio entre policiais e traficantes. Em compensação, no Complexo do Alemão, no Morro dos Macacos e em outros locais semelhantes é um “deus nos acuda”. Estendo este exemplo a todas as cidades brasileiras!

Destarte, os governadores, para proteger a saúde pública, fazem verdadeiras guerras vitimizando milhares de cidadãos. Os legisladores não consideram criminosos que consome as drogas ilícitas, ou seja, os verdadeiros agressores da saúde pública. Estes compram as substâncias entorpecentes ilegais alheios às penas, pois não passam de “vítimas ingênuas” da brutalidade do sistema. E os traficantes, objetivando auferir lucros nos negócios, compram armas para proteger suas mercadorias. Por fim, fica o questionamento: drogas e violência, quem são os verdadeiros vilões?

Capitão Marinho

O MAIOR DESAFIO DA NAÇÃO BRASILEIRA: COMO MOTIVAR QUEM NÃO GOSTA DE POLÍTICA?

Texto: Capitão Marinho

Na semana passada, houve várias operações de busca e apreensão e cumprimentos de mandados de prisão, por causa de proprinas pagas a governador, deputados, secretários de estado e diretores de agências públicas. A famigerada corrupção política. Primeira indagação que faço: será que somente os corruptos e corruptores são os responsáveis? Será que as pessoas que têm orgulho de afirmar que têm ojeriza a política e que não têm o menor interesse de saber o quê se passa nesse meio – analfabetos políticos -, também, são responsáveis?

Segundo Berthold Brecht: “o pior analfabeto é o analfabeto político, pois ele não ouve, não fala, não participa dos acontecimento políticos, não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito, dizendo que odeia a política. Não sabe que da sua ignorância nasce a prostituta, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e o explorador das empresas nacionais e multinacionais.” (destaque em negrito dado por mim).
Na semana passada, os casos que mais chamaram atenção foram: o do Governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, acusado de pagar proprinas para deputados (mensalão do Distrito Federal) e, também, de receber proprinas de empresários em troca de favorecimento público; e a prisão do ex-diretor da AGERBA (Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações da Bahia), Antonio Lomanto Neto (filho do ex-governador da Bahia, Antonio Lomanto Júnior, e tio do líder do PMDB na Assembléia baiana, Leur Lomanto Júnior), acusado de cobrar propina aos empresários do ramo de transporte rodoviário, estando, também, como possíveis beneficiados do esquema dois deputados estaduais e o Presidente do PMDB baiano.
Os casos de corrupção na política brasileira, apesar de serem rotineiros, não podem ser naturalizados. Os políticos brasileiros mais lembrados, quando o assunto é corrupção, são os ATUAIS parlamentares: senador Fernando Collor de Melo e o deputado federal Paulo Maluf. Quanto a este último, existem inúmeros processos judiciais por corrupção, lavagem de dinheiro, formação de quadrilha, evasão de divisa, desvio de verbas públicas, dentre outros. Entretanto, quando ele foi preso com o seu filho, Flávio Maluf, suspeito de desviar milhões dos cofres públicos, um Ministro da Suprema Corte (leia-se Supremo Tribunal Federal) disse que estava comovido com um pai na mesma cela que um filho. Fica a indagação: será que este Ministro se comoveu com os pais e mães de São Paulo que viram seus filhos morrerem por falta de leito hospitalar ou por falta de médicos para atendê-los, pois o dinheiro para aquisição do leito hospitalar ou para a contratação dos médicos foi desviado por este pai (Maluf) e seu filho que ele acabara de soltar? Indubitavelmente que não, pois no círculo social de um ministro do STF não existem pessoas que dependem da rede pública de saúde.
O Supremo Tribunal Federal nunca condenou nenhum político criminalmente, e pior, em recente entrevista a um site político, o deputado federal Luiz Bassuma (BA), categoricamente, afirmou: “O Supremo tem gente corrupta. Tem um ministro lá que está sentado há três anos e meio em cima de dois processos do Paulo Maluf. Por quê? Só para dar o voto. Depois de 30 anos tramitando está lá na mão dele”. Depois acrescentou: “É o Lewandowski . Ninguém tem coragem de dizer, mas eu denunciei lá na tribuna, mas não adiantou nada”.

Costumo dizer que os nossos políticos não vêm de Marte nem de Plutão. Eles surgem da nossa sociedade e são consequências dos nossos votos, entretanto muitos brasileiros não valorizam os pleitos devido a falta de interesse em assuntos políticos, tendo como resultado o desconhecimento das consequências dos votos dados a esmo. Daí a importância de politizar toda a Nação brasileira, a fim de consolidar, plenamente, o Brasil como um grande País. Porém, quando a corrupção é generalizada, sem expectativa de melhora ou punição para os culpados, e os impostos são os maiores do mundo, sem que haja retorno para os contribuintes, fica o questionamento: como motivar quem não gosta de política?
Texto: Capitão Marinho

SALVADOR: TERRA DE NEGROS COM ELITE ESCRAVOCRATA!


Texto: Capitão Marinho

Salvador foi a primeira capital brasileira, fundada em 29 de março de 1549. Também conhecida pelos epítetos: “Roma Negra” por ser a cidade com o maior percentual de negros fora da África; e “Meca da Negritude” por atrair um número cada vez maior de turistas afroamericanos em busca de informações sobre seus ancestrais. Salvador é a cidade com o maior número de descendentes de africanos no mundo, vindos de Benin, Gana, Nigéria e Togo. Entretanto essa cidade histórica e reconhecida mundialmente pela diversidade da sua cultura não consegue progredir como civilização.

Salvador conhecida, também, como “Cidade Alegria” devido aos festejos populares, destaque para o Carnaval – a maior festa de rua do mundo, tem números estarrecedores quanto à questão social. A renda per capita de Salvador só ganha de Teresina – capital do Piauí, estado mais pobre do Brasil; a taxa de desemprego de Salvador, em outubro de 2009, segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudo Socioeconômico), foi de 18,7%, a maior taxa de desemprego das capitais brasileiras. O IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de Salvador, segundo o PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) em alguns locais têm indicadores melhores que os da Noruega (País de melhor IDH no mundo) e em outros amargam uma situação pior que a da África do Sul, igualando-se a Namíbia (o segundo pior IDH do mundo).

Salvador é a terceira maior população do Brasil (2 998 056 – Jul/09 IBGE), entretanto seu PIB (Produto Interno Bruto) é o décimo primeiro (R$ 26 727 132 000), ficando atrás de cidades que têm uma população menor que a METADE da população de Salvador, como Duque de Caxias – RJ, Guarulhos – SP e Campinas – SP. Quanto às estatísticas policiais, os números de Salvador são ainda mais estarrecedores. Nos meses de setembro, outubro e novembro de 2009, Salvador registrou 469 homicídios (Fonte: Centro de Documentação e Estatística Policial da Secretária de Segurança Pública do Estado da Bahia), o que equivale a 15,64 homicídios para cada 100 mil habitantes. Para ter um parâmetro trago à baila os números da cidade do Rio de Janeiro, considerada por muitos como a cidade mais violenta do Brasil. Nos meses de setembro, outubro e novembro de 2009, a cidade do Rio de Janeiro registrou 486 homicídios (Fonte: Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro), o que equivale a 7,85 homicídios para cada 100 mil habitantes (população da cidade do Rio de janeiro: 6 186 710 – Jul/09 IBGE). Ou seja, o número de homicídios em Salvador é o dobro da cidade do Rio de Janeiro. Em 2008, Salvador registrou 1733 homicídios, o que equivale a 57,80 homicídios para cada 100 mil habitantes. Portugal, que é o país com a MAIS ALTA taxa de homicídios da Europa Ocidental, segundo o Departamento de Drogas e Crime das Nações Unidas, tem o índice de 2,15 homicídios por 100 mil habitantes. Até quando Salvador vai ficar “gastando gente”?

Salvador nunca viveu legitimamente uma democracia, pois a sua população, formada de 84% de afrodescendentes, nunca teve um prefeito negro eleito pelo povo. Lá, para a grande maioria dos políticos, o negro só serve para votar, jamais ser votado. Que diga o Dep Fed Luiz Alberto o quanto articulou para ser uma alternativa negra para a Prefeitura de Salvador. Ou João Jorge, que na presidência do Olodum fez com que a logomarca da banda, no exterior, perdesse apenas para o Cristo Redentor e a praia de Copacabana como um dos símbolos brasileiros mais conhecidos que reportam os estrangeiros ao Brasil. Apesar da Bahia ser conhecida no exterior graças ao ritmo do Olodum, seu Presidente ainda não tem assegurada uma vaga para poder disputar o Senado nas próximas eleições. Vou torcer muito para que os soteropolitanos “empreteçam” a política, elegendo, além dos poucos que já estão, Tonho Matéria, Jorge Portugal, Sérgio São Bernado, João Jorge, dentre outros que se destacam na mitância em busca de mais oportunidades e igualdade para a população afrodescendentes. Ah… Salvador tem uma Secretaria de Reparação (SEMUR), onde o Secretário está mais desorientado que cego no meio de tiroteio. Sem querer ser deselegante, no dia que ele atender meu telefonema, vou dizer para ele: ou você pede ajuda para estabelecer metas e consolidar projetos ou PEÇA PRA SAIR!

O carnaval é uma demonstração transparente da política escravocrata que predonima em Salvador. A banda “Chiclete com Banana” e a banda “Asa de Águia” recebem milhões dos cofres públicos para tocar no carnaval da Bahia. Por que ninguém divulga isso? Sozinho, “Chiclete com Banana” ou “Ásia de Águia”, recebe mais dos cofres públicos do que todas as bandas e cantores Afro reunidos, Olodum, Ilê, Os Negões, Muzenza, Tonho Matéria, Lazzo, dentre outros. Diferentemente de Nizan Guanaes, gosto do Bell e do Durvalino, mas acho que os milhões do cofres públicos poderiam ter destinações diferentes. Por que não melhorar as condições de trabalho dos policiais e dos cordeiros, que trabalham em condições análogas a escravos? Ou melhorar a infraestrutura do carnaval para aqueles que não podem pagar a fantasia dos blocos ou a camisa dos camarotes, e que são a grande maioria dos soteropolitanos? Muitos desses não conseguem emprego porque muitas empresas e shopping de Salvador só recebem currículos com foto, para não incorrer no risco de contratar um negro sem saber.

Os empresários de Salvador, não todos – a grande maioria, compartilham do mesmo pensamento do Cônsul haitiano: “todo lugar que tem africanos tá f…”. E eles conseguem influenciar nas estatísticas religiosas, pois Salvador, que tem milhares de adeptos das religiões de matrizes afro, segundo o IBGE este número é desprezível, pois na sua estatística, Salvador tem: 58,74% de católicos, 18,14% sem religião, 15,13% protestante e 2,53% espírita. Cadê os adeptos do candomblé? Por que não se declaram? Respondo: receio da intolerância religiosa que a “Roma Negra” vive até hoje. A elite escravocrata faz com que Salvador regrida!

Terminarei este artigo de forma diferente, com exposição de fotos, logo abaixo, onde uma delegada de Salvador, de forma exibicionista, expõe suas “presas”, algumas delas, pais de família, de boa índole, que foram reconhecidos pelos meus amigos. Esta delegada tem espaço na mídia soteropolitana, que a denomina de “deleGata” – eu pensava que ela tinha espaço por ser loira. Mas diante destas fotos, fazendo pose – de arma em punho – diante de várias pessoas (NEGRAS) que passavam pelo constrangimento de serem revistadas, agora, tenho certeza que ela tem espaço na mídia por REZAR a mesma cartilha da ELITE ESCRAVOCRATA SOTEROPOLITANA. Será que ela tem a mesma postura quando prende – se é que ela prende – os suspeitos que praticam crimes de colarinho branco? Por fim, é lamentável e muito triste concluir isso: SALVADOR É TERRA DE NEGROS COM ELITE ESCRAVOCRATA!
Texto: Capitão Marinho

Haiti e o roteiro da escravidão


• Um acordo da Unesco sugere aos ministros da Cultura comemomorarem em 2 de agosto a abolição da escravidão • A França e a comunidade internacional são interpeladas para recordá-la neste 2009 cheio de aniversários significativos. Gabriel Molina APÓS 205 anos da emancipação do Haiti, urge reivindicar o país que, em 1º de janeiro de 1804, abriu a alvorada da libertação na Nossa América. O libertador Tousaint Louverture é símbolo dessa abolição e também do auge e ocaso da Revolução Francesa, inspiradora do povo de Saint Domingue, convertido no Haiti com a revolta dos escravos, mas traída por Napoleão Bonaparte, como o fez com os princípios que, em 14 de julho de 2009, completarão 220 anos. Karfa Diallo e Patrick Serres, presidente e secretário-geral da Associação Diver Cité, criada na França há dez anos com o fim de desentranhar a amnésia sobre a colonização e o roteiro da escravidão, propuseram que Bordéus reconhecesse que sua riqueza foi obtida mormente pelo tráfico de escravos africanos, apesar da Revolução Francesa. A lembrança do heroi haitiano, filho de um escravo de Daomé, hoje Benim, que chefiou a primeira e única revolta triunfante de escravos da história contemporânea, e a segunda derrota do colonialismo na América Latina, perdura na sua cela-recâmara de Fort-de-Joux, a leste da França, nos morros de Lorena, região de Franche Comté. Louverture, apear de ser escravo, aprendeu a ler e a escrever. De boleeiro como ocupação, converteu-se em tão bom ginete que o chamavam do “Centauro da Savana “. Em 1791, juntou-se à revolta, quando contava com 48 anos de idade, e foi escolhido para negociar infrutuosamente com os proprietários, que ganhavam espaço. Toussaint pactou então com os espanhois, que, aliados aos ingleses, controlavam parte da ilha na costa leste, e ganhou a patente de general. Em 29 de agosto de 1793, diante dos indícios de uma invasão inglesa, a Assembleia francesa proclamou em Paris a abolição da escravidão e declarou que “os escravos negros, a partir desse momento, seriam livres, sob a condição de participar de sua causa”. Louverture rompeu relações com a Espanha e passou-se para o lado francês com 4 mil de seu homens, derrotando os espanhois em dois anos. Vencer os 60 mil invasores britânicos demorou mais três. Segundo os cronistas, ele encontrou um aliado nos Estados Unidos de Alexander Hamilton. Assim, conseguiu estimular a produção agrícola e iniciou o comércio com a jovem república americana. Reduziu o expediente a 9 horas, pela primeira vez na história, e deu o direito aos trabalhadores de ficarem com a quarta parte dos lucros. Mas Jefferson ganhou as eleições de 1800 e ao subir à presidência em 4 de março de 1801, sendo ele mesmo escravagista, virou contra Toussaint e informou Talleyrand de que podia abastecer a França do que precisasse para reconquistar o Haiti. Após o fim da guerra com a Inglaterra, Napoleão conseguiu contar com as duas forças anglo-saxônias para invadir a Ilha caribenha. A RESTAURAÇãO da escravidão O imperador armou uma enorme frota em 1802 para invadir o Haiti, sob o comando do general Victor Emmanuel LeClerc, esposo da sua irmã Paulina. O plano era desarmar os haitianos, deportar Toussaint e restaurar a escravidão. O general negro foi convidado para chegar a um acordo num dos navios, mas foi preso e enviado ao forte de Joux. Logo foi achado morto, “sentado, com a testa encostada ao muro da chaminé, em 7 de abril de 1803”. Diallo, de origem senagalesa, considera que a revolta dos escravos em Santo Domingo fez com que o sistema deixasse de funcionar e motivou o assanhamento de Bonaparte. “Alguns acreditam que Napoleão atuava instigado pela esposa, Josefina, filha de uma rica família, dona de plantações na Martinica, os Taschers de la Pagerie”, acrescentou. Na verdade, atuava assim por motivos econômicos: as pressões dos colonialistas influentes, entre eles, os de Bordéus. O tráfico e a escravidão não foram abolidos definitivamente até 1848. “Mas, mesmo assim, não se conseguiu pôr termo ao sistema”, afirma Karfa Diallo. Patrick Serres ilustra o fato relatando que nos fins do século 18, apesar de o Estado francês ter proibido a construção de navios para o tráfico de escravos, esta bela cidade continuou armando navios com esse fim. A pesquisadora Danielle Petrissans-Cavalles “mostra como os vestígios desse período ainda existem aqui, nos nomes das ruas dos nossos dias”. “Foi uma verdadeira amnésia voluntária, pois sua riqueza e a beleza de suas construções são atribuídas à produção de vinhos e ao comércio com as colônias. Mas, esquece-se propositadamente que uma parte dessa riqueza foi também obtida por meio do tráfico de negros. Diallo acrescenta que, quando começaram a chegar os primeiros escravos a Bordéus, as autoridades, a princípio, se opuseram. Mas, depois, concederam os ágios que o Estado francês havia destinado aos armadores para desenvolver o chamado comércio com os países da América. Esses subsídios para financiar um verdadeiro genocídio continuaram ainda depois do primeiro pronunciamento da Revolução Francesa contra a escravidão na Declaração dos Direitos do Homem, pois o armadores bordeleses de navios, que já tinham poderosas plantações nas Antilhas, deslocaram-se para a Convenção de Paris, e convenceram a Assembleia de que, como a escravidão era mais do que uma empresa colonial, a igualdade proclamada em 1789 era para os homens da metrópole, mas não para os das colônias. Essa rivalidade funcionou também em Cuba. “Naquela época, apenas se conhecia os negros. Saber que haviam criado um Estado e desmanchado um sistema, depois de uma guerra feroz, era algo extraordinário”. No entanto, Bonaparte e os reis da época tiveram uma reação muito forte, pois Santo Domingo era o laboratório da colonização na América. Era cobiçada pela Espanha e Inglaterra por suas produções de açúcar, café, algodão, cacau, fumo e outros, apoiados em sistemas de irrigação eficazes. A riqueza das mais de 2 mil fazendas era fruto da brutal exploração de meio milhão de escravos africanos, justificada com a falácia de que não eram seres humanos, mas bestas. Os africanos eram obrigados a trabalhar diariamente mais de 12 horas sob o causticante sol tropical que, como disse o poeta nacional, queima tudo ali e aqui, e caíam rendidos. As escravas eram frequentemente estupradas e, com o decurso dos anos, surgiu uma camada de mestiços, maioria deles, submetida de diversas maneiras. Recebiam chicotadas ou lhes colocavam máscaras de latão no rosto pelas mais insignificantes infrações. Outras eram punidas com a mutilação de membros e até dos genitais. Por isso, a revolta foi muito sangrenta. “O Haiti conseguiu vencer, graças à habilidade política e militar de Louverture, mas ficou cercada; foi abandonada”, salientou Diallo. Depois, a França obrigou o Haiti a pagar 10 milhões em ouro para reconhecer sua independência, um montante enorme e incalculável para os parâmetros atuais, dessangrando-o completamente. Fizeram-no entrar num sistema de corrupção.” Diallo enfatiza a necessidade de pesquisar mais a colonização. Existem territórios ricos e deveriam ser prósperos, mas sofreram vários séculos de de dominação e exploração. “A afirmação de que a África foi vítima dos africanos é apenas uma desculpa, apesar dalguns reis das costas terem participado da captura no interior. Quando eles chegavam, davam-lhes álcool, roupa, armas, que eles necessitavam para lutar contra os adversários. “Acho que na África falta um trabalho de investigação e resgate da memória histórica. Eu estudei no Senegal, onde traficavam os navios negreiros na Ilha de Gorée. É preciso que os estudantes conheçam tudo que existe por trás dela, que é a história da colonização. É preciso, inclusive, para exigir a reparação. Os africanos não a exigem, mas é necessária, pode-se e deve-se reparar o Haiti, mudar a política internacional sobre o Haiti. Diver Cités exorta a Europa e a América a participarem da reparação. Por exemplo, a educação prioritária para os bairros, os territórios mais atrasados, mas necessitados. Nos Estados Unidos, falaram nisso ao presidente Bush, mas ele se recusou a reconhecer que existe uma dívida com a África e os afro-americanos. De qualquer jeito, Diallo considerou que hoje estão ali e têm a possibilidade de passar à Ação Afirmativa, embora os problemas não sejam os mesmos em toda parte. Devemos fazer alguma coisa para instar as pessoas a saberem a verdade do colonialismo e da escravidão. “Todo mundo concordou na construção aqui de um monumento de recordação, a decisão foi unânime, especialmente a Universidade de Bordéus, e a prefeitura criou uma comissão que a aprovou”. Mas, quando foi inaugurado no porto Colbert, na Praça da Bolsa, o monumento, deparamos com uma modesta lápide difícil de localizar. A primeira busca do jornal Granma foi infrutífera. “Um acordo da Unesco convoca a comemorar 2 de agosto como o Dia da Abolição da Escravidão e sugere aos ministros da Cultura de todo os países recordarem esta data. Seria uma boa sugestão para o presidente Obama. Aos poucos, chegaremos a sensibilizar o mundo, cada governo”. “Diver Cités tem o mesmo som igual que a diversité”, agora propugnada pelo presidente Sarkozy. Há cinco anos, a França reconheceu que se cometeu um crime de lesa humanidade. Agora, junto aos Estados Unidos, a Grã-Bretaña, a Espanha, junto a todos os que se enriqueceram com a escravidão, junto à comunidade internacional em geral, deveriam atuar consequentemente, sobretudo, no Haiti, que foi reduzida da mais rica colônia à mais miserável. “Para resolver o problema do mundo negro, devemos começar pelo Haiti”, disse com razão Diallo

Texto: Granma

O que você não ouve sobre o Haiti, mas deveria


Prensa Latina

Carl Lindskoog

Nas horas seguintes ao terremoto que devastou o Haiti, CNN, New York Times e outras importantes agências de notícias adotaram a mesma interpretação para a grave destruição: o terremoto de 7 graus foi tão devastador porque atingiu uma zona urbana extremamente povoada e pobre. Casas “construídas umas em cima de outras” e feitas pelo próprio povo pobre fizeram da cidade um local frágil.

Por Carl Lindskoog*, em Opera Mundi

Os muitos anos de subdesenvolvimento e caos político do país fizeram com que o governo haitiano estivesse mal preparado para responder a um desastre desse tipo. É verdade. Mas essa não é toda a história. O que falta é uma explicação do motivo de existirem tantos haitianos vivendo dentro e nos arredores de Porto Príncipe e de tantos deles serem forçados a sobreviver com tão pouco.

Na verdade, até quando uma explicação é dada, muitas vezes é escandalosamente falsa, como o depoimento de um ex-diplomata norte-americano à CNN dizendo que a superpopulação de Porto Príncipe estava prevista pelo fato de que haitianos, como a maioria no Terceiro Mundo, não sabem nada sobre controle de natalidade.

Pode assustar os norte-americanos, famintos por notícias, saber que essas condições que a mídia atribui corretamente ao aumento do impacto deste tremendo desastre foi em grande parte produto da política de Washington e seu modelo de desenvolvimento.

De 1957 a 1971, os haitianos viviam sob à sombra escura de “Papa Doc” Duvalier, um ditador cruel que tinha apoio dos EUA porque era visto pelos norte-americanos como um anti-comunista confiável. Depois de sua morte, o filho de Duvalier, Jean-Claude “Baby Doc”, tornou-se presidente vitalício aos 19 anos de idade e governou o Haiti até que finalmente foi derrubado em 1986. Foi nas décadas de 1970 e 1980 que Baby Doc, o governo dos EUA e a comunidade empresarial trabalharam juntos para colocar o Haiti e a capital do país nos trilhos.

Depois da posse de Baby Doc, planejadores norte-americanos dentro e fora do governo iniciaram seus planos de transformar o Haiti na “Taiwan do Caribe”. Este pequeno e pobre país situado convenientemente perto dos EUA foi instruído a abandonar o passado agrícola e a desenvolver um forte setor industrial de exportação orientada. Ao presidente e seus aliados, foi dito que este era o caminho para a modernização e o desenvolvimento econômico.

Planos da Usaid

Do ponto de vista do Banco Mundial e da Agência para Desenvolvimento Internacional dos EUA (Usaid), o Haiti era um candidato perfeito para uma reforma neoliberal. A pobreza enraizada do povo haitiano poderia ser usada para forçá-lo a trabalhar por baixos salários costurando bolas de beisebol e montando outros produtos.

Mas a Usaid também tinha planos para a zona rural. Não eram somente as cidades que se tornariam bases de exportação, mas também o campo, com a agricultura haitiana reformulada com as linhas de exportação orientada e produção baseada no mercado. Para realizar isso, a Usaid, ao lado de industriais urbanos e grandes proprietários, trabalhou para criar instalações de agroprocessamento, mesmo enquanto eles aumentavam a prática de dumping para produtos agrícolas excedentes dos Estados Unidos ao povo haitiano.

Essa “ajuda” dos norte-americanos, juntamente com mudanças estruturais no campo de maneira previsível, forçaram os camponeses haitianos que não poderiam sobreviver ali a migrar para as cidades, especialmente para Porto Príncipe, onde os novos trabalhos na indústria supostamente estariam. No entanto, quando eles chegaram lá, não encontraram emprego suficiente para todos na indústria. A cidade ficou cada vez mais lotada. As favelas se expandiram. E para satisfazer a necessidade de habitação de camponeses desalojados, casas foram sendo erguidas rapidamente e a um preço mais baixo, algumas vezes “umas em cima das outras”.

Muito tempo atrás, porém, planejadores norte-americanos e elites haitianas decidiram que talvez seu modelo de desenvolvimento não funcionaria tão bem no Haiti, e o abandonaram. No entanto, as consequências dessas mudanças lideradas pelos norte-americanos continuam.

Na tarde e noite de 12 de janeiro de 2010, quando o Haiti vivenciou o terrível terremoto, depois do abalo não havia dúvidas que a destruição foi profundamente agravada pela real superpopulação e pobreza de Porto Príncipe e arredores. Mas os norte-americanos chocados podem fazer mais que balançar a cabeça e, com piedade, fazer uma doação. Eles podem confrontar a responsabilidade do seu próprio país pelas condições de Porto Príncipe que aumentaram o impacto do terremoto, e admitir o papel dos EUA de impedir o Haiti de alcançar um desenvolvimento significativo.

Aceitar a história incompleta do Haiti oferecida pela CNN e pelo The New York Times é culpar os haitianos por terem sido vítimas de um esquema que não foi criado por eles. Como John Milton escreveu, “eles, que tiraram os olhos das pessoas, são aqueles que as reprovam por sua cegueira”.

* Carl Lindskoog é ativista da cidade de Nova York e historiador doutorando da City University of New York. Artigo originalmente publicado no site Common Dreams.

Fonte: Brasil de Fato

Eduardo Galeano: O racismo e o assédio contra o Haiti

A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou.

Por Eduardo Galeano, em resistir.info

Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.

O voto e o veto

Para apagar as pegadas da participação estado-unidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.

Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.

O álibi demográfico

Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Port-au-Prince, qual é o problema:
– Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.

E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilómetro quadrado.

Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado… de artistas.

Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.

A tradição racista

Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objectivos: cobrar as dívidas do City Bank e abolir o artigo constitucional que proibia vender plantações aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem “uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização”. Um dos responsáveis da invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: “Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses”.

O Haiti fora a pérola da coroa, a colónia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: “O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro”.

Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino.

Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: “Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos”. Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro “pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras”.

A humilhação imperdoável

Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.

A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.

O delito da dignidade

Nem sequer Simón Bolíver, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti.

O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.

Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um génio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pénis.

Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indemnização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.

A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.

Fonte: resistir.info

As veias abertas do Haiti

Luciano Rezende *

A terrível catástrofe que abate o Haiti expõe ainda mais suas débeis veias secularmente garroteadas pelas velhas e novas metrópoles que insistem em sugar o seu sangue.

Um país que aparece na mídia de tempos em tempos, quase invariavelmente envolto a infortúnios de todos os tipos, o Haiti é a expressão máxima das consequências da exploração capitalista que desde a época da “sacarocracia” moia o seu povo para produzir o açúcar mais “doce” do mundo. Tão perto dos EUA e da Europa, tão longe do céu.

Em “As veias abertas da América Latina” (aquele mesmo livro que Hugo Chávez presenteou o presidente Obama), Eduardo Galeano faz uma narrativa comovente do país mais pobre do hemisfério ocidental. Escreveu Galeano, no posfácio de 1978, que “Lá existem mais lava-pés que sapateiros: meninos que, em troca de uma moeda, lavam os pés de clientes descalços, que não têm sapatos para engraxar. Os haitianos vivem, em média, pouco mais de trinta anos. De cada dez haitianos, nove não sabem ler nem escrever. Para o consumo interno são cultivadas as ásperas encostas das montanhas. Para a exportação, cultivam os vales férteis: as melhores terras são dedicadas ao café, açúcar, cacau e a outros produtos requeridos pelo mercado norte-americano. Ninguém joga beisebol no Haiti, mas o país é o principal produtor de bolas de beisebol. No país não faltam oficinas onde crianças trabalham a um dólar por dia armando cassetes e peças eletrônicas; são, é claro, produtos de exportação. Também está claro que os lucros são exportados, uma vez deduzida a parte que corresponde aos administradores do terror”. Pouca coisa mudou de lá pra cá.

Hoje, aproveitando-se de mais essa desgraça, os descendentes diretos dos assassinos de Toussaint L’Ouverture aparecem para dar conselhos na “reconstrução” do Haiti. Em 1802, o general Leclerc dava sua opinião sobre o país: “há que suprimir todos os negros das montanhas, homens e mulheres, conservando-se somente as crianças menores de 12 anos, exterminar a metade dos negros nas planícies e não deixar na colônia nem um negro que use jarreteiras”. Os Estados Unidos, que promoveram as piores ditaduras no Haiti, já enviaram ao país um enorme contingente de militares com o claro intento de quebrar a liderança do Brasil à frente das forças de paz da ONU na região. O aeroporto de Porto Príncipe já está sob o controle da força aérea americana.

Por trás do discurso solidário de ajuda humanitária vindo dos mesmos que saquearam o país, soa a hipocrisia assistir os grandes meios de comunicação enfatizar a cada minuto a nacionalidade norte-americana de vários médicos e bombeiros que ajudam nesse momento a população do Haiti (omitindo, por exemplo, a contribuição sistemática e permanente dada por Cuba), sem ao menos mencionar que os Estados Unidos são um dos principais responsáveis pela atual miséria que assola o país. Oferecem ajuda com uma mão para depois roubarem com mil.

O Brasil, liderado pelo governo pacifista do presidente Lula, mais que nunca deve ser o representante da ONU para ajudar a conduzir, juntamente com o governo e o povo haitiano, a reconstrução deste país. Se os EUA assumirem o posto, as forças de paz da ONU, aí sim, se configurarão como força de ocupação. Exemplos pelo mundo afora e no próprio Haiti é o que não faltam.

Os “benevolentes” norte-americanos ocuparam o Haiti durante vinte anos, e ali, nesse país negro que fora o cenário da primeira revolta vitoriosa dos escravos, introduziram a segregação racial e o regime de trabalhos forçados, como bem lembra Galeano.

Através do big stick ou da “diplomacia do dólar” os EUA farão de tudo para tirar proveito de mais essa desgraça que aflige o povo haitiano. Nessa hora, a verdadeira solidariedade internacionalista de todos os democratas, será fundamental para soerguer esse país caribenho do maior de todos os males: o imperialismo estadunidense.

* Engenheiro agrônomo, mestre em Entomologia e doutorando em Genética. Da direção estadual do PCdoB – MG

No Haiti, miséria da disputa pelo poder sobre os miseráveis

O terremoto que arrasou a capital do Haiti não pôs abaixo apenas prédios e casas, ceifando a vida de dezenas de milhares de haitianos. Ele ruiu as já frágeis instituições de um Estado em permanente crise, corroído pelas dificuldades históricas de constituição de uma nação que emergiu de uma revolução escrava, com população negra e explorada por países ricos.

As imagens de destruição, dor e revolta que vemos na televisão são o ápice de uma situação que já era deplorável, mas ignorada pelo mundo. A catástrofe que atingiu Porto Príncipe colocou o Haiti, seus problemas e seu povo no centro das atenções deste mundo guiado pelo instantâneo.

Antes da tragédia, poucos tinham interesse no futuro do Haiti. A Missão das Nações Unidas para Estabilização do Haiti – Minustah – criada pela ONU em 2004 e comandada pelo Brasil, cumpria importante papel na reconstrução desse Estado, como ficou evidente nas últimas eleições legislativas realizadas no país, em 2009.

Agora, com os holofotes voltados para o desastre, outros países saíram da sombra em busca de maior protagonismo no processo de reconstrução do país. Ajuda humanitária, sensibilização diante do sofrimento e da dor, senso de responsabilidade e solidariedade. Pode ser. Mas há também uma profunda disputa política internacional por poder, visibilidade e ascendência no mundo.

Os Estados Unidos são uma peça chave nesse tabuleiro. Já ocuparam e assumiram o controle sobre o aeroporto da capital haitiana, que neste momento é o centro nervoso do poder no país. Isto porque quem controla o aeroporto, controla quem entra e sai do Haiti. Determina quais ajudas receber e quais não receber. Controla o espaço aéreo, comando estratégico para qualquer nação.

O Ministério da Justiça prontamente se pronunciou sobre essa “intervenção” estadunidense. Nelson Jobim fez sua queixa diretamente à secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton. Sob a tutela dos EUA, o aeroporto já impediu a aterrissagem de aeronaves brasileiras e francesas.

Nunca é demais lembrar que o plano de constituição de bases militares dos Estados Unidos na América Latina vai de vento e popa e, nessa geografia, o Haiti pode ser mais um estratégico ponto de apoio.

Para não dizer que com uma intervenção mais direta os Estados Unidos lustram sua imagem internacional, desgastada por ocupações de destruição. Em particular, ganha Barack Obama que pode, com a missão no Haiti, criar um contraponto à política de seus antecessores e aparecer como o homem da paz – e, quem sabe, fazer jus ao prêmio Nobel recebido.

No próximo domingo, uma teleconferência no Canadá organizada pela ONU vai debater a situação do Haiti e o papel dos países no processo de ajuda humanitária e reconstrução. Não há como deixar de lado os objetivos políticos que cada nação tem nesse processo; seria inocente pensar assim. Mas esses objetivos não podem, de maneira nenhuma, se sobrepor ao objetivo central e número um que é resgatar a dignidade do povo haitiano.

Precisamos cair fora do Haiti




Não há outra expressão para esclarecer o que as tropas brasileiras estão fazendo no Haiti senão aquela versão popular: “está segurando a vaca para os Estados Unidos mamarem”.

Os militares brasileiros que acabam de morrer naquele país, vítimas do terremoto que o assolou recentemente, tiveram, infelizmente, uma morte inglória.

O Haiti é a nação maldita pelos países ricos do mundo. Motivo disso foi a sua guerra de independência – a primeira do continente latino-americano. Em vez de uma rebelião de ricos senhores de terras contra a metrópole, o que se viu no Haiti foi uma rebelião de escravos africanos contra a França.

Transgressão desse tamanho não pode ser esquecida, porque o exemplo tem grande potencial desestabilizador. Por isso, tome repressão!

A versão oficial sobre a pobreza do país faz parte desse processo de repressão: “os negros não conseguem se entender e não foram capazes de tocar uma economia açucareira extremamente produtiva que os franceses haviam estabelecido na ilha, na base das “plantations” coloniais”. Mentira rematada. O Haiti teria todas as condições de manter-se como uma economia baseada na pequena agricultura de cultivo do café (o melhor do mundo).

A instabilidade política decorre precisamente das intrigas dos países ricos, interessados em explorar a população. Os Estados Unidos, por exemplo, ocuparam militarmente o país de 1915 a 1934 e novamente de 1991 a 1994.

Para se ter uma idéia a respeito da perseguição ao Haiti, basta dizer que a poderosa França exigiu até o governo de Aristide o pagamento de indenização pelos prejuízos sofridos no começo do século XIX em decorrência da insurreição haitiana!

Como um país assim não há de ser pobre?

Corre solta a versão de que os Estados Unidos não intervêm no Haiti para explorá-lo, mas para manter um mínimo de ordem pública dada a incapacidade de auto-governo dos haitianos. Os que a defendem ou agem por ignorância ou por má fé. O que os norte-americanos exploram no Haiti é a mão-de-obra barata.

Para se ter idéia de como é barata essa mão-de-obra, basta ter presente que é grande o número de jovens haitianos que vivem de vender sangue para abastecer de plasma sanguíneo os hospitais de Miami.

A opinião pública brasileira precisa exigir a retirada das nossas forças armadas daquele país. Não temos nada com esse complô de ricos contra o Haiti e não devemos manchar nossas mãos nesse massacre.

Parte da tragédia do Haiti é "Made in USA"

Parte do sofrimento no Haiti é “Feito nos Estados Unidos”. Se um terremoto pode danificar qualquer país, as ações dos Estados Unidos ampliaram os danos do terremoto no Haiti. Como? Na última década, os Estados Unidos cortaram ajuda humanitária ao Haiti, bloquearam empréstimos internacionais, forçaram o governo do Haiti a reduzir serviços, arruinaram dezenas de milhares de pequenos agricultores e trocaram apoio ao governo por apoio às ONGs.

Por Bill Quigley, no Huffington Post

O resultado? Pequenos agricultores fugiram do campo e migraram às dezenas de milhares para as cidades, onde construiram abrigos baratos nas colinas. Os fundos internacionais para estradas e educação e saúde foram suspensos pelos Estados Unidos. O dinheiro que chega ao país não vai para o governo mas para corporações privadas. Assim o governo do Haiti quase não tem poder para dar assistência a seu próprio povo em dias normais — muito menos quando enfrenta um desastre como esse.

Alguns dados específicos de anos recentes.

Em 2004 os Estados Unidos apoiaram um golpe contra o presidente eleito democraticamente, Jean Bertrand Aristide. Isso manteve a longa tradição de os Estados Unidos decidirem quem governa o país mais pobre do hemisfério. Nenhum governo dura no Haiti sem aprovação dos Estados Unidos.

Em 2001, quando os Estados Unidos estavam contra o presidente do Haiti, conseguiram congelar 148 milhões de dólares em empréstimos já aprovados e muitos outros milhões de empréstimos em potencial do Banco Interamericano de Desenvolvimento para o Haiti. Fundos que seriam dedicados a melhorar a educação, a saúde pública e as estradas.

Entre 2001 e 2004, os Estados Unidos insistiram que quaisquer fundos mandados para o Haiti fossem enviados através de ONGs. Fundos que teriam sido mandados para que o governo oferecesse serviços foram redirecionados, reduzindo assim a habilidade do governo de funcionar.

Os Estados Unidos têm ajudado a arruinar os pequenos proprietários rurais do Haiti ao despejar arroz americano, pesadamente subsidiado, no mercado local, tornando extremamente difícil a sobrevivência dos agricultores locais. Isso foi feito para ajudar os produtores americanos. E os haitianos? Eles não votam nos Estados Unidos.

Aqueles que visitam o Haiti confirmam que os maiores automóveis de Porto Príncipe estão cobertos com os símbolos de ONGs. Os maiores escritórios pertencem a grupos privados que fazem o serviço do governo — saúde, educação, resposta a desastres. Não são guardados pela polícia, mas por segurança privada pesadamente militarizada.

O governo foi sistematicamente privado de fundos. O setor público encolheu. Os pobres migraram para as cidades. E assim não havia equipes de resgate. Havia poucos serviços públicos de saúde.

Quando o desastre aconteceu, o povo do Haiti teve que se defender por conta própria. Podemos vê-los agindo. Podemos vê-los tentando. Eles são corajosos e generosos e inovadores, mas voluntários não podem substituir o governo. E assim as pessoas sofrem e morrem muito mais.

Os resultados estão à vista de todos. Tragicamente, muito do sofrimento depois do terremoto no Haiti é “Feito nos Estados Unidos”.

Fonte: Huffington Post, reproduzido por Vi o Mundo

O povo tem força e só precisa descobrir

O poder na política há anos só se restringe à elite. Como o próprio nome diz – Política – Coligações, alianças, interesses e prostituição.

Todos se vendem em troca de algum benefício próprio ou de seu grupo ou partido. Muitos ao ingressarem na política vêm com intuito de ajudar o povo menos favorecido, mas ao se depararem com tanta falcatrua acabam se contaminando com o vírus da corrupção; que ao meu ver contamina 85% dos políticos.

Logo num país belo, de belezas mil, onde tudo que se planta dá, com petróleo em abundância. Um país auto-sustentá vel, no qual o que temos de melhor é importado.

Temos tudo na mão, na mão de uma minoria que está com a maior renda concentrada em suas mãos. Onde os ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. O presidente da nossa nação, Luiz Inácio Lula da Silva, vulgo Lula, homem de família, humilde operário sindicalista, que deveria lutar também, se vendeu para virar presidente da nação. Marionete, fantoche patrocinado por empresários à mercê de seus interesses, os donos de banco nunca lucraram tanto na história do seu país em cima do povo.

Um verdadeiro mar de lama, um governo de homens que fizeram coisas piores que os piores bandidos do Brasil. O filho do presidente enriqueceu absurdamente nos últimos oito anos, por exemplo. Mensalões, desvios de verbas públicas, bolsa esmola, assistencialismo barato…

O povo não tem noção do patrimônio adquirido pelos governantes. Quem ousa investigar, ou morre ou é exonerado. E o povo se ilude com o crédito fácil de celular, dvd, tela de plasma e microondas, em dez vezes nas Casas Bahia. E depois reelegem os mesmos sacanas, os mesmos Fernandos Collor, os mesmos Sarneys, os mesmos, povo de memória curta. Os meios de comunicação abafam o caso e contam versões contraditórias e depois não se fala mais nisso.

Quem matou Tancredo Neves ? Onde foi parar o Ulisses Guimarães ? PC Farias, foi queima de arquivo ? Sim.

Existe uma minoria no Brasil formada por empresários que mandam no país, faz o que quer, manipula o Senado Federal, sempre aprova leis em seu benefício e de suas corporações.

Como pode um país tão grande com milhões e milhões de habitantes se deixar dominar por uma minoria ? Vamos acordar meu povo, estão arrancando nossas calças, estão nos esculachando há anos e anos.

Vamos nós mesmos tomar uma atitude!!!

Parar tudo pacificamente, tomar as ruas e tirar todos os safados do poder. O dinheiro é nosso, o petróleo é nosso, o pré-sal também, assim como todo o país, é tudo nosso. Só vamos pegar de volta o que é nosso e nunca nos foi dado.

Cadê o dinheiro do super-faturamento da Cidade da Música ? Devolva tudo, Sr Cesar Maia. Quem comprou a Varig ? E o dinheiro do Mensalão ? As obras do Pan ? E tem muito mais mesmo, quantos bilhões o povo não foi roubado nessa nossa falsa “democracia” ?

Democracia, só se for empresarial.

O poder passa de pai pra filho e não muda nada, desde o tempo dos escravos.

Vamos pegar nosso dinheiro de volta e investir em escolas, melhores hospitais, melhores salários para médicos e professores, casas populares, saneamento básico, emprego e infra-estrutura.

Chega, basta, abaixo a repressão!!!

Se fosse igual na China, onde político ladrão é fuzilado, muito poucos ainda estariam vivos por aqui.

Somos um povo de muitas raças e várias ideologias, mas a cultura de um povo se faz em não aceitar ser roubado pra início de conversa.

Veja os argentinos, nossos rivais no futebol: quando o governo deles extrapola, eles vão pras ruas, batem panela, fazem barulho, param tudo, quem não se lembra do famoso “panelaço” ?

E nós, o que fazemos ?

Nada.

Temos sangue de barata. Vamos dar um basta nisso tudo, vamos nos unir, independente de raça, credo ou classe social. Vamos parar tudo por um dia. Podemos tirar quem quiser do poder pacificamente. O povo tem a força e só precisa descobrir.

Que Deus nos ajude a reverter esse quadro e que o povo eleja homens do povo, chega de figurinhas marcadas, chega de sacanagem.

É tudo nosso!!!

(*) Alexandre Braga é presidiário, tem 36 anos, está aguardando o seu julgamento na 59º DP, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.

“Há uma política de apartação social pela violência”

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Nilo Batista é jurista, foi vice governador e Secretário de Estado do Rio de Janeiro na década de 90, além de ser o fundador do Instituto Carioca de Criminologia. Em entrevista publicada orginalmente na revista Caros Amigos de dezembro deste ano, ele analisa a política de segurança pública carioca. Nilo faz duras críticas às ações policiais, acusa as corporações de mídia de incentivarem a violência e chama a responsabilidade política das ações de extermínio para o governador Sérgio Cabral.

Pode comentar a política de segurança a partir da derrubada do helicóptero e da reação do governo?

Pra ser sincero, eu não reconheço nessas atividades uma política pública na qual eu veja objetivos, métodos, metas. O que eu vejo é uma implacável carnificina no entorno do comércio varejista de drogas. O aproveitamento desse fracasso da política de drogas, cuja única utilidade hoje é facultar as oito bases dos EUA na Colômbia, permitir que o comandante da IV Frota afirme candidamente que o único motivo de sua reativação é o narcotráfico, aí todo mundo fica feliz, não há nenhum olhar crítico sobre isso, não tem nada a ver com o pré-sal, com os acontecimentos econômicos do Atlântico Sul, e sim com o narcotráfico. Então, tá. Aliás, qual é mesmo o narcotráfico entre Brasil e África que tá preocupando?

Qual é o foco, então?

Rosa del Olmo demonstrou como a geopolítica permeia toda a questão das drogas. Internamente, trata-se da contenção da pobreza urbana, que é o problema que a desigualdade obscena da sociedade brasileira coloca. Infelizmente, mesmo entre setores da esquerda, acaba prevalecendo um olhar moral, fruto de um preconceito inercial sobre o lumpesinato, que no capitalismo industrial era completamente explicável, mas no capitalismo sem trabalho, no capitalismo onde predomina o trabalho morto, eu não sei como pode permanecer.

Há uma implacável carnificina no entorno do comércio varejista de drogas

As esquerdas acham que as violências policiais contra os inúteis da economia neoliberal nada tem de político. Os desempregados, os inempregáveis, os irremediavelmente alijados, cujas estratégias de sobrevivência são criminalizadas implacavelmente, seriam eles os vilões da história que não acabou? Atrás das trombetas higienistas do “Choque de Ordem” está a mcdonaldização da orla, a repressão do comércio informal popular, dos cocos, picolés, das quitandeiras do Galo ou do Pavão, que serão substituídas até o grande evento turístico-olímpico por assépticos sanduíches transnacionais.

São políticas apartadoras, isso não acena com nenhum horizonte de integração. Qual a proposta do governo? Privatizar o aeroporto, negócios, empreendimentos… Qual a proposta para o povo pobre?

Como essas propostas privatizantes se ligam com essas políticas repressivas?

No Pan, mataram 60 no Alemão. Aqueles 19 no último dia e antes. Nas Olimpíadas quantos vão ser? O prefeito só fala em “vender o Rio”. Qual a idéia para os favelados? É só essa? Estamos falando de política, do destino da juventude pobre, de um sistema penal que participa intensamente da acumulação capitalista, que descrendencia o debate político pelo tolo debate das representações jurídico-penais do fato político.

Não se discute, por exemplo, toda a economia da pena, que está presente nas penitenciárias privadas (construção e gestão) ou nas tecnologias de segurança – por trás dessa proposta há um precioso nicho de mercado, para usar uma expressão do vocabulário neoliberal. É disso que estamos falando. Então convém que a ficha caia rápido para melhorarmos esse debate.

Eu poderia vir com o argumento técnico, “bom, o helicóptero não tinha que fazer aquilo”. Quando eu tinha responsabilidades de comando sobre as polícias do Rio de Janeiro, delegadas pelo governador Leonel Brizola, ele não fazia isso que hoje se faz: “Eu não tenho nada a ver com isso”. Como não? Como o governador do Estado não tem? Como ele entrega a uma gestão tecnocrática um poder que pode matar 20 pessoas num dia, e que mata pelo menos 1.500 pessoas por ano, da mesma faixa etária e extração social?

Como essa máquina pode não estar sob o controle do primeiro mandatário do Estado, em quem a população confiou? Beltrame é um delegado de polícia. Mas quem votou nele? Não é dele a responsabilidade política por estar um helicóptero a disparar sobre uma população indefesa. Eu aprendi, nos anos que passei na polícia, que, salvo honrosíssimas exceções, a notícia “policiais estavam acuados no morro tal” significa que um entendimento não deu certo. Porque, me explica o que dois, três policiais vão fazer sozinhos numa “boca”?

Já reparou que toda pessoa ferida que a PM leva para um hospital já chega morta? Vai cair a ficha, algum dia, que isto é uma rotina? Ou, estatisticamente, nossa PM seria a instituição mais desafortunada do mundo no campo do socorro a feridos?

O secretário José Mariano Beltrame dizia que esse é um problema de médio a longo prazo, que só vai ser resolvido a partir da instalação de mais UPPs.

Quer dizer que ele vai resolver com UPPs. Olha aqui, a coisa precursora das UPPs era chamada PPC – Posto de Policialmente Comunitário. O que a experiência comprovou é que, se você bota o PPC ali, ele vai ter que dialogar, e se estamos falando de uma atividade econômica importante para aquela comunidade, ou o PPC se incorpora ou ele vai ter que fechar o olho, não vai ter jeito.

As dez famílias que no Brasil detêm o monopólio do discurso adoram matadores

Se a idéia é como ocupação colocar permanentemente uma força nessas comunidades, a proposta é completamente autoritária. Você quer acabar com a infância dessas crianças? Elas moram num país, numa cidade ocupada? É uma experiência que não está avaliada, que sempre começa muito mal, sempre de maneira sangrenta, porque a Pacificação começa com os óbitos, e depois fica aquela coisa de fachada, a capitã boazinha…

Até quando vamos apostar em soluções policiais? Quando foi, onde foi que soluções policiais resolveram problemas? Havia, nos anos 1930, nos EUA, uma enorme crise de segurança pública. Foi uma solução policial ou foi a legalização da droga ilícita que deu uma acalmada?

Esse discurso do Beltrame é muito parecido com o do Cabral no início do governo, em 2007, quando dizia que era preciso passar um tempo de estresse, efeitos colaterais, mas só assim pra resolver o problema.

Estamos caminhando para o final do governo e foi assim o tempo todo; ele gosta de dizer estresse, em vez de genocídio, matança, extermínio… Foi muito, muito estresse! Mas estão bem. Porque matadores estão sempre bem com a grande mídia. As dez famílias que no Brasil detêm o monopólio do discurso público adoram matadores. E eu não estou falando isso para o Beltrame, a responsabilidade política não é dele.

Então, essa declaração de que a queda do helicóptero foi nosso 11 de setembro…

Dá uma idéia disso que estou falando. Totalmente despropositada.

Parte da direita costuma usar muito o exemplo o Tolerância Zero, de Nova York.

Quem dá esse exemplo é um ignorante. Nos EUA todos houve estabilização dos indicadores criminais nos anos noventa graças a cinco fatores: pleno emprego, redução demográfica da população de 15 a 24 anos… Os outros estão explicados em Loic Wacquant, quem quiser é só pegar pra ler. Isso foi nos EUA todo, só em Nova York o Giuliani ficava falando em Tolerância Zero. O único efeito comprovadamente ligado a essa bobagem do Tolerância Zero foi o aumento do controle e da violência policial contra os pobres.

Vi uma reportagem na TV Record mostrando uma arma de um policial que falhou, ele pedia ajuda, e a câmera filmando tudo. Quando voltou para os apresentadores, eles comentavam o absurdo de armas obsoletas, que situação a da polícia, e o poder dos traficantes cada vez maior, até derrubaram um helicóptero. Levando a crer que os traficantes varejistas tem um poder muito maior que a polícia.

Esse discurso é tão velho… Eu já ouvi mais de cem vezes. É uma maneira de chamar mais violência contra as classes populares, essa coisa de dizer que os grupos são mais armados que a polícia. Isso não é verdade, nunca foi. O problema é que eles conhecem mais o terreno, eles tem mais a simpatia da população – nem sempre, mas majoritariamente. Mas até no Alemão, se o Bope quiser ele entra. O resultado vai ser um grande número de crianças mortas, velhos mortos, mas entra. Agora, a Constituição, no seu artigo 144, determina o compromisso da polícia com a vida, e não com a morte. Aquele pessoal que se reuniu em 1988: “A segurança pública é exercida para a preservação da ordem pública e para a incolumidade das pessoas”. Não é pra matar, não. É pra salvar. Só que no Rio de Janeiro parece que vigora a Constituição de outro país.

Por que esse debate sobre as facções não está nas corporações de mídia?

Porque esclareceria tudo, ajudaria a análise. É preciso estudar essas organizações populares ilícitas. Em São Paulo, a academia está estudando o PCC, que tem responsabilidade direta no decréscimo dos homicídios. Não é tudo igual. O fato de disputarem o mesmo negócio ilícito não significa que sejam todas a mesma coisa. A coisa que mais me surpreendeu, quando eu tava no governo, foi descobrir quem é o cara que decidia: “agora a polícia vai nesse morro”. Qual o critério? Procurei estabelecer critérios objetivos. Que resistência… Que resistência. Tem que ter critérios objetivos. Caso contrário, sequer compreenderemos os conflitos em curso.

“Eu sou um artista de rua, eu não sou um músico”

rene_perfilTodo dia ele está lá cantando no meio da multidão, em frente à Escola de Música, próximo aos arcos da Lapa, lugar tradicional da cultura carioca. Renê Silva Santana, 26 anos, saiu de casa com 15 anos, no interior de Minas Gerais, passou por São Paulo e hoje mora nas ruas do Rio de Janeiro, onde sobrevive interpretando músicas com seu violão e um amplificador para o microfone. Para ele, muitas pessoas passam e lhe tiram até para maluco, por causa dos preconceitos, mas nem por isso se desconcentra do show que faz diariamente para comprar o seu pão de cada dia.

Como se deu a sua ligação com a música?

As pessoas passam e acham que eu sou músico né, mas não é o meu caso. Eu sou mochileiro, viajo o Brasil. Eu resolvi entrar nesse lance de música para sobreviver, para não ser mais um na rua pedindo às pessoas 1 real. Eu arrumei esse jeito de pedir, mas o meu sonho não é ser músico. Essa é uma coisa totalmente fora, eu não planejei nada, até porque eu não gosto de fazer isso, faço para ganhar dinheiro.

Mas você sabe tocar, aprendeu como?

Sozinho no mundo, fazendo intercâmbio. Eu sempre tive um violão, aí quando eu encontrava alguém que tocava eu perguntava como é que se faz um acorde e fui pegando. Aprendi há uns cinco anos. Eu sou aventureiro, eu sou de Minas, do campo, nem mexia com música, mas de lá comecei a viajar. Passei por São Paulo, alguns lugares em Minas e Rio de Janeiro. Tem uns 10 anos que eu saí de casa, tudo me virando com a música. Sempre gostei de violão, um hobby.

Nesse tempo você só se sustentou com a música?

Não, eu vim fazendo bicos, trabalhando em obra, e depois fiquei totalmente desempregado. Eu ganhava um valor relativo, que se eu trabalhasse para mim era o mesmo valor que eu tirava em qualquer trabalho. Então eu resolvi sobreviver com a música mesmo.

Você só toca aqui na Lapa?

As pessoas às vezes me chamam para tocar, mas eu não vou porque eu sou sincero: eu não sou músico, você tá me vendo aqui e achando que eu estou tocando legal, mas não é, talvez porque você não entende de música. Uma pessoa que entende mais sabe que o que eu estou fazendo não tem nada certo, isso aqui é para sobreviver cara.

rene_ruaRenê cantando e tocando em frente à Escola de Música, na Lapa. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Para ele ser músico mesmo, o cara tem que estudar, fazer uma partitura, saber ler partitura. É lógico que se o cara tiver de ir para o sucesso com isso ele vai, porque hoje em dia quem sabe muito não significa nada. Muitas pessoas falam: o que você faz nem um músico profissional mesmo que toca faz, você mete a cara. Mas isso por quê? Por causa da necessidade. Ele não passa necessidade, então ele jamais vai vir ele sendo um bom músico. Fazer isso que eu estou fazendo, acho que para eles é até um ato de humilhação; os caras são feras na música…

Você já teve interesse de entrar aí na Escola de Música?

Não, não tem nada a ver comigo.

O que você gostaria de fazer profissionalmente?

Nada cara, eu não estudei, tenho só a 4ª série, não tenho sonho nenhum. Essa é a única maneira deu trabalhar, de não ser só mais um auxiliar que é tudo o que eu faço. Minto, eu tenho um sonho: gostaria de fazer turismo, para viajar, ser guia, fazer intercâmbio, mas como eu não estudei fica no ar o sonho.

Para mim o que tem mais valor é o que eu sei fazer, eu toco pouco violão mas é uma coisa que está comigo e eu dou valor. Se eu morresse aqui agora, eu levaria comigo, ninguém teria como usar mais, só eu mesmo

Como você descolou esse equipamento?

Comprei, trabalhando na obra. Tive outro, agora estou vendendo esse, tá vendo? (o amplificador está com anúncio de vende-se)

Você está há quanto tempo parando na Lapa?

Deve ser um ano e meio, todo dia, só não venho quando chove. Eu fico umas 5 horas, de 1 da tarde até as 6 horas. Aqui é um local que passa pouca gente, mas também ninguém implica. A prefeitura andou implicando comigo há uns meses atrás na zona sul, exigindo a licença para tocar em local público. Se você for cadastrado creio que paga alguma coisa por ano, mas é mixaria, compensava se fosse fácil, porque você trabalhava tranquilo.

Eu escolhi a Lapa por causa da tranquilidade, não tem nada a ver com a região cultural. Eu nunca trabalhei na Carioca (local no centro da cidade, de grande circulação), por exemplo, eu só tô aqui para tirar o meu almoço e a passagem para mim levar as minhas coisas até certo lugar. Eu não estou aqui para ficar rico, por isso que eu não esquento a cabeça. Não penso se vou comprar isso ou aquilo, pra mim o que vale é o que a gente aprende. Para mim o que tem mais valor é o que eu sei fazer, eu toco pouco violão mas é uma coisa que está comigo e eu dou valor. Se eu morresse aqui agora, eu levaria comigo, ninguém teria como usar mais, só eu mesmo.

Você arruma quanto por mês e mora aonde?

Não dá para tirar nada, cara. Tem dia que eu tiro 15 reais, outro que eu tiro 20, é um dia pelo outro. Eu moro na pista, mas eu arrumei um lugar para guardar essas paradas. Antes eu não tinha, me roubaram tudo.

Você não considera uma arte isso que você faz?

Pode até ser uma arte. Sabe uma parada que você é totalmente contra: eu tô aqui, mas não queria estar. As pessoas passam ali, te vêem tocando, acham que o cara tá feliz da vida, viu o passarinho verde hoje, não é. Eu tô aqui, mas já tô doido para ir embora. Tá vendo aqui? (Renê mostra a ponta dos dedos cortadas, por dedilhar as cordas). Isso dói pra caralho, é tudo de violão, fica latejando. Se eu pudesse largava isso aqui agora e ia embora.

rene_criancaRenê tocando e uma criança, que ficou dançando em certo momento, curiosa com o seu trabalho. Foto: Eduardo Sá/Fazendo Media.

Pode até ser imbecilidade minha, acho que tem um preconceito na sociedade para você arrumar um emprego. Se você não chegar num estabelecimento procurando um emprego com alguma indicação eu acho que, em geral, isso não rola. No meu caso eu tenho muita dificuldade de arrumar emprego, por causa da falta de estudo e também não tenho profissão nenhuma. Por mim eu estaria num trabalho legal, mas eu sei que qualquer trabalho que eu arrumar eu não tenho estrutura para ganhar pelo menos 1.500 reais por mês. Qualquer trabalho que eu arrumar vai ser de auxiliar e vou ganhar um salário. Se for para eu me humilhar para os outros, eu me humilho para mim mesmo, no fim do mês se eu juntar a minha prata eu tenho isso.

Você já foi chamado para tocar aonde?

Em festa de aniversário, de final do ano, hoje mesmo passou um cara aqui e quer que eu vá domingo (10/01) tocar num churrasco lá em Botafogo. Mas eu acho que nunca fui, domingo agora se ele me chamar eu acho que vou, até porque estou precisando de dinheiro.

E alguma casa de show, você foi chamado?

Já, mas não rola. As pessoas acham que é legal, mas não é bem assim. Música, o pouco que eu entendo, não é bem assim, é uma coisa complicada.

Qual tipo de música que você mais toca?

Pop Rock, eu escolhi um timbre que cabe na minha voz. As pessoas falam que eu canto bem, não é. Eu escolhi um estilo que pega a minha a voz, eu não vou cantar todo tipo de música. Para mim, ouvir eu ouço tudo, mas para tocar eu procuro sempre as mais fáceis, tipo Jota Quest, Paralamas, Capital Inicial, Reggae também e Cidade Negra.

Como você vê a recepção da sociedade às suas músicas?

Foi o que um amigo meu falou ontem: eu sou um artista de rua, eu não sou um músico. O músico é diferente, eu não tenho nenhum objetivo com a música, é só pra comer mesmo. Se acontecesse para mim era lucro, se chegasse alguém dizendo que me levava e pagava as coisas. Mas eu vou deixar bem claro para ele que não é isso o que eu quero, para ele não perder o tempo dele. Muitas pessoas já quiseram, você canta na banda e tal, eu vi que os caras queriam uma parada séria e eu vou atrapalhar eles porque eu não quero isso.

Prêmio para trabalhos de valorização da cultura afro-brasileira

Estão abertas as inscrições para o 1º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-Brasileiras. O objetivo da premiação, oferecida pelo Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves (Cadon) e a Fundação Cultural Palmares (FCP), do Ministério da Cultura, é financiar projetos que valorizam a cultura afrodescendente e suas manifestações contemporâneas.

Segundo o diretor da Fundação Palmares, Elias Lopes, o prêmio é resultado da demanda dos próprios artistas que já desenvolvem trabalhos na área. O prêmio vai fazer com que os artistas tenham seu trabalho reconhecido e incentivado.

A banca julgadora, composta de nove especialistas indicados por órgãos públicos e a sociedade civil, foi escolhida por meio de votação aberta ao público.

O prêmio, de R$1,1 milhão, será distribuído igualmente em três segmentos nas cinco regiões do país. Em cada uma, serão contemplados dois projetos de artes visuais, um de teatro e um de dança.

O Prêmio Expressões Culturais Afrobrasileiras foi concebido em 2006, após o 2o Fórum Nacional de Performance Negra, realizado no Teatro Vila Velha, em Salvador (BA), cujo destaque principal de temas debatidos girou em torno da falta de elaboração de editais públicos e das linhas de financiamentos, direcionadas exclusivamente para o desenvolvimento de artistas, grupos e companhias que trabalhem com a produção artística de estética negra, a fim de valorizar a cultura afrodescendente e suas manifestações contemporâneas, potencializando tanto as ações de grupos já estabelecidos no Brasil, quanto as dos grupos emergentes.

Serviço:
As inscrições serão encerradas no dia 5 de março e podem ser feitas apenas no sitewww.premioafro.org

Boris Casoy e Band são processados por caso dos garis

Silvia Dalben – Portal UAI

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Divulgacao/Ag. O Dia

Depois dos comentários “infelizes” de Boris Casoy sobre garis, o apresentador e a Bandeirantes serão processados. A Fenascon – Federação Nacional dos Trabalhadores em Serviços, Asseio e Conservação, Limpeza Urbana, Ambiental e Áreas Verdes – está movendo uma ação civil que, de acordo com o Portal Imprensa, foi registrado no Fórum João Mendes, em São Paulo.

O processo é uma resposta a um comentário do jornalista que ganhou repercussão nacional através do Youtube. Numa mensagem de fim de ano com garis, exibida no Jornal da Band, no dia 31 de dezembro, vazou o áudio em que Boris falava:

“Que m… Dois lixeiros desejando felicidades do alto de suas vassouras. Dois lixeiros… o mais baixo da escala de trabalho”.

O vídeo ganhou tanta repercussão que o próprio Boris Casoy pediu desculpas ao vivo no Jornal da Band do dia 1º de janeiro.

“É lamentável que isso ocorra contra uma categoria que faz um trabalho essencial para a sociedade, que faz a limpeza, ajudando a evitar enchentes”, disse o advogado Francisco Larocca, da Fenascon, ao site O Fuxico. “Foi de uma irresponsabilidade muito grande. Tem que haver reparação”.

Assista ao vídeo com a ofensa de Boris Casoy aos garis

Assista ao vídeo com o pedido de desculpas de Boris

Altamiro Borges: Boris Casoy despreza garis e Lula

O preconceito de classe do “jornalista” Boris Casoy não se manifestou apenas contra os garis, que foram humilhados no Jornal da Band na virada do ano. Esse ódio de classe ficou ainda mais explícito na gestão do presidente Lula.

Por Altamiro Borges

O preconceito de classe do “jornalista” Boris Casoy não se manifestou apenas contra os garis, que foram humilhados no Jornal da Band na virada do ano. Na ocasião, um vazamento de áudio permitiu ouvir a sua frase elitista: “Que merda. Dois lixeiros desejando felicidades… do alto das suas vassouras… Dois lixeiros. O mais baixo da escala do trabalho”. Na seqüencia, ele até pediu desculpas, com cara de sonso, pelo “vazamento”, mas não por suas idéias discriminatórias.

Direitista convicto, acusado de ter integrado o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) durante os anos de chumbo da ditadura militar, Boris Casoy sempre teve “nojo de povo” – como o ex-presidente João Batista Figueiredo. Ele sempre atacou os trabalhadores e suas lutas por direitos. Esse ódio de classe ficou ainda mais explícito na gestão do presidente Lula – não por seus erros e limitações, mas sim por seus méritos, como as políticas de inclusão social. Para este capacho das elites, era totalmente inadmissível um operário, ex-sindicalista, ocupar o Palácio do Planalto.

Serviçal dos demos no impeachment

Durante o chamado “escândalo do mensalão”, o banqueiro Jorge Bornhausen, presidente do ex-PFL, atual demo, chegou a cogitar que Boris Casoy liderasse o pedido de impeachment de Lula. A coluna “Painel” da Folha de S.Paulo registrou a tramóia em 9 de abril de 2006: “A oposição já busca na sociedade civil um nome para encabeçar o pedido de impeachment de Lula, assim como Barbosa Lima Sobrinho fez com Fernando Collor… Miguel Reale Jr., ex-ministro da Justiça de FHC, e o jornalista Boris Casoy estão cotados para subscrever a peça [do impeachment]”.

Dias antes, em 28 de março, no mesmo veículo golpista, Casoy já havia pregando a derrubada de Lula. O artigo parece ter sido encomendado por políticos mais sujos do que pau de galinheiro, como Bornhausen, o falecido ACM e o governador Arruda. Intitulado “É uma vergonha”, ele era raivoso e mentiroso: “Jamais o Brasil assistiu a tamanho descalabro de um governo… Há, desde o tempo do Brasil colônia, um sem número de episódios graves de corrupção e incompetência. Mas o nível alcançado pelo governo Lula é insuperável… Todos os limites foram ultrapassados; não há como o Congresso postergar um processo de impeachment contra Lula”.

Lula não caiu; e Casoy?

Metido a mentor da oposição de direita, Casoy ainda tentou pautar os políticos, exigindo pressa na ação golpista. “O argumento para não afastar Lula, de que sua gestão vive os últimos meses, é um auto-engano”. Serviçal dos barões da mídia, ele também explica uma das razões do seu ódio. “Lula passará à história como alguém que procurou amordaçar a imprensa”. E insistia: “Neste momento grave, o Congresso não pode abdicar de suas responsabilidades, sob o perigo de passar à história como cúmplice do comprometimento irreversível do futuro do país. As determinantes legais invocadas para o processo de impeachment encontram, todas elas, respaldo nos fatos”.

A escalada golpista não obteve sucesso. Lula foi reeleito e hoje goza de popularidade recorde. Já o “jornalista” Boris Casoy, que gritou pelo impeachment, corre o risco de ser defenestrado. Alguns setores da sociedade já exigem o “impeachment” do âncora do Jornal da Band! Outros propõem, com base nos artigos da Constituição que condenam qualquer tipo de discriminação, que ele seja obrigado a prestar serviços comunitários, varrendo ruas, como forma de se redimir pela agressão aos garis. O seu preconceito de classe não diminuiria. Mas, ao menos, seria muito divertido!

Entidades dos Garis movem três ações contra Boris Casoy e Band

Jornalista será processado criminalmente e Band também terá que responder na justiça; garis que apareceram no noticiário passaram dias escondidos, com vergonha

Divulgação/Band

Boris Casoy e Band terão que responder na Justiça

O Siemaco (Sindicato dos Trabalhadores de Empresa de Prestação de Serviço de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo) e a Fenascon (Federação Nacional dos Trabalhadores em Serviços, Asseio e Conservação Limpeza Urbana, Ambiental e Áreas Verdes) informaram ao R7, por meio de sua assessoria, que entraram com três ações judiciais nesta quarta (6/1) contra o jornalista Boris Casoy e a Band.

As ações foram motivadas pelos comentários feitos pelo jornalista no Jornal da Band do último dia 31, quando ele ofendeu em rede nacional toda a categoria de trabalhadores.

Francisco Larocca, advogado dos dois órgãos de representação responsáveis pelas ações, ambos presididos por José Moacir, afirmou que deu entrada aos processos nesta quarta (6/1), no fórum João Mendes, na Sé, região central de São Paulo. Ele explicou as ações: “nós vamos propor uma ação civil pública para indenização por danos morais em favor de toda categoria em âmbito nacional contra a Band e o Boris Casoy, já que o comentário do âncora foi ouvido por todo o Brasil. Também vamos entrar com uma ação de reparação civil contra o Boris e a Band em nome dos dois garis que apareceram na reportagem e que foram ofendidos, Francisco Gabriel e José Domingos de Melo, ambos trabalhadores de São Paulo. E também vamos mover uma ação criminal contra o jornalista Boris Casoy por crime de preconceito”.

O advogado informou que prefere não estipular o valor da indenização e deixará isso nas mãos do juiz. Ele informou que há cerca de 360 mil trabalhadores da limpeza urbana em todo o Brasil, que ganham um piso em torno de R$ 800. ” Prefiro esperar que os juízes analisem e mencionem qual seria o valor cabível. Vamos deixar essa questão para os magistrados”.

Dr. Francisco Larocca ainda afirmou que os garis brasileiros não se deram por satisfeitos com o “tímido pedido de desculpas feito pelo jornalista no dia seguinte”. “O pedido de desculpas só não basta. De jeito nenhum. Ele faz uma ofensa daquelas de depois faz uma desculpa burocrática e de forma tão tímida? Não estamos preocupado só em valor financeiro, que será destinado ao fundo dos trabalhadores. Nós queremos uma retratação judicial. É muito simples ofender e depois pedir desculpas”.

Ainda segundo o advogado, os garis Francisco Gabriel e José Domingos de Melo passaram o primeiro fim de semana de 2010 recolhidos em suas casas, com vergonha da humilhação pública a que foram expostos.

A assessoria de imprensa da Band informou que não comentará o caso até que seja notificada judicialmente. O portal R7 realiza uma enquete sobre a justeza da ação que o sindicato e a federação dos garis pretendem mover.

Da redação, com R7

Nação Hip-Hop Brasil realiza seu 3º Encontro Nacional

Jovens de todo o país iniciam os preparativos para o 3º Encontro Nacional da Nação Hip Hop de São Victe (SP). O evento será realizado entre os dias 28 a 31 de janeiro de 2010, mas as reuniões preparatórias já estão acontecendo.

Oficinas e workshops ensinarão ao público novas formas e jeitos de dançar break, grafitar, manipular os toca-discos e a arte de rimar

O encontro está sendo construído por DJs, MCs, Breaking, Grafiteiros, Imprensa, Beat Boxing, Pichadores, Bikering, Skating e Rolering. Segundo André Cardoso, um dos articuladores e membro do site http://www.derua.com.br, qualquer pessoa que vê no Movimento Hip Hop, uma forma de dialogar com a juventude e transformar a sociedade é bem-vinda.

Encontro da Nação Hip Hop

A Nação Hip-Hop Brasil, entidade conceituada do hip hop, foi quem escolheu São Vicente como sede do 3º encontro nacional. Segundo os organizadores do evento, a cidade reúne as melhores condições para a atividade, que ocorrerá na cidade praiana durante o verão. Além disso São Vicente é um patrimônio histórico nacional, pois é a primeira cidade do país, no qual o encontro terá como tema: “Hip-Hop um mergulho na historia”.

“A partir de São Vicente que foi construído a nação brasileira e será aqui que construiremos com mais de mil manos e minas do hip-hop do Brasil todo e artistas internacionais as ações da Nação Hip-Hop Brasil. A cidade não poderia ser outra.” Fala confiante Aliado G, presidente nacional da entidade. O evento deve contar com parcerias como Ministério da Cultura, Prefeitura de São Vicente, Secretaria de Cultura dentre outras.

Show com Rappin Hood agita o encontro

O cantor e apresentador Rappin Hood se apresenta no dia 29 de janeiro nas areias de São Vicente, com muito rap do bom, dentro das atividades do encontro. O show é um dos destaques entre as atrações do 3° Encontro Nacional de Hip-Hop que vai sacudir o litoral, entre os dias 28 a 31 deste mês.

Diversas atividades entre oficinas e workshops vão interagir e ensinar ao público novas formas e jeitos de dançar break, grafitar, manipular os toca-discos e a um pouco da arte de rimar. Haverá também diversas palestras, debates e muita integração, que trará os integrantes do movimento de todos os cantos do país para se apresentarem nas areias da praia do Gonzaguinha em São Vicente.

Entretanto, nem só de shows vive o hip-hop. “A Nação Hip Hop entende o movimento como instrumento de transformação da juventude e, apesar de ser um encontro focado em Hip Hop, também serão discutidos temas transversais como educação, segurança, trabalho, meio ambiente, juventude carcerária, entre outros”, explica Danilo Otto, diretor da Juventude da prefeitura de São Vicente.

Todas as ações e atrações gratuitas e aberta ao público.

Por Luana Bonone, com www.juventude.gov.br e www.juventude.sp.gov.br

Sindicato vai entrar com ação civil pública contra Boris Casoy

O presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Prestação de Serviços de Asseio e Conservação e Limpeza Urbana de São Paulo (Siemaco), José Moacyr Malvino Pereira, afirmou que irá entrar com uma ação civil pública contra o jornalista Boris Casoy, por sua declaração sobre o trabalho dos garis no Jornal da Band. “Vamos entrar com uma ação civil pública para que ele se retrate na Justiça. Já assinei a procuração”, declarou o presidente da entidade.

O apresentador do Jornal da Band tem sido criticado desde o dia 31/12, quando saiu no ar o áudio de uma declaração sobre os garis que desejavam feliz ano novo. Ainda na vinheta do jornal, sem saber que seu microfone estava aberto, Casoy declarou: “Que m… dois lixeiros desejando felicidades do alto das suas vassouras. Dois lixeiros… O mais baixo da escala de trabalho”.

No dia seguinte, no mesmo jornal, o apresentador pediu desculpas pela atitude. “Ontem durante o intervalo do Jornal da Band, num vazamento de áudio, eu disse uma frase infeliz, por isso quero pedir profundas desculpas aos garis e aos telespectadores do Jornal da Band”, disse.

Nesta segunda-feira (4), o Siemaco entregou na TV Bandeirantes uma carta de repúdio a Boris Casoy. “Não aceitamos as desculpas do apresentador, que foram meramente formais ao ser pego ao manifestar o que pensa e que, infelizmente, reforça o preconceito de vários setores da sociedade contra os trabalhadores garis e varredores…”

Em uma nota oficial no site do sindicato, a entidade também criticou o desmerecimento dado ao trabalho dos garis. “Lamentavelmente Casoy demonstrou não dar valor ao importante serviço prestado por nossos trabalhadores, humilhando-os publicamente. Ele esqueceu-se que limpeza significa saúde pública e, se nossos ‘lixeiros no alto de suas vassouras’ não cuidassem da nossa cidade, certamente viveríamos no caos. Com certeza, podemos viver sem notícias, mas não sem limpeza”, diz a nota.

A assessoria de imprensa da Band informou que o apresentador já pediu desculpas em público. A direção de jornalismo da emissora ainda não se manifestou sobre o caso.

Fonte: Comunique-se

Miro Borges: Boris Casoy é “uma vergonha”

Primeiro vídeo: ao encerrar o Jornal da Band da noite de 31 de dezembro de 2009, dois garis de São Paulo aparecem desejando feliz ano novo ao povo brasileiro. Na sequência, sem perceber o vazamento de áudio, o fascistóide Boris Casoy, âncora da TV Bandeirantes, faz um comentário asqueroso: “Que merda… Dois lixeiros desejando felicidades… do alto de suas vassouras… Dois lixeiros… O mais baixo da escala do trabalho”.

Segundo vídeo: na noite seguinte, o jornalista preconceituoso pede desculpas meio a contragosto: “Ontem durante o programa eu disse uma frase infeliz que ofendeu os garis. Eu peço profundas desculpas aos garis e a todos os telespectadores”. Numa entrevista à Folha, porém, Boris Casoy mostra que não se arrependeu da frase e do seu pensamento elitista, mas sim do vazamento. “Foi um erro. Vazou, era intervalo e supostamente os microfones estavam desligados”.

Do CCC à assessoria dos golpistas

Este fato lastimável, que lembra a antena parabólica do ex-ministro de FHC, Rubens Ricupero – outras centenas de comentários de colunistas elitistas da mídia hegemônica infelizmente nunca vieram ao ar –, revela como a imprensa brasileira “é uma vergonha”, para citar o bordão de Boris Casoy, com seu biquinho e seus cacoetes. O episódio também serve para desmascarar de vez este repugnante apresentador, que gosta de posar de jornalista crítico e independente.

A história de Boris Casoy é das mais sombrias. Ele sempre esteve vinculado a grupos de direita e manteve relações com políticos reacionários. Segundo artigo bombástico da revista Cruzeiro, em 1968, o então estudante do Mackenzie teria sido membro do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), o grupo fascista que promoveu inúmeros atos terroristas durante a ditadura militar. Casoy nega a sua militância, mas vários historiadores e personagens do período confirmam a denúncia.

Âncora da oposição de direita

Ainda de 1968, o direitista foi nomeado secretário de imprensa de Herbert Levy, então secretário de Agricultura do governo biônico de Abreu Sodré – em plena ditadura. Também foi assessor do ministro da Agricultura do general Garrastazu Médici na fase mais dura das torturas e mortes do regime militar. Em 1974, Casoy ingressou na Folha de S.Paulo e, numa ascensão meteórica, foi promovido a editor-chefe do jornal de Octávio Frias, outro partidário do setor “linha dura” dos generais golpistas. Como âncora de televisão, a sua carreira teve início no SBT, em 1988.

Na seqüência, Casoy foi apresentador do Jornal da Record durante oito anos, até ser demitido em dezembro de 2005. Ressentido, ele declarou à revista IstoÉ que “o governo pressionou a Record [para me demitir]… Foram várias pressões e a final foi do Zé Dirceu”. Na prática, a emissora não teve como sustentar seu discurso raivoso, que transformou o telejornal em palanque da oposição de direita, bombardeando sem piedade o presidente Lula no chamado “escândalo do mensalão”.

Nos bastidores da TV Bandeirantes

Em 2008, Casoy foi contratado pela TV Bandeirantes e manteve suas posições direitistas. Ele é um inimigo declarado dos movimentos grevistas e detesta o MST. Não esconde sua visão elitista contra as políticas sociais do governo Lula e alinha-se sempre com as posições imperialistas dos EUA nas questões da política externa. O vazamento do vídeo em que ofende os garis confirma seu arraigado preconceito contra os trabalhadores e tumultuou os bastidores da TV Bandeirantes.

Entidades sindicais e populares já analisam a possibilidade de ingressar com representação junto à Procuradoria Geral da República. Como ironiza Beto Almeida, presidente da TV Cidade Livre de Brasília, seria saudável o “Boris prestar serviços comunitários por um tempo, varrendo ruas, para ter a oportunidade de fazer algo de útil aos seus semelhantes”. Também é possível acionar o Ministério Público Federal, que tem a função de defender os direitos constitucionais do cidadão junto “aos concessionários e permissionários de serviço público” – como é o caso das TVs.

Na 1ª Conferência Nacional de Comunicação, realizada em dezembro, Walter Ceneviva, Antonio Teles e Frederico Nogueira, entre outros dirigentes da Rede Bandeirantes, participaram de forma democrática dos debates. Bem diferente da postura autoritária das emissoras afiliadas à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), teleguiadas pela Rede Globo. Apesar das divergências, essa participação foi saudada pelos outros setores sociais presentes ao evento. Um dos pontos polêmicos foi sobre a chamada “liberdade de expressão”. A pergunta que fica é se a deprimente declaração de Boris Casoy faz parte deste “direito absoluto”, quase divino.

Boris Casoy é ?uma vergonha?

Grande Miro e Miranda

Em que o diploma de jornalista ou sua falta influencia no exercício da profissão de pessoas como o judeu nazista Boris e tantos outros mercenários a serviço do oligopólio da mídia?

Onde fica a ética e qualidade da informação preconizada pela Fenaj, como vinculada à obrigatoriedade do diploma? Não é uma vergonha?
Quando os jornalistas vão assumir que não existe ética em sua profissão, onde sempre predomina a ética do patrâo? Idem para qualquer outra, mas é na comunicação que se forma a “opinião pública”…
Sugiro a leitura de:
“A sociedade quer informação com ética e qualidade?”: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos.asp?cod=529DAC001

Dialeticamente

Heitor
Boris Casoy é ?uma vergonha?

Por Altamiro Borges – de São Paulo

Primeiro vídeo: ao encerrar o Jornal da Band da noite de 31 de dezembro de 2009, dois garis de São Paulo aparecem desejando feliz ano novo ao povo brasileiro. Na sequência, sem perceber o vazamento de áudio, o fascistóide Boris Casoy, âncora da TV Bandeirantes, faz um comentário asqueroso: ?Que merda… Dois lixeiros desejando felicidades… do alto de suas vassouras… Dois lixeiros… O mais baixo da escala do trabalho?.

Segundo vídeo: na noite seguinte, o jornalista preconceituoso pede desculpas meio a contragosto: ?Ontem, durante o programa, eu disse uma frase infeliz que ofendeu os garis. Eu peço profundas desculpas aos garis e a todos os telespectadores?. Numa entrevista à Folha, porém, Boris Casoy mostra que não se arrependeu da frase e do seu pensamento elitista, mas sim do vazamento. ?Foi um erro. Vazou, era intervalo e supostamente os microfones estavam desligados?.

Do CCC à assessoria dos golpistas

Este fato lastimável, que lembra a antena parabólica do ex-ministro de FHC, Rubens Ricupero ? outras centenas de comentários de colunistas elitistas da mídia hegemônica infelizmente nunca vieram ao ar ?, revela como a imprensa brasileira ?é uma vergonha?, para citar o bordão de Boris Casoy, com seu biquinho e seus cacoetes. O episódio também serve para desmascarar de vez este repugnante apresentador, q ue gosta de posar de jornalista crítico e independente.

A história de Boris Casoy é das mais sombrias. Ele sempre esteve vinculado a grupos de direita e manteve relações com políticos reacionários. Segundo artigo bombástico da revista Cruzeiro, em 1968, o então estudante do Mackenzie teria sido membro do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), o grupo fascista que promoveu inúmeros atos terroristas durantea ditadura militar. Casoy nega a sua militância, mas vários historiadores e personagens do período confirmam a denúncia.

Âncora da oposição dedireita

Ainda de 1968, o direitista foi nomeado secretário de imprensa de Herbert Levy, então secretário de Agricultura do governo biônico de Abreu Sodré ? em plena ditadura. Também foi assessor do ministro da Agricultura do general Garrastazu Médici na fase mais dura das torturas e mortes do regime militar. Em 1974, Casoy ingressou na Folha de S.Paulo e, numa ascensão meteórica, foi promovido a editor-chefe do jornal de Octávio Frias, outro partidário do setor ?linha dura? dos generais golpistas. Como âncora de televisão, a sua carreira teve início no SBT, em 1988.

Na seqüência, Casoy foi apresentador dJornal da Record durante oito anos, até ser demitido em dezembro de 2005. Ressentido, ele declarou à revista IstoÉ que ?o governo pressionou a Record [para me demitir]… Foram várias pressões e a final foi do Zé Dirceu?. Na prática, a emissora não teve como sustentar seu discurso raivoso, que transformou o telejornal em palanque da oposição de direita, bombardeando sem piedade o presidente Lula no chamado ?escândalo do mensalão?.

Nos bastidores da TV Bandeirantes

Em 2008, Casoy foi contratado pela TV Bandeirantes e manteve suas posiç� �es direitistas. Ele é um inimigo declarado dos movimentos grevistas e detesta o MST. Não esconde sua visão elitista contra as políticas sociais do governo Lula e alinha-se sempre com as posições imperialistas dos EUA nas questões da política externa. O vazamento do vídeo em que ofende os garis confirma seu arraigado preconceito contra os trabalhadores e tumultuou os bastidores da TV Bandeirantes.

Entidades sindicais e populares já analisam a possibilidade de ingressar com representação junto à Procuradoria Geral da República. Como ironiza Beto Almeida, presidente da TV Cidade Livre/em> de Brasília, seria saudável o ?Boris prestar serviços comunitários por um tempo, varrendo ruas, para ter a oportunidade de fazer algo de útil aos seus semelhantes?. Tabém é possível acionar o Ministério Público Federal, que tem a função de defender os direitos onstitucionais do cidadão junto ?aos concessionários e permissionários de serv iço público? ?como é o caso das TVs.

Na 1ª Conferência Nacional de Comunicação, realizada em dezembro, Walter Ceneviva, Antonio Teles e Frederico Nogueira, entre outros dirigentes da Rede Bandeirantes, participaram de forma democrática dos debates. Bem diferente da postura autoritária das emissoras afiliadas à Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), teleguiadas pela Rede Globo. Apesar das divergências, essa participação foi saudada pelos outros setores sociais presentes ao evento. Um dos pontos polêmicos foi sobre a chamada ?liberdade de expressão?. A pergunta que fica é se a deprimente declaração de Boris Casoy faz parte deste ?direito absoluto?, quase divino.
Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB – Partido Comunista do Brasil, autor do livro Sindicalismo, resistência e alternativas (Editora Anita Garibaldi)

Conheça o ranking das torcidas

Emerson Vicente
do Agora

O título do Campeonato Brasileiro deu uma injeção de ânimo nos torcedores do Flamengo. Em pesquisa realizada pelo Datafolha, entre os dias 14 e 18 de dezembro, o rubro-negro mostra uma evolução em sua torcida. O clube, que na última pesquisa, realizada em novembro de 2008, contava com 17% de torcedores, hoje aparece com 19%.

O Corinthians se manteve com 13%, o mesmo número da pesquisa anterior. Porém, a subida do Flamengo ultrapassa a margem de erro, que é de dois pontos percentuais.

O Datafolha ouviu 11.258 pessoas no Brasil, com idade acima dos 16 anos.

Evolução do tamanho das torcidas segundo pesquisa do Datafolha

Popularidade dos times por região


"Não morro antes dos 92", diz Milton Nascimento

MARCUS PRETO
da Folha de S.Paulo

Não seria um mergulho qualquer. Antes de pular na água, de paletó, para a foto que estampa esta reportagem, Milton Nascimento, 68, esclareceu que atenderia ao pedido impremeditado do fotógrafo para, mais uma vez, provar que não é “esquisito, bravo e fechado” como as pessoas que só o conhecem de longe costumam imaginar.

Dá para arriscar que o “estranhamento” a que ele se refere esteja ligado, em grande parte, exatamente à complexidade de sua música. Cerebral e primitiva ao mesmo tempo, ainda não foi devidamente assimilada nem mesmo aqui no Brasil.

Por outro lado, pode-se supor que são justamente essas características “estranhas” que a mantêm tão viva, e imune aos desgastes que vampirizaram forças de outros gêneros –da bossa nova, por exemplo.
Milton está em movimentação, sua música o leva. Grava agora um álbum, a ser lançado no primeiro semestre. Quem o acompanha são jovens músicos de Três Pontas –cidade mineira onde ele cresceu e que, por causa dele, entrou no mapa mundial da música.

Daryan Dornelles/Folha Imagem
O cantor Milton Nascimento na piscina de sua casa, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro; novo disco sai no 1º semestre
Milton Nascimento na piscina de sua casa, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro; novo disco sai no 1º semestre

“Quando a gente organizou a coisa, há uns dois ou três anos, os meninos eram todos bem novos, não saíam de Três Pontas”, diz o cantor. “Agora, todo mundo resolveu passar em vestibular. Entraram nas faculdades e se espalharam por São Paulo, pelo Rio. O difícil é reunir todos para gravações.”

“Pietá” (2002), último álbum de canções inéditas lançado por Milton, tinha esse mesmo espírito. Revelou três novas cantoras: as pouco conhecidas Marina Machado e Simone Guimarães e a estreante Maria Rita.

Tumulto

Diferentemente de, podemos chutar, todos os outros artistas do mundo, Milton não precisa de ambiente silencioso para compor. Nem da meia-luz do quarto ou do isolamento acústico do estúdio. Ao contrário. Quanto mais bagunçado e barulhento estiver o recinto, mais as ideias lhe vêm à cabeça.

Talvez seja esse um dos motivos por que sua casa, em um condomínio fechado na Barra da Tijuca, está sempre cheia de gente. Mensalmente, Milton convida amigos, músicos ou não, para saraus.

Começam no meio da tarde e, se assim permitirem os vizinhos reclamões, podem atravessar a noite e não terminar antes do meio da madrugada.

O elenco é sempre variado. Jorge Drexler, Lenine, Esperanza Spalding, Mart’nália, João Suplicy, Paulinho Moska, Maria Gadú. Todos já passaram por aquele quintal.

“A gente chama esse sarauzinho de jam session. Quando ainda não tinha saído de Belo Horizonte para o mundo, eu participava de muitos encontros assim”, diz o anfitrião. “Sempre foi muito importante para mim esse negócio de juntar. Isso me alimenta.”

Longe do Brasil, mantém ativas as relações com os colegas. Em meados do ano passado, fez apresentação comemorativa no emblemático palco do Carnegie Hall, lembrando os 25 anos de sua primeira passagem pelos Estados Unidos.

Na mesma viagem, gravou no novo álbum da americana Esperanza Spalding e inaugurou parceria com Paul Simon.

“Ele começou a mostrar as músicas novas, perguntou se eu tinha gostado”, conta. “Uma delas mexeu comigo por várias coisas. Ele foi lá, botou ela de novo e perguntou: ‘Faz uma letra em português?’. Claro!”

Encontrou ainda o brasileiro Sérgio Mendes, que está criando um arranjo para “Caxangá” (Milton/Fernando Brant) aos moldes do que fez para “Mas que Nada”, de Jorge Ben Jor. Deve estar em seu próximo CD.

Terreiro

Depois do mergulho, Milton sai da piscina e senta-se na borda. A entrevista acontece ali. “Vou viver muito tempo”, crava. “Não morro antes dos 92.”

A frase sai dos lábios molhados de Coca-Cola light com o tom incontestável de quem já confrontou essa questão bem de perto. Milton esbarrou com a morte no final dos anos 1990, quando a diabetes o fez ter menos da metade do peso atual.

Agora, cuida bem da saúde, mantendo índices glicêmicos sempre sob controle por meio de medidor conectado à pele.

Mas não foi no visor do aparelhinho que descobriu o tal prazo de 92 anos. Quem lhe soprou o número foi uma mãe de santo, daquelas que lhe vêm dando conselhos e dicas durante toda a carreira.

Tudo começou tempos antes de ficar famoso, ainda na primeira metade dos anos 1960. Milton foi ajudar uma pessoa a entregar doces para a criançada em dia de São Cosme e Damião.

“Recebi de uma senhora espírita a seguinte mensagem: ‘Não adianta fugir, você vai ter um centro, um terreiro seu'”, conta. “Mas eu era católico, nem conhecia o candomblé, como poderia ter um centro?”

Chegou à conclusão depois: “Encostei a cabeça na parede do palco e falei: ‘Puxa, como é que eu posso ser tão burro? Meu terreiro é isso aqui!’ A partir daquele dia, estar em cima do palco virou a coisa mais importante da minha vida.”

Faxineiros são mais valiosos para a sociedade do que banqueiros, diz estudo


Martin Shankleman

Da BBC News

Faxineiros em hospitais gerariam mais valor que banqueiros

Pessoas que trabalham fazendo faxina em hospitais têm mais valor para a sociedade do que os funcionários de alto escalão de um banco, concluiu um estudo britânico.

A pesquisa, feita pelo instituto de pesquisas New Economics Foundation, concluiu que o faxineiro de um hospital gera cerca de R$ 30 de valor para cada R$ 3 que recebe.

Já o funcionário do banco (aquele com salário anual a partir de RS$ 1,5 milhão) é um peso para a sociedade por conta dos danos que a categoria causou para a economia global, diz o estudo.

Os especialistas envolvidos no trabalho calculam que este trabalhador destrói cerca de R$ 21 para cada R$ 3 que ganham.

Recomendações

Altos executivos de agências de publicidade, por outro lado, “criam estresse”, porque são responsáveis por campanhas que geram insatisfação e infelicidade, além de encorajar consumo excessivo.

E contadores prejudicam o país ao criar esquemas para diminuir a quantidade de dinheiro disponível para o governo, diz a pesquisa.

Já os profissionais em atividades como cuidar de crianças ou reciclar lixo estão fazendo trabalhos que geram riqueza para o país.

A equipe da New Economics Foundation usou uma nova fórmula para avaliar diferentes profissões e calcular a contribuição total que cada uma oferece à sociedade, incluindo, pela primeira vez, seu impacto sobre a comunidade e o meio ambiente.

A porta-voz da fundação, Eilis Lawlor, disse: “Faixas salariais com frequência não refletem o valor real que está sendo gerado. Enquanto sociedades, precisamos de uma estrutura de pagamentos que recompense os trabalhos que geram mais benefícios para a sociedade, não aqueles que geram lucro às custas da sociedade e do meio ambiente”.

“Deveria haver uma relação entre o que recebemos e o valor que o nosso trabalho gera para a sociedade. Encontramos uma forma de calcular isso”, completa.

O estudo da New Economics Foundation também faz recomendações para uma política de maior alinhamento dos salários com o valor do trabalho.