Arquivos Mensais: junho \30\UTC 2009

Quando o paternalismo é um risco

Auremácio Carvalho*

As ações afirmativas, como políticas compensatórias que são, foram adotadas para aliviar e remediar as condições resultantes de um passado discriminatório do Brasil e agora cumprem uma finalidade pública decisiva ao projeto democrático nacional, que é a de assegurar a diversidade e a pluralidade social do seu povo. As ações afirmativas ainda objetivam acelerar o processo de igualdade de um povo, com o alcance da igualdade substantiva por parte de grupos socialmente vulneráveis, como as minorias étnicas e raciais, dentre outros grupos, tais como os economicamente excluídos. Pode-se dizer que as discussões existentes a respeito das ações afirmativas estão ingressando no Direito Brasileiro através de diversos projetos em trâmite no Congresso Nacional. Tais projetos visam mitigar a desigualdade existente nesta Nação, através do sistema educacional, que tradicionalmente, sempre reservou aos negros e aos pobres em geral, uma educação de inferior qualidade em relação aos brancos, considerados uma elite . Em resumo: o intuito das ações afirmativas é tentar combater a desigualdade e a discriminação nos diversos setores da atividade econômica, assim, instituir cotas fixas para negros nesse ou naquele setor da vida sócio-econômica, é abrir-lhes as portas para uma igualdade substantiva. As ações afirmativas têm como objetivo, não apenas coibir a discriminação do presente, mas, sobretudo, eliminar os efeitos persistentes (psicológicos, culturais e comportamentais) da discriminação do passado, que tendem a se perpetuar no tempo. O efeito mais visível dessas políticas, além do estabelecimento da diversidade e representatividade propriamente ditas, é o de eliminar as barreiras artificiais e invisíveis que emperram o avanço de negros, deficientes e mulheres, independentemente da existência ou não de política oficial tendente a subalternizá-los. Elas não resolvem o problema maior: a lacuna, na verdade, está historicamente enraizada no modelo de país que tivemos: elitista, escravocrata, não inclusivo; desde os seus primórdios. Por exemplo: acabar com o vestibular para o ingresso no ensino superior não resolve o problema maior: o total despreparo dos alunos/candidatos por trazerem uma herança maldita de um 1º e 2º graus deficitários, em todos os sentidos. A discriminação de gênero, fruto de uma longa tradição patriarcal que não conhece limites geográficos tampouco culturais, é do conhecimento de todos os brasileiros. Entre nós, o status de inferioridade da mulher em relação ao homem foi por muito tempo considerado como algo normal, decorrente da própria natureza das coisas . A tal ponto que essa inferioridade era materializada expressamente na nossa legislação civil.: a inferioridade da mulher, a mulher honesta ; a fixação da residência pelo homem etc… felizmente, realidades ultrapassadas pela Constituição de 1988. As Leis nºs 9.100/1995 e 9.504/1997, que estabeleceram cotas mínimas de candidatas mulheres para as eleições, por exemplo. A idéia de que as pessoas devam ser livres e iguais na determinação das condições de suas próprias vidas significa, que elas devem ser capazes de participar de um processo de debates e deliberações, aberto para todos em bases iguais e livres, sobre questões de interesse público. A ação afirmativa parte do reconhecimento de que a competência para exercer funções de responsabilidade não é exclusiva de um determinado grupo étnico, racial ou de gênero A riqueza da diversidade cultural brasileira não serviu, em termos sociais, senão para o deleite intelectual de alguns e a demonstração de ufanismo de muitos. Isto é, terminamos escravos do preconceito, da marginalização, da exclusão social e da discriminação que caracterizam o dualismo social e econômico do Brasil. Por fim, é chegada a hora de resgate desse terrível débito que não se inscreve apenas no passivo da discriminação étnica, mas, sobretudo, no da quimérica igualdade de oportunidades virtualmente asseguradas por nossas Constituições aos brasileiros e aos estrangeiros que vivem em nosso território. Vencer os preconceitos que se generalizaram e tornar evidente o débito de sucessivas gerações de brasileiros para com a herança da escravidão que se transformou em discriminação é apenas parte do desafio. O caminho da ascensão social, da igualdade jurídica, da participação política, terá de ser ratificado pela igualdade econômica que, em nosso caso, implica no fim da discriminação dos salários, maiores oportunidades de emprego e participação na vida pública de todos e com todos. O resgate se dá com políticas públicas de emprego, educação, saúde, lazer, e que abranjam a todos- sem discriminações de qualquer espécie.

* Advogado, sociólogo e Ouvidor de Polícia de Mato Grosso auremacio.carvalho@hotmail.com

Autor: Redação
Fonte: Diário de Cuiabá

Polícia prende nove pichadores de BH com a ajuda da internet

Vândalos postavam fotos em sites de relacionamentos


Elaine Resende – Portal Uai

A divulgação de fotos de pichação em sites de relacionamento da internet contribuiu para a polícia prender alguns responsáveis pela poluição visual de Belo Horizonte. Na manhã desta terça-feira, nove pessoas foram presas durante a Operação “Limpa BH”, feita em conjunto pelas polícias Civil e Militar e pela Promotoria de Combate aos Crimes Cibernéticos do Ministério Público Estadual.

Desde março os infratores eram investigados, também com a ajuda da Guarda Municipal da capital. Nesta manhã, 42 policiais civis, oito militares e um promotor de Justiça foram a casas dos suspeitos com os mandados de prisão. Segundo a promotora de Combate aos Crimes Cibernéticos, Vanessa Fusco, foi apreendido farto material como tinta, rolo, spray e pincéis. Os vândalos faziam as pichações principalmente nas Regiões Norte e Centro, tendo já sujado monumentos como o Pirulito da Praça Sete.

Os detidos serão indiciados por formação de quadrilha e julgados pela Justiça comum, podendo pegar pena de um a três anos de reclusão, que pode ser aumentada de um sexto a dois terços por caracterizar crime continuado. Com o indiciamento por formação de quadrilha, os pichadores não serão julgados pelo juizado especial, fórum no qual são, normalmente, apreciados os crimes por pichação.

Eles foram levados para o Departamento de Proteção à Ecologia, no Centro da capital, onde prestam depoimentos.

Araguaia: do mito ao homem Preto Chaves

Há dois anos pesquiso a biografia do dirigente comunista e guerrilheiro do Araguaia Francisco Manoel Chaves, ou apenas Francisco Chaves, ou talvez ainda José Francisco Chaves, ou, como recentemente noticiado, Edmur Bequis de Camargo. Muitos, como João Amazonas e Graciliano Ramos, o chamavam de Preto Chaves, outros por Zé Francisco, ou Preto Velho.

Por Agildo Nogueira Junior*

Foto Única – Arquivos da Guerra do Araguaia

Com tantos nomes pode-se imaginar a dificuldade de tal pesquisa. Mesmo tendo sido suplente do Comitê Central do PC do Brasil, eleito na Conferência da Mantiqueira, são poucas as informações sobre ele. A mais consistente, até o momento, é que era marinheiro e participou do levante de 1935. Preto Chaves viveu quase toda a sua vida adulta na clandestinidade, e foi bom nisso.

Mas os primeiros resultados começam a aparecer. Como a foto que ilustra esta matéria, a primeira que encontro. Ela foi publicada em janeiro de 1946 no jornal Hoje, um dos muitos jornais comunistas editados na década de 1940. Ele e os companheiros Carmínio Casamante – do comitê municipal de Sorocaba – e Orlando Burgos de Carvalho, de Barretos, voltavam de uma reunião ampliada do Comitê Nacional do Partido, no Rio de Janeiro. Ao que se sabe, até hoje sua fisionomia era desconhecida da maioria. Até no cartaz que mostra os guerrilheiros do Araguaia, consta o seu nome mas nenhuma foto.

Outra descoberta preciosa, que vai dando existência real ao imortal Preto Chaves, é a respeito de sua data e local de nascimento. Os indícios são de que tenha nascido no início do século 20 e que seja mineiro, ao invés de carioca como até agora se supôs.

Ainda há muito a ser pesquisado sobre sua história. Foi um período de grande efervescência política, tanto partidária quanto nacional. Uma pesquisa pessoal impõe grandes desafios e investimentos para sua conclusão. Uma grande ajuda pode vir de pessoas que o conheceram pessoalmente e estejam dispostos a dar o seu testemunho. Todas as informações são bem vindas. Escreva para jr.agildo@ig.com.br.

* De Campinas

Não deixe a sua cor passar em branco – o que esperar para o Censo de 2010

Wania Sant’Anna*

“Afastada a questão de desigualdade, resta na transformação biológica dos elementos étnicos o problema da mestiçagem. Os americanos do Norte costumam dizer que Deus fez o branco, que Deus fez o negro, mas que o Diabo fez o mulato. É o ponto mais sensível do caso brasileiro. O que se chama de arianização do habitante do Brasil é um fato de observação diária. Já com um oitavo de sangue negro, a aparência africana se apaga por completo é o fenômeno do passing nos Estados Unidos. E assim na cruza contínua de nossa vida, desde a época colonial, o negro desaparece aos poucos, dissolvendo-se até a falsa aparência de ariano puro.” Paulo Prado, Bacharel em Direito, fazendeiro, empresário e influente porta-voz da aristocracia paulista, em Retratos do Brasil, de 1928.

Em maio de 2008, no aniversário de 120 anos da Abolição do trabalho escravo, o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (IPEA) fez ecoar por vários órgãos uma informação, para muitos, bombástica: mantendo-se as tendências demográficas atuais para a população brasileira de “cor/raça” branca e negra, em 2010 a população negra deverá ser maioria no país.

No Brasil, acontecimento como esse tem uma longa história, com vários capítulos, e todos difíceis de serem tratados em um único artigo. No entanto, existe algo sobre ele que ressalta como especial. Ao contrário do desejo – manifesto ou oculto – de transformar o país em uma nação menos negra que o perfil da população demonstrava ao final da escravidão – e ao contrário da ideologia do embranquecimento – empreendida e glorificada por diversos meios ao longo de mais de um século – os afro-descendentes no Brasil não desaparecerão de forma tão simples quanto se pôde, um dia, imaginar.

Essa provavelmente maioria em 2010 demonstra a superação de barreiras impressionantes a sua existência física e cultural. Nunca é demais lembrar, por exemplo, que os incentivos público e privado à política de migração européia de finais do século XIX e início do século XX, responsável, em seis décadas, pelo ingresso de mais de 4 milhões de cidadãos europeus, teve como uma de suas justificativas o embraquecimento da população brasileira e resultou, entre outras conseqüências, no desprezo e restrição ao uso da mão-de-obra recém-liberta em atividades produtivas tanto nas regiões urbana como rural.

O histórico de esquecimento e desvalorização dessa parcela da população pode ser percebido em quase todas as esferas de realização de direitos sociais, econômicos, políticos e culturais. Por todo o país, a grande maioria da população afro-brasileira enfrentou, no seu primeiro século pós-escravidão, o infortúnio da fome, da insalubridade, do analfabetismo, da interdição ao voto por não saberem ler e escrever. Por todo século, em liberdade, os afro-brasileiros viram-se como alvos de aparatos de segurança por cultuarem os orixás, por jogar capoeira, por realizar rodas de samba, por não terem carteira de trabalho assinada, por terem uma “aparência suspeita”. Como diz o samba enredo, atravessou-se o século longe dos açoites da senzala, preso na miséria das favelas.

Assim, uma maioria afro-brasileira em 2010 desafia o histórico de taxas mais elevadas de mortalidade infantil, as sugestões freqüentes de esterilização das mulheres como o caminho mais “adequado” de redução da pobreza no país, as taxas mais elevadas de homicídio entre os jovens negros em qualquer região metropolitana. Assim, nós acreditamos que ser maioria, em 2010, é um acontecimento resultante da consciência forjada pelo discurso anti-racista de elevação da auto-estima da população negra e de luta por direitos elaborados pelas organizações do movimento negro e seus ativistas.

Se em mais de 120 anos os indicadores sócio-econômicos da população branca e negra permanecem apresentando diferenças tão expressivas na educação, nas condições de moradia, na ocupação, nos rendimentos resultantes do trabalho, na formação profissional, na ocupação de posições de decisão nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, qual o significado de, ainda assim, os afro-brasileiros virem a ser, numericamente, maioria em 2010 senão a consciência de que se deve, ao menos, respeitar a sua própria existência?

A persistência das classificações de cor

Considerando as classificações utilizadas nos censos brasileiros realizados desde o século XIX, é possível afirmar que a identificação étnico/racial da população brasileira não constitui uma realidade recente e que há 137 anos o país realiza levantamento sistemático sobre as origens étnico/raciais ou culturais de seus residentes. A novidade, desde os anos 80 do século passado é a pressão do movimento negro e seus ativistas para que os dados coletados fossem divulgados com regularidade para toda a população e a vitória obtida, nos anos 90, com o atendimento a essa demanda.

Nessa trajetória de classificação étnico/racial, importa relembrar que, no Brasil, o primeiro levantamento censitário, em 1872, foi determinado por uma lei tida como golpe fatal ao regime escravo: a Lei Rio Branco, ou como ficou popularmente conhecida, a Lei do Ventre Livre – de 28 de setembro de 1871. Interessados em realizar o “mais relevante levantamento sobre a população escrava” no Brasil, e proceder às medidas de libertação dos cativos, a Lei aponta no seu Artigo 8o que “O Governo mandará proceder à matricula especial de todos os escravos existentes no Império, com a declaração do nome, sexo, estado, aptidão para o trabalho e filiação de cada um”.

Desde então, e à exceção dos censos realizados em 1900, 1920 e 1970, todos os levantamentos censitários nacionais têm incluído perguntas referentes à cor e à etnia da população brasileira. Em 1910 e 1930 não foram realizados os levantamento censitários. A literatura disponível sobre o assunto informa que a não realização dos censos se deu por problemas de ordem política.

No Censo de 1872 foram utilizadas, além das classificações “livres” e “escravos”, as classificações de cor/etnia branco, preto, pardo e caboclo. No caso da população cabocla, esta incluía os indígenas e seus descendentes. Em 1890, não sendo mais necessário coletar informações sobre o status de livres ou escravos, foram utilizadas as classificações branco, preto, caboclo e mestiço.

Com a criação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1936, e a realização do primeiro levantamento censitário sob sua responsabilidade, em 1940, as classificações de cor/etnia serão mantidas com as denominações: branco, preto e amarelo. A novidade será a introdução de um espaço em branco reservado à resposta quando fosse impossível determinar a cor do recenseado. Neste caso, os recenseadores optaram por classificações tais como “caboclo, mulato e moreno”. As classificações resultantes da opção em aberto levaram a decisão de agrupá-las em uma única classificação: “pardos”. Data desta época a consolidação do “pardo” como uma síntese das classificações caboclo, mulato, moreno, cafuzo, entre outras denominações tidas como expressões do caráter miscigenado da população brasileira. Finalmente, a única alteração substantiva é a introdução, em 1991, da classificação indígena, consolidando cinco opções de classificação de “cor/raça” no país: branco, preto, pardo, indígena e amarelo.

São essas as cinco classificações clássicas, consolidadas entre os brasileiros nos levantamentos censitários, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e Pesquisa Mensal de Emprego (PME) e que tem ancorado as reivindicações de políticas públicas voltadas à população afro-descendente por todo o país. Ou seja, reivindicações pautadas em um sólido histórico de levantamentos nacionais sobre a “cor/raça” dos residentes no país e, portanto, sem nenhum motivo substantivo para alteração no Censo 2010.

Os rumores sobre as mudanças na coleta e na classificação de “cor/raça”

Em novembro de 2008, uma representante do IBGE presente ao Seminário Censo 2010 y la inclusión del enfoque étnico – Hacia una construcción participativa com pueblos indígenas y afrodescendientes de Amércia Latina, organizado pela Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL), no Chile, anunciou, entre outros destaques, uma significativa – senão decisiva – mudança na forma de coletar as informações sobre “cor/raça” no próximo censo brasileiro. Segundo essa representante, o IBGE já haveria decidido transferir a pergunta relativa à “cor/raça” da população do “questionário da amostra” para o “questionário básico”.

O que isso quer dizer? O processo de recenseamento inclui a utilização de dois questionários – o básico e o da amostra. O “questionário básico” é destinado à coleta de alguns dados junto a todas as pessoas residentes no país – ou seja, ele é o instrumento a ser aplicado a todos os domicílios ocupados.

O “questionário da amostra”, ao contrário, é aplicado apenas a uma parcela das pessoas residentes no país e, como o nome adianta, trata-se do ponto de vista da ciência estatística de uma amostra, um “extrato” do universo. Trata-se, portanto, de um instrumento a ser aplicado a uma fração dos domicílios ocupados. Mas um extrato suficientemente robusto porque substantivamente estratificado para representar de modo adequado o universo da população recenseada.

Além dessas duas distinções sobre a quem toca responder a um e outro questionário, outro diferencial fundamental nos dois instrumentos de coleta tem a ver com o seu conteúdo. Enquanto o “questionário básico” é composto de pouquíssimas perguntas o “questionário da amostra” inclui um vasto e variado conjunto de temáticas traduzidas em considerável número de perguntas. No que diz respeito aos domicílios visitados no Censo de 2000, o “questionário básico” incluiu apenas seis perguntas relacionadas às características dos moradores – a saber: sexo, relação com a pessoa responsável pelo domicílio, mês e ano de nascimento, idade, condição de alfabetização (sabe ler e escrever) e escolaridade (última série concluída).

No caso do “questionário da amostra”, além de todas as perguntas do “questionário básico”, este inclui um amplo conjunto de perguntas sobre característica do domicílio e de seus moradores. Em 2000, as perguntas relacionadas às pessoas residentes no domicílio ultrapassavam sessenta e, como de praxe, as respostas eram condicionadas a situações individuais, tais como a de ser mãe, estudante, empregado, aposentado, entre outras. Através dele é possível obter amplo diagnóstico dos domicílios, das pessoas e das famílias residentes no país – tipos de moradia, condição de ocupação e equipamentos domésticos no domicílio, posição na família, perfil das migrações internas, escolaridade, condição de atividade (emprego, desemprego, aposentarias), rendimento resultante de atividade produtiva ou não, informações sobre gestações, entre outros.

Até o presente, é no questionário da amostra que encontramos a pergunta sobre “cor/raça” da população brasileira. De fato, será no questionário da amostra que iremos encontrar as perguntas relacionadas ao campo da diversidade como, por exemplo: sexo, idade, religião, deficiência, naturalidade, nacionalidade, estado civil, entre outros. Resumindo, o “questionário da amostra” fornece informações importantes para um conjunto imenso de análises sócio-econômicas sobre a população residente no país bem como para o estabelecimento de políticas públicas para essa população.

Tendo isso em mente, a robustez da amostra e sua capacidade de representar o universo da população brasileira nos diversos temas investigados no Censo, que motivo levaria o IBGE a tomar a decisão de retirar a pergunta relativa à “cor/raça” da população do “questionário da amostra”, transferindo-a para o “questionário básico”? Nossa crença é a de que essa decisão não se justifica por outro motivo senão o de provocar problemas na coleta de informações sobre a “cor/raça” da população brasileira.

Outro rumor em torno do Censo de 2010 diz respeito a alterações das classificações de “cor/raça”. Segundo tais rumores, o IBGE estaria pensando em ampliar as classificações disponíveis, tendendo a incluir “matizes” de cor. Os argumentos estariam pautados na consideração de que, pelo país afora, as cinco classificações adotadas até aqui não dariam conta de captar o matiz “miscigenado” da população – ou seja, as classificações “preto” e “pardo” a partir das quais temos conseguido fazer expressar a consciência relacionada à afro-descendência e ao legado de 4 milhões de africanos – homens e mulheres – trazidos como escravos para o Brasil, devem ser alteradas para dar sentido ao vazio da “morenice”.

Isso é o que poderíamos chamar, na linguagem do futebol, de um “tapetão”. Para as organizações do movimento negro e seus ativistas a classificação “pardo” sempre foi um incômodo – pardo são os gatos e papel de embrulho. No entanto, também é verdade que nos últimos 35 anos essas organizações e seus ativistas logram conscientizar a população brasileira, em especial a população negra, de que o fenótipo negro, aquele que indica sem sofisma a herança da escravidão, constitui um dos mais fortes motivos de preconceito, discriminação racial e racismo, e que os indicadores de vulnerabilidade social, econômica, política e cultural de “pretos” e “pardos” são, rigorosamente, os mesmos. Assim, não existem divisões no interior desse grupo que justifique separações, ou negações à sua luta por direitos sociais, econômicos, políticos e culturais.

E, talvez, isso explique, por exemplo, outra importante mudança no padrão de identificação da população brasileira por cor ou raça. Entre 1991 e 2000, as variações em termos da participação relativa da composição da população total, segundo os grupos de cor, mostram que o percentual de população de cor preta aumentou mais de 22%, enquanto o de brancas só se incrementou em 3.5%, e as pessoas autodeclaradas pardas diminuiram em mais de 8%.

Enfim, todos esses dados não são sutilezas. Eles expressam muitos acontecimentos – da ampliação da consciência ao contato com um mundo globalizado que nos informa, a cada dia com mais vigor, as lutas contra a discriminação étnico/racial em todos os continentes. Nesse contexto, de emergência do debate sobre a má distribuição dos recursos simbólicos e políticos, em nível planetário, é ingênuo pensar que mudanças apresentadas às pressas e com intuito de frear esse sentido de consciência e conscientização possam ser estancadas dessa maneira.

É tempo de alerta. Não se pode correr o risco de perder tudo o que se conseguiu construir como série histórica de indicadores sobre o perfil das desigualdades sócio-econômicas que os levantamentos censitários, Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) e Pesquisa Mensal de Emprego (PME) nos fornecem de forma fidedigna. Quebrar essa série histórica é uma aventura sem limites. O Censo está aí e talvez seja o momento adequado de, mais uma vez, lembrar e atualizar a campanha, desenvolvida durante a realização do Censo de 1991, “Não deixe sua cor passar em branco – Responda com bom c/senso”.

Àquela época a Campanha listou três objetivos sensíveis, a saber:

  1. Sensibilizar pessoas de origem africana a declarar sua cor a partir do referencial étnico;
  2. Contribuir na construção de indicadores nacionais sobre as condições sócio-econômicas da população de origem africana;
  3. Fazer veicular uma mensagem positiva da população de origem negra tendo em vista a recuperação de sua auto-estima cultural e política.

Ao que tudo indica, em 2010, vamos ter a oportunidade de acrescentar ao menos mais um: assegurar que o combate ao preconceito, à discriminação racial e ao racismo seja um objetivo permanente de uma sociedade que deseje ser justa, democrática e anti-racista.

* Historiadora, pesquisadora de relações de gênero e relações raciais. Atualmente atua como consultora permanente da Comissão de Diversidade da Petrobrás.

Kuca 3000: Paz, justiça e sabedoria


Saudações! Vivemos um momento muito intenso aqui em Porto Alegre e em todas as regiões do nosso Estado. Ainda no final de 2008 o movimento daqui já se orgulhavam em ter incluído a palavra “Hip-Hop” dentro da legislação tanto da capital quanto estadualmente.



Grandes nomes do hip-hop do Rio Grande do Sul

Como no caso da lei 10.378, que garante no mês de Maio a Semana Municipal, que já está no 2º ano de atividades. De imediato, após a lei municipal de Porto Alegre, começaram as movimentações em torno de uma lei estadual, foi quando a Nação Hip-Hop Brasil apresentou ao Dep. Raul Carrion a proposta da criação dessa lei, e por ele levada a votação e aprovada de forma unânime pelos Deputados, ficando como referência o número 13.043, uma grande vitoria.


No dia 13 de junho por consequência dessa lei, aconteceu o 1º Encontro Estadual do Hip-Hop do RS, apresentando o espetaculo da cultura de rua. Mais de 700 manos e minas ocuparam o Auditório Dante Barone da Assembleia Legislativa com rap, break, graffiti e discotecagens . Teve até direito a interpretação dos hinos, nacional e rio-grandense, bem representado pelos reapper’s e DJs.

Foram entregues ainda homenagens a alguns veículos de comunicação pioneiros do hip-hop daqui do sul. Tivemos a participação dos MC’s pela PAZ, projeto que dentro do sistema carcérario, estimula uma nova metodologia de socialização de inclusão dos manos do lado de lá da muralha.

Ainda aconteceu mais um fato inédito por aqui, estou falando da 1ª Conferência Livre de Segurança Pública do Hip-Hop. Graças a esse importante passo do Governo Federal junto à população, abriu espaço amplo e democrático para debater segurança pública entre o movimento, tendo acontecido em um sábado durante todo o dia, inclusive com um almoço coletivo, foram tirados muitos encaminhamentos que serão levados para a Conferencia Nacional de Segurança fazendo a nossa voz ser ouvida.

Vem sendo frequente a presença do Hip-Hop em museus e casas de cultura, como a Usina do gazometro no centro da capital, onde acontecem exposições de graffiti, bem como eventos como o Lança de Ouro, premio concedido para as melhores iniciativas em diversas áreas da nossa cultura. A Art do Risco crew, grupo que faço parte, foi um dos vencedores recebendo o troféu “Lanceiros Negros” como destaque do graffiti.

Muitos olhares estão atentos ao hip-hop gaúcho e percebo uma acentuação positiva no hip-hop tanto na parte artística, mas principalmente nas questões sociais. Nós continuamos nas oficinas em escolas, os universitários ainda escrevem teses de mestrado sobre hip-hop, estamos nas vitrines, nas rádios, nos videoclipe’s, na internet, nas ruas, nas ong’s e associações sempre atuantes e independentes.

Contudo, vivemos em um cenário que conta com um governo neoliberal que não investe em educação, cultura, lazer e mantêm medidas repressivas de segurança pública, sem investir em prevenção para diminuir o grave índice de violência no estado. As filas em frente aos hospitais e postos de saúde, que começam a se formar em plena madrugada na luta por uma ficha de atendimento, sem saber quando será atendido. Não escondem a falta de atendimento público com o mínimo de dignidade aos idosos e crianças que recorrem ao SUS.

Os camelôs que antes ocupavam a praça XV de Novembro, foram forçados a ocupar cubiculos no novo centro popular de compras o que deixou muitos que ali ganhavam a vida sem onde vender suas mercadorias, iniciativa do prefeito deles, no processo de “embelezamento” do centro de Porto Alegre, abrindo espaço para um “belo” estacionamento.

Outra medida de “embelezamento” se deu ainda ano passado, ao apagarem os graffitis dos viadutos, onde antes se via obras de grandes artistas plásticos da nossa cidade,com tinta anti-pichação e hoje em dia com a colocação de “belos” azulejos azuis nesses mesmos viadutos.

Passeatas, greves e protestos contra o governo de Yeda Crusius fazem parte da nossa rotina tanto quanto as consequências do aquecimento global como a estiagem, que aumenta os preços do nosso arroz com feijão. A crise financeira mundial, as demissões em massa, são assuntos que dividem as manchetes com outro caso grave de saúde publica, o crack.

Hoje essa “pedra maldita” atinge todas as classes sociais, tendo sido protagonista de casos em que pais acorrentam seus filhos, chegando ao extremo de cometerem assassinatos, casos que despertaram a atenção da midia após um caso em um bairro nobre da capital. Nas ruas jovens matam e morrem fazendo muitas famílias infelizes.


Nas salas de aula, a desordem acontece e é bem visível, pois professores espancam estudantes, estudantes espancam professores e o nosso sistema de ensino continua ultrapassado para o século em que vivemos.

Volto a salientar a importância do hip-hop como cultura de paz, metodologia de ensino e resgate da alto estima de jovens em situação de risco.

Hoje, temos uma rede que ficou mais visível graças à reuniões semanais na Comissão de Educação, na Assembleia Legislativa que que por nós tem sido bastante frequentada, e tem sido palco de inúmeros debates e troca de informações afim de contribuir para nosso próprio avanço, alem de servir como ponto de referencia para os militantes e ativistas do nosso meio.

A unidade de ação deve ser pilar central para o hip-hop e suas demandas, despindo-nos do ego dos holofotes e encarando, de forma protagonista, os palcos onde acontecem as grandes lutas sociais, por nós, pelos nossos amigos, nossos amores e nossas famílias em busca de ”igualdade, liberdade e fraternidade” palavras que fazem parte da bandeira do Rio Grande do Sul, e hoje não fazem parte desse solo.

Passo a passo estamos avançando e já podemos pensar inclusive em consolidar um conselho do hip-hop do Rio Grande do Sul. O que aperfeiçoaria muito, desde nossa comunicação até elaboração e execução de projetos conjuntos com governos e com a iniciativa privada.

Somos muitos e queremos mudança, e ela começa por nós mesmos, procurando pelo conhecimento, dominando questões como a luta de classe, tão importante pra que nos reconheçam como movimento social, entrando em campo munidos de informação para o debate de ideias, sabendo reconhecer quem é o inimigo e quem somos nós mesmos.

Que a bandeira do hip-hop gaúcho e brasileiro tremule levando por onde passar ”paz, justiça e sabedoria”.

Kuca 3000 é Lucas da Veiga Costa, graffiteiro da Art do Risco Crew, PNQ crew, coordenador da Nação Hip-Hop Brasil POA-RS.
kuca3mil@hotmail.com

É Tudo Nosso! O Hip-Hop Fazendo História. Parte 7 – Amazonas






Negros fumantes têm cinco vezes mais risco de câncer

FERNANDA BASSETTE
da Folha de S.Paulo

A população negra brasileira que fuma tem até 5,21 vezes mais riscos de desenvolver câncer de pulmão do que os brancos fumantes. A constatação é de uma pesquisa realizada pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), que foi apresentada no Congresso Europeu de Pneumologia.

O câncer de pulmão é considerado o de maior mortalidade no mundo. Cerca de 90% dos casos estão relacionados ao consumo excessivo ou à exposição passiva ao tabaco. Para realizar o estudo, os pesquisadores da Unicamp avaliaram 464 pessoas, sendo 200 portadoras de câncer de pulmão e 264 saudáveis e não fumantes.

Segundo o pneumologista Lair Zambon, autor do estudo, a maioria dos negros avaliados apresentou uma mutação no gene CYP1A1*2A que é capaz de potencializar a ação dos componentes carcinogênicos presentes no cigarro, especialmente o benzopireno -substância altamente cancerígena.

Editoria de Arte/Folha Imagem

Cada cigarro possui mais de 4.000 substâncias e cerca de cem delas têm potencial para provocar câncer.

“Observamos que essa alteração genética é a mais comum encontrada nos negros e descobrimos que essa mutação está fortemente associada ao aparecimento do câncer de pulmão nessas pessoas”, diz Zambon.

Segundo o pesquisador, esse gene é responsável por facilitar o mecanismo de eliminação do benzopireno pelo organismo. Com o gene alterado e a dificuldade de eliminar a substância, aumenta o risco de desenvolver o câncer de pulmão.

Zambon reforça, entretanto, que os resultados refletem a situação dos negros brasileiros e não podem ser estendidos para toda a população negra -pois há a possibilidade de serem geneticamente diferentes.

O pneumologista Mauro Zamboni, do Serviço de Cirurgia Torácica do Inca (Instituto Nacional de Câncer), diz que vários trabalhos em todo o mundo vêm sugerindo essa possibilidade de maior incidência de casos na população negra, mas os resultados são conflitantes e não definitivos. “Apesar de o estudo ter um bom número de pessoas envolvidas, acho que amostra ainda é reduzida para ser extrapolada para a população brasileira na sua totalidade. O assunto é interessante, mas merece continuar sendo estudado”, diz.

Prática clínica

Para o pesquisador, os resultados têm impacto imediato na prevenção da doença nessa população, por meio de campanhas educativas que estimulem as pessoas a parar de fumar.

Ele diz ainda que, apesar dos resultados apontarem para uma questão genética, os pneumologistas não devem passar a fazer testes genéticos nos negros que fumam porque isso seria economicamente inviável.

“É muito caro e praticamente impossível fazermos exames genéticos em todo mundo. Temos argumentos suficientes para explicar aos fumantes negros que eles têm risco aumentado de desenvolver câncer de pulmão e que, por isso, devem parar de fumar”, diz.

O oncologista Jefferson Luiz Gross, diretor do Setor de Cirurgia Torácica do Hospital A.C.Camargo, acredita que o estudo poderá ter um impacto no desenvolvimento de tratamentos para esses pacientes. “Se você sabe que determinado gene está relacionado ao aparecimento do câncer, você pode estudar formas de bloquear a ação desse gene.”

Gross também afirmou que essa população não deve passar por exames genéticos, pois os negros que não fumam e apresentarem a mutação não têm o risco de câncer aumentado. “O grande vilão do câncer do pulmão é o cigarro. Em vez de fazer teste genético, é melhor convencermos as pessoas a parar de fumar”, afirma.

Editoria de Arte/Folha Imagem

Talentos do Morro Ganham o Mundo

Projeto do governo estadual seleciona 10 novos artistas da periferia, que passarão por cursos e gravarão CDs e DVDs
Fotos: Jackson Romanelli/EM/D.A Press
Grupo Samba de Quintal, que entrou na lista dos 10 mais, comemora oportunidade e curso do Sebrae, visto com expectativa também por Hugo dos Santos

Desceu as ladeiras, passou entre becos, seguiu por vielas e chegou ao asfalto. O som que antes era privilégio dos moradores do morro ganhou força e fôlego para contagiar todas as regiões da cidade, com a segunda edição do programa Vozes do Morro, que sobe ao palco com 10 novos talentos musicais. Todos trazem no gogó sonhos, talentos e a qualidade musical dos aglomerados, vilas e favelas de Belo Horizonte e da região metropolitana.

Para esta edição do programa, foram 323 inscritos, entre artistas solo e grupos musicais. Ontem, com corações aos pulos, 10 deles receberam a notícia de que foram selecionados. A partir de agora, começam uma nova etapa com direito a clipes, participação em programas de rádio e gravação de CDs e DVDs. “No ano passado batemos na trave, mas não desistimos. Desta vez, fizemos o gol”, comemorou Juninho de Souza, de 28 anos, um dos integrantes do grupo Samba de Quintal, que depois do resultado deu uma canja para quem quisesse ouvir, no Palácio do Governador, na Região Centro-Sul, representando a comunidade do Morro das Pedras, na Região Oeste. “Nossa maior expectativa é o projeto do Sebrae, que vai nos dar a oportunidade de fazer um curso para melhorar nosso trabalho”, destacou Juninho.

O rapaz se refere à grande novidade desta edição do Vozes do Morro: um projeto que oferece cursos de formação gerencial para estimular artistas a administrar bem a carreira e se preparar melhor para o mercado. Inédito, o curso foi desenvolvido pelo Sebrae, será realizado em módulos e tem caráter obrigatório para os participantes do programa.

Uma oportunidade a mais que, segundo Hugo Heleno Santos, de 28 anos, artista que figura entre os 10 selecionados desta edição, dará fôlego e gás para quem antes fazia shows apenas em restaurantes. “Há 15 anos sou músico, mas sei que agora estou dando meu maior salto. Ter sido selecionado é um abre portas para mim, que quero mostrar ao público o bom som da black music”, disse. Hugo cantou com o grupo U-Gueto e representa o Morro das Pedras.

Um dos grandes incentivos para os inscritos desta edição foi o sucesso e repercussão que tiveram os artistas que participaram do Vozes do Morro em 2008. Tim Santos, de 26 anos, baterista do grupo Cidadão Comum – um dos 10 selecionados ontem – ressalta que quem já passou pelo programa alcança voos mais altos na carreira. “Nós, que somos de Ribeirão das Neves, tocamos há 19 anos em pequenos festivais e eventos, mas sempre com número baixo de público. No ano passado, vimos que uma banda também de Ribeirão das Neves foi selecionada pelo Vozes do Morro, fez shows e participou de muitos eventos. Essa é a nossa expectativa, um reconhecimento do nosso trabalho, para que possamos avançar na carreira”, observou Tim.

NOVA OPORTUNIDADE
Em 2010, novos talentos entrarão para o Vozes do Morro, que lançará, no início do ano, a nova edição. De acordo com a presidente do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas), Andrea Neves, o programa não só permite à cidade conhecer e reconhecer talentos, mas, sobretudo, “cria novos valores, incentiva laços e a construção de um mundo melhor”.

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ATENÇÃO !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Aviso a todos que vão se preparando, se informando pois no ano que vem tem mais uma edição do Vozes do Morro.

Um Abraço a todos.
Força e Luta sempre!

Eustaquio Rocha
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Um salve à juventude que se respeita – Hamilton Borges Walê

Engana-se quem pensa que vou ficar aqui a frente de um monitor, escrevendo coisinhas ou respondendo a e-mails sobre conjuntura, ou publicando relatórios, resoluções e posicionamentos.

Hoje à tarde fui a CANA BRAVA. Entrei na casa onde um dos jovens foi assassinado pela política de segurança do estado. O colchão retorcido no chão ainda continha o sangue derramado covardemente pela polícia.

Os buracos de balas estão lá decorando o beco onde os caras moravam. O cheiro de morte exala das entranhas daquela comunidade. O medo e o terror promovido pelo estado e respaldado pelo governo, ta presente nos olhos das crianças e mulheres daquele lugar.

Uma mãe desolada, uma esposa em estado de choque, uma grávida a beira do parto desassistida, irmãos(ãs), sobrinhos(as), filhos e filhas chamando pelos seus.

Vi mais uma vez o quadro do horror frente aos meus olhos.

Vou retornar lá no domingo. Vou imprimir essas resoluções, moções e posicionamentos e levar para aquelas famílias e vou dizer que foi o CEJUVE que mandou.

Devo enrolar num papel de presente com a logomarca da SERIN?

Aos doloridos cotovelos inflamados, digo que tenho consciência do medo que sentem de perder seus empregos, ou de serem menos valorosos para suas estruturas partidárias. Mas digo também que não é problema nosso.

Quanto a Petrobrás, não vi um único real dessa empresa investido lá. A não ser que tenha sido gasto na campanha de algum companheiro correligionário.

Pra finalizar só uma pergunta básica. Quem da mesa teve na caminhada da Petrobras? Quem da mesa visitou Cana Brava. O que foi priorizado?

Por Hamilton Borges Walê

Cada vez mais mulheres usam cocaína, revela estudo

Por AE

São Paulo – A cocaína avançou pelo universo feminino, assim como já havia ocorrido com o álcool. Levantamento feito em todas unidades de atendimento de São Paulo, a pedido do jornal O Estado de S. Paulo, mostra que entre 2006 e 2008 quase dobrou o número de mulheres internadas por dependência do pó – anteriormente mais associado aos homens. E estão escondidas dessa estatística as pacientes que nunca procuraram ajuda médica e as que ingressaram em clínicas particulares de reabilitação. Trata-se de dependência que atinge todas as classes sociais.

Em 2006, foram hospitalizadas por uso de cocaína 365 mulheres, número que subiu para 589 em 2007 e para 696 no ano passado. São poucas, porém, as informações oficiais sobre o assunto. A evolução numérica informada pela Secretaria de Estado da Saúde explica também o impulso nos casos de overdose registrados por outra entidade, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

São dez casos de intoxicação por drogas registrados todos os dias no País, sem contar os que não são notificados. Isso porque os médicos – responsáveis pelas informações que abastecem o banco nacional da fundação – costumam sofrer pressão para que outro motivo seja assinalado como causa principal da intoxicação. “A amostra que chega aos nossos centros sofre com a subnotificação, quando a intoxicação foi por uma droga ilícita”, afirma a diretora do Sistema de Notificação por Intoxicação (Sinitox) da Fiocruz, Rosany Bothner. “A família do paciente, em especial, faz pressão para não registrar.”

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Saúde da Poulação Tem Comite Esvasiado


Por Dalmo Oliveira

Mortalidade materno-infantil é maior entre os negros

Mortalidade materno-infantil é maior entre os negros

A última reunião do Comitê Técnico de Saúde da População Negra (CTSPN), constituído dentro da Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa (SGEP) do Ministério da Saúde, nos dias 08 e 09 de junho, em Brasília, mostrou uma realidade preocupante: o descompromisso de setores do governo e da sociedade civil para com esse espaço político privilegiado que são as deliberações deste colegiado.

A idéia principal era validarmos indicadores de acompanhamento da Política de Saúde da População Negra. Neófito, estive na reunião representando a FENAFAL. Ouvi mais que falei, mas no segundo dia já sabia o que ocorria ali no primeiro andar do bloco “A” do Edifício Principal, no Setor Comercial Sul, Quadra 04. A proposta de pauta tinha inicialmente os seguintes pontos: 1. Apresentação da nova proposta do Sistema de Informação da Atenção Básica; 2. Respostas do Ministério da Saúde às demandas apresentadas; 3. Construção do documento do comitê para a Conferência Ambiental; 4. Apresentação do Relatório de Avaliação/2008 da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra; 5. Discussão da proposta de monitoramento e avaliação da Política; 6. Encaminhamentos.

Na tarde do dia 08 fomos recepcionado por Jacinta Senna, diretora substituta do Departamento de Apoio à Gestão Participativa, que fez um breve relatório, contemplando parcialmente o quarto ponto da pauta. Ela explicou que ocorreram substituições de pessoas dentro da SGEP e em outras áreas do ministério. “Mesmo com alguns problemas, percebemos que há um movimento no governo e na sociedade para que as demandas sejam cumpridas”, ressaltou.

Senna disse que a meta principal é para que ocorra uma redução de 5% no número de óbitos neo-natal e que o ministério está focado em estabelecer parcerias pelos principais pactos federais com municípios e estados das regiões Norte e Nordeste, onde o índice de adesão ainda é baixo na pactuação tripartite. Nessas regiões, 106 municípios estão sendo priorizados pelo Ministério da Saúde, visando a redução da mortalidade neo-natal

Jacinta estacou os recursos provenientes da portaria 3060/2007, destinada à qualificação de gestão do SUS, que recebeu ano passado cerca de R$ 1 milhão para ser captado pelas federações e municípios dentro do modelo fundo-a-fundo. “Infelizmente houve uma baixíssima execução, mas apenas o Espírito Santo não apresentou plano operativo”, revela a gerente, que informou na ocasião que para 2009 novo aporte está sendo disponibilizado pelo ministério, inclusive para aquisição de equipamentos e outras ações que não eram permitidas anteriormente.

Em seguida, Elisabeth Wartchow, da Coordenação de Gestão da Atenção Básica (CGAB), foi sabatinada acerca dos indicadores do Sistema de Informações da Atenção Básica (SIAB), que está em operação desde 1994. Ela disse que o DataSUS faz a categorização raça-cor desde 2000 e que atualmente o grande desafio é a informatização dos postos de saúde da família (PSF’s). Uma falha deste sistema é a falta de local para identificação de índios nos formulários eletrônicos disponíveis na internet.

Em relação à triagem neo-natal, Elisabeth diz que os dados nacionais não estão disponíveis nos sistemas informacionais do SUS. A questão da mortalidade de mulheres em pós-parto também preocupa os membros do comitê. Na Paraíba[1], por exemplo, em 2008, segundo a Vigilância de Saúde do MS, entres as mulheres que fizeram mais de sete consultas do pré-natal, 57,7% é de brancas e 43,7% de negras (pretas e pardas), sendo que 9,0% delas não declaram o quesito raça-cor. Outro dado que revela a vulnerabilidade da população não-branca no estado é o de óbitos de mulheres de 10 a 49 anos, segundo a publicação “Gravidez, parto e puerpério”, divulgada no ano passado, dos 20 óbitos registrados, 18 eram de negras, dentre as quais 15 foram identificadas como pardas.

“Embora haja um número grande de mulheres negras grávidas que têm acesso ao número de consultas de pré-natal preconizado pela OMS (6 e mais), são elas as que mais morrem por causas maternas evitáveis, em especial eclampsia e pré-eclampsia. Essas mulheres ainda recebem ‘alta de pré-natal’ no oitavo mês, período em que, segundo a OMS, deveriam receber atenção mais personalizada, tempo em que os profissionais de saúde, deveriam estar mais atentos ao que ocorre com ela até que o parto ocorra”, avalia Fernanda Lopes, Oficial de Programa em Saúde Reprodutiva e Direitos do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Entre as responsabilidades sanitárias das instâncias gestoras do SUS, o grupo optou por definir apenas dois indicadores. O primeiro deles será o levantamento da proporção de triagem neonatal, obtido pelo número de nascidos vivos que realizaram os exames na fase dois do teste do pezinho, onde se detecta a doença falciforme, dividido pelo número total de nascidos vivos, multiplicado por 100. O outro é a proporção de estados e capitais com instâncias de promoção da equidade em saúde.

Racismo institucional – Boa parte dos dois dias de reunião foi gasta na discussão sobre estratégias de adoção, pelo ministério e pelas secretarias de saúde (e seus órgãos), de políticas de combate ao racismo institucional e de promoção da equidade no SUS e seus conveniados. Para Lúcia Xavier, da ONG Criola, o grande impasse no convencimento do ministério sobre a importância em discutir essa questão tem sido a escolha dos pontos de vista do racismo como prática individual ou institucional. “Uma pesquisa realizada em 2003, pela Fundação Perseu Abramo, apontou que os trabalhadores da área da saúde não percebem as práticas de racismo institucional nos locais onde trabalham”, comenta Xavier. Ela observa que “a auto-declaração é orientada. É preciso respeitar a auto-declaração no SUS, porque reconhecer ou não sua afro-descendência é uma prerrogativa de cada um”.


[1] ANEXO 1

ANEXO 1

Proporção de 7 consultas ou mais de pré-natal, Brasil, 2007

Branca negra não informada a raça/cor

BRASIL 71,5 43,1 6,1

NORTE 45,5 29,8 0,5

Rondonia 44,5 28,8 0,8

Acre 52,2 33,6 4,8

Amazonas 48,0 30,0 0,3

Roraima 53,0 38,3 0,3

Para 40,9 27,8 0,2

Amapa 25,0 26,4 0,2

Tocantins 53,2 39,8 0,1

NORDESTE 53,1 37,3 7,8

Maranhao 33,4 23,0 13,9

Piaui 51,4 43,9 0,3

Ceara 55,6 46,7 12,0

R G do Norte 51,4 42,3 2,0

Paraíba 57,7 43,7 9,0

Pernambuco 54,7 40,3 0,8

Alagoas 61,5 39,8 0,6

Sergipe 66,8 43,6 23,9

Bahia 52,3 33,3 10,0

SUDESTE 76,7 57,9 7,8

Minas Gerais 72,6 52,3 10,9

Espirito Santo 73,4 57,7 1,5

Rio de Janeiro 75,5 54,2 2,3

Sao Paulo 78,2 66,2 8,8

SUL 73,2 60,6 0,1

Parana 76,7 69,5 0,1

Santa Catarina 67,6 51,1 0,2

R G do Sul 72,7 56,2 0,1

CENTRO-OESTE 72,8 54,3 6,9

M Grosso do Sul 71,4 56,2 0,1

Mato Grosso 69,9 55,2 0,1

Goias 73,3 52,8 10,7

Distrito Federal 77,4 54,5 12,8

Fonte: Vigilância de Saúde/Ministério da Saúde

Escola do País é dominada por preconceitos, diz estudo

Por AE

São Paulo – O preconceito está presente entre estudantes, pais, professores, diretores e funcionários das escolas brasileiras. As pessoas com deficiência, principalmente mental, seguidas de negros e pardos são as que mais sofrem com esse tipo de manifestação. Foi comprovada pela primeira vez uma relação entre preconceito e o desempenho na Prova Brasil, cujas notas mais baixas estão onde há maior hostilidade ao professor. Essas conclusões estão no estudo feito a pedido do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep) e da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, órgãos do Ministério da Educação (MEC).

Os dados deste estudo inédito foi realizado em 501 escolas com 18.599 estudantes, pais e mães, professores e funcionários da rede pública de todos os Estados do País. A principal conclusão foi de que 99,3% dos entrevistados têm algum tipo de preconceito e que mais de 80% gostariam de manter algum nível de distanciamento social de portadores de necessidades especiais, homossexuais, pobres e negros. Do total, 96,5% têm preconceito em relação a pessoas com deficiência e 94,2% na questão racial.

“A pesquisa mostra que o preconceito não é isolado. A sociedade é preconceituosa, logo a escola também será. Esses preconceitos são tão amplos e profundos que quase caracterizam a nossa cultura”, afirma o responsável pela pesquisa, o economista José Afonso Mazzon, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA).

Segundo Daniel Ximenez, diretor de estudos e acompanhamento da secretaria, os resultados vão embasar projetos que possam combater preconceitos que a escola não consegue desconstruir. “É possível pensarmos em cursos específicos para a equipe escolar. Mas são ações que demoram para ter resultados efetivos.” As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

A miséria faz coisas inacreditáveis. Prendam o governo, também!

Já está presa mãe flagrada pela reportagem do ‘Fantástico’ em Portel [PA], no Marajó, que negociou a filha por R$ 500...

Nelson Tembra

Os maiores problemas do Marajó estão na parte oriental do arquipélago. A parte leste, mais desenvolvida, é onde se concentra o maior movimento turístico e os Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) são melhores. Na parte oriental, ficam municípios como Portel, que estão entre os de menor IDH do Estado.

Já está presa mãe flagrada pela reportagem do ‘Fantástico’ em Portel [PA], no Marajó, que negociou a filha por R$ 500...

Os políticos, com raríssimas exceções, não se empenharam para lutar por políticas públicas de desenvolvimento para a região.

Os problemas de malária e roubo de gado, devastação de açaizais, pesca predatória, saque de sítios arqueológicos, exploração sexual infanto-juvenil, biopirataria, invasão e grilagem de terras formam o rosário de sofrimentos ao qual está exposto o meio ambiente e moradores, não somente de Portel, mas de grande parte da região do Marajó.

O potencial turístico do Município, cujo território supera o de muitos países europeus, não somente em dimensão, como também em belezas cênicas, se confirma através dos acidentes geográficos ecologicamente mais relevantes, que são os rios Pacajá, Anapú e Camarapi e as baías de Melgaço, Portel, Pacajá e Caxiuanã. Portel apresenta várias cachoeiras, entre elas a Grande do Pacajá, Pimenta, Piranha, Piracuquara, Pilão Grande do Tueré e Comprida.

Portel divide com o Município de Melgaço a Floresta Nacional do Caxiuanã, com área de 200.000ha. (2.000 Km²), dentro da qual o Museu Paraense Emílio Goeldi implantou uma estação ecológica com o objetivo de racionalizar a exploração do potencial madeireiro.

A análise do quadro natural da região aponta como alternativa de exploração econômica de seus recursos, além da grande possibilidade do turismo, a atividade agrícola e, em especial proporção exploração dos recursos da floresta. Mas é necessário trazer a exploração florestal para a legalidade, em vez de empurrá-la para a ilegalidade, e criar a infra-estrutura necessária, principalmente, a linha de transmissão de energia elétrica.

As florestas nativas, se manejadas de forma correta, podem produzir mais do que a agropecuária. Existe ainda o potencial de produzir, na mesma floresta, polpa de açaí, plantas medicinais, essências aromáticas etc. Isso ilustra o óbvio: a floresta em pé vale mais do que no chão. As florestas devem ser vistas como espaços estratégicos para o desenvolvimento sustentável da Amazônia, do Brasil e da própria América ‘latrina’.

Uma expressiva zona abrangendo grande parte da área estendendo-se ao litoral sul do Amapá ainda é recoberta por uma vegetação florestal densa, que apresenta tanto potencial madeireiro quanto extrativista, projetos de seqüestro de carbono e mecanismos de desenvolvimento limpo (até quando?).

A crise no setor extrativista madeireiro, que sempre movimentou a maior parte da economia na região, fez com que as poucas empresas do setor instaladas no município, e que atuavam na legalidade, fechassem as portas e paralisassem atividades, agravando o contingente de desempregados sem alternativas concretas de sustentabilidade.

A população encontra-se praticamente abandonada, sem contar com estruturação fundiária básica, e sem os serviços de responsabilidade do poder público de forma satisfatória que permitiriam acesso ao crédito agrícola, ao mesmo tempo em que haveria necessidade de organização de associações ou cooperativas no município para pleitear o financiamento da produção.

Se a miséria faz com que esse tipo de degradação humana ocorra na área urbana, imaginem o que acontece na zona rural. É comum os próprios pais levarem suas filhas, menores púberes, em pequenas canoas até as balsas de transporte das toras de madeiras, muitas vezes ilegais, para, em troca de ‘favores sexuais’ à tripulação, receberem pequenas porções de alimentos a alguns litros de óleo diesel para mover seus geradores de energia.

A conferência da Igualdade Racial e os desafios para luta contra o racismo



por Edson França*

Nos dias 25, 26, 27 e 28 de junho de 2009, se realizará em Brasília, no Centro de Convenções Ulisses Guimarães, a 2ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial – 2ª Conapir, oficialmente seu objetivo é de avaliar e repactuar as diversas ações em andamento, firmar, em diálogo sociedade civil e governo, novas metas e compromissos para estabelecer a agenda futura das políticas públicas de promoção da igualdade racial no Brasil.



Considero que as conferências de políticas públicas é mais um avanço do Governo Lula. Precisamos valorizá-las, pois podem contribuir sobremaneira com o desenvolvimento do diálogo entre o Estado e a sociedade civil organizada. Apesar dos grandes limites e que o palco mais viável para o movimento popular combater sejam as ruas, não podemos negar que as conferências têm mobilizado grandes contingentes, por isso podem ser um instrumento positivo para garantir pressão e participação popular na formulação e implantação das políticas públicas.

A 2ª Conapir se realizará diante de um delicado cenário para luta contra o racismo. Poderosas forças políticas e sociais avançam contra as principais proposições apoiadas pelo movimento negro. Os Projetos de Leis 6564/05 e 73/99 que instituem o Estatuto da Igualdade Racial e o Sistema Especial de Reserva de Vagas para Estudantes Egressos de Escolas Públicas – em especial negros e indígenas -, respectivamente, correm riscos de serem rejeitados no Congresso Nacional, pois enfrentam oposição organizada do DEM, PSDB, PPS e contam com a defesa tímida ou desconfiança de setores esquerda – ainda que sempre tenham se posicionado ao lado do povo. O Decreto Presidencial 4887/2003 que estabelece regras para titularização das terras quilombolas enfrenta uma ADIN proposta pelo atual DEM, além de estar sob a mira dos ataques da bancada ruralista que atua no Congresso Nacional.

A oligarquia midiática formada pelo consórcio que une Globo, Folha de São Paulo e Editora Abril milita contra todas as propostas de combate ao racismo, desinformando a opinião pública, constrangendo a classe política e absurdamente negando a existência do problema racial no Brasil. Ainda que existam organizações do movimento negro em quase todos os municípios do país; que os mais sérios institutos de pesquisas indiquem em seus estudos a existência do racismo e da desigualdade social, econômica e política entre negros, brancos e índios; que empiricamente vemos, quando não, percebemos o racismo, a negação do fato alicerça a retórica de Ali Kamel e seus correligionários.

Por outro lado, existem no interior do movimento negro quem faça defesa das políticas contra o racismo com argumentação tosca, obtusa, estreita e alienígena, diante das condições culturais e sociológicas do Brasil. Esse setor atrapalha, pois sua atuação constrange outras forças sociais anti-racista e não negras, assim contribuem com o isolamento do movimento negro e da luta política contra o racismo. Suas mensagens são contrárias aos verdadeiros anseios dos negros e do povo brasileiro. Advogam a existência de um povo negro separado do povo brasileiro e negam a unidade nacional; embebidos pelos ideais pós-modernistas e multiculturalistas não consideram as contradições de classes como elemento de estabelecimento de desigualdade coletiva, por isso pregam saídas exclusivistas; transplanta visões afrocentrada, anacrônica e inadequada a realidade do racismo no Brasil – são heranças da luta pelos direitos civis dos negros americanos e do movimento político cultural intitulado Negritude. Esse movimento surgiu na década de 50 do século passado, através da valorização das singularidades culturais africanas e críticas aos valores eurocêntricos contribuíram com a elevação da auto-estima dos africanos impulsionaram a descolonização no continente.

A luta dos negros brasileiros contra o racismo e pelo desenvolvimento social, econômico e político está diante de um flagrante impasse. Poderá ser equacionado após um processo de negociação envolvendo o movimento negro e as forças vivas que atuam na sociedade e no Congresso Nacional. Reafirmo que a questão racial é um problema posto à nação e não somente aos negros.

No entanto, até hoje, o movimento negro não delegou legitimidade a nenhum ator político negociar em seu nome, além de não se colocar explicitamente aberto a negociação. Isso é grave, pois não percebem que a manutenção do impasse será mais um veneno para derrotar as propostas do movimento negro. Temos que aproveitar a 2ª Conapir para debater formas de superar as principais deficiências do movimento negro que estão atrapalhando a aprovação das suas propostas, em outras palavras, “temos que fazer o dever de casa”.

Para isso será necessário abandonar a retórica divisionista, compreender que o combate ao racismo e a promoção da igualdade social tem relação com resgate de direitos sonegados no passado e no presente. Não estamos tentando fazer ajustes de contas com os herdeiros dos antigos senhores de engenhos, estamos apresentando propostas que contribuirão com desenvolvimento social do Brasil. Será fundamental iniciar um processo de negociação, procurando convergências de concepção, afirmação da indivisibilidade da nação e assumindo o princípio da desracialização. O movimento negro tem que abrir mão de pontos, mas assegurar a manutenção do caráter de ação afirmativa, contido nas propostas – especialmente em relação ao Estatuto da Igualdade Racial que sofre resistência mais ampla, inclusive de setores importantes do movimento negro brasileiro.


Racismo institucional

Quanto ao sistema de promoção da igualdade racial em curso, a conferência pode contribuir com sua consolidação, pois também está sob mira. Além da ação política dos racistas citados acima e da concepção equivocada de setores do movimento negro, a arma apontada para Seppir chama-se racismo institucional.

Consiste no fracasso das organizações do Estado e dos gestores governamentais em prever um serviço profissional e adequado às pessoas considerando as singularidades sociais produzida em razão da cor, cultura ou origem étnica. Essa incapacidade é decorrente da crença de que no Brasil não existe problema racial. Apesar de o Estado reconhecer a existência do racismo e ter diagnóstico da sua incidência sobrevive em suas entranhas a convicção que vivemos sob a égide da democracia racial.

O racismo institucional determina a inércia das organizações do Estado e gestores governamentais frente às evidências das desigualdades raciais. Só anularemos o poder deletério do racismo institucional ao desenvolvimento das políticas de combate ao racismo e promoção da igualdade social se houver ações capazes de combater insistentemente a forma como o Estado brasileiro e os governos concebem o caráter universal das políticas públicas.

Tenho dito nos debates que não é aconselhável distribuir políticas públicas como se distribui milho aos pombos, sempre há pombos que por alguma razão não consegue se alimentar dos milhos jogados ao chão. Nesse caso, para verdadeiramente universalizar é necessário garantir a todos os pombos acesso ao milho, mesmo que seja necessário adotar medidas diferenciadas durante um tempo determinado para atender o pombo que por alguma desvantagem tem menor mobilidade para alcançar o alimento.

Esse é o fundamento das ações afirmativas, garantir igualdade de oportunidade e tratamento, compensando perdas provocadas pela discriminação e marginalização, decorrentes de motivos raciais, étnicos, religiosos, de gênero e outros. Quando adotamos ações afirmativas, estamos, em última instância, universalizando de fato direitos sonegados. A 2ª Conapir está desafiada a lancar mãos de meditadas para capacitar o Estado a entender que as ações afirmativas não se contradiz com o princípio da universalidade, ao contrário, completa, pois esse principio não se justifica sem equidade.

Recursos públicos para políticas de combate ao racismo e promoção da igualdade social

Enquanto não se disciplina o Estado e os gestores governamentais, as políticas de combate ao racismo e promoção da igualdade tem que fluir satisfatoriamente, pois uma máquina gigante e obsoleta não responde no tempo necessário as demandas. Daí a importância da 2ª Conapir contribuir com propostas e ações que contribuam para equacionar o imbróglio orçamentário. Considero que a vontade política de disponibilizar, ou ter carimbado, recursos para políticas sociais é uma decisão diária em qualquer governo. Tratando-se da agenda anti-racismo a resistência cresce.

Compreendo que o movimento negro e demais movimentos sociais tem que enfrentar com mais radicalidade esse debate. Entrar no âmago da questão, trabalhar para desobstruir resistência e vencer forças políticas conservadoras que desviam os recursos públicos para suas contas bancárias. O Estado está em disputa sim. É um erro negá-lo e abandoná-lo para usufruto da burguesia.

Por isso concordo com a proposta da Unegro em reivindicar através da 2ª Conapir a obrigatoriedade de previsão no plano plurianual (PPA) e nas leis orçamentárias de recursos para políticas de combate ao racismo e promoção da igualdade social, bem como, carimbar 3% do orçamento público para mesma demanda. Precisamos debater o destino do dinheiro que o povo paga através dos tributos.


Reposicionamento político do movimento negro

Além do debate sobre os rumos das políticas públicas e comportamento do governo frente a agenda anti-racista, a 2ª Conapir será o palco que apresentará como se encontra o quadro das forças políticas no interior do movimento negro, o que pensam, propõe, onde estão organizadas e como se relacionam. O processo de construção da conferência foi muito intenso, mobilizou os estados, capitais e vários municípios, é possível prever que haverá novidades que trará novos desafios.

Destaco o vertiginoso crescimento da União de Negros Pela Igualdade – Unegro, essa será sem dúvidas a maior organização presente na conferência. Terá oportunidade de fortalecer as correntes de opinião do movimento negro que articula a luta de classe, gênero e raça. A Unegro tem proposto uma nova agenda no movimento negro, que considera a necessidade de ações integradas com o movimento social, organização dos negros brasileiros nos partidos políticos de esquerda, nos sindicatos e em outros espaços da luta político-social brasileira. Forlalecerá o posicionamento que aposta no Brasil, na unidade do povo brasileiro e na construção do socialismo. A Unegro será uma força atuante na 2ª Conapir, estará comprometida com o fortalecimento político da promoção da igualdade social, seu crescimento contribuirá com o aumento do pensamento marxista no interior do movimento negro.

A emersão política dos religiosos de matriz africanas e o consequente empoderamento de suas lideranças e organizações (Coletivo de Ientidades Negras – CEN, Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-brasileira – Cenarab, Instituto Nacional da Tradição e Cultura Afro-Brasileira – Intercab, Coordenação Amazonense das Religiões de Matrizes Africanas e Ameríndias – Carma) colocará em definitivo a pauta da intolerância religiosa para o governo federal e irá interferir no reordenamento político do movimento negro, por isso é um segmento muito disputado. Devemos todo o carinho a demanda apresentada pelo povo de santo, a coletividade do movimento negro deve atentar para que seus pleitos pleitos fundamentais sejam observados, salvaguardando a laicidade do Estado, respeito ao direito de crença e o fortalecimento da cultura da paz e da interreligiosidade.

Os quilombolas através da Conaq e a juventude negra organizada são também forças emergentes, com alto poder de interferir nos resultados da conferência. Terão força política para dar centralidade na pauta política do governo, trarão críticas a morozidade do Estado regularizar as terras quilombolas e contra a violência que ceifa a vida dos jovens negros. Verificaremos como vem algumas forças importantes do movimento negro (Conen, APNs e Grucon) aparentemente perderam força, como conferência é momento de reaglutinação de forças é possivel recuperar posição, mas não serão forças hegemônicas. Partidariamente o PT continua com maior presença no movimento negro, joga um papel importante na luta contra o racismo, na atual conjuntura cresce o equilíbrio de forças com o protagonismo de outros partidos: PCdoB, PMDB, PDT, PSDB e PSB. Essa conferência será propícia para emersão das forças partidárias. Veremos, volto com um texto de avaliação final da Conferência.




*Edson França, É Coordenador Geral da Unegro, membro do Conselho Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (CNPIR) e da coordenação da Conen-Coordenação Nacional de Entidades Negra

Filho de atirador de museu nos EUA diz que ódio racial arruinou família

da Efe, em Washington

O filho de James von Brunn, acusado de assassinar um segurança do Museu do Holocausto em Washington, disse neste sábado que o episódio é “imperdoável”, e afirmou que o ódio racial de seu pai foi uma praga que arruinou a família.

Erik von Brunn, de 32 anos, manifestou suas condolências à família do vigia negro Stephen Johns em entrevista divulgada na edição digital do jornal “The Washington Post”.

James von Brunn foi acusado formalmente na quinta-feira de homicídio pelo FBI (Polícia federal americana) e pela polícia local, e pode ser condenado à morte.

As autoridades estudam a possibilidade de apresentar acusações por crime racial e contra os direitos civis, conforme informou em entrevista coletiva na quinta-feira o diretor associado da unidade de Washington do FBI, Joseph Persichini.

Na quarta-feira, Brunn entrou no Museu do Holocausto de Washington armado com uma espingarda e disparou contra o segurança negro Stephen T. Johns, de 39 anos, que morreu em decorrência dos tiros.

O atirador também ficou gravemente ferido, após ser baleado pelos guardas do museu, um dos mais visitados da capital americana.

O filho do acusado disse ao “Washington Post” que só conheceu o pai aos 11 anos, quando Von Brunn saiu da prisão após cumprir seis anos e meio de pena por tentar sequestrar membros do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) em 1981.

“Naquele momento já tinha essas crenças”, disse Erik von Brunn, que afirmou que o ódio racial sempre fez parte de sua vida.

O filho do atirador disse que o ataque de quarta-feira o deixou abalado, e afirmou que nunca pensou que seu pai pudesse fazer algo assim.

Crimes passionais de mulheres chocam Minas

Pelo menos 120 mulheres foram assassinadas este ano, em sua grande maioria em crimes passionais. Onda de estupros e violência também assusta familiares das vítimas
Amaury Ribeiro Jr. – Correio Braziliense
Marcelo Sant’Anna/EM/DAPress
A dona de casa Isabel Maria da Silva chora no quarto de sua filha Amanda, assassinada em abril deste ano, em Lagoa Dourada, e vive à custa de tranquilizantes

Embora morassem a 150 quilômetros de distância, as estudantes Amanda Glívia Vale, de 19 anos, e Júnia Aparecida da Silva, de 20, tinham hábitos e sonhos em comum. Criada no município de Lagoa Dourada, a 150 quilômetros de Belo Horizonte, Amanda trabalhava numa confeitaria de rocambole e tinha a esperança de concluir em breve o curso de administração de empresas. “Deus, tomai minhas mãos e conduzi-me para onde quiseres”, escreveu a estudante, católica praticante, em seu diário no início do ano. O manuscrito se encontra até hoje em seu quarto, decorado com imagens de santos e fotos de cães dálmatas e outros bichos e personagens de desenho animado.

Cursando o terceiro período do curso de biologia na Fundação Helena Antipoff, Júnia, que morava no município de Ibirité, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, também era apegada à religião e aos animais. A estudante, que tinha uma paixão especial por sapos, trabalhava num pet shop para custear os estudos e nas horas vagas fazia trabalhos voluntários na paróquia do bairro.

Os sonhos das duas jovens foram interrompidos de forma brusca em abril deste ano. Amanda saiu de casa por volta das 11h do dia 10 em direção ao Centro de Lagoa Dourada, onde acontecia uma festa. Nunca mais voltou. O corpo foi encontrado dois dias depois com as mãos mutiladas e sinais de violência sexual num terreno baldio a duas quadras da casa dela, no Bairro das Vertentes. Preso pela polícia, o auxiliar de pedreiro Fernando dos Anjos, de 26, vizinho de Amanda, confessou o crime. “O crime arrasou toda a família. Ninguém tem mais vontade de viver”, desabafa aos prantos Isabel Maria da Silva Vale, de 42, mãe de Amanda, que vive à custa de tranquilizantes depois do assassinato da filha.

A polícia também está próxima de elucidar o crime de Júnia, encontrada morta no dia 14 do mesmo mês com um tiro na cabeça a cinco quadras de sua casa, em Ibirité, um dia depois de ter saído de manhã para ir à faculdade. As investigações apontam, como suspeito, um ex-namorado da estudante (cujo nome está sendo mantido em sigilo). A polícia já sabe, por exemplo, que ele não se conformava com o rompimento do relacionamento e chegou a marcar um encontro com a estudante no dia do crime.

Levantamento do EM realizado em 120 das 800 delegacias de polícia do estado mostra que o assassinato das duas não foi um fato isolado. De janeiro a maio deste, pelo menos 120 mulheres foram assassinadas. De acordo com levantamento da Divisão de Crimes contra a vida, somente na Região Metropolitana de Belo Horizonte 60 mulheres foram mortas com requintes de crueldade. A maioria dos assassinatos ocorreu em abril deste ano, que passou a ser chamado no meio policial como “abril negro”.

“A maioria arrasadora desses assassinatos infelizmente foi de crimes passionais, tendo como autores ex-parceiros ou pretendentes das vítimas”, afirma o delegado Edson Moreira da Silva, chefe do Departamento de Investigações de Pessoas Desaparecidas. Além de trazer em foco novamente os chamados crimes passionais, que levaram os movimentos feministas do país a saírem às ruas na década de 1970 com o slogan “Quem Ama não Mata”, o abril negro chamou a atenção para o grande número de crimes e atos de violência contra a mulher, apesar da aprovação pelo Congresso Nacional, em 2006, da chamada Lei Maria da Penha, que criou penas mais severas para os crimes domésticos. De acordo com levantamento da Delegacia Especializada de Crimes contra a Mulher, cerca de 200 mulheres são estupradas ou vítimas de violência, por semana, na Grande BH. No ano passado, foram instaurados 11,5 mil inquéritos para apurar esses crimes, o que resultou na abertura de 1.000 inquéritos a mais em relação ao ano anterior.

Vítimas e algozes em todas as classe sociais

Cozinheira é assassinada pelo marido em frente de juiz de direito. Despachante executa comerciante por ciúmes na Região Central de Belo Horizonte
Amaury Ribeiro Jr. – Correio Braziliense
Euler Júnior/EM/D.A Press/Reprodução
O padrasto da balconista Daniela Bertoza Pereira lhe tirou a vida em Ribeirão das Neves
Os levantamentos do Estado de Minas nas delegacias do estado mostram que as vítimas e os autores de crimes passionais estão distribuídos nas mais variadas classe sociais. Os dados estatísticos revelam ainda que os criminosos não escolhem o horário e o local para eliminar a mulher ou ex-companheira. O assassinato da cozinheira Silvana Evangelista de Mattos, às 18h do dia 22 fevereiro, em frente ao prédio da Associação Mineira de Magistrados (Amagis), exemplifica a estatística macabra. A cozinheira, que trabalhava na cantina da Amagis, foi morta com várias facadas pelo ex-marido Antônio Mattos na Rua Albita, no Bairro Cruzeiro, um dos mais nobres de Belo Horizonte. O crime foi presenciado pelo juiz da comarca de Brasópolis, Mário Paulo de Moura Campos Montoro, que saía do prédio da associação com seu carro na companhia da mulher e dos filhos. “Ao ver um homem esfaqueando a mulher, subi a rua na contramão, buzinei bastante e joguei o carro na direção do autor na tentativa de que se assustasse e interrompesse o ato, mas, quando cheguei, ele já estava se esfaqueando”, disse o juiz nos autos do processo.

A cozinheira, que ao tentar se defender teve a mão esquerda decapitada, morreu com vários cortes espalhados pelo corpo. Depois de eliminar a ex-mulher, que se recusava a reatar o relacionamento, Antônio de Matos, que está desempregado, passou a desferir golpes contra o próprio corpo. Encaminhado ao Pronto-Socorro João XXIII, ele contou à polícia, depois de se recuperar dos ferimentos, que decidiu assassinar a ex-mulher após tê-la visitado na Amagis. Diante da nova recusa da mulher em reatar o relacionamento, Montoro não hesitou em se apoderar da faca da cozinha em que a mulher trabalhava para praticar o crime.

“Esse é o caso típico que exemplifica o egoísmo do homem que resolve matar a mulher simplesmente por não aceitar que ela tenha uma vida própria. A cozinheira deixou o marido ao descobrir que ele tinha uma amante. Mesmo assim, ele resolveu se vingar porque queria que a mulher aceitasse que ele ficasse com as duas”, afirmou a delegada especializada em homicídios Helenice Cristine Batista Ferreira, que investigou o caso.

A tentativa de desvincular-se do marido também acabou sendo fatal para a comerciante Edinara Dinis de Faria Oliveira, de 36. Ela foi assassinada em 7 de janeiro com um tiro no peito pelo ex-marido, o despachante de trânsito Cláudio José de Oliveira, de 45, quando trabalhava no caixa do açougue da família, localizado na Praça 15 de Junho, no Centro de Belo Horizonte. Segundo um funcionário do açougue, Cláudio chegou por volta das 15h, indo direto ao caixa falar com a ex-mulher, que há oito meses havia se mudado para casa dos pais na companhia do filho de 14 anos. Depois de tentar convencer, em vão, a ex-mulher a retornar para casa, em companhia do filho, o despachante começou a pôr em prática o plano para assassiná-la. Depois de pedir um quilo de carne para despistar, ele se dirigiu ao caixa para acertar um tiro a queima roupa no peito de Edinara. Ele gritava que de forma alguma aceitaria que ela ficasse com outra pessoa. Depois atirou contra ele mesmo”, contou o funcionário.

A irmã da vítima, Ziléia Leite Faria, conta que o despachante não aceitava o fato de que a mulher, que pouca horas antes de ser morta havia se mudado com a família para uma casa nova, estava conseguindo reconstruir a vida depois da separação. Segundo Ziléia, o despachante vivia ameaçando a mulher de morte. “O assassino dizia que não podia nem pensar que outro homem pudesse tocar no corpo dela. Ele não podia suportar o fato de minha irmã estar feliz da vida e trabalhando. Ao tirar a vida dela, ele arrasou com toda a família, que não tem mais vontade de viver”, desabafou Ziléia. Segundo ela, a dor dos familiares aumentou ainda mais depois que o despachante, por decisão da Justiça, foi posto em liberdade. Ziléia disse que, ao ser ouvido, ele não mostrou nenhum arrependimento. “Ele tentou justificar o crime na frente do juiz, dizendo que não podia suportar o fato de minha irmã ter arrumado um namorado”.

O sentimento de inferioridade por ser sustentado por uma mulher foi a justificativa que o gari desempregado Cleude Ramos Rodrigues, de 34, encontrou para justificar o assassinato da enteada Daniela Bertoza Pereira, de 18. O crime ocorreu em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Daniela, que trabalhava como balconista, foi morta a facadas pelo padastro, enquanto dormia. “Desempregado há quatro anos, ele não suportava o fato de minha filha, que tinha arrumado emprego, sustentar a família. Ele dizia que a Daniela havia acabado com a vida dele”, disse a mãe da vítima, Silvana Bertoza. Depois de praticar o crime, o gari subiu na laje de casa, onde passou a se ferir com uma faca. Ele ameaçava se matar, mas acabou imobilizado por soldados do Corpo de Bombeiros.

Homens e mulheres estão longe de ter igualdade no trabalho, diz OIT

da Agência Brasil

Estudo divulgado hoje (11) pela OIT (Organização Internacional do Trabalho) e o Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) revela que, mesmo com avanços obtidos nos últimos anos, a condição feminina no mercado de trabalho “está longe” da igualdade em relação aos homens.

O relatório O Desafio do Equilíbrio entre Trabalho, Família e Vida Pessoal mostra que a maior participação feminina no mercado de trabalho gera o desafio de se criar condições para que as mulheres possam concorrer de forma mais justa com os homens pelos postos de trabalho.

Elaborado em parceria com a Secretaria Especial de Política para as Mulheres, o documento aponta que, dentre os fatores que contribuem para o quadro de desigualdade, está a maior dificuldade para as mulheres de conciliar trabalho e família.

Isso porque, conforme observa o estudo, há uma mudança em ritmo muito lento da divisão sexual do trabalho doméstico. “O modelo homem-provedor e mulher-cuidadora ainda vigente permite que a mulher continue arcando em forma unilateral, quando não exclusiva, com as atividades de cuidado e assistência aos membros da família e seu engajamento no mercado de trabalho permanece marcado por esse papel”, diz trecho da conclusão do estudo.

Para a OIT, essa característica “se evidencia tanto através do exame das carreiras que são tipicamente femininas, quanto pelas dificuldades de conciliar maternidade e profissão”. Para mudança desse quadro, a OIT sugere, por exemplo, a ampliação de políticas públicas voltadas para as mulheres, como a construção de creches públicas e pré-escolas.

“Os serviços públicos de cuidado com crianças, como é o caso de creches e pré-escolas, são fundamentais neste aspecto, dada sua possibilidade de também atuar como mecanismos de diminuição do peso e da quantidade de atividades de cuidado realizadas pela família”, diz o relatório.

“Como são as mulheres as protagonistas principais dessas atividades, a existência e a ampliação desses serviços também para os homens podem ajudar a reorganizar o modelo homem-provedor e mulher-cuidadora, na medida em que ampliam o tempo que as mulheres podem dedicar ao trabalho remunerado e/ou à sua vida pessoal.”

O relatório sugere ainda que as políticas de equilíbrio entre trabalho, família e vida pessoal devem compatibilizar os trabalhos não remunerados com os remunerados, por meio de ações que tornem o exercício do trabalho mais compatível com as responsabilidades familiares, e reconhecer tanto o papel econômico e produtivo das mulheres, quanto o papel dos homens como cuidadores.

O estudo compreende as relações de trabalho na América Latina e no Caribe, onde há mais de 100 milhões de mulheres inseridas no mercado de trabalho.

Grafites de São Paulo se transformam em roteiro turístico

FERNANDA EZABELLA
colaboração para a Folha de S.Paulo


Dégradé, jogos de luz e sombra. A guia turística aponta para as pinturas, chama atenção para assinaturas e técnicas. Não estamos num museu, muito menos vendo quadros. São grafites na avenida Doutor Arnaldo, zona oeste de São Paulo.

Tuca Vieira/Folha Imagem
Yara Amaral conduz grupo pelo escadão da rua Cardeal Arcoverde coma rua Cristiano Viana
Yara Amaral conduz grupo pelo escadão da rua Cardeal Arcoverde com Cristiano Viana

Entre buzinas e ônibus barulhentos, o grupo de dez turistas atravessa a pé o bairro de Pinheiros, em direção à Vila Madalena, caçando desenhos com ajuda da guia Yara Amaral, 26, mais conhecida como Yá!, grafiteira há seis anos e ex-aluna de artistas famosos do movimento, como Zezão e Boleta.

“A ideia é sensibilizar o olhar para a cidade”, explica Leandro Herrera, sócio-fundador da Soul Sampa, agência de turismo que organiza passeios temáticos pela cidade e, desde abril, começou a explorar a fama do grafite paulistano, assim como outras duas empresas.

Pelos 5 km de asfalto, surgem trabalhos de artistas mais conhecidos, como Titi Freak e Rui Amaral, além de nomes da nova geração, como Zito, que mistura grafite e fotografia numa obra localizada sob a ponte da r. João Moura. Yara também fala das gangues de pichadores, como os coletivos Vicio e Sustos, e suas filosofias de rua.

Num “grapicho” –mix de grafite e pichação– na rua Cardeal Arcoverde, por exemplo, letras em tons de azul e contornos elaborados fazem mistério sobre o que, afinal, estaria escrito ali. “Às vezes nem a gente entende”, diz Yara sobre o desenho pintado em 2008, provavelmente de forma ilegal.

“Da mesma forma que os intelectuais criam uma linguagem que ninguém entende, eles [grafiteiros, pichadores] criaram a deles. Eles marginalizam quem os marginaliza.”

Beco do Batman

Enquanto a turma caminha com suas câmeras fotográficas, Leandro e um colega ficam de olho para ninguém ficar para atrás. O grupo é composto só de mulheres, todas estrangeiras, que moram ou estudam no país. O passeio dura cinco horas, incluindo um workshop de spray ao final e pausas para almoçar e tirar fotos, especialmente na escadaria da rua Cristiano Viana e no Beco do Batman, uma longa viela de paralelepípedos na Vila Madalena, ambos locais tomados pelos grafiteiros desde os anos 80.

Do grupo de americanas, argentinas e europeias, todas querem ver osgêmeos, dupla formada pelos irmãos Gustavo e Otávio Pandolfo, que expõe em galerias de arte mundo afora e é reconhecida pelos desenhos de bonecos amarelos.

Mas nenhuma delas consegue identificar a assinatura elaborada em amarelo que encontramos pelo caminho, no alto de um muro. O “bomb” -letras sem muitos detalhes, só com contorno e preenchimento– foi feito neste ano pelo coletivo Vidaloka, do qual os dois participam, e, se olhado com calma, quer dizer “osgêmeos”.

“Por mais que eles estejam nas galerias, eles continuam pintando nas ruas”, explica Yara. “Sempre passo por aqui e vejo esse negócio, mas nunca imaginei que fosse dos gêmeos”, comenta uma turista.

Zezão, famoso pelos tubos azuis que pinta nos subterrâneos da cidade, também surpreende com um mural pintado no Beco do Batman, repleto de nuvens de fumaça colorida em spray e estêncil, coisa que só os mais entendidos, como sua ex-aluna, reconhecem.

“É uma maneira diferente de descobrir o bairro, um passeio divertido e sério”, disse a francesa Erwane Kaloudoff, 36.

“Há um racismo insidioso que exige luta dos movimentos sociais de uma maneira que não se pensava antes”, diz Boaventura Santos

Sociólogo português reconhece a atuação do Movimento Negro e do Movimento Quilombola, classificando-os “como fortes e emergentes”. Ele foi o grande nome do seminário Universidade e Sociedade sentenciou: “a sociedade brasileira é racista e acabou”

Por Isabel Clavelin

Aclamado pelos movimentos sociais e partidos de esquerda, Boaventura Sousa Santos apresentou a conferência “A Reinvenção da Emancipação Social a partir das Epistemologias do Sul”, na última quinta-feira (4/6), na Universidade de Brasília. O sociólogo português abordou temas bastante conhecidos pelo movimento social brasileiro, como o distanciamento das universidades dos grandes problemas sociais e o descrédito da ação política dos movimentos sociais pela academia. E mais: conclamou o público para a valorização dos saberes indígenas, afrodescendentes, de mulheres e grupos excluídos como elementos estratégicos para um novo paradigma mundial.

“Há uma discrepância entre a Teoria Crítica e as transformações sociais em curso. Isso sequer foi pensado ou imaginado pelo pensamento crítico. Esse é um momento de revisão do que foi aprendido há tempos para o apontamento de outras realidades, oportunidades e desafios”, iniciou o pesquisador. Sua exposição apontou para um mundo repleto de alternativas, mas ainda não captado pelo pensamento crítico. Mais que alternativas, o pensador português percebe transformações sociais impulsionadas por agentes descredibilizados e, por vezes, desqualificados ou descartados pelas forças hegemônicas da sociedade e pela Teoria Crítica.

Estranheza de toda a gente excluída

Citando os agentes dessa transformação – indígenas, afrodescendentes, mulheres, camponeses, gays, moradores de favelas, grevistas, entre outros -, Boaventura sentenciou: “é gente estranha fazendo transformação social. É essa gente estranha que fala língua estranha, que não fala a língua colonial”. O sociólogo mencionou os casos da da Bolívia e do Equador, países em que os marcos legais passaram a incorporar conceitos culturais indígenas, como exemplos de um processo de inclusão e ressignificação, denominado por ele como “ecologia do saber”.

Ciente da limitação e do longo percurso para essas mudanças, Boaventura ele recomenda a abstração do pensamento ocidental, para que valores e visões dos “grupos descredibilizados” sejam compreendidos. “África e Ásia. Há um mundo não resignado, que está reagindo e trazendo novos elementos. Mas é preciso humildade científica e humildade cultural. Não há justiça social sem justiça cognitiva. Não precisamos de alternativas, e sim de conhecimentos alternativos ao modelo que aí está”, reflete.

Ancestralidade africana e indígena

São bases de sua tese o passado e a energia futurante de indígenas e africanos. “Os movimentos indígenas e afrodescendentes demonstram que é possível inovar a partir do novo e do ancestral. Eles têm a seu dispor um passado pré-capitalista e pré-colonialista, antes de tudo”.

Para Boaventura, deve ser estruturada uma base epistemológica (pensar e repensar a ciência) do Sul a partir do conhecimento e da experiência dos povos tradicionais e de grupos historicamente excluídos do poder e da participação social. Ele também sugere que os meios hegemônicos sejam usados de forma contra-hegemônica, sobretudo, para o enfrentamento do racismo e da distribuição de terras. “A epistemologia do Sul tem o desafio de credibilizar os indígenas , afrodescendentes, mulheres e todos os excluídos pelo pensamento ocidental, pela epistemologia do Norte elaborada por cinco países da Europa e pelos Estados Unidos”.

Fracasso do século XX: racismo e apropriação de terras

“Há um racismo insidioso que exige luta dos movimentos sociais de uma maneira que não se pensava antes. O Movimento Negro e o Movimento Quilombola são expressões fortes e emergentes no Brasil. Mas o peso da democracia racial é alto e profundamente ideológico”, apontou. Boaventura pontua que as “duas grandes lutas do século XX – a anti-colonial e a anti-capitalista” fracassaram devido à continuidade do racismo e da apropriação da terra.

Classificando a sociedade brasileira como “racista e não a única no mundo”, o pesquisador citou as manifestações de racismo na Europa através da repressão de imigrantes e na academia, percebida na própria palestra. “A luta do racismo é contra as ausências. Vejam esse auditório. Quem falta nessas cadeiras? O mesmo se aplica ao sexismo. Vejam essa mesa!”, desafiou. Para ele, o questionamento da constitucionalidade das cotas para negros nas universidades brasileiras deve ter reforços: “vamos ver se os estudantes, que gostam tanto de ir às ruas, também irão nesse tema. A resistência está aí”, incentivou.

Grande imprensa e imprensa negra

Um dos lugares da sociedade em que a luta contra o racismo se expressa de forma mais acentuada é na imprensa, por meio do acesso à informação e pluralidade de opiniões. Sabedor da desproporção do debate de ideias para superação do racismo no noticiário da grande imprensa brasileira, Boaventura aposta na produção de outros meios de comunicação.

“São as rádios comunitárias, a imprensa negra e as diferentes possibilidades de comunicação que estão travando a luta contra a hegemonia. O racismo é a combinação mais venenosa e insidiosa entre o capitalismo e o colonialismo”, finalizou.

Foto: Isabela Lyrio/UnB Agência

Liberdade e Direitos Humanos da população negra: 120 anos depois

2008 foi um ano de marcas temporais simbólicas que sinalizam a busca por justiça humanitária e pela efetivação da democracia no Brasil e no mundo

Douglas E. Belchior

Quem és tú? Qual a origem de vossa família? És herdeiro. De quê? O que comes? Bem? De tudo? E teus lazeres. Dos melhores? Fazes uso fruto do que produz? Tu e os teus, tens acesso ao que constroem? Tua pele tem especial proteção solar? Ou teus olhos sujeitos à dor diante da luz? Teu cabelo lhe protege mais o couro que as orelhas? Teu sotaque arrasta a origem? A riqueza de sua terra fez de tu herdeiro de dádivas? Quem és tu? Douglas E. Belchior

Liberdade e Direitos Humanos da população negra: 120 anos depois 2008 foi um ano de marcas temporais simbólicas que sinalizam a busca por justiça humanitária e pela efetivação da democracia no Brasil e no mundo. Já no início do ano, em 13 de Maio, vivemos no Brasil o aniversário de 120 anos da abolição formal da escravidão de africanos e seus descendentes. Outubro de 2008 marca o aniversário da Constituição Brasileira, promulgada no 5º dia daquele mês do ano de 1988. “Não é a Constituição perfeita, mas será útil, pioneira e desbravadora. Será luz, ainda que de lamparina, na noite dos desgraçados”, disse Ulisses Guimarães, presidente da Assembléia Constituinte, no ato de promulgação da nova carta magna. Em pleno século 21, percebe-se ainda apenas a luz de lamparina que não ajuda a sociedade a enxergar diante da efetivação dos direitos garantidos em nossa avançada Constituição. Em 10 de Dezembro, outro importante marco: os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Seis décadas de anseio e busca pela liberdade de expressão, de pensamento e de luta pela igualdade e respeito a todas as pessoas, indiscriminadamente. Neste curto espaço de reflexão, voltaremos o olhar às questões relativas à temática étnico-racial, o que no 120° aniversário de instituição da liberdade formal e generalizada aos cidadãos, independente da origem ou etnia, nos parece extremamente importante. Percebe-se, a partir da leitura dos dados de nossa realidade que, apesar desse longo período de “liberdade”, a discriminação étnico-racial, somada à desigualdade e a pobreza que atinge negros e negras no Brasil, permanece como elementos marcantes de nosso dia-a-dia. A busca dos movimentos sociais e do Movimento Negro pela efetivação dos direitos humanos e da justiça direcionada à população negra nos fez avançar e alcançar importantes vitórias no que tange a elaboração de políticas públicas. Uma análise dos resultados dessas políticas públicas é importante para que se possa qualificar e compreender a real situação dos negros no Brasil. Tem importância a lembrança de que a situação social concreta da população negra brasileira e, tanto a ação quanto a inércia do Estado e do grande poderio econômico, sempre encontrou embasamento teórico que justificasse incursões preconceituosas e racistas. As desigualdades econômicas, materiais, educacionais e de acesso efetivo à cidadania sempre mantiveram forte dimensão étnico-racial. Uma simples leitura que tenha como objeto a evolução das condições de vida de negros e brancos nas últimas décadas, a partir de estudos demográficos, educacionais, e no mercado de trabalho evidencia a permanência nas condições de pobreza, além da cristalização das desigualdades étnico raciais.

Pensamento e ideologia racial O processo de construção de “nossa” colônia portuguesa deu-se partir da utilização direta de um princípio subjetivo – de efeito prático -, amplamente reconhecido: o racismo. No entanto, não foi a partir de um pensamento racista sistematizado que a valorização do homem branco e sua cultura se estabeleceram. Donos de uma visão hierárquica e privatista da sociedade, os defensores da escravidão carregavam um conjunto de estereótipos negativos em relação ao negro. A tendência em reconhecer no ser negro uma natural inferioridade contribuía e justificava a defesa da escravidão. A escravidão foi o germe do nascimento do racismo brasileiro, no entanto, é na pós-abolição que tomam forças teses de inferioridade biológica de negros e negras. Esses pensamentos passam a nortear as ações e projetos sob a justificativa do desenvolvimento nacional. O “racismo científico” enquanto tese de diferenciação racial, passa a ser reconhecido pelas elites brasileiras a partir da década de 70 do século XIX. Tornaram-se amplamente aceitas entre as décadas de 1880 e 1920. As desigualdades naturais então defendidas seria o principal elemento diferenciador das raças. A população negra estaria então marcada pelo estereótipo negativo e pelo preconceito étnico. Tais conceitos sociais interfeririam na definição dos potenciais individuais e levariam para os espaços político e social a idéia pré-concebida de que a participação de negros e negras não poderia ser aceita ou entendida sem a existência de restrições. Acentuam-se as dificuldades quanto à participação dos negros e negras nos espaços públicos, bem como se aprimoram os mecanismos discriminatórios. O branqueamento da população, conciliando a crença da superioridade branca com a busca do desaparecimento do “ser negro” transforma-se em elemento subliminar das ações do Estado. A ausência de políticas públicas para negros e negras livres e ex-escravizados é a principal marca desse período. Ao contrário, notam-se iniciativas que foram fundamentais para que a integração de negros e negras se restringisse a espaços desprestigiados pela sociedade. Como exemplo deste tipo de “condenação”, podemos lembrar a política de incentivo a imigração européia, prática intensa – não apenas por coincidência – durante o mesmo período em que os ideais racistas tornam-se mais efetivos. A entrada em grande escala de imigrantes europeus em nosso país é elemento explícito, como já amplamente abordado em nossa historiografia, da prática da ideologia do branqueamento, o que alojou a população negra na subdimensão do florescente mercado de trabalho livre e assalariado. Ainda antes, diversas medidas governamentais deixavam clara a opção pela eliminação da população negra do contexto social. A lei nº 601/1850, conhecida como Lei de Terras, aprovada no mesmo ano em que se determinou a proibição do tráfico de escravos (Lei Euzébio de Queiroz), significou importante restrição às possibilidades de acesso à terra por parte da população negra. O período pós-abolição foi marcado pelo desenvolvimento econômico casado à urbanização e às tentativas de desenvolvimento da indústria e do comércio, em especial na região do sudeste brasileiro. No entanto, as oportunidades geradas por esse processo de desenvolvimento ficaram restritas à população não-negra. Os preconceitos enraizados pela sociedade branca após quase 400 anos de escravidão acabaram por construir uma consciência de inferiorização do trabalhador negro, o que ampliava a expectativa relativa à chegada de trabalhadores europeus.

As distorções e o desequilíbrio na distribuição das oportunidades notadas durante o processo de inclusão econômica foram fundamentais para a cristalização de um quadro desolador na realidade social da população negra. Os efeitos das teses de supremacia racial, reconhecidas até o final dos anos de 1920, seguido da adesão a uma outra grande tese, agora cravada no relacionamento cordial e pacífico entre as etnias européia e africana, consagrada no ideário da democracia racial de Gilberto Freire, acabou – ao contrário, por servir como combustível para a organização da resistência negra, através do teatro experimental do negro, do Rio de Janeiro, da Frente Negra Brasileira e de demais organizações. A resistência negra organizada se mantém até o advento da ditadura dos anos 60, quando os militares passam a proibir e perseguir nossas entidades e manifestações. A questão étnico-racial retorna ao debate público nacional somente a partir da redemocratização e tem seu ponto alto no final da década de 1980, quando em 1988 se comemora os 100 anos da abolição da escravidão. É este também o ano da Constituição Cidadã, que traz entre seus avanços a formalização do direito à titulação de terras às comunidades tradicionais indígenas e quilombolas, além de tornar o racismo crime inafiançável. A partir daí, as discussões acerca da criação de mecanismos de combate efetivo a discriminação racial, acompanhadas da preocupação em alcançar formas reais de inclusão social dessa população toma corpo e ganha força. Brasil: o país do Apartaihd camuflado Aos 120 anos da abolição formal da escravidão no Brasil, o fruto da resistência alimenta a esperança da população negra brasileira. Ao contrário do que planejavam as elites nacionais, em especial a partir da pós-abolição, quando foram implementadas diversas ações no sentido de eliminar ou diminuir a presença negra no Brasil, percebe-se, na projeção do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), divulgada em maio de 2008, que ainda neste mesmo ano a população negra seria mais numerosa que a população branca. A partir do ano de 2010 o Brasil será, portanto, um país de maioria absoluta de negros e negras. No entanto, apesar de constituir importante densidade humana, apesar de representar parcela fundamental da mão-de-obra trabalhadora deste país, responsável em grande parte pela construção de nossa riqueza econômica e cultural, os avanços em relação à situação social da população negra são pouco sentidos. Ainda de acordo com projeções do IPEA, em pesquisa feita com base nos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), a renda média da população negra só se equiparará à renda da população branca no ano de 2040, caso haja uma permanência das políticas públicas dirigidas, atualmente em vigor. Assim, as rendas de negros e negras só serão iguais à da população branca daqui a 32 anos. Hoje, negros ganham, em média, 53% da renda do branco. A taxa de desemprego entre os negros é de 9,3%, enquanto que a dos brancos é de 7,5%. Nos setores com menor remuneração a maioria dos trabalhadores é negra, caso da agricultura (60,3%), construção civil (57,9%) e serviços domésticos (59,1%). Aos donos de olhares mais atentos, é comum a percepção de que existe uma seleção étnica na oportunização de empregos de médio e alto prestígio. São raros os casos de ocupação de chefias ou demais cargos importantes por negros e negras. A presença de negros em cargos de nível executivo nas maiores companhias brasileiras é de apenas 3,5%, segundo pesquisa do Ibope/Instituto Ethos. A situação das mulheres negras é ainda pior, uma vez que são vitimadas pelo duplo preconceito. A pesquisa realizada pelo Ibope/Instituto Ethos, de 2005, demonstra que mulheres negras ocupam menos de 0,5% de cargos executivos. Na medida em que pesquisas sérias dirigidas à situação social são divulgadas, confirma-se a importância do racismo e do preconceito étnico como elementos fundamentais na divisão de classes sociais no Brasil. Os 10% mais ricos no Brasil detêm 75% da riqueza, demonstra o IPEA (Folha de SP 15/05/08). Ao mesmo tempo, a pesquisa “Retrato das Desigualdades”, também realizada pelo Ipea e pela Unifem, mostra que entre os 10% mais pobres, 71% são negros. “Há um embranquecimento da população conforme se sobe na pirâmide social”, diz Luana Pinheiro, coordenadora da pesquisa no Ipea. A população negra permanece, como vemos, compondo a grande massa precarizada socialmente em nosso país. A conceituação do “racismo institucional”, ou “estrutural e sistêmico”, cujo qual opera na sociedade a revelia dos indivíduos, traz em sua prática o reforço dos estereótipos preconceituosos. O racismo, o preconceito e a discriminação operam sobre a naturalização da pobreza, ao mesmo tempo em que a pobreza opera sobre a naturalização do racismo, exercendo uma importante influência na situação do negro no Brasil. Negros e negras: proibir estudar, proibir dirigir, impedir o levante Pelas expectativas, voltaremos a ser um país de maioria negra. Como é possível ignorar as discrepâncias e os efeitos do racismo dirigido a uma população potencialmente majoritária em nosso país? Como aceitar que, apesar dos avanços sociais e econômicos vividos por nosso país durante todo o século XX, a população negra não tenha sido atendida em demandas tão essenciais como, por exemplo, no campo da formação educacional? Há 32 anos, 5% dos brancos concluíam a educação superior. Os formados negros pouco passavam de 0%. Em 2006 cerca de 5% dos negros formava-se em cursos superiores. No entanto, mantendo a discrepância, 18% dos brancos atingiam esse nível educacional. Hoje, a falta de acesso dos negros à universidade é um dos principais culpados pela imobilidade social. Não há duvidas de que, no Brasil, apesar dos avanços recentes e notados nas adesões a políticas de ação afirmativa para negros e cotas em algumas universidades, esta instituição ainda cumpre importante tarefa na reprodução das desigualdades raciais ao impedir a formação de uma elite negra e o acesso dos negros à elite intelectual do país. Em nosso país, como demonstra um estudo realizado na Paraíba (onde se observou que praticamente todos os 120 universitários entrevistados afirmam que no Brasil existe preconceito, mas curiosamente a grande maioria não se considera preconceituosa), toda a população brasileira parece ter clara consciência da discriminação racial que se vive, mas não aceita a responsabilidade por esta situação. Sabemos que esse é o resultado de uma profunda ação ideológica sistemática. Mas que devemos combater. É preciso, hoje mais que outrora, quando celebramos 120 anos do fim da escravidão, de uma disciplina ainda mais responsável e militante no combate a um tipo de racismo tão específico, fruto desses mais de 500 anos de construção do Brasil. O Racismo como dimensão da luta de classes na sociedade brasileira A Educafro, em especial nestes últimos 10 anos de organização em São Paulo, trabalha na perspectiva de constituir-se em uma organização de luta concreta do povo negro e não negros pobres. O eixo afro-étnico que norteia nosso olhar e ações, casado à questão da educação e do estudo, a cada dia parece mais eficaz no sentido de mobilizar pessoas de todas as idades, em especial a juventude, para as questões estruturais que sustentam as contradições e desigualdades sociais. No Brasil, etnia, gênero e classe interagem e definem quem são os oprimidos e os opressores. Dentre os oprimidos, não temos dúvidas, os/as negros/as são os/as que mais sofrem. A partir daí, a valorização da identidade étnica e o entendimento do racismo como “a mais perversa dimensão da luta de classes no Brasil”, surgem como fatores propulsores da mobilização e da rebeldia na maior parte da população brasileira. “Em algum momento de 2008 a população negra será mais numerosa que a população branca (…) a partir de 2010 o Brasil será um país de maioria absoluta de negros” – IPEA – Disoc – 13.05.08 Neste momento de refluxo dos movimentos populares e do consenso de que devemos nos dedicar aos estudos e ao acúmulo militante no sentido de nos preparar para o levante, faz-se necessário uma releitura de nossa história. O continente africano, subjugado em especial nestes últimos cinco séculos, foi submetido aos interesses dos povos “civilizados” – principalmente europeus. Entre os séculos XVI e XIX não menos que 15 milhões de almas foram arrancadas deste continente para a servidão do trabalho compulsório na América. Desta mão-de-obra escravizada e do próprio comércio de seres humanos negros, decorreu o acúmulo primitivo do capital suficiente ao impulsionamento da 1º Revolução Industrial e do Capitalismo. (Eduardo Galeano – Veias Abertas p. 92-94). No Brasil, por quase quatro séculos, africanos e seus descendentes permaneceram escravizados. Sua natureza humana e índole guerreira fizeram com que resistissem permanentemente e de diversas maneiras à opressão senhorial. Enquanto houve escravidão, houve resistência e guardamos a República de Palmares e seu líder Zumbi como grande marco dessa história de lutas. Mais eficaz que a política racista e higienista do Estado e seus dirigentes foi a resistência guerreira do povo negro e sua volúpia pela liberdade e pela vida. O Censo de 1890 contava 56% de negros no país. Em 1940, o total de negros havia caído para 35,8%. A substituição da mão-de-obra negra pelo trabalho livre assalariado branco foi imposta como necessidade para a modernização e para a purificação do sangue brasileiro, doravante ameaçado pela presença negra. Embora pareça absurdo, a ideologia racista tornou-se regra social. Em que pese o disfarce contemporâneo, nem sempre houve preocupação em esconder tal ideário. Veja a defesa do modelo pós-abolição defendido pelo economista progressista – referência da esquerda -, Celso Furtado: (…) As vantagens que apresentava o trabalhador europeu com respeito ao ex-escravo, são demasiadamente obvias (…) cabe tão somente lembrar que o reduzido desenvolvimento mental da população submetida à escravidão provocará a segregação parcial desta após a Abolição, retardando sua assimilação e entorpecendo o desenvolvimento econômico do país.” (Celso Furtado – Formação Econômica do Brasil.1959 p.166) As elites brasileiras se renderam às teses do racismo-científico. Sequer a embrionária esquerda ficou imune, segundo o trabalho do professor Sidney S.F.Sólis, apresentado no Secneb, em Salvador – 1984: “Tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo a imprensa anarquista não refletia nenhuma simpatia ou desejo de união com os negros, mas, pelo contrário, chegava mesmo a estampar artigos nos quais eram visíveis o preconceito racial(…) do ponto de vista ideológico surgia, já como comportamento da própria classe operária, os elementos de barragem social apoiados no preconceito de cor.” (Clóvis Moura, Sociologia do Negro, p.65.) Em meados dos anos 1930, as teorias racistas perdem espaço, em especial a partir da obra Casa Grande e Senzala (best-sealer das elites), de Gilberto Freire. Surge a idéia do senhor bondoso e do escravo passivo e obediente. As relações pacíficas, cordiais e paternalistas, bem como a fácil e saudável miscigenação, alimentadas por mais de 350 anos de escravidão, tornaria impossível uma ação organizada e radical por parte do povo negro em relação ao opressor branco. Toma corpo e vende-se para o mundo a idéia do Brasil como a maior democracia racial do mundo. A Frente Negra Brasileira e o Teatro Experimental do Negro são dois dos poucos instrumentos de onde soam vozes dissonantes a esse ideário. Idéia essa, reformulada por Darcy Ribeiro em sua obra “A Formação do Povo Brasileiro”, que valoriza a “morenidade” e a mestiçagem biológica e, por conseguinte, nega a identidade étnica. Esse conceito é tão poderoso que ainda hoje norteia as relações raciais em nosso país. Nos anos 50, 60 e 70, a partir dos estudos de Roger Bastide e Florestan Fernandes, entre outros, o Brasil é denunciado ao se retratar a violência das dimensões sociológicas, políticas e sociais às quais o povo negro brasileiro permaneceu tanto durante o escravismo quanto na pós-abolição: “A sociedade Brasileira largou o negro ao seu próprio destino, deitando sobre seus ombros a responsabilidade de reeducar-se e de responsabilizar-se para corresponder aos novos padrões e ideais de homem, criado pelo advento do trabalho livre, do regime republicano e do capitalismo.” “Não só não se processou uma democratização real da renda, do poder e do prestigio social em termos raciais. As oportunidades surgidas foram aproveitadas pelos grupos da ’raça dominante’, o que contribuiu para aumentar a concentração racial da renda, do poder e do prestígio social em beneficio do branco.” (Florestan – O negro no mundo dos brancos – p. 46) A ideologia dominante é uma ideologia branca. Um ideário composto por elementos da tradição, da cultura, do ser político, do estereotipo, da mentalidade e da religiosidade ocidental e branca européia. Nas palavras de Clóvis Moura, “um conjunto conceitual branco que foi e ainda é aplicado à realidade do negro brasileiro”. E é contra essa ideologia branca (que norteia a elite branca racista brasileira e internacional) que todos/as nós, negros e não-negros pobres, devemos nos voltar. Homens e mulheres, negros/as e brancos/as pobres, pertencem a uma só classe. No entanto, sofrem de maneira diferente as contradições do sistema hegemônico, seja por via do racismo, do machismo ou da exploração econômica. Esse é o olhar necessário e urgente. “Preconceito e discriminação racial estão presos a uma rede de exploração do homem pelo homem e o bombardeiro da identidade racial é prelúdio ou requisito da formação de uma população excedente destinada, em massa, ao trabalho sujo e mal pago(…) (Florestan, 1989, p.28) Este é o momento do encontro, da roda e da palavra, elementos tão caros à cultura africana. Façamos, pois, deste momento, o novo. Ultrapassemos os equívocos, mas aprendamos com eles. Durante anos a questão étnico-racial foi desmerecida e reduzida a uma leitura estreita e classista pelos movimentos de esquerda. Por outro lado, é certo que tal desprezo, somado ao apego apenas à luta específica, acabou por distanciar o Movimento Negro da luta classista. Entendemos que classe e etnia são dois elementos explosivos e revolucionários que devem caminhar juntos. Douglas Elias Belchior / Professor de História / Membro da Coordenação Nacional da Educafro Referências Bibliográficas O Perfil Social, Racial e de Gênero das 500 Maiores Empresas do Brasil e Suas Ações Afirmativas – Pesquisa 2005 – FGV-EASP – IPEA – OIT REVISTA PSICOLOGIA POLÍTICA – A Face Oculta do Racismo no Brasil: Uma Análise Psicossociológica – Leoncio Camino, Patrícia da Silva, Aline Machado e CíceroPereira – 2000 Desigualdades raciais, racismo e políticas públicas: 120 anos após a abolição – Diretoria de Estudos Sociais (Disoc) – IPEA – 13/05/08 Info Mensal nº 116 – Educafro O negro no mundo dos brancos – Florentan Fernandes Sociologia do Negro – Clóvis Moura Veias Abertas da América Latina – E. Galeano A Formação do Povo Brasileiro – Darcy Ribeiro Casa Grande e Senzala – Gilberto Freire

Negras Artes – Festa Miscelanea Cultural

por Michelle Amaral da Silva

No encontro, que será realizado no dia 30, manifestações da cultura popular brasileira de origem africana serão representadas através da dança, música, culinária, vestuário, adornos, hip hop entre outras atividades artísticas

No encontro, que será realizado no dia 30, manifestações da cultura popular brasileira de origem africana serão representadas através da dança, música, culinária, vestuário, adornos, hip hop entre outras atividades artísticasNeste sábado, dia 30, ocorre em Santos o encontro festivo “Miscelânea Cultural Negras Artes”. No encontro manifestações da cultura popular brasileira de origem africana serão representadas através da dança, música, culinária, vestuário, adornos, hip hop entre outras atividades artísticas.

Participam deste evento grupos culturais da região da Baixada Santista e São Paulo, capital. Entre os grupos que se apresentarão estão Afroketu, Anca Capoeira, Ilú Oba de Mim, Proeco e Tarja Preta.

O evento começa com um cortejo de Maracatu pelo entorno do mercado municipal (concentração às 11h), e continua até as 21h, fechando com a apresentação do grupo Ilú Obá De Min. Ao longo do dia acontecerão apresentações de capoeira, côco, maculelê, samba de roda, hip hop, desfile de moda afro e oficina de dança afro.

Enquanto isso, na praça de alimentação oferecerá feijoada, bobó de camarão, e outros petiscos da culinária brasileira como o acarajé, bolinho de feijoada, canjica, cocada, além de caipirinha e outros aperitivos afro.

Inscrições para oficina e maiores informações:

Telefones:

+ 55 13 3014 0706

+ 55 13 9743 6569

“Negros e Alvos” apresenta o "monstro" do Racismo

por cristiano

Numa estética artística que mescla dança contemporânea com a dramaturgia, as situações decorrem perpassando pelas relações familiares, religiosas e racista

Marcio Zonta

“È necessário escancarar esse monstro”. A afirmação parte de Monahyr Campos ao definir o que o motivou a escrever a peça “Negros e Alvos” que está em cartaz em São Paulo. O monstro ao qual se refere é o preconceito, que segundo ele eterniza toda a exclusão a que o negro brasileiro está submetido até os dias de hoje, inclusive utilizado pela elite brasileira como estratégia.

Por isso, sensibilizar o público, propor uma reflexão mais aprofundada sobre os aspectos do racismo que geralmente são ignorados pela população em geral é também premissa do espetáculo, abordando “os efeitos psíquicos da exclusão racial e do preconceito internalizado no inconsciente coletivo, além, principalmente de tentar destituir o mito que no Brasil não existe racismo”, declara Monahyr.

Numa estética artística que mescla dança contemporânea com a dramaturgia da peça, além do musical presente em vários momentos do ato, as situações decorrem perpassando as relações familiares, religiosas e racista existente no seio da sociedade.

Alienação

No entanto, enganam-se aqueles que pensam que a abordagem da peça traz a imagem do negro na pobreza, miséria e exploração, justamente porque pesquisando ritmos tradicionais brasileiros há uns dez anos, visitando alguns quilombos e convivendo muito com ativistas da causa negra, Monahyr compilou material, entrevistas e observações de campo e chegou a uma conclusão que traça as características do ator principal: um jovem negro, formado em psicologia numa boa universidade, porém alienado do conhecimento de suas origens.

Com esse aspecto almejado para a peça, acompanhada pela reportagem em sua pré-estréia, mostra-se que muitas vezes os negros seguem preceitos e hábitos de vida dos brancos sem perceberam o quão isso afeta negativamente na propagação e preservação de sua cultura e religião.

Fomentando, assim, uma reflexão aos espectadores de que o negro de qualquer classe social pode viver imbuído num preconceito corriqueiro e quase sem notar os acontecimentos do dia-dia. Monahyr explica, “Em nossas pesquisas de campo, percebemos um detalhe impressionante: exceto os negros engajados na causa negra, nenhum dos entrevistados começou a conversa assumindo ter sido vítima de algum exemplo de preconceito racial. Depois de, em média, uns dez minutos, as pessoas iam, gradativamente se lembrando de casos escabrosos”.

Monahyr conclui, “vale a pena assistir, pois, o espetáculo antes de tudo é uma peça de teatro sensível, divertida e emocionante”.

Festa em livraria mistura rap e psicodelia

No próximo sábado, 13 de junho, dia de Santo Antônio, a Livraria da Esquina recebe o arraial alternativo da Noite Alavanca. Alternativo a começar pela mistura: o rap de Slim Rimografia e a psicodelia de Caio Bosco.

Divulgação
Grupo Slim Rimografia se apresenta no Sarau Astronômico do Planetário Aristóteles Orsini
Filiph Neo, Slim Rimografia e Thiago Beats se apresentam na Noite Alavanca neste sábado

Ícone do hip hop no Brasil, Slim Rimografia se apresentou recentemente na Europa, tem dois discos lançados na praça e um novo single, “Canto de Vitória”. O MC e produtor paulista recorre ao samba, à MPB, à bossa nova e a ritmos regionais e folclóricos para criar suas rimas e “beats”. Ao lado de Filiph Neo (teclado e voz) e Thiago Beats (beat box e samplers), Slim mostra músicas conhecidas do público, como “Por Você”, “Amigos”, “Compre Meu Disco”, “Sol” e “Falido”.

Caio Bosco, do Guarujá (litoral paulista), se apresenta com DJ Beto (turntable, teclado, sample, tape reel to reel, dub fx), Juca Lopes (bateria), Emerson Tripah (guitarra) e Fabio Peraccini (baixo). Dono de uma melodia psicodélica, que percorre sonoridades que vão do folk ao jazz, do rock a MPB, o músico apresenta seu novo EP, “Diamante”.

A discotecagem fica por conta de Daniel Cunha, Eduardo Ribas e Nathalia Leme, do blog Per Raps, responsável pelo lado rap da festa. A seleção do trio contempla clássicos e novidades da música negra: do rap ao jazz, e do afrobeat aos batuques brasileiros.

Livraria da Esquina – Lado A – r. do Bosque, 1.254, Barra Funda, região oeste, São Paulo, SP. Tel.: 0/xx/11/3392-3089. Sáb. (13): 23h. Ingr.: R$ 10. Aceita todos os cartões de crédito. Não recomendado para menores de 18 anos. www.livrariadaesquina.com.br.

Grupo de jovens do RJ usa o teatro contra a discriminação



Um projeto coordenado pela organização não governamental Escola de Gente e criado por alunos de Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) está levando a todo o país reflexões sobre a necessidade de inclusão social nos ambientes de trabalho e escola.



Com esse objetivo, o grupo teatral Os Inclusos e os Sisos da Unirio faz em turnê nacional com a peça Ninguém mais vai ser bonzinho, que tem supervisão do dramaturgo Bosco Brasil.


O grupo leva reflexão para todos os espaços por onde passa e mobiliza as pessoas, no sentido de transformarem a cultura em um meio mais acessível para todos, relatou Danielle Basto, a representante da Escola de Gente na Rede Latino-americana de Arte para a Transformação Social (Avina).


“Mostramos para o público que existem formas de garantir a participação de todas as pessoas em um espetáculo teatral. Esse é um tipo de influência direta.”


A ONG garante o acesso para que mesmo as pessoas portadoras de deficiências também assistam ao espetáculo teatral. As apresentações contam com versões impressa, em braile (linguagem para deficientes visuais) e em meio digital, além de tradução para a Língua Brasileira de Sinais (Libras), legenda eletrônica e audiodescrição. A entrada é franca em todos os espetáculos.


Depois de Recife e Salvador, o grupo se prepara para participar, nos próximos dias 10 e 11, do Festival Internacional de Teatro de Londrina (PR). Em seguida, vai para o Rio de Janeiro, onde fará apresentações no Teatro Mário Lago, na Vila Kennedy; no Sesc de Niterói, no Instituto Benjamin Constant e na Escola de Samba Acadêmicos da Rocinha, a partir do dia 17.


A peça é inspirada no livro Ninguém mais vai ser bonzinho na sociedade inclusiva, da jornalista e fundadora da ONG Escola de Gente – Comunicação em Inclusão, Claudia Werneck, que é também autora de outras 11 obras sobre inclusão, para crianças e adultos.


Para 2010, a Escola de Gente planeja um espetáculo voltado ao público infantil, além de capacitar jovens. Danielle Basto explicou que serão aceitos estudantes de artes cênicas de cursos livres e outras universidades, além da Unirio. “Formam os jovens no conceito de inclusão, contra qualquer tipo de discriminação ou preconceito, mas a partir de uma base teórica que eles já tenham.”


Agência Brasil

Mulheres que amam demais e se esquecem da própria vida


Comportamento
. O que leva à perpetuação de relações que geram desrespeito, agressões, dor e sofrimento


Especialistas tentam explicar que motivos levam uma mulher a se manter nesse lugar
Ana Elizabeth Diniz

“Quando amar é sofrer, então você provavelmente está amando o homem errado, da maneira errada, alguém emocionalmente fechado, viciado em trabalho, bebida ou em outras mulheres, alguém que não pode retribuir seu amor. Mesmo assim, você insiste, sacrifica-se, anula sua personalidade, continua tentando”, alerta Robin Norwood, psicoterapeuta e conselheira matrimonial, autora do livro “Mulheres que Amam Demais”, que inspirou o grupo Mada, criado em 1994, em São Paulo.

O Mada é uma irmandade de mulheres que compartilham sua experiência, força e esperança para resolver problemas comuns e ajudar outras mulheres a se recuperarem de sua dependência de pessoas. Para frequentar as reuniões é preciso o desejo de sair da dependência de outra pessoa e manter o grupo no anonimato.

Segundo Zilda Machado, membro da Escola de Psicanálise dos Fóruns do Campo Lacaniano, existe uma frase famosa do psicanalista Jacques Lacan que diz que “não há relação sexual”. Zilda explica que, com isso, ele quis dizer que não há complementariedade entre os sexos. “Não há nada que conecte o gozo masculino ao gozo feminino. E o amor é justamente aquilo que vem suprir a inexistência da complementariedade entre os sexos. Essa fala, ao contrário, impulsiona-os bem um em direção ao outro.”

A psicanalista relata que “na linguagem não há nada que diga o que é ser o homem de uma mulher e principalmente o que é ser a mulher de um homem. Na linguagem o que sempre aparece é a impossibilidade do encontro entre homens e mulheres, ou melhor dizendo, é o desencontro”.

Símbolos fálicos. Zilda considera que, culturalmente, o homem se ajeita melhor. “As insígnias fálicas o identificam, ele é aquele que tem. Já a mulher, embora possa também ter garantias nas insígnias fálicas, mesmo que ela seja muito bem-sucedida, mesmo que seja ótima profissional, e até tenha muita satisfação como mãe, isso ainda não responde ao seu ser de mulher. Não há uma resposta clara sobre o que é ser mulher. Não há algo que a referencie, que diga a ela: ser mulher é isso.”

E essa situação, prossegue a psicanalista, “coloca-a muito mais necessitada do amor porque é onde ela pode encontrar um paliativo não apenas para sua solidão, mas para a sua falta de referência nela mesma”.

Para a especialista, a mulher precisa do homem não só como um companheiro, mas como um referente: eu sou a mulher do fulano! “Isso a identifica. Isso dá a ela uma posição social, mas também algo mais importante: uma ancoragem subjetiva.”

Muitas mulheres, diz Zilda, perdem-se no esforço de causar desejo no homem. “Mas não sabem que desejo é falta. Quanto mais se esforça para causar o desejo do outro mais distante se está da via desejante.”

Os Tambores de um quilombo

Em meio a prédios em bairro nobre de Belo Horizonte, comunidade luta para que seus costumes sobrevivam
Bianca Magela Melo, jornalista de Belo Horizonte – MG
Nove anos. Foi o tempo que a comunidade quilombola dos Luizes, na área urbana de Belo Horizonte (MG) levou para ter coragem de tocar seus tambores de novo. Os ensaios do grupo de cultura afro eram comuns desde que a líder comunitária Maria Luzia Sidônio, hoje com 65 anos, era mocinha. No entanto, o constante estranhamento dos vizinhos dos prédios de classe média, as reclamações e os olhares de condenação silenciaram por um tempo o bonito batuque dos Luizes.
No último dia 29 de julho, quando foi comemorada a festa anual de Santana, um grupo de Luizes ousou brincar de tambor ao final da apresentação da guarda de congado de Bom Despacho (interior de Minas). “Fomos reconhecidos pela Fundação Palmares e os tambores são parte de nossa cultura”, explica Maria Luzia, referindo-se ao título de comunidade Quilombola, concedido em 25 de novembro de 2004.

A titulação mexeu com a auto-estima dos Luizes. Além dos instrumentos de percussão, eles ganharam da Fundação Palmares máquinas para confecção de roupas. “Pode ser uma alternativa de renda para os jovens”, diz. Antes já foi bem diferente, conta a líder: “Todo mundo ria quando eu falava que era quilombola.”
O grupo que representa os interesses da comunidade agora tem nome: Associação de Quilombos Luizes N´tamimawsi, que significa um só coração na língua Eve Von, da República de Benin, conforme ensina a presidente Maria Luzia. De acordo com ela, os habitantes de Benin têm servido ao Brasil como fonte de danças e cantos de religiões de matriz africana.

O núcleo do quilombo está localizado em uma área de quatro mil metros quadrados no bairro Grajaú, zona nobre da capital mineira. Cerca de 120 pessoas vivem no local de casas simples, chão de terra e grandes árvores. De lá, a vista dos Luizes alcança compridos prédios por todos os lados. “Estão todos na área que um dia foi do quilombo”, observa Maria Luzia.

ÁREA INICIAL EM BELO HORIZONTE ERA DE 18 MIL METROS QUADRADOSSegundo consta nos registros dos Luizes, o terreno inicial ocupado pelos escravos fugidos do domínio do senhor de escravos Antônio Luiz Simões, era superior a 18 mil metros quadrados nas proximidades do bairro Grajaú. Considerando todo o espaço encampado na época pelos Luizes, a área, conta Maria Luzia, seria de 624 mil metros quadrados, incluindo uma grande extensão que liga Belo Horizonte ao município vizinho de Nova Lima.

Os Luizes já perderam a conta do número de advogados contratados sem que medidas fossem tomadas. “Vimos nosso patrimônio ser ocupado bem próximo às nossas casas.” Há outros cerca de 200 descendentes da mesma família espalhados em outras regiões da cidade. Na Secretaria de Regulação Urbana da Prefeitura de Belo Horizonte, a informação é a de que todas as construtoras que deram entrada para obter licença de realização de obras nas imediações, tinham os documentos que comprovavam posse do imóvel.

Maria Luzia revela que a escritura em poder dos Luizes foi ignorada. O documento foi emitido pelo cartório de imóveis da cidade de Sabará em 1895, dois anos antes de Belo Horizonte ser reconhecida como município. “Foi esta luta a vida toda. Diziam (os construtores) que o terreno era deles e ficava aquela história de escritura sobre escritura e a gente sempre procurando a prefeitura sem conseguir nada”, desabafa.

Em 2002, a preparação do terreno para erguer mais um prédio no bairro, levou junto o centro cultural da comunidade. “Até hoje não conseguimos reconstruí-lo e ficamos com a sensação de impotência.” Vontade de desistir não faltou, mas eles prosseguiram. Mesmo quando a tia de Maria Luzia morreu assassinada dentro da própria casa. “Achei muito desaforo e passei a fazer o que ela fazia.”

Seppir — Uma vez identificadas as áreas, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial oferece assistência para as comunidades remanescentes de quilombos. “Auxiliamos com apoio jurídico e acompanhamos qualquer ameaça ou dificuldade”, explica a diretora de programas da subsecretaria de políticas para a comunidade, ligada à Seppir, Maria Palmira da Silva. Eles têm cadastrados cerca de três mil comunidades quilombolas no país. “A maioria está totalmente isolada do contato urbano, mas, assim como os Luizes, em Belo Horizonte, há exemplos como o da família Silva, no Rio Grande do Sul.”

MISSA CONGAAs roupas muito brancas dos congadeiros de Bom Despacho salientam os adornos coloridos e a cor da pele que resplandece com o sol do final do dia. A dona de casa Jorgina Nunes Guimarães, da comunidade dos Luizes, era uma das espectadoras atentas à apresentação. Está feliz com seus dois filhos gêmeos de 13 anos, que estão aprendendo a tocar tambor. “É uma tradição que nunca deveria ter parado. Sem batuque parece que está faltando alguma coisa na vida da gente.”

A festa dos Luizes tem missa conga com presença de padre e com todo ritual, mas no lugar das músicas tradicionais da igreja católica, entram os cânticos africanos. “Negro sofria. Negro Chorava. Negro Rezava. Lá na Senzala. Ô ô meu senhor ô ô.” Tradição trazida pelos escravos africanos e espalhada nas terras do ouro, o Congado é ainda hoje muito presente em praticamente todas as regiões de Minas Gerais. Além das danças e da música, as festas sempre têm muita fartura de comidas características: feijão tropeiro, canjica, arroz doce, pipoca e frutas. “Cada família prepara um prato ou mais e não falta boa comida”, explica Luiza Sidônio, irmã da organizadora da festa.

Os arturos e o congado: símbolo de luta e resistência

Júnia Bertolino, Júnia Bertolino é bailarina afro, jornalista (0011097/MG), antropóloga e pós-graduanda em Estudos africanos e afro-brasileiros
juniabertolino@yahoo.com.br

Em Belo Horizonte e Minas Gerais encontramos a forte expressão dos congados, chamados de Reinados e Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. Geralmente prestam homenagens aos santos pretos: São Benedito, Santa Efigênia, Santo Antônio, São Jorge, Nossa Senhora Santana e Nossa Senhora das Mercês. Como antropóloga venho transitando em vários grupos culturais e movimentos de matriz africana. A oralidade, ancestralidade, tradição e identidade do povo brasileiro precisam ser discutidas e preservadas sempre. Portanto, eu acredito ser muito importante qualquer iniciativa que divulgue e valorize as diversas manifestações populares, sobretudo os nossos ricos reinados presentes em Belo Horizonte e em Minas Gerais.

A Comunidade dos Arturos vem, há mais de 108 anos, com sua cultura expressiva e forte religiosidade, manifestando culto a Nossa Senhora do Rosário nas festas do Congado. Os Arturos são um grupo familiar que reside em propriedade coletiva no município de Contagem. Durante todo o ano realizam diversas festas, como 13 de Maio – Abolição da Escravatura, Festa de Nossa Senhora do Rosário (outubro), João do Mato e Folia de Reis (dezembro), além do candombe e batuque nas festas de casamento, aniversários e batizados.

A coroação de reis e rainhas tem larga tradição em todo o Brasil. Já em 1674 registrava-se a coroação de reis de Congo na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. em Recife. Em Minas, Saul Martins cita em sua tese que André João Antônio, em 1711, já identificara o costume dos negros de criarem reis, juizes e juízas nas festas de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Encontram-se também em Minas registros de Irmandades de Nossa Senhora do Rosário datados de 1704 e 1715, nas cidades de Serro e de Ouro Preto.

Os Arturos vêm, cada vez com mais freqüência, atraindo pesquisadores e estudiosos de Minas e de todo o país. A história dos Arturos começou com Camilo Silvério e Felisbina Rita Cândida, em Vila Santa Quitéria, hoje município de Esmeraldas. Dessa união nasceu Arthur Camilo Silvério, que mais tarde constituiu família com Carmelinda Maria da Silva. Os frutos dessa união formam hoje os Arturos, com mais de 50 famílias, tendo atualmente cerca de 400 descendentes instalados em seis hectares de terra no local denominado Domingos Pereira, em Contagem, onde estão radicados desde 1880.

Os filhos de Arthur Camilo são: Geraldo Arthur Camilo (falecido), Maria Gelsa da Silva (falecida), Conceição Natalícia da Silva (Tetane), Juventina Paula de Lima (Intina/falecida), Maria do Rosário da Silva (Induca), José Acácio da Silva (falecido), Antônio Maria da Silva, Mário Braz da Luz, João Batista da Silva (falecido) e Joaquim Bonifácio da Luz (Bill), sendo eles os responsáveis pela bonita e orgulhosa comunidade negra e ainda por transmitir todos os ensinamentos e principalmente a devoção a Nossa Senhora do Rosário, manifestada através do congado, herança deixada pelos seus pais. Atualmente o patriarca é o capitão-mor Mario Braz da Luz, 72 anos, que recebe o carinho e o respeito da comunidade.

A comunidade dos Arturos é representada juridicamente pela Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Contagem, que tem como função sobretudo cuidar da organização das festas. Fundada em 1972, compõe-se das guardas de Congo e Moçambique do Reinado. As guardas têm sua representatividade: o congo é responsável por abrir os caminhos, sendo a guarda que segue à frente nos cortejos; o moçambique é responsável por conduzir os reis e rainhas, guardar e proteger o Reinado, sendo portanto os últimos no cortejo, seus capitães também tiram o canto e são autoridades, dentre as quais são consideradas autoridades máximas o Capitão-mor (Mário Braz da Luz) e o capitão-regente (Antônio Maria Silva). José Bonifácio da Luz (bengala), capitão e presidente da Irmandade, diz que ele apenas assina, pois quem decide tudo dentro da comunidade dos Arturos são os mais velhos, assim manda a tradição e o respeito aos mesmos é um valor fundamental na cultura vivenciado pelo grupo.

As festas na comunidade dos Arturos têm início no dia 6 de janeiro, com a Folia dos Santos Reis. Na segunda semana de maio, quando da comemoração da abolição da escravatura, a Irmandade recebe um grande número de visitantes e inúmeras guardas convidadas da capital e do interior de Minas. O mesmo ocorre em 08 de outubro, que é a grande Festa de Nossa Senhora do Rosário. No dia 15 de dezembro tem lugar a festa do João do Mato. O encerramento das festividades ocorre em 25 de dezembro, quando o rei visita os presépios das casas dos Arturos e dos bairros vizinhos.

Nos altares desses grupos, entre coroas, bastões e imagens de santos católicos, se fazem presentes também os pretos velhos, Iemanjá, São Jorge, São Cosme e Damião. Destaca-se o culto de raízes africanas presente principalmente no candombe, onde se evoca a força dos antepassados. Em algumas guardas é um ritual interno e tem a responsabilidade de abrir as festas mais importantes da comunidade.

José Bonifácio (Bengala) explica que toda festa é um momento sagrado: “Além da devoção a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e outros santos pretos, é também uma oportunidade que temos de estar com nosso reinado nas ruas, mostrando a força, a herança e a riqueza da nossa cultura para os moradores de Contagem”, enfatiza. Também Marília Campos, prefeita de Contagem, ressaltou a importância da Comunidade dos Arturos para o município, sendo exemplo de luta e resistência, aproveitando para reafirmar seu compromisso com a luta pela igualdade racial e as políticas públicas voltadas para a comunidade negra.

Os jovens da Comunidade dos Arturos criaram o grupo “Filhos de Zâmbi”, através do projeto “Criança Negra, Criança Linda” desenvolvido pela Pastoral do Negro, incentivados por Tereza de Fátima Hatem, Anaíse Fortunato e Maria Gorete Heredia, em 1991. Em 1997, por motivos diversos, o grupo interrompeu suas atividades, retornando somente em 2001 com o objetivo de divulgar os trabalhos da comunidade e a riqueza da dança afro-brasileira, valorizando a auto-estima e a herança dos ancestrais. O grupo tem se apresentado em diversos espaços culturais, escolas, seminários e participou, entre outros eventos, da Feira de Artesanato do Minas Centro, VI Encontro Mineiro de Dança, no Big Shopping, do lançamento do livro “Sons do Rosário”, no Palácio das Artes, e do Encontro Latino América Cultural, no Sesc Venda Nova.

Toda a família vivencia a festa. Nos diversos grupos identificamos a importância dos mais velhos juntamente com a força dos mais novos. São crianças de dois anos que já têm reservados seus instrumentos e uma missão de continuidade. São os jovens com seus chapéus e roupas coloridas, penteados exóticos e alegria contagiante que dão o toque jovial ao encontro, seja no ritmo pulsante (congo e moçambique/feminino ou masculino), no canto e na dança saltitante com suas gungas sonoras, tendo eles o compromisso, assumido com seus pais de guardar e dar continuidade ao reinado.

Saiba mais sobre os ARTUROS:

GOMES, Núbia Pereira de Magalhães & PEREIRA, Edmilson de Almeida. Negras Raízes Mineiras: Os Arturos. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 1988. Apresenta a história completa dos Arturos, observando modo de vida, preparação das festas, contendo receitas, músicas e a importância deste grupo familiar.
SILVA, Rubens Alves da. Negros Católicos ou Catolicismo Negro? – Um estudo sobre a Construção da Identidade Negra no Congado Mineiro. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1999.
LUCAS, Glaura. Os Sons do Rosário: um estudo etnomusicológico do congado mineiro – Arturos e Jatobá. Escola de Comunicações e Artes da USP: 1999.
MARTINS, Leda M. Afrografia da Memória: O reinado do Rosário do Jatobá. São Paulo: Perspectiva, Belo Horizonte: Mazza, 1997.
SANTOS, Erisvaldo Pereira dos. Religiosidade, identidade negra e educação: o processo de construção da subjetividade dos adolescentes dos Arturos. Dissertação de Mestrado em Educação: Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, 1997. SABARÁ, Romeu. A Comunidade Negra dos Arturos: o drama de um campesinato negro no Brasil. Faculdade de Filosofia, Ciências Sociais e Letras da Universidade de São Paulo, 1997.
SILVA, Júnia Bertolina. O Congado na Comunidade dos Arturos: Catolicismo ou Culto Africano? Monografia para obtenção de bacharel no curso Ciências Sociais:Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, 2002.

Os catadores e sua luta pela inclusão social




Escrito por Ana Célia Alves de Azevedo Reveilleau

O gerenciamento e a destinação adequada e eficaz do lixo têm sido alvo de grandes discussões nos setores público e privado, em razão do enorme volume gerado diariamente e a falta de aterros sanitários. A reciclagem tem sido apontada como uma das principais alternativas para redução da quantidade de lixo, uma vez que os materiais que se tornariam lixo são coletados, separados e processados para confecção de novos produtos. Os ganhos com a reciclagem são a diminuição da quantidade de lixo a ser aterrada, preservação dos recursos naturais, diminuição de impactos ambientais, geração de empregos diretos e indiretos.

Os catadores são considerados um dos maiores colaboradores nos programas de reciclagem e segundo o Movimento Nacional dos Catadores de Recicláveis (MNCR) os catadores já chegam a dois milhões, mas somente 60 mil estão organizados em movimentos que lutam por seus direitos e trabalhos mais dignos.

A catação em lixão representa uma opção de vida para milhares de brasileiros, pois devido à crise econômica e falta de empregos muitas pessoas acabaram aderindo à função de catador. Outros, por sua vez, nunca conheceram outra forma de viver, tendo sido criado em barracos em volta do lixo, o que torna um desafio político e social promover o fechamento de um lixão, em virtudes das comunidades que vivem em seu entorno.

Os catadores atuam em determinado trecho da cidade, os quais são chamados de trecheiros. Outros catam diuturnamente em lixões, sendo conhecidos como catadores de lixão. Os que puxam carrinhos pelas ruas e levam para os sucateiros, chamam-se de catadores individuais. E os catadores organizados, trabalham em cooperativas, associações, ONGs ou OSCIPs.

Embora essa categoria tenha conquistado certo reconhecimento da sociedade, o fato é que durante muitos anos foram discriminados pelo próprio poder público, que tinha os catadores como pessoas que apenas provocavam desordem nas ruas da cidade, uma vez que utilizavam os espaços públicos para a guarda de materiais coletados.

A valorização dos serviços prestados pelos catadores vem ocorrendo gradativamente, a exemplo da criação em 1998 do Fórum Nacional Lixo e Cidadania, constituído por várias instituições, que tinham como um dos objetivos principais retirar as crianças do trabalho no lixo e colocá-las na escola, aumentar a renda de famílias que vivem da catação e erradicar os lixões. No ano de 2002 houve o reconhecimento pelo Ministério do Trabalho e Emprego da categoria profissional de Catadores de Matérias Recicláveis.

O desafio, nessa órbita, portanto, é buscar soluções adequadas, nas quais se promova a inclusão social dos catadores e de suas famílias, com melhores salários, dignidade e respeito perante toda a sociedade. O município, enquanto principal gestor dos resíduos sólidos, exerce um papel fundamental que é o acompanhamento das atividades desenvolvidas pelos catadores, pois só com o apoio institucional do poder público essa categoria poderá se organizar e conseguir se manter no mercado de trabalho.

O poder público pode auxiliar as organizações de catadores oferecendo-lhes apoio administrativo e contábil; serviços de assistentes sociais; implantação de programas de recuperação de dependentes químicos, uma vez que entre os catadores há grande incidência de droga e álcool; fornecimento de uniformes e equipamento de proteção individual para evitar o contato direito com o lixo e exposição a agentes nocivos à sua saúde; implantação de cursos de alfabetização para eles e seus filhos; e, ainda, implantação de programas de educação ambiental.

Essas ações e tantas outras são fundamentais para propiciar condições para que os próprios catadores sejam capacitados a formarem organizações, e dentro delas possam exercer todas as funções de forma independente e com autonomia.

Além disso, como os catadores estão acostumados a trabalhar de forma independente, sem horário e subordinação, precisam de um tempo para se acostumar com a idéia de serem associados em grupo. Daí a necessidade de o poder público e outras entidades acompanharem todo o processo de formação do grupo e oferecer os cursos e atividades pertinentes para que a organização possa ter sucesso.

No âmbito federal foi editado o Decreto Federal nº 5.940 de 25/10/2006, que instituiu a separação dos resíduos recicláveis descartes pelos órgãos e entidades da administração pública federal direta e indireta, determinando que a sua destinação seja para as associações e cooperativas de catadores de materiais recicláveis.

O estado de São Paulo instituiu sua Política de Resíduos Sólidos através da Lei nº 12.300/2006, a qual dispõe que a coleta seja preferencialmente de forma seletiva e com inclusão social. Nesse sentido, busca contemplar questões sociais, com a inserção de catadores, associação e cooperativas no processo de coleta, separação e comercialização dos resíduos urbanos recicláveis, promovendo a ressocialização dessa categoria, além de gerar empregos.

Assim, o apoio das municipalidades e outras entidades, como as organizações não governamentais e instituições de ensino, é essencial, pois fortalece os catadores e implementa as políticas públicas de inclusão social.

Ana Célia Alves de Azevedo Reveilleau é servidora pública federal, mestre em Direito Ambiental pela PUC/SP e autora do livro ‘Gestão Compartilhada de Resíduos Sólidos e a Proteção Ambiental’, Ed. Habilis, 2008.

ESCRAVIDÃO, ALCOOLISMO E DESTRUIÇÃO DO POVO PRETO

Por Aidan Foluke, Membro da COPATZION, Tesoureira do CNNC e Acadêmica de Enfermagem.
MSN:vanessasoares13@hotmail.com
Skype: aidanfoluke

“Estarás perdido, tornando-te o ludíbrio e escárnio de todos os povos onde YAH te houver levado” Dt 28:37
Na história da escravidão as conseqüências do contato dos europeus invasores com os africanos foram devastadoras no âmbito da espiritualidade, do psicológico e da morfofisiologia. As patologias oriundas desse contato forçado suscitaram distúrbios homeostáticos que ainda hoje afetam os africanos na África e Afro-América. O desequilíbrio ecológico da destruição do habitat natural dos povos africanos, a mudança dietética, a negação da farmacopéia oral africana, os traumas da escravidão, o trabalho forçado e insalubre, habitações desprovidas do mínimo saneamento, a demonização cultural e a introdução do álcool da cana-de-açúcar e de outros elementos na dieta foram causas de proliferação de endemias nos escravizados e atualmente afetam os afro-diásporicos.
O uso da fermentação de cereais e frutas existe no histórico das populações africanas e muitos deles usados em rituais religiosos que sofreram transformações profundas com a introdução da fermentação da cana-de-açúcar no Brasil. Aliás, em muitos rituais afro-americanos são veneradas entidades que se embebedam com cachaça. Neste artigo vou discorrer sobre o vício do alcoolismo proveniente da escravidão e sua conseqüência na formação de patologias entre os descendentes de africanos, como um fato inteiramente novo de dominação e perda da identidade ancestral.
O alcoolismo afeta a espiritualidade e a psicomorfofisiologia do dependente. A mudança dietética foi fundamental para quebrar a resistência do organismo do escravizado proporcionando-lhe as adaptações desejadas do agressor-escravizador.
É lastimável o uso das bebidas fermentadas de cana-de-açúcar, a conhecida cachaça, pela maioria da população preta brasileira e se torna ainda mais estranho, quando após reuniões da juventude preta com propósitos libertários uma grande parcela continua coabitando com os vícios impostos pelos dominadores. Na escravidão a cachaça fazia parte da dieta para deixar o escravizado lerdo, abestalhado e de fácil dominação no aceitamento de trabalhos desumanos. Nos engenhos do nordeste era costume dar cachaça aos escravizados na primeira refeição do dia, a fim de que pudessem suportar melhor o trabalho árduo dos canaviais, prática de todo o escravismo no Brasil, que obrigava os escravizados a usarem a cachaça diversas vezes ao dia.
Na musicalidade brasileira inúmeras são as músicas relacionadas ao povo preto e a cachaça, entre estas umas das que mais chama a atenção no intuito discriminatório em todos os sentidos relacionados ao homem preto.
O grupo pernambucano “Quinta Ladeira” reforça o estigma da mulher preta como cachaceira:
Uma parte do álcool é absorvida pelo organismo através da parede do estômago. Outra parte é metabolizada pelas enzimas do fígado. Quando a pessoa bebe muito, o fígado começa a acumular gordura, tornando-se um “fígado gorduroso”, cujo tecido se deteriora, levando à hepatite alcoólica ou cirrose, ascite (barriga d’água) e, até, à morte. Entre os homens pretos, a ocorrência de morte devido ao alcoolismo acontece duas vezes mais do que na população branca.
Uma das mais nefastas saídas dos traumas impostos na escravidão na população preta tem sido o refugio ao vício maléfico da aguardente, tornando o Brasil o maior consumidor de cachaça do mundo e levando dessa forma ao consumo recorde pelo povo preto. Baseado nisto, observa-se patologias que são facilmente encontradas em nossa população como: alterações no sangue – hepatite; ossos e articulações – degeneração dos ossos; lesão cerebral – síndrome de Wernicke-Korsakoff; câncer – na boca, esôfago, estômago, fígado; pulmão – pneumonia, tuberculose; epilepsia; síndrome fetal; coração – arritmias, cardiopatia, hipertensão e doença coronariana; fígado – cirrose hepática; transtornos sexuais – disfunção testicular e impotência; esôfago e estômago – corrosões que levam a gastrite, úlcera péptica, esofagite. E os mais diversos sintomas – dificuldade na fala e distúrbios da sensação; apatia e inércia geral; vômitos; incontinência urinária e fezes; inconsciência e anestesia. Além de todas essas patologias e sintomas podem-se citar os transtornos na personalidade dos seus consumidores, os quais são visíveis bem, como: a perda de eficiência, diminuição da atenção, julgamento e controle, instabilidade das emoções, menor inibição.

Fígado com cirrose hepática
As relações interpessoais de uma pessoa que bebe são modificadas, o caráter agressivo é predominante, principalmente nos homens pretos. Segundo especialistas, filhos de pais que consomem álcool em grandes quantidades desenvolvem a chamada síndrome do alcoolismo fetal, que se manifesta em atrasos no crescimento, tendência a ataques epilépticos, anormalidades faciais e problemas de aprendizagem e comportamento, retardamento mental.
Dois graves problemas do vício de álcool na mulher preta são a predisposição da Síndrome de Down – atraso mental em seus bebês e os grandes índices de aborto. Os danos são produzidos, porque a gestante elimina duas vezes mais rápido o álcool do seu sangue que o bebê, forçando-o a realizar uma tarefa para quais seus órgãos não estão preparados.
As mulheres pretas quando grávidas e são viciadas os seus fetos adquirirem defeitos que varia de leve a grave, os quais poderão ser evitados se elas aprenderem a se amar e ao seu povo preto.

É necessário que a mulher preta ame a si própria e ao seu povo preto

O uso do álcool tem aumentado o número de agressões na família, principalmente nas companheiras e nos filhos e filhas. Há inúmeros casos de mulheres pretas dominadas pelo vício da bebida abandonar e até mesmo mutilar as suas crianças. Nas nossas famílias temos históricos de familiares dependentes e sabemos quão mal faz ao equilíbrio familiar e da comunidade preta.
Muito dos delitos cometidos está na violência no transito. A quantidade de presos pretos que cometeram delitos após o uso do álcool, isto é, furtos, agressões, homicídios o fizeram depois de ingerirem bebidas. É necessário que os homens pretos se livrem da maldição da branquinha e da lourinha, as quais trazem males irremediáveis à família afro-diasporica e as mulheres pretas não concordem com a bebedeira de seus companheiros.

Há uma predisposição genética dos descendentes de escravizados a usarem a cachaça, isto explica o projeto do escravizador em longo prazo de dominar uma população através da bebida. Este é um fato que merece melhores discussões em reuniões da juventude preta. Imaginemos uma reunião da juventude com o tema: A dominação racial através da cachaça. Você participaria? Qual seria a sua opinião de acordo com os fatos e observando a sua árvore genealógica?

Quem sabe um dia iremos cantar:
Na minha casa todo mundo é bamba
Ninguém bebe
E todo mundo samba.

Festival de vídeo tela digital

Ana Loiola

Inscrições até 31 de maio

As inscrições vão até 31 de maio

Está chegando o primeiro Festival de Video Tela Digital. Você inscreve o seu vídeo pela internet e ele pode ser selecionado, através de votação, para exibição no programa de televisão Festival Tela Digital, que será veiculado pela TV Brasil em 2009. São R$ 500 para cada vídeo exibido na TV, e R$60 mil em prêmios para os melhores vídeos.

Os filmes podem ser realizados com qualquer tipo de equipamento: câmeras de vídeos, câmeras fotográficas digitais, celulares ou animações feitas em computador. Devem ter de 3 a 8 minutos de duração, com os créditos inclusos.

O tema é livre. É necessário apenas que os vídeos sejam inéditos na TV e que não contenham material pornográfico, preconceituoso, não violem a privacidade de outras pessoas, nem tenham caráter institucional, promocional ou publicitário. O programa é para todos os públicos e a classificação indicativa dos vídeos deve ser livre.

Serão selecionados no mínimo 60 (sessenta) e no máximo 100 (cem) vídeos para exibição na série de programas Festiva de Vídeo Tela Digital.

Todos os vídeos inscritos serão incorporados ao acervo permanente do Festival Tela Digital, podendo ser acessados gratuitamente pelo público na internet.

O Festival Tela Digital une a TV Brasil, autora e financiadora da idéia e a Kinoforum, organizadora e produtora do festival, promovendo a descoberta de novos olhares e uma troca maior entre a Televisão, a Internet e os produtores audiovisuais independentes.

Premiação
A decisão da Comissão de Premiação será anunciada no último programa da série, quando serão exibidos os vídeos finalistas e apresentados os seus respectivos realizadores. Serão concedidos dois prêmios no valor de R$15mil para o Melhor Vídeo Tela Digital (pelo Júri) e para o Melhor Vídeo Tela Digital (pelo Público) e três prêmios no valor de R$ 10 mil cada, para trabalhos que se destacarem durante o festival e que serão incorporados na programação da TV Brasil e Rede Pública de Televisão. Os valores divulgados dos prêmios são valores brutos, dos quais serão descontados os impostos e demais obrigações.

Dúvidas
As dúvidas mais freqüentes podem ser respondidas através da Tela Digital e, quem não tiver sua dúvida respondida no site poderá entrar em contato com a equipe do concurso através de ferramentas gratuitas da web:
GoogleTalk: teladigital@kinoforum.org
Email: teladigital@kinoforum.org

Inscrições
Os interessados podem inscrever seus vídeos até 31 de Maio de 2009, no site: www.teladigital.org.br

Inscreva-se no Projeto Agente Comunitário de Comunicação

Catraca Livre

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Até o dia 3 de junho estão abertas as inscrições para os jovens que queriam participar do projeto “Agente Comunitário de Comunicação“, que irá promover a capacitação de jovens em jornalismo comunitário.

Serão 30 jovens selecionados pela Coordenadoria da Juventude que depois de capacitados irão atuar com produtores de conteúdo dos assuntos de interesse da comunidade em 120 Telecentros.
A iniciativa é da Experimentar, empresa sem fins lucrativos e que tem como diretor o jornalista Gilberto Dimenstein idealizador, também do site Catraca Livre.

O projeto é inédito na cidade e num primeiro momento atingirá cerca de 120 unidades de Telecentros. A expectativa é de que no próximo ano, o programa alcance todos os telecentros implantados em São Paulo (hoje são 320).

Podem se inscrever jovens com idades entre 16 e 21 anos, que estejam cursando o Ensino Médio, preferencialmente a segunda série, (durante o segundo semestre), ou a terceira série (durante o primeiro semestre); não haver concluído ou estar cursando nenhum Curso Superior de graduação; ou Tecnológico e cuja renda per capita familiar não seja superior a 2 salários mínimos.

Além disso, para ser considerado inscrito, os candidatos devem ser aprovados em prova técnica, promovida pela Coordenadoria da Juventude, composta por análise de texto, questões de gramática e conhecimentos gerais.

As inscrições devem ser feitas na sede da Coordenadoria da Juventude, que se localiza à rua Líbero Badaró, 119 – 7º andar, onde também será feita a seleção dos inscritos, ou pelo e-mail juventude@prefeitura.sp.gov.br.

A inscrição feita por e-mail deverá conter, impreterivelmente, os seguintes dados: nome, endereço completo (logradouro, número, CEP, bairro), telefone(s) para contato, data de nascimento, nº do R.G., grau de escolaridade, informação da renda familiar e quantidade de pessoas na família.

O curso ocorrerá na Rua Padre João Gonçalves 168 – Vila Madalena e terá a carga horária de 28 horas. As aulas, que serão ministradas pela equipe da Experimentar, vão treinar um novo olhar sobre a cidade e a comunidade, fonte de notícias futuras.

Dimenstein, que é idealizador do site “Catraca Livre”, salienta que as pessoas precisam redescobrir São Paulo e a grande gama de serviços e atividades que ela disponibiliza para o público, muitas vezes sem custo, e que nem sempre é do conhecimento de todos.

Para executar o trabalho, cada jovem que participar do curso e torna-se um multiplicador, receberá uma ajuda de custo. A estimativa é que a ação nos Telecentros tenha início no mês de agosto.

Para o secretário Ricardo Montoro, o projeto inovador sugere um avanço no trabalho que vem sendo feito nos Telecentros. “Estamos promovendo a inclusão digital de uma parcela significativa da população e agora damos um passo além, usando o computador e a internet como ferramentas de inclusão e também da informação”, afirma o Secretário.

O projeto também visa fomentar o interesse dos jovens por comunicação social. “A ideia é fomentar na juventude paulistana o interesse profissional e investigativo do jornalismo comunitário. Criando através do curso uma rede jovem conectada com todos os cantos da cidade e com a Prefeitura”, destaca o coordenador de juventude.

Antes de realizar a inscrição, leia aqui o edital do projeto.

As informações são da Prefeitura de São Paulo.

João Wainer lança documentário sobre pichadores

Tendo como vertente principal a vida do ex-pichador Djan Ivson, 24, o fotógrafo do jornal Folha de S.Paulo João Wainer e seu irmão Roberto T. Oliveira produzem um documentário sobre os pichadores de São Paulo.

O documentário discute justamente se a pichação é uma expressão artística ou um crime contra o patrimônio. A produção registra diversas ações de pichadores e desvenda alguns dos códigos de conduta desta tribo.

Enquanto isso em Paris, a Fundação Cartier convidou Djan para participar, no próximo mês, da exposição sobre o grafite no mundo. A ocasião servirá também para a divulgação do documentário. Djan foi condenado por uma pichação que fez em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo.

Leia mais sobre Djan: “O sonho de pichar em Paris”

Veja as fotos de João Wainer registrando a ação dos pichadores:

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O sonho de pichar em Paris

A Fundação Cartier, em Paris, está exibindo uma exposição de Beatriz Milhazes, uma das artistas plásticas brasileiras mais badaladas no mundo. E mais um brasileiro, dessa vez um anônimo, foi convidado a se apresentar, no próximo mês, naquele espaço: o ex-pichador Djan Ivson. Só vai viajar, porém, se acertar suas contas com a Justiça -o que parece difícil.

A forma de expressão que condenou Djan é justamente o que atraiu os curadores da Fundação Cartier, que programa uma exposição sobre o grafite no mundo. Ocorre que ele, enquanto não se acertar com a Justiça, não terá autorização para deixar o país. “Estou correndo contra o tempo.”

Pichador desde os 12 anos, Djan se envolveu em uma série de problemas com a Justiça, condenado a serviços comunitários. Era considerado ousado por suas escaladas pelo lado externo dos prédios.

Afirma que, desde a condenação, pressionado pela família e amigos, estaria respeitando a lei e dedicando-se ao grafite

Mas manteve o interesse por essa forma de expressão transgressora. Produziu vídeos sobre a ação dos pichadores em São Paulo e vendia o material em lojas do centro. Estava gravando no dia em que resolveram pichar os espaços brancos na Bienal, quando ocorreram prisões.

Ninguém documentou, como ele, com tantos detalhes, os bastidores dessa tribo urbana, visível apenas nos muros -além dos vídeos, ele coleciona papéis com as letras realizadas pelos pichadores, alguns deles mortos. “A pichação é um grito existencial.” Todo esse registro chamou a atenção dos irmãos Roberto T. Oliveira e João Wainer (fotógrafo da Folha), interessados em fazer um documentário sobre a pichação. Djan se tornou o fio que conduz o documentário.

Ao fazer o levantamento para a exposição, os curadores da Fundação Cartier viram o documentário e se interessaram pelo estilo das letras que povoam uma metrópole como São Paulo.
Daí veio o convite para Djan reproduzir ali sua grafia. “Descobri que não podia ir quando fui tentar tirar o passaporte.”

Já tinha cumprido pena de 72 horas de serviços comunitários -mas alega que não sabia que faltavam mais 90 horas. “Não vejo problemas em cumprir a pena.” Não quiseram converter essas horas em pagamento de cestas básicas.

Se ele não conseguir embarcar, não ficará inteiramente invisível. O documentário será mostrado pela primeira vez em Paris -a Fundação Cartier ajudou a pagar a finalização-, e as assinaturas dos pichadores colecionadas por Djan serão expostas num painel.

Força-tarefa em BH caça pichador

Ministério Público, polícias Civil e Militar e Guarda Municipal criam grupo para trocar informações sobre os atos de vandalismo contra o patrimônio público na capital
Flávia Ayer – Estado de Minas
FOTOS: BETO NOVAES/EM/D.A PRESS
Recém-casados, Luciana Vieira e Michel Lotti escolheram o cenário urbano para a foto do álbum, levando em conta que os escritos fazem parte do cenário da cidade

De dia, ela cursava o ensino médio numa escola pública e trabalhava como estagiária na prefeitura. À noite, J., de 17 anos, transitava por Belo Horizonte, com outros jovens, deixando sua assinatura, riscada em traços enigmáticos, nos muros, fachadas e demais construções da cidade – como a do Elevado Castelo Branco, no Bairro Carlos Prates, na Região Noroeste de BH. Hoje, a garota diz ter abandonado o mundo das pichações, no qual esteve mergulhada por três anos. No entanto, ainda tem a habilidade de decifrar os códigos do vandalismo feitos de tinta e spray.

Diante do Pirulito da Praça Sete, no Centro da capital, J. lê inscrições “Pik” e “Cia”, que, apesar das tentativas de limpeza, continuam no monumento, atacado três vezes em menos de um mês. “São apelidos de pessoas das gangues. Os pichadores geralmente usam chapéu de aba reta e fazem isso para ganhar fama, conseguir mulheres e amigos. Mas, se alguém picha a marca do outro, pode dar até morte”, conta. Embora J. saiba muito bem quem depreda BH, a maioria dessas pessoas ainda são desconhecidas do poder público. Com objetivo de cercar os vândalos do spray, Ministério Público Estadual (MPE), Polícia Militar, Polícia Civil e Guarda Municipal acabam de criar um comitê de combate e enfrentamento à pichação na cidade. A primeira reunião do grupo ocorreu em maio.

Tal como ocorre com crimes de homicídio, a ideia é compartilhar informações sobre as gangues de Belo Horizonte, facilitando a apuração dos fatos. “Cada polícia produz uma informação isoladamente. Com isso, na hora de fazer uma investigação, fica difícil saber a extensão dos crimes que a pessoa causou. Com essa iniciativa, vamos facilitar o fluxo de dados”, afirma a promotora Vanessa Fusco Nogueira Simões, coordenadora da Promotoria Estadual de Combate aos Crimes Cibernéticos, que, no fim do ano passado, começou a investigar gangues de pichadores da Zona Sul de BH que se exibiam em fotos no Orkut.

Pilastras de iluminação da Praça da Estação são alvo dos delinquentes, enquanto na Raul Soares, guarda inibe ação de vândalos

A promotora afirma que, apesar de ser uma infração considerada leve, a pichação é uma porta de entrada para o crime, principalmente no caso dos adolescentes. Além da recuperação da pintura dos prédios pichados, as penas para os pichadores tendem a ser multas e a obrigação de prestar serviços à comunidade. Outra justificativa para a força-tarefa contra os pichadores é o crescimento deste tipo de crime. “Identificamos que a pichação tem crescido muito, basta andar pela rua para ver”, ressalta a promotora. Não existem dados consolidados sobre esse tipo de vandalismo na capital mineira, no entanto, a Guarda Municipal registrou, até 29 de maio, 195 intervenções em prédios e vias públicas. Isso significa 1,3 pichações a cada 24 horas.

Estratégias

Além de compartilhar informações, a parceria entre os órgãos visa criar estratégias para combater, de forma permanente, a ação dos vândalos e evitar depredações como na Praça da Estação, na Região Central de BH. Apesar de o local ser vigiado 24 horas por três guardas municipais, pichadores conseguiram sujar as pilastras de pedra. “Geralmente, ocorre à noite, quando nossa visibilidade fica prejudicada. Os pichadores aproveitam o grande fluxo de pessoas saindo da estação para agir”, diz o guarda municipal Jadson Souza.

Em frente a uma das inscrições, a empregada doméstica Marinalva Batista Santos protesta: “Isso aqui é de todo mundo. Não queremos um lugar sujo para nós. Acho muito errado limpar de manhã e à noite estar sujo de novo”. Mesmo com as marcas do vandalismo, os recém-casados Luciana Vieira, de 26, e Michel Lotti, de 29, escolheram a Praça da Estação para ser cenário do álbum de casamento. “Queríamos fugir do convencional e apostamos nesse contraste dos noivos com a arquitetura urbana. Infelizmente, as pichações fazem parte do contexto da cidade”, afirma Lotti.

Se o casal tivesse optado por ser fotografado na Praça Raul Soares, na Região Centro-Sul da capital, não haveria necessidade de desviar a câmera das sujeiras feitas em tintas e spray. O local, também vigiado 24 horas pela Guarda Municipal, desde a reforma do ano passado, está livre das pichações e cheia de pessoas que querem contemplar a beleza do local. O açougueiro Gutemberg Fernandes dos Santos, de 34, passou a ir todos os dias à Raul Soares, no intervalo do almoço, depois da reforma. “Antes aqui era cheio de pichação. Muita gente nem vinha porque se sentia insegura. Pichador não respeita ninguém. Se a praça não tem guarda, ela fica destruída rapidamente”, afirma.

VII Mostra Minas de Cinema e Video

http://www.letras.ufmg.br/atelaeotexto/mostraseestudosaudiovisuais_eventosrealizados_mostraminas7_programa%C3%A7%C3%A3o.html
A VII Mostra Minas de Cinema e Video sera realizada no Cine Humberto Mauro, no Palacio das Artes e traz ao publico um pouco da producao audiovisual realizada em Minas Gerais apresentando alguns curtas produzidos no estado de diferentes generos.

Dia 04/06/2009 (quinta-feira) – MOSTRA-HOMENAGEM: SÁVIO LEITE

Dia 05/06/2009 (sexta-feira) –
MOSTRA COMPETITIVA I

Dia 06/06/2009 (sábado) – MOSTRA-EDUCAÇÃO: leitura de telas e textos
(15:00)

Dia 06/06/2009 (sábado) -0
MOSTRA COMPETITIVA II
Premiacao.
Nome do Evento: VII Mostra Minas de Cinema e Video
Data Inicial:04/06/2009
Data Final: 06/06/2009
Hora Inicial:19:00

Entrada:Entrada Franca

Categoria:Mostra de Cinema

Festival Contato premia projetos em multimídia Rádio Ufscar · São Carlos (SP)

Produção do Festival


O 3º CONTATO – Festival Multimídia de Rádio, TV, Cinema e Arte
Eletrônica realiza concurso para produção de projetos artísticos
multimídia propostos por universitários

Enquanto um artista toca baixo, sua música interage com o computador
gerando imagens em tempo real. Esse é um dos tipos de projeto que o
“Contato Universitário”, chamada de projetos artísticos destinados a
estudantes do nível superior, busca para o 3? CONTATO – Festival
Multimídia de Rádio, TV, Cinema e Arte Eletrônica, que acontecerá de 7 a
12 de outubro, na cidade de São Carlos.
O CONTATO é organizado anualmente pela Rádio UFSCar, CineUFSCar,
Laboratório Aberto de Interatividade e a Coordenadoria de Comunicação
Social da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). O evento reúne
atores culturais de todo o País na cidade de São Carlos em atividades
gratuitas. A meta é realizar debates, oficinas e apresentações
artísticas e culturais que fomentem um novo espaço de discussão e
reflexão fora das grandes capitais.
A chamada de trabalhos realizada para a edição deste ano busca
viabilizar a realização de obras artísticas que mesclam vários suportes
de criação multimídia, como áudio, vídeo, performance, instalação,
intermedia e artes transdisciplinares. As propostas devem estar
relacionadas ao tema dessa edição do CONTATO, que, neste ano, pretende
discutir a identidade de todos, permitindo encontros em que as
diversidades coletivas e individuais sejam impulsionadas a se reconfigurar.
O concurso tem como objetivo possibilitar que a criação multimídia de
estudantes universitários se torne realidade. Para isso, a terceira
edição do Festival investirá seis mil reais para financiar e co-produzir
projetos selecionados que serão exibidos durante o evento.
Não há número predefinido de projetos a serem contemplados para o
“Contato Universitário”. Cada proposta deve ter orçamento máximo para
realização de dois mil reais. Podem participar do concurso apenas
estudantes matriculados no Ensino Superior, incluindo desde graduandos
até pós-doutorandos. As inscrições de propostas serão aceitas até o dia
7 de julho e devem ser feitas por meio de envio de mensagem por e-mail e
da documentação complementar pelo correio. Todas as informações sobre a
chamada estão disponíveis no site do Festival, onde também será
divulgada a relação dos trabalhos contemplados no dia 17 de julho. O
endereço para acesso é www.contato.ufscar.br. Mais informações pelo
telefone da Rádio UFSCar, (16)3351-8099.

Vestibular e racismo

Leonardo Alves Ferreira

Em meio à discussão sobre cotas nas universidades, em que pesam as dúvidas de como será verificada a raça do candidato, se pardo também tem direito, se esse “benefício” é estendido aos descendentes de negros (recentemente, uma aluna perdeu direito à vaga pois, conforme verificou-se depois, “não era negra suficiente”), qual será a porcentagem de vagas, se é uma reparação de erro histórico ou de sofrimento, enfim, há um fato que, se não é levado em consideração, pelo menos está sendo ignorado neste debate: o vestibular é um método racista?

Que há mais brancos do que negros nas universidades é fato. Nem é preciso de pesquisas, basta visitar qualquer faculdade do país para se comprovar isso. Quanto a haver mais ou menos pardos, aí já é mais difícil, afinal, quem é pardo no país? Aliás, qual o critério para sê-lo? Talvez a comissão da Universidade de Brasília (UnB), aquela que pode dizer – apenas dando uma olhadinha em uma foto – se fulano é negro, pardo ou mameluco, tenha esta resposta. Pois bem, o fato incontestável é que, levando-se em consideração o tamanho da população negra do país, esta está ridiculamente representada nos bancos de ensino superior.

Mas, diferente dos Estados Unidos, de onde surgiu a inspiração para essa política de cotas, o sistema de ingresso nas faculdades brasileiras é apenas objetivo. Faz-se uma prova, apenas isso. Não há estudos de currículo, entrevistas ou quaisquer outros meios que possam levar em conta algum critério subjetivo. Portanto, se algum candidato não passa no vestibular, isso não decorre, em hipótese alguma, do fato de ser negro, índio ou mulato. Desta forma, se a cor da pele não é de maneira alguma critério – seja implícito ou explícito – para ingresso nas universidades, qual a lógica de se criarem cotas que visam justamente atender candidatos a partir de sua etnia?

Qualquer olhar, seja ele raso ou profundo, enxerga que, no caso específico dos vestibulares, aqueles que estão em desvantagem são os que não tiveram condições de se preparar para as provas; não só às vésperas do exame, mas durante toda a vida. Os motivos? Ora, a qualidade do nosso ensino público que, de tão baixa, cria a enorme vantagem àqueles que estudam em escolas particulares. E os que estudam em boas escolas, lá estão por quê? Somente porque são brancos? Certamente não. Quem estuda em boas escolas é porque pode pagar por isso.

Portanto, o cerne da questão não está na cor da pele: está na pobreza, que não dá outra opção à maioria de nossa população senão ter que estudar em colégios gratuitos e com níveis muitas vezes pífios de ensino. O racismo, neste caso, passa a quilômetros do vestibular.

Se a questão é facilitar o ingresso nas universidades, por que não dar espaço à “cota social”, onde parte das vagas seja destinada a candidatos comprovadamente oriundos de escolas públicas e/ou de baixa renda? Neste modelo seriam contemplados todos aqueles que não tiveram acesso a um ensino que os possibilitasse chegar às universidades em pé de igualdade com os demais. E isso, certamente, incluiria todos os brasileiros, independente da cor da pele.