Arquivos Mensais: maio \31\UTC 2009

A Justiça e o sistema de cotas

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Embora tenham caráter liminar, as recentes decisões do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) e do Tribunal Regional Federal (TRF) da 2ª Região, que suspenderam o regime de cotas para negros, índios e estudantes de escolas públicas em universidades estaduais e federais, são mais um exemplo das tensões e confusões jurídicas que essa demagógica política de “ação afirmativa” e de “justiça compensatória” vem causando em todo o País.

No Rio de Janeiro, o recurso judicial foi impetrado por um deputado estadual, que questionou a constitucionalidade de uma lei, aprovada no ano passado pela Assembleia Legislativa, que estabelece cotas para deficientes físicos e para filhos de bombeiros, policiais civis e militares e inspetores de segurança e administração carcerária mortos em serviço ou incapacitados em razão de serviço. Em 2002, a Assembleia fluminense já havia aprovado uma lei impondo as chamadas “cotas raciais e sociais” nas três universidades públicas estaduais.

Ao fundamentar a concessão da liminar, o desembargador Walmir de Oliveira e Silva criticou a legislação fluminense sobre cotas, alegando que, além de ferir o princípio da igualdade consagrado pela Constituição de 88, ela não prevê critérios objetivos para avaliar o conhecimento dos candidatos cotistas. Não se trata de um fato isolado no Estado. Só a Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), que reserva 45% de suas vagas a alunos cotistas, responde anualmente a cerca de 400 processos judiciais, em média. Eles são impetrados por estudantes não cotistas que não conseguiram se matricular, apesar de terem obtido pontuação maior que a de cotistas aprovados nos vestibulares da instituição. Em 2006, um vestibulando de medicina obteve 91 pontos e não conseguiu ser aprovado – e um cotista ingressou no curso de relações públicas com apenas 50 pontos.

No TRF da 2ª Região, o recurso foi ajuizado por 15 estudantes que também obtiveram média para passar no vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), em 2007, mas não puderam se matricular, preteridos por cotistas. A instituição reserva 40% de suas vagas a alunos oriundos de escolas públicas e que tenham renda familiar mensal de até sete salários mínimos. Em seu voto, a relatora do processo, desembargadora Lúcia Lima, afirmou que as cotas comprometem o princípio do mérito no acesso ao ensino superior público. Para ela, o mais adequado para se promover justiça social seria conceder bolsas de estudo para estudantes carentes ou pobres, em vez de prejudicar “estudantes que, por circunstâncias de vida, tiveram oportunidade de estudar em uma instituição de ensino particular”.

Na comunidade acadêmica e nos meios políticos, a reação às duas liminares foi a esperada. A Procuradoria-Geral do Estado do Rio prometeu entrar com embargo de declaração, assim que a decisão dos desembargadores for publicada. A Assembleia Legislativa também prometeu recorrer, alegando que a lei por ela aprovada é constitucional. O ministro da Igualdade Social, Edson Santos, afirmou que o Órgão Especial do TJ-RJ teria agido com inusitada rapidez no caso. “Estranhei a celeridade na votação. Uma questão como essa, com impacto social tão grande, não pode ser decidida por liminar”, disse ele. Por sua vez, as três universidades estaduais fluminenses alegam que a decisão do TJ-RJ exigirá alterações no vestibular programado para novembro.

Como também já era esperado, a Ufes e as três universidades estaduais fluminenses agora têm de enfrentar tensões causadas pelo acirramento da discriminação racial. Os alunos cotistas são malvistos pelos não cotistas, enquanto os estudantes beneficiados por liminares são criticados pelos cotistas. Esse é o tipo de problema que, tendo começado pela equivocada tentativa de democratizar o acesso ao ensino superior com base em critérios como etnia, cor da pele e origem socioeconômica – quando o mais sensato era combater o péssimo nível do ensino fundamental e do ensino médio -, pode levar ao segregacionismo e à eclosão do ódio racial num país que, apesar de suas iniquidades, sempre se caracterizou pela miscigenação e pelo convívio harmonioso de pessoas de todas as nacionalidades, cores e religiões.

Google Wave pretende unificar email, IM e todas as formas de comunicação na web

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    if (qtdrec != ”) { //var mediarec = (parseInt(notasrec)/parseInt(qtdrec)) media_estrelas_recomendar(qtdrec, notasrec); } else { media_estrelas_recomendar(1,0); }

Screenshot do Google Wave / Foto: Reprodução

RIO – O Google apresentou nesta quinta-feira durante a conferência I/O o seu novo email que pretende substituir não só os atuais correios eletrônicos como também quase todas as outras formas de comunicação online. O “Google Wave” combina email, chat, troca de fotos e vídeos, feeds e muitos mais em um mesmo ambiente colaborativo.

Em 2004, quando o Google lançou o Gmail, o velho conceito de webmail foi totalmente modificado. Além de fornecer uma quantidade de espaço inimaginável até então (2 GB contra os parcos 25 MB do Hotmail na época), o correio eletrônico do Google transformava o caos de nossas caixas postais em “conversas” muito mais fáceis de se administrar.

Foi uma revolução, mas para os irmãos Lars e Jens Rasmussen, engenheiros de software do Google, ainda é possível melhorar. Na opinião deles, as principais formas de comunicação na web – email e mensagens instantâneas – ainda simulam conceitos analógicos. As formas de troca de informações na internet, por outro lado, evoluíram drasticamente nos últimos anos, com o surgimento dos blogs, wikis, documentos colaborativos, Twitter, RSS, etc.

– De certo modo, nós pegamos dicas de todas as ferramentas de comunicação existentes – disse Jens ao site Webmonkey.

No novo produto, uma “wave” (onda) inclui lado a lado partes de “conversas” e documentos, permitindo que as pessoas se comuniquem enquanto trocam arquivos como textos, fotos, vídeos, mapas, etc. Tudo no mesmo ambiente.

Nós pegamos dicas de todas as ferramentas de comunicação existentes


A ideia por trás do Wave é unificar todos esses modelos em um “continuun” suave, da forma mais simples possível; e tirando proveito das atuais capacidades dos computadores (e da web), ao invés de imitar formas não-eletrônicas.

E como isso funciona? O primeiro passo é criar uma “Wave” e convidar pessoas para participarem dela. Todos que estão na mesma “onda” podem incluir textos, fotos, wikis, links, etc. Cada item da “onda” pode ser comentado ou editado e as modificações são vistas por todos em tempo real. Segundo o Google, a latência é medida em poucos milissegundos. E se você perde alguma parte da conversa, é possível reprisar todo o processo, para entender como ele evoluiu.

Os participantes da conferência Google I/O puderam testar o produto nesta quinta, mas ele só estará disponível para o público em alguns meses. Quem quiser ser avisado sobre o lançamento, basta se inscrever em http://wave.google.com/ . Já existe um grupo de APIs que podem ser utilizadas por desenvolvedores no site http://code.google.com/apis/wave/ .

Polícia Federal apreende material neonazista em Belo Horizonte

BELO HORIZONTE E SÃO PAULO – A Polícia Federal apreendeu material de conteúdo racista e neonazista na manhã desta sexta-feira, na região metropolitana de Belo Horizonte. Segundo o delegado responsável pelo caso, as denúncias foram encaminhadas por usuários de sites de relacionamento na internet.

Quatro mandados de busca e apreensão foram cumpridos na operação batizada de “Opa”, três em Belo Horizonte e um e Contagem. Segundo a polícia, nos locais havia muito material impresso e arquivos de computador. Tudo foi levado para a sede da Polícia Federal em Belo Horizonte.

Quatro pessoas vão responder a processo na Justiça Federal por crime de ódio e preconceito. Se forem condenados, a pena prevista é de dois a cinco anos de prisão, além de multa.

Em abril passado, o jovem Bernardo Dayrell Pedroso, de 24 anos, morador de Minas Gerais, foi morto no Paraná ao lado da namorada, Renata Waechter Ferreira, de 21 anos. Segundo a polícia do Paraná, que investigou o crime, Dayrell foi morto a mando de um economista de São Paulo, Ricardo Barollo. A polícia de São Paulo acusa Barollo de integrar um grupo neonazista armado. Armas compradas pelo grupo foram apreendidas também no Rio Grande do Sul, onde a polícia estima que moram pelo menos 50 integrantes do movimento neonazista. No total seis pessoas foram presas pela morte dos jovens, incluindo Barollo.

Grupos neonazistas são acusados de comprar armas na Argentina e a eles são atribuídas pelo menos 10 mortes em dois meses , que estão sendo investigadas.

Viciados em crack lotam rede pública de saúde

Renata Mariz – Correio Braziliense

Brasília – Uma das maiores pedras no caminho da reforma psiquiátrica brasileira é a mistura de cocaína com substâncias altamente tóxicas. O crack, que leva 15 segundos para chegar ao cérebro e provocar reações pelo corpo todo, transformou-se em um desafio gigantesco para a rede pública de saúde mental. Pipocam, cada vez com mais intensidade, casos de crianças e adolescentes, usuários preferenciais da droga, em unidades de atendimento. A rede que deveria dar conta desse tipo de demanda, entretanto, permanece longe do ideal. Há no país 186 Centros de Atenção Psicossocial (Caps) especializados em dependência química, enquanto a meta traçada pelo governo federal, já para 2010, é de 350. No caso da infância, a situação é ainda mais crítica.

Os 101 Caps existentes no Brasil destinados a cuidar de pessoas de até 17 anos não têm estrutura para atender essa população, no total, de quase 60 milhões de crianças e adolescentes. Mesmo em clínicas psiquiátricas que, diferentemente dos centros de atenção psicossocial, trabalham com a internação para desintoxicar, os pequenos são ignorados. “Somos a única unidade do SUS que atende, na saúde mental, meninos e meninas de 6 a 12 anos no Rio Grande do Sul” , lamenta Gilberto Brofman, diretor do Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre. A incidência de dependentes de crack nos 10 leitos da unidade infantil da instituição é da ordem de 50%. Na ala dos adolescentes, chega a 90% o número de viciados na pedra.

No caso dos adultos, a fragilidade da rede é semelhante. “Os próprios Caps encaminham para nós. Na ala de pacientes agudos, onde deveria ter mais esquizofrênicos, 50% dos internos hoje estão por drogas, principalmente o crack”, afirma Elieuza Bacelar, diretora do Hospital Especializado Lopes Rodrigues, em Feira de Santana (BA). Depois de vencer primeiro a própria resistência, Fernando* precisou batalhar uma vaga entre 30 leitos destinados a dependentes químicos do São Pedro, na capital gaúcha. “Fumei tudo que eu podia, até minhas roupas”, diz o jovem de 28 anos, atualmente em tratamento.

Na Região Sul, 1,1% da população usou crack pelo menos uma vez na vida — percentual maior que a média nacional, de 0,7%. Os dados são do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid). Secretário estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Terra classifica o problema como uma chaga social. “Não tem gripe suína, dengue, malária. Absolutamente nada, nos dias de hoje, é mais grave que a epidemia do crack”, diz. Nos planos de Terra, está o credenciamento de 600 leitos em hospitais gerais no estado específicos para o atendimento aos usuários da droga. Além disso, agentes do programa Saúde da Família já passaram por capacitação para verificar sinais de uso de crack durante as visistas domiciliares.

O desespero

A jornada de Daniel* passou pelo caminho típico do usuário de crack. Depois da primeira pedra, rapidamente veio a dependência, seguida de furto dentro de casa, assalto à mão armada na rua, falta de dinheiro e muita fissura. Tanta que o menino de 17 anos fez o que contraria a gana de viver associada à juventude. Quis morrer. Tentou se matar. “Vi que eu não ia conseguir ficar sem usar. Aí, me cortei com cacos de vidro”, conta.

Com as cicatrizes no braço ossudo ainda recentes, ele recebeu alta, depois de dois meses de desintoxicação. “Mas ninguém veio me buscar. Querem arrumar um abrigo para mim”, lamenta, com voz embolada, efeito dos remédios para combater a ansiedade. O menino deseja voltar para casa, mas a família, de Pelotas (RS), não retorna mais os chamados do hospital em Porto Alegre onde o garoto está. “Sei que minha mãe sofreu muito. Uma vez ela me amarrou e chamou a polícia. Mas eu queria ficar com ela”, afirma Daniel, filho adotivo, quatro irmãos.

A esperança

Uma dose diária de 20 a 30 pedras estava matando Juliana*, que começou a fumar a droga quando tinha 9 anos. Para conseguir dinheiro, assaltava apartamentos e se prostituía. O programa custava a quantia necessária para uma pedra, R$ 5. Há cerca de um mês, a menina, que morava na rua, foi levada por assistentes sociais para um local de tratamento. “Quero me recuperar, ter uma vida diferente”, diz. Além de tomar remédios, Juliana participa de brincadeiras com os colegas de internação como parte do programa de desintoxicação.

Saudade da rua, ela diz que não tem. A pedra era boa, conta Juliana, para “tirar” a fome, o frio. “Podia ficar muitos dias sem comer”, lembra a menina de 12 anos. Apesar de extrovertida, desconversa. Insiste em falar da nova vida na clínica. “Gosto de fazer tudo aqui. Tem comida. Cada dia um coloca a mesa”, explica. De repente, vai até a janela, volta com algo na mão. “Olha o meu pé de feijão, fui eu que plantei”, orgulha-se, exibindo o copo de plástico com o algodão no fundo.

* Os nomes são fictícios, para preservar a identidade dos entrevistados

Estudo indica que mortes por aborto é maior entre negras

Agência Estado

SÃO PAULO – Um novo estudo sobre a mortalidade de mães no Brasil revela que o risco de morrer por aborto é muito maior nas mulheres negras e pardas do que em grávidas brancas, o que leva especialistas a questionar se a criminalização do procedimento estaria punindo apenas alguns grupos raciais. Segundo o trabalho do Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio, apresentado durante o seminário Mortalidade Materna e Direitos Humanos no Brasil, o risco de morte de uma grávida negra cuja gestação terminou em aborto é 2,5 vezes maior do que o de brancas.

Nos últimos quatro anos o instituto vem se dedicando a radiografar o aborto no País e, depois de mostrar que sua frequência reflete as desigualdades – ocorrem mais entre mulheres negras e pobres -, foi investigar se havia também diferenças na mortalidade, considerando registros de 2003 a 2005. Os especialistas apontam que é possível que a descriminalização do aborto, se um dia aprovada no Brasil, reduza o índice de complicações e mortes – atualmente é crime, só permitido em caso de estupro ou risco de morte para a mãe. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Café Palhares conquista o título de melhor tira-gosto de BH

Eduardo Tristão Girão – EM Cultura

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Pedro Motta/Esp. EM/D. A PRESS
Os irmãos Luiz Fernando e Joao Lúcio Ferreira, donos do Café Palhares, com o kaol, marca registrada do bar

Em 2003 ele chegou perto, venceu na categoria melhor atendimento. Três anos depois, repetiu o feito, conquistando também o título de terceiro melhor tira-gosto da cidade com um picadinho ao molho de cerveja preta e mandioca batizado de Hilda Furacão. Este ano, o Café Palhares, uma das casas mais tradicionais da cidade (está completando 71 anos de funcionamento), faturou o prêmio máximo do Comida di Buteco com o “karacol de pernil”: fatias de pernil ao molho picante de abacaxi, couve, minipão sírio e palitos de couve e pepino. Os irmãos Luiz Fernando e João Lúcio Ferreira, que comandam o bar, anunciam: o petisco será mantido no cardápio.

Basta olhar o quadro de petiscos afixado sobre o velho balcão de mármore e constatar que nele não está nenhuma das criações com as quais a casa disputou as edições passadas do Comida di Buteco. O karacol (R$ 17,90) será o primeiro. “Esse prato foi criado com a intenção de ser light, sem fritura. É um dos pratos com menos gordura nessa edição do Comida di Buteco”, conta Luiz. O pernil é o mesmo que há décadas é assado e fatiado na casa. O molho foi adaptado a partir de uma receita vista na internet e vem recebendo muitos elogios. “Foi a minha mulher, Verônica, quem criou o petisco”, confessa.

Os legumes, apresentados em palitos, não são apenas um complemento light. Eles emprestam “crocância” ao conjunto e refrescam a boca do freguês, ocupada com carne e pimenta. O pãozinho, é claro, ajuda a “limpar” o prato. “O pessoal gostou de fazer sanduichinhos com esse petisco”, conta Luiz. Ele conta que durante o Comida di Buteco vendeu cerca de 50 karacóis por dia – número que aumentou bastante na semana final do evento. “Só não vendi tanto quando os outros bares porque não tenho mesas na calçada. Outros bares chegaram a vender 200 petiscos concorrentes por dia”, garante.

Pedro Motta/Esp. EM/D. A PRESS
Edson Geraldo Soares vai completar 50 anos de dedicação ao bar

TRADIÇÃO

O maior desafio do karacol será furar a barreira do consumo praticamente automático do kaol (R$ 7,40), um dos mais famosos pratos da cidade. Para se ter uma ideia, o bar vende, em média, um kaol a cada dois minutos, o que significa algo em torno de 500 por dia. “Antes de se tornar kaol, o prato era comida dos funcionários, na época em que a casa funcionava 24 horas por dia”, diz Luiz. O nome foi criado pelo proprietário, seu Neném (pai de Luiz e João), e o compositor Rômulo Paes, juntando as iniciais do que compreendia a refeição: cachaça (o k é por estilo), arroz, ovo e linguiça.

Hoje o kaol é composto por arroz, farinha com grãos de feijão, couve, ovo frito e linguiça – a cachaça é por conta do freguês. A linguiça é um capítulo à parte: produzida diariamente no bar, segue receita de antigo funcionário, o que inclui pernil suíno, alho, sal e pouca gordura. Se quiser, o freguês pode trocar a linguiça por carne cozida, língua ou dobradinha. Se quiser pernil, paga acréscimo de R$ 0,80. “O tempo que leva para servir um kaol é o de fritar o ovo. Enquanto o ovo frita, a gente monta o prato. Na volta, o ovo está pronto”, garante Luiz. Muita gente gosta de ter como acompanhamento do prato um pastel de carne (R$ 0,60, unidade).

DIVERSÃO

Outro “patrimônio” do local é o gerente, Edson Geraldo Soares, de 64 anos. Ano que vem, completará meio século de Café Palhares. Nascido em Belo Horizonte, começou a trabalhar como ajudante de montagem de transformadores de energia elétrica. Na época, a irmã trabalhava num prédio onde moravam funcionários do bar. Indicado por eles, Edson chegou e ficou. “Pelo visto, não vai haver terceiro emprego”, brinca. Aposentado há 15 anos, trabalha de segunda a sábado das 15h às 23h e confessa que praticamente não viu todo esse tempo passar: “Quando se está num lugar que gosta, a gente para de contar os anos e passa a conviver. Não venho aqui trabalhar, venho me divertir”, garante Edson.

CAFÉ PALHARES
Rua Tupinambás, 638, Centro. (31) 3201-1841. Aberto de segunda a sábado, das 7h às 23h.

Entrevista com MV BILL

Nascido e criado em uma das favelas mais conhecidas do mundo, a Cidade de Deus, o rap e escritor Mv Bill pede cara novas e mais musicalidade nos rapers. E diz que o RPB FESTIVAL é uma renovação original.

1- O que você acha de um festival que da oportunidade para os novos talentos?

MV Bill: Acho muito importante por trazer a renovação e esse festival propõe isso de uma forma muito original.

2- Pra você como está a cena do rap no Brasil?
MV Bill: Precisando muito de novos nomes, idéias, novas caras… Precisa de um frescor.
3 – Como você vê a mídia em relação ao hip-hop?
MV Bill: Ainda com muito distanciamento e de forma desrespeitosa as vezes. Ainda há um tratamento marginalizado muitas vezes.
4 – Na sua opnião qual o futuro do hip-hop no Brasil?
MV Bill: Penso num futuro sem os vícios atuais e com mais musicalidade, acompanhado de maturidade.
5 – Qual a dica que você daria para os grupos que estão surgindo?
MV Bill: Inscrevam-se e tragam suas idéias sem medo. A renovação agradece!

RAP POPULAR BRASILEIRO

O Rap Brasileiro nunca mais será o mesmo!

RAP POPULAR BRASILEIRO PREMIAÇÃO EM DINHEIRO : 1º LUGAR R$2.000,00 – 2º LUGAR R$ 1.000,00 – 3º LUGAR R$ 500,00

NOVAS DATAS DO RPB FESTIVAL

Datas:

1 de junho
Fim das inscrições

07 de junho
1º Eliminatória Estadual.

Viaduto Negrão de Lima

14 de junho
2º Eliminatória Estadual.

Viaduto Negrão de Lima

21 de junho
Final do Estadual.

Viaduto Negrão de Lima

27 de setembro
RPB FESTIVAL BRASIL
Local a definir


REALIZAÇÃO
Art. 1° CUFA – Centra única das favelas, promove o R.P.B-Festival – Rap Popular Brasileiro, em JUNHO E SETEMBRO de 2009, em âmbito nacional.
O festival acontecerá em diversos estados do país, sendo uma das cidades realizadoras o Rio de Janeiro cujas eliminatórias acontecerão de, 07 de junho, 14 de Junho, 21 de Junho e 27 de Setembro.
A final Nacional com os campeões estaduais acontecerá igualmente no Rio de Janeiro, dia 27 de Setembro.

OBJETIVO
Art. 2° – O R.P.B Festival – que tem como objetivos:
· Incentivar o desenvolvimento e difusão do Rap,
· revelar talentos,
· valorizar artistas, compositores e Mc’s deste gênero musical;

DATAS.
Art. 3º – As etapas do RPB Festival acontecerão nas seguintes datas:
· 2 de fevereiro – Inicio das inscrições via site. http://www.rappopularbrasileiro.com.br
· 12 de abril – fim da inscrição 1 de Junho.

LOCAL.
Art. 4º – Todas as etapas do Rio de Janeiro sob o Viaduto Negrão de Lima, no
Centro Cultural e Esportivo CUFA – Rua : Alfeu Farias Castros/n.º – Madureira – RJ

INSCRIÇÕES.
Art.5° – A pré-inscrição deverá ser feita pelo site do festival http://www.rpbfestival.com.br, de 02 (dois) de fevereiro a 1 (primeiro) de junho de 2009. Após a realização da pré-inscrição, o candidato deverá enviar, para realizar a inscrição efetiva, via Correio, o material endereçados a CUFA PRODUÇÕES : Rua Carvalho de Souza, 137-sala 111 – Madureira- RJ – CEP – 21350-180, A-C :RPB FESTIVAL Rio de Janeiro) conforme descrição:
CD – em mp3 e áudio contendo apenas a musica inscrita, ficha de inscrição – com todos os itens preenchidos. O não preenchimento de algum item implica a não conclusão da inscrição.
– Rider técnico; mapa de palco;
– Letra da musica em papel A4, fonte 12;
– Foto de divulgação – digital, com resolução mínima de 300dpis;
– Copia do RG do responsável e integrante do grupo;
– Release – documento com breve apresentação do grupo. Mínimo de uma pagina em fonte de letras tamanho 12.
– Desejável vídeo de boa qualidade para divulgação.
Art. 6 º Poderão se escrever grupos de rap de todos os gêneros

Art. 7º O limite de idade mínima para os grupos inscreverem seus integrantes é de 16 anos de idade. Caso o grupo tenha um menor de idade,
Art. 8º Não serão aceitos materiais enviadas fora do prazo estabelecido. O selo do correio será uma comprovação da data de postagem. Entrega em mãos no escritório da Cufa, somente dentro do período de inscrição.
Art. 9° Não Será cobrada taxa de inscrição.

MÚSICAS.
Art. 10° Cada grupo poderá inscrever apenas 1 (uma) músicas, respeitando os critérios de ineditismo e originalidade da mesma .
· Entendemos por INÉTIDA a música que não tenha sido gravada em discos comerciais, nem editada.
· Deverá ser mantida a originalidade, entendendo-se como tal à inexistência de plágio de composição já existente considerada tanto a parte musical quanto literária.
· Parágrafo Único – O material enviado para a produção passará a fazer parte do acervo do festival.

AUTORIZAÇÕES.
Art. 11 º No ato da inscrição todos os integrantes do grupo devem liberar seus direitos de imagem.
SELEÇÃO E APRESENTAÇÃO DOS GRUPOS.
Art. 12° – Serão selecionados pela comissão organizadora, os grupos do Rio de Janeiro para a etapa estadual do R.P.B. Festival Rio de Janeiro. A relação dos grupos selecionados, para concorrerem ao festival, estará disponível no site: http://www.rpbfestival.com.br/ , a partir…
Art. 13º – Os grupos selecionados serão divididos por sorteio em dois blocos. Cada bloco se apresentará em uma das duas eliminatórias, conforme datas constantes neste edital.
Art. 14º Os grupos classificadas deverão ser apresentadas exatamente conforme foram enviadas para o processo seletivo, não perdendo a sua originalidade do CD inscrito, que servirão de base para a triagem dos trabalhos que concorrerão ao festival

Parágrafo único – A ordem de apresentação de cada grupo será feita por sorteio.

COMISSÃO JULGADORA.
Art. 15° O Corpo de Jurados será composto por 10 (dez) membros, dentre rapers, jornalistas, literatos, produtores culturais e pessoas ligadas à arte e à cultura em geral e uma pessoa do publico.
Art. 16° – É competência do Corpo de Jurados, a escolha dos grupos finalistas e a atribuição dos prêmios, dentre os concorrentes, ficando as suas decisões definidas como inapeláveis e irrecorríveis.
Art. 17° -Os valores de pontuação, que serão utilizados pela Comissão Julgadora, será: Nota MÍNIMA – 1 (um) ponto e a nota MÁXIMA – 10 (dez) pontos.

AVALIAÇÃO.

Art. 18º – Serão avaliados através de pontuação de 1 (um) a 10 (dez) pela comissão julgadora os seguintes itens.

Letra.
Musica.
Peformance de palco.

Havendo empate o quesito de desempate será: PEFORMANCE DE PALCO.Sendo assim o grupo que empatar será avaliado a maior nota que ele recebeu no quesito “Peformance de palco”, se o empate permanecer, será avaliado o quesito MUSICA.Continuando o empate será avaliados o quesitos LETRA.

DISPOSIÇÕES GERAIS.
Art. 19° Todos os casos omissos, não previstos nesse regulamento serão resolvidos pela Comissão Organizadora.

DISPOSIÇÃO FINAL.
Art. 20°– A inscrição efetuada para concorrer ao R.P.B Festival, desde já, pressupõe a aceitação e concordância com todos os termos deste regulamento, valendo como contrato de adesão para todos os envolvidos como: autores, m’cs, d’js, backing vocal, enfim, todos os participantes do evento.

Barreiras de concreto ‘fecham pobres em guetos’ no Rio, diz ‘Times’

Muro em construção no morro Dona Marta

Muros aumentam divisão social na cidade, segundo o jornal

Os muros em construção pelo governo ao redor das favelas nos morros do Rio de Janeiro estão dividindo ainda mais uma cidade já separada entre ricos e pobres, afirma reportagem publicada nesta terça-feira pelo diário britânico The Times.

O jornal observa que os críticos do projeto dizem que as barreiras de concreto, de até três metros de altura, transformarão as favelas em guetos, segregando os seus habitantes ao separá-los das áreas mais ricas.

A reportagem comenta que o governador do Rio, Sérgio Cabral, argumenta que seu projeto de cercar 13 favelas tem como objetivo evitar que sua expansão destrua a vegetação dos morros.

Mas o jornal diz que “em uma cidade rachada pela violência, pela desconfiança e pela desigualdade social, poucos acreditam nele”.

Muro de Berlim

O Times cita o escritor português José Saramago, prêmio Nobel de Literatura, que comparou os muros no Rio ao Muro de Berlim e às barreiras nos territórios palestinos, e contrasta suas declarações às do presidente da empresa de obras públicas do Rio, Ícaro Moreno Júnior.

Segundo Moreno Júnior, as áreas verdes dos morros cariocas podem desaparecer em dez anos se nada for feito. “Estamos protegendo a floresta. Não estamos dividindo as pessoas. É maluquice comparar isso ao Muro de Berlim ou à Faixa de Gaza”, disse ele ao Times.

O jornal observa que, apesar das críticas, muitos moradores apoiam o projeto. Esse é o caso do morador do morro Dona Marta José Raimundo Brito, de 26 anos, para quem “as coisas melhoraram com o muro”.

Segundo ele, outras obras públicas recentes na favela, como a instalação de uma base da polícia e de uma linha de bonde gratuito para a subida do morro, elevaram o valor da casa de sua irmã no último ano, de cerca de R$ 8 mil para cerca de R$ 15 mil.

Mas para Rubem César Fernandes, diretor da ONG Viva Rio, que se dedica à redução da violência nas favelas, os muros são “um símbolo agressivo das divisões mais profundas dentro da cidade”.

“Um muro satisfaz a opinião pública. Simbolicamente é um controle. Mas é uma má solução para um problema real”, disse ele ao jornal.

Fonte : BBC

Exposição Fotográfica "Meu Morro, Meu Olhar – o olhar das crianças sobre o Morro do Papagaio"

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Foto Jorge Quintão Jr.

O projeto “Meu Morro, Meu Olhar” surgiu com a intenção de contribuir para a formação das crianças que participam do Programa Escola Integrada. Através de aulas de fotografia, essas crianças de 11 a 14 anos, reeducam seus olhares e os voltam para a comunidade que os cercam.

Nome do Evento: Exposição Fotográfica “Meu Morro, Meu Olhar – o olhar das crianças sobre o Morro do Papagaio”
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Gênero: EUA

–> Data Inicial:08/07/2009
Data Final: 27/07/2009
Hora Inicial:13:00
Hora Final:22:00

Entrada:Gratuito
Consumação:Gratuito
Categoria:Exposição

Mercado brasileiro se prepara para leitores eletrônicos

EDUARDO SIMÕES

Anunciado no início deste mês, o Kindle DX (pronuncia-se “quindou”), o mais novo leitor eletrônico de livros e jornais da Amazon, é mais um passo numa esperada revolução na forma de armazenar, transferir e consumir livros, algo talvez comparável ao que aconteceu com a indústria da música e os aparelhos como os tocadores de MP3, na década de 90, e o iPod, que surgiu em 2001.

Divulgação
Aparelho Kindle Deluxe é o mais recente modelo de leitor da companhia Amazon
Aparelho Kindle Deluxe é o mais recente modelo de leitor da companhia Amazon

Embora os aparelhos e livros digitais ainda sejam limitados aos EUA e não tenham previsão de chegar ao Brasil, o assunto já está na pauta das principais editoras do mercado e também das grandes livrarias. Por exemplo, a maioria dos contratos assinados nos últimos três anos, quando surgiram os primeiros leitores Kindle e Reader (da Sony), já inclui o direito à distribuição na forma digital. E as editoras, de um modo geral, afirmam poder produzir rapidamente as versões e-books de seu catálogo.

“Temos arquivos digitais de tudo, estamos muito preparados para distribuir 100% do nosso catálogo principal”, diz Mauro Palermo, diretor-executivo da Nova Fronteira. “A adesão do leitor será rápida porque a plataforma é irresistível. Inicialmente, a distribuição continuará sendo feita pelos parceiros livreiros. E ganharão muito os que têm uma boa loja.com.”

Marcílio D’Amico Pousada, diretor-presidente da Livraria Saraiva, que acaba de lançar um serviço de aluguel e compra de filmes via download pelo site, acredita que o “negócio do livro digital vai evoluir”.

“A internet já representa 33% do faturamento da Saraiva. As experiências com livros digitais ainda não são definitivas, mas já estão avançadas. Quando a fotocópia apareceu, nos anos 60, achavam que o livro iria acabar. Mas há um convívio até hoje. O livro físico é difícil de ser 100% substituído, mas, em parte, sim.”

Aparelhos

A compra e download de livros digitais ainda é exclusiva para o território americano, seja via conexão à internet por meio de um computador (caso do Sony Reader) ou por uma rede sem fio exclusiva, caso do Kindle (Amazon). Porém, os editores brasileiros já vêm testando os aparelhos com textos em formato PDF ou versões digitais de livros já em domínio público, disponíveis no Google.

As avaliações são diversas. Luciana Villas-Boas, diretora-editorial da Record, tem um Sony Reader, cuja tela ainda considera “muito fosca”. A editora também acha improvável uma grande adesão a um aparelho caro que vai “sujar ou enferrujar” se levado à praia.

Paulo Roberto Pires, da editora Agir (grupo Ediouro), que já utiliza o aplicativo gratuito Stanza para ler livros digitais ou arquivos PDF em seu iPhone, considera uma “bobagem” a discussão de que não se pode ler bem numa tela. “Os aparelhos não substituem o livro, mas dá para ler na tela, sim.”

Menos entusiasmada com os aparelhos de leitura disponíveis, a diretora de produção da Companhia das Letras, Elisa Braga, diz que, em termos de visualização, o Kindle é o melhor, “tem menos reflexo na tela”. Mas ressalva: “São pouco práticos. E mais, um aparelho somente para leitura, por quase 500 dólares, é algo que não vai pegar no Brasil. Só vai funcionar quando houver um dispositivo que integre tudo, como um celular com tela dobrável”.

Sergio Herz, diretor de operações da Livraria Cultura, também aponta problemas com os aparelhos. Com os custos de importação, se eles chegassem ao Brasil hoje, não sairiam por menos de US$ 600 ou 700, cerca de R$ 1,5 mil. E mais: “Quem viaja, a trabalho ou em férias, vai querer carregar notebook, celular e ainda um e-reader? Com os respectivos cabos e carregadores? O quanto estamos dispostos a ter e carregar tantos cacarecos?”, questiona.

Futurologia

Ponderado, Roberto Feith, diretor-presidente da editora Objetiva, arrisca o que chama de “exercício de futurologia” para estabelecer algumas etapas para a chegada dos aparelhos e adesão aos livros digitais.
Para Feith, a primeira etapa será de downloads para leitura em celulares avançados, já existentes no mercado. A segunda deve acontecer com a chegada dos primeiros Sony Readers importados e com custo alto.

“Devem ser usados mais como ferramenta de trabalho para pessoas que precisam carregar com frequência grandes volumes de texto, como advogados, jornalistas e editores”, diz.
A quarta etapa, afirma o editor, começará quando houver aparelhos de leitura e redes de distribuição sem fio.

“Esta é a imensa diferença entre o Kindle e os demais dispositivos de leitura, como o Sony Reader”, diz Feith. “O Kindle é o único que funciona sem fio, permitindo a compra, por impulso ou não, de qualquer conteúdo digital a partir de quaisquer lugar e hora. Ou seja, o Kindle não oferece apenas uma alternativa equivalente de leitura. Ele oferece uma importante vantagem em comparação com a compra e leitura de livros impressos, que é a compra instantânea, de qualquer texto, em qualquer lugar.”

Redes sociais mantêm fotos apagadas por usuários, diz pesquisa


Facebook (arquivo)

O Facebook afirma que as fotos apagadas são retiradas imediatamente de seus servidores

Uma pesquisa feita por estudiosos da Universidade de Cambridge, na Grã-Bretanha, indica que sete sites de redes sociais mantêm na internet por até 30 dias as fotos que seus usuários apagaram.

Os pesquisadores colocaram fotos em 16 sites populares – anotando os endereços de rede onde as imagens foram armazenadas – e então apagaram as fotos.

A equipe afirma que conseguiu encontrar as fotos novamente em sites como o Facebook, o MySpace e o Hi5, usando os endereços diretos para as fotos, mesmo depois de elas aparentemente terem sido apagadas até 30 dias antes.

Os pesquisadores afirmam que páginas de compartilhamento de fotos como Flickr ou Picasa, do Google, tiveram um desempenho melhor, e que as fotos foram imediatamente eliminadas do Orkut.

“Isto demonstra como as páginas de redes sociais frequentemente têm uma abordagem preguiçosa à privacidade do usuário, fazendo o que é mais simples em vez de fazer o que é certo”, disse Joseph Bonneau, um dos pesquisadores.

Reagindo à pesquisa, um porta-voz do Facebook garantiu que “quando um usuário apaga uma fotografia no Facebook, ela é removida de nossos servidores imediatamente.”

“No entanto, URLs para as fotografias podem continuar existindo na Rede de Entrega de Conteúdo (CDN, na sigla em inglês), depois que os usuários apagam as imagens do Facebook, até que algo seja escrito por cima. Isto geralmente ocorre depois de um período curto.”

A pesquisa foi publicada no blog Light Blue Touchpaper, dos pesquisadores do Grupo de Segurança do Laboratório de Computação da Universidade de Cambridge.

Hip hop nas ruas e nos projetos

A cena não é difícil de ser vista nas grandes cidades, principalmente em suas áreas pobres: ao som de raps, grupos de jovens dançam break, pintam muros com suas latas de spray e fazem rimas com batidas ao fundo. Os temas dos grafites – como são chamadas as pinturas – e das músicas – os raps – quase sempre abordam o cotidiano de quem ainda tem pouca idade, é negro e mora em regiões por muitos anos esquecidas pelo poder público. São comuns desenhos sobre a repressão policial e letras sobre como é difícil arrumar um emprego e fácil ser discriminado por sua raça. O relato da violência nas periferias está presente em muitas canções.

Por falar da realidade vivida por um enorme número de pessoas, o hip hop, nome da cultura que engloba todos esses elementos, já se tornou um fenômeno. Vende milhares de discos, mobiliza a juventude, colore o cinza das cidades e produz moda sem esquecer as discussões políticas. O que antes era considerado coisa de marginal por boa parte da sociedade é hoje um dos mais úteis instrumentos de inclusão social, utilizado como ferramenta de diversos projetos e com forte influência na juventude. Tanto que foi reconhecido até pelo governo federal como fator importante das políticas públicas voltadas para essa parcela da sociedade (veja box ao lado). Mas agora encara o desafio de se manter fiel às raízes para não perder a vocação política devido ao crescimento.

A origem do hip hop está na década de 60, época em que o movimento de luta pelos direitos civis nos EUA se fortaleceu e valorizou a cultura negra. Nessa época começam a surgir os mestres de cerimônia (MCs), que cantam as músicas; os disc-jockeys, cuja função é colocar os discos na vitrola e, às vezes, “misturar” as músicas; os grafiteiros e os dançarinos de break. A dança, aliás, surgiu como protesto contra a guerra do Vietnã, pois imitava os movimentos dos feridos em combate. As coreografias são “quebradas”, daí o nome. O termo “hip hop”, também vem dos movimentos: hip quer dizer quadril e hop, salto.

Poesia, música, dança e artes plásticas, portanto, são os quatro elementos do hip hop.

Por muito tempo o estilo ficou segregado nos guetos negros norte-americanos, mas tornou-se rapidamente um canal de expressão da juventude, por causa das letras dos raps. “Não me empurre, pois estou perto do limite. Estou tentando não perder a cabeça. Às vezes isso é como a selva e me faz imaginar como não afundar”, dizia o norte-americano Grandmaster Flash no refrão de “The Message”. A música foi lançada em 1983 e expressava a situação dos jovens negros nas ruas de Nova Iorque naquela época.

Organizados em gangues, muitos resolviam seus problemas com violência, mas a solução começou a ser alcançada também por meio da dança. Em vez de trocarem socos e tiros, faziam disputas de break durante festas animadas com caixas de som colocadas na rua. Os que levavam jeito para cantar se desafiavam na elaboração de músicas e provocavam-se ao mesmo tempo em que tentavam passar uma mensagem para a platéia. A politização daquele tempo permanece até hoje como princípio dessa cultura.

Foi nessa época que o estilo chegou ao Brasil. O centro de São Paulo era o principal pólo de hip hop do país, cuja imagem para a polícia não era das melhores. Lá foram formadas as primeiras rodas de break, onde jovens de diversas partes da cidade se reuniam para dançar ao ritmo das músicas importadas.

“Começamos na Praça Ramos de Azevedo, mas mudamos nosso ponto de encontro algumas vezes, por causa da repressão”, lembra Carlos Alberto de Souza, o Kall, integrante do movimento hip hop desde o começo dos anos 80 e hoje MC [Mestre de Cerimônias] do grupo Conclusão. O local que acabou se tornando mais famoso foi o Largo São Bento, também no Centro. “Era lá que todos se informavam e trocavam idéias. Quem sabia inglês traduzia as letras para os outros, e assim começavam as discussões”, diz Kall, que lembra a importância dos bailes de música negra, os bailes blacks, na formação musical desses pioneiros. Discos também foram trocados e surgiram os primeiros campeonatos de dança de rua.

Para ele, o primeiro boom do hip hop brasileiro aconteceu em 1984. Naquele ano, Nelson Triunfo, um “black”, como eram chamados os que gostavam de hip hop e freqüentavam bailes, participou da abertura de uma novela em rede nacional e assim popularizou a dança e o ritmo ainda mais. “O que era uma cultura de rua, do Centro, começou a ir para a periferia”, afirma Kall, que já passou mais de três horas em ônibus para se encontrar com seus “manos”. Com o crescimento da cidade, o acesso ao Centro foi dificultado e as atividades nas demais áreas se multiplicaram.

No fim da década de 80 e começo da de 90 surgiram as “posses”, pequenos grupos organizados por causa do hip hop e bastante politizados. O nome de uma das primeiras a ser fundada, em 89, demonstra isso: Sindicato Negro. Sua missão, assim como a das demais, era fazer raps, grafites, dançar, debater política e fazer atividades em favor de suas comunidades. A repressão, no entanto, continuava. Kall, lembra que em 89 um colega seu foi morto por um policial numa estação de metrô por estar cantando rap e não aceitar parar. Hoje, afirma, a situação está bem melhor, apesar de ainda haver preconceito.

Em 91 houve um evento que também é considerado marcante para o rap nacional. O grupo Public Enemy, outro pioneiro do hip hop norte-americano, fez sua primeira apresentação no Brasil, aberta pelos Racionais MCs, hoje o conjunto mais conhecido do país. A mídia deu boa cobertura e passou a prestar atenção nos brasileiros, cujas letras eram conhecidas por grande parte do público.

A partir daí, ONGs e poder público começam a despertar para o fenômeno. Em 1992 o Instituto da Mulher Negra Geledes criou o projeto Rappers, cujo objetivo era conscientizar a juventude sobre as diversas formas de exclusão social e contribuir para a organização política dos jovens da periferia. O projeto, atualmente, está desativado.

A prefeitura de São Paulo, na gestão de 1989 a 92, implementou o programa Belezura, que incentivava a pintura de muros com grafites e apoiava, por meio de outra iniciativa, o “Repensando a Educação”, a utilização dos demais elementos do hip hop como ferramentas de ensino nas escolas municipais.

Atualmente os elementos do hip hop estão difundidos em diversos projetos. Um dos mais bem sucedidos é a Casa do Hip Hop de Diadema, que funciona desde 1999 na cidade da Grande São Paulo, conhecida por suas altas taxas de criminalidade. Cerca de 2.500 adolescentes freqüentam aulas de dança, desenho e discotecagem e muitos, após se formarem, ensinam em novas turmas no próprio programa ou em outros. “Hoje 80% de nossos professores são ex-alunos”, diz Jéferson Costa, coordenador da entidade.

“Nosso principal resultado foi a diminuição da criminalidade no entorno. Tiramos jovens das ruas pregando o ‘quinto elemento’ do hip hop, a conscientização”. Costa lembra que no começo do projeto havia muitas brigas de gangues na área onde está a casa, mas elas foram substituídas por disputas de break e grafite. Como no início do movimento. A idéia deu tão certo que todos os centros culturais de Diadema hoje têm pessoas oriundas da Casa ministrando oficinas de algum dos quatro elementos.

Já o Projeto Quixote, também de São Paulo, dá aulas de grafitagem para adolescentes em situação de risco. Terminado o curso, eles produzem camisetas a partir do grafite e fazem instalações em diversos locais da cidade. Tudo remunerado. Contudo há um problema recorrente em projetos ligados ao hip hop: pais de alunos que não vêem com bons olhos o trabalho dos filhos. “Acham que são vagabundos por ficarem pintando muros, apesar de estarem fazendo arte. Mas isso está mudando”, diz Roberto Madalena, coordenador de Educação para o Trabalho do projeto. “Sempre se sonha com um emprego mais convencional, porém hoje é possível ganhar muito dinheiro com o grafite”, argumenta.

Um exemplo disso, cita Madalena, é a compra de painéis por lojas de grife, que querem aproveitar o crescimento do hip hop. Ele, no entanto, gosta mais de outras telas. “Prefiro grafitar espaços onde seja possível passar uma mensagem, como o [ex-presídio] Carandiru, a Cracolândia [região do centro de São Paulo conhecida pelo grande consumo de crack]”.

Não só ONGs fazem atividades com adolescentes. Alguns grupos não se contentam em apenas narrar seu cotidiano e também colocam a mão na massa. Um deles é o Anastácias, de Porto Alegre, composto só por mulheres – o que ainda é raro no meio. Vencedoras na categoria grupo feminino do Prêmio Hutus 2003, a maior premiação do hip hop nacional, elas, sempre que possível, visitam escolas da periferia da capital gaúcha para dar oficinas e ministrar palestras. “Valorizamos bastante a auto-estima dos negros, que são minoria em Porto Alegre”, diz a MC Denise, que reclama apenas do machismo ainda existente no meio. “Não concordamos com o ponto de vista de alguns grupos, muito agressivos em relação às mulheres. Isso não constrói nada, não aponta soluções”.

Ela, aliás, é um exemplo da atração do hip hop sobre a juventude. A gaúcha conta que não gostava de rap por achar coisa de “maloqueiro”. Mas, quando conheceu um grupo de Porto Alegre com letras interessantes, passou a freqüentar rodas de break e a ouvir rap. Para Denise, o poder de atração do hip hop se deve, além da identificação com o conteúdo, à facilidade de produção. “É muita coisa junta: dança, música, arte… e tudo fácil de fazer, não precisa de diploma. O trabalho social também chama bastante a atenção”.

Kall, entrentanto, reclama do enfraquecimento das posses e do fato de algumas ONGs chegarem às comunidades com o projeto fechado. “As posses eram feitas por pessoas autônomas, mas que se perderam por vários motivos, como falta de apoio e visão política. Já as organizações não têm a vivência daquelas pessoas e tentam padronizar as iniciativas. Ainda falta troca entre as entidades e as comunidades, além de interesse de fortalecer a cultura e o aproveitamento de quem já faz parte do movimento. Não dá certo contratar bailarino pra dar aula de break”, diz.

Apesar de todos os elogios para discursos dos integrantes do movimento, há quem alerte para as falhas. “Muitos não sabem o que dizem, compram um pensamento fechado e o difundem sem analisar”, afirma Patrícia Casseano, uma das três autoras do livro “Hip hop: a periferia grita” (Fundação Perseu Abramo). A jornalista, entretanto, ressalta a importância dessa cultura para a periferia. “O hip hop é a voz de quem está na dificuldade, não há outra forma cultural que dê voz a quem passa por isso”.

Isso pode justificar a crescente popularização do estilo. O disco “Sobrevivendo no Inferno”, dos Racionais MCs, mais famoso grupo de rap nacional, vendeu um milhão de cópias desde seu lançamento, em 1997. A marca foi atingida sem nenhum grande esquema de divulgação, somente com comentários boca a boca e a execução das músicas em rádios comunitárias. Se estivessem em uma grande gravadora, ganhariam disco duplo de diamante, prêmio da Associação Brasileira de Produtores de Discos para quem atinge essa vendagem.

Nos EUA os rappers há tempos lideram as listas de discos mais vendidos, mas isso não quer dizer que as letras continuam politizadas. “A parte musical é excelente, mas o conteúdo tem muita porcaria”, opina a MC Denise. Para as pessoas envolvidas com o hip hop, a manutenção do seu lado social é o grande desafio do momento. Kall afirma que a mudança vai acontecer e que a tendência do hip hop é sair da periferia e se tornar uma cultura de massa. “Por isso é preciso valorizá-lo como arte. A responsabilidade do enfoque é de quem produz. Não podemos esquecer que ele é uma grande ferramenta de mudança”.

Segundo Jéferson Costa, o risco está na perda de identidade do movimento. “Há um grande poder financeiro em volta e modismos. Mas acredito que o viés social não será perdido totalmente”. A opinião é compartilhada pelo educador social Alexandre Isaac, que trabalhou durante dois anos em um projeto baseado no hip hop, acredita que há um risco de o estilo ser “cooptado pelo mercado”. “Sempre há aproveitadores”, afirma.

Já o produtor musical Celso Athayde, organizador do prêmio Hutus, acredita que “quando o dinheiro aparecer, a maioria poderá seguir a trilha de suas necessidades básicas. Esse é o nosso desafio: criar nosso próprio mercado e repensar a nossa resistência”. Para Denise, contudo, o hip hop feito no país será cada vez mais brasileiro no sentido da mistura com outros estilos e de criar uma nova identidade. “Ninguém quer que aconteça o mesmo que lá nos EUA. Os temas dos raps e grafites vão variar, mas a cultura nunca irá se perder”.

Afinal, como diz Athayde, “se o hip hop não existir para salvar vida, então não é hip hop.” (Fonte: www.rits.org.br – Marcelo Medeiros)

A droga e os jovens

José María Poirier

Buenos Aires / Temas – “Se nos deixarmos vencer pela droga perdemos liberdade e plenitude, porque todo vício é uma forma de escravidão, o oposto da felicidade”, sintetiza monsenhor Jorge Lozano, bispo de Gualeguaychú, em conversa com a revista Ciudad Nueva, quando em nosso país se debate sobre a liberação do consumo. E agrega: “A lei cumpre um papel punitivo e tem também um valor de proposta, de modelo. A liberação poderia conduzir a uma espécie de justificação das condutas viciosas. Outras questões são como ajudar os jovens a sair da droga e aprender a não tratar como delinqüentes aqueles que sofrem o drama do consumo e do vício. Porém, a liberação pode ser um gol contra”.

Jorge Lozano é um homem sereno e profundo, preocupado e interessado pelos múltiplos problemas que afetam as pessoas hoje em dia. Trabalha como responsável da área de Laicos Construtores da Sociedade, dependente do Departamento de Justiça e Solidariedade do Conselho Episcopal Latino-Americano. Mais adiante esclarece que não é um especialista na temática droga, mas que a ação pastoral e a urgência de acompanhar os outros o levam a ter contato com muita gente e, a partir disso, nascem algumas reflexões.

Hoje o que leva os meninos e os adolescentes para a droga?

A vontade de “se sentir bem”, quando não é o desespero devido à fome e ao frio nas ruas. Garotos que perambulam por nossas cidades e cheiram cola; adolescentes que querem se desinibir no círculo vicioso de sábado à noite, onde para serem aceitos ou por medo de frustrar o outro sexualmente misturam álcool, drogas e Viagra. Em algumas zonas urbanas e suburbanas é maior o consumo de estimulantes sexuais em adolescentes que em adultos.

O senhor já se referiu ao “paco” em mais de uma ocasião, inclusive em meios jornalísticos.

É um tema gravíssimo. É a “droga-lixo”, o que sobra da elaboração da cocaína, o que se varre do chão. Nela se agregam outras coisas, o mais barato, o mais letal e o que provoca estragos entre os garotos mais pobres. Aliás, não existe gasto de transporte, não implica traslado, é vendido nos mesmos lugares. A Argentina tem um dos índices de consumo mais altos da América Latina.

Isto leva a reexaminar as cumplicidades que a droga implica.

A cumplicidade existe e não é um fenômeno de agora, mas de anos. Se as pessoas que andam pelas ruas sabem onde se vende droga, como as autoridades não vão saber? Existe cumplicidade policial e política. A droga movimenta muito dinheiro. Muita gente não quer fazer denúncias porque quando chegam as autoridades os implicados já foram advertidos. Um negócio que explica o fenômeno da lavagem de dinheiro no futebol e o boom imobiliário.

O que a Igreja ou as Igrejas e as comunidades religiosas podem fazer?

O problema tem diferentes níveis. Perseguir as máfias é tarefa do Estado. A droga, junto com o negócio das armas e o tráfico de pessoas, é hoje um dos grandes problemas do mundo. As comunidades religiosas podem colaborar na prevenção e no acompanhamento dos grupos de recuperação, mas, sobretudo no que se refere ao sentido mesmo da vida. Para cada jovem que decide provar a droga são muitos os que fracassam: a família, a escola, a paróquia, o grupo de jovens, toda a sociedade. O que podemos oferecer são espaços de convivência e de diálogo. Muitos jovens procuram as drogas depois de sofrer experiências de profunda solidão e isolamento. Os jovens reclamam. Temos que multiplicar e melhorar os espaços familiares, educativos e religiosos onde os garotos possam se expressar, expor seus relatos, dizer o que acontece com eles. Não é fácil: muitos jovens não sabem dizer o que sentem, o que pensam, o que vivem, precisam ser ouvidos. Acredito que nas famílias um dos momentos mais importantes é quando os jovens voltam no domingo de manhã após terem passado a noite com seus amigos. Devemos encontrar lugares e momentos onde eles possam comunicar a angústia e a solidão. Precisam, além disso, de espaços de certeza. Hoje o passado não diz nada aos jovens e eles não vislumbram um futuro: vivem na angústia do presente sem horizontes. A falta de certezas ocorre no aspecto laboral, escolar e afetivo. Teríamos que fazer com que eles soubessem que Deus nos ama, que a vida deles não é um incômodo para nós, mas sim uma alegria. Temos que demonstrar que o amor é possível.

Por que o senhor insiste que se deva encontrar o sentido da vida?

Porque em muitas experiências de vício a vida aparece como insegurança, como medo, como incapacidade de abertura, como angústia. A droga se apresenta como uma bengala ilusória onde se apoiar. Lembro-me que João Paulo II dizia que a droga aparece como um raio na noite, mas em uma noite chuvosa. E Bento XVI dizia aos jovens no Brasil que o que mais se teme é uma vida sem sentido. A droga é sinônimo de morte. Deve-se apostar na vida. Despertar grandes ideais e anseios profundos, não aceitar a fragmentação da existência, não aceitar que todo o afetivo se reduza a relações emotivamente intensas, porém fugazes, não aceitar como única verdade o dia-a-dia, como se nos faltasse história e projeção. O sentido da vida tem a ver com as relações verdadeiras, com o tempo e as forças que estamos dispostos a brindar aos demais. Temos que ir descobrindo juntos o sentido da vida, em um vínculo de amor recíproco.

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José María Poirier
Diretor da Revista Criterio.

(Fonte: http://www.miradaglobal.com)

Hip-hop é trabalho coletivo e trata dos excluídos, diz documentarista

Tony C. tinha dez anos quando teve seu primeiro contato com a música que retratava os problemas cotidianos dos negros. O hip-hop era ouvido em fitas cassete. Com amigos mais velhos, Tony se enturmava e conseguia entrar nas matinês, ficando até mais tarde nas boates, onde logo começou a discotecar.

Hoje, aos 25 anos, o publicitário dirige e produz um documentário ainda sem nome sobre a história do hip-hop no Brasil. “Estou filmando o meu cotidiano, o hip-hop fala dos excluídos e é feito 90% por pessoas da periferia”. Morador de Carapicuíba, município que fica a 23 quilômetros de São Paulo, leva duas horas de metrô para chegar ao centro da capital paulista, onde trabalha como webmaster. “Aproveito a viagem para ler e, assim, leio uma média de dois livros por semana”, conta.

Integrante da entidade Nação Hip Hop, define o estilo musical como um “trabalho coletivo”, formado por DJs, MCs (cantores), grafiteiros e B boys (dançarinos de brake), que leva nas letras uma mensagem de igualdade. “Estamos num país que diz ser de democracia racial, mas isso não existe. Estamos longe ainda”, ressalta Tony, que é a favor das cotas universitárias para negros. “São formas de buscar essa igualdade”, diz.

Para Tony, o hip-hop é um movimento de auto-afirmação não apenas dos negros, mas dos pobres e excluídos. “É um movimento que diz ‘olha, apesar de todas as dificuldades, você é uma pessoa como qualquer outra, entre você e o presidente da República não existe diferença’. Quando você começa a dizer isso e questionar a discriminação, você eleva a auto-estima”, aponta. Uma das conseqüências da discriminação é a redução da cultura, história e estética que faz, por exemplo, “com que as pessoas alisem o cabelo achando que esse é o padrão da beleza”.

O DJ diz que o sonho de ganhar dinheiro como músico no Brasil ficou guardado na infância. Hoje, “não é meu sonho, não faço com a pretensão de ganhar dinheiro. As pessoas fazem por militância, por acreditar”, diz. Outro dia, assistiu a uma reportagem que falava do DJ mais novo do mundo, um inglês de doze anos. “Eu comecei aos dez”. Para ele, o episódio retrata como a arte no Brasil é mal conhecida e valorizada.

O primeiro contato com um rap nacional veio pelo rádio. “Gravei, mostrei pro pessoal e fui ‘zoado'”, recorda. Uma música cantada em português, com gírias e erros de linguagem, foi motivo de gozação entre os amigos. Era a música “Pânico na Zona Sul”, do grupo Racionais MCs, que anos depois fez sucesso em todo país. (Fonte: Agência Brasil)

As múltiplas falas do hip hop – Entrevista exclusiva com Tânia Ximenes Ferreira


Hip hop e educação: mesma linguagem, múltiplas falas é o título da dissertação de mestrado de Tania Ximenes Ferreira, apresentada na Faculdade de Educação da Unicamp. A pesquisadora mergulhou no movimento hip hop de Campinas para entender se havia crise no grupo. “A crise que atinge o movimento em Campinas pode ser ampliada para outras localidades. Esta crise, porém, deve ser encarada não como caos, mas como risco e oportunidade, possibilidades de se delimitarem novas relações”, explica Ximenes. A IHU On-Line entrevistou por e-mail a estudiosa sobre o tema.

IHU On-Line – Quais foram os conflitos no movimento hip hop verificados em sua pesquisa?

Tânia Ximenes Ferreira – Há uma multiplicidade de posicionamentos e propostas entre os hip hoppers, mas o ideário que os norteia é o mesmo. Embora façam parte da mesma manifestação cultural, há peculiaridades. Denominam-se hip hop, mas expressam “múltiplas falas”. Há aparente homogeneidade no hip hop: movimento de contestação social, denúncia e protesto, por meio de suas expressões artísticas. No entanto, há hip hoppers que afirmam “não fazer protesto” ou que não consideram todas as expressões do hip hop. Outros estão ligados a diferentes militâncias e outros, ainda, têm interesses exclusivamente financeiros. Enfim, pertencem a um grupo de jovens que compartilha de uma mesma definição de realidade, mas podem expressar múltiplas falas.

IHU On-Line – Qual é o perfil das pessoas que fazem parte do movimento? Quais são as suas falas?

Tânia Ximenes Ferreira – O hip hop é constituído, em sua maioria, por jovens, moradores de periferia e negros. Suas falas são as desigualdades sociais, a violência, a importância da educação, da informação e da politização. Uma característica importante é o compromisso com as modificações sociais.

IHU On-Line – Em que ponto a linguagem é a mesma se levarmos em conta a dança, o desenho e a música?

Tânia Ximenes Ferreira – A linguagem é a mesma se considerarmos a resistência e a ruptura com os padrões impostos pela sociedade. A linguagem sonora resiste quando rompe com a melodia da música legitimada pela sociedade, introduzindo elementos eletrônicos e ruídos como o arranhar do disco. Resiste quando cria jeitos de mexer, de torcer, de pular, de girar e recria passos de dançarinos e de ginastas profissionais. No desenho, a resistência está em fazê-lo colorido com spray nos muros e prédios públicos. Em retratar cenas urbanas, sem domínio de técnicas de pintura, sem moldura. Nas letras, o jeito de falar, rimar, com gírias sem seguir as mesmas regras das poesias.

IHU On-Line – Dá pra dizer que o hip hop é ainda um movimento único e integrado?

Tânia Ximenes Ferreira – Dá para dizer que o hip hop tem se construído em seu contexto ambíguo e que as diferenças permitem seu crescimento. É da tensão entre os grupos que o hip hop se mantém.

IHU On-Line – Quais são as diferenças mais gritantes que a senhora encontrou neste grupo de Campinas?

Tânia Ximenes Ferreira – As diferenças são a parte ativa da identidade, e não algo que descaracterize o hip hop. Os momentos se transformam e incorporam outros modos de luta e de participação. O hip hop hoje não se constituiu com base em uma abordagem exclusivamente contestatória. No entanto, alguns grupos podem ser identificados. Alguns b.boys (dançarinos de break) consideram o rap como expressão do hip hop e não fazem protesto, já que consideram apenas o caráter de festividade. Alguns rappers vêem a proximidade entre os partidos políticos e o hip hop como uma militância única. Outros hip hoppers têm objetivos exclusivamente financeiros. Há ainda grafiteiros que não gostam de rap e militantes do movimento negro que definem o hip hop como ideário apenas de luta racial.

IHU On-Line – O movimento hip hop está passando por uma crise? Dá para dizer que o quadro encontrado em Campinas pode ser ampliado para o País?

Tânia Ximenes Ferreira – A crise que atinge o movimento em Campinas pode ser ampliada para outras localidades. Porém, esta crise deve ser encarada não como caos, mas como risco e oportunidade, possibilidades de se delimitarem novas relações.

IHU On-Line – Qual a importância do hip hop para as comunidades nas quais o movimento se insere?

Tânia Ximenes Ferreira – Os hip hoppers têm desenvolvido atividades ligadas à educação não-formal por meio de oficinas, aulas, palestras, seminários e fóruns que abordam temas de interesse dos jovens moradores de periferia. Estabelecem-se parcerias com a administração municipal ou estadual, ONGs, centros comunitários, associações e escolas públicas. Em alguns locais onde foram desenvolvidas oficinas, os participantes estão sendo os multiplicadores do hip hop, dando continuidade aos projetos de formação de novos hip hoppers.

Falar a partir do muro (Grafite latino-americano)

Berlim / Cultura – Grafite! Somente a menção da palavra faz com que tremam os muros e que mais de uma jugular ameace romper. A espécie, entretanto, é tão velha quanto o Homem. Apenas erguido, ainda cambaleante, o homo sapiens foi presa imediata da irresistível tentação de registrar tal acontecimento nas paredes de suas residências pré-históricas em Aurignac, Lascaux ou Altamira. Desde aquela época, nenhum muro esteve a salvo da inspiração de uma mão que escreve ou desenha. Deixou suas marcas nos prodígios de Gizé, nos templos maias de Tikal e nos arenosos labirintos de Susa. Foi a mesma mão que, nos muros do palácio de Baltasar, rei dos caldeus, escreveu a mais enigmática da anunciação: Mene mene tekel u-parsin, cuja tradução fatalista devemos a Daniel, o profeta.

E nas trevas da Torre de Londres ou na sempiternamente ensolarada cara ocidental do Muro de Berlim essa mesma mão continuou sua longa crônica de nostalgias e iras. E impertérrita continua escrevendo, riscando, pintando, arranhando em todas as superfícies possíveis e impossíveis. Essa mão não encontrará paz enquanto existir uma razão que a inquiete. Independentemente de formas e conteúdos e apesar de todo o poder do estado, os grafites gozam de uma obstinada presença que os fazem igualar à eternidade.

Os grafites são anárquicos por natureza. Seus autores permanecem, por princípio, no anonimato. Contrário aos esforços policiais e apesar dos chamados morais de políticos imaculados, o grafite, como filho do urbano, só terminará com o fim da cidade. Nem um minuto a mais ou a menos. Grafite e cidade estão unidos indissoluvelmente por toda a vida e até que a morte os separe. Aceito este fato, vale a pena se perguntar se não seria mais razoável tomar e compreender os grafites como um signo de seu tempo, antes que se entregar ao sísifo trabalho de querer erradicá-los.

O que distingue o grafite latino-americano de seus distantes congêneres em outras latitudes?

A América Latina se inclina manifestamente pela variante do grafite escrito. De realização mais barata que o de intenção plástica dos países ricos. Depois de longas ditaduras militares e de reformas neoliberais não menos cruéis nas últimas duas décadas do passado século XX, cresceu e se estendeu ao longo dos muros latino-americanos um denso texto silvestre, de abundância e variedade nunca vistas antes. Ainda são visíveis neles vestígios da legendária primavera parisiense de 68. Porém, ao contrário desta, o caráter geral do atual grafite latino-americano está consumido por uma ironia niilista e uma iconoclastia radical.

Na América Latina não foi somente a direita tradicional ou renovada que se alucinou com a pílula ectasy do ultra-neoliberalismo. Também são numerosos os ex-devoradores de capitalistas, que hoje o adoram como uma panacéia prodigiosa contra todos os males. Sou marxista, mas da ala neoliberal: é o comentário que se lê na rua sobre esta metamorfose de Saulo a Paulo. Ou: Pobre país! Até os comunistas são de direita!

Políticos honrados são elementos asociais, informa o muro. Certamente tal informação é válida não apenas na América Latina.

O grafite marca, indefectivelmente, cada processo eleitoreiro, cada decisão governamental, cada debate parlamentário na exposição pública de sua palavra. Deste modo, nos muros latino-americanos têm lugar uma catarse muito particular, que ao menos serve para uma transitória desintoxicação das almas de autores e leitores, tão envenenadas pelas desilusões crônicas das democracias tortas.

O grafite latino-americano é a rebelião dos desdentados. Dos que não mordem, mas que se esforçam em ladrar um pouco. Já não transporta nenhum chamado para tomar o céu de assalto, como naqueles primeiros tempos em que as utopias ainda podiam caminhar. O que resta daquele tempo é uma descascada pátina de nostalgia. Por isso é que ainda se pode ler de vez em quando: Atenção, último chamado! Proletários de todos os países, uni-vos! Ou ainda: Che vive! Como adrenalina em nós!

Porém, isso não é tão certo. Também o comandante inesquecível vegeta agora sem rumo em camisetas descoloridas e os proletários têm hoje preocupações mais urgentes que a de lutar.

Apesar de tudo o muro insiste: Não mate seus ideais! Eles são uma espécie em extinção!

Bem sabem os inimigos do grafite que a luta contra eles não se pode vencer. As bofetadas do grafite alcançam também outros cúmplices do sistema e os acusa de subserviência. Imprensa, rádio e televisão.

Jornalista, tire a proteção da sua caneta, escreva a verdade!, exige o muro. E agrega: Os fatos não se podem mudar, mas pode-se interpretá-los de forma equivocada.

exige o muro. E agrega
Os moralistas municipais afirmam que o muro é o papel do exluídos. É possível que tal rudeza não peque de originalidade, mas em um ponto têm razão: em todo muro se pode escrever. O que se escreve é o que enfurece os sumistas das cidades latino-americanas.

Os namorados, por sua vez, fazem do muro o que sempre foi desde seus princípios: poderoso trompete do amor feliz ou desgraçado. Pois o mundo inteiro deve saber: Teu abraço, uma teia cheia de luz ou Vou chorar, vou ladrar, mas nunca, nunca mais voltarei a falar contigo. E ele sussurra: Espera por mim, nua entre os escorpiões. E ela responde: Ali estarei, com teu veneno em meu sangue.

Talvez, algum dia, quando (não só na América Latina) o grafite se transforme em poesia, será muito mais perigoso do que hoje podemos imaginar. Pode ocorrer, então, que um dia, um exército de sonhadores se decida a responder a pergunta Por que não damos um chute nesta enorme bolha cinza, com a ousadia da prática.

Omar Saavedra Santis

Escritor portenho, nascido em Valparaíso, cuja prolífera obra foi traduzida a diversos idiomas. Reside em Berlim desde 1974.

Entrevista com MV Bill

Você provavelmente o conheceu em 1999. Naquele ano, a classe média ficou escandalizada com as imagens de um cantor de rap se apresentando no Free Jazz Festival portando uma arma na cintura. Nas edições dos noticiários de TV e nas primeiras capas dos jornais do dia seguinte, a acusação: _ Apologia ao crime! O mundo dá voltas e, oito anos depois, MV Bill conquistou, com muito esforço, o respeito da elite intelectual e da mídia, a ponto da principal emissora do país veicular, durante quase uma hora, seu documentário, Falcão- Meninos do Tráfico, e no famigerado, porém bastante assistido, Fantástico. Alex Pereira Barbosa (nome verdadeiro de Bill) recebeu o Repórter Rodrigo Mathias e a fotógrafa Camila Rabelo, do ESPALHAFATO, na sede da CUFA (Central Única de Favelas), na Cidade de Deus, para um bate-papo descontraído e pautado por uma grande consciência política e social.

A fama e o respeito, conquistado com seu trabalho, mudaram sua relação com o público em geral?

Antes da fama eu carregava a áurea da incompreensão. Talvez eu também ainda não tivesse aprendido a me expressar de forma clara. Não sabia usar as palavras certas para externar a revolta que eu tinha dentro de mim. Todas as vezes que eu participava de debates nas universidades, eu era banido abaixo de gritos de racista, de preconceituoso, de radical… Quando na verdade, eu sempre preguei o que eu prego hoje, só que naquela época, eu confesso que era de uma forma mais agressiva.

O que mudou de lá pra cá?

Eu amadureci. E aconteceram outras coisas na minha vida que complementaram meu discurso, trazendo uma maior compreensão para aqueles que me ouvem. Talvez só com as palavras, eu não conseguisse atingir esse público. Depois que “Falcão” foi lançado, muito mais gente passou a prestar atenção no que eu falo. As imagens causam um espanto e permitem que as pessoas conheçam uma realidade que dificilmente conheceriam só com a minha fala. As imagens ainda causam surpresa.

Estar na mídia é uma vitória sua ou uma cooptação do sistema?

Toda vez que eu tive oportunidade de ir na TV, principalmente na Globo, eu nunca foquei no que poderia ser ganho em cima de mim, mas o que eu poderia ganhar com o espaço conquistado. E eu sempre vi a mídia, de um modo geral, como uma via de mão dupla. Eles se beneficiam, mas o meu discurso também se beneficia. Eu vejo todas essas inserções na mídia de forma positiva. De certa maneira, estamos ajudando a reescrever parte da história da TV brasileira. Não acho que aparecer em um lugar como a Globo seja um ponto negativo, muito pelo contrário, a gente ajudou a empretecer um pouco mais a TV.

Alguns artistas vëm de comunidades pobre e, depois da fama, esquecem de onde vëm e viram as costas para seus antigos fãs e mesmo amigos. O que você pensa disso?

Eu já fui muito mais radical sobre esse tema. Depois eu fui amadurecendo e vendo que o que a gente critica é aquilo que a gente é. Mas eu continuo criticando aquelas pessoas que sobem na vida e esquecem de onde vêm, do passado. Esquecem que precisam lutar também para melhorar a vida das pessoas que eles deixaram pra trás.

Qual o panorama que você faz sobre esses anos de CUFA?

Quando eu vejo o que a gente conquistou, eu fico impressionado. Quando começamos, eu não imaginava que conseguiríamos fazer isso tudo. Outro dia, na final da Libra (Liga Brasileira de Basquete de Rua), eu vi o tamanho daquilo tudo e fiquei boquiaberto. É uma coisa que me deixa muito feliz, mas que foi muito difícil para conseguir. Se hoje eu tivesse que começar tudo de novo talvez nem começasse, mas é um sacrifício que vale a pena. É uma pena muito dura, mas vale.

Qual sua visão do atual estágio do Movimento Negro?

Acho que o Movimento Negro é importante, mas quando eu participava dele vi que tinha muitas falhas. A meu ver, a principal delas é a distância que ele tem da população em geral. Nos encontros que eu ia, eu sempre via as mesmas pessoas. Eu ouvia aqueles discursos belíssimos, mas que só eram ouvidos por pouca gente. O que estava querendo se criar ali era apenas uma elite intelectual negra. Eu já acho que nós devemos mesmo é conversar com o povo em geral e não restringir a discussão a um grupo apenas.

Em abril, a UNE promoveu o primeiro Encontro de Estudantes Negros da UNE, o ENUNE. Você considera esse passo dado pelo Movimento Estudantil uma vitória, mesmo que pequena, para o combate ao racismo?

Acho muito bom que um grupo de pessoas se reúna para discutir esse assunto, que é um assunto muito pouco debatido. Mas eu acho que é preciso tomar cuidado para não ficar uma coisa estigmatizada, “estudantes negros”. Estudante negro é antes de tudo um estudante como qualquer outro. Não quero que a gente crie uma classe estigmatizada entre os estudantes.

Recentemente, um jornalista influente lançou um livro chamado “Não somos racistas”, que de uma certa forma resgata a idéia de democracia racial do Gilberto Freyre. O que você acha da insistência de uma parte da sociedade nessa teoria?

Cara, eu não tenho nem mais espanto quando vejo isso. É o reflexo de uma parte da sociedade. E como é uma parte dominante, continua a existir, de forma errônea, esse pensamento de que nós não somos uma nação racista e que o problema é um desnível social. Chame como quiser. Mas se você for até esses lugares onde a diferença econômica é pior, você vai identificar qual é a cor daquelas pessoas e isso não é uma coincidência. As pessoas tentam tirar a responsabilidade do racial e colocar no social, como se isso fosse amenizar o problema, mas ele continua grave da mesma forma. Não importa como chamem, olhem e vão identificar onde está esse problema, é só dar uma pesquisada na maioria da população de rua, na maioria da população carcerária, dos desempregados, das empregadas domésticas, dos subempregados, dos analfabetos, a maioria dos jovens que mais morrem com essa violência. Já existe uma desproporcionalidade na população negra masculina; morre-se mais do que se nasce. Se não vai chamar isso de racismo o que é então? Se não for racismo é genocídio.

Você é a favor das cotas?

Eu particularmente gostaria muito que as cotas não fossem necessárias, é o que eu queria. Mas a gente vive num país tão filha da puta… Eu ia nessas palestras em universidades e comecei a identificar algumas coisas. Depois que eu descobri que o ‘E’ de UERJ é estadual e o ‘F’ de UFRJ é federal, eu pensei: Pô, mas não são esses carros importados do ano que deveriam estar aqui nesse estacionamento. As pessoas da mesma cor que eu não poderiam estar só na cozinha, na limpeza ou na segurança. Ali está o erro. As universidades publicas são usadas de maneira errada. Claro que eu não acho que deva pegar qualquer muleque na rua e colocar lá. Tem que existir um pré-vestibular para preparar essas pessoas. Já existem estudos que demonstram que a maioria dos cotistas tem tirado notas melhores do que não-cotistas. Mas também acho que as cotas não devem ser uma coisa permanente. Por isso que eu brigo muito pelo ensino de base. Temos que fazer com que os pais consigam manter os filhos na escola, para que não sejam como os meus, que tiveram que me fazer optar por estudar ou trabalhar. Quando isso acontecer, aos poucos, as cotas podem ser abolidas. Eu vi uma campanha do governo federal que era pra pedir para as empresas terem diversidade racial no quadro de funcionários. Para eles começarem a contratar negros, nordestinos, índios, qualificados que não conseguem se inserir no mercado de trabalho. É uma propaganda que dá um pouco de vergonha lá no fundo, mas se o governo federal tá pedindo é porque tá precisando né.

Você já pensou em fundar um partido uma vez, o PPPomar. Por que você preferiu fundar um partido e não entrar em um?

Eu tenho muito problema com partidos, porque toda vez que eu ia procurar um, eles me indicavam para uma “ala” que cuida do Movimento Negro. Ora, eu não quero apenas uma ala de um partido, eu quero um partido inteiro. Então eu comecei a formular a idéia do PPPomar, que era para ser um partido destinado a colocar o problema racial em pauta. O problema é que existia uma burocracia muito grande para criar o partido e nós acabamos deixando ele meio de lado e se concentrando na CUFA.

O que você acha de iniciativas como o CUCA (Centro Universitário de Cultura e Arte da UNE) ?

Acho que essa é uma ótima forma de tentar colocar as discussões políticas em pauta. É um bom modo de chegar nas pessoas, que geralmente não se interessam por política. Eu acho um jeito interessante de se iniciar um tipo de movimento, mas é claro que não podemos ficar restritos à isso. Temos que pensar também em outros temas importantes da sociedade.

Qualquer pessoa que escuta Rap percebe a diferença entre o estilo estadunidense, mais focado na diversão, e o brasileiro, mais politizado. Por que existe essa diferença?

O rap americano começou igual ao daqui. Mas, eles começaram a falar para um público maior e a mídia começou a prestar atenção neles. O problema é que a mídia não quer saber de música que fala da realidade dura, de problemas como racismo e pobreza. Eles querem só a parte da diversão, e por isso que virou isso ai que está hoje. Eu fiquei muito decepcionado quando estive naquele festival “Hip Hop Manifesto”, com o Já Rule e o Snoop Dog. Os caras vêm fazer um evento patrocinado por uma cerveja e mais um monte de outras empresas com gente de fora e chamaram de o maior evento de hip hop do Brasil! Isso me deixou puto porque a gente faz o Hutuz, que é o maior festival de hip hop da América Latina e ninguém fala nada. É revoltante.

A UNE fez a Bienal de Arte e Cultura, em janeiro, com o apoio da Rede Globo e recebeu muitas críticas de setores do Movimento Estudantil. A CUFA também contou com a cobertura da Globo na final da Liga Brasileira de Basquete de Rua. Você recebeu críticas por aceitar essa parceria?

Sim. Foram críticas vindas de pseudo-revolucionários do hip-hop e alguns débeis mentais de faculdade, que se acham revoltados e consideram que uma emissora é culpada por tudo o que acontece no país. Eu, pelo contrário, não acho que nenhuma delas é melhor ou pior que outra. Todas elas tem uma forma linear de nos tratar. Isso vai desde a emissora mais popular a mais musical. Todas elas tem o mesmo padrão de beleza, a mesma forma de se dirigir as pessoas de forma desrespeitosa. Não dão os espaços necessários para os afrodescendentes e periféricos. Então eu acho uma incoerência ser contra apenas uma. É como no hip hop. O cara fala que não vai na TV, mas faz vídeo clipe. E vídeo clipe não é para passar no telefone ou no rádio. Muitos dizem que não vão à TV, mas na verdade nunca foram convidados. Portanto recusam um convite que na verdade nunca foi feito. Eu procurei achar espaços nos lugares que eu não precisava me moldar. Não precisava mudar meu discurso, não precisava mudar minha pessoa para poder me encaixar dentro dos padrões. E todas as pessoas que me fizeram críticas por eu ter ido à Globo assistiram os programas que eu fiz na TV. Quer dizer, a Globo é tem um poder tão grande, que até os pseudo revolucionários param para assistir. Através dessa inserção na TV, de forma sincera e sem banalizar as coisas que eu faço, eu consegui ampliar meu raio de trabalho. Antigamente eu falava só pros “calça larga” que nem eu, o pessoal do hip hop. Hoje eu falo pra você, falo pra minha mãe, falo pros filhos dos meus amigos. Aí o pessoal fala que o Bill mudou, que ele era mais pesado. Claro que era! Eu falava pra mim mesmo. Então eu podia falar qualquer coisa. Hoje eu falo para um pai de família. Então meu discurso não precisa ser modificado, ele tem que ser amadurecido.

(Fonte: DCE- PUC-Rio)

Entrevistas

Quilombos contemporâneos: uma luta que não pode ser esquecida

Enquanto um bairro nobre vai se constituindo numa zona até poucos anos esquecida em Canoas, uma comunidade quilombola ali estabelecida aumenta sua luta por reconhecimento do seu espaço e dos seus direitos. É a comunidade Chácara das Rosas. A professora Elsa Avancini estuda a história do Brasil e da África e a situação dos quilombolas no país e, há alguns anos, apoia a Chácara das Rosas, que está quase finalizando, com sucesso, o processo de reconhecimento e titulação de suas terras. Isso, segundo a professora, “representa uma esperança na medida em que o reconhecimento como comunidade permite que os quilombolas tenham acesso a uma série de projetos que o governo federal apresenta hoje para auxílio”.

Elsa nos falou sobre o reconhecimento, pelo governo federal, do primeiro quilombo urbano, explicou as diferenças entre os quilombos localizados nas grandes cidades e aqueles das nas zonas rurais e, ainda, falou do papel da mulher dentro das comunidades quilombolas que existem hoje. “Na história das comunidades, muitas vezes foram as mulheres que tiveram papel fundamental na sustentação da comunidade; eram elas que trabalhavam fora, como domésticas, e traziam o salário para ajudar a comunidade”, contou.

Elsa Avancini é graduada em História, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é mestre em História Social, pela Universidade de São Paulo, e doutora em História, pela UFRGS. Atualmente, é membro da Comissão Científica das revistas Diálogo e Mouseion. Também é professora de História do Brasil e História da África no PPG em Educação e em Memória Social e Bens Culturais do Unilasalle.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No mês passado, o país reconheceu o Quilombo da Família Silva, em Porto Alegre, como o primeiro quilombo urbano do Brasil. O que isso significa?

Elsa Avancini – Para mim, isso significa um grande passo no processo das comunidades quilombolas do país, seja rural, seja urbano. O reconhecimento dos quilombos urbanos é um avanço bastante grande em relação aos processos anteriores que só identificavam os quilombos rurais. Sabemos que temos, no meio urbano, comunidades que vivem desde o pós-abolição em áreas que são comuns e hoje estão incrustadas em espaços que um dia foram comunidades rurais. Acho justo que esse reconhecimento atinja também essas comunidades.

IHU On-Line – Como se organiza um quilombo urbano?

Elsa Avancini – A organização de um quilombo urbano é, do ponto de vista da comunidade, coletiva, espontânea. Além disso, o seu reconhecimento hoje está enquadrado em toda a legislação que surgiu a partir da Constituição de 1988, instituindo o reconhecimento dessas comunidades. Sua organização é interna e realizada de acordo com a sua forma de viver e com a sua cultura, obedecendo a padrões da comunidade. Os temas trabalhados pelos antropólogos e cientistas sociais nessas comunidades respeitam a identidade cultural e a forma de organização dos quilombos.

IHU On-Line – Em que sentido a comunidade negra do país avança com o reconhecimento dos quilombos urbanos?

Elsa Avancini – A comunidade negra do Brasil avança no sentido de que pela primeira vez na história tem direito de ser reconhecida. Reconhecimento eu entendo como uma política compensatória, já que no pós-abolição os negros foram libertados do cativeiro depois de trabalharem 400 anos pela riqueza do país e nada lhes foi previsto como compensação. Hoje, ao reconhecer essas comunidades, a sociedade está fazendo esse processo de compensação, que visa alavancar essas comunidades negras que até hoje têm problemas de pobreza e marginalidade social, recorrentes desse processo histórico.

IHU On-Line – O Quilombo Chácara das Rosas, em Canoas, está localizado numa área de expansão imobiliária para classe média alta. O que isso representa?

Elsa Avancini – O processo de reconhecimento da comunidade Chácara das Rosas, que está em via de finalização e titulação, representa uma esperança extraordinária. Porque em torno de 90 famílias vivem num terreno pequeno e elas não têm uma forma específica de sobrevivência. Os seus índices de alfabetização são muito baixos, o que, para elas, representa uma esperança, na medida em que o reconhecimento como comunidade lhes permite que tenham acesso a uma série de projetos que o governo federal tem hoje para auxílio, inclusive para sua própria viabilização econômica. O que eu sinto é que a comunidade quilombola encontrou nesse processo de reconhecimento a esperança. Isso é um fator importante para comunidades marginalizadas, que muitas vezes desacreditam nas possibilidades de melhoria. Nesse momento, eles veem uma luz no fim do túnel.

IHU On-Line – De que forma as mudanças enfrentadas pelo município tiveram impacto para os quilombolas de Chácara das Rosas?

Elsa Avancini – Canoas está vivendo um grande momento, no qual onde a administração municipal está procurando auxiliar essa comunidade no sentido de que ela conclua o seu processo de titulação e possa receber auxílio do governo federal. Esses auxílios vêm através da municipalidade, que reconhece a comunidade no seu planejamento urbano. A própria comunidade já se fez representar nas reuniões municipais de organização e planejamento urbano. A nova administração já está em contato com a comunidade no sentido de atender as necessidades do grupo que lá vive. A comunidade desse quilombo vive num bairro nobre da cidade e não há por que suas habitações também não tenham um caráter melhor, para que se sintam melhor nesse bairro e possam olhar de frente para seus vizinhos sem se envergonhar de suas casas.

IHU On-Line – Como a senhora define a relação que os quilombolas têm com a terra? É uma relação semelhante a que os índios têm?

Elsa Avancini – Essa questão já foi pensada no Brasil através do Instituto Nacional de Reforma Agrária que, quando conduziu o reconhecimento das comunidades quilombolas e estabeleceu os decretos para o estabelecimento dessas comunidades, reconheceu aos indígenas as terras necessárias para sua sobrevivência e para produção de sua sobrevivência. Às vezes, as comunidades urbanas não têm mais como reivindicar em torno, pois o quilombo já está todo balizado pelas construções, pelo bairro que já avançou. Em outros lugares, as terras onde as comunidades vivem são necessárias a sua sobrevivência econômica. Essa interpretação me parece válida, não há por que termos uma legislação para os indígenas e outra para os quilombolas.

Em março de 2008, tínhamos no RS 182 comunidades identificadas e com 35 processos abertos, ou seja, há uma grande quantidade de comunidades aqui no estado. A Constituição de 1988 e o decreto 4887 permitiram que essas comunidades procurassem auxílio. Como elas não tinham apoio algum, as comunidades pobres e negras iam aos cartórios, onde eram mandados de uma repartição a outra, e não conseguiam reconhecer seu espaço. Isso tornou a luta muito mais difícil.

IHU On-Line – Como o meio que os quilombolas buscam construir pode ser um exemplo da ecologia dos saberes e da participação popular?

Elsa Avancini – Em especial, a comunidade Chácara das Rosas, onde eu fiz entrevistas, tem uma memória do meio ambiente local muito intensa e bonita, relembrando traços do espaço que hoje são diferentes. Hoje, essa área é urbanizada, e os arroios, em parte, estão canalizados. Por outro lado, essa mesma comunidade tem participado do projeto Arroio Araçá, Nosso Rio Guri, além de ajudar nas ações de limpeza do arroio e participar no sentido de preservar o meio ambiente, a fauna e flora da cidade.

IHU On-Line – Quais são os principais desafios e expectativas dos quilombos urbanos?

Elsa Avancini – Eu acredito que um dos grandes desafios seja a solução dos problemas que afetam a pobreza. A questão da sobrevivência material está relacionada com emprego. Por sua vez, a questão de saúde é muito problemática, em função da pobreza, das características étnicas dessas comunidades e da educação. Essas questões, se solucionadas, permitem que as comunidades alavanquem e faz com que suas crianças e jovens tenham chance de ter um futuro melhor. Essas comunidades precisam de educação e do apoio das escolas. Nas entrevistas que fiz, percebi que é muito comum encontrar crianças que repetiram o ano escolar consecutivamente, mantendo-se o problema. Se essas comunidades não tiverem um apoio escolar no turno da tarde, as crianças ficam à solta, sem ninguém para cuidar, por isso é preciso um programa de assistência. Os desafios estão aí: na questão da moradia, do sanitarismo, da saúde e da educação.

IHU On-Line – Por que a historiografia não faz referências, especificamente, a quilombos no Rio Grande do Sul?

Elsa Avancini – A historiografia rio-grandense não faz referência aos quilombos no Rio Grande do Sul, assim como não faz referência à história do negro no estado. Alguns historiadores, como o Mario Maestri, afirmam que a presença do negro no estado tem sido minimizada e esquecida. Não se reconhece, aqui, a força da escravidão e se diz que ela foi mais branda, o que não é verdade. O Rio Grande do Sul usou o negro e o seu trabalho na charqueada em grande escala, assim como nas lidas campeiras, onde eram em menor número, mas estavam presentes. Vários historiadores e sociólogos, como Fernando Henrique Cardoso, já falaram sobre isso. Esse é o lado esquecido no Rio Grande do Sul, o que ainda precisa ser contado. Por isso, o fato de saber que há 132 comunidades quilombolas ainda gera surpresa.

IHU On-Line – Qual o papel das mulheres na organização cotidiana das comunidades e nas lutas do seu reconhecimento público?

Elsa Avancini – O papel das mulheres é fundamental. Tenho visto em algumas comunidades que as mulheres foram as grandes lutadoras e fazem parte das lideranças do movimento hoje. As grandes lutas em torno do reconhecimento muitas vezes têm sido comandadas por elas. Na história das comunidades, muitas vezes foram as mulheres que tiveram papel fundamental na sustentação da comunidade; eram elas que trabalhavam fora, como domésticas, e traziam o salário para ajudar a comunidade. Hoje, inclusive, é uma mulher que dirige a comunidade quilombola Chácara das Rosas.


Fonte: UNISINOS

Linha Dura: Hip-Hop um novo conceito



por Especial Hip-Hop*

O 4º Festival Consciência Hip Hop passou. Vejo a argumentações de algumas pessoas que criticam a rede Fora do Eixo sem saber o que está criticando. Vejo outros defenderem a idéia sem saber também o que realmente estão defendendo. Por isso a necessidade de continuar o debate sobre a proposta. Mas a verdade é que o Hip Hop Fora do Eixo está seguindo a nova lógica de fazer negócios, a nova lógica de circular as idéias, as músicas, os produtores, jornalistas etc.



Antigamente os artistas criavam suas canções, faziam um ”corre” para se apresentar, e torciam para que algum produtor ou os contrata-se. Hoje, o artista continua fazendo seus ”corres”, porém existe um novo território. Não precisamos mais de intermediários, o próprio artista é que gerencia sua própria carreira, graças ao acesso à novas tecnologias, as mesmas que estão quebrando as grandes gravadoras.

Hoje o artista tem seu próprio veiculo de comunicação como o Myspace, a Trama, o blog etc. E a facilidade que se tem em gravar seu próprio cd sem precisar ter grandes estúdios, as rádios? Temos a nossa, pode até não ser um veículo de massa, mas também tem como utilizar as ferramentas da internet. Enfim não tem mais desculpa – o artista que quer viver no modelo passado está fadado ao fracasso junto com as famosas majors. A pergunta que deixo para os leitores desse artigo é: pra que termos intermediários?

O hip hop fora do eixo não é uma ONG, nem nada disso, é só uma rede de trabalho, onde qualquer pessoa que comunga com a idéia pode participar. Queremos e temos que adotar uma nova alternativa de fazer negócio, já que o sonho do artista em ser encontrando por alguém foi por água abaixo.

Essa nova forma de negócio terá que ser nos preceitos da economia solidária. O mundo caminha para as negociações em rede, a união dos pequenos, e isso, infelizmente, por coincidência ou não, não vejo vontade em muitos artistas – os que tem mais visibilidade principalmente.

Falta a vontade de entender que os cachês cobrados esta fora da realidade local, falta vontade de realmente contribuir com a construção do desenvolvimento regional. Falar que está contribuindo, indo na cidade com cachê, tudo pago, inclusive é fácil. Falta vontade de entender que estão falando de revolução social, mas estão pensando e agindo como os grandes empresários donos das grandes gravadoras, onde uma minoria ganha muito e a maioria ganha pouco.

Amigos do hip hop, do Rap, vamos mudar o conceito? Pois não está bom pra ninguém. É só dar uma olhada ao redor, a si mesmo, não adianta reclamar. Primeiro porque foi eu, foi você que escolheu cantar música pra favela, pros miseráveis, pros caras que não tem condições de pagar R$ 5,00 pra entrar em um baile. Mas pro pagode, pro samba, pro funk carioca esses mesmos favelados pagam R$ 10,00 pra entrar. Por que será? E o rap ainda sustenta esses argumentos. Esse é o nosso universo, o nosso público, o nosso mercado? Ops, mercado!? Mas que, qual mercado?

Nesses 15 anos que tenho de hip hop tenho visto as mesmas coisas acontecerem, os mesmos grupos circularem o Brasil, inclusive muitos destes hoje falidos, porque não entenderam a lógica do mercado. De que adianta tocar nas rádios e querer cobrar cachê fora da realidade para outros Estados. Sabem o que acontece? Os grupos não circulam, não conhecem outros lugares.

Para os grupos que já tem certa visibilidade e que já cobram seus cachês de R$ 5 mil, quero dizer que esse valor para regiões como o Centro-Oeste, Norte, Nordeste, é inviável. Sei que seu sonho é viver da música, da arte, mas como moto boy você ganha R$ 800 por mês e como músico você quer ganhar R$ 5 mil por cada show. Aonde esta a lógica, gente? Ser musico é ser iluminado, é isso?

Chegou a hora de voltar e começar de novo, fortalecer os comerciantes, as rádios, os produtores, educar melhor o público, ser mais humilde e entender o processo que está envolvido. Por isso tem que ser um artista trabalhador, o artista igual o motoboy, o artista que entende de mercado.

Então, acorde gurizada! Quer pagar R$ 5 mil de ”jabá” para uma rádio? Pode pagar. O direito e o dinheiro são seus, mas lembre que esse caminho é defasado. Com esse valor, eu compro um transmissor e monto minha rádio comunitária e toco o meu som, e som de muitos outros que também estão na batalha.

Vamos continuar sustentando esse pensamento? Ou vamos mudar e construir novas alternativas. O que importa é lutar contra essa grande indústria que favorece somente alguns.

Paulo Ávila, comumente chamado por Linha Dura, é Rapper Cuiabano engajado em movimento social e militante do Movimento Hip-Hop

Acesse o trabalho de Linha Dura em: www.myspace.com/linhadura
Contato: linhadura@gmail.com linhadura@gmail.com

Fonte: Boletim do Zé Dirceu – 16/02/2009

É Tudo Nosso! O Hip-Hop Fazendo História Parte 2 B.boy – B.girl

Assista o primeiro capítulo www.youtube.com/h2lapis


Doentes mentais são escravizados em fábricas na China

Pequim – Dez pessoas foram detidas por maltratar e escravizar doentes mentais em fábricas de tijolos do leste da China, informa hoje a agência oficial “Xinhua”.

As detenções aconteceram em várias operações policiais na localidade de Jieshou, da província de Anhui, nas quais 32 doentes mentais foram resgatados.

“Todos (os resgatados) apresentam problemas mentais e têm entre 25 e 45 anos. Apenas alguns deles conseguem dizer de onde são”, destacou Gao Jie, diretor do Birô de Segurança Pública de Jieshou, ao informar as operações, que aconteceram no dia 28 de abril.

Doze dos resgatados retornaram a seus lares, e os que ainda não foram identificados estão em uma casa de amparo na localidade.

Aparentemente, alguns deles são de outras províncias do centro e leste da China.

Alguns dos doentes mentais tinham marcas de violência e trabalhavam 10 horas por dia sem remuneração.

A polícia investiga o incidente, na busca de outras possíveis fábricas onde também sejam praticados trabalhos forçados.

O caso lembra o que explodiu na China em 2007, quando autoridades descobriram fábricas de tijolos na província de Shanxi (norte) que usavam centenas de crianças doentes mentais como escravos, e pelo menos um deles morreu pelos maus-tratos sofridos ao tentar escapar.

Mais de 1.300 escravos foram resgatados naquele caso, enquanto um dos chefes da rede foi condenado à morte, outros 28 receberam diferentes penas de prisão e 95 políticos foram punidos.

O escândalo, um dos mais famosos da China contemporânea, explodiu quando 400 pais da província de Henan pediram ajuda na internet para localizar seus filhos, depois de eles terem sido sequestrados e vendidos como escravos em Shanxi.

“A vida em primeiro lugar: a força da transformação está na organização popular”.

Igor Moreira*

Os lemas do Grito dos Excluídos, anualmente, apontam os grandes desafios do povo brasileiro na luta pela construção de uma pátria livre, justa e soberana. Este ano não é diferente. Diante da crise do sistema capitalista, que em suas feições econômica, ambiental e alimentar, prejudica principalmente o povo trabalhador, já que os ricos sempre encontram uma forma de se safar, o Grito ressalta o grande desafio para o nosso povo na atualidade: organizar-se e mobilizar-se para construir um projeto popular para o Brasil que transforme as estruturas desta sociedade profundamente injusta e insustentável.
Duro cenário para a organização popular: Vivemos em uma era de hegemonia da competição, do consumo, do espetáculo (o falso se sobrepondo ao real), do poder do capital sobre os mais diversos aspectos da vida social. E o capital não é democrático, não é justo, não é sequer sustentável – como demonstra a atual crise multifacetada – econômica, ambiental e alimentar.

Essa ordem de coisas não é natural. Basta olhar além da superfície daquilo que as instituições capitalistas querem nos fazer crer. A própria natureza nos dá o exemplo de como os ecossistemas funcionam – interligados, interdependentes, interagindo de forma cooperada. Isto é natural. O sistema capitalista e sua forma de organizar a sociedade é que não têm nada de natural, ao contrário, está destruindo a natureza e colocando a vida em último lugar na escala de valores.

A história do nosso povo também nos dá exemplos de organização solidária: As duas principais matrizes populares do Brasil, afro e indígena, organizavam-se em sociedades que tinham a solidariedade e cooperação mútua, além da harmonia com o meio ambiente, como base da organização social. Porém, esses modelos foram destruídos pelo modelo mercantilista europeu, baseado na exploração da maioria para acúmulo de riquezas por poucos. Mas esta solidariedade e cooperação sempre voltam em forma de resistência popular. Foi assim no quilombo dos Palmares, Canudos, Caldeirão e tantas experiências que buscaram construir alternativas de liberdade e igualdade em nosso país, a partir dos de baixo, sem propriedade privada, onde todos trabalham e colhem o fruto deste trabalho. Também, mais recentemente, nas ocupações de terra no campo e na cidade, vimos o espírito coletivo e solidário se sobrepor ao individualismo de todos contra todos. E o que seriam das históricas greves operárias sem a capacidade de organização e solidariedade de classe dos trabalhadores brasileiros.

O golpe militar de 1964 veio para destruir a crescente organização popular que lutava por um Brasil melhor para o seu povo: camponeses, operários, estudantes foram violentamente reprimidos e suas organizações destruídas. Ou seja, os capitalistas usaram a força bruta para impedir que o povo organizado construísse um Brasil livre, justo e solidário.

A década 80 registrou a retomada da organização popular de massa no Brasil. As Comunidades Eclesiais de Base e Pastorais sociais, o movimento comunitário nas cidades, ainda sob a ditadura militar, avançaram na organização do povo. Com a chamada reabertura, eclodiram as lutas sociais e nasceram grandes organizações de massa que retomaram a luta por um Brasil centrado no bem estar do povo trabalhador. Foi a fase áurea das grandes greves, ocupações de terra, manifestações políticas… Mais uma vez o povo brasileiro mostrou que a organização e a luta popular estão no seu DNA.

Porém, mais uma vez o sistema capitalista se impôs, com sua lógica de luxo para poucos e opressão para a maioria. Desta feita o povo foi derrotado pela ditadura do neoliberalismo. Nesta fase do capitalismo, a produção de mercadorias foi reorganizada de forma a aumentar os lucros e enfraquecer o mundo do trabalho e, conseqüentemente, das organizações sindicais que tiveram papel fundamental nas lutas do período anterior. Junto com o aumento do lucro para a burguesia veio o aumento do desemprego. As finanças passaram a ser o centro do sistema e o caminho mais fácil para a acumulação. A produção foi fragmentada, alienando ainda mais o trabalho humano. Soma-se a isso a retirada de direitos dos trabalhadores e a precarização crescente do mundo do trabalho. O Estado deixou de cumprir obrigações para com o povo, de maneira a transferir ainda mais renda para o mercado financeiro (através de pagamentos bilionários em juros da dívida pública que quanto mais se paga mais se deve) e para o capital internacional através da privatização de empresas estatais que exploram recursos naturais (como a Vale do Rio Doce e a própria Petrobras que hoje é mais privada do que pública)e até de serviços sociais como previdência, saúde, educação etc. Todo este cenário é coroado pelo controle ditatorial do capital sobre os meios de comunicação de massa, que condicionam o povo a esta realidade como se não houvesse alternativa – meios que mentem, omitem fatos, manipulam, e operam deliberadamente para destruir a cultura popular a fim de que reine absoluta a cultura de mercado.

Junto ao duro golpe do neoliberalismo veio o vazio do projeto de poder eleitoral da esquerda. Diante do descenso da capacidade de organização do povo, os partidos de esquerda foram recuando cada vez mais no seu horizonte de mudanças. Quando finalmente ganharam eleições, limitaram-se administrar a ordem existente, contentando-se em tentar democratizar um pouco o Estado, que é engessado pelos interesses da burguesia, e promover alguma distribuição de renda, desde que não afete as estruturas de acumulação e poder das classes dominantes.

Porém, o povo brasileiro nunca parou de se organizar e lutar. Mesmo sob o jugo do neoliberalismo, o Brasil viu florescer e consolidar um dos mais importantes movimentos camponeses do mundo. Mesmo a população rural sendo menos de trinta por cento da população, sem terras e pequenos agricultores têm dado enormes dores de cabeça ao capital e aos governos a seu serviço. Junto com eles, vimos reflorescer os quilombolas e se reforçar a luta indígena. Quem sempre foi carvão humano a ser triturado para gerar riqueza para elites estrangeiras e nacionais, desenvolvem hoje as mais radicais, profundas e inspiradoras lutas contra o controle do capital sobre as riquezas paridas em terras brasileiras pelas mãos de nossa gente.

Agora esse sistema que subjuga nosso povo está em crise. As massas de trabalhadores nas cidades que sempre tiveram que lutar por moradia, infra-estrutura urbana, trabalho etc, precisarão atingir elevados patamares de organização para enfrentar as dificuldades que se intensificarão, pois nas crises capitalistas são sempre os trabalhadores que pagam a conta. Mais do que enfrentar as dificuldades, precisamos nos organizar para superar este sistema e construir uma nova era. É esse desafio que o lema do grito ressalta este ano.

Precisamos construir organização popular autônoma, ou seja, onde os que se organizam decidam os rumos da sua luta sem manipulações eleitorais ou econômicas. Se o poder político institucional não é suficiente para transformar nossa realidade, pois se ganha o governo mas não se toma o poder que está sob o controle das elites, devemos construir o Poder Popular. Devemos construir instâncias populares de tomada de decisões, como as Assembléias Populares, e impor as decisões tomadas pelo povo por meio da mobilização direta. Devemos ter os nossos próprios meios de comunicação, com ou sem autorização do Estado. Devemos construir os nossos grupos de produção e redes de comercialização, sem perder de vista a necessidade de os trabalhadores assumirem toda a produção, sem patrões. Devemos valorizar e fortalecer a cultura popular e suas formas de expressão, em antagonismo à cultura de mercado.

Enfim, são muitos os desafios, mas um único caminho para começar a enfrentá-los: nos organizarmos nos bairros, comunidades, ocupações, escolas, sindicatos, igrejas… Com organização, formação e mobilização, construiremos uma verdadeira esquerda social e política, anticapitalista e enraizada no povo trabalhador, pois a FORÇA DA TRANSFORMAÇÃO ESTÁ NA ORGANIZAÇÃO POPULAR.

*Advogado, da equipe de formação do Grito dos(as) Excluídos(as) de Fortaleza e militante do Movimento dos Conselhos Populares.


Penas Alternativas: solução ou mais punição?

José de Jesus Filho*

O Ministério da Justiça divulgou recentemente a notícia de que os/as condenados/as a penas alternativas superaram o número de pessoas sob privação da liberdade. No primeiro semestre de 2008, quase 500 mil presos estavam cumprindo pena alternativa.

No entanto, o que o Governo apresenta como positivo, ao menos implicitamente, pode na verdade significar a expansão do controle penal a pessoas que antes não eram atingidas.

A lei que ampliou o rol das penas alternativas e elevou para quatro anos o tempo máximo da pena para que haja substituição da pena privativa de liberdade para alternativa data de 1998. A idéia básica para criação das penas alternativas seria justamente reduzir o número de pessoas levadas à prisão por sentença condenatória e assim baixar o número de presos com vistas a uma execução penal coercitiva e mais humana.

O Ministério da Justiça não fornece o número da população prisional de 1998, mas a do final de 1997 era de 170.207 e a taxa por 100 mil habitantes era de 108,6. Dez anos depois da publicação da lei, as penas alternativas alcançaram e superaram o número de presos. Em junho de 2008 a população prisional era de 440 mil com uma taxa de 227 por 100 mil habitantes, ou seja, o crescimento da população prisional em relação à população geral dobrou.

O Brasil é o 4º País no mundo em número de presos. É também o segundo país na América Latina em número de presos por 100 mil habitantes, perdendo somente para o Chile.

Em janeiro deste ano, a SAP anunciou a construção de 44 novas unidades prisionais. Se somarmos os privados de liberdade com aqueles cumprindo pena alternativa nos aproximaremos de 1 milhão de apenados. Isso sem contar aqueles que estão em livramento condicional e regime aberto, o que eleva esta cifra a bem mais de um milhão de pessoas.

Esses números parecem contradizer a idéia de que a expansão das penas alternativas reduz o número de presos. Eles nos levam a crer que elas tendem a aumentar o controle penal, atingindo agora pessoas que antes não eram.

Uma das razões que parecem explicar esse fenômeno é o fato de que as penas restritivas de direito ou alternativas estarem sendo aplicadas cumulativamente com as privativas de liberdade. Com efeito, há casos em que somente se alcança a substituição da pena no Tribunal, ou seja, em segunda instância, quando a pessoa já permaneceu por meses ou por anos aguardando em prisão sentença definitiva.

Outro elemento importante a ser considerado é fato de que as prisões, mesmo antes do advento da lei das penas alternativas, são ocupadas principalmente por pessoas que praticaram roubo e tráfico de entorpecentes. Esses dois crimes juntos em 1997 superavam a cifra de 50% da população prisional. Em outras palavras, crimes que não contam com a substituição da pena. Enquanto isso, os crimes que merecem hoje pena alternativa são crimes de baixa lesividade e possivelmente não eram atingidos pelo poder punitivo do estado antes de 1998.

Esses dois aspectos, resistência dos juízes em aplicar as penas alternativas logo da sentença e o baixo alcance das penas restritivas de direito levaram à Pastoral Carcerária propor duas recomendações para uma melhor efetividade das penas alternativas:

1 – Ampliação do alcance das penas alternativas para penas superiores a 5 anos e não restrição dessa substituição a crimes não violentos e não hediondos.

2 – Que deixem de ser alternativas para serem autônomas para certos crimes como o furto e passar o papel de alternativo para as penas privativas de liberdade. Assim, diante da condenação por furto, a pena principal seria a restritiva de direito e a pena alternativa a prisão.

Há uma série de reformas necessárias em relação às penas restritivas de direito, mas estamos certos de qualquer mudança terá de tomar em conta as duas necessidades apontadas acima.

*Assessor Jurídico e membro da Coordenação Nacional da Pastoral Carcerária


Modelos negros terão cota de 10% em desfiles


Por AE

São Paulo – O Ministério Público de São Paulo e a organização do São Paulo Fashion Week – maior evento de moda do País – fecharam ontem um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) que prevê cota para a participação de ao menos 10% de modelos negros nas passarelas. O documento prevê multa de R$ 250 mil caso as grifes não cumpram a medida. A empresa Luminosidade Marketing & Produções Ltda., que coordena os desfiles da SPFW, comprometeu-se a comunicar a todas as marcas participantes do evento a inclusão de afrodescendentes, com antecedência mínima de 15 dias a cada edição.

O TAC é resultado do inquérito civil instaurado pelo Grupo de Atuação Especial de Inclusão Social (Gaeis) do Ministério Público desde o ano passado, após a constatação de que os desfiles de moda da São Paulo Fashion Week tinham um número muito reduzido de modelos negros ou indígenas. No documento, a SPFW também se compromete a encaminhar para o Ministério Público, no prazo de 30 dias após cada edição, durante dois anos, a comprovação de cumprimento da cláusula. “Não se trata de querer impor uma cota racial, mas de promover a inclusão social nesse segmento”, ressalta a promotora de Justiça e coordenadora do grupo, Deborah Affonso.

Segundo a promotora, na hipótese de impossibilidade de cumprimento da recomendação, a grife poderá apresentar justificativa, que será analisada pelo Ministério Público. Helder Dias, diretor da HDA Models, que agencia 250 modelos negros, diz que a decisão do MP é positiva, já que, na moda, “o preconceito é escancarado.” A novidade no SPFW também animou a modelo Juliana Nepomuceno, que apesar de ter completado 18 anos agora, já tem no currículo campanhas na Ásia e Europa. “O preconceito existe em todo lugar, mas é no meu País, marcado pelas diferenças, que eu encontro mais dificuldade para trabalhar”, diz.

Cabral diz que muros trarão benefícios às favelas

Agência Estado

O governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), se reuniu na terça-feira com associações de moradores das 13 favelas onde serão construídos muros, chamados de ecolimites. A construção causa polêmica e nem todos os moradores e presidentes de associação concordam com a construção, que consideram ser segregadora. Segundo o governador o muro existirá para proteger as pessoas das comunidades para que elas possam “receber benefícios do Estado, investimentos sociais, saneamento básico, educação, urbanização e (para) que esses investimentos não se percam ao longo do tempo com a expansão descontrolada da comunidade”.

O objetivo de construção dos muros, que serão erguidos nas zonas sul e oeste, é conter o crescimento das moradias irregulares e proteger as florestas do desmatamento. Os muros terão 3 metros de altura – a extensão vai depender da favela. Na Rocinha, em São Conrado (zona sul), o governo do Estado já instalou um canteiro de obras. Ali, o muro terá quase 3 km.

Juntamente com a discussão sobre o muro veio à tona outro tema que deixa os moradores de favela em pânico. Nos anos 60, os governadores Negrão de Lima e Carlos Lacerda, com o apoio dos militares, promoveram remoções de favelas da zona sul para conjuntos habitacionais na periferia. Nasceu assim a Cidade de Deus, na zona oeste. O Estado garante que, desta vez, isso não ocorrerá.

Ronaldo vira zagueiro e defende fazer comercial de cerveja

Cefas

A velha polêmica de volta: uma personalidade – seja um cantor de rock, um famoso jogador de futebol, ou um escritor que ganhou Nobel de Literatura – pode fazer campanhas de cervejas ou cigarros, para ficar só nestes dois produtos?

A polêmica surgiu há décadas, desde quando se descobriu que Pelé, sempre assediado pelas agências de publicidade, recusou e ainda recusa-se terminantemente a divulgar produtos considerados nocivos à saúde.

E retorna mais uma vez, agora, com o Ronaldo Fenômeno, depois de entregue às feras (e também travecos), gordo e tido como morto para o futebol, estar dando a volta por cima e fazendo seus gols pelo Corinthians. E além de gols, aceitar ser garoto-propaganda da Brahma.

O Ministério Público Federal paulista (regional em São José dos Campos) ajuizou ação civil pública pedindo condenação da Ambev (que fabrica a cerveja) e da África (criou a campanha). O MP alega que o comercial estrelado por Ronaldo fere as regras do Conar e desrespeita o princípio da responsabilidade social, “por induzir os mais jovens a consumir bebida alcoólica”. No filme, o jogador oferece um copo da “gelada”…

Ronaldo, sabatinado semana passada por vários jornalistas especializados em esportes (inclusive o Juca Kfouri) em uma mesa-redonda num canal de TV a cabo, não concordou com as acusações. E fez duas observações, que colocaram ainda mais lenha na fogueira:

– “Eu não posso só pensar em agradar às crianças. E criança não bebe cerveja, gente. Sou contratado pela Brahma há 15 anos e sempre tivemos o maior cuidado”.

– “Essa última campanha era pra mostrar que sou guerreiro, me identificar com o brasileiro, que sofre o dia todo e quer chegar em casa e tomar sua cervejinha. Mas não dá pra agradar a todo mundo. A Copa do Mundo é patrocinada pela Budweiser. A Copa dos Campeões, pela Heineken. Imagina o futebol sem grandes patrocinadores, sem a cerveja após os jogos…”.

E agora, quem tem razão? Ronaldo ou o Ministério Público Federal, que quer punir a Ambev e a África?

Rapper Parteum comemora 10 anos de carreira com show em São Paulo

Produtor e compositor, músico se destacou no hip hop nacional ao inovar estrutura das bases e já assinou trabalhos com Zélia Duncan, Ed Motta e Tom Zé. Dois álbuns, um EP e seis mixtapes lançados, diversas apresentações pelo Brasil, participações em álbuns e coletâneas, trilhas sonoras para cinema, remixes e projetos especiais para marcas como Nike e Element, sintetizam a obra do inquieto Parteum.

Apesar de ser representativa, o maior legado do rapper é a forma diferenciada como há dez anos atrás acreditou ser possível produzir hip hop.

Forma tão incomum quanto sua biografia: nascido na periferia da Zona Sul de SP, Parteum se educou em inglês, hip hop e na fina arte do skate. Tornou-se profissional sobre as rodinhas, o que lhe proporcionou estudar design e viver por um tempo na Califórnia.

Partindo do príncipio que rap é antes de mais nada música, Parteum se dedicou a inovar as batidas e, dentre outros elementos, inseriu groove, programações eletrônicas e harmonias de jazz nas bases. Nas rimas buscou inspiração na literatura e passou a escrever versos pensando não só no conteúdo, como também na forma.

O resultado foi um disco de estreia completamente diferente do que se estava produzindo no rap nacional, mas bem recebido pela cena e pela crítica. O trabalho garantiu sua projeção no hip hop e perante artistas de música brasileira. KL Jay, MV Bill, Rappin’ Hood, Zélia Duncan, Tom Zé, Nação Zumbi e Ed Motta são alguns artistas com quem o rapper atuou como produtor, compositor e MC.

No show, Parteum fará um apanhado destes dez anos, reunindo músicas dos dois álbuns do seu grupo Mzuri Sana (Bairros Cidades Estrelas Constelações e Ópera Oblíqua) como “Escuta Essa” e “Dragão Mimado”, mais faixas do disco solo (Raciocínio Quebrado). Trechos das mixtapes como a faixa “Bagunça das Gavetas” e músicas inéditas, que estarão em seu próximo álbum, completam o repertório.

Serviço: Sábado, 30 de maio, Hole Club (r. Augusta, 2203 – Jardins). Ingressos: R$10 a R$15. Informações: 11 3224 9730/ www.parteum.com

Ecos do racismo institucional

Cleidiana Ramos

Em tempos de discussão sobre políticas públicas para a população negra, às vezes acabamos por esquecer o quanto estas conquistas, ainda poucas diante da sua necessidade, são recentes.

O jornalista, poeta, inclusive membro da Academia de Letras da Bahia, e editor-chefe de A TARDE , Florisvaldo Mattos, localizou uma preciosidade do que podemos caracterizar como racismo institucional do Estado brasileiro. Vale, inclusive, para quem está pesquisando o tema.

Trata-se do texto intitulado Censo das Favelas. Aspectos Gerais. O estudo foi realizado entre 1947 e 1948 pela Prefeitura do Distrito Federal, Secretaria de Interior e Segurança e o Departamento de Geografia e Estatística, o precursor do IBGE. O trecho é da página 11 de um relatório de 33 páginas. Prestem atenção no raciocínio do Estado sobre a população negra e a sua situação de pobreza:

“Muitas considerações já foram tecidas relativamente à eugenia, mas as autoridades competentes têm mostrado certas reservas no trato dos diversos fatores suscetíveis de melhorar a raça humana. Para os nossos propósitos, tomaremos os favelados essencialmente como são constituídos e examinaremos o que deles se pode esperar de acordo com as realidades, tanto sob o ponto de vista econômico, como social e moral.

O preto, por exemplo, via de regra não soube ou não poude aproveitar a liberdade adquirida e a melhoria econômica que lhe proporcionou o novo ambiente para conquistar bens de consumo capazes de lhe garantirem nível decente de vida. Renasceu-lhe a preguiça atávica, retornou a estagnação que estiola, fundamentalmente distinta do repouso que revigora, ou então – e como êle todos os indivíduos de necessidades primitivas, sem amor próprio e sem respeito à própria dignidade – priva-se do essencial à manutenção de um nível de vida decente, mas investe somas relativamente elevadas em instrumentária exótica, na gafieira e nos cordões carnavalescos, gastando tudo, enfim, que lhe sobra da satisfação das estritas necessidades de uma vida no limiar da indigência”.

Algumas considerações que podemos fazer sobre o pensamento do Estado brasileiro de então:

A pobreza era culpa da população negra, que trazia como traço característico a preguiça e o dom de gastar tudo com inutilidades. A liberdade que lhe foi concedida, com o fim da escravidão, foi um benefício que ela nunca soube aproveitar.

Se formos analisar bem, este pensamento, que o Estado expunha sem nenhum constrangimento, tem pouco mais de 60 anos. Daí que mais uma vez volto aqui há um tema que tratamos na semana passada com o gancho da substituição na Semur.

É mais do que necessário e urgente uma maior fiscalização sobre a forma como estão sendo conduzidos estes órgãos voltados para resolver as questões de desigualdades por conta de etnia nas três esferas: município, estado e União.

Este deve ser um compromisso de todos nós. Criticar e ficar de braços cruzados só faz com que as poucas políticas existentes percam sua força ou fiquem ainda mais desacreditadas.

O Estado brasileiro, em todas as suas instâncias, tem uma dívida secular com a população negra e não tem o direito de postergar ainda mais este pagamento. E, nós, sociedade civil, constantemente, esquecemos o poder- e isto não é clichê- que a nossa organização possui. Acordemos então.

O crack fugiu da favela



por Regina Abrahão*

Historicamente a humanidade fez uso de alcalóides diversos, que em níveis variados alteram a percepção e os sentidos, com múltiplas finalidades. Drogas foram usadas no intuito de facilitar a intermediação com o divino, provocar previsões, induzir transes coletivos e como elemento de confraternização.



A Bíblia faz citações ao uso do vinho; folhas de tabaco e de coca eram usadas já há mais de cinco mil anos nas Américas. Pouco depois, índios da América Central descobrem o potencial alucinógeno de determinados tipos de cogumelos, enquanto a maconha na mesma época era consumida na Europa central, Egito e China.

Em seguida alguém reparou que as alterações provocadas pelo uso de drogas poderiam ter outras finalidades, como facilitar condicionamento coletivo em soldados em guerra, aguçando a agressividade ou neutralizar a capacidade de reação de populações. Relatos de soldados bêbados ou drogados existem desde a antiguidade. O vocábulo assassino deriva de hashshishin, que significa fumador de haxixe, hábito de um grupo de soldados árabes extremamente violentos que atuou até meados do século 13.

Outras guerras e outras drogas seguiram-se, como a Guerra do Ópio, onde a Inglaterra impôs a liberação do comércio desta droga na China, oriunda da Índia (o que culminou com a dominação inglesa sobre a China). A morfina foi amplamente utilizada durante guerras do século 19, como a Guerra Civil dos EUA (1861-65), a Guerra Austro-Prussiana (1866) e a Franco-Prussiana (1870-71).

Anfetaminas, chamadas pelo exército alemão de “Droga Milagre” foram largamente consumidas durante a Segunda Guerra Mundial. O exército aliado, por sua vez, recebia além das anfetaminas tabaco e álcool. O cigarro teve a partir desta época seu pico de consumo. Mais tarde, no Vietnam, cerca de 30 mil soldados retornaram aos EUA dependentes de heroína. A idéia original era popularizar o uso desta droga para a população, que não aderiu ao uso como previsto. Ao contrário, foram os soldados estadunidenses, pressionados pelos horrores da guerra que tornaram-se viciados. No fim da guerra, a heroína popularizou-se nos EUA. Situação semelhante ocorre hoje no Afeganistão, onde rígidas regras de conduta religiosa impedem que parte da população faça uso de
álcool ou drogas, ambos largamente usados por soldados de tropas
européias e estadunidenses.

Permitido, proibido, incentivado ou dissimulado, o uso de drogas não pode ser visto dicotomicamente como deslize moral ou estilo de vida. A função da droga na sociedade, seu lugar no ranking mundial como segundo negócio mais rentável, seu poder de empossar e destituir governos é inegável. Isto em se tratando apenas das drogas ilícitas, lembrando que o consumo de álcool, tranqüilizantes, antidepressivos, tabaco e anorexígenos superam, e muito, o consumo das drogas ilegais.

O poder da indústria farmacêutica e o desenvolvimento de novas panacéias capazes de anestesiar quaisquer sofrimentos humanos, o estabelecimento de limites entre o legal e o ilegal neste tipo de situação ignora princípios da ética médica.

O apelo social do capitalismo, com sua ênfase no ”ter” ao invés do ”ser” é
um campo fértil para a disseminação das chamadas drogas duras. Não por acaso, a popularização do uso da cocaína deu-se na década de 80, justamente a década perdida, do culto ao individualismo, dos yupies em contraposição aos hippies. Logo depois surge o crack como subproduto, destinado as classes D e E, justamente por causa de sua letalidade e baixo preço.

Por algum tempo o crack ficou restrito aos guetos das grandes cidades. Atingindo principalmente adolescentes pobres, aumentando tanto os índices de criminalidade quanto a crueldade e banalidade dos atos infracionais praticados. O preço da vida, para um dependente em abstinência, pode ser o preço de uma dose. Pouco tempo atrás, em Porto Alegre, a crônica policial noticiou o assassinato de um rapaz por sua mãe. 24 anos, filho único, loiro, classe média alta, viciado em crack e histórico com mais de 10 internações, além de condenações policiais por pequenos furtos e longa lista de agressões a familiares e conhecidos.

A disseminação desta nova droga, ao sair da favela e invadir bairros nobres provocou na sociedade uma “comoção” diferente de antes. O
rapaz loiro, classe alta, assassinado pela mãe, ganhou notoriedade, chocou o estado e foi notícia nacional. Mas qualquer breve pesquisa nos leva a dezenas de casos similares anteriores, de rapazes e moças, só que nem tão loiros, e em e vilas populares, a maioria com bem menos que 24 anos, assassinados por pais ou mães, abandonados, sem moradia, sem escola, sem leitos para tratamento, sem perspectiva nenhuma maior do que a morte próxima.

Seria demais pensar nas centenas ou milhares de jovens adolescentes viciados em crack que morrem todos os dias e sequer fazem parte das estatísticas? De crianças que hoje já são dependentes? De crianças geradas por mães usuárias, e todas as complicações decorrentes? Seria paranóia esquerdista pensarmos no crack como política de extermínio para esta incômoda parcela excedente da população? Afinal, para eles faltam vagas em quase tudo… escolas, trabalho, assistência médica e social, lazer, profissionalização. E isto tudo tem um alto
custo social, e particular, refletido nas grades, na segurança privada, nos presídios lotados. É a falência do deus mercado gerindo a sociedade.

O faturamento da indústria farmacêutica mundial em 2007 atingiu a cifra de 300 bilhões dólares, e esta área é justamente uma das que mais recebe investimentos para pesquisa. Qual a dificuldade, então, para que sejam desenvolvidos medicamentos de combate à dependência química? Quais as terapias que realmente funcionam, no combate à dependência? O que dizer das “fazendas” terapêuticas, dirigidas por religiosos sem formação médica, em regime quase militar? O que fazer, então, uma vez que, sabidamente, a rede pública comprovadamente não consegue suprir a demanda?

Pelo que dizem médicos e especialistas em drogadição, ela não tem cura, tem apenas controle e estagnação, com acompanhamento e tratamento. Isto relacionado a maioria das drogas, excluindo-se delas o crack nos estágios finais. Então: O que fazer com esta parcela de já usuários crônicos? Como impedir que mais e mais jovens sejam usados pelo sistema através de suas drogas lícitas e ilícitas, atrás de uma perspectiva ilusória de vida? Sim, por que o crack hoje é epidêmico, mas novas drogas são criadas a cada momento, dependendo da
rentabilidade, da perspectiva do consumo e do uso que pode ser feito delas.

Parece repetitivo. Cansativo. Mas a resposta, repetida cansativamente, e infelizmente não ouvida, salta aos olhos e não é vista: enquanto o capitalismo for o sistema dominante, serão estas e outras agruras a alimentar os sonhos de parte de nossa juventude, e a anestesiar o que bem poderiam ser as dores da revolta de toda uma civilização amordaçada.




*Regina Abrahão, é do Rio Grande do Sul, funcionária pública estadual, dirigente de políticas sociais do
Semapi, da CTB e do PCdoB de Porto Alegre, coordenadora do núcleo Cebrapaz, estuda Ciências Sociais na UFRG.



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do Blog.

A renovação que não querem, a renovolução que não virá

Helio Fernandes

Apesar dos 84 por cento de popularidade (só isso?) do presidente Lula, a verdade é que continuamos no retrocesso, caminhamos para completar 510 anos de não fazer.

NÃO FIZEMOS com a chamada Abolição da Escravidão, uma farsa.

NÃO FIZEMOS com a Republica, na qual tanto falam. Todos são Republicanos no dizer, no especular, no articular, no coordenar, mas não no realizar. Em 8 de novembro de 1891, preso quando discursava como senador, o grande Saldanha Marinho, deixou a frase que cultivam abnegada e desgradamente: “Esta realmente não é a Republica dos nossos sonhos”. Continua não sendo, 118 passados.

NÃO FIZEMOS com a Independencia, tão desnecessaria, irrelevante e sem sentido, quanto a Abolição e a Republica. Que independencia foi essa, que nos deixou apenas lembranças? Uma, distante (as margens do Ipiranga) e outras sempre presentes. Dividas que nos maltratam desde de 1822.

Por que falar em “divida” junto com a Independencia? É que Portugal devia à Inglaterra que dominava o mundo. Portugal achava que já roubara tudo do Brasil, o Imperio era dispensavel. Não interessava mais, Dom João VI já se escondera aqui, fugido de Napoleão.

A Inglaterra não sabia sequer onde ficava o Brasil, só perguntava, com a prepotencia dos arrogantes: “Quem vai pagar ou assumir a divida de Portugal?”. O Brasil assumiu, logico. Dizem, “a cada minuto nasce um trouxa”.

Essa afirmação serve para pessoas mas tambem para empobrecer paises. Assumimos, começamos a pagar juros e a assistir a “divida” crescer na razão direta dos pagamentos, perdão, das amortizações.

Eram 175 mil libras. Em 1969, (147 anos depois), chegou a 200 BILHÕES de dolares, fora mais de 600 BILHÕES que fomos desperdiçando com juros. Atingiu 1969 e até hoje. Ou no ano passado, quando o presidente Lula, juntando “Abolição, Republica e Independencia”, inventou a polvora e retumbou: “NÃO DEVEMOS MAIS NADA DA DIVIDA EXTERNA”.

Ninguem acreditou nem ele mesmo. mas era uma colossal “BOLSA-JUROS”, que dava às multinacionais, já identificadas e favorecidas pela DOAÇÃO, PRIVATIVAÇÃO, NEOLIBERALISMO. Registre-se, ressalte-se, ressalve-se: nada foi feito pessoal ou diretamente por Lula e sim por TODOS OS OUTROS QUE VIERAM ANTES DELE.

Exclui-se Prudente de Moraes, que em 1896 expulsou do seu gabinete, um audacioso Rotschild (eram 5, todos poderosos e arrogantes), que vinha cobrar juros.

Inclui-se Campos Sales, que em 1900, foi a Londres, andou de carro aberto com os Rotschilds, foi a Old Bond Street, (a famosa zona bancaria) pagou tudo que eles nos roubavam. E diziam que era R-E-N-E-G -O-C-I-A-Ç-Ã-O.

Lula não fez nada, não anulou nada, não renovou nada, não modificou nada, para ele não interessa nem RENOVAÇÃO nem RENOVOLUÇÃO. Podia ter anulado as FALCATRUAS, FRAUDES e FALSIFICAÇÕES, comandadas pela Comissão de Desestatização.

Fortunas foram feitas com essas MOEDAS PODRES, que na pratica valiam menso de 1 CENTAVO, mas o governo FHC recebia pelo VALOR DE FACE, 100 vezes menos. Não tenho noticia de que FHC tenha se aproveitado do DINHEIRO ESPECIFICO, ou como se diz hoje, virtual. Mas se aproveitou de tudo, inclusive, com esses recursos, PAGOU A PROPRIA REELEIÇÃO.

PS – Não há duvida: se FHC, eleito por 4 anos, ficou 8, Lula, eleito por 8, pode ficar 12. Seria a mesma coisa.

PS 2 – FHC se utiizou de de Sergio Motta, que morreu logo, depois de fantastica negociata com Golbery. Lula usa pseudonimos não para negociatas, mas por causa do terceiro mandato seguido. FHC e Lula, E-R-R-R-A-D-I-S-S-I-M-O-S.

Cresce violência sexual contra crianças e adolescentes



No dia 18 de maio, várias cidades do Brasil realizam mobilizações em decorrência do Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Manifestações, blitz educativas, panfletagens e outras atividades serão realizadas nas principais cidades do país para incentivar o combate ao crime.



A data foi criada para homenagear Araceli Cabrera Sanches, menina de oito anos de idade que foi espancada, violentada e assassinada por jovens da alta sociedade. O crime, cometido em 1973, no Espírito Santo, gerou discussão nacional. Hoje é lembrado como uma forma de mobilizar a sociedade em geral para combater essa forma de violência e estimular a denúncia contra a violação dos direitos de crianças e adolescentes brasileiros.


Entretanto, 36 anos após a violação da vida da menina, o crime persiste nos dias atuais em várias cidades brasileiras. O abuso e a exploração sexual ainda tornam vítimas milhares de crianças e adolescentes todos os anos.


Somente em 2008, o Disque Denúncia Nacional de Abuso e Exploração Sexual contra Crianças e Adolescentes (Disque 100), do Governo Federal, recebeu e encaminhou 7.949 casos de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual nas principais capitais brasileiras. Dessas, as cidades que mais denunciaram o crime foram: Fortaleza, com 1.605 denúncias; São Paulo, com 1.518; e Salvador, com 1.063.


De acordo com Neide Castanha, secretária executiva do Comitê Nacional de Enfretamento a Violência Sexual Contra Crianças e Adolescentes, o que se pode perceber é que há uma realidade crescente de violência sexual contra crianças e adolescentes em âmbito nacional. Entretanto, ela explica que tanto a sociedade quanto as autoridades estão reagindo contra essa violação. “Têm crescido as denuncias e os esforços dos poderes públicos para combater esse tipo de crime”, afirma.


Para Neide, o aumento de programas sociais, de educação e saúde para as vítimas, além do aperfeiçoamento do sistema judiciário são alguns exemplos concretos da tentativa das autoridades em acabar com o crime. No entanto, segundo a secretária, esses “esforços têm sido insuficientes para combater a impunidade”. Ela explica que muitos equipamentos de atendimento às vítimas e de prevenção à violência concentram-se somente nas capitais e nos grandes centros urbanos brasileiros, enquanto que o crime avança também em cidades do interior e em zonas rurais.


Embora a população esteja denunciando mais a violação dos direitos das crianças e dos (das) adolescentes, isso não basta para pôr fim ao crime. Na realidade, a denúncia é apenas o primeiro passo para um combate efetivo da violência sexual, dependerá, principalmente, de um atendimento adequado às vítimas.


O atendimento às vítimas de violência sexual começa com o trabalho do conselho tutelar, que averigua a denúncia e acompanha o processo de realização do boletim de ocorrência e exame de corpo e delito. Após esse processo, a vítima é encaminhada para programas sociais, onde recebem acompanhamento social e psicológico. O atendimento adequado também envolve as famílias das vítimas, que devem ser encaminhadas para projetos sociais de geração de emprego e renda.


Entretanto, em muitas cidades, esse atendimento não está sendo realizado como deveria ser. É o que acontece em Fortaleza, por exemplo. De acordo com o Fórum Cearense de Enfrentamento à Violência Sexual de Crianças e Adolescentes, a capital cearense, líder nacional nas ligações do Disque 100, não apresenta um quadro suficiente de programas sociais e profissionais qualificados para realizar o atendimento às vítimas.


Segundo Márcia Cristine de Oliveira, coordenadora do Fórum Cearense, Fortaleza só apresenta dois Centros de Referência Especializado da Assistência Social (Creas), responsáveis pelo atendimento psicológico das vítimas. Além disso, a coordenadora comenta que a maioria dos funcionários é terceirizada, o que gera uma grande rotatividade, prejudicando, assim, a continuidade do tratamento terapêutico dos atendidos. “O aumento das denúncias mostra a resposta da população [para o crime], mas precisamos de mais qualidade no atendimento às vítimas”, declara.


Agência Adital

Por um novo modo de votar


Roberto Pompeu de Toledo


“A lista fechada não garante a vitória dos mais honestos e mais capazes. O garantido é que a lista aberta é sinal verde para os mais desonestos e mais incapazes”

Os dois argumentos assacados com mais frequência contra o sistema chamado “de lista fechada” para a eleição de deputados, que a Câmara promete votar em breve, em substituição à “lista aberta” hoje adotada, induzem a erro. O primeiro é o de que o sistema proposto cassa o direito do eleitor de escolher seu deputado. Isso leva a crer que, no sistema atual, ele tem esse direito. No sistema atual, malicioso e obscuro, vota-se em João e elege-se Antônio. O voto em João, meu preferido, vai para um cesto partidário que reforça a posição dos mais bem votados dentro da sigla, caso de Antônio, que eu detesto. O outro argumento é o de que a opção pela lista fechada dá excessivo poder às cúpulas partidárias, na hora de decidir quem será candidato e em que posição na lista. Aí, o erro é supor que no sistema atual elas não têm esse poder. São elas que escolhem quem vai se candidatar, com que ajuda em dinheiro das fontes partidárias e com que dose de empenho da máquina.

Por “de lista fechada”, para quem essa conversa soa enigmática como, para um brasileiro, as regras do críquete, entende-se o método pelo qual o voto é num partido, não num candidato. Se a eleição for para uma bancada de 100 deputados, e esse partido conseguir 10% dos votos, terá direito a dez cadeiras. Elas serão ocupadas pelos dez primeiros nomes da lista de candidatos que o partido, durante a campanha, apresentou ao eleitorado. É o sistema utilizado na maioria dos países que adotam o sistema proporcional. Se o sistema é proporcional – quer dizer, estipula que a representação na Câmara se dará na mesma proporção das correntes de opinião existentes na sociedade –, nada mais lógico que favoreça antes o partido, a quem cabe aglutinar e dar expressão às correntes de opinião, do que a pessoa do candidato.

O colunista que vos fala já escreveu mais de uma vez, mas vai repetir que a seu ver a reforma política, de que tanto se fala e em favor da qual tão pouco se faz, deveria se balizar por dois grandes propósitos:

1. tornar o sistema mais compreensível;

2. torná-lo menos caro.

O atual sistema de eleição de deputado é tão incompreensível, para a grande maioria do eleitorado, quanto, para um americano, a lei do impedimento no futebol. O eleitor vota num candidato mas seu voto vai, em primeiro lugar, para o cesto partidário. O fato de votar num candidato lhe dá a impressão de que a eleição é majoritária, quer dizer, o candidato que tem mais votos leva. Engano. Sendo a eleição proporcional, antes é preciso levar em conta a proporção de votos obtida pelo partido. Há candidatos bem votados que não serão eleitos porque o partido como um todo teve votos insuficientes e, inversamente, candidatos pouco votados que obterão a vaga porque beneficiados por uma votação expressiva do partido. Se não se compreende o método, poucas razões existem para amá-lo e defendê-lo. Pior para a democracia. A eleição por lista fechada tem a vantagem de clarear as coisas. O eleitor sabe que está votando no partido e pronto.

Quanto ao segundo propósito, não se conseguiria inventar sistema mais caro, para a eleição de deputado, do que o atual. É cada um por si, arcando com os custos da campanha num estado inteiro. O custo da eleição é um dos grandes propulsores da corrupção no país. Rouba-se em boa parte para financiar as campanhas. Na opção pela lista fechada, a campanha centraliza-se no partido, a quem cabe pagar a conta. O custo será menor. O pacote de reformas políticas em cogitação no Congresso prevê também o financiamento público das campanhas. À primeira vista, a hipótese assusta: dinheiro público para financiar a eleição dessa gente?! Se for para eliminar, ou enfraquecer, o conúbio sinistro entre empresas e políticos que tanto contamina o processo político, virá para o bem. Financiamento público só é viável na opção pela lista fechada. É impraticável se o jogo é o do cada um por si no financiamento.

A campanha contra a proposta da lista fechada – o deputado Miro Teixeira anuncia uma “luta feroz” contra ela – tem como o maior dos inconvenientes deixar a entender que o sistema atual é bom. É por ele que se elegeram o deputado do castelo e o que se lixa para a opinião pública, entre muitos outros. A mudança para a lista fechada não garante a vitória dos mais honestos e mais capazes. O garantido é que a lista aberta é sinal verde para a vitória dos mais desonestos e mais incapazes.

Cerco à pedofilia

Pedro Rubens

Desde o ano passado, as denúncias da existência de páginas com conteúdo pornográfico infantil no Orkut caíram pela metade. No Brasil, o site de relacionamentos é o principal veiculador desse tipo de material na internet. Segundo os registros da Safernet, organização não governamental de combate à pedofilia na rede, em junho de 2008 o número de notificações de imagens ilegais no Orkut atingiu seu pico: quase 10 000 pessoas comunicaram ter visto lá algum tipo de pornografia envolvendo crianças. Desde então, as denúncias caíram 50%. O motivo foi um acordo firmado entre o Google e o Ministério Público Federal. A empresa americana responsável pelo Orkut comprometeu-se a acatar a lei brasileira e passar às autoridades todas as informações que possam ajudar a identificar os usuários que foram alvo de denúncias de pedofilia. A queda no número de notificações registradas pela SaferNet, no entanto, não significa necessariamente que o volume de páginas ilegais no Orkut tenha caído pela metade. “Os criminosos estão sofisticando suas técnicas. Hoje, muitos já conseguem escapar dos filtros antipornografia”, afirma Thiago Tavares, diretor da SaferNet. “É preciso buscar novas ferramentas para tornar o controle mais eficiente.”

Com reportagem de Kalleo Coura, Leo Branco, Daniel Paixão (Belo Horizonte)
e Silvia Rogar (Rio de Janeiro)

A sordidez humana


Lya Luft


“Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça
alheia? Quem é esse em nós, que ri quando
o outro cai na calçada?”

Ando refletindo sobre nossa capacidade para o mal, a sordidez, a humilhação do outro. A tendência para a morte, não para a vida. Para a destruição, não para a criação. Para a mediocridade confortável, não para a audácia e o fervor que podem ser produtivos. Para a violência demente, não para a conciliação e a humanidade. E vi que isso daria livros e mais livros: se um santo filósofo disse que o ser humano é um anjo montado num porco, eu diria que o porco é desproporcionalmente grande para tal anjo.

Que lado nosso é esse, feliz diante da desgraça alheia? Quem é esse em nós (eu não consigo fazer isso, mas nem por essa razão sou santa), que ri quando o outro cai na calçada? Quem é esse que aguarda a gafe alheia para se divertir? Ou se o outro é traído pela pessoa amada ainda aumenta o conto, exagera, e espalha isso aos quatro ventos – talvez correndo para consolar falsamente o atingido?

Ilustração Atômica Studio


O que é essa coisa em nós, que dá mais ouvidos ao comentário maligno do que ao elogio, que sofre com o sucesso alheio e corre para cortar a cabeça de qualquer um, sobretudo próximo, que se destacar um pouco que seja da mediocridade geral? Quem é essa criatura em nós que não tem partido nem conhece lealdade, que ri dos honrados, debocha dos fiéis, mente e inventa para manchar a honra de alguém que está trabalhando pelo bem? Desgostamos tanto do outro que não lhe admitimos a alegria, algum tipo de sucesso ou reconhecimento? Quantas vezes ouvimos comentários como: “Ah, sim, ele tem uma mulher carinhosa, mas eu já soube que ele continua muito galinha”. Ou: “Ela conseguiu um bom emprego, deve estar saindo com o chefe ou um assessor dele”. Mais ainda: “O filho deles passou de primeira no vestibular, mas parece que…”. Outras pérolas: “Ela é bem bonita, mas quanto preenchimento, Botox e quanta lipo…”.

Detestamos o bem do outro. O porco em nós exulta e sufoca o anjo, quando conseguimos despertar sobre alguém suspeitas e desconfianças, lançar alguma calúnia ou requentar calúnias que já estavam esquecidas: mas como pode o outro se dar bem, ver seu trabalho reconhecido, ter admiração e aplauso, quando nos refocilamos na nossa nulidade? Nada disso! Queremos provocar sangue, cheirar fezes, causar medo, queremos a fogueira.

Não todos nem sempre. Mas que em nós espreita esse monstro inimaginável e poderoso, ou simplesmente medíocre e covarde, como é a maioria de nós, ah!, espreita. Afia as unhas, palita os dentes, sacode o comprido rabo, ajeita os chifres, lustra os cascos e, quando pode, dá seu bote. Ainda que seja um comentário aparentemente simples e inócuo, uma pequena lembrança pérfida, como dizer “Ah! sim, ele é um médico brilhante, um advogado competente, um político honrado, uma empresária capaz, uma boa mulher, mas eu soube que…”, e aí se lança o malcheiroso petardo.

Isso vai bem mais longe do que calúnias e maledicências. Reside e se manifesta explicitamente no assassino que se imola para matar dezenas de inocentes num templo, incluindo entre as vítimas mulheres e crianças… e se dirá que é por idealismo, pela fé, porque seu Deus quis assim, porque terá em compensação o paraíso para si e seus descendentes. É o que acontece tanto no ladrão de tênis quanto no violador de meninas, e no rapaz drogado (ou não) que, para roubar 20 reais ou um celular, mata uma jovem grávida ou um estudante mal saído da adolescência, liquida a pauladas um casal de velhinhos, invade casas e extermina famílias inteiras que dormem.

A sordidez e a morte cochilam em nós, e nem todos conseguem domesticar isso. Ninguém me diga que o criminoso agiu apenas movido pelas circunstâncias, de resto é uma boa pessoa. Ninguém me diga que o caluniador é um bom pai, um filho amoroso, um profissional honesto, e apenas exala seu mortal veneno porque busca a verdade. Ninguém me diga que somos bonzinhos, e só por acaso lançamos o tiro fatal, feito de aço ou expresso em palavras. Ele nasce desse traço de perversão e sordidez que anima o porco, violento ou covarde, e faz chorar o anjo dentro de nós.

Lya Luft é escritora

Mulheres e segurança pública

Nilcéia Freire – Ministra da Secretaria Especial de Políticas para

Qual é a contribuição das mulheres para as políticas de segurança pública? Para responder a essa pergunta, a Secretaria Especial de Políticas para Mulheres está desenvolvendo a iniciativa Diálogos sobre Segurança Pública, que conta com o apoio de três agências das Organizações das Nações Unidas: Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). O estudo inédito, em realização em sete cidades (Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Canoas, Belém, Salvador e Recife), reúne mulheres de vínculos sociais distintos para discutirem os temas violência e segurança pública. O objetivo desses encontros é evidenciar um olhar feminino sobre a segurança nas cidades, apresentando novas propostas e soluções para a questão.

Para dar conta de um universo social tão rico, a metodologia é baseada no diálogo entre mulheres de diferentes segmentos sociais. São donas-de-casa, médicas, presidiárias, pescadoras, professoras, socialites, líderes comunitárias, artistas, formadoras de opinião, engenheiras, secretárias, mulheres com diferentes orientações sexuais, brancas e negras, entre tantas outras origens, ocupações e atividades. Os resultados desses encontros serão apresentados na 1ª Conferência Nacional de Segurança Pública, em agosto. A iniciativa também está vinculada ao Programa Regional Cidades Seguras, promovido pelo Unifem.
Entender a violência a partir de uma perspectiva de gênero pode trazer uma importante contribuição e uma melhoria efetiva nas políticas públicas de segurança. Isso porque as mulheres, de um modo geral, são figuras centrais na mediação social. Este papel pode ser observado na sua capacidade de equacionar conflitos, seja entre seus filhos e familiares, seus colegas de trabalho ou seus amigos. A experiência adquirida pelas mulheres na articulação em rede para o combate permanente à violência doméstica, como o “apitaço”, no Recife, indica quais podem ser os caminhos para a contribuição feminina na proposição de soluções inovadoras. As moradoras, quando agredidas, apitam. O barulho chama a atenção da vizinhança, que vai socorrer a vítima e impede que o agressor continue a bater. A expertise em criar, montar e lidar com redes sociais pode ser uma importante ferramenta para a segurança pública.

É sabido que a taxa de mortalidade causada pela violência é maior entre homens jovens, de 15 a 24 anos. O notório é o quanto essas vidas perdidas choradas por mães, filhas, irmãs, tias, avós, esposas e namoradas, muitas vezes, são transformadas por essas mulheres na luta pelos direitos humanos. O compromisso pela vida é maior que o medo dos bandidos e que a sensação de impunidade. Pelo direito de enterrar seus mortos, mulheres vão dos tribunais do tráfico aos tribunais de justiça. De fato, as mulheres estão à frente de muitos movimentos em defesa dos direitos humanos e da cidadania.

Embora as mulheres sejam diretamente atingidas pela violência, observa-se que a opinião feminina, de um modo geral, não é levada em conta no desenvolvimento de políticas de segurança pública. Precisamos quebrar o paradigma existente no imaginário coletivo que segrega esse tema como uma discussão masculina na qual as mulheres são apenas enxergadas como vítimas, aquelas que devem ser protegidas. Queremos mostrar que podemos ser protagonistas, propondo soluções para o desenvolvimento de uma cultura de paz e respeito à alteridade.

Vivendo longe das drogas

Beatriz Martins do Pinho
Aluna da Escola Estadual Maria de Magalhães Pinto
Igarapé – MG

A vida foi feita para ser vivida de uma maneira simples e saudável. Tudo que existe de mais belo na vida não tem preço, pois é de graça. Quando um jovem compra droga, ele gasta dinheiro, machuca as pessoas que gostam dele e coloca a sua vida e a de todos que estão a sua volta em perigo. Em vez de cheirar a droga, cheire as flores do jardim, pois isso é de graça. Abrace sua mãe, seu pai, seus irmãos e amigos e sinta neles um cheiro de carinho, amizade e de alegria. Se a droga lhe dá vontade de brigar e de gritar, lembre-se que você pode brigar com sua mãe até porque ela esqueceu de lhe dar um beijo de bom dia ou boa noite. Se você quer gritar mesmo, grite pelo seu time quando este marcar um gol. Para viver longe das drogas, viva com tudo que está perto de você, como sua família, amigos e tudo aquilo que a natureza lhe proporciona de graça.

André: Hip-Hop, para o alto e avante

Salve, salve!
Meu nome é André Ebner Silva, tenho 23 anos e venho hoje contar a história da minha vida e minha ligação com o hip-hop, se é que dava para contar separado. Bom, vou contar do fim para o princípio, segura.



Hoje moro em Ribeirão Preto interior de São Paulo, tenho vinte e três anos. Procuro estar cercado das pessoas que amo, é o que eu considero de meu império.

Trabalho profissionalmente como engenheiro aeronáutico, na parte de manutenção de aeronaves. Bem diferente do meu outro trabalho, não-profissional, o trabalho hip-hopiano, que eu jamais abrirei mão.

Escrevo poemas, textos e o que chamamos de literatura periférica ou marginal ou simplesmente nossa literatura. Escrevo para jornais, blogs, e o que mais pintar.

Escrevo bastante como se fosse um treino, para que com vinte e sete anos eu consiga fazer bons textos. Este pensamento me ajuda a superar a minha desconfiança e autocrítica daquilo tudo que escrevia.

Sempre gostei de rap, mas o envolvimento com o movimento hip-hop veio de uns dois anos para cá, quando comecei a participar, promover palestras, buscar conhecimentos, contatos, enfim, tentar ajudar a carregar o piano do hip-hop. Fizemos um evento em Ribeirão Preto com Toni C., bem massa, com apresentação do seu filme no cinema e tal, e durante a palestra me bateu um insight muito forte que eu jamais seria feliz se ficasse de fora do movimento.

Neste meio tempo, venho escrevendo poesia periférica, traduzi para legendagem o DVD do GOG, o Buzzo me chamou para escrever poesia pro site dele, mantenho o meu blog, escrevo pro jornal, e assim estou, sempre aprendendo…

Além de escritor, procuro ser um bom leitor. Hoje leio Literatura Marginal, Machado de Assis, filosofias mais tateável como Sartre, adoro Dostoiévisk, e estou tentando ler mais poesia, pra eu poder melhorar as minhas. Conheci há pouco tempo Solano Trindade, que é a literatura periférica que fazemos hoje, mas feita há 60 anos atrás. Tem uma frase que deve ser minha que não me sai da cabeça: A poesia é incompleta, mas infinita.

Durante meus anos de faculdade, na USP em São Carlos, em meio aos cálculos do curso, participei do movimento estudantil, fundamos secretaria acadêmica, fui representante de aluno, participamos de greves, passeatas e ocupações. Note que o termo é ocupação, e não invasões, como a imprensa chama, pois apenas ocupamos o que é nosso por direito. É na luta que nos encontramos.

Eu morava no alojamento estudantil da USP, e toda manifestação estudantil veio de um esforço para contrapor a política desassistencial do governo do PSDB. Vagas só para ricos. Dormimos três meses na sala de aula, até conseguirmos conquistas importantes. Essa ocupação é que deu a partida na engrenagem para todo o processo de mobilização dos estudantes em 2007, de movimento estudantil que até então estava adormecido.

Entrei na faculdade em 2003 e passar não foi fácil. Eu vim de escola pública, e consegui fazer o ensino médio em uma boa escola, graças à bolsa de estudos. Sem a bolsa, não chegaria ou teria demorado um tempo a mais, já que o curso de engenharia aeronáutica é bem concorrido.

Minha paixão pela literatura vem desde pequeno, sempre lí muito. No começo, Agatha Christie, os livros infanto-juvenis (série Vagalume), Oliver Twist e As viagens de Gulliver me marcaram bastante. E depois, a partir do ensino médio, lí muita filosofia, Platão, Nietzsche, Kant, Dom Quixote, Machado de Assis, … Meus avós gostavam de ler, e por eu ter ido morar com eles em Ribeirão Preto, tinha um arsenal de livros à disposição.

Passei toda minha infância na cidade de Cravinhos, próximo a Ribeirão. Por ser uma cidade pequena, sem muita criminalidade, tinha uma boa liberdade para ficar na rua, brincando e aprendendo. Lembro agora de uma frase do Aliado G: “Não temos que tirar os jovens da rua, mas devolver as ruas aos jovens”. É isso mesmo, temos que dar condições, oficinas e espaço para o desenvolvimento dos talentos que surgem todos os dias nas ruas.

Bom, resumidamente é isso. Sou agradecido a todos que passaram na minha vida, me considero um pedaço de cada pessoa que conheci arranjados do meu jeito. Se hoje estou bem, com um bom emprego, sei que sou uma pequeníssima parte e tenho a obrigação de lutar para a possibilidade de sucesso de toda a grande parte.

Tenho uma vida a contribuir para o hip-hop e para o movimento social, em busca de alternativas para o grau de miséria de oportunidades que enfrentamos. É isso que me locomove todos os dias. E liga nóis.

André Ebner Silva é adepto da cultura hip-hop e da literatura periférica, é engenheiro aeronáutico.

www.literaturaperiferica.blogger.com.br
www.andreebnersilva.blogspot.com

ABUSOS SEXUAIS : Crianças mais protegidas

Denúncias de crimes contra menores em Minas crescem 94% em um ano. Governo e Ministério Público montam esquema para investigar acusações rapidamente e punir agressores com rigor
Ingrid Furtado
Romper o silêncio e oferecer o manto protetor da solidariedade são os objetivos da campanha estadual Proteja nossas crianças. As sementes da coragem e do comprometimento foram plantadas há um ano e hoje já se colhem os frutos. De acordo com o balanço do programa, divulgado ontem, no Palácio da Liberdade, as denúncias de crimes sexuais contra menores aumentaram 94% e as de violência doméstica, 90%, de maio de 2008 a abril de 2009, em relação ao mesmo período do ano anterior. Para punir com mais rapidez os agressores, o governo e o Ministério Público criaram o Protocolo de Investigação de Denúncias, para agilizar a apuração das denúncias.

Para estimular ainda mais as pessoas a denunciarem casos de agressões sexuais, várias blitzes serão feitas hoje em 19 regionais da Secretaria de Estado Desenvolvimento Social. Uma delas na MG-010, em Belo Horizonte, com a distribuição de folhetos e adesivos, além de 40 mil cartazes. Com o aumento da demanda, o governo promete ampliar e capacitar conselhos tutelares de 250 municípios, com investimentos de R$ 1,2 milhão.

Durante o primeiro ano da campanha e pelo simples dedilhar do Disque Direitos Humanos 0800 31 1119, milhares de pessoas transformaram a vida de centenas de crianças, vítimas de abusos. O levantamento mostra que do total de 2.879 denúncias registradas entre maio de 2008 e abril deste ano, 1.177 foram de violência doméstica; 583 de crimes sexuais; e 883 por negligência e abandono. Além disso, 236 telefonemas serviram para evidenciar exploração do trabalho infantil e envolvimento de menores com álcool e drogas.

O governador Aécio Neves destacou que o aumento das denúncias não significa elevação do número de ocorrências. “Em curto espaço de tempo, avançamos muito. Estamos tratando dos maiores casos de violência contra crianças, que ocorrem muitas vezes dentro do próprio lar. Somos responsáveis pelo mundo que vamos construir e é o comprometimento que nos leva ao coração. O inconformismo é o combustível fundamental para tentarmos mudar nossa realidade. A campanha mostra que uma nova consciência floresceu entre a população”, afirmou.

O subscretário de Estado de Direitos Humanos, João Batista de Oliveira, observou que o Proteja nossas crianças é mais que uma atitude de conscientização. “Estamos numa fase de responsabilização. A sociedade civil é o fator fundamental do programa, pois é ela quem vai ligar e denunciar. Outro fator que impulsiona a campanha é o fato de que mais abusadores estão sendo presos. Conseguimos colocar atrás das grades os responsáveis pela dor e trauma de centenas de crianças e adolescentes”, observa Oliveira.

APURAÇÃO O Protocolo de Investigação de Denúncias, termo de cooperação o Ministério Público e o governo de Minas, tem o objetivo de regulamentar os procedimentos de apuração dos casos de violência doméstica e abusos sexuais de crianças e adolescentes. A partir dele, a apuração das denúncias terá regras mais claras, que vão facilitar os procedimentos legais , o que pode agilizar a punição dos agressores. Segundo o governo, ainda no primeiro semestre serão capacitados mais de 3 mil conselheiros no estado, com foco principalmente em municípios considerados vulneráveis ao abuso e à exploração sexual de menores.

Foi decidida também a criação da Escola de Conselhos Tutelares e de Direitos da Criança e do Adolescente para capacitar e treinar os profissionais. A escola será instalada até o fim do ano, com investimento de R$ 216 mil, em parceria com o governo federal. “Cada denúncia significa uma criança que conseguimos proteger e, com o aumento da demanda, os conselheiros se tornam o instrumento principal para o bom andamento da campanha. Vamos nos esforçar para capacitar esses profissionais”, disse a presidente do Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas), Andrea Neves.

Domingo tem hip hop na veia

Marcelo Ferreira/Divulgação

O rapper Gog, de Brasília, um dos convidados da festa em Betim

Mais de 10 mil pessoas estão sendo esperadas domingo na festa Hip Hop na veia pela vida, em Betim. O evento, organizado pelo DJ A Coisa, leva ao palco o rapper Gog, de Brasília. Artista articulado, veterano na cena, ele apresenta trabalho do DVD Cartão-postal bomba!, em show com cerca de uma hora de duração. Durante todo o dia, também se apresentam 40 artistas locais, entre DJs, MCs, grafiteiros e b.boys. A festa, realizada em parceria com o Hemominas, tem apoio da Prefeitura de Betim, e chama atenção da juventude para a importância da doação de sangue.

Coordenador do Centro Popular de Cultura do Citrolândia, o DJ A Coisa estima captação de pelo menos 300 novos doadores e aposta na defesa de causas sociais nas realizações. “Não acredito em eventos que só ocorrem pela festa. Os artistas precisam de visibilidade, mas podem e devem oferecer contribuição para questões importantes, como a doação de sangue”, argumenta. Também haverá apresentação de grupos esportivos. Entre eles, estão sendo esperados 18 equipes de basquete de rua, de várias regiões da Grande Belo Horizonte.

No Recanto dos Macacos, o rapper Xis e DJ RM fazem a festa Us mano pow, as mina pá. Eles lançam o CD da Mixtape. Anfitriões da festa, Dusares e Solto Butijão Funkfilter convidam os DJs Jahnú, Cubanito e Gurila Mangani, entre outros.

HIP HOP NA VEIA PELA VIDA
Ginásio Poliesportivo Divino Braga, Av. Ednéia Matos Lazaroti, s/nº, Angola, Betim, (031) 9948-4019 / 3532-2530. Domingo, das 8h às 21h. Entrada franca.

A dimensão racial da violência

Não há respostas satisfatórias para a questão da violência, porque ela cumpre afinal seu papel no extermínio do segmento negro da população.
Ana Luíza Pinheiro Flauzina, Mestra em Direito pela Universidade de Brasília e professora do UniCeub.
analuiza@irohin.org.br
Em 13 de maio de 1888, sabemos, deu-se o fim oficial da escravidão no Brasil. Dois anos depois, antes mesmo da feitura de uma Constituição para a nascente República, o Código Penal foi promulgado. A ordem social que se instaura num país de pessoas agora “livres” reclama prioritariamente por um instrumento de controle e coerção que auxilie na passagem sem rupturas do negro das senzalas para os bolsões da exclusão. Esse simbólico instrumento legal autoriza a responsabilização penal a partir dos nove anos de idade. Num tempo em que as elites brancas se sentem ameaçadas por uma possível mudança no status social da população negra, dentro de uma sociedade formalmente constituída por iguais, a redução da maioridade penal dá o recado inequívoco de que o segmento está sendo acusado de uma espécie de, no dizer de Nilo Batista, “infração existencial”.

O século XXI parece querer atentar para o fato de que a passagem do tempo não implicou a renovação de nossos problemas. O assassinato de um menino de seis anos de idade no último dia 7 de fevereiro, no Rio de Janeiro, fez o debate sempre à espreita da redução da maioridade penal reacender com vigor. Para chacoalhar, em um Senado Federal que não avança na aprovação de instrumentos fundamentais para a melhoria das condições de vida no país, discutem-se vários projetos que tratam da responsabilização penal de crianças e adolescentes, a partir de idades que chegam aos 13 anos.

Do ponto de vista legal não há o que se discutir quanto à afronta que esse tipo de proposta representa aos princípios constitucionais. De acordo com o entendimento de Flávia Piovesan, registrado em artigo de ampla circulação, a Constituição colocou entre as cláusulas pétreas as garantias e os direitos individuais, não podendo esse conjunto de salvaguardas ser objeto de modificação por meio de emendas. Sem dúvida, o direito à proteção especial conferida às crianças e adolescentes, que abrange a inimputabilidade penal dos menores de dezoito anos, está dentro da esfera das garantias, sendo vedada, portanto, qualquer tipo de alteração, constituindo ofensa grave inclusive a parâmetros internacionais.

Mas deixemos logo de lado essa ladainha. Afinal de nada mesmo nos adianta toda essa retórica jurídica diante da dança das cadeiras que manipula o ordenamento diante do grupo social a ser preservado ou controlado nesse país. Não nos deixa mentir a famosa “Lei de Tóxicos” (Lei nº 11.343 de 23 de agosto de 2006) que, atendendo às demandas de imunização da classe média branca, resguarda a categoria do usurário e avança ainda mais bruscamente sobre o segmento que tem de garantir a alegria das festas regadas a pó e dos “beques” descompromissados da intelectualidade, elevando a pena mínima do ilícito de tráfico. O necessário debate sobre as conseqüências sociais da criminalização das drogas? Esse, o cerne do problema, não está em pauta. Assim como não está pautado o ponto de tensão vital no caso do menino assassinado e todas as questões a ele subjacentes.

O fato é que carecemos de um debate do que venha a ser violência fora dos limites dos estereótipos usuais veiculados. Sim, porque associar a feição mais brutal dessa categoria à criminalidade típica dos grupos subalternos, desvinculando da discussão a dimensão da violência estrutural, assumida como metodologia de controle das elites na produção de um genocídio que vimos denunciando, é não só equivocado, mas também perverso. Fundamentalmente, não há interesse em se complexificar a discussão porque a pauta da violência entre nós, carregando uma dimensão racial de base, não está atrelada às condicionantes de sua materialização, mas aos corpos a que se dirige.

Enquanto o circuito da violência em sua modalidade mais visível está circunscrito ao perímetro que delimita a vida da maioria negra, o incômodo não se manifesta em passeatas de Ong’s de direitos humanos e entradas especiais em novelas das oito. Ao que tudo indica, a violência em seu lócus “natural” não dá ibope. Essa é uma agenda que só ganha algum relevo quando a arrogância das elites é arranhada pelas seqüências inevitáveis advindas do tipo de pacto social e racial imposto, quando a rotina das tragédias é interrompida e os cômputos usuais da morte associados à negritude extravasam o muro físico e simbólico de proteção construído em torno das elites brancas desse país.

E falo isso em respeito a João Hélio, que perdeu sua vida pela nossa ignorância. Em última instância, não há respostas satisfatórias em termos de políticas públicas para trabalharmos a questão da violência entre nós em toda sua complexidade porque não há e nunca houve interesse real em confrontá-la, na medida em que ela cumpre seu exitoso papel de extermínio do segmento negro, nitidamente identificado na construção de um campo social minado em torno da juventude.

Mães em desespero: Edna Ezequiel, mãe de Alana (13) assassinada no Rio de Janeiro em 05 de março.Foto: Marcos Tristão - Ag. O GloboE assim, mergulhado num sentimento de ameaça antigo que acompanha o sono de nossas elites, vamos mais uma vez arrastando nossas contradições para o futuro sem qualquer tipo de indignação mais conseqüente. O envolvimento de um adolescente na morte abrupta e prematura de uma criança de seis anos em nosso país não serve como sinal vermelho para questionarmos a estrutura social e racial que nos preside e a lacuna na rede de proteção que deveria acompanhá-lo. Ao contrário, esse é o sinal verde para que os processos de encarceramento sistemático da população negra, parte fundamental na produção do genocídio denunciado, ganhem novo fôlego. A escolha do sistema penal como o instrumento apto a intervir nessa realidade, com o viés centrado em práticas repressivas em detrimento das preventivas, é preciso ser dito, é a opção clara e consciente das elites pela morte, em detrimento da vida. O discurso enviesado amplamente difundido, que tem seu acento na conotação individual da violência, desconectado do terror de Estado que a promove e estimula, visa, em última instância, legitimar os processos de eliminação física que comprometem a existência do segmento negro do país. Trata-se, em suma, de recado direto e inequívoco de que o extravasamento da violência para fora de seu reduto patente não é tolerado sem reação, sendo essa mesma violência por demais estratégica na materialização da morte dos grupos excluídos para ser confrontada.

“É o descaso cobrando a conta”, nos lembra Hamilton Borges. Por ela pagam a inocência da infância branca bruscamente interrompida e as centenas de corpos negros que não tem a seu favor o benefício da revolta.

Escravidão Moderna

Trabalhadores brasileiros ainda esperam por alforria


Maria Amélia Bracks Duarte -Procuradora do trabalho em Minas Gerais

No dia 13 de maio celebra-se a libertação dos escravos. Aprendemos no antigo curso ginasial que a princesa Isabel lutou contra as forças conservadoras do império para que fosse assinada a Lei Áurea, em 1888, e tornasse homens e mulheres, negros e brancos, iguais em direitos. Mais de 100 anos depois a escravidão tornou-se democrática: não escolhe cor. Tanto que, no fim de abril, em Limeira do Oeste, Triângulo Mineiro, 184 pessoas foram encontradas trabalhando no cultivo de cana-de-açúcar, em situação análoga à de escravo. Homens, mulheres e crianças foram aliciados de outros estados e transportados como animais em carrocerias de caminhões, rompendo fronteiras para trabalharem sem segurança, higiene e água potável, em troca de catres imundos e comida fria. A fiscalização constatou que trabalhavam até 30 horas seguidas, sem folga semanal. Revela-se, então, a servidão por dívida: não têm como voltar ao domicílio de origem, continuam devendo ao senhor feudal, dono das terras e, sem direito de ir e vir, são obrigados a permanecer como escravos produtivos.

Não há um dia em que não se noticia a libertação de trabalhadores submetidos a condições degradantes, equivalentes ao período que antecedeu a Lei Áurea, no Brasil: colonos trabalham nos fornos da olaria e cozinham a cerâmica, os tijolos, os seus pulmões e os olhos, já que alguns ficam cegos. O artigo 149 do Código Penal se refere à redução da pessoa à condição análoga à de escravo, quer submetendo-a a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-a a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador. O art. 197 trata do constrangimento ilegal e o 203 tipifica a frustração de direito assegurado por lei trabalhista. Os estados do Mato Grosso do Sul e do Pará são recordistas em relatos vergonhosos de crimes contra a organização do trabalho, de desrespeito aos direitos humanos. Pessoas são resgatadas na mata, em barracões de lona, sem paredes; submetendo-se a picadas de insetos e ataques de animais; a água vem de tonéis que estocavam produtos químicos.

A expansão do setor sucroalcooleiro tem gerado problemas trabalhistas e sociais, tanto nas usinas como nas fazendas que fornecem a cana-de-açúcar, inclusive com a exploração do trabalho infantil e indígena. Às vésperas do 13 de maio, os escravos modernos continuam produzindo a riqueza do Brasil. Em vez de correntes nos pés e açoite nos troncos, a humilhação da segregação, a vergonha da exclusão social, a esmola de uma cesta básica, a doença sem assistência médica, a ausência de cidadania. Os trabalhadores do Brasil ainda esperam a sua carta de alforria.

Prêmio da Igualdade Racial

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Prêmio da Igualdade Racial

Divulgar e premiar iniciativas que auxiliem na redução das desigualdades raciais e desempenhem papel de luta pela cidadania e por melhores condições de vida da população negra

Esse é o objetivo do Prêmio da Igualdade Racial, promovido pelo Criar Brasil, ONG que tem como uma de suas missões democratizar a informação, e pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial – Seppir. As inscrições podem ser feitas no período de 27 de abril a 27 de maio.

A idéia é descobrir iniciativas que promovam uma cultura não-discriminatória através de atividades que assegurem à população, independente de sua cor, o exercício pleno de cidadania. Vão ser escolhidos os cinco projetos mais expressivos na redução das desigualdades raciais. “Premiar estas iniciativas é fundamental para estimular a sua continuidade e plantar outras sementes, promovendo sua replicabilidade pelo Brasil afora”, afirma João Paulo Malerba, coordenador do Prêmio da Igualdade Racial.

Para participar, além da ficha de inscrição, o candidato deve enviar um portfólio, através de CD ou DVD, contendo material de texto, áudio, fotos ou vídeos que julgar necessário para expressar o perfil da iniciativa. Além desse material, os concorrentes podem apresentar depoimentos, matérias em jornais, cartazes, convites ou outras formas de registro, que julguem importantes para a avaliação do mesmo.

O resultado da seleção sai no dia 27 de julho. As iniciativas serão escolhidas por um corpo de jurados que representa o movimento negro, indicado pela Seppir: Lúcia Xavier, Edialeda Salgado Nascimento e Walter Silvério.

Após a divulgação do resultado, o Criar Brasil vai visitar esses projetos para fazer o registro em foto, vídeo e áudio. O material servirá como base para a produção de programas radiofônicos, que serão distribuídos para 400 rádios comunitárias e educativas e disponibilizados pela internet. Além disso, os registros vão endossar uma publicação impressa, que tem como objetivo documentar e dar visibilidade às iniciativas que buscam a igualdade racial em todo o país. Os cinco escolhidos receberão ainda um prêmio em dinheiro, que varia entre dois e três mil reais.

Serviço:

Prêmio da Igualdade Racial

Data: de 27 de abril a 27 de maio

Inscrição: Preencher a ficha com os dados do projeto e material em CD ou DVD que mostre a iniciativa.

Local de entrega: Criar Brasil – Teotônio Regadas, 26 sala 403 – Lapa – Rio de Janeiro – RJ CEP: 20021-360.

Edital e demais informações sobre o prêmio: www.criarbrasil.org.br ou pelo email premio@criarbrasil.org.br.

Mais informações para imprensa

Tatiane Cardoso

tatiane@criarbrasil.org.br

21.2242-8671/ 2508-5204/ 8778-5366

Ai de ti, Copacabana

Tony Bellotto

Músico e escritor

De acordo com o censo de 2008, 400 menores abandonados vagam pelas ruas do Rio de Janeiro. Nove entre dez deles são usuários de crack, o letal composto químico quatro vezes mais potente que a cocaína. Muitos desses menores viciados usam como ponto de encontro e consumo da droga a rua Sá Ferreira, em Copacabana. A esquina da Sá Ferreira com a avenida Nossa Senhora de Copacabana é um dos lugares mais agitados da cidade. Trânsito intenso, pedestres apressados. Turistas, camelôs, moradores e cachorrinhos disputam a tapa cada centímetro quadrado de calçada. Lojas, pontos comerciais, fumaça e barulho compõem o cenário da outrora idílica Copacabana. Há policiais militares rondando a região.

Nada disso, entretanto, consegue impedir que ali floresça uma cracolândia. Crianças letárgicas, consumidas pela droga, acendem em paz suas pedras de crack. Depois ficam por ali, prostradas no chão, experimentando o que deve ser o “barato” da droga. Quem as vê, supõe que estão mergulhadas numa espécie de inferno.

O secretário municipal de Assistência Social, Fernando Wiliam, alerta que há uma epidemia de consumo de crack na cidade. Ainda este mês ele entregará ao prefeito Eduardo Paes um conjunto de propostas para tentar, se não solucionar, pelo menos amenizar o problema. A prefeitura tem uma rede de abrigos com 2.146 vagas para usuários de crack.

As crianças, quando vão para lá, recebem assistência, são alimentadas, dormem em camas e cortam os cabelos. Depois vão embora. Se são impedidas de sair durante uma crise de abstinência, arrebentam o portão ou pulam o muro. É sabido que a prisão pura e simples não resolve esse tipo de problema. Mas o que resolve então? Imagino que a resposta seja bastante complexa e a questão impossível de ser solucionada com uma ou duas medidas paliativas. Enquanto isso, vamos aprendendo a conviver com essas crianças-zumbi, que nos assombram e assustam com sua desilusão. A desilusão delas é nossa também. Estamos todos letárgicos no meio de uma cracolândia gigante

Guerras

Roger Dias
Aluno do 5º período do curso de jornalismo da PUC Minas

As guerras sempre exterminaram gerações inteiras, destruíram ricas culturas, fragmentaram inúmeras religiões e ainda provocaram rivalidades intensas entre os países. Desde os primórdios da humanidade, foram soluções para quaisquer disputas de povos de interesses comuns. Logo, são práticas normais, porque ajudaram a estabelecer a nova ordem mundial e, sem elas, o universo não seria o mesmo. Eis a questão: o que leva nações a entrar em disputas armadas, mesmo sabendo dos resultados desagradáveis? É evidente que as guerras mataram pessoas inocentes, contudo, acabaram com os miseráveis, marginais, trogloditas e vilões da sociedade. Percebe-se que esse jogo tem um único fundamento: a busca pela soberania. Nenhuma nação deseja ficar atrasada em relação às potências declaradas e, para isso, como última tentativa, apela para soluções drásticas.

Há ainda a predominância dos fortes exercerem supremacia sobre os fracos. O que pode ser explicado pela teoria do darwinismo social, surgida no século 20, que procurou convencer a sociedade capitalista sobre a postura imperialista dos países dominantes.

As guerras, dentro de cada ponto de vista coerente, são indubitavelmente válidas. Há momentos em que é a única maneira de solucionar um conflito, já que a diplomacia não foi capaz disso. Mas causam catástrofes sérias. Duelos terríveis acabam com milhares de vidas inocentes, aos quais estavam absolutamente longe dos interesses internacionais. Portanto, seriam quase pecados, uma vez que atingem indivíduos sem culpa e beneficiam os poucos que, na verdade, são vilões nesse processo: o governo local, que contará com mais dependentes financeiros.

Conflitos armados, em que há o esforço de produção da indústria bélica, somente seriam resolvidos se houvesse uma total cooperação das nações em relação às diferenças econômicas. Acordos pacíficos e diplomáticos seriam essenciais para buscar a paz que por muito tempo se ausentou do mundo.

POIS É… Pobre Lucimário

Lucimário, o inocente, ficou seis anos preso, porque não sabia conversar direito e, também, porque ninguém se interessou por ele. Ninguém notou sua presença
Maurício Lara
mauricio.lara@uai.com.br

Coitado do pernambucano Lucimário. Como bom nordestino, ele migrou em busca de trabalho. Foi parar no Sul de Minas, em Muzambinho. É comum os migrantes não voltarem, pelas mais variadas razões, e Lucimário não voltou. Ele ficou 14 anos fora de casa e, durante seis deles, esteve entre a cadeia de Extrema e clínicas psiquiátricas. Ficou pagando pelo crime de outro Lucimário, também pernambucano, também migrante, que tinha participado do assassinato de outro nordestino, em 1996.

Lucimário por Lucimário, ninguém viu a diferença e fizeram cumprir o mandado de prisão em Muzambinho. O acusado errado foi parar em Extrema, para pagar pelo crime que não cometeu. O outro, o verdadeiro culpado, tinha fugido para o Pernambuco, onde morreu em 2005, de morte matada, sem conhecer a prisão da cidade mineira em que aprontou e sem saber que tinha um outro pernambucano preso em seu lugar.

Não se sabe por que o Lucimário inocente não voltara antes de ser preso. Migrou, provavelmente encontrou trabalho e foi ficando. Funciona assim mesmo. Um dia, foi confundido com um criminoso e ficou por isso mesmo. É assim que funciona. Quando foi preso, não tinha documentos, mas como era Lucimário, foi de braços dados com dois soldados. Reclamar com quem, reclamar onde, reclamar de quê? O pernambucano tinha total razão, mas ficou preso assim mesmo, em cela isolada, por causa de seus problemas.

No caso de Lucimário há uma agravante, não para o crime que ele não cometeu, mas para as circunstâncias de sua vida. Ele tem problemas mentais e, além de ser um daqueles cidadãos menos iguais do que os outros, porque pobre e sem vez, não tem sequer a força do argumento. A carapuça da culpa serviu na cabeça do inocente e ficou por isso mesmo.
O defensor público Régis Lemos Júnior, que “descobriu” o injustiçado na cadeia, diz que ninguém “cobrou” os documentos daquele preso. Ele conta que é difícil conversar com Lucimário. Ele só repete: “Lucimário, Lucimário, Lucimário”… O defensor público teve a idéia de pedir que ele escrevesse seu nome. E ele escreveu a primeira pista: Lucimário José de Lira. Ora, o verdadeiro culpado era Lucimário José da Silva. Pediu para escrever o nome de sua cidade natal. Ele escreveu: Bezerros. Segunda pista, porque o outro Lucimário nascera em Custódia, no mesmo estado.

A partir daí, o defensor seguiu a linha da origem de um e de outro e entendeu o erro grosseiro que tinha sido cometido. Lucimário nunca teve argumentos, mas como contra fatos não há argumentos, ele foi solto e está em casa, com a família, que já o considerava morto. Viajou de avião, com passagem custeada por cidadãos de Extrema.
Lucimário, o inocente, ficou seis anos preso, porque não sabia conversar direito e, também, porque ninguém se interessou por ele. Ninguém notou sua presença, como não é comum notar-se a presença dos migrantes que não passam de mão-de-obra barata.

Felizmente, um detetive chamado Dante percebeu alguma coisa estranha: Lucimário nunca recebia visitas, nem cartas. Ninguém, mas ninguém mesmo, sabia dele, nem ele mesmo. O defensor Régis resolveu investigar um pouco e montou o quebra-cabeças. Ao que tudo indica, o único crime de Lucimário foi ser xará de alguém que cometeu um crime. Foi preso sem documentos, sem ser corretamente identificado e, de sua cela isolada, só sabia repetir: “Lucimário, Lucimário, Lucimário…” Pobre Lucimário.

‘Pobres no Rio vivem dias de horror’




Escrito por Gabriel Brito e Valéria Nader

Estamos na porta de entrada de tempos (ainda mais) difíceis no país. Com crise, desemprego e muita violência nas grandes cidades, os políticos, sem romper seus pactos, precisam apresentar soluções para combater tal quadro. Dessa forma, é produzida uma série de medidas que mais combatem os pobres do que a pobreza. Pintam as paredes, mas não mexem na estrutura interna do ‘prédio’.

Por conta disso, o Rio de Janeiro vem sendo palco de seguidas políticas de limpeza e segregação social, como mostram os choques de ordem e agora o levantamento de muros no entorno de favelas, levados a cabo por prefeitura e governo do estado, respectivamente.

Para a socióloga Vera Malaguti, do Instituto de Criminologia Carioca, o que vemos é a expressão de um fascismo estatal mancomunado com grandes interesses econômicos. O governo pretende levantar 11 mil metros de muros, com 3m de altura, começando pela zona sul, cuja expansão de favelas não chegou à metade do aferido na zona oeste, de 11,5% – dados do Instituto Pereira Passos.

Malaguti aponta que os pobres no Rio de Janeiro são vítimas de crescente truculência oficial e vistos como ‘lixo humano’ que precisa ser removido da cidade, uma vez que a presença dessa parcela da população é prejudicial aos grandes negócios e à especulação imobiliária.

Correio da Cidadania: Como você vê a idéia do governo local de construir muros no entorno de favelas, sob a alegação de preservar algumas áreas verdes da cidade?

Vera Malaguti: É um absurdo e vem junto do circo de horrores do qual vem sendo palco o Rio de Janeiro, através de extermínios da polícia (a que mais mata no mundo), das remoções dos pobres, demolição de casas em áreas populares ilegais…

Enfim, é todo um festival de truculência, em articulação da prefeitura com o governo do estado, completamente ligados aos grandes negócios privados, como os esportivos, e impondo um cerco fascista sobre os pobres. E, além do muro, que é uma vergonha, as remoções voltaram à pauta.

Todo o processo é capitaneado pelas Organizações Globo, com campanha diária no RJTV, no jornal O Globo, sempre focalizando a pobreza como detrito, como algo que conspurca o ambiente. E tudo em nome dos grandes negócios privados, uma vergonha.

O Rio de Janeiro talvez esteja passando pelo seu pior momento desde Lacerda. Parece uma volta com força total da UDN, terrível.

CC: O que pensa do fato de as favelas escolhidas para receberem os primeiros muros se localizarem em bairros mais nobres ou de classe média, mesmo com a expansão recente de tais favelas estando abaixo de índices considerados preocupantes, inclusive em comparação com outras?

VM: Aí fica clara a parceria do governo com a especulação imobiliária, afinal, são áreas nobres, e ter os pobres ali não lhes interessa.

É tão chocante, tão óbvia, essa mistura de truculência fascista com Parcerias Público-Privadas sinistras! Estou sendo enfática, mas é que chegamos num ponto… Ontem mesmo houve o assassinato pela polícia de um menino da Maré, a população tentava protestar e era reprimida da pior forma possível pela mesma polícia. E tudo sempre sob a desculpa do tráfico.

Acho que o fim do brizolismo no Rio foi muito ruim. Para exemplificar, uma das coisas que O Globo fez para comemorar os 45 anos do golpe militar foram acusações levianas sobre o Brizola, ao mesmo tempo em que o associava ao crescimento das favelas. O vazio criado por sua morte, junto ao estraçalhamento das forças de esquerda, deixou o fascismo ocupar a cidade.

CC: Ao se juntar tal ação com a também recente medida dos choques de ordem, vemos que as políticas de higienização nas grandes cidades têm sido levadas ao paroxismo, não?

VM: Exatamente. O velho projeto fascista, com essa maneira de olhar os pobres como lixo humano na cidade, se consolidou, sendo orquestrada também pela grande imprensa tal proposta de apartheid.

Os pobres no Rio de Janeiro vivem dias de horror. Acho que as forças de esquerda, libertárias, precisam se organizar contra isso. Tudo começou pela questão criminal, o que é um problema, pois até a esquerda embarca no discurso de luta contra o tráfico, sempre localizada nas favelas.

Daí para choques de ordem, remoções, muros, é um passo. É um projeto higienista reciclado, em nome da ordem na cidade, dos grandes negócios de Copa, Olimpíadas, dos grandes capitais que circulam no Rio. Tais negócios são uma obsessão para o governo e a prefeitura, que sempre estão em viagem buscando grandes investimentos.

Enquanto isso, pau nos pobres aqui. É um projeto sinistro.

CC: Essas medidas não podem potencializar o ódio entre classes, na medida em que reforçam uma idéia segregacionista?

VM: Claro, isso não vai dar certo. Durante um tempo, algumas forças progressistas do Rio aceitaram a pauta criminal da direita, e assim o fascismo encontrou sua brecha, sendo que acaba se alastrando para a questão habitacional, ambiental, onde muitas vezes se refugia, como neste caso dos muros, aliás.

Uma vereadora do PV foi uma das que mais defenderam os muros, sempre fala em remoções nas favelas da zona sul, como a dos Tabajaras, uma vez que as áreas verdes na cidade se concentram mais na zona sul e posto 9.

Tais equívocos abrem o caminho para o fascismo mais explícito, que vemos nessa mistura de truculência contra os pobres e grandes negócios (com ilegalidades) particulares.

CC: Você acredita que o levantamento dos muros vai impactar de alguma maneira, ainda que a curto prazo, nos índices de criminalidade?

VM: Acho que vai emparedar os pobres e produzir outros efeitos, intra e extramuros. É mais uma grande violência, portanto, entrará nesse moinho gerador de ódios.

Espero que isso possa ser barrado, apesar de todo o esforço da grande imprensa. Fazem pesquisas dizendo que os favelados são favoráveis à remoção, pesquisas para legitimar tais ações… Não deve faltar sociólogo para fazer esse tipo de trabalho e dizer que os pobres estão doidos para serem emparedados e removidos da cidade.

No Rio de Janeiro, neste momento, essas forças, que envolvem institutos de opinião, empresas de publicidade, grande imprensa, setor imobiliário, estão totalmente articuladas na varredura da pobreza da cidade. E da pobreza rebelde, que é uma marca do Rio de Janeiro há muito tempo, pois foi uma cidade quilombola, depois janguista, brizolista…

Estamos diante de um conjunto de interesses escusos, mais uma ‘blitzkrieg’.

CC: Diante do quadro atual, quais medidas seriam efetivas a seu ver, tanto a curto como a longo prazos?

VM: O inverso disso tudo, uma outra maneira de olhar a cidade. Construir políticas habitacionais democráticas, projetos em que as classes populares sejam protagonistas.

Não bastam bons projetos para os pobres, é preciso que esses setores estejam no centro, que a juventude, ao invés de ser criminalizada, seja participante central dos projetos que a libertem dessa concepção de muros, cadeias, extermínio. Temos de produzir outro projeto brasileiro, que não contenha essas conjugações.

É complicado resolver a violência, ninguém tem a solução. Mas uma cidade democrática é gerida de outra forma, e assim produz soluções também democráticas e libertadoras, capazes de permitir que todos usufruam a cidade, apesar das diferenças.

Em suma, é o oposto de tudo isso.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

Encarando um novo desafio

A atriz Taís Araújo conta como está se preparando para ser a próxima Helena de Manoel Carlos

Ana Colla/Divulgação
Taís confessa estar ansiosa com a oportunidade de ser protagonista de Viver a vida

Depois de mais de 15 anos de carreira, a atriz Taís Araújo conseguiu realizar um sonho: o de ser a protagonista de Manoel Carlos. Ela, que dará vida à próxima Helena do escritor em Viver a vida – prevista para substituir Caminho das Índias em setembro –, anda suando a camisa para nada dar errado em sua atuação no horário nobre da Globo. “Não tem como esconder que a responsabilidade é grande, afinal, vou viver uma protagonista do Maneco. Esse é ‘o’ papel. Mentira daquele que disser que não se preocupa com uma responsabilidade dessas em mãos”, assume.

A primeira Helena negra será uma modelo de projeção internacional, que enfrentará a rival Luciana (Alinne Moraes). Em uma viagem internacional, ela conhece Marcos (José Mayer), um homem mais velho pelo qual se apaixona. O que Helena não sabe é que Marcos é pai de Luciana. Apesar dos conflitos com a rival, a personagem vai se casar com Marcos.

Desde já, Taís se prepara para cada detalhe do novo papel. “É cabelo, maquiagem, o jeito de falar. Agora só penso nisso”, fala Taís. De todas as decisões do visual, o que mais agradou à atriz até agora foi o cabelo. “Não sei a cor ainda, mas meu cabelo vai ficar crespo. Nossa, isso é um alívio para mim. Todo personagem eu reclamo dos cabelos e dessa vez não vou precisar reclamar dos apliques nem do alisamento.”

Para compor Helena, a atriz está decidida a ficar ainda mais parecida com uma modelo. “Até emagrecer mais uns quilinhos eu vou. Eu já cortei o carboidrato da noite e aderi às caminhadas no calçadão”, comenta. “Mas prometo que não vai ser nada radical, senão eu vou sumir do mapa.”

Taís, também ex-modelo, até já espera certa confusão com sua trajetória. “Ela vai ser uma mulher batalhadora e apaixonada pelo mundo da moda; eu também sou.” Para entrar ainda mais nesse universo, a artista conta que anda “perseguindo” algumas modelos para entender sua rotina. “Está sendo engraçado, a cada amiga que reencontro da época em que fui modelo, fico pedindo dicas.” Recentemente a atriz até embarcou para Belo Horizonte para acompanhar um desfile de moda local. “Em tudo que puder, eu vou”, diz ela.

A atriz não credita o convite ao fato de ser jovem ou negra. Para Taís, sua carreira a levou até a personagem. “Toda minha carreira e papéis, como a Preta de Da cor do pecado (2004) e a Alícia de A favorita (2008), foram decisivos para essa escolha”, analisa Taís. “A verdade é que ganhei destaque ao contracenar com Milton Gonçalves. Atores como eu, ele e o Lázaro (Ramos) abrem espaço para outros negros na TV.”

Mesmo assim, ela acha que os negros ainda não têm espaço suficiente na televisão. “Eu, por exemplo, sempre quis ser a Helena de Manoel Carlos, mas achei que ele só escolheria as maduras. Mesmo assim, não é porque consegui que vou fazer de qualquer jeito”, diz.

Taís, que se diz uma “defensora dos negros”, acha que não é possível ver as conquistas de sua carreira artística somente por ser negra. “O (Barack) Obama, por exemplo, é o cara. Ele sabe que a discriminação racial existe, mas não fica preso a isso. Ele vê os problemas e resolve. Nós, negros, precisamos batalhar pelo espaço na televisão, e não reclamar.”

JUSTIÇA : Mensagens eletrônicas terão força probatória


Jorge Santos de Sá – Uberaba-MG

“Até quem enfim as mensagens eletrônicas transmitidas pela internet passarão a ter força probatória em processos judiciais, segundo o Projeto de Lei 170/08, oriundo da Câmara dos deputados, que recebeu parecer favorável da Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática (CCT) do Senado Federal. A proposta será agora examinada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), antes de seguir para o Plenário. Segundo o projeto, que altera o Código de Processo Civil (Lei 5.869/1973), a mensagem eletrônica transmitida pela rede mundial de computadores goza de ‘presunção de veracidade quanto ao emitente e às suas declarações unilaterais de vontade”, desde que certificada digitalmente nos moldes da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP Brasil). Vamos torcer para a tramitação seja rápida e o país ganhe um instrumento moderno no âmbito dos processos judiciais. Já usamos internet para tudo e por que não nessa esfera?”

Sem prazo de validade

A tecnologia está cada vez mais ao lado das mulheres modernas


Bruno Scheffer – Diretor Clínico do Instituto Brasileiro de Reprodução Assistida

Os tempos modernos trouxeram para as mulheres várias conquistas e direitos. Graduação acadêmica, especializações, realização profissional, estabilidade financeira, casamento, divórcio, além de escolhas ligadas à maternidade. Até pouco tempo, a mulher podia dar prioridades diferentes para cada sonho, mas o de ser mãe sempre possuía uma limitação: após os 35 anos de idade a fertilidade feminina diminui gradativamente, resultando em grande dificuldade para engravidar. Assim, este sonho tinha um prazo: a idade da mulher. Atualmente a realidade é outra.

A tecnologia está cada vez mais ao lado das mulheres modernas. A ciência descobriu novos meios de proporcionar-lhes a gravidez, mesmo com a idade avançada. Por isso, afirmo: nos dias atuais, ser mãe não tem prazo de validade, desde que algumas precauções sejam tomadas.

Existem duas opções para as mulheres que querem priorizar outras conquistas antes da maternidade: podem tomar providências para planejar uma futura gravidez, fato cada vez mais incidente; ou podem se submeter a tratamentos de reprodução humana assistida, se a tentativa de engravidar naturalmente, em idade avançada e após um ano de tentativas, não obtiver sucesso. Em ambos os casos, há chances reais de gestação em qualquer idade, por isso, hoje em dia a mulher pode ser mãe em qualquer fase da vida madura.

Se aos 35 anos, ela opta por trabalhar mais, pela carreira profissional, ou mesmo se não possui um parceiro sexual, mas deseja ter filhos futuramente com seus próprios óvulos, o planejamento é fundamental. As técnicas de congelamento de óvulos são hoje muito mais promissoras que antigamente.

Atualmente a mais moderna e eficiente é denominada Vitrificação. Seus resultados são promissores e concretos: 97% dos óvulos sobrevivem ao descongelamento e a taxa de gestação é entre 40 e 41%. Os tratamentos de fertilização in vitro já são muito utilizados e com resultados bem sucedidos.

Com o passar do tempo, os óvulos femininos deixam de estar aptos à fecundação, nestes casos, é comum recorrer à doação de óvulos.

Há algum tempo vem ocorrendo uma desmistificação em relação a banco de óvulos e de sêmens. Quase não há resistência por parte dos casais e 40% das pacientes com quadro de infertilidade se submetem a um programa de doação. O mais importante é a mulher ter a informação, pois se conscientizada das possibilidades e tratamentos, ela poderá escolher como agir e quando agir.

Mano Oxi : Estamos reescrevendo nossa própria história


A geração que revolucionou e que ainda vai revolucionar é desse jeito.

Mano Oxi

Sou filho de dona Jacy Munhoz de Camargo, mulher negra, aposentada como empregada doméstica sou o caçula de uma família de nove irmãos.

Cresci no Morro Santa Tereza, Zona Sul da cidade de Porto Alegre, região com alto índice de violência e mortalidade juvenil, aqui também não tem investimentos no esporte, cultura, lazer, saúde, educação e segurança publica, é um complexo de mais de 27 comunidades é conhecida como região da grande cruzeiro e cristal.



Presenciei muitos amigos serem assassinados por motivos banais, talvez foi por isso que optei pelo hip-hop, por ser uma cultura que luta pela paz, justiça e igualdade de oportunidades. Possibilitando com que jovens oriundos das periferias possam apresentar seus trabalhos artísticos e ainda reivindicarem seus direitos.

Sofri racismo quando criança, na adolescência e também na fase adulta, assim como outros jovens negros e pobres de periferia fui oprimido pela sociedade, fui vítima da violência policial aqui no sul, assim como muitos outros jovens Brasil a fora.
Através do hip-hop passei a me interessar pela política, pelo direito e pela história do povo brasileiro e humildemente me atrevo a fazer uma avaliação dessa geração que fazemos parte, se liga aí.


Somos a geração hip-hop, crescemos em uma época pós-ditadura militar, mas não irei me aprofundar neste tema, pois não é o objetivo deste artigo, mas resumo dizendo que o golpe militar que o Brasil sofreu no ano de 1964 foi um dos piores na América Latina e serviu de projeto piloto para as demais ditaduras que se sucederam e todas elas contra os povos pobres.

Porém foi a década de 80 que marcou o Brasil. O ano de 1984 foi um marco na história brasileira em virtude das grandes mobilizações de massas em todo o país a favor das Diretas Já. Em 1985, tivemos os primeiros passos na redemocratização (Tancredo Neves, primeiro presidente civil), mesmo que no colegiado eleitoral.
A luta pela redemocratização do Brasil culminou no ano de 1988, com a promulgação da constituição brasileira possibilitando que ocorressem eleições diretas em todo o território nacional.

Já nos anos 90, a geração hip-hop foi influenciada e atacada pelo projeto neoliberal implantado em nosso país, na ocasião, esse processo iniciou-se com Fernando Collor de Mello, continuado por Fernando Henrique Cardoso. Em seus dois governos, o resultado disso foi o Brasil quase ter quebrado e o futuro da Nação sendo exterminado nos morros e nas grandes áreas periféricas do Brasil, muitos amigos nossos que infelizmente não sobreviveram para contar história e o reflexo disso foi ver esta parcela da juventude ser dizimada nesse período.

Nesta época filmes, vídeoclips e músicas internacionais enlataram o movimento hip-hop brasileiro, mas o efeito colateral desse processo de exclusão foi o surgimento de várias lideranças da cultura hip-hop, onde surge com força direto do Capão Redondo, na cidade de São Paulo para o mundo, nada mais e nada menos do que o grupo de rap, Racionais Mc’s, é desse jeito.

A partir dos anos 2000, talvez pela facilidade que a Internet nos trouxe, uma parte do hip-hop passou a se organizar e se comunicar mais, muitos membros e ativistas sociais do hip-hop atualmente estão à frente de organizações das mais diferentes causas possíveis.

Estamos no fim de mais uma década entrando no ano de 2010, penso que temos que ter orgulho de termos sido forjados pelas dificuldades da vida e de sermos oriundos da cultura hip-hop. Uma cultura popular de massas que de fato revolucionou e pode revolucionar ainda mais. É uma cultura aglutinadora da juventude excluída, que há mais de vinte cinco anos vem despertando a consciência dos manos e das minas, que sempre estiveram invisíveis em nossa sociedade brasileira, uma geração de jovens que herdaram a miséria, fome e a vulnerabilidade social. Fruto de uma época de escravidão do negro e da desvalorização humana, páginas que a elite brasileira tentou apagar, mas que a história não permite.

Enfim sobrevivemos, e nos dias atuais vejo o universo acadêmico estudarem esse fenômeno social chamado hip-hop cultura das ruas, através de teses de mestrado e monografias. Como a vida nos prega peças, muitos de nós passamos a desenvolver um hip-hop militante e combativo, em nome de melhorias para as nossas comunidades e sem percebermos nos tornamos lideranças políticas. Isso fez com que nos déssemos conta que há uma revolução cultural e social silenciosa acontecendo, principalmente quando analiso que a América Latina já não é mais a mesma de como foi para os nossos coroas, tá ligado ?

Atualmente, respira novos ares, onde forças progressistas e governos com participação popular emergem do seio do povo. Nos dias de hoje, vejo o continente Latino-Americano despertando para o mundo, à frente desse processo, líderes políticos como o Lula aqui no Brasil, Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Cristina Kirchner na Argentina, Fernando Lugo no Paraguai, Tabaré Vasquez no Uruguai, Ortega na Nicarágua, Michele Bachelle no Chile e Raul Castro, na heróica Cuba entre outros.

Observo também, a vitória de um presidente negro e com um sobrenome árabe, que assumiu um país em um momento de crise mundial, com um discurso de “mudança”, mudança essa que fez as pessoas do mundo acreditarem, inclusive artistas milionários da indústria fonográfica do rap norte americano estiveram à frente desta campanha.
É satisfatório para a nossa geração ter sobrevivido e saber exatamente qual momento da história estamos vivendo e o que podemos contribuir para alterarmos as coisas. Vejam, por exemplo, a Nação Hip-Hop Brasil, uma entidade que nasce em meio ao Fórum Social Mundial que ocorreu em 2005, aqui em Porto Alegre e que assume o compromisso de contribuir na construção de um hip-hop engajado politicamente e preparado para os embates e desafios que estão por vir, sem ignorar os saberes científicos e utilizando-os para contribuir na luta pelo reconhecimento e por direitos na sociedade.

Em 2008, o hip-hop se apresentou com mais de 30 candidatos em todo o Brasil. Anderson 4P foi reeleito na Cidade de Francisco Morato, grande São Paulo, além da Eva em Sumaré, Alceu em Cordeirópolis, e Raissuli em Salto. Tivemos um rapper concorrendo a candidatura de prefeito na cidade de Hortolândia, interior de São Paulo, conhecido nacionalmente pelo movimento como Aliado G, Líder do Grupo de rap Face da Morte. Presidente Nacional da Nação Hip-Hop Brasil. Nuno Mendes, radialista e comunicador do programa mais ouvido em SP, o “Espaço Rap”, foi outra candidatura significativa para nosso movimento na cidade de São Paulo, da mesma forma que o dançarino Nelson Triunfo em Diadema.

No Rio Grande do Sul, tivemos quatro candidaturas, eu, quem diria! Em Porto Alegre, em Campo Bom, Taquara e São Leopoldo, sendo que o Walter, candidato do hip-hop em Campo Bom empatou tecnicamente em número de votos e só não venceu porque o critério de desempate foi a idade e o outro candidato era mais velho.
Isso tudo nos faz acreditar que essa realmente é a geração que revolucionou e que ainda pode revolucionar muito mais. Estamos vivendo momentos únicos da história mundial.

Aqui no Brasil, um programa nacional de aceleração do crescimento (PAC) dirigido pela atual Ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, tem o objetivo de garantir milhões de casas para a população carente, medida esta que o Governo Lula adotou para amenizar os efeitos da crise capitalismo.

Nossa geração tem muito que ensinar, mas também temos muito ainda o que aprender, não podemos continuar ignorando a força e o poder de organizações como o MST, UNE, UBES, UNEGRO, CUT, CTB, Pastoral da Juventude, UJS dentre tantas outras siglas do Movimento Social que tanto contribuem para a luta do povo brasileiro.

Penso que todos, temos a obrigação de contribuir para que o hip-hop fique cada vez mais vivo e atuante no Brasil mesmo com todas linhas de pensamento diferentes mas que a médio e longo prazo possamos avançar nossas idéias e dar inicio a unificação do movimento em nome de um interesse comum. A dignidade do povo das periferias e a luta por igualdade e justiça social e distribuição de renda.

Proponho também que tenhamos que fazer bastante barulho aos nossos governantes para que termine a matança da população negra em nosso país, constatada pelo IBGE. Que possamos conjuntamente construir uma campanha nacional contra a epidemia do crack, não podemos continuar permitindo que isso ocorra bem embaixo de nossos narizes.

Temos a constituição brasileira a nosso favor, portanto, temos a obrigação de cuidar do nosso povo e das nossas crianças no presente e no futuro.
Despeço-me na certeza de que essas linhas possam plantar uma semente de esperança e de unidade em cada um que tiver contato com elas e que saibamos dar a devida importância da luta coletiva junto ao hip-hop, para que no futuro não sejamos lembrados como um fenômeno cultural político-social, que foi engolido pela história como muitos outros já foram.

Deixo aqui registrado, o lema da entidade Nação Hip-Hop Brasil / RS da qual presido com muito orgulho e honra, onde desde já agradeço aos camaradas, Edson Borges e Jorge Igor pela inspiração.
Se liga só!

Nossa coragem é nossa doutrina, em nome do povo sempre, disciplina, estudo, lealdade e perseverança, Nação!
Até Breve,

Mano Oxi é MC do grupo DNA. Ex-produtor do programa Hip-Hop Sul pela TVE/RS, vencedor do Prêmio de Direitos Humanos de 2005, é vice-Presidente Nacional e Presidente Estadual da Nação Hip-Hop Brasil-RS. Suplente de vereador em Porto Alegre e Assessor Parlamentar do Deputado Estadual, Raul Carrion.