Arquivos Mensais: abril \29\UTC 2009

BH tem mais um espaço para o Hip Hop


As diversas linguagens que formam o Hip Hop — rap, graffite, break, DJs — têm um encontro marcado no projeto Hip Hop Aciona, que acontecerá duas vezes por mês, até o final do ano, sempre a partir das 15h, na (Rua Timbiras, 2330). As entradas custam R$ 5 (masculino) e R$ 3 (feminino).

A estréia será no domingo (10/05), com as presenças dos grupos “Sem Meia Verdade” e “Apologia X”, além do DJ Tavim. Na segunda edição (24/05) participam os grupos Ideologia Feminina e Retrato Radical e DJ Tavim. O evento é organizado pelo D-vEr.CidaDe CuLturaL.

Atrações

Sem Meia Verdade – Formado em 2003 por THL e RUD, seu primeiro trabalho “Pregando no Inferno” foi lançado em 2005. Em 2008, lançaram, o CD “Ao Vivo e aos Corres” cujas letras procuram sempre relatar o cotidiano da periferia e falara de sua fé em Deus. O grupo tem três possui três clips na Internet que fazemm muito sucesso: “Pra Maloca Pirar”, “Invadido os Barracos” e “Trem Cabuloso”. Sem Meia Verdade integra a organização “Nós Pega e Faz”.

Apologia X No ano de 1998 surgiu na região Nordeste de Belo Horizonte, o grupo Apologia X que após várias formações é integrado hoje por Brunão (vocal), Satiro (vocal), Alexandre Gordo (vocal) e Bruno (baixo) Suas letras misturam uma poesia para perturbar mentes acomodadas com batidas sonoras de rap, ragga, reggae, congado, new metal, rard core e mangue biat. O grupo já participou de diversas coletanias, ente elas “Estrada Real Rap” (2007), “Isso é só o começo” (2006), “Rap Total” (2008) e no DVD do rapper Russo, com a música SK8. No momento, o Apologia X finaliza seu primeiro CD “Nem Tudo é Perfeito” que será lançado pelo o selo Xeque Mate Produções.

Ideologia Feminina – Criado em 2006 por Maria Alice (que realizava trabalhos solo no Hip Hop), Aline Cecilia de Paula (militante estudantil), Zaika dos Santos (participações com o rapper Vulgo Elemento e no grupo Projeto Feminil) e o DJ Edivânio, o Ideologia Feminina fala de respeito e de igualdade na sociedade, incentivando a força de vontade para alcançar os objetivos da juventude. O som é dançante e as letras positivas propõem a união.

Retrato Radical – Criado há 14 anos na Região Oeste de BH, o Retrato Radical apresenta letras politizadas sem perder, no entanto, a essência do Hip Hop. Contam sempre com a performance inconfundível do DJ Pooh e dos vocais de Canela Fina, Radical T e de Jaqueline. O grupo já lançou três trabalhos: o primeiro em vinil, “Não Seja Mais Um” (1995) e os CDs “O Barril Explodiu” (2005) e “Homem Bomba, do final de 2008. O clip recém lançado “Sete-oito” ficou entre os quatro melhores na premiação do Hutuz 2008, realizada pela a Cufa/RJ.

Organizador do evento

O grupo D-vEr.CidaDe CuLturaL é uma rede de agentes culturais juvenis surgida no projeto “Formação de Agentes Culturais Juvenis”, desenvolvido pelo Observatório da Juventude da Faculdade de Educação da UFMG. O projeto, voltado para 15 comunidades da Região Metropolitana, se iniciou em 2002 com o objetivo de potencializar as ações já desenvolvidas por jovens de vilas e favelas ligados a várias atividades socioculturais. Esses jovens participavam de grupos de diferentes linguagens artísticas e o papel do projeto foi, ao longo de dois anos, capacitá-los com subsídios teóricos e práticos para o melhor desenvolvimento de suas habilidades.

Em 2003, com a finalização da formação, os jovens continuaram se encontrando para desenvolver ações coletivas, como o 1º e o 2º Seminário de Políticas Públicas de Belo Horizonte (2003 e 2005), o Encontro Estadual de Redes de Juventude (2004), além de uma diversidade de ações e de eventos culturais.

Para a realização dessas atividades, em muitas ocasiões, o grupo dependia de outras entidades parceiras para receber recursos. Por isso, em 2005, o grupo se constituiu em pessoa jurídica — a Associação D-vEr.CidaDe CuLturaL. Ao longo desses anos, a associação vem construindo, junto a entidades e movimentos que atuam na promoção da cultura, cidadania e dos direitos humanos, uma rede de formação política e cultural que fomenta a articulação entre grupos juvenis, principalmente em vilas e favelas da Grande BH.

A entidade tem como missão a inserção da juventude em atividades de transformação social, afirmação de culturas populares, incentivar a formação e atuação juvenil, criando condições de emancipação política e econômica por meio do desenvolvimento de projetos de geração de renda e trabalho em economia solidária.

Mais informações:

D-vEr.CidaDe CuLturaL – Roberto Raimundo (8891-6386) e Russo (8855-8395)

http://d-vercidadecultural.blogspot.com

Grupo Sem Meia Verdade – THL (9184-0959) ww.myspace.com/semmeiaverdade

Grupo Apologia X Brunão (9221-4794) www.myspace.com/apologiaxmg

Grupo Ideologia Feminina – Zaika (8563-4952) ww.myspace.com/ideologiafeminina

Grupo Retrato Radical – Gem (8717-5765). http://www.myspace.com/retratoradical

CUFA BH Abre inscrições para o RPB

CUFA Bh abre inscrições para o RPB etapa de Belo Horizonte.

Para realizar sua inscrição faça o download dos abaixo e os reenvie em anexados nos e-mails: cufabh@cufabh.org e comunicacao.cufabh@cufabh.org.

Instrumento de autorização para utilização de imagem e som de voz e obra musical

Ficha de inscrição

Regulamento

Informações : (31) 9212-8829 (MT Ton) ou (31)9339-1852 (Elias).

ÚLTIMOS DIAS PARA INSCRIÇÕES NO
PROGRAMA VOZES DO MORRO


Artistas da periferia de BH, Ibirité, Ribeirão das Neves e Santa
Luzia têm até quinta-feira, dia 30/04, para inscrever seus trabalhos

Músicos da periferia de Belo Horizonte, Ribeirão das Neves, Ibirité e Santa Luzia, quinta-feira, dia 30/04, encerram-se as inscrições para o Programa Vozes do Morro. Os artistas interessados devem inscrever até duas músicas, de qualquer gênero e com duração máxima de três minutos cada, na Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais ou por Correio.

Os dez finalistas selecionados gravarão uma faixa musical e um videoclipe, veiculados durante o ano nas emissoras de TV e rádio que apóiam a iniciativa. Na web, o site e do canal no Youtube do Programa Vozes do Morro trazem atualizações constantes sobre o trabalho de cada artista e um grande show, realizado no final do ano, marcará o encerramento da Edição 2009.

Com o objetivo de divulgar e valorizar a produção musical das vilas, favelas e aglomerados da região, o Programa Vozes do Morro é uma iniciativa do Governo de Minas, por meio da Secretaria de Estado de Cultura, Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) e Sindicato das Empresas de Rádio de Televisão de Minas Gerais (SERT – MG), com o apoio do Sebrae MG.

Em 2008, foram quase 500 inscritos, sendo 14 novos talentos revelados: Blast Girls; Cirandeiros; Instinto Coletivo; Ivo do Pandeiro; Kayajhama; Maria Pretinha; Rafael Dias; Solene Martins; Tom Nascimento; Verdade Seja Dita; Anjos de Metal; Domingos do Cavaco; Mente Fria e Brother Soul; Pastora Cleide.

Segundo Andréa Neves, presidente do Servas, “O Vozes do Morro é um programa de democratização, de inclusão cultural e social, que cria oportunidades e rompe barreiras. A música, com seu poder aglutinador, dá o tom de uma ação que mobiliza centenas de pessoas, abrindo janelas por onde podemos nos enxergar melhor, e portas por onde podemos nos aproximar mais uns dos outros”


O formulário e o edital estão disponíveis no site Vozes do Morro, que também divulgará o resultado, no dia 17 de junho. Para mais informações, acesse: www.vozesdomorro.mg.gov.br

Colaboração : Lívia Ascava

Movimentos que brotam da vida

Dia Internacional da Dança em ruas e praças da cidade


Walter Sebastião

Jair Amaral/EM/D. A Press – 18/9/07
Esquiz, da Cia. SeráQuê?: diálogo com a cultura popular

Dança na rua para chamar atenção de arte que quer mais apoio, incentivo e profissionalização da atividade. Vão ser assim as comemorações do Dia Internacional da Dança, em Belo Horizonte. A Mimulus Cia. de Dança faz intervenção urbana, a partir das 14h, na estação do metrô Carlos Prates; a SeráQuê? apresenta, às 19h, no Centro Cultural UFMG, o espetáculo Esquiz: alma e raízes de um povo revisitadas. E as performers e produtoras Paola Parentoni e Marcelle Louzada convocam bailarinos e pessoas interessadas em dança para encontro e improvisos, a partir das 18h, na Praça da Estação. Tudo com entrada franca.

“Ser um trabalhador da cultura ainda soa insólito para a população e a sociedade”, afirma Rui Moreira, diretor da SeraQuê?. O Dia Internacional da Dança, para ele, é oportunidade para defender a profissionalização da atividade e dos que atuam no setor, cadeia produtiva extensa, que abarca criadores, técnicos etc. Como conta, ainda persiste a ideia de que arte é sinônimo de paixão e exercida de forma amadora. Até aumentou o número dos que vivem da atividade, observa, mas a grande maioria ainda não atingiu esse patamar, com toda a repercussão jurídica que ele representa, o que também atrapalha reconhecimento diferente dos agentes e protagonistas. Reivindica mais: “Gostaria que a dança fosse vista como área de conhecimento e não só como entretenimento”.

Esquiz, da Cia SeraQuê?, traz montagem apresentada somente uma vez em Belo Horizonte, primeira peça de trilogia voltada para investigação da cultura popular, cuja terceira obra ainda está em produção. “É trabalho com foco específico no movimento devocional das festas afro-mineiras, operando com signos que mostram todo o sincretismo dos festejos populares”, explica o bailarino e coreógrafo.
Recursos

“A cultura brasileira precisa de mais apoio”, afirma Jomar Mesquita, de 38 anos, diretor da Mimulus Cia. de Dança. Se todos sofrem com a falta de recursos no setor de artes cênicas, “e talvez mais ainda no da dança”, o problema é crítico. “Trata-se de criar mais oportunidades de oferecer espetáculos ao público, de contribuir para o crescimento da qualidade e dar condições de sobrevivência a grupos e artistas”, explica. “Investir em cultura, não só interessado em renúncia fiscal, traz benefícios para empresas e população”, completa. A intervenção urbana da Mimulus traz recriações, para espaços públicos, de fragmentos de espetáculos do grupo. “É arte nas ruas para surpreender as pessoas”, garante o diretor, recém-chegado de temporada na Espanha.

Improviso para o corpo

Dando encaminhamento a proposta de manifestação da dança, em escala nacional, surgida no Festival de Curitiba, as produtoras e performers Paloma Parentoni e Marcelle Louzada estão convocando bailarinos e todos os interessados em dança para encontro, às 18h, na Praça da Estação. “Vamos ocupar a praça e realizar, como fazem os músicos de jazz, uma jam session”, conta Paloma.

Ela explica que cerca de 20 bailarinos já aderiram à manifestação. “Gostaríamos que as pessoas enxergassem mais a dança contemporânea feita no Brasil”, afirma a produtora. Ela alerta que a situação é de pouco público e muitos espetáculos. “São criações que engrandecem a alma do bailarino e do espectador, que fazem pensar no corpo como centro do mundo, o que traz equilíbrio”, garante Paloma Parentoni. (WS)

Programação
14h – Intervenção urbana da Mimulus Cia. de Dança, na Estação Carlos Prates do metrô de BH, Avenida Nossa Senhora de Fátima, 2.875.
18h – Improvisação e encontro de bailarinos na Praça da Estação.
19h – Esquiz: alma e raízes de um povo revisitadas, com a Cia. SeráQuê, no Centro Cultural da UFMG, Av. Santos Dumont, 174, Praça da Estação, (31)3409-1090.

Hip Hop Com Raiz Mineira

Janaina Cunha Melo

Weber Padua/Divulgação
Malucofonia lança disco amanhã, em Belo Horizonte


O DJ Roger Dee lança o CD Malucofonia, amanhã, no Stúdio Bar. Veterano no hip hop mineiro, ele reuniu artistas de diferentes vertentes do gênero para compor o trabalho. Matéria-Prima, Cubanito, Julgamento, Dokttor Bhu e Shabê, Ruibarbo, NUC, Luciano e Sério Pererê e Maurício PC são os convidados do projeto e participam da festa, que tem ainda os DJs Deivid, Fausto e Kowalsky. Com a intenção de revelar panorama da cena atual, ele comprova a efervescência desta produção na cidade e assegura que tem bala na agulha para outros volumes.

“O que está neste CD é o mínimo do que tem sido feito. Belo Horizonte, em termos de hip hop, tem muito mais vertentes”, comenta o DJ. Para ele, a produção desta coletânea também tem a intenção de promover diálogo entre os grupos e valorizar o trabalho de cada um deles. Mistura com samba, discurso contundente, sátira e underground são algumas das abordagens que constam na leitura dos grupos. “BH é uma feira, com muita variedade e vários sons de qualidade”, reforça.

Para Roger Dee, este é um reflexo positivo de característica apontada como “defeito” dos mineiros. De certo modo fechado para influências de outros estados, os artistas locais conseguiram construir identidade própria nos elementos da cultura hip hop. Rappers e MCs, que investiram na cena nos anos de 1980, perderam fôlego uma década depois, mas demonstram novo momento de impulso criativo, com inspiração inclusive na cultura regional. “Para fazer boa música, é preciso ouvir outros estilos, para alimentar os conhecimentos. Essa é uma lição básica, que os mestres ensinaram”, diz o veterano, que entrou para o movimento como b.boy e 10 anos depois investiu na pesquisa da música popular brasileira como DJ.

MALUCOFONIA
Stúdio Bar, Rua Guajajaras, 842, Centro, (31) 3224-1251. Amanhã, 22h. R$ 10.

Ronaldo e o rapper ex-assaltante

Gilberto Dimenstein

O jogador Ronaldo e o rapper Afro-X têm idades semelhantes, são negros, pobres, viveram em locais infestados pelo crime e cometeram muitos erros por não saber lidar com o sucesso.

O jogador ficou milionário. O cantor ganhou muito dinheiro e perdeu tudo, além de ter passado sete anos na cadeia e mais sete em liberdade condicional. A diferença é que, nesta semana, um deles dá um péssimo exemplo educacional –e o outro um ótimo exemplo.

Afro-X está lançando um livro em que conta suas agruras para tentar mostrar aos jovens o que acontece com quem entra no caminho do crime (trechos do livro estão no www.catracalivre.com.br). Ele viu como se costuma respeitar a delinquência entre crianças e jovens mais pobres. Não vai ganhar quase nada com esse trabalho. “Quero ser um educador”, propõe.

Ronaldo, que não precisa de dinheiro, e sabe (ou deveria saber) o que significa o perigo do álcool, especialmente nas comunidades pobres, está usando sua imagem de “guerreiro” e ídolo para convencer as pessoas a beber mais. Justo agora que ele aparece como alguém que sabe dar a volta por cima –a mensagem por trás disso é que os guerreiros, os fortes, podem e devem beber. É, portanto, um deseducador.

Não vi nenhuma gravidade nas trapalhadas sexuais de Ronaldo –afinal, ele faz o que quiser com sua vida e ninguém tem nada com isso. Grave mesmo é ele usar seu prestígio entre as crianças e jovens para estimular o consumo do álcool.

Seria bom que ele aprendesse alguma coisa com os exemplos de Afro-X.

Trabalho e cidadania

A paz duradoura tem que contemplar a justiça social


Maria Amélia Bracks Duarte -Procuradora do Trabalho em Minas Gerais

Avizinha-se o Dia do Trabalho, em 1º de maio. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgados no fim de abril, enquanto na Grande BH a taxa de desempregados teve um pequeno recuo de 6,8% de fevereiro para 6,6% em março, nas demais metrópoles pesquisadas (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Salvador), a situação do mercado de trabalho se agravou, resultando num aumento de 8,5% para 9% do desemprego na média do país. É a maior proporção de desempregados já registrada desde setembro de 2007: 2,1 milhões de pessoas. Somente o desenvolvimento econômico e social do país pode resgatar a vergonha de enfrentar filas e não ter onde exercer uma atividade.

E não basta o trabalho. A bandeira constitucional garante o trabalho digno: o empregador tem o dever de assegurar ao empregado meio ambiente sadio e equilibrado, sem riscos ou exposição a agentes físicos, químicos e biológicos danosos à sua saúde, e onde o empregado encontre no trabalho a concretização de suas inspirações à melhoria de sua condição social; a jornada de trabalho não deve ser de mais de 8 horas diárias; o salário será compatível com a atividade exercida, garantindo-se um mínimo legal. Todos esses enunciados trazem implícitos os princípios protetores do trabalho humano, visando a construir uma sociedade livre, justa e solidária; garantir o desenvolvimento nacional; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; promover o bem de todos, sem preconceitos e sem qualquer forma de discriminação. Sem a observância desses preceitos, não se pode falar em cidadania, autoestima, valor pessoal e respeito. Homens e mulheres não se bastam com cestas básicas recebidas como esmola do governo. Querem trabalhar, produzir riquezas para o seu país, ser exemplo para a família e para a comunidade. O brasileiro precisa de oportunidade para demonstrar a sua capacidade de trabalho, sua força e criatividade. Um país só é desenvolvido quando se tem educação, saúde, trabalho. A nação é a cara do seu povo: ou boca de sorriso feliz ou boca desdentada. Ou crianças nas escolas ou na rua.

No Dia do Trabalho, que bate à porta, deve-se resgatar a dignidade do brasileiro: oportunidade de emprego, salário justo, bem-estar social. Trabalho degradante ou escravo será apenas ficção do século 21, que começou sob o estigma da crise de decência em todos os poderes da República. No campo das relações do trabalho, o direito já traz em si a humanidade e a ética, porque a paz duradoura tem que contemplar necessariamente a justiça social. Para que não sejamos o Pedro pedreiro da canção do Chico Buarque, que passou a vida “esperando, enfim, nada mais além da esperança aflita, bendita, infinita do apito do trem”.

A pedra da vez: de quem é a culpa pelo sucesso do crack



Todos estão preocupados, tão mexendo em tudo para achar uma determinada solução, não sabem mais o que fazer. A pedra no caminho da sociedade é minúscula, mas gera grandes problemas, deste o social ao criminal. Ela é a pedra da vez.

Por Gelson Weschenfelder, no blog Círculo Vícioso



O problema gerado para conseguir tal pedra incomoda muita gente. Este indivíduo busca meios não muito amigáveis para conseguir bancar o custo desta. Ele recorre ao crime para subsidiar o uso desta pedra, e por esta razão incomoda a sociedade cômoda.

O descaso com os outros nos faz pensar que somos donos de si mesmos, donos de uma razão tão pequena, quanto à pedra na qual o incomoda. Mas daí quando há algo que nos incomoda, saímos às ruas, vamos aos meios de comunicações, exigimos mais vigor dos órgãos que nos protegem, exigimos um maior compromisso do poderes executivos, mostramos que a descaso de entidades sobre este problema. Descaso? Problema?

Quem criou este descaso? Quem criou este problema? Ah, estamos falando da pedra em nosso caminho. Mas quem coloca aquela pedra ali? Nós imaginamos um falso poder que temos, sério falso poder. Pensamos que somos dono de nós mesmos e assim donos do mundo, excluímos quem queremos de nossa volta. É bem assim, quero você, não, você não pode, ah, você pode, já você não pode.

E assim temos a falsa ideia de escolher bem as pessoas que andam ao nosso lado, em nossa sociedade, excluindo os outros, tirando estes do alcance de nossos olhos, empurrando-os para a margem da sociedade. Mas se esquecemos que a margem está cheia, cheia de lixo humano, é isso mesmo, lixo humano que nós da sociedade escolhida empurramos para esta margem.

Mas a margem cria também sua falsa ideia de poder, um poder paralelo talvez, que encontra na pequena pedra, a chave para aliviar todos os seus problemas. A pedra dá este poder, uma falsa ideia de poder, mas necessitam sentir este poder que, muitas vezes o foi reprimido, excluído de ter.

Ai a pedra se torna, a pedra do sapato da sociedade, a pedra do caminho, ou até a pedra da vez. Pois ela tira de você a falsa ideia de poder que tinha, pois você escolhe tanto, tanto que chega uma hora que você está em volto da margem que você cria. Você queria tanto uma sociedade perfeita com seus escolhidos que, a sua sociedade está não mais no plano alto, e sim no mesmo nível de sua margem. A necessidade e o anseio pelo poder nos levam a caminhos, que há pedras no percorrer da caminhada.

Nós da sociedade perfeita colocamos estas pedras em nossos caminhos, colocamos a pequena pedra nos cachimbos. A sociedade por esquecer, fingir não ver ou ainda excluir indivíduos que necessitam de um determinado conforto, seja ele psicológico ou social, empurramos estes para a margem de nossa sociedade, onde lá ele quer ser rei, e encontra na pedra da vez seu conforto.

Bom, é mais fácil prevenir do que remediar, e ah, é mais fácil culpar os outros do que nós mesmos.


Domésticas querem mudança na Contituição por direitos iguais



As empregadas domésticas querem ter direitos trabalhistas iguais a todos os demais brasileiros, diz a presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (Fenatrad), Creusa Maria e Oliveira. Por isso, a categoria luta por uma mudança na Constituição Federal, que as diferencia em relação aos outros trabalhares.



O Artigo 7º da Constituição tem um parágrafo único estabelecendo a que têm direito. Com isso, ficam fora direitos como o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e a multa de 40% sobre seu saldo, em caso de demissão sem justa causa, salário família, horas extras, adicional noturno, seguro-desemprego e várias outras conquistas dos trabalhadores.

A mudança desse artigo faz parte de uma proposta que está sendo elaborada pelo governo, envolvendo a secretarias especiais de Políticas para Mulheres e da Igualdade Racial. Mesmo antes de chegar ao Congresso, ela encontra resistência, de acordo com Creusa. A Fenatrad estima que existam no Brasil cerca de 8 milhões de trabalhadoras domésticas — a grande maioria mulheres e negras.

“A resistência vem dos empregadores. Representantes dessa classe defendem que seja aprovado a proposta de autoria da ex-deputada Benedita da Silva, que prevê alguns direitos. Só que, para nós essa proposta, já está ultrapassada”, argumentou Creusa. “Vários direitos previstos nela já nos foram dados por meio de decreto. Queremos a mudança na Constituição, acabando com a discriminação. Só isso nos dará direito a todas as conquistas trabalhistas.”

“Não queremos conquistar nossos direitos a conta-gotas. Queremos direitos de forma ampla”, completou. A proposta que as domésticas rejeitam foi apresentada por Benedita da Silva em 1988. Nesta segunda-feira (27), comemora-se o Dia Nacional das Trabalhadoras Domésticas. Creusa lembrou que a luta organizada das empregadas domésticas já tem mais de 70 anos no Brasil. “Teve início em 1936, com a criação da primeira associação, em Santos [SP] por Laudilena dos Campos Melo.”

No entanto, só em 1972 é que elas conquistaram por lei o direito a 20 dias de férias por ano, carteira assinada e o direito à Previdência Social. Depois disso, a Constituição de 1988 garantiu às domésticas direito ao salário mínimo, ao 13º salário, aviso prévio e descanso semanal aos domingos. Em 2006, uma lei deu direito à estabilidade no emprego em caso de gestantes, folgas nos feriados, aumentou de 20 para 30 dias o período de férias e impediu o empregador de descontar despesas com alimentação e moradia do salário das trabalhadoras.

Creusa acredita que não haverá retração do mercado de trabalho em um cenário de direitos iguais “Precisamos trabalhar, e o empregador precisa do nosso trabalho. Todas as vezes que se fala em direitos trabalhistas das empregadas domésticas se levanta essa discussão como entrave. Mas não faz sentido. É um mercado que continuará existindo, porque nosso trabalho é necessário à vida das pessoas.”.

Da Redação, com informações da Agência Brasil

‘Pobres no Rio vivem dias de horror’




Escrito por Gabriel Brito e Valéria Nader
18-Abr-2009

Estamos na porta de entrada de tempos (ainda mais) difíceis no país. Com crise, desemprego e muita violência nas grandes cidades, os políticos, sem romper seus pactos, precisam apresentar soluções para combater tal quadro. Dessa forma, é produzida uma série de medidas que mais combatem os pobres do que a pobreza. Pintam as paredes, mas não mexem na estrutura interna do ‘prédio’.

Por conta disso, o Rio de Janeiro vem sendo palco de seguidas políticas de limpeza e segregação social, como mostram os choques de ordem e agora o levantamento de muros no entorno de favelas, levados a cabo por prefeitura e governo do estado, respectivamente.

Para a socióloga Vera Malaguti, do Instituto de Criminologia Carioca, o que vemos é a expressão de um fascismo estatal mancomunado com grandes interesses econômicos. O governo pretende levantar 11 mil metros de muros, com 3m de altura, começando pela zona sul, cuja expansão de favelas não chegou à metade do aferido na zona oeste, de 11,5% – dados do Instituto Pereira Passos.

Malaguti aponta que os pobres no Rio de Janeiro são vítimas de crescente truculência oficial e vistos como ‘lixo humano’ que precisa ser removido da cidade, uma vez que a presença dessa parcela da população é prejudicial aos grandes negócios e à especulação imobiliária.

Correio da Cidadania: Como você vê a idéia do governo local de construir muros no entorno de favelas, sob a alegação de preservar algumas áreas verdes da cidade?

Vera Malaguti: É um absurdo e vem junto do circo de horrores do qual vem sendo palco o Rio de Janeiro, através de extermínios da polícia (a que mais mata no mundo), das remoções dos pobres, demolição de casas em áreas populares ilegais…

Enfim, é todo um festival de truculência, em articulação da prefeitura com o governo do estado, completamente ligados aos grandes negócios privados, como os esportivos, e impondo um cerco fascista sobre os pobres. E, além do muro, que é uma vergonha, as remoções voltaram à pauta.

Todo o processo é capitaneado pelas Organizações Globo, com campanha diária no RJTV, no jornal O Globo, sempre focalizando a pobreza como detrito, como algo que conspurca o ambiente. E tudo em nome dos grandes negócios privados, uma vergonha.

O Rio de Janeiro talvez esteja passando pelo seu pior momento desde Lacerda. Parece uma volta com força total da UDN, terrível.

CC: O que pensa do fato de as favelas escolhidas para receberem os primeiros muros se localizarem em bairros mais nobres ou de classe média, mesmo com a expansão recente de tais favelas estando abaixo de índices considerados preocupantes, inclusive em comparação com outras?

VM: Aí fica clara a parceria do governo com a especulação imobiliária, afinal, são áreas nobres, e ter os pobres ali não lhes interessa.

É tão chocante, tão óbvia, essa mistura de truculência fascista com Parcerias Público-Privadas sinistras! Estou sendo enfática, mas é que chegamos num ponto… Ontem mesmo houve o assassinato pela polícia de um menino da Maré, a população tentava protestar e era reprimida da pior forma possível pela mesma polícia. E tudo sempre sob a desculpa do tráfico.

Acho que o fim do brizolismo no Rio foi muito ruim. Para exemplificar, uma das coisas que O Globo fez para comemorar os 45 anos do golpe militar foram acusações levianas sobre o Brizola, ao mesmo tempo em que o associava ao crescimento das favelas. O vazio criado por sua morte, junto ao estraçalhamento das forças de esquerda, deixou o fascismo ocupar a cidade.

CC: Ao se juntar tal ação com a também recente medida dos choques de ordem, vemos que as políticas de higienização nas grandes cidades têm sido levadas ao paroxismo, não?

VM: Exatamente. O velho projeto fascista, com essa maneira de olhar os pobres como lixo humano na cidade, se consolidou, sendo orquestrada também pela grande imprensa tal proposta de apartheid.

Os pobres no Rio de Janeiro vivem dias de horror. Acho que as forças de esquerda, libertárias, precisam se organizar contra isso. Tudo começou pela questão criminal, o que é um problema, pois até a esquerda embarca no discurso de luta contra o tráfico, sempre localizada nas favelas.

Daí para choques de ordem, remoções, muros, é um passo. É um projeto higienista reciclado, em nome da ordem na cidade, dos grandes negócios de Copa, Olimpíadas, dos grandes capitais que circulam no Rio. Tais negócios são uma obsessão para o governo e a prefeitura, que sempre estão em viagem buscando grandes investimentos.

Enquanto isso, pau nos pobres aqui. É um projeto sinistro.

CC: Essas medidas não podem potencializar o ódio entre classes, na medida em que reforçam uma idéia segregacionista?

VM: Claro, isso não vai dar certo. Durante um tempo, algumas forças progressistas do Rio aceitaram a pauta criminal da direita, e assim o fascismo encontrou sua brecha, sendo que acaba se alastrando para a questão habitacional, ambiental, onde muitas vezes se refugia, como neste caso dos muros, aliás.

Uma vereadora do PT foi uma das que mais defenderam os muros, sempre fala em remoções nas favelas da zona sul, como a dos Tabajaras, uma vez que as áreas verdes na cidade se concentram mais na zona sul e posto 9.

Tais equívocos abrem o caminho para o fascismo mais explícito, que vemos nessa mistura de truculência contra os pobres e grandes negócios (com ilegalidades) particulares.

CC: Você acredita que o levantamento dos muros vai impactar de alguma maneira, ainda que a curto prazo, nos índices de criminalidade?

VM: Acho que vai emparedar os pobres e produzir outros efeitos, intra e extramuros. É mais uma grande violência, portanto, entrará nesse moinho gerador de ódios.

Espero que isso possa ser barrado, apesar de todo o esforço da grande imprensa. Fazem pesquisas dizendo que os favelados são favoráveis à remoção, pesquisas para legitimar tais ações… Não deve faltar sociólogo para fazer esse tipo de trabalho e dizer que os pobres estão doidos para serem emparedados e removidos da cidade.

No Rio de Janeiro, neste momento, essas forças, que envolvem institutos de opinião, empresas de publicidade, grande imprensa, setor imobiliário, estão totalmente articuladas na varredura da pobreza da cidade. E da pobreza rebelde, que é uma marca do Rio de Janeiro há muito tempo, pois foi uma cidade quilombola, depois janguista, brizolista…

Estamos diante de um conjunto de interesses escusos, mais uma ‘blitzkrieg’.

CC: Diante do quadro atual, quais medidas seriam efetivas a seu ver, tanto a curto como a longo prazos?

VM: O inverso disso tudo, uma outra maneira de olhar a cidade. Construir políticas habitacionais democráticas, projetos em que as classes populares sejam protagonistas.

Não bastam bons projetos para os pobres, é preciso que esses setores estejam no centro, que a juventude, ao invés de ser criminalizada, seja participante central dos projetos que a libertem dessa concepção de muros, cadeias, extermínio. Temos de produzir outro projeto brasileiro, que não contenha essas conjugações.

É complicado resolver a violência, ninguém tem a solução. Mas uma cidade democrática é gerida de outra forma, e assim produz soluções também democráticas e libertadoras, capazes de permitir que todos usufruam a cidade, apesar das diferenças.

Em suma, é o oposto de tudo isso.

Valéria Nader, economista, é editora do Correio da Cidadania; Gabriel Brito é jornalista.

Cimento, cocaína e um colunista ensandecido




Escrito por Luiz Antonio Magalhães
16-Abr-2009

Diogo Mainardi adora provocar polêmica. Nem sempre é feliz: algumas vezes consegue criar enorme barulho, em outras passa apenas despercebido. Ironia e sarcasmo são algumas das armas que o colunista da revista Veja sempre utiliza para tentar obter o efeito desejado. Quem acompanha os escritos de Mainardi conhece bem suas
posições políticas, tão explicitamente alardeadas e que podem ser sintetizadas na confissão do próprio colunista, em um texto publicado em agosto de 2005: “Quero derrubar Lula”. É simples assim, não tem jeito de não entender.

Na edição corrente de Veja (nº 2108, com data de capa de 15/04/2009), Mainardi volta a citar o presidente da República no título de sua coluna, reproduzida ao final deste artigo. “O Lula shakespeariano” poderia ser apenas um texto cômico, uma piada meio sem graça, dessas que nem todo mundo entende. Talvez a melhor coisa seja não levar a sério o que diz o colunista, como se faz com as brincadeiras às vezes bem agressivas dos palhaços de circo. Em certos casos, porém, vale a pena entrar no jogo de Mainardi – por trás das ironias e das palavras bem escolhidas está uma ideologia consumida pelos milhões de brasileiros que assinam ou compram Veja nas bancas.

No texto em questão, a ironia de Mainardi é dirigida ao corte do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) em alguns produtos, em especial o cimento, que o jornalista considerou pequeno. Tal ironia pode ser compreendida na comparação feita entre a medida tomada por Lula em relação ao IPI e o esforço de Barack Obama para recuperar a economia dos Estados Unidos – segundo Diogo Mainardi, o presidente norte-americano “está aumentando o déficit público, num prazo de dez anos, em cerca de 6 500 000 000 000 de dólares (com todos os zeros)”, ao passo que Lula teria conseguido reduzir “o custo do saco de 25 quilos de cimento em cerca de 40 centavos (com todos os zeros)”.

Até aqui, nenhum problema, certos analistas econômicos meio chinfrins que se lêem por aí devem até concordar com a mui justa comparação de Mainardi. IPI brasileiro e déficit público americano, tudo a ver. Mas vamos em frente.

O que vem na sequência de tão estapafúrdia comparação é que realmente choca no texto de Mainardi: “No Brasil, ao contrário, o corte do IPI do cimento ajudará, indiretamente, uma indústria próspera: a do comércio de drogas. Em primeiro lugar, estimulando o crescimento das favelas. Encasteladas nos morros, elas correspondem, para os traficantes, às fortalezas medievais: Comando Vermelho e William Shakespeare. Em segundo lugar, subsidiando a cocaína. Algumas semanas atrás, o Globo mostrou que os traficantes da Rocinha (o rei do tráfico – o Henrique IV da Rocinha – é conhecido como Nem) misturam cimento à cocaína. O que fez o governo? Zerou o IPI da cocaína por três meses, garantindo uma economia de 40 centavos a cada 25 quilos. Isso sim é uma medida anticíclica”, escreveu o colunista de Veja.

Favelado é traficante

É muito raro ver tanto preconceito junto em um só parágrafo. Na verdade, é realmente incrível que tamanha sandice tenha sido publicada. Sim, trata-se de um texto humorístico e no humor vale qualquer coisa, mas o que vai acima não chega a ter muita graça, lembra as piores e mais infames piadas racistas. Em menos de dez linhas, Mainardi reforça as idéias de que quem mora na favela é traficante, de que é preciso conter o crescimento das favelas e o de que o problema do tráfico de droga está no traficante, e não na sociedade. Tudo isto para não falar da risível acusação ao governo Lula, qual seja a de subsidiar o tráfico por meio da redução de impostos para… cimento. Aí realmente não dá nem para levar a sério, é apenas uma piada nonsense.

Analisando um pouco mais a fundo, estão presentes no texto de Mainardi alguns dos chavões que a classe média brasileira mais gosta, porque jogam no colo do governo problemas sociais bastante complexos e de difícil solução – a questão da droga e da favelização dos grandes centros urbanos. Diogo Mainardi reforça sutilmente a idéia de que a solução é “jogar uma bomba nos morros e acabar com os favelados”, tão presente no discurso nem sempre tão envergonhado de certa classe média ultradireitista. Também com a mesma “sutileza” o colunista procura vincular o presidente Lula aos dois pólos negativos de seu texto – drogas e favelas -, apresentando-o como um aliado dos traficantes e dos pobres habitantes dos morros. Assim, fecha-se o círculo: ideal mesmo seria “jogar uma bomba nos morros com o Lula e toda a sua corja lá dentro” – mata-se os traficantes e de quebra devolve-se o país ao governo dos homens bons.

Mainardi gosta de fazer graça e há quem ria das suas brincadeiras, mesmo sem entender direito o que conduz o tipo de humor que o colunista é (bem) pago para fazer. A liberdade de expressão evidentemente comporta este tipo de texto, como suportava, em priscas eras, os editoriais (“Basta!” e “Fora!”, no Correio da Manhã) que pediam exatamente o que Diogo Mainardi já pediu em 2005: a derrubada de um governo – constitucionalmente eleito, diga-se de passagem. Se é para rir, melhor pelo menos entender a piada.

***

O Lula shakespeariano

Diogo Mainardi: reproduzido de Veja, 15/04/2009

Lula e Barack Obama confraternizaram no G-20 como Falstaff e o Príncipe de Gales no H-4 – ou Henrique IV.

Ato I, cena II:

Falstaff – Que horas são, rapaz?

Príncipe – Embruteceste de tal modo, à força de beber xerez, de desabotoar-te depois da ceia e de dormir à tarde sobre os bancos, que esqueces de perguntar o que realmente mais importa saberes. Que diabo tens tu que ver com o tempo?

Falstaff – o Falstaff shakespeariano – é obeso, barbado, embriagado, ocioso, medroso, mulherengo, traidor, desonesto. Ele anima as noitadas do Príncipe de Gales com seus planos para roubar as bolsas dos peregrinos. O Príncipe de Gales só se aborrece quando Falstaff é infiel à sua imagem de fanfarronice, como na passagem em que pergunta, distraidamente, as horas.

Lula – isso mesmo, o Lula shakespeariano – animou as noitadas de Barack Obama durante o G-20. Quando perguntou as horas, ninguém respondeu. O Brasil representa o elemento de comicidade nesses encontros internacionais, a taberna suja e barulhenta que contrasta com o rigor puritano do Castelo de Westminster. A trama que “realmente mais importa”, na qual se decide o destino da Inglaterra, se desenrola em outras cenas, em outros ambientes, com outros protagonistas.

Concretamente, em números, como as horas no mostrador de um relógio: Barack Obama, para tentar restabelecer a economia dos Estados Unidos, está aumentando o déficit público, num prazo de dez anos, em cerca de 6 500 000 000 000 de dólares (com todos os zeros); Lula, para tentar restabelecer a economia do Brasil, cortou o IPI de alguns produtos por um prazo de três meses, reduzindo o custo do saco de 25 quilos de cimento em cerca de 40 centavos (com todos os zeros).

Os majestosos pacotes fiscais de Barack Obama prometem enterrar os Estados Unidos, financiando uma série de indústrias falidas. No Brasil, ao contrário, o corte do IPI do cimento ajudará, indiretamente, uma indústria próspera: a do comércio de drogas. Em primeiro lugar, estimulando o crescimento das favelas. Encasteladas nos morros, elas correspondem, para os traficantes, às fortalezas medievais: Comando Vermelho e William Shakespeare. Em segundo lugar, subsidiando a cocaína. Algumas semanas atrás, o Globo mostrou que os traficantes da Rocinha (o rei do tráfico – o Henrique IV da Rocinha – é conhecido como Nem) misturam cimento à cocaína. O que fez o governo? Zerou o IPI da cocaína por três meses, garantindo uma economia de 40 centavos a cada 25 quilos. Isso sim é uma medida anticíclica. O Globo mostrou também que, em nossa taberna falstaffiana, suja e barulhenta, adolescentes com pouco mais de 25 quilos de peso se prostituem por 1,99 real. Sem IPI.

Em Henrique IV, o Príncipe de Gales, depois de assumir o trono, repudia Falstaff. Ei, Lula: agora são 11h53.

Luiz Antonio Magalhães é diretor executivo do Observatório da Imprensa, onde este texto foi originalmente publicado.

Blog do autor: http://www.blogentrelinhas.blogspot.com

Vergonha Portuguesa: Querem Esquecer a Escravidão


Racismo LLLTexto : Ana Lúcia Araújo

Portugal abriu uma votação para eleger as sete “maravilhas” portuguesas no mundo. Entre os 27 sítios que estão concorrendo na votação, estão algumas maravilhas como o forte Elmina em Ghana (forte escravagista), Luanda (porto escravagista), Cabo Verde (porto escravagista), etc. alguns deles já mapeados e tombados pela UNESCO como patrimônio do tráfico atlântico de escravos.

Por exemplo, o forte Elmina foi construído em 1482 para fazer ali o comércio de escravos, hoje abriga um museu onde os visitantes são convidados a visitar as celas onde os Africanos ficavam confinados antes de serem enviados para as Américas. No sítio da votação, encontra-se uma longa descrição do forte e nem sequer uma linha, uma palavra mencionando o tráfico de africanos escravizados.

Pior ainda, essa vergonha é patrocinada pelo governo, pelos ministérios da cultura e da des-educação e pela Universidade de Coimbra. Nojo.

É como se Auschwitz participasse em uma eleição das sete maravilhas alemãs no mundo.


Agora, uma carta de Gerhard Seibert, professor do Instituto de Investigação Científica Tropical, de Lisboa, e pesquisador da escravidão, ao Le Monde Diplomatique, edição portuguesa:

Ex.mo Senhor Director,

Há pouco um historiador jamaicano disse-me que acreditava que os portugueses queriam fazer crer que não tinham nada a ver com a escravatura e o tráfico de escravos. Esta opinião parece generalizada, contudo, corroborada pelo concurso mediático as 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo na Internet. O concurso realizado pela New 7 Wonders Portugal e tem como essência dar a conhecer monumentos que são pouco conhecidos.

A lista das 27 Maravilhas, submetidas à votação do publico até Junho, integra também monumentos e sí­tios em África que estão estreitamente ligados à história do tráfico de escravos durante os séculos XV a XIX (Cidade Velha de Santiago, Fortaleza de São Jorge de Mina, Luanda, Ilha de Moçambique).

Contudo, a apresentação destes sí­tios no site do concurso nega completamente esta parte da história, como se estes não tivessem tido nada a ver com o tráfico negreiro. De facto, o contrário da verdade.

Desde a sua construção em 1482 a fortaleza de São Jorge de Mina (Elmina) era um centro de tráfico regional de escravos com o Reino do Benim. Os portugueses mantiveram o tráfico negreiro na Mina directamente com o Reino do Benim até 1519 e a partir desta data através da ilha de São Tomé no Golfo da Guiné.

Apesar destes factos históricos, a apresentação da fortaleza no site apaga esta história afirmando erradamente que o tráfico de escravos tinha começado apenas com os holandeses que ocuparam a fortaleza de São Jorge de Mina, em 1637.

A Cidade Velha (Ribeira Grande), Ilha de Santiago, Cabo Verde, era um entreposto de tráfico de escravos entre os Rios da Guiné e a Europa, e mais tarde as Américas. Cabo Verde era uma sociedade esclavagista em que 80 por cento dos habitantes era de escravos africanos (1582). Toda a economia da Ribeira Grande estava organizada em torno do tráfico de escravos. Por esta razão, o declí­nio económico e a degradação da cidade começou em 1647, quando esta perdeu o monopólio do tráfico de escravos. Também Luanda era um importante porto de embarque de escravos. Perto de Luanda existe desde 1997 um Museu Nacional de Escravatura em memória do tráfico de escravos ocorrido em terras angolanas, dos séculos XV a XIX. A Ilha de Moçambique era um importante centro do tráfico negreiro no Índico.

A importância destes sí­tios para o tráfico de escravos é bem conhecida. Todos aparecem também em lugares de Memória da Escravatura e do Tráfico Negreiro, uma publicação do Comité Português de «A Rota de Escravos»,da UNESCO.

Posto isto, pergunto-me se é possível separar a arquitectura dos monumentos da sua função contemporânea e parte crucial da sua história elegendo-os como Maravilhas que “constituem expressão de forma i­mpar como os Portugueses se inseriram em terras e comunidades muito diversificadas do ponto de vista étnico, cultural, linguí­stico e religioso” (Texto de António Vitorino (PS), o comissário do concurso, no site do concurso).

A omissão, negação e manipulação de episódios indesejáveis da história é uma prática frequente em regimes totalitários. Não se entende que 35 anos depois do 25 de Abril se recorra, em Portugal, a estes métodos de negacionismo apagando de propósito parte da história da expansionista marítima portuguesa. O facto que o concurso tem o patrocí­nio da Presidência da Republica, o apoio do Ministério da Cultura, Ministério da Educação, Instituto Camões e da Universidade de Coimbra e, além disso, conta com media partners como os jornais Diário de Notí­cias e Jornal de Notí­cias, sugere que uma parte da elite intelectual e polí­tica portuguesa partilha uma tal percepção selectiva da história do seu paí­s.

O governo de José Sócrates quer estabelecer em Lisboa um centro cultural africano para reforçar a ideia que Portugal ser uma ponte privilegiada entre Europa e Ãfrica. Internacionalmente, sobretudo no continente africano, esta pretençã teria muito mais credibilidade, se Portugal assumisse toda a sua história em relação a África e aos africanos, sem apagar a sua participação no tráfico de escravos.

Com os meus melhores cumprimentos

Gerhard Seibert

 vergonha de portugal


Construindo o nosso futuro


William Felix Souza e Silva, aluno da Escola Estadual Professora Maria de Magalhães Pinto, em Igarapé – MG

O planeta Terra existe há bilhões de anos. Mas, devido ao crescimento populacional, ficou mais difícil combater a fome. A maioria das pessoas tem o que comer, mas uma grande parcela da humanidade não tem, causando o aumento da população que sofre com a desnutrição. Para conseguirmos combater a fome, precisamos nos preocupar com a preservação ambiental, porque aí teremos mais árvores, bichos, rios e ar puro para respirar. Com mais árvores e mais frutos, teremos menos pessoas com fome. Com a preservação dos bichos, manteremos viva a cadeia alimentar, que deixará em equilíbrio a natureza. Com menos poluição dos rios, poderemos ter mais água doce para consumir, mais ar puro para respirar e evitaremos diversas doenças relativas ao sistema respiratório. Os agricultores estão ficando descontentes por causa do aquecimento global, que está tornando a Terra às vezes muito quente, às vezes muito fria. Isso, consequentemente, atrapalha a previsão do tempo. Eles plantam, vem a seca e tudo seca. Vem a chuva e inunda tudo, fazendo diminuir a produção de alimentos. Se existir harmonia entre o homem e a natureza, , com certeza, conseguiremos também a paz em todos os cantos do mundo. Se as pessoas da cidade e do campo estiverem unidas com o objetivo de preservar o meio ambiente e evitar desperdícios de água e alimentos, certamente, conseguirão salvar o planeta e colocar alimento nos pratos das pessoas.

Adeus ao Pão e Circo

Eventos considerados recentes escapam à consciência com extrema facilidade


Armando Correa de Siqueira Neto – Psicólogo, consultor em gestão de pessoas

O Império Romano, famoso por sua história singular, também mereceu destaque pela astúcia demonstrada no controle da população, utilizando-se da política do pão e circo (panis et circenses) para desviar a atenção popular das questões sociais de suma importância. Considerável número de dias era reservado aos espetáculos de corridas e lutas, além do pão que era distribuído. Assim, a cabeça ficava à mercê da distração em vez de manter-se ocupada com a reflexão, sobretudo a política.

O modelo de entorpecimento da massa resistiu ao tempo – diferentemente de tantas obras filosóficas que se perderam no pó do esquecimento – e chegou às culturas contemporâneas. A propósito, o Brasil mostrou-se bastante afeito ao jeitinho “inebriar para sossegar”, valendo-se especialmente do carnaval e do futebol. Foi assim que muita falcatrua política caiu no esquecimento dos eleitores: escândalo dos Correios (2005); mensalão (2005/2006); dólar na cueca (2005); Operação Dominó (2006); caso Renan Calheiros (2007); escândalo dos cartões corporativos (2008); e Operação Satiagraha (2008/2009). Há inúmeros outros casos (rombo do Banco do Brasil em 1821, quando dom João VI retornou a Portugal com algum no bolso), mas a ideia foi a de mostrar que eventos considerados recentes escapam à consciência com extrema facilidade e que apenas o pão e o circo conseguem turvar a claridade que sempre penetrou por meio de frestas e quase nunca por meio da janela totalmente aberta. Fotofobia moral?

Mas como tudo tem começo, meio e fim, assim também sucedeu ao tal jeitinho entorpecedor brasileiro. O seu encerramento, no entanto, não se deveu à melhora evolutiva na política. Não. Houve piora. Logo, é devido dizer adeus ao pão e o circo, que foram engolidos, sem qualquer esboço de reação, por uma nova e ainda mais eficaz maneira de atordoar os adeptos da autoilusão política. Trata-se da substituição de um escândalo por outro de modo contínuo e incessante. Ou seja, não há intervalo suficiente, nem para piscar os olhos. Em suma, o show tem que continuar. E continua.

As falcatruas vicejam. São safras abundantes. Mal dá para acompanhar as colheitas. Então, a zonzeira finca a estaca e permanece nos campos mentais sem dar o menor sinal de despedida. Porquanto emerge uma questão crucial para completar o cenário aqui descrito: Quem faz o papel de espantalho, cuja serventia há tempos inexiste tanto para os corvos quanto os maliciosos urubus?

Eventos considerados recentes escapam à consciência com extrema facilidade

Armando Correa de Siqueira Neto – Psicólogo, consultor em gestão de pessoas
O Império Romano, famoso por sua história singular, também mereceu destaque pela astúcia demonstrada no controle da população, utilizando-se da política do pão e circo (panis et circenses) para desviar a atenção popular das questões sociais de suma importância. Considerável número de dias era reservado aos espetáculos de corridas e lutas, além do pão que era distribuído. Assim, a cabeça ficava à mercê da distração em vez de manter-se ocupada com a reflexão, sobretudo a política. Com o crescimento urbano vieram também os problemas sociais para Roma. A escravidão gerou muito desemprego na zona rural, pois muitos camponeses perderam seus empregos. Essa massa de desempregados migrou para as cidades romanas em busca de empregos e melhores condições de vida. Receoso de que pudesse ocorrer alguma revolta de desempregados, o imperador criou a política de oferecer aos romanos alimentação e diversão. Quase todos os dias ocorriam lutas de gladiadores nos estádios (o mais famoso foi o Coliseu de Roma), onde eram distribuídos alimentos. A população carente acabava esquecendo os problemas da vida, diminuindo as chances de revolta.

O modelo de entorpecimento da massa resistiu ao tempo – diferentemente de tantas obras filosóficas que se perderam no pó do esquecimento – e chegou às culturas contemporâneas. A propósito, o Brasil mostrou-se bastante afeito ao jeitinho “inebriar para sossegar”, valendo-se especialmente do carnaval e do futebol. Foi assim que muita falcatrua política caiu no esquecimento dos eleitores: escândalo dos Correios (2005); mensalão (2005/2006); dólar na cueca (2005); Operação Dominó (2006); caso Renan Calheiros (2007); escândalo dos cartões corporativos (2008); e Operação Satiagraha (2008/2009). Há inúmeros outros casos (rombo do Banco do Brasil em 1821, quando dom João VI retornou a Portugal com algum no bolso), mas a ideia foi a de mostrar que eventos considerados recentes escapam à consciência com extrema facilidade e que apenas o pão e o circo conseguem turvar a claridade que sempre penetrou por meio de frestas e quase nunca por meio da janela totalmente aberta. Fotofobia moral?

Mas como tudo tem começo, meio e fim, assim também sucedeu ao tal jeitinho entorpecedor brasileiro. O seu encerramento, no entanto, não se deveu à melhora evolutiva na política. Não. Houve piora. Logo, é devido dizer adeus ao pão e o circo, que foram engolidos, sem qualquer esboço de reação, por uma nova e ainda mais eficaz maneira de atordoar os adeptos da autoilusão política. Trata-se da substituição de um escândalo por outro de modo contínuo e incessante. Ou seja, não há intervalo suficiente, nem para piscar os olhos. Em suma, o show tem que continuar. E continua.

As falcatruas vicejam. São safras abundantes. Mal dá para acompanhar as colheitas. Então, a zonzeira finca a estaca e permanece nos campos mentais sem dar o menor sinal de despedida. Porquanto emerge uma questão crucial para completar o cenário aqui descrito: Quem faz o papel de espantalho, cuja serventia há tempos inexiste tanto para os corvos quanto os maliciosos urubus?

Chek-up 3.0



por Toni C.*

Bateria de exames



Exame do pezinho, sem tropeços.
Taxa de literatura no cérebro acima do desejado.
Óculos grossos, já gastos, mas segue enxergando longe.
Memória funciona com auxílio de aparelhos. Escreve, grava, filma para registrar os momentos.
Índice de coliforme fecais na cabeça excepcional. Aduba as idéias.
Sangue B, com alta taxa de glóbulos vermelhos. Vermelha ideologia.
Descobriu que quem descobriu os glóbulos brancos foi um negro.
Tratamento com remédio tarja preta, obteve efeito temido: melanina na consciência escureceu a pele.
Eletrocardiograma acusa coração bom, grande e duro, recomendado exercícios para deixa-lo mais suave.
Pulsação não se altera mesmo sob altas doses de adrenalina.
Deve intensificar atividades físicas que pratica: jogar basquete, pedalar, caminhar…
Auto-estima funciona no fígado, com capacidade de regeneração.
Oreia seca, canela fina, cabeça nas nuvens, pés no chão, joelhos ralados.
Folgado, ligeiro, marrento.
Nervos de aço, hip-hop na veia, alma lavada.
Testar a febre é besteira. Sempre gelado.
Humor sarcástico, disposição de muleque, rebeldia juvenil.
Extração de líquido da espinha constata, maloqueiro até à medula.
Seus tímpanos funcionam melhor do que a traquéia.
Bom estímulo a reflexos, não apresentou estímulos as coisas fáceis.
Exame em esteira não realizado, paciente se recusa a guarda repouso.
Dorme pouco, sonhador.
Boa cicratização das feridas.
A perversidade são filtradas pelos rins.
Conformismo eliminado na urina.
Esqueleto firme, as costas arcadas com o peso do mundão, postura crítica.


Enfermidades
Nenhuma doença crônica detectada, mas faz crônica sobre as doenças.
Tem alergia a mentira, falsidade e mediocridade.
Estômago sensível a hipocrisia.
Não apresenta indícios de diabete, colesterol nem simpatia.
Mãos Calejada pelo trabalho, é doença hereditária.
Pulmões carregados de poluição paulistana.
Taxa de voluntarismo em queda.
Marcar cirurgia para a retirada de preconceito, tumor malígno.
Saco escrotal cheio, pelo descaso do serviço público de saúde.
Não tem nenhuma hérnia, mas tem muitos discos.

Dieta
Tem mais apetite que vaidade. Recomenda-se continuar comendo bem.
Altamente recomendável engolir menos sapo.


Tratamentos submetidos
Radioterapia.
Teste do dia-a-dia, em andamento…
Ingestão de teoria revolucionária em doses homeopáticas.

Alta probabilidade de morrer atropelado por trem, mania de andar nos trilhos.

Diagnóstico
Paciente.
Contraria as estatísticas.
Cuidado!
Vivão como nunca!




*Toni C., DJ e produtor. Autor do vídeo documentario “É Tudo Nosso! O Hip-Hop Fazendo História”, organizador do livro “Hip-Hop a Lápis” e membro da Nação Hip-Hop Brasil e da equipe do Portal Vermelho.


Moral e ética

Sócrates percebeu que o corpo humano difere do homem


João de Freitas -Professor universitário, escritor

Adquire-se moral na família (educação do berço), na escola, quando continua o lar, e, na sociedade, com seus costumes, tradição, leis jurídicas vigentes. Entre as características dos tempos modernos está a turbulência nas fontes da moralidade. Deus louvado, meus professores de medicina eram vultos imorredouros da ciência médica, cânones do profissional honesto e responsável, com o amor no coração e a competência nas substâncias nervosas encefálicas. Certa vez, perguntei a sabedor da filosofia onde encontrar conhecimento sobre o que sou. Resposta imediata: vá à Grécia, Atenas, século 5 a.C., de Sócrates, mestre que fundou a filosofia e a ética, esquecidas ou distorcidas pela posteridade. Falta-nos DNA para identificá-las dentro da balbúrdia da cultura ocidental contemporânea.

Sócrates percebeu que o corpo humano difere do homem. Porventura, alguém admite corpo humano procurando saber por que o céu é azul, o que vai fazer o ar que lhe entra pelo nariz, e o que pretende a raiz ao adentrar no solo? Por acaso alguém aceita que o corpo humano seja capaz de admirar a beleza da flor e, ao mesmo tempo, temer a maldade da morte? É certo que corpo humano significa um e homem (varão e varoa) significa outro. Sócrates avançou: corpo humano, o que o homem tem, não o que o homem é. Consequência saliente desse achado socrático está na verificação de que toda diferença entre homem (varão) e mulher (varoa) está no nível do corpo (soma) que eles têm, não no nível da alma (psyché), que eles são: masculino e feminino são o corpo, não o homem. Portanto, varão e mulher estão na mesmíssima altura de dignidade.

Um flash da genialidade de Sócrates vem logo em seguida, quando funda a filosofia e a ética: vemos o corpo humano quando olhamos para o homem, ao revés de vermos o homem quando olhamos para o corpo humano, porque esse corpo se comporta de acordo com o que ele é, não de acordo com o que é o homem. A ética aparece, qual claridade do amanhecer, para impor ao corpo humano o comportamento segundo o que o homem é. Agora, se olho para meu corpo, vejo-me, sou consciente de mim e feliz comigo. Isso é a vida propriamente dita, que temos em comum com Deus. O que se tem chamado vida é a vida biológica, que temos em comum com os animais (nascer, respirar, nutrir-se, crescer, desenvolver, reproduzir, envelhecer, morrer).

Repare-se, moral, honestidade exprime conduta conforme os costumes, a tradição, as leis jurídicas vigentes. Ética, eticidade, virtude, sabedoria expressam procedimento em conformidade com o que somos. Ao chamar o médico, na prática do aborto de aético, afirmo que ignora a pessoa que ele e seus pacientes (gestante e concepto) são, e que sua atitude tem a singeleza de criança inocente: trata-se de corpo humano feminino, que conheço, cujo problema é um útero grávido, ou seja, útero cheio, que sei como esvaziar.

Realidade urbana

Fernanda Gomes mostra instalação interativa, exposição fotográfica e vídeo criados no cotidiano da cidade


Sérgio Rodrigo Reis

Primeiro, a artista plástica Fernanda Gomes testou sua arte em plena Praça da Estação, no Centro de BH. Durante dois dias, as pessoas entravam em caixa de grandes dimensões e, lá dentro, eram surpreendidos pelos aplausos de uma plateia virtual. Todas as reações eram observadas, em tempo real, na televisão instalada do lado de fora. O resultado da intervenção deu origem ao vídeo que é uma das peças-chave da exposição Não sei ser rótulo, em cartaz no Museu de Artes e Ofícios (MAO).

Além do vídeo e da instalação, a artista apresenta, na galeria do MAO, fotografias realizadas a partir da observação do cotidiano da capital. Durante oito meses, ela usou as ruas como laboratório para série fotográfica. “Vimos uma minoria de pessoas que se preocupa com as tendências da moda, na tentativa de reafirmar a identidade. A grande maioria fica totalmente à margem da situação.” As trinta imagens, selecionadas entre centenas, são reflexo do que a artista encontrou no espaço urbano.

Inicialmente, o público verá fotos de detalhes das roupas e, no verso, a fotografia dos proprietários. “Mostro, por exemplo, uma camisa onde se lê ‘surf fatal’. No verso, vem a surpresa: quem a veste é uma senhora de idade.”

A intenção de Fernanda Gomes é questionar a recepção da arte nas ruas e no espaço da galeria. “Um trabalho interativo, dentro da realidade brasileira, tem pouquíssimo acesso. Essa é a discussão que levanto. O visitante vai à galeria esperando uma experiência. Já nas ruas, quando se instala um trabalho, a reação é a surpresa. De repente, as pessoas se deparam com algo que não faz parte do cotidiano delas.” A experiência acabou gerando situações hilárias. “Alguns se tornaram performáticos ao entrar na instalação, revelando um pouco mais de si.” O resultado da ação e reação virou curioso vídeo, que agora o espectador pode conferir de perto.

Não sei ser rótulo
Instalação interativa, exposição fotográfica e exibição de vídeo no Museu de Artes e Ofícios, Praça da Estação, s/nº, Centro. Aberto às terças, quintas e sextas-feiras, das 12h às 19h; quarta-feira, das 12h às 21h. Sábado, domingo e feriado, das 11h às 17h. Até 3 de maio.

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Melhor evento do ano!!Vale a pena conferir!!!!


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Muros nas favelas do RJ. Segregação, apartação, divisão?

Segregação, apartação, divisão? Ou seria apenas uma forma de conter a expansão das favelas em relação à Mata Atlântica? Os muros que estão sendo construídos em torno das favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro, mais do que gerarem debates, estão levantando dúvidas importantes. O prefeito fala, inclusive, em remoção das favelas, mas o projeto usa como justificativa a preservação ambiental. A questão é que os muros já estão sendo levantados, e os problemas sociais também já estão surgindo.

“Eu acho que é justificável pelo controle da expansão, sem dúvida alguma, quando falamos em áreas de proteção ambiental. Agora, é bom que se saiba que a expansão não acontece só nas favelas da Zona Sul. Acontece, sobretudo, na Zona Oeste. Então, a lógica de controlar a expansão nessas áreas não nos levaria diretamente a construção de muros nas favelas da Zona Sul. Isso introduz mais uma dúvida: qual é a lógica por detrás disso?”, questionou Cano.

Ignácio Cano é sociólogo graduado pela Universidad Complutense de Madrid, na Espanha. Nesta mesma universidade, realizou o doutorado em Sociologia. Fez pós-doutorado pela University of Michigan, pela University of Arizona e pela Lancaster University. Atualmente, é consultor do Observatório das Favelas e do Governo do Estado de Minas Gerais. Coordena pesquisa na Ong Conectas e na Fundação Heinrich Böll. Também é professor do curso de Sociologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Confira a entrevista.

Socialmente falando, o que explica e implica com a construção dos muros em torno das favelas cariocas?

Ignácio Cano – -Line –A proposta dos muros não é recente, já existe há algum tempo e se situa numa certa ambiguidade. Por um lado, há uma agenda ambiental, de proteção de áreas protegidas da Mata Atlântica, e de controle na expansão (até agora descontrolada) de territórios urbanos. Por outro lado, há uma agenda de segurança pública e de controle das populações que moram nesses territórios. No passado, quando a proposta foi lançada, ela gerou uma resistência muito grande em função dessa estigmatização, dessa associação entre moradores de favela e gueto. A ideia dos muros se assemelha, como Saramago já falou, à ideia dos muros de Berlim e da Palestina. Dessa vez, o governo lançou a ideia com base na proteção ambiental, que de fato é urgente.

É preciso regular a situação dos territórios e preservar as áreas de Mata Atlântica. No entanto, há uma suspeita de que a lógica desses muros não é simplesmente uma lógica de proteção ambiental, mas também inclui uma linha de segurança pública. Nós defendemos que o mesmo objetivo de demarcação de território poderia ser conseguido com uma intervenção menos agressiva, que demarcasse de alguma outra forma que não tivesse um custo econômico tão alto, nem um impacto paisagístico tão forte. Além disso, não deveria associar os moradores de favela a essa ideia de gueto. Afinal de contas, o controle da expansão de territórios depende mais da fiscalização do que da construção de limites. Acredito que isso poderia ter sido feito de uma forma mais simples e menos agressiva.

A construção dos muros influencia de que forma a violência gerada neste espaço?

Ignácio Cano – Ela pode ser usada como uma estratégia de contenção, por exemplo, quando há uma operação policial nas favelas. É relativamente comum que membros de grupos criminosos fujam para as áreas do mato. Os muros poderiam ser usados para fechar esses acessos. Então, poderiam haver operações, de forma que não pudesse haver uma fuga das comunidades. Mas, se os muro forem usados com esse intuito, sem dúvida alguma sofrerão ataques, desmontando em alguns locais. A manutenção para esse tipo de muro será muito alta e será um plano inviável. Então, acredito, se eles forem usados de fato como uma ferramenta para segurança pública, irão sofrer ataques e acabarão sendo destruídos num prazo relativamente breve.

Os muros em torno das favelas cariocas podem ser ambientalmente justificáveis?

Ignácio Cano – Eu acho que é justificável pelo controle da expansão, sem dúvida alguma, quando falamos em áreas de proteção ambiental. Agora, é bom que se saiba que a expansão não acontece só nas favelas da Zona Sul. Acontece, sobretudo, na Zona Oeste. Então, a lógica de controlar a expansão nessas áreas não nos levaria diretamente a construção de muros nas favelas da Zona Sul. Isso introduz mais uma dúvida: qual é a lógica por detrás disso?

Para alguns setores da sociedade, de classe média, a ideia de contenção das favelas, historicamente, era, na verdade, de remoção. Isso foi feito, em parte, pelo regime militar, de uma forma muito autoritária. Hoje em dia, não há uma viabilidade política ou econômica para essa política da remoção, mas a ideia de contenção vai de encontro ao imaginário de parte da população, ao invés de conter as favelas.

Na verdade, trata muito mais de planejamento urbano e, portanto, de evitar a expansão descontrolada em todo o território. Acredito que isso possa ser feito com outras ferramentas, sobretudo com fiscalização, que não exigirão a construção de muros que tenham as desvantagens que apontei inicialmente.

A construção dos muros pode ser considerado uma forma de apartação?

Ignácio Cano – Essa é a questão, ou seja, quando você constrói um muro de três metros de concreto está colocando um de um lado e outro do outro. É preciso evitar que a população se expanda, o que, do ponto de vista do planejamento urbano, pode ser razoável. No entanto, há uma outra associação em relação às pessoas que moram lá dentro, o que é muito negativa para elas. O governo está negando, por enquanto, essa associação, mas há suspeita de que, além da agenda ambiental, há essa outra agenda que é negativa para as pessoas dessas comunidades.

Por que apenas os jornais cariocas e internacionais estão debatendo essa questão?

Ignácio Cano – Acho que o Brasil tem debatido até certo ponto. Tenho recebido ligações de revistas e jornais de outros estados. É claro que é um problema tipicamente carioca, mas é um problema nacional. O governo está ciente dessa polêmica e das controvérsias. Por isso, está tentando frisar essa lógica ambiental e que os muros não irão cercar totalmente as favelas. Penso que o governo está ciente que as significativas geram uma certa resistência.

Conter a expansão das favelas é necessário?

Ignácio Cano – Mais do que conter, existe a questão do planejamento urbano. Pode haver uma certa expansão, mas não pode ser descontrolada. Na favela, a grande vantagem é que podem construir para cima. Isso tem acontecido de forma sistemática, mas é preciso também respeitar normas de segurança para as pessoas que moram lá. Mais do que conter, a ideia é planejar o tecido urbano de forma que a expansão não seja descontrolada. Isso vale para todo o território, pois, como falei antes, a grande expansão hoje não acontece nas favelas da Zona Sul, acontece nas áreas da Zona Oeste.

Que problemas sociais esses muros começam a gerar?

Ignácio Cano – Começam a gerar essa sensação de gueto e de cercamento de comunidades, que já existe, porque de fato vivemos numa sociedade dividida. Até certo ponto é segregada, onde, por exemplo, moradores das áreas novas de classe média não podem ir livremente às favelas e os moradores das favelas não podem ir livremente em outras favelas, muitas vezes. Então, os direitos básicos de locomoção já estão limitados e o grau de segregação urbana é bastante grande. A particularidade do Rio de Janeiro também é que essas áreas segregadas são de uma dimensão muito reduzida, então existem pessoas ganhando um ou dois salários mínimos por mês morando muito perto de pessoas que ganham 20, 30 salários mínimos. Essa microsegregação é muito característica do Rio de Janeiro, mas ela já existe. Os muros vêm contribuir simbolicamente com essa imagem de separação, divisão entre as populações.

Todas as favelas que serão cercadas ficam na Zona Sul. O que isso significa?

Ignácio Cano – Isso pode ser interpretado de várias formas. A mais óbvia é que o Poder Público dá atenção basicamente ao que acontece na Zona Dul. A violência, por exemplo, que acontece na Zona Sul tem muita repercussão, gerando política pública, mobilização social, além de muitos artigos e matérias na imprensa. E o que acontece nas favelas, sobretudo da Zona oeste, apenas gera impacto social. Então, isso vale para a violência, para investimento urbano, para tudo. Nossa sociedade é muito desigual do ponto de vista individual, territorial, e o Poder Público presta uma atenção especial ao que acontece, então, na Zona Sul. Essa é a primeira leitura.

A outra leitura é: na medida em que existe essa outra agenda de segurança pública, ela também irá tentar privilegiar a segurança das populações da Zona Sul. Por exemplo, num debate que aconteceu recentemente, o prefeito voltou a colocar o termo remoção, quase banido do debate público, o que gerou um debate que tem provocado bastante controvérsia. O prefeito afirma que preciso mesmo haver debate. Mas, mais uma vez, os argumentos usados foram, por exemplo, que a Lagoa Rodrigo de Freitas, entre outros lugares, tiveram favelas removidas pelo regime militar. Os argumentos são sempre referidos ao que acontece na zona nobre da cidade.


Fonte: UNISINOS

O rapper e ex-assaltante, Afro X vira educador

da Redação

divulgaçãoCd do Afro X

Cd do Afro X

O rapper Afro-X lança hoje, 23, no Itaú Cultural, o livro “Ex-157, a História que a mídia desconhece”. A obra foi prefaciada por nomes como Caco Barcellos. Nesta autobiografia ele conta como entrou e saiu do crime e como essa vida não compensa, seu intuito é levar este aprendizado a todos, principalmente aos jovens em situação de risco. “Aprendi que o crime não compensa, que no final você é preso, morto ou acaba em uma cadeira de rodas.”

Durante o evento será realizado um debate sobre a violência com a presença do jornalista e repórter do Estadão, Bruno Paes Manso, e do advogado membro do movimento nacional dos Direitos humanos e presidente da Fundação Criança em São Bernardo, Ariel de Castro.

Também está previsto um pocket show com cinco músicas, entre elas a que dá nome ao livro. O evento começa às 19h30.

O livro

Na autobiografia, o cantor conta como entrou e saiu da vida do crime. Dos iniciais roubos de motos para

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sair do sufoco da falta de dinheiro até a ambição de todo bandido de “fazer a boa”, Cristian de Souza Augusto conheceu os dois lados da vida bandida.

A adrenalina de viver num filme policial todos os dias, o dinheiro fácil, as roupas caras, os carros de última geração e as mulheres, muitas mulheres nas garupas das motos o transformaram, por algum tempo, em quase um rei, no Jardim Calux, em São Bernardo. A ambição, os desafetos e a relação promíscua com policiais levaram o jovem pela primeira vez – em novembro de 1994 – para trás das grades. Depois, veio a fuga e outra prisão que o levou para o então maior complexo penitenciário do Brasil.

No relato em primeira pessoa, Afro-X relembra momentos que marcaram sua vida dentro e fora da cadeia. O reencontro com Dexter no Carandiru, os dias de acerto de contas, o encantamento pelo rap e a formação do 509-E em 1999. O envolvimento com a cantora Simony, as 24 horas de angústia dentro da maior rebelião da história, em 2001. O alívio em colocar os pés na rua após 7,5 anos de reclusão e o recomeço quase do zero.

Seria pretensão analisar o sistema carcerário ou todos os fatores que levam a criminalidade. Por isso, Cristian preferiu contar apenas a história de mais um jovem que, ao contrário de todas as estatísticas, aprendeu que o crime constrói apenas castelos de areia.


Afro-X

Afro-X nasceu Cristian de Souza Augusto, em 10 de novembro de 1973. De família humilde, residente do Jardim Calux, em São Bernardo, teve origem parecida com a de milhares de pessoas nascidas em periferias brasileiras. Uma realidade pobre e marginalizada, porém com muita vontade de lutar e vencer na vida.
Naquele contexto, Afro-X habituou-se às rodas de samba de pagodes de mesa entoados pelos botecos e quintais do bairro do ABC Paulista. Mais tarde, conheceu os bailes blacks da década de 1980, onde teve contato com o funk, o samba-rock e o soul. Mas a sua formação musical deu uma reviravolta quando um amigo mostrou um vinil do grupo nova-iorquino Public Enemy. Aquilo inspirou Afro-X a montar, em 1990, seu primeiro trabalho com rap: os Suburbanos, onde atuava ao lado do irmão, Bad, hoje vocalista dos grupos Di Função e Tribunal Popular. Em 2005, Afro-X partiu para sua carreira solo.

Mulheres, uni-vos

Marina da Silva
Geógrafa

A mais recente pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que as mulheres brasileiras temem mais a violência doméstica (agressões físicas e/ou psicológicas, mortes) do que um câncer ou mesmo a Aids. A prática de violência contra mulheres mancha a história da humanidade, mas ganhou caráter de ferocidade inigualável no mundo contemporâneo. Em todos os continentes, elas são vítimas dos mais variados tipo de violência: sexual, física, psicológica, econômica, cultural, religiosa, moral. Convivem com o medo, terror, vergonha e o silêncio. O fenômeno atual é tão preocupante que virou meta deste milênio na ação mundial da organização não-governamental Unite to End Violence Against Women.

No Brasil, desde meados de 2008, são colhidas assinaturas na campanha Homens unidos pelo fim da violência contra as mulheres. O engajamento até o momento é anêmico (estou sendo boazinha) quase um ano de campanha e apenas 39.992 assinaturas. Artistas, jornalistas, políticos, empresários, administradores do país, estados e municípios vêm a público assumir o compromisso de implementar políticas públicas em defesa dos direitos das mulheres, fim da violência contra as mesmas e fazer valer a Lei 11.340/06 conhecida por Lei Maria da Penha. %u201CO objetivo da campanha nacional é a mobilização dos homens pelo fim da violência contra as mulheres no país. Ao aderirem à campanha, por meio da coleta assinaturas, os homens se comprometem publicamente a contribuir pela implementação integral da Lei 11.340/06 e pela efetivação de políticas públicas que visam o fim da violência contra as mulheres%u201D.

É assustador o aumento das agressões e dos crimes bárbaros e covardes contra o sexo frágil no país. Rotineiramente, jornais estampam manchetes dando conta que mulheres apareceram mortas %u2013 esquartejadas, estupradas, violentadas, com vísceras expostas e mãos decepadas, enforcadas, decapitadas, esfaqueadas, a pauladas e a pedradas, queimadas e asfixiadas %u2013 com requintes de crueldade, com os corpos jogados em terrenos baldios, em lixões, em lagoas e ribanceiras. A idade não importa: bebês de colo, meninas, garotas, adolescentes, adultas, idosas; esposas, amantes, namoradas, filhas, mães, primas, tias, avós. O sangue faz parte das notícias sobre as atrocidades cometidas contra as mulheres no dia-a-dia. Por que a ação do Estado é tão inócua? Por que a mídia se conforma em apenas constatar o fato, com poucos veículos questionando sobre as causas a falta de proteção do Estado às mulheres? Por que tanta impunidade, tanto nas grandes como nas pequenas cidades?

O medo e vergonha silenciam as sobreviventes. A falta de punição dá força aos agressores e muitos acham justificativas para seus atos: matam por amor, ciúmes, excesso de bebidas, drogas, dogmas religiosos; perdem a cabeça por não querer pagar pensão alimentícia; não aceitam a separação, sustentando a superioridade e a força masculina. Muitas das %u201Crazões%u201D apresentadas ao delegado são grotescas: %u201Cela deixou dar baba no quiabo%u201D, %u201Cestourou a gema do ovo frito%u201D, %u201Cela se acha mais importante por ganhar mais do que eu%u201D, %u201Ctraiu-me com outro%u201D, %u201Cnão passa de uma mulher%u201D, %u201Csão inferiores%u201D etc. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), 46% das mulheres assassinadas são vítimas do marido, namorado, parceiro de momento ou ex. Pelo menos uma em cada três apanha, é violentada ou forçada a manter relações sexuais em algum momento de sua vida.

Pode-se justificar essa monstruosidade? Onde está a devida e efetiva proteção constitucional do Estado às mulheres? Elas morrem aos montes e tudo fica por isso mesmo? Que pacto é esse? Que cumplicidade abjeta é essa? De acordo com o IBGE, 70% dos crimes contra mulheres ocorrem dentro de casa; que a cada minuto quatro mulheres são espancadas pelo homem com quem mantém ou manteve uma relação afetiva; e que a cada 15 segundos uma sofre violência doméstica ou familiar.

Bandidos estão nos jornais, revistas, TVs, internet, e alguns viram enredos de filmes, livros, novelas, e ninguém fala nada. Caso fosse possível medir o grau de cultura, civilização e humanização das pessoas pela forma como o homem trata as mulheres, é possível deduzir que sequer atingimos a pré-história. Urge um mutirão para que a banalização desses atos absurdos não se instale de vez em nossa sociedade. Parafraseando Karl Marx: mulheres de todo o mundo, uni-vos! E rápido!

Caminho de Domingo

Cláudio Geraldo da Silva
Aluno do 3º período do curso de filosofia do Seminário Diocesano Nossa Senhora do Rosário de Caratinga

Anteontem era domingo, dia de missa e de descanso. Acordei às 6h, tomei um banho, escovei os dentes, coloquei minha roupa de domingo e caminhei até a pequena capela do bairro onde moro, para a missa. Nada de novidade! Afinal de contas, todos os domingos eu faço a mesma coisa pela manhã, não que eu veja a missa como uma rotina dominical, mas por estar tão habituado a fazer sempre o mesmo percurso, com as mesmas companhias, no mesmo horário, até o padre sempre é o mesmo e nesta monotonia aparente, nada me pareceu estranho. Fui, voltei e o dia correu conforme manda o costume.

O fato curioso ocorreu-me ontem, aliás, só ontem me dei conta de que algo no domingo não fora como de costume. Já me era corriqueiro ver no caminho da capela, um homem deitado na calçada de sua casa logo cedo, e sempre olhei para ele como quem olha para um bêbado, compadecido, mas sem qualquer atitude que pudesse ajudá-lo.

Naquele domingo não estava lá apenas o homem, mas também um jovem, de uns 20 anos, alto e forte, caído ao chão como um trapo. Embora eu o tivesse visto quando passei, não atribuí importância àquilo, para mim, era apenas mais um bêbado que afogara suas mágoas na noite anterior e não quisera privar-se da companhia do velho homem e resolvera passar a noite ali mesmo.Triste ignorância a minha, descobri ontem! Era ele o único filho daquele senhor.

Curioso e um tanto preocupado, sondei um vizinho acerca daquele assunto. Disse-me ele que o pai, nas suas vagas horas de sobriedade, não poupava conselhos ao filho para que este não tomasse os mesmo rumos tomados pelo seu genitor. Ouvi e calei-me. A reflexão ficou martelando em minha cabeça todo o restante do dia. O conselho, o exemplo, a atitude. Três coisas tão importantes que, fora de sintonia, são catastróficas. Pensei, refleti, formulei conceitos e depois de tanto queimar neurônios, concluí: Onde os exemplos são conceitos e não fatos, os escândalos são inevitáveis.

Pobre filho, antes tivesse ouvido o pai e não o visto. Pobre pai, antes tivesse praticado o que dizia e não tivesse dito nada. Já estou pensando no caminho de domingo. Talvez sinta alguma diferença agora, e quem sabe, observe aquilo que acontece ao meu redor, e aprenda que para cada dia há uma lição diferente e que de cada lição se extrai aquilo que se está preparado para compreender.

Brasil quer indicador para avaliar redução do racismo



Chefe da delegação brasileira na Conferência de Revisão de Durban -que vai avaliar e ampliar o acordo contra a discriminação racial definido pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2001 – o ministro da Secretaria Especial de Promoção de Políticas da Igualdade Racial (Seppir), Edson Santos, vai defender a criação de um indicador para avaliar a evolução das medidas de redução da discriminação racial.



A reunião começa amanhã (20) e vai até sexta-feira (24) na sede da ONU em Genebra (Suíça). A definição de um indicador, nos moldes do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), permitiria o acompanhamento das políticas de promoção da igualdade racial, na avaliação do ministro. A implementação efetiva dos mecanismos anti-discriminação definidos pela ONU nos países é uma das principais demandas da sociedade civil.

“O indicador seria um mecanismo que medisse a evolução da sociedade na promoção da igualdade racial a partir dos mecanismos de discriminação positiva, de formação de jovens universitários, de acesso ao trabalho, à saúde. São indicadores que nos permitiriam avaliar a redução da desigualdade racial no mundo a partir desses dados, dessas políticas”, detalhou o ministro, em entrevista à Agência Brasil.

De acordo com o diretor-executivo da organização não-governamental Ágere Cooperação em Advocacy e secretário nacional de ações com a sociedade e governo da Comunidade Bahá´í, Iradj Roberto Eghrari, nomeado relator da Conferência da ONU, a criação de um indicador específico para desigualdade racial “ainda é alvo de negociação”.

O que já está no documento prévio da reunião – e que deverá ser ratificado pelos ministros de Estado no fim da semana – é a obrigação de coleta de dados e desagregação das informações de acordo com a raça ou etnia, por exemplo.

“Esse é o primeiro passo para depois falar de índices. Alguns países estão distantes até da coleta de dados. Há países na América Latina cujo censo não diz quem é branco e quem é negro, dizem que não fazem isso porque seria uma medida de discriminação. Claro que não. Se eu não souber como o negro é tratado no hospital público em relação a como o branco é tratado, jamais vou conseguir saber como melhorar o atendimento ao negro”, argumentou.

A adoção de ações afirmativas também será defendida pela delegação brasileira, segundo Edson Santos. “Acreditamos que essas experiências para os segmentos vulneráveis do ponto de vista social são os mecanismos que abrirão oportunidades para qualificação e inserção nas carreiras mais sofisticadas do mercado de trabalho”, comentou, em referência à política de cotas de acesso a universidades públicas.

Santos acredita em uma convergência entre países ocidentais e orientais sobre os temas da reunião e afirmou que o Brasil deverá manter a “postura de mediação” adotada na Conferência de Durban em 2001. “Nosso papel deverá ser de busca de consensos para garantir avanços em torno da agenda de Durban.”

Fonte: Agência Brasil


Internet, o bem e o mal


Lya Luft


“É triste que um meio de comunicação, pesquisa,
lazer e descobertas como a internet seja
usado tantas vezes para fins tão negativos”

Com suas maravilhas e armadilhas, a internet faz parte de meu cotidiano há muitos anos: fui dos primeiros escritores brasileiros a usar computador. Com ele, a cada manhã começa meu dia de trabalho, buscas e descobertas, pesquisa e comunicação. A internet, que isola os misantropos avessos aos afetos, une os que gostariam de estar juntos ou partilham as mesmas ideias, mas também serve para toda sorte de fins destrutivos, que vão da calúnia política à vingança pessoal.

Ilustração Atômica Studio


Talvez seja uma falha, mas nem tenho site: gosto da minha privacidade, num mundo que adora os holofotes e quer ser filmado, fotografado, estar em youtube e orkut, visto por webcams ou celulares indiscretos, por vezes perversos. De um lado, o vulgar: ditas celebridades curtem viver e morrer em cena, e fazem questão de mostrar, se possível, as entranhas. Exibem-se bundas e peitos, detalhes picantes (em geral desinteressantes) da vida pessoal, frivolidades, histeria ou maledicências. De outro lado, o grave. Exemplo: rapazes filmam num celular oculto cenas pessoais com suas namoradas ou amigas e as espalham via internet; com fotografias inocentes, criam-se imagens maldosas que acabam num youtube ou orkut, para alegria dos mentalmente maldotados. É bem triste que um meio de comunicação, pesquisa, lazer e descobertas como a internet seja usado tantas vezes para fins tão negativos.

Ter um blog me cansaria: leio os de jornalistas cuja opinião vai me interessar no curso do dia e dos acontecimentos mais singulares. Mas um blog meu seria extremamente sem graça, então dispenso disso a mim mesma e meus leitores. Alguém estranhou que eu não estivesse no Orkut, no qual, por um tempo, houve, entre outras mil coisas, duas tribos: os que me amavam e os que me detestavam. Visitar um lugar assim me cansaria mortalmente, e o tédio é um de meus inimigos. Minha alegria está em curtir meus amores, os lugares que me encantam ou abrigam, os livros e a música, e a natureza. Incluo entre meus prazeres as melhores coisas que internet e televisão proporcionam. (Excluam-se programas que divulgam o patético convívio numa casa-jaula humana. Se ainda não foram filmados usando o vaso sanitário, aguardem.)

Nos questionamentos sobre crianças e adolescentes que lidam com os meios eletrônicos, tenho uma sugestão: dar-lhes discernimento para que possam entender e escolher. Continua, porém, o drama da involuntária, muitas vezes nem sabida, exposição de pessoas desavisadas à maledicência e à calúnia, à invasão não consentida da privacidade pelas câmeras, às montagens sobre fotos banais, às informações falsas que alguns julgam engraçadas – toda sorte de maldade de que as vítimas não podem se defender. Tais indignidades jamais seriam feitas em público, ou assinadas embaixo: florescem na sombra da covardia e da mediocridade, do desrespeito e de poucas luzes intelectuais.

Se é ingenuidade ou desinformação mandar via internet textos apócrifos de Clarice, Drummond ou Borges, inventar uma falsa despedida de García Márquez anunciando que está à beira da morte ou atribuir a Fernando Pessoa versinhos derramados, é cretino e mau denegrir pessoas que nem sabem o que lhes está acontecendo. Já existe uma instrumentação legal para caçar e punir pedófilos que tentam assassinar moralmente menores de idade. Agora, urge que se crie um equivalente para casos como os que acabo de citar, pois causam dor a quem não merece nem pode se explicar. E que ele seja muito eficaz: para que gente indefesa não tenha exibidas, por desaviso e inexperiência, intimidades próprias; nem se escrachem, por malignidade e deficiência mental, intimidades alheias.

Dois defeitos são inatos e incorrigíveis no ser humano, e de ambos nos livre o destino: burrice e mau caráter. O uso doentio de um instrumento tão fantástico quanto a internet, quando não é psicopatia, é uma conjunção desses dois melancólicos atributos.

Brasil : A favela no limite


O Rio de Janeiro começa a erguer muros para evitar
que os barracos continuem avançando sobre as áreas
verdes. Pode ser o sinal de que, finalmente, o poder
público resolveu deixar a demagogia de lado e
combater com seriedade o processo de favelização


Ronaldo Soares

Oscar Cabral
O DESAFIO DA ORDEM
Operário em obra do muro no Morro Dona Marta: paredões
de 3 metros contra invasões

A foto acima mostra um marco histórico. Feita no alto do Morro Dona Marta, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro, ela retrata uma radical mudança de atitude do poder público em relação às favelas. O governo do estado decidiu erguer muros de 3 metros de altura para impedir que os barracos avancem em direção à mata ou se dependurem em áreas de risco. Não demorou para que a iniciativa fosse crivada de críticas, dando conta de que a intenção das autoridades só poderia ser segregar os pobres. O caso ganhou repercussão internacional. Surgiram comparações com o Muro de Berlim e o da Palestina, para ficar em apenas dois exemplos citados em seu blog pelo escritor português José Saramago. E disseminou-se a ideia estapafúrdia de que as favelas seriam integralmente cercadas, ganhando feições de cidadela medieval. O suplemento de turismo do jornal espanhol El País chegou a publicar que os muros têm por objetivo esconder as favelas, e uma jornalista francesa procurou assessores do governo para saber que tamanho teriam os portões de acesso aos morros. Houve quem se preocupasse com o aspecto mais formal da história, defendendo a substituição dos muros por cercas vivas, e estabeleceu-se uma celeuma em torno de que espécie de planta seria mais adequada para essa finalidade. Nesse campo fértil para desvarios, a discussão ganhou um viés ideológico que desviou a questão de seu foco principal: a necessidade de conter o avanço das favelas.

Os que são contrários à ideia lembram que as favelas, principalmente as da Zona Sul, crescem pouco para os lados. A maior expansão dá-se verticalmente – há edifícios de mais de dez pavimentos em algumas delas. As que foram selecionadas para o projeto realmente aumentaram muito pouco sua área. Avançaram apenas 1,18% entre 1999 e 2008, segundo o Instituto Pereira Passos (IPP), ligado à prefeitura do Rio. O que não se leva em conta nesse raciocínio é que essa expansão ocorreu em favelas enormes, infladas por anos de descaso. E que qualquer crescimento é prejudicial à cidade. “A sensação de expansão da desordem produz um prejuízo gigantesco para o Rio. O fato de a favela estar avançando causa insegurança e desvaloriza o patrimônio da cidade como um todo”, avalia o economista Sérgio Besserman, ex-presidente do IPP. Não se trata, portanto, de ser contra ou a favor do muro em si. É óbvio que seria muito melhor se ele não fosse necessário, assim como é óbvio que, se não houver fiscalização, nenhuma barreira física impedirá novas invasões. O que o muro simboliza é a decisão de encarar com a devida seriedade o problema das favelas.

Oscar Cabral
O CAOS AVANÇA Barracos tomam conta da paisagem
no Morro Dois Irmãos: prejuízo para a imagem do Rio de Janeiro

Pesquisa do instituto Datafolha divulgada na semana passada mostrou que os cariocas entenderam muito bem a ideia central da empreitada. A maioria (60%) não caiu na esparrela de que o objetivo do muro é separar ricos e pobres. E 51% dos entrevistados de menor poder aquisitivo aprovam o muro, enquanto no resultado geral 47% são a favor do projeto e 44% contra – um empate técnico, em razão da margem de erro. Na primeira etapa do projeto, estão previstos 14,6 quilômetros de muro – pouco mais que a extensão da Ponte Rio-Niterói – e serão contempladas treze favelas (veja o quadro). Os paredões seguirão o mesmo traçado dos chamados ecolimites, definidos há quinze anos. Em favelas como a Rocinha, eles foram solenemente ignorados. Existem mais de 400 barracos fora da cerca que demarca os ecolimites, num desrespeito que prejudica não só o meio ambiente, mas também a qualidade de vida dos moradores. Não há como planejar saneamento, abastecimento de água, fornecimento de energia ou dimensionar a coleta de lixo se os barracos continuarem se alastrando.

Esta não é a primeira vez que se fala em murar as favelas do Rio. Em 2004, após uma guerra entre traficantes na Rocinha, o então vice-governador Luiz Paulo Conde defendeu a construção de paredões de 3 metros de altura em quatro favelas. O objetivo era proteger o meio ambiente e evitar que bandidos fugissem pela mata durante as ações policiais. Enfraquecido pelas críticas que recebeu, Conde recuou. Se tivesse levado o plano adiante, talvez os 89 barracos que naquela época ultrapassavam os ecolimites da Rocinha não tivessem chegado aos 415 de hoje. Outros governantes nem sequer tentaram conter o avanço. Ao contrário, por décadas o que houve foi estímulo à ocupação irregular da cidade. Esse ciclo perverso se acentuou nos anos 80, principalmente a partir da gestão Leonel Brizola, que defendeu a manutenção dos barracos e concedeu indistintamente títulos de propriedade a favelados, numa política movida pelo espírito nefasto de que favela não é problema, é solução. A partir daí, a favelização ganhou tamanho impulso que se transformou num negócio lucrativo para aproveitadores em geral e políticos em particular. Tal negócio se baseia numa lógica cruel, que mantém a população na miséria e rende dividendos aos espertalhões. Os políticos fazem questão de manter serviços públicos precários ali, porque montam centros assistencialistas e ganham votos. E os “donos” das favelas – que podem ser traficantes ou grupos chamados de milícias – se valem de seu poder de fogo para praticar toda sorte de ilegalidades e manter os moradores sob seu domínio.

Emilio Naranjo/Corbis/Latin Stock
PALPITEIROS DE PLANTÃO
O escritor José Saramago atacou o projeto: viés ideológico


O comportamento irresponsável dos governantes tem sido motivo de queixas ouvidas pelo prefeito da cidade, Eduardo Paes. Segundo ele, moradores de bairros contíguos aos morros reclamam que o poder público historicamente faz melhorias em favelas e negligencia a cidade que paga impostos. “Com isso, áreas degradadas avançam sobre o tecido urbano consolidado e o destroem. É preciso inverter esse fluxo, fazer com que a ordem existente na cidade formal se estenda às favelas”, diz. Esse quadro só será mudado quando essas áreas estiverem sujeitas às mesmas regras que valem para o restante da cidade. Integrar as favelas, portanto, é um desafio que passa pelo estabelecimento de normas. Para se ter uma ideia do trabalho que há pela frente, apenas 23 das quase 1 000 favelas do Rio têm regras para construção estabelecidas pela prefeitura. Felizmente, parece ter chegado a hora de começar a mudar essa triste realidade. Tanto a prefeitura do Rio quanto o governo estadual vêm demonstrando coragem para enfrentar sem demagogia o grave problema das favelas. Diz o governador Sérgio Cabral: “Esse é o muro da inclusão, e não da segregação. Ele significa o fim da omissão do poder público”.

CIDADANIA : Parceria pela arte


Convênio garante oficinas de cerâmica, serigrafia e quadrinhos a jovens dos centros de internação provisória, coordenadas por alunos e professores da Escola Guignard


Junia Oliveira

Marcelo Sant%u2019Anna/EM/ D.A PRESS
Nas aulas, adolescentes aprendem técnicas de composição e pintura


A experiência de artistas, professores e estudantes da Escola Guignard será compartilhada com 180 jovens dos centros de internação provisória Dom Bosco e São Benedito, nos centros socioeducativos Santa Terezinha, Santa Helena e Santa Clara e no Centro de Reeducação Social São Jerônimo, em Belo Horizonte, e no Centro Socioeducativo de Justinópolis, em Ribeirão das Neves, na região metropolitana. Ontem, a Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) assinou convênio com a Associação de Amigos da Escola Guignard para formalizar a parceria.
No projeto Arte e socioeducação, serão ministradas oficinas de cerâmica, quadrinhos, fabricação de tintas, camisetas, rádio, grafite e serigrafia.

A novidade dará aos adolescentes a chance de descobrir talentos e expandir o aprendizado. Esse é o caso de W., de 16 anos. Os traços finos e delicados sobre o azulejo mostram a destreza do garoto, que há cerca de três meses se dedica à técnica. O instrutor o convidou para participar de uma oficina, ele aceitou e, hoje, os horizontes já são outros: “Nunca pensei que pudesse gostar tanto de pintura”.

O secretário de Defesa Social, Maurício Campos Júnior, ressaltou a importância da parceria: “Quando não encontram orientação, os jovens se expressam violentamente e deixam aflorar outros sentimentos”.

Polêmica etílica

No Brasil, as bebidas alcoólicas são tratadas pelo governo de forma controversa


Sergiovanne Amaral – Jornalista

Não há dúvidas de que a publicidade de bebidas alcoólicas induz o seu consumo. As grandes marcas não gastariam bilhões de dólares para financiar campanhas publicitárias em todo o mundo, se essa afirmação não fosse verdadeira. Negar isso é não ver a essência da propaganda. O problema é quando ela passa a influenciar quem não devia; no caso, crianças e adolescentes. Mesmo com poucas pesquisas concluídas em países em desenvolvimento, como o Brasil, é consenso que a associação de valores subjetivos às marcas e sua livre exposição atingem públicos de todas as idades e fixam, com eficácia a ideia do consumo, conscientemente e inconscientemente, como ocorre com produtos diversos. Ainda assim, muitos publicitários e empresários do ramo de bebidas tentam se esquivar e se omitir de parte da responsabilidade atribuída a eles por fazer crescer o aumento do consumo de bebidas não só entre adultos, mas também entre adolescentes.

No Brasil, as bebidas alcoólicas são tratadas pelo governo de forma controversa. A Lei 9.294/96, que regulamenta a propaganda nesse nicho, define que são consideradas como tal aquelas superiores a 13º Gay-Lussac (GL), medida do teor alcoólico. A propaganda dessas bebidas estão vetadas na televisão e no rádio das 6h às 21h, como forma de preservar crianças e adolescentes. Ironicamente, a bebida mais consumida no Brasil, a cerveja, tem teor alcoólico médio de 3,5º a 4,5º GL (marcas mais comuns). É bom saber que a maioria dos acidentes e incidentes envolvendo álcool está relacionada à ela, que tem a propaganda liberada em qualquer horário.

Como a escalada do alcoolismo e do consumo de bebidas por menores é crescente, o governo Lula tentou regularizar a situação com o Projeto de Lei (PL) 2.733/08. O objetivo é definir bebidas alcoólicas a partir de 0,5º GL e enquadrar cervejas, vinhos e espumantes nas sanções já previstas na Lei 9.294. Crianças seriam menos expostas às propagandas e, conquentemente, menos influenciadas e induzidas a consumir as bebidas. O PL vai ao encontro das necessidades sociais de conter problemas causados pelo álcool, mas desagrada empresários e publicitários, que teriam redução significativa em seus lucros. Seguindo as recomendações do Ministério da Saúde e de pesquisadores, essa seria uma decisão moralizante para o mercado e para a sociedade, que visa o bem público e a diminuição do prejuízo tido por indivíduos e o Estado com problemas relacionados ao álcool. Mas publicitários alegam que o PL fere a ética do mercado, impedindo a livre expressão comercial. Pergunto-me até que ponto é saudável manter a livre expressão de grupos que lucram rios de dinheiro com a venda e publicidade de produtos, mas pouco se comprometem com o bem-estar social. Há a ética do mercado e a do cidadão (que nem sempre consegue elaborá-la ou defendê-la da melhor forma). Empresários que enviam lobistas ao governo para impedir a aprovação de leis desse tipo estão preocupados, na verdade, como o bem-estar de seus bolsos.

Os métodos usados pelos publicitários nas propagandas também é muito questionável. Um estudo da Universidade Federal de São Paulo (USP) com adolescentes de 14 a 17 anos comprovou que os estudantes mais expostos a propagandas de cerveja consumiam níveis mais altos da bebida. Eles foram expostos a 32 propagandas diferentes. As mais apreciadas eram justamente as das marcas mais consumidas pelos adolescentes. Os temas preferidos pelos menores eram relacionados a mulheres, sexo, dinheiro e futebol. As propagandas que tinham temas diferentes, como a qualidade da cerveja, ou o processo de fabricação, por exemplo, ficaram em último lugar no ranking. Isso nos faz pensar que a associação de valor e poder social ao produto faz com que as pessoas, mesmo que inconscientemente, busquem não o produto em si, mas a sensação que ele promete ou parece causar. Nego-me a acreditar que esse seja um comportamento ético e que reforce a moral de mercado, fragilizada em países como o Brasil. Como efeitos indiretos, podem ser observados a reafirmação de conceitos machistas e sexistas.

A regulamentação das propagandas de cerveja e talvez a sua restrição a pontos de venda, como ocorreu com o cigarro, parece ser uma boa medida para tentar deter o crescente consumo do álcool, mas de forma alguma pode ser a única atitude. O consumo de álcool vai continuar, com ou sem publicidade. Cabe ao governo implantar uma política eficaz que trate as bebidas alcoólicas com a importância que merecem. Tão cínica quanto a resposta publicitária e empresarial às acusações sobre a influência do consumo aos adolescentes é a postura do governo perante uma droga tida como lícita, mas que hoje é uma das três maiores causas de mortes no mundo.

Individualismo e a religião

Os pobres precisam estar unidos em torno da mesma causa


Lair Mattar – Mestre em educação pela UFMG

No Brasil, as pessoas têm preferido se apoiar nas crenças religiosas ou nas esotéricas, em vez de se organizar e de se mobilizar para lutar por melhores condições de vida para todos. Ocorre que muitos dos problemas que parecem individuais são, na verdade, coletivos. Em geral, a educação na família e na escola pouco tem contribuído para a formação de cidadãos capazes de discernimento em suas escolhas. Falta consciência de classe no país. Excetuando-se as pessoas das classes dominantes, as outras têm dificuldade em perceber sua inserção na sociedade. O que prevalece é o esforço contínuo para diferenciarem-se das mais pobres. Disso se aproveita a propaganda, que dirige seus apelos consumistas exatamente aos indivíduos que procuram sua identidade social na negação da pobreza. Houve uma tremenda inversão de valores. Quem hoje teria coragem de se orgulhar de ser pobre, porém, honesto? Talvez os jovens se admirem de que isso já tenha ocorrido. É comum que se considerem bobos e até incompetentes os que não tentam se enriquecer, ainda que por meios ilícitos. Visto por esse ângulo, pode-se afirmar que aumentou a discriminação em relação aos pobres.

Em vez da solidariedade de classe social, o que domina o imaginário do brasileiro é a ideia da ascensão social, a qualquer custo. Como o acesso ao consumo vem sendo considerado um fator de ascensão na sociedade, as pessoas compram cada vez mais, mesmo que, para isso, tenham de se endividar. Quando, no entanto, esgota o crédito, muitas delas recorrem às religiões em busca de prosperidade. A fim de atingir igual meta, outras apelam para o poder do pensamento positivo. Determinadas seitas religiosas chegaram a oficializar a imagem de um deus provedor de bens materiais aos fiéis, prometendo a obtenção da graça desejada em troca de doações em dinheiro. Há casos, inclusive, de redes de estelionatários atuando em várias delas. Os idosos, apesar de ter os direitos garantidos pela Constituição e por um estatuto, continuam sendo as principais vítimas desses aproveitadores. Isso significa que não está havendo a fiscalização necessária ao cumprimento da lei. Quanto ao engodo da solução fácil dos problemas, nem a classe média escapa. Sua opção, entretanto, é pelo esoterismo, tido como filosófico e científico, pois promete sabedoria aos seus adeptos, além, evidentemente, de riqueza e de sucesso pessoal.

A solidariedade de classe social é imprescindível para que a democracia brasileira seja consolidada também no plano econômico. Os pobres precisam reconhecer-se como pares e lutar juntos, para alcançar as conquistas econômicas e sociais de que necessitam. Brecht, em um dos seus poemas, expõe essa questão de forma magistral: “E os sofredores mesmos partilham dessa dureza contra si e deixam que/ lhes falte bondade entre si./ (…) Todos os que meditaram sobre o mau estado das coisas recusam-se a apelar/ à compaixão de uns por outros. Mas a compaixão dos oprimidos pelos/ oprimidos é indispensável./ Ela é a esperança do mundo”. (Poemas 1913-1956. SP: Ed.34, 2000).

Mudanças no vestibular

Geraldo Magela Teixeira – Reitor do Centro Universitário UNA

Não sei se as anunciadas mudanças na forma de ingresso dos brasileiros no ensino público superior serão implantadas este ano, como tanto deseja o ministro da Educação, Fernando Haddad. As universidades, em geral, são refratárias a mudanças, mas desta vez foi surpreendente o nível de aceitação com relação a substituição do vestibular pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), como também surpreendeu a prudência com que a maioria dos reitores resiste ao assodamento do ministro ao ir soltando as mudanças em conta-gotas e a tentativa de implantá-las imediatamente. A educação brasileira já deve muito a este jovem e talentoso ministro, mas, no se que refere a uma mudança tão radical e traumática, a pressa é injustificável, a não ser que as coisas estejam sendo atreladas a um calendário eleitoral.

A substituição do vestibular de cada universidade por uma prova nacional única, aproveitando a experiência do Enem, melhorando-o e tornando-o mais abrangente, é um passo decisivo na tumultuada trajetória da forma de ingresso no ensino superior. Com efeito, a história do vestibular começou com as vagas sendo distribuídas a uma elite restrita ou por ela compradas. Em 1911, foram introduzidas as bancas com exames orais e, em 1925, começaram a ser fixadas as vagas por curso. Na década de 1940, foram-se introduzindo as provas escritas, inicialmente feitas por área de conhecimento, implantando-se finalmente o vestibular, cobrindo as oito disciplinas básicas do ensino médio. Dado o crescente número de candidatos, as provas passaram a ser eliminatórias. Os alunos eram aproveitados no limite das vagas estabelecidas para cada curso, o que gerou, na década de 1950, um contingente explosivo de excedentes, a grande massa de manobra da União Nacional dos Estudantes (UNE). Eram candidatos que passavam, obtinham médias satisfatórias, mas não havia vagas para eles. O movimento dos excedentes assumiu proporções gigantescas, tomou as ruas, levando a ditadura militar, já em 1964, a implantar uma solução simplista, que vige até hoje. Se o problema são os excedentes, acabemos com eles estabelecendo, em lugar do vestibular totalmente classificatório, uma seleção eliminatória. Preenchidas as vagas, os restantes simplesmente não passaram, embora com notas a centésimos de distância do felizardo matriculado na última vaga. A sociedade foi aos poucos aceitando essa nova realidade, inclusive porque cresceu a rede particular e os que não se matriculam na rede pública acabam encontrando espaço em universidades particulares que foram surgindo.

A proposta do ministério me sugere algumas reflexões: 1) a unificação das provas realizadas em nível nacional nos mesmos dias e horários, com o candidato concorrendo a uma vaga em qualquer universidade brasileira, libera os mais preparados para a melhor escolha, sem precisar de fazer uma maratona de provas. Se os candidatos do Sudeste tomarem as vagas dos candidatos do Norte e Nordeste, que se melhore o ensino médio por lá, para que se inverta a situação; 2) para que a nova prova tenha impacto no ensino médio, será necessário que ela meça não apenas “competências gerais”, mas também conhecimento aprofundado das disciplinas. O conhecimento não pode ser substituído pela capacidade de resolver os problemas. Ele é cumulativo, nem sempre pode ser substituído por brilhantes instituições; 3) creio que um dia o novo Enem há de fixar uma nota mínima para que o candidato possa ingressar na universidade. Isto, sim, vai impactar definitivamente no ensino médio. Antes que cheguemos a tanto, longa vida para os cursinhos, que passarão de pré-vestibulares para pré-Enems.

Hot Black: Noticias Aperipê – Renasce a Fênix

*Hot Black é Líder do grupo Mensagenegra, MC e produtor; é um dos fundadores da posse Famíliativista. Apresentador do programa Periferia na TV Aperiê-SE.


Salve geral aos hiphopeiros a lápis que sempre buscam informações nestas colunas/artigos… Escrevo daqui… Terras aperipê pra contar como ocular periférico, um entre centenas de milhares que foram conferir de perto o Fênix renascer. Vamos ao começo…



Fiquei sabendo por meu mano André do RAP que esse show aconteceria e que ele havia falado com a produção do evento sobre o show ser filmado pelo programa Periferia, que apresento na TV Aperipê. Para ser mostrado como matéria exclusiva, já que não são muitas mídias que têm acesso a shows de rap sem algumas restrições. Conversei com Diretora-Presidenta da TV – Indira Amaral – e ela sinalizou positivo para a minha ida ao evento. Firmei contato com meu mano e parceiro o Toni C. – um dos principais colaboradores do nosso Programa – e o convidei: ele topou… Só faltava chegar o dia!


Chega o dia D
Pela mídia responsável em divulgar o evento acompanhei todos os informes sobre o show e fui pensando como registrar esse momento tão esperado por todos os fãs e admiradores. Muito aguardado até pelo próprio Dexter, que não escondeu isso de ninguém.


Com horário marcado para subir ao palco, o público já o esperava daquele jeito, aquecidos das atrações anteriores, dentre estes o DJ KL Jay, dispensa comentários. Chamado o oitavo anjo ao local a qual ele não pisara há 8 demorados anos. Foi emocionante! Com minha câmera ligada em um plano e do Toni C em outro registramos o que olhos viram ou gostariam de ter visto se pudessem. Dexter – o Fênix – surge no palco da Peruche com uma disposição pouco vista em eventos anteriores e provou que, de fato, estava exilado e não preso como muitos pensam. Surpresas após surpresas e com convidados de peso a passarem pelo palco naquela noite. Eu estava entre uma matéria de programa e um registro memorável do ressurgimento do rap nesses últimos anos.


“A fúria negra ressuscita outra vez”
A primeira música nunca teve tanto significado, quanto naquele momento:

“Acharam, que eu estava derrotado.
Quem achou estava errado(…)
Ao contrario do que você queria,
tô firmão, tô na correria(…)
seu pesadelo tá de volta…”

Mostrando suas verdades, ele surpreende vestindo uma camiseta estampada a figura do Barack Obama, dando neste gesto, ao povo, paridade em imagens, também estampadas nas camisetas dos manos e manas como as de Malcom X, Martim Luter king, Zumbi e tantos outros negros que na América lutaram por direitos e liberdade. Compreendendo o papel político que estamos envolvidos mesmo sem perceber.

E segue o show
Cada convidado com a sua felicidade estampada na face e expressada por palavras e foram muitas as palavras ali colocadas – destaco uma fala do GOG quando afirmou que Dexter é o Mandela brasileiro.

Dexter pode perceber a força das suas mensagens que de lá de dentro pôde aproxima-lo de jovens por todo o país.

É! Aquela noite foi e será memorável pra os novos rumos da música rap em nosso país. Mano Brown falou:
– Dexter representa o novo e o novo num tem miadeira.

Ao mesmo tempo em que mostrou um pouco do que prepara para o disco dos Racionais Mc´s, canções cheias de ritmo e mensagens diferenciadas do comum anos anteriores.

Foi em busca disso tudo que fui a São Paulo naquele dia 11 de abril de 2009, ser testemunha ocular dessa pagina da historia do rap nacional no novo século.

Ao Dexter, meu muito obrigado pelo belissimo show. Ao Toni C. 100 palavras. A Indira Amaral, num vô nem falar (risos). Enquanto ao registro das imagens logo mais vocês todos poderam assistir na TV e no site da Aperipê. Mas para antecipar uma pouquinho, postamos uma prévia na internet, que já tem dado o que falar.


Noticias Aperipê – nome do telejornal da TV Aperipê, primeira afiliada da TV Brasil, também alusivo a uma informação dada por alguém de Sergipe.
Olhar periférico – quadro do programa onde pessoas de diversos lugares registram e comentam suas ou produções alheias voltadas para a periferia.
O programa Periferia é exibido pela Aperipê TV, todos as sábados às 15h:30, focando a cena produzida pela periferia do Estado e Brasil.
Acesse e assista: www.aperipe.se.gov.br


Detentas de Curitiba fazem vestidos de alta costura

Frederico Vasconcelos

A modelo que desfila na foto acima –produzida pela Agência Estadual de Notícias– veste uma peça cuja grife não é uma assinatura famosa do mundo da alta moda. Nem foi costurada para circular na alta sociedade. É uma amostra do trabalho de uma dúzia de detentas de uma penitenciária do Paraná, iniciativa de voluntários que procuram valorizar, nos presídios, a função de casas de reeducação. Por entender que a experiência está afinada com o programa “Começar de Novo”, o Conselho Nacional de Justiça publicou em seu site o texto reproduzido a seguir:

A Penitenciária Feminina de Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba (PR), oferece oportunidade de trabalho às detentas. Um grupo de 12 presas recebe aulas para confecção de vestidos de alta costura. Elas produziram cerca de 45 vestidos que foram expostos, no dia 7 de abril passado, em um desfile de moda no museu Oscar Niemeyer. Iniciativas como essa são estimuladas no programa Começar de Novo, coordenado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), destinado à ressocialização de detentos.

A produção das peças foi possível graças à doação de máquinas de costura feita pelo Programa do Voluntariado Paranaense (Provopar Ação Social) e dos tecidos doados pela Receita Federal. As detentas receberam um curso especial de alta costura, que foi oferecido por dois empresários dessa área. As apenadas receberam aulas aos sábados para confecção dos vestidos,que possuem acabamento artesanal. Elas ainda estão recebendo treinamento e, ao final, aquelas que saírem do presídio receberão uma máquina de costura doada pela Provopar.

Os vestidos produzidos pelas detentas não foram comercializados. A Propovar Ação Social e os empresários colaboradores decidiram utilizar as roupas como exemplo de trabalho desenvolvido dentro de presídio. No próximo dia 28 haverá outra exposição das roupas na Escola de Governo do Paraná.

O presídio oferecerá o curso a outras detentas para permitir que elas tenham um ofício. As participantes recebem um salário que vai para suas famílias e para uma poupança que só pode ser utilizada pela própria detenta ao sair do presídio. Além disso, a cada três dias de trabalho, um dia da pena é reduzido.

Milagre comunitário

José Bento Teixeira de Salles
Em meio a tantas e tantas notícias de violências e crimes de toda ordem, é alentador tomar conhecimento, pelo jornal, da iniciativa particular de organização de uma biblioteca comunitária na Vila Paquetá, na região da Pampulha.

E essa iniciativa é ainda mais elogiável e digna de admiração quando se registra que ela foi montada por uma ex-catadora de papel e babá, Vanilda de Jesus Pereira.

Criada e coordenada por ela, a biblioteca tem 22 mil livros e acolhe, durante o dia, crianças carentes, que usam o espaço para ler e aprender. Há também atendimentos médicos e odontológicos, aulas de dança e refeições para os meninos.

A própria coordenadora revela que falta muito para ser feito, a fim de que o projeto alcance seus objetivos finais. “As paredes estão só no tijolo, as salas não têm pisos e faltam cadeiras. É importante melhorar o espaço que temos, de oito cômodos em 200 metros quadrados” – afirma Vanilda.

Na história, o que valoriza mais seu trabalho é o modo elevado e até certo ponto irônico com que ela narra um episódio que lhe valeu de inspiração para o plano de realizações. Ao ser flagrada de madrugada lendo um livro da patroa, ela foi despedida e com o dinheiro do acerto comprou seu primeiro livro, aos 14 anos, A escrava Isaura, de Bernardo Guimarães. Ela, que já tinha forte atração pela leitura, foi despertada para a possibilidade de transmitir às crianças pobres igual interesse, por meio de uma pequena biblioteca.
Melhor é o seu irônico agradecimento: “Sou muito grata a Deus e a essa mulher que me mandou embora”.
Infelizmente, são muito raros no Brasil os exemplos de uma educação de incentivo privado às realizações de caráter social e cultural.

Mas, que bom seria se alguém se despertasse para o problema e desse sua colaboração para o maior êxito do empreendimento.

A distância, o poder público, penhorado, aplaude e agradece.

DJs criticam projeto que torna diploma obrigatório

da Folha Online

Um projeto de lei, de autoria do senador Romeu Tuma (PTB-SP), visa regulamentar a profissão de DJ. No entanto, há uma polêmica em torno da medida que gera controvérsia entre profissionais da área, como a obrigação de um diploma para exercer a atividade.

Veja, neste videocast, a opinião de alguns DJs sobre o assunto.

O projeto de lei 740, de 2007, já passou pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, e teve como relatora Rosalba Ciarlini (DEM-RN).

O projeto passará por votação no plenário do Senado. Se aprovado, vai para a Câmara dos Deputados. Se aprovado, vai para sanção do presidente.

Projeto de lei que prevê diploma divide DJs


THIAGO NEY
da Folha de S.Paulo

Em trâmite no Senado, um projeto de lei gera certa polêmica ao propor a regulamentação da profissão do DJ.

07.jan.2009/Leo Caobelli/Folha Imagem
DJ Adnan Sharif, durante apresentação em um clube da Barra Funda, no início de janeiro
DJ Adnan Sharif, durante apresentação em um clube da Barra Funda, no início de janeiro

De autoria do senador Romeu Tuma (PTB-SP), o projeto é composto por dezenas de artigos. Entre os pontos que têm motivado controvérsia entre profissionais do setor estão:

1) o que condiciona o exercício da atividade de DJ a um registro prévio na Delegacia Regional do Trabalho do Ministério do Trabalho (art. 4º e 5º);

2) o que determina ao profissional a apresentação de diploma de curso profissionalizante reconhecido pelo MEC ou pelo sindicato da categoria, além de um atestado de capacitação profissional fornecido pelo sindicato (art. 6º);

3) o que prevê a participação de 70% de DJs nacionais quando um evento escalar um DJ estrangeiro (art. 25º).

Não precisa de diploma

“Um DJ não precisa ter diploma para tocar. Conheço muita gente que nunca fez escola de DJ e que sabe tocar muito bem. A esta altura, não preciso fazer aula para aprender a discotecar”, afirma o paulista Magal, 43 anos, que discoteca há 25 anos.

Residente do clube Vegas, Magal é professor de discotecagem no curso de Produção Musical da Faculdade Anhembi Morumbi. Ele já se apresentou em países como Escócia, Inglaterra, Espanha, Alemanha, França, Portugal, Argentina e Chile. Nunca fez curso para aprender a profissão.

Já Bunnys, DJ há 18 anos, defende o projeto de Tuma.

“Ninguém ainda entendeu a lei como ela efetivamente é. Mas é um ponto positivo para a profissionalização do negócio. Talvez ajude a sociedade a entender que ser DJ é uma profissão, não é um oba-oba. Por esse lado, a lei é muito importante. E serve para criar um vínculo empregatício com as empresas. Dá uma segurança maior para o DJ”, defende.
Bunnys é proprietário da escola DJ Ban, em São Paulo.

O terceiro ponto, que prevê uma espécie de cota para DJs nacionais, é considerado inócuo por gente do meio, pois a maioria dos eventos que escalam DJs estrangeiros já contam com profissionais brasileiros na escalação.

“No caso dos DJs, cuja atuação é essencialmente prática, com formação nas ruas, chega a ser um tanto esdrúxula a exigência de ‘diploma’. O legislador, a pretexto de regulamentar, soterra a graça e a beleza de uma atividade artística que nasce da transgressão e cresce por meio da prática um tanto anárquica”, escreveu Soninha Francine (PPS-SP) em seu site.

O projeto de lei 740, de 2007, já passou pela Comissão de Educação, Cultura e Esporte do Senado, e teve como relatora Rosalba Ciarlini (DEM-RN).

O projeto passará por votação no plenário do Senado. Se aprovado, vai para a Câmara dos Deputados. Se aprovado, vai para sanção do presidente.

PEGOU MAL

Simone de Castro

A estilista Glória Coelho foi, no mínimo, infeliz em uma declaração. A um jornal paulista, que abordava a proposta do Ministério Público Federal de criar cotas para modelos negros na São Paulo Fashion Week, um dos mais importantes eventos de moda do país, ela mostrou resistência à iniciativa. “Nosso trabalho é arte, algo que tem de dar emoção para o nosso grupo, para as pessoas que se identificam com a gente. (…) Na Fashion Week já tem muito negro costurando, fazendo modelagem, muitos com mãos de ouro, fazendo coisas lindas, tem negros assistentes, vendedoras, por que têm de estar na passarela?” A primeira a se manifestar foi a atriz Isabel Fillardis que, por muitos anos, foi modelo. “Ela não sabe que é preconceituosa. Vou crer nisso. Isso é preconceito. Ele só serve para servir, o negro. Para brilhar na passarela, para ser internacional, para ganhar dinheiro, como a Gisele ou como qualquer um, não pode. É horrível isso. Dói. Isso dói muito, sabe? E tenho pena. Tenho pena. Tenho, realmente”, afirmou

PRECONCEITO

ANTÔNIO ROBERTO

“Pelo fato de ser negra, tenho grande impressão que sou discriminada. Isso me traz uma sensação de inferioridade.Ajude-me!” Cíntia – Belo Horizonte

Não existe ninguém igual ao outro. Cada um de nós é único e diferente das demais pessoas. Essa singularidade se manifesta na cor da pele, no tipo físico, na condição social, na escolha religiosa, na opção sexual, na nacionalidade etc. Esse é um lado da questão. Existe outro: embora desiguais, somos profundamente semelhantes aos outros. Pelo fato de sermos gente pertencemos à família humana, no essencial nos assemelhamos. O branco não é contrário de negro, são apenas diferentes e, ao mesmo tempo, semelhantes como pessoa. As pequenas diferenças entre os seres humanos não dão o direito de colocá-los em campos opostos, como inimigos ou como superiores e inferiores.

O preconceito é fruto de dar muito valor às diferenças, esquecendo-nos da semelhança humana. Antes que negro, mulher, homossexual, rico, jovem, cristão, muçulmano, somos gente. O primeiro erro do preconceituoso é dar ênfase ao ver as pessoas no secundário. Por que enxergar a leitora como negra se, no essencial, ela possui um corpo com a mesma beleza e função de qualquer outro?

O segundo erro é a generalização. A pessoa preconceituosa situa o outro em uma classe ou categoria e perde o contato concreto com a pessoa específica. Assim, não nos relacionamos com Maria, Vicente ou Pedro, mas com o negro, o branco, o judeu, o brasileiro etc. E, ao generalizarmos, atribuímos àquelas pessoas todas as características que fantasiamos a respeito de suas categorias: “Todos os homens são iguais”. “Todos os velhos são bons”. “Os muçulmanos são terroristas”. “Os políticos são desonestos”.

A discriminação de uma raça serve a um propósito: compensar o sentimento de inferioridade daquele que discrimina. Para se sentir superior, elege no outro uma diferença que, na maneira míope de enxergar, coloca o outro na situação inferior à sua. E como o preconceito é cultural até mesmo as pessoas objeto de discriminação são também preconceituosas. A leitora tem preconceito em relação ao negro. Ela se sente inferior, tem sua autoestima enfraquecida e se esqueceu de todas as pessoas do mundo são semelhantes umas às outras.

Sérgio Pererê no Estúdio B

Netum Lima/divulgação

O cantor e compositor Sérgio Pererê (foto) será a atração de amanhã no Estúdio B Music Bar, no Bairro São Lucas. Conhecido por seu trabalho no Tambolelê, o músico vai mostrar as canções de seu disco solo, Labidumba, além de homenagear Milton Nascimento e Louis Armstrong. Belo-horizontino, aos 7 anos Pererê já tocava cavaquinho e percussão. Em Labidumba, ele explora as várias possibilidades da voz, que reproduz o som de instrumentos musicais e até de sintetizadores eletrônicos. O músico mineiro fez ampla pesquisa sobre as expressões vocais, explorando dos harmônicos tibetanos a cantos de origem africana. Ele vai se apresentar com Aloizio Horta (voz, percussão, violão e contrabaixo). O Estúdio B abre às 21h e fica na Avenida do Contorno, 3.849. Ingressos: R$ 12 (masc) e R$ 10 (fem). Informações: (31) 3283-2393 e 3225-1277.

Aborto decorrente de estupro: uma questão de humanidade




Escrito por Tereza Cristina Exner

A discussão a respeito do aborto é das mais tormentosas, já que envolve, para além de conceitos jurídicos, noções de fé, religião e, acima de tudo, a discussão sobre o direito à vida, quando ela se inicia e se pode ser em algum momento – e até quando? – interrompida.

Trata-se de tema polêmico que não sai de pauta, sendo que de tempos em tempos retorna com maior ênfase. Foi o que ocorreu recentemente em razão de notícia do aborto decorrente de estupro, realizado por uma equipe médica em uma menina de apenas 9 anos de idade, o que recebeu severas críticas de determinados setores, notadamente da Igreja Católica.

Sem pretensão de rediscutir tal assunto, já por demais abordado e explorado, e tampouco pretendendo efetuar defesa do aborto em sentido amplo, o objeto do presente artigo é enfocar o debate a respeito do aborto legal decorrente de estupro, cuja autorização se acha prevista no Código Penal em vigor, diploma legislativo dos anos 40.

É de se notar que mesmo naqueles tempos conservadores, o legislador houve por bem permitir o aborto decorrente de estupro, seguramente porque sensível à dor e desespero da mulher que, vítima de tão brutal violência, vê-se, ainda, na terrível contingência de carregar ao longo de 9 meses, 9 penosos meses, o fruto de um ato cuja lembrança e memória só podem gerar profunda dor.

Ninguém questiona a beleza da maternidade, que de todo modo não está associada a uma gravidez forçada, decorrente de violência e brutalidade.

Mais do que isso, esquecem-se aqueles que se mostram contrários a tal dispositivo legal, defendendo a retirada desse permissivo da lei, que não se trata de simplesmente enxergar o valor da vida humana para além de qualquer maldade, preponderando, assim, o valor do direito à vida do nascituro, ainda que fruto de estupro.

Afinal, contra tal direito colide outro de igual dimensão, que diz com o direito à dignidade da pessoa humana, o direito à intimidade, sendo que a permissão de se realizar aborto, em caso de estupro, objetiva dar tratamento respeitoso e digno à mulher, que, muitas vezes casada, já com outros filhos, com emprego, vida social, será submetida a novos e reiterados constrangimentos.

Continuará a ser impiedosamente punida em sua condição de vítima, tendo que renovar cotidianamente sua dor, explicando a amigos e conhecidos que sua gravidez prescinde de comemorações e cumprimentos, vergonha e horror que alcançarão maiores proporções diante dos próprios filhos. Como lhes explicar que aquela criança que traz em sua barriga – irmã/irmão dos demais rebentos – não é desejada? Pior ainda, como explicar aos filhos as razões desse comportamento materno, sem gerar neles próprios dor, sofrimento e eventualmente sentimentos contraditórios de rejeição e incompreensão? E o relacionamento com o marido ou namorado ao longo desses meses? Será que não restaria abalado? E como lidar com o seu próprio corpo transformando-se dia a dia, sem que isso lhe traga qualquer sensação de felicidade?

Ora, obrigar a mulher vítima de um estupro a abrir mão de sua vida pessoal, afetiva, social e profissional, gerando-lhe possíveis danos físicos, emocionais e psíquicos, soa desumano, sob qualquer ótica e perspectiva, equivalendo retirar dessa pessoa humana qualquer direito a valores como respeito e dignidade, sob o argumento de que o feto que traz em seu ventre – expectativa de vida futura – é mais importante e valioso que a vida já concretizada e plena de reconhecimento, afeto e inserção social consolidada da própria gestante.

Implica desconhecer, por fim, a angústia e o tormento que sempre acompanham a tomada dessa terrível decisão, razão pela qual o mínimo que se pode destinar a mulheres nessa trágica situação é a possibilidade de ver sua dor amparada pelo Estado. Daí porque entendermos que essa hipótese de aborto legal – como de resto a outra prevista no art. 128, do Código Penal – deve ser mantida na legislação em vigor, anotado que se trata de mera opção concedida a cada vítima de um estupro, de forma que ela – que já não teve condições de optar pela gravidez – possa, mediante menor grau de sofrimento, resultado do apoio estatal consubstanciado na lei que lhe retira o estigma de criminosa, tomar tão penosa decisão.

Tereza Cristina M. K. Exner é Procuradora de Justiça e integrante do Movimento do Ministério Público Democrático – MPD.

Muro na favela Rocinha vai remover 415 famílias no Rio

ANDRÉ ZAHAR
da Folha de S.Paulo

O governo do Rio de Janeiro licitou na semana passada a construção de 3,4 km de muros nas favelas da Rocinha, Pedra Branca e Chácara do Céu. A obra custará R$ 21 milhões.

Na Rocinha, maior favela da zona sul, 415 famílias terão que ser removidas de suas casas durante a construção dos paredões de três metros de altura.

A equipe do governador Sérgio Cabral (PMDB) divulgou a intenção de murar 13 favelas sob o argumento de que é preciso conter o avanço das casas e barracos sobre a mata ao redor.

A construtora Midas Engenharia Ltda. venceu a licitação da Emop (Empresa de Obras Públicas do Estado do Rio), na terça passada, para a construção do muro nas três favelas.

As obras devem começar até o fim do mês. A Rocinha, em São Conrado, receberá 2,8 km de muro. Segundo a Emop, 114 famílias serão transferidas para apartamentos construídos na própria comunidade e as outras 301 vão receber indenizações.

Na favela do Parque da Pedra Branca, em Jacarepaguá (zona oeste), será feito um muro de 400 m. Já a murada da Chácara do Céu, no Leblon (zona sul), terá 250 m. As duas áreas não estavam entre as 11 previstas no início do projeto. O custo dos três muros, chamados pelo governo de eco-limites, será de R$ 2.071 por metro quadrado construído.

A associação de moradores da Rocinha se reúne hoje para avaliar a obra. O presidente da entidade, Antônio Ferreira de Melo, o Shaolin, diz que o crescimento da Rocinha é vertical e o muro não trará benefícios.

“A Rocinha hoje não está se expandido para a mata. O muro vai impedir que as crianças peguem fruta na mata e as donas de casa busquem água, enquanto a favela sofre com o problema de falta de água tratada.”
Segundo o IPP (Instituto Pereira Passos, ligado à prefeitura), a Rocinha cresceu 12 mil m2, ou 1,41%, de 1999 a 2008. Na cidade inteira, a área ocupada por favelas subiu 6,88%.

A construção de muros ao redor de favelas cariocas começou no morro da Dona Marta, em Botafogo (zona sul). Ali a empresa Vento Sul Engenharia ergue 634 m de eco-limites, a um custo de R$ 982 mil.
A iniciativa de murar favelas divide a opinião pública carioca. Conforme pesquisa do Datafolha divulgada ontem, 47% são favoráveis e 44%, contra.

Cabral, que disse em entrevista à revista “Veja” ter idealizado o projeto, minimizou as reações contrárias à proposta.

“Fiquei extremamente satisfeito ao ver que 67% da população acredita que os muros vão ajudar a conter a expansão de moradias irregulares em áreas de vegetação. Da mesma forma, fiquei muito satisfeito quando vi que 60% da população declara que a construção não vai separar ricos e pobres.”

VOZES DO MORRO

Passarela para o sucesso
Edição 2009 do programa abre inscrições amanhã para dar oportunidades e reconhecer o talento de artistas das vilas e favelas de BH, Santa Luzia, Ribeirão das Neves e Ibirité
Flávia Ayer
EMMANUEL PINHEIRO/EM/D.A PRESS
Um dos selecionados em 2008, Ivo do Pandeiro curte reconhecimento que chegou depois de 20 anos: %u2018Com o Vozes do Morro, o trabalho ficou profissional%u2019

Ivo do Pandeiro já tem três shows marcados para o mês de maio, dois deles no conhecido festival Comida di Buteco. A música de trabalho, Morro feliz, que tem entre os versos “a vida no morro é como se fosse no céu”, virou hit nas ondas do rádio. O clipe, filmado na sua comunidade, a Vila Estrela, no Aglomerado Santa Lúcia, Região Centro-Sul de BH, foi transmitido por 18 dias na tevê. Quem quiser curtir seu samba pode comprar o CD ou o DVD do músico e os interessados em contratá-lo podem ligar para a produtora que o empresaria. Mas, há um ano, não havia nada disso. A reviravolta na carreira ocorreu com a seleção de Ivo na primeira edição do Vozes do Morro, programa que visa dar visibilidade e valorizar músicas, de todos os estilos, produzidas nas periferias, vilas, favelas e aglomerados.

Talentos como Ivo do Pandeiro, que florescem entre becos e vielas, têm nova chance de se tornar conhecidos com a abertura, amanhã, das inscrições da edição 2009 do projeto. Ivo recomenda: “Estou há 20 anos no samba, mas a coisa começou a melhorar de 2008 para cá. Foi com o Vozes do Morro que o trabalho ficou profissional. Já avisei a um bocado de gente sobre as inscrições. Tenho muitos amigos que podem apostar no seu potencial.” Entre 499 inscritos, o mestre do pandeiro foi um dos 10 escolhidos no ano passado para ter música e videoclipe gravados e veiculados. Em dezembro, no encerramento do programa, subiu com os outros selecionados ao palco do Music Hall. Voltou para casa com prestígio, além de 100 cópias do CD e 100 do DVD Vozes do Morro. “Toquei no mesmo palco onde tocaram o grupo Revelação, a Beth Carvalho…”, conta.

Além de dar impulso à carreira dos artistas, o programa, desenvolvido pelo governo de Minas em parceria com o Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas) e o Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de Minas Gerais (Sert-MG), aumenta a autoestima das comunidades. “A nossa sociedade é tão exclusivista que acaba deixando de fora pessoas que têm um talento extraordinário. O Vozes do Morro tem a capacidade de transformar completamente a vida de alguns artistas. Mas o benefício maior é mobilizar as comunidades em torno do dom de seus moradores. Fortalecer os vínculos dentro da própria comunidade é o aspecto mais valioso”, avalia a presidente do Servas, Andrea Neves.

INSCRIÇÕES Podem participar do Vozes do Morro grupos musicais e artistas solo moradores de vilas, aglomerados, favelas e da periferia de Belo Horizonte, Ibirité, Ribeirão das Neves e Santa Luzia. Os músicos devem ter mais de 18 anos de idade. Os interessados podem se inscrever até o dia 30, na Secretaria de Estado da Cultura (Praça da Liberdade, 317) ou pelos Correios. Edital e formulário de inscrição estão disponíveis no site http://www.vozesdomorro.mg.gov.br. Os artistas podem concorrer com até duas músicas, interpretadas por eles próprios. Serão selecionados 10 grupos ou solistas e o resultado sai em 17 de junho.

A partir daí, o caminho para o sucesso começa a ser desbravado, com a gravação de uma faixa musical e um videoclipe, que serão veiculados em rádios e emissoras de televisão parceiras do Sert-MG. Outro prêmio é a participação dos artistas em um show gratuito, no fim do ano, encerrando o Vozes do Morro 2009. Os selecionados também ganham CDs e DVDs do programa.

NO RECICLO

Ana Alvarenga/divulgação


Festival do lixo escolhe bandas

A partir de quinta-feira, vão se apresentar no palco do Reciclo 1 as bandas interessadas em participar do 8º Festival de Lixo e Cidadania (Flic). Até 11 de junho, 18 grupos vão mostrar suas canções e hits. A cada noite, comissão julgadora formada por um representante do evento, um jurado convidado e o público vota no grupo que mais se destacar. As três mais votadas vão se apresentar no evento. Capim Seco (foto) e Estéreo Aurora sobem ao palco depois de amanhã, a partir das 21h, com repertório que vai da folia de reis ao jazz, rock e MPB. O Reciclo Asmare Cultural fica na Avenida do Contorno,10.564, Barro Preto. Ingressos custam R$ 10 (masc) e R$ 8 (fem). Informações: (31) 2535-0717.

ESTA MOÇA NÃO APRENDEU A ODIAR. ENTÃO UM TRIBUNAL RACIAL CASSOU A SUA VAGA NA UNIVERSIDADE

Por Reinaldo Azevedo

A covardia tomou conta do país, e o racismo avança .
É covarde boa parte da imprensa, que se cala diante do abuso de celerados racistas!
É covarde a Justiça, que permite que a Constituição seja violada sob o pretexto de se fazer justiça histórica.
É covarde o Congresso Nacional, que tem cedido ao lobby dos racistas.
São covardes os que, mesmo discordando das leis racialistas, se conformam com a instituição de tribunais raciais no país.
É covarde o Ministério Público — quando não é conivente — ao permitir, sem dar um pio, que direitos sejam cotidianamente agravados.

Vocês certamente leram o caso da estudante Tatiana Oliveira, 22 anos, que cursa pedagogia na Universidade Federal de Santa Maria. Apelou à lei das cotas para ingressar na faculdade. Declarou-se parda. Segundo entendi, seu pai é mestiço, e a mãe é branca.

Logo depois da aprovação, Tatiana entregou os documentos que a UFSM exige dos futuros alunos. No caso dos cotistas afro-brasileiros, é necessária uma autodeclaração do aprovado dizendo que é negro ou pardo. Tatiana fez o que foi pedido e começou as aulas normalmente. A surpresa veio no dia 18 de março, quando ela foi convocada para comparecer a uma entrevista na reitoria.
Segundo Tatiana, na reunião estavam sete pessoas, três negras. Por alguns minutos, eles a teriam questionado sobre sua raça, se já havia sofrido preconceito e o porquê da opção pelo sistema de cotas. Tatiana, filha de branca e pardo e neta de negro, respondeu:
– Eu falei que me considero parda. Menos parda do que meu pai, porque minha mãe é branca. Respondi que nunca sofri preconceito e que escolhi me inscrever no sistema de cotas porque ele dá chance para que nós, de cor parda, possamos ingressar na universidade. Falei a verdade – diz Tatiana.
Depois da entrevista, ela foi comunicada pela coordenadora do seu curso que a sua matrícula foi cancelada. A decisão revoltou Tatiana e sua mãe, a técnica em Enfermagem Adriana Oliveira.
– O que a UFSM quer? Que só entre quem já sofreu preconceito? Ninguém aqui usou de má-fé para conseguir uma vaga. A Tatiana só se inscreveu por cotas porque entendemos que era um direito dela. Mas, pelo jeito, agora teremos de definir a cor da minha filha na Justiça – indigna-se Adriana.

Voltei
Olhem a que ponto chegou a estupidez! Escrevi há uns dois ou três dias que os negros, no Brasil, são 6% da população. Um leitor, realmente curioso, indagou: “Ué, mas os negros já não são mais de 50% do país?” Não, não são, não, meu caro! Trata-se de uma mentira política e de uma farsa ideológica.

Em dezembro do ano passado, o Ipea, em parceria com o IBGE, divulgou a falácia de que os negros já são 49,8% dos brasileiros — 51,1% da população masculina. Como é que 6% viram 49,8%? Simples: pegaram os 43,8% de mestiços e somaram aos 6% realmente negros, e todos ficaram sendo “negros”. E “ser negro” está começando a virar uma categoria política no Brasil.

Esse grupo que o Ipea/IBGE pretende chamar de “negro” correspondia a 45,1% da população em 1993. Em 2007, saltou para 49,8%!!! Teria havido uma explosão de natalidade? Não! Como a pesquisa é feita com base na autodeclaração, é evidente que mais gente passou a se declarar “negra” ou, a exemplo de Tatiana, “parda” porque isso passou a ser uma vantagem competitiva.

Os números de dezembro de 2008 tinham sido parcialmente antecipados no dia 13 de maio daquele ano por ocasião dos 120 anos da Abolição. Divulgaram-se, então, dados com o perfil racial das regiões brasileiras. A vigarice é tal, que se sustenta que a Região Norte tem 85% de… negros! É um escândalo estatístico e histórico. E que pode ser percebido a olho nu. A esmagadora maioria dos “pardos” daquela região deriva da mestiçagem de branco com índio. VALE DIZER: SE, NO PASSADO, FEZ-SE UM ESFORÇO DE EMBRANQUECIMENTO DO BRASIL, HOJE, FAZ-SE O ESFORÇO DO ENEGRECIMENTO.

Antes que avance, uma observação. Não me venham com a tolice de que os números são sérios porque tirados do Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), O Pnad não determina que “pardo” é igual a “negro”. Essa é uma leitura política, não técnica. Adiante.

Comissão fascistóide
Mesmo diante dessa avalanche de mentiras, de leituras ideologicamente interessadas, não imaginei possível a brutalidade que colheu a estudante Tatiana. Não, eu não acho que ela seja “negra”. Quem diz que ela é negra é o IBGE. Quem diz que ela é “negra” é o Ipea. Quem diz que ela é negra é a política de cotas raciais. ATENÇÃO: TATIANA ESTÁ NOS NÚMEROS OFICIAIS QUE DIZEM HAVER 49,8% DE NEGROS NO BRASIL. OU BEM ELA É NEGRA E TEM “DIREITO” À SUA VAGA (SEGUNDO A POLÍTICA DE COTAS VIGENTES), OU BEM, COMO É FATO, ESSES NÚMEROS SÃO FALSOS, E A POLÍTICA DE COTAS RACIAIS FICA ABSOLUTAMENTE DESMORALIZADA. Sim, os números são falsos, e tal expediente já se desmoralizou. Mas está em vigência. E Tatiana não pode ser discriminada por uma comissão que agora decide quem é e quem não é negro. Grupos como esse foram muito ativos na Alemanha nas décadas de 30 e 40 do século passado…

Não basta ser negro…
Acontece, meus caros, que não basta ser negro; é preciso também ser vítima. Não basta dizer-se pertencente a uma minoria; é preciso também aderir à política do coitadismo. Não basta dizer-se pertencente ao grupo; é preciso exercitar um tanto de rancor. NÃO BASTA TER UM DIREITO (OU PRIVILÉGIO); É PRECISO TAMBÉM SER UM MILITANTE DA CAUSA. E Tatiana não é. Tatiana é alguém a quem foi dado um “direito” — a ela e a milhões de outros. E ela resolveu exercitá-lo.

Um certo Jorge Luiz da Cunha, pró-reitor de Graduação da universidade, que assina os documentos de cancelamento de vaga, disse o seguinte em entrevista: “Ela respondeu que nunca sofreu discriminação, que nunca se considerou parda, que se considera mais clara que outros integrantes da sua família e que, no vestibular, foi a primeira vez que se disse ‘parda’. Partindo do espírito das políticas de ações afirmativas, a comissão, que inclusive tem representantes do Movimento Negro, entendeu que ela não se sente participante desse grupo”.

Entenderam? Se o Ministério Público tiver vergonha na cara, aciona este senhor sob a acusação de abuso de autoridade. A lei das cotas raciais não exige que a pessoa se sinta discriminada ou tenha sido alvo de preconceito. O fato de haver pessoas do “Movimento Negro” — o “movimento” agora virou tribunal racial? — na comissão não torna legal a arbitrariedade. E se Tatiana tivesse mentido? Onde é que está escrito que só os sofredores têm direito a cotas?

Observem como as coisas se dão. Essa gente toma para si a Constituição e resolve reinterpretá-la ao bel-prazer, transformando a desigualdade em instrumento de justiça. Para que pudesse lograr o seu intento, reivindicou o direito de DECIDIR QUEM É NEGRO. E foi assim que os mestiços se tornaram, então, negros. Agora que lhe foi dado esse poder, executa a manobra típica das revoluções vitoriosas: começou a fase dos expurgos. E AQUELES QUE DECIDIRAM QUEM É NEGRO COMEÇAM A DECIDIR QUEM NÃO É NEGRO. Antes, diziam reivindicar um direito. Agora está claro que, de fato, eles se tornaram concessores de privilégios.

O Senado discute uma lei que oficializa o racismo no país sob o pretexto de instituir uma política de cotas em todas as escolas federais. Que preste bem atenção ao caso da estudante Tatiana. Obviamente parda, ela foi vítima de um tribunal racial. Não que a cor de sua pele não lhe dê “direito” à cota — segundo a lei vigente, dá, sim. Ocorre que o problema de Tatiana está no coração: FALTA-LHE A DOSE NECESSÁRIA DE ÓDIO, QUE É O VERDADEIRO ALIMENTO DO RACISMO. DE QUALQUER RACISMO.

Rio fará muro em 11 favelas de área nobre

ITALO NOGUEIRA
ANDRÉ ZAHAR
da Folha de S.Paulo, no Rio

Ao custo de R$ 40 milhões, o governo do Rio vai construir muros no entorno de 11 favelas. O objetivo, segundo o Estado, é conter a expansão das moradias irregulares em áreas de vegetação. Todas as áreas escolhidas, no entanto, cresceram abaixo da média em comparação às demais comunidades. O projeto, inicialmente, será implantado apenas na zona sul, área nobre da cidade.

Segundo o Instituto Pereira Passos (IPP), órgão municipal, a área ocupada por favelas na capital subiu 6,88% de 1999 para 2008. As favelas escolhidas para o projeto cresceram, somadas, 1,18% no período. No morro Dona Marta, onde o projeto está em andamento, houve redução do terreno ocupado de 0,99%. O levantamento é feito a partir de fotos aéreas e não faz contagem da população.

Rafael Andrade/Folha Imagem
Muro construído no morro Dona Marta; no total, obras custarão R$ 40 milhões
Muro construído no morro Dona Marta; no total, obras custarão R$ 40 milhões

A iniciativa do governador Sérgio Cabral (PMDB) recebeu críticas do escritor português José Saramago.

“Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do Carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura. Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?”, questionou o escritor português em seu blog.

É a mesma opinião de Itamar Silva, coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas. “O muro separa, cria guetos. Vai na contramão da nossa luta de defender que favela faz parte da cidade.”

O Estado afirma que o objetivo da medida é conter a expansão das favelas. Serão mais de 11 mil metros de muros de três metros de altura, ao custo previsto de R$ 40 milhões. As construções de uma creche, um hospital e dois centros de integração e cidadania na Rocinha (com restaurante e usina de reciclagem), por meio do Programa de Aceleração do Crescimento, custarão R$ 32 milhões.

Duas das favelas beneficiadas pelo PAC serão cercadas: Rocinha e Pavão-Pavãozinho. A primeira, em São Conrado, cresceu em nove anos 1,41%. Já a comunidade de Copacabana foi a que mais ampliou, proporcionalmente, a ocupação na zona sul: 4,76%. Mas, para o IPP, o maior crescimento proporcional foi na zona oeste (11,5%).

O presidente da Federação das Favelas, Rossino de Castro, afirmou ser contra a medida. Disse que líderes comunitários sentem medo de resistir ao projeto e que, com isso, suas comunidades sejam excluídas de projetos sociais do governo. “Ouvimos duas comunidades, a Babilônia e o Vidigal, que são contra. Mas eles têm receio de que, se não permitirem o muro, não levem os projetos para lá.”

Arte/Folha

Para Marcia Hirota, diretora de gestão do conhecimento da SOS Mata Atlântica, um muro não é a melhor forma de evitar o avanço de construções irregulares sobre a mata. Para ela, a comunidade deve se envolver na proteção das áreas verdes.

O sociólogo Ignácio Cano diz suspeitar que “há um elemento de segurança pública no muro”, escondido pelo governo para não aumentar a polêmica.

Outro lado

Presidente da Emop (empresa pública estadual responsável pelas obras nas favelas), Ícaro Moreno minimizou as críticas à construção dos muros. “O Saramago deu sua opinião e eu também posso dar a minha sobre o trabalho dele. Não vejo polêmica. Há uma aversão a muros, mas muros existem em casas, condomínios e linhas ferroviárias.”

Ele diz que, apesar da estabilidade da ocupação de algumas favelas, é preciso evitar que os moradores ergam construções em áreas de risco. “A sociedade da zona sul e das comunidades apoia. O desmatamento é ruim para todos.”

A iniciativa vai receber o apoio da Prefeitura do Rio, que cobrirá parte do gasto. Depois da zona sul, as amuradas devem ser construídas na zona norte.

O secretário municipal de Urbanismo do Rio, Sérgio Rabaça Moreira Dias, nega que a implantação de muros em favelas da zona sul seja uma forma apenas de isolar a pobreza. Segundo ele, o foco é ambiental.
“As barreiras estão orientadas pelas áreas de maior concentração [demográfica] e pela localização das áreas de risco e de preservação ambiental.”

A construção dos muros também tem apoio do presidente da associação de moradores do Alto Gávea, Luiz Fernando Pena. Entre 1979 e 1982, a associação construiu um paredão de 550 metros que, diz ele, evitou que a Rocinha avançasse para o Leblon.

“É uma coisa favorável à qualidade de vida dos moradores da Rocinha, pois quanto maior o adensamento, piores as condições sanitárias. Não vejo segregação. A minha casa é murada e meu vizinho não se sente segregado.”

Procurados pela reportagem, o governador Sérgio Cabral Filho e o vice-governador Luiz Fernando Pezão não quiseram comentar o assunto.

11 Favelas Cariocas Cercadas

ANDRÉ ZAHAR
da Folha de S.Paulo

A decisão de cercar 11 favelas cariocas com muros de três metros de altura partiu do governo do Estado do Rio. Na discussão com a prefeitura, foi descartada uma proposta alternativa feita pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente.

A secretaria propunha muretas de tijolo ecológico (feito com madeira, garrafas pet e outros materiais) com até 60 cm de altura. Sobre elas, haveria um alambrado de 1,60 m pelo qual se poderia ver a mata atlântica. Beirando a mureta, um piso de concreto de 1,40 m funcionaria como calçada. Mas o muro hoje em construção tem 80 cm a mais e é feito de concreto e vergalhões de ferro.

Rafael Andrade/Folha Imagem
Muro construído no morro Dona Marta; no total, obras custarão R$ 40 milhões
Muro construído no morro Dona Marta; no total, obras custarão R$ 40 milhões

Os muros, que vão totalizar 11 quilômetros, cercarão 11 favelas da zona sul do Rio, sob pretexto de impedir o avanço das construções sob a mata virgem. O projeto está sendo implantado inicialmente no morro Dona Marta, ocupado pela Polícia Militar desde novembro do ano passado. A previsão é de começar em 2010 a cercar favelas dos complexos de Lins, Penha e da Tijuca.

O vice-prefeito Carlos Alberto Muniz, que ontem desempenhava função de prefeito em exercício, disse à Folha que a cidade “poderia ganhar mais” com a “ecobarreira” alternativa, mas que “também não vai perder” com os paredões. Para ele, a polêmica é “inócua”.

“O fundamental é que se está urbanizando a comunidade e garantindo que a floresta seja preservada sem nenhum tipo de delírio”, disse Muniz, que também comanda a secretaria de Meio Ambiente.

Orçado em R$ 40 milhões, o projeto está sendo executado pelo Estado por meio da Emop (Empresa de Obras Públicas). Os locais -praticamente todas as favelas da zona sul- foram decididos de comum acordo entre o Estado e o município.

“A floresta tem árvores de dez metros de altura. São visíveis de todos os lados. Não há perda de interação [com a obra do muro]”, afirma Muniz.

Com licitação marcada para a próxima terça-feira, a Rocinha receberá a maior parte do paredão (2,8 km). O presidente da associação de moradores da favela, Antônio Ferreira de Melo, o Shaolin, reclama de falta de debate com a comunidade. “A favela já vive uma vida sob cerco. Com o muro, passará a ter um símbolo de preconceito e discriminação”, diz.

O prefeito Eduardo Paes, que idealizou o programa de ecolimites no primeiro governo Cesar Maia (1993-1996), opôs-se em 2004 à proposta do então secretário estadual de Meio Ambiente, Luiz Paulo Conde, de construir um muro em volta da Rocinha para proteger a mata e impedir as fugas dos criminosos. “Um muro não impediria bandidos de passar de um lado para o outro, por mais alto que fosse”, afirmou Paes à época. Ele estava ontem em Londres e não respondeu às perguntas enviadas pela Folha.

“Assustador”

Responsável por projetos de urbanização em favelas como Paraisópolis e Jardim Nazaré e Colina do Oeste, o arquiteto Hector Vigliecca considera a construção de muros em volta das favelas algo “assustador”. “É uma decisão dramática. Numa área informal é preciso fazer definição clara do espaço público, iluminação, segurança, acessibilidade”, afirma.

Desde terça-feira (31), as assessorias de imprensa do governador Sérgio Cabral e do vice-governador Luiz Fernando Pezão afirmam que ambos não irão comentar o assunto.

Arte/Folha


Violência x Mulheres: elas sofrem mais

Estudo realizado pela Unifesp mostra os danos na saúde física e mental de quem sofre violência indireta ou sobrevive a esses ataques. E acreditem: as mulheres sofrem mais com isso

Glycia Emrich

A Declaração sobre a Eliminação da Violência contra a Mulher feita pela ONU diz que violência contra a mulher é “qualquer ato de violência com base no gênero, sexo, que resulta em ou que é provável resultar em dano físico, sexual, mental ou sofrimento para a mulher, incluindo as ameaças de tais atos, coerção ou privação arbitrária de liberdade, ocorrida em público ou na vida particular”. Claro que não são apenas as mulheres que passam por momentos terríveis de dor e sofrimento como os capazes de se encaixar nas categorias acima. Mas, de acordo com um estudo feito pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), elas saem mais danificadas que os homens.

Além da destruição psíquica, a violência afeta também o organismo das vítimas. De acordo com o médico Marcelo Feijó de Melo, coordenador do estudo, os pacientes com transtorno pós-traumático têm alterações hormonais e diminuição do tamanho do cérebro. Não importa se a violência sofrida foi em um assalto, doméstica, em um sequestro relâmpago ou o assassinato de parente próximo. Com essa perda do hipocampo e da área pré-frontal do cérebro, a vítima pode ter o raciocínio e a memória afetada.

Além disso, a produção do cortisol, o hormônio que responde ao sinal de estresse, diminui absurdamente. Isso reduz a imunidade, atrapalha a concentração e aumenta em até cinco vezes a chance de doenças cardíacas, como infarto ou derrame.

O transtorno pós-traumático atinge de 10 a 15% das vítimas de violência e é duas vezes mais comum em mulheres. “É uma espécie de sofrimento mental relacionado a uma situação traumática de natureza extrema, dirigida diretamente ou indiretamente ao paciente, como sequestro, desaparecimento, homicídio, latrocínio, balas perdidas, violência sexual, agressões e assaltos, nas quais a pessoa possa figurar como vítima direta ou indireta”, explica o psicólogo e professor Matheus Machado, mestre em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP, que atende vítimas de violência.

O sofrimento de quem passa por qualquer forma de violência é inimaginável. E é exatamente por essa falta de compreensão que a vítima geralmente precisa de ajuda para superar o trauma. “O trabalho com vítimas de violência precisa abarcar não só a reconstrução psíquica, como também a reconstrução da imagem corporal. Muitos pacientes desenvolvem transtornos alimentares ou adoecimentos psicossomáticos após traumas de violência”, explica a psicóloga Marina Ramos.

Infelizmente, quando o assunto é violência, as mulheres saem na frente como principais vítimas. De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde:

– Os crimes de violência contra a mulher são quase exclusivamente cometidos por homens;

– As mulheres sofrem mais o risco de serem violentadas por homens que elas conhecem;

– Mulheres e crianças são mais frequentemente vítimas de violência dentro da própria família e entre seus parceiros íntimos.

Independente de classificações de gênero, recuperação após situações violentas são extremamente dolorosas. De acordo com o IBOPE, 650 mil paulistanos sofrem algum tipo de transtorno por causa da violência. O absurdo: esse número é tão comum como em zonas de guerra. Como disse o filósofo francês Jean-Paul Sartre: “A violência, sob qualquer forma que se manifeste, é um fracasso”.

Cota para negros perde força na CCJ

Demóstenes Torres trabalha para aprovar texto com critérios sociais, sem prever reserva de vagas com critérios raciais

Renata Camargo

Os senadores da CCJ tentam esta semana chegar a um acordo para aprovar o projeto de lei que estabelece 50% de cotas nas universidades federais para estudantes de escolas públicas. Ainda falta consenso, mas a proposta de reservar parte das vagas para negros perde força entre os integrantes da comissão, onde o projeto tramita em caráter terminativo.

A relatora da proposta, senadora Serys Slhessarenko (PT-MT), afirma que não vai retirar do seu parecer final o critério racial das cotas. Mas, se depender do presidente da CCJ, senador Demóstenes Torres (DEM-GO), e de um grupo ligado a ele, o projeto só será aprovado sem a reserva de vagas estabelecidas por critério étnico.

Na próxima terça-feira (14), a relatora e o presidente Demóstenes se reúnem com os senadores Paulo Paim (PT-RS), Ideli Salvatti (PT-SC) e Marconi Perillo (PSDB-GO) para tentar chegar a um acordo. Caso os senadores petistas não aceitem retirar o critério de cotas pela cor da pele, o presidente da comissão promete apresentar um substitutivo integral ao projeto, que deve ser votado logo após a apreciação do PL originário da Câmara.

“Se tiver um substitutivo integral, serão votados os dois projetos. É um risco muito grande de perder, mas também há como ganhar. Disputa é disputa e esperamos que dê certo para aqueles mais despossuídos da sociedade. É uma luta contra o preconceito”, defendeu a relatora Serys, que afirma que o argumento de que essa lei vai suscitar o racismo é “preconceituoso”.

Racismo

O PL em tramitação na CCJ estabelece a reserva de, no mínimo, 50% das vagas das universidades federais para estudantes oriundos de escolas públicas. Dentro desse percentual, metade das vagas será reservada para alunos com renda per capita familiar de até 1,5 salário mínimo e metade para estudantes de escolas públicas com renda acima desse valor.

Além dos critérios por origem escolar e renda familiar, o projeto também prevê o corte por etnia. Entre os estudantes com renda de até 1,5 salário, também será reservada vagas a serem preenchidas por pessoas que se autodeclaram negras, pardas e indígenas. Os percentuais obedecerão a quantidade de cada etnia na população do estado, de acordo com o censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

“Temos 19 milhões de brancos pobres no Brasil. Por que nós vamos afastar esse pessoal instituindo cota racial?”, protestou Demóstenes. “Temos que proteger os pobres e não pessoas de determinada cor. O racismo no Brasil é um racismo envergonhado. Por que criar uma lei racista? Acudir a questão da pele é uma maneira de criar uma espécie de ódio racial no país”, complementou.

Debate

Segundo a relatora Serys, a defesa das cotas para negros, pardos e indígenas tem como base dados estatísticos apresentados por diversos estudos. Entre eles, está um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que revela que das 331 mil matrículas realizadas anualmente em instituições públicas de ensino superior apenas 2,37% são destinadas a estudantes negros.

“Eu dei aula na Universidade [Federal] do Mato Grosso durante 26 anos. Não me recordo de ter um colega professor negro. Aluno negro também, eu não me lembro de muitos. Essa disputa é muito desigual”, declarou Serys.

Os contrários às cotas por etnia argumentam, em especial, que a matéria é inconstitucional, pois descumpre o artigo da Constituição que prevê que todos são iguais perante a lei. Para a professora Yvonne Maggie, do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as cotas raciais não se justificam.

“A solução para essa questão é estabelecer apenas as cotas sociais. Incluir a cota racial pode ter efeitos terríveis na relação entre pessoas pobres do país. Vai ser uma competição entre pobres”, defendeu.

A votação do projeto sobre cotas para universidades federais deve ter início na próxima quarta-feira (15) na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.

Menos raça, mais empregos

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão

Quando fui entrevistar o professor William Wilson em Boston ele interrompeu um memo que escrevia para a Casa Branca.

O professor já tinha trabalhado para o presidente Clinton, que respondia suas recomendações com comentários pertinentes, escritos à mão. O homem parecia entender de tudo, diz ele.

William Wilson, autor do recém-lançado More Than Just Race, conheceu Obama há mais ou menos dez anos, quando ouviu uma apresentação dele e pensou: “Que pena, um jovem tão eloquente e preparado poderia ir longe se não fosse pobre e negro vivendo num gueto”.

Wilson, também negro, era – e ainda é – um pessimista sobre o futuro dos negros urbanos e pobres.

William J. Wilson já foi chamado de maior sociólogo do país, foi presidente da associação dos sociólogos americanos e tem uma coleção de prêmios e títulos que não cabem nesta coluna. Quando perguntei a ele como deveria apresentá-lo, sugeriu que professor de sociologia de Harvard bastava.

A vida acadêmica dele e seus prêmios vieram de suas pesquisas e textos sobre os negros pobres das cidades. Seu Declining Significance of Race, um de seus quatro livros e o mais polêmico, levou chumbo de republicanos e de liberais radicais.

Em resumo, o professor concluiu depois de uma pesquisa no “South Side of Chicago”, a área negra e pobre de uma das cidades mais segregadas do país, que a questão da discriminação racial perdia importância. Educação e emprego eram fatores mais decisivos para tirar os pobres dos guetos, das drogas e do crime.

Quando as indústrias e as fábricas das cidades, a partir da década de 70, foram substituídas pelo computador e pela economia de serviços, o desemprego explodiu nos guetos negros. Na mesma época chegaram as drogas. Para filhos de mães solteiras e desempregadas, o tráfico e o crack eram os caminhos para escapar da miséria e do tédio.

Ao mesmo tempo, os movimentos sindicais perderam a força, os salários mínimos perderam impulso e uma nova política monetária, de combate à inflação, passou a ser mais importante do que gerar empregos.

Há semelhanças entre a discriminação racial e as pobrezas urbanas do Brasil e dos Estados Unidos, mas há diferenças grandes nas origens das misérias urbanas dos dois países.

O governo federal, como o nosso, financiou programas habitacionais, mas os bancos não emprestavam para os pobres. O monumental plano rodoviário, a partir da década de 50, em várias cidades, construiu auto-estradas separando os ricos e a classe média dos negros. Eram planos que favoreciam as indústrias de carros e petróleo, produtos fora do alcance dos pobres.

Na equação do professor Wilson há mais de uma incógnita. O presidente Obama e sua mulher Michelle sairam justamente da área onde ele concentrou a pesquisa e concluiu que os pobres tinham cada vez menos chances de vencer.

Ele explica que negros que vieram de classe média, como Obama (que ele nunca imaginou presidente), ou tiveram uma base de sustentação familiar como Michelle – pai e mãe presentes, afetuosos e disciplinados – ou escaparam da miséria pela educação.

Ele se entusiasma quando fala sobre um projeto no Harlem onde um milionário despejou milhões em cima de uma dúzia de quarteirões. Nesta área, as novas escolas com professores bem pagos, turmas menores e currículos mais puxados, as crianças são admitidas por um sistema de loteria. Entram as piores e as melhores do gueto. Em cinco anos estão no mesmo nível e, em algumas matérias, melhores do que as crianças brancas dos subúrbios mais caros do país.

E o memo para o presidente Obama, um negro que ele jamais esperava ver na Casa Branca? “É sobre empregos”, disse o professor Wilson.

Ele quer criar um esquema parecido com o New Deal do presidente Roosevelt. O governo Obama emprega a massa pobre com salários um pouco abaixo do mínimo para não competir com a iniciativa privada e financia programas de treinamento para novos empregos.

A vitória de Obama confirma a teoria do professor Wilson que raça é cada vez menos importante, mas abrir os cofres para os pobres são outros quinhentos. Mais fácil é despejar dinheiro em cima dos ricos.

Quando iremos reconhecer nossas prioridades?

Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
Ao Movimento Negro faz falta uma estratégia política? Quais decisões e ações efetivas poderiam lhe assegurar o desempenho de um ator político relevante?

Na conjuntura, o que se coloca como único método de ação política para o movimento negro é a contemporização institucional. Uma comprovada acomodação de baixíssimo rendimento às circunstâncias definidas por diferentes instâncias de governo.

Eventos, mais ou menos sofisticados, continuam a exercer uma especial atração sobre os ativistas. Mais do que moderação política, o que assistimos é o esvaziamento de toda tensão polarizadora.

Quando a militância perceberá que, geralmente, está envolvida em atividades que contrariam sua condição histórica e, no final de tudo, não alcançam nenhum fim prático, verificável, que beneficie a população negra em seu conjunto?

Caso não se submetesse, despojado de toda grandeza, ao ‘diálogo institucional’, quais seriam os instrumentos práticos de ação à disposição do movimento negro? Qual o problema com a formulação dessa questão? Por que tememos mergulhar em nossa própria experiência histórica, rastreando, comparando, pensando?

Quando falamos de movimento negro, falamos de significados e de realidades. A questão me parece ser definir quais as escolhas políticas que não requerem distanciamento de pessoas e situações concretas.

Essa conexão indispensável poderia neutralizar o fenômeno que atua entre nós no sentido de impedir a formação e o reconhecimento de autênticas lideranças. Tendemos a considerá-lo um fenômeno de natureza predominantemente psicológica e sugiro que comecemos a indagar de sua natureza política, uma vez que acaba facilitando o surgimento de personalidades, não digo apenas oportunistas, mas descoladas o suficiente para não estabelecer limites muito nítidos entre interesses individuais e coletivos.

A recusa em construir um programa, com coordenação, compromissos e objetivos bem expressos e definidos aparentemente encontraria justificativa na afirmação de uma individualidade que afirma querer se guiar por sua própria conta, avessa a toda e qualquer centralização. Mas como no sindicato e no partido a conversa é outra, desconfia-se que um conjunto de práticas e procedimentos desagregadores (o que inclui a negação sistemática das poucas lideranças efetivas) tenha origem em concepções mal dissimuladas, que negariam validade e importância à organização política dos negros.

De concreto, o que há são instâncias de governo promovendo reuniões municipais, estaduais, federais e internacionais. Não podemos deixar de ver aqui uma forma de sujeição muito requintada. Seu requinte consiste em acenar com o diálogo no espaço institucional, sempre definido como “espaço estratégico de formulação e implementação de políticas”, mas o único resultado palpável até aqui é uma boa imagem da ‘governança’ para consumo interno e externo (Genebra).

Estamos diante não apenas de um movimento cindido, mas de um movimento sem poder de transformação, levando a sério a retórica governamental que, no fundo, exige do movimento negro a renúncia de sua identidade política. Apenas para que se possa falar não de um mundo melhor, mas de um melhor governo.

Tudo pelo racial

J.R. Guzzo

“Como disse recentemente o escritor João Ubaldo
Ribeiro, citando um dos seus personagens da Ilha
de Itaparica, “quem tem raça é cachorro”. Não
poderia ter feito um resumo melhor da coisa toda”

O Brasil está fazendo o possível, nestes últimos tempos, para dar a si próprio algo que até hoje conseguiu não ter: um problema racial. Se tantos outros países importantes têm questões sérias de racismo, por que o Brasil também não poderia ter a sua? Parece um motivo de desapontamento, na visão das pessoas que foram nomeadas pelo governo para defender os interesses da “população negra”, ou nomearam a si mesmas para essa tarefa, que o Brasil seja possivelmente o país menos racista do mundo. Que outros poderiam ser citados? Certamente haverá nações que têm um número maior de leis contra a discriminação, são mais sérias na sua aplicação e adotam medidas de proteção especial a minorias raciais. Mas não dá para sustentar, não a sério, que haja mais racismo no Brasil do que em qualquer delas. Como poderia haver, num país onde a grande maioria da população não sabe dizer ao certo qual é a sua cor, nem demonstra maior interesse em saber? “Moreno” é a sugestão de resposta mais frequente, quando a pergunta é feita para a imensa massa de brasileiros que não se identificam claramente como brancos, nem pretos, nem qualquer outra coisa.

Criar um racismo que se preze, num país assim, não é trabalho fácil – mas é possível. Uma das ferramentas mais utilizadas para isso é distribuir aos “brancos” uma espécie de culpa geral por tudo o que ocorre de errado aqui dentro. Não se citam nomes; só se cita a cor da pele. Tornou-se comum, por exemplo, o uso da expressão “elite branca” como símbolo de coisa do mal – com a agravante, em certos casos, de que essa elite, além de branca, pode ser “do sul”. A mesma gente, de “pele clara e olhos azuis”, é culpada também pelo que ocorre de errado lá fora, como a crise financeira internacional; por essa maneira de ver a vida, os desastres que produziram foram provocados por seu tipo físico, e não pelo seu comportamento individual. Outro esforço é criar repartições públicas para cuidar da questão racial – o que tem a tripla vantagem de dar uma cara oficial à existência do problema, passar a impressão de que o governo está cuidando dele e arrumar empregos para amigos. A mais notável delas é um órgão com nove palavras no título e status de ministério – a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Seu grande feito, em seis anos de existência, foi a demissão da secretária-ministra Matilde Ribeiro, em 2008, quando se descobriu que ela usava o cartão de crédito destinado ao exercício de sua função para pagar despesas de free shop ou contas no Bar Amarelinho, no Rio de Janeiro.

Nada parece pior, porém, do que a tentativa de estabelecer por lei que cidadãos devem ter direitos diferentes de acordo com a cor de sua pele, como preveem os projetos de “cotas raciais” ora em debate no Congresso Nacional – pelos quais os brasileiros negros, ou definidos como tal, deveriam ter mais direitos que os brasileiros brancos, ou de outras origens, no mercado de trabalho, nas vagas universitárias ou nos concursos para cargos públicos. É o contrário, exatamente, do que deveria ser. A grande vitória da humanidade contra a discriminação racial foi excluir das leis a palavra “raça”; o objetivo era estabelecer que todos têm direitos idênticos, sejam quais forem as suas origens, dentro da ideia de que todos os homens pertencem a uma “raça” apenas – a raça humana. No Brasil de hoje, em vez de proibir o uso da noção de raça para dar ou negar direitos, tenta-se ressuscitar a tese de que os indivíduos são diferentes uns dos outros, em termos de cidadania, segundo a cor que têm.

“Os defensores de leis raciais ludibriam a boa-fé alegando que cota racial é ação afirmativa”, escreveu, num artigo para O Estado de S. Paulo, o advogado negro José Roberto Militão, um especialista em antidiscriminação na OAB de São Paulo. “Ação afirmativa”, de fato, é outra coisa: é a efetiva atuação da autoridade para coibir a discriminação contra minorias e multiplicar oportunidades, sem criar cotas, exigir reparações pelo passado ou estabelecer diferenças de direitos. “Ao estado cabe atuar para destruir a crença em raças”, diz Militão. “Leis raciais não servem para a redução das desigualdades entre brancos e pretos, pois atacam os efeitos, mas aprofundam as causas.” São, além disso, o oposto da harmonia: como se sabe, nada é mais fácil do que passar da distinção à divisão.

A mídia e a banalização da violência



por Venicio A. de Lima*

Atos seguidos de violência, provocando a morte de dezenas de vítimas indefesas, praticados por pessoas aparentemente normais, estão se tornando tristemente rotineiros. Nos EUA, de fevereiro de 2008 até aqui, foram seis massacres, com a morte de cerca de 50 pessoas, incluindo a chacina de Binghamton, NY, na sexta-feira (3/4).



Entre nós, as notícias desses episódios se misturam à insegurança pública crescente, sobretudo nos grandes centros urbanos, e se perdem, muitas vezes, sem que aqueles com responsabilidade pela condução da coisa pública se debrucem sobre suas causas e conseqüências.

Há episódios de violência, no entanto, que não podem ser ignorados, em particular, por quem estuda a mídia e busca compreender seu papel e suas responsabilidades na sociedade contemporânea.

Inspirado na TV

Foi preso na semana passada em Brasília um aparentemente pacato vendedor de carros usados, residente no aglomerado urbano de Vicente Pires, que fica entre a cidade-satélite de Taguatinga e o Plano Piloto, seqüestrador e assassino agora confesso de três pessoas e suspeito da morte de até outras duas, no curto período de pouco mais de 4 meses.

Em pelo menos um dos crimes que cometeu, o vendedor de carros teve como cúmplice um policial da Rotam – Rondas Ostensivas Táticas Motorizadas do Distrito Federal – que mantém perfil no site de relacionamento Orkut com o nome de ”Iceman”.

O que há de diferente em relação a esses crimes e a essas prisões?

Segundo noticia o Correio Braziliense em sua edição de quarta-feira (1/4 – ”Horror pautado na ficção”, caderno Cidades, pág. 22), o vendedor de carros ”teria confessado em depoimento (prestado na Divisão de Repressão a Seqüestro) ter se inspirado em dois seriados de TV exibidos por canais pagos para matar e ocultar as provas dos crimes: o CSI – Investigação Criminal e Dexter”. Além disso, dezenas de DVDs das duas séries foram apreendidas no seu apartamento.

Violência em série

Qual o conteúdo dessas séries, originalmente disponíveis apenas na TV fechada (AXN e FOX), mas que podem ser vistas também nos DVDs – piratas ou não – vendidos a preços acessíveis em todo o país?

No site sobre a série Dexter encontra-se a seguinte descrição:

Como um homem cujo trabalho é ajudar a solucionar os piores crimes de Miami durante o dia comete os mesmos atos brutais durante à noite? O que acontece numa cidade onde serial killers são perseguidos por um deles? Onde começa e termina a linha que separa um serial killer de um herói incomum?

”DEXTER” é uma história cheia de reviravoltas sobre um especialista em medicina forense da polícia que passa parte de seu tempo perseguindo assassinos que ultrapassaram os limites da justiça. Mas será esse um caminho possível para um serial killer?

(…) Dexter é um personagem complexo cujo código moral e ações talvez sejam chocantes para alguns — e totalmente injustificáveis para outros. Na superfície, Dexter é um homem bom e charmoso. Durante o dia, ele é um especialista em sangue que trabalha ao lado da equipe da divisão de homicídios do departamento de polícia de Miami e vai além do seu trabalho para solucionar os assassinatos. Seu trabalho na verdade serve para ocultar sua verdadeira ocupação, a de serial killer, que consiste em matar aqueles que conseguiram escapar da polícia.

Logo se descobre as origens do seu comportamento: após ficar órfão aos 4 anos e guardar um traumático segredo, Dexter é adotado por Harry Morgan, um policial que reconhece as tendências homicidas dele e guia seu filho para mudar sua terrível paixão em dissecar humanos para algo mais construtivo.

Como todos os serial killers, o lado obscuro de Dexter é escondido das pessoas com quem ele passa mais tempo, principalmente daqueles que ele ama. (…)

Já o site da série CSI informa:

Eles estão 24 horas nos casos, investigando a cena do crime, coletando evidências irrefutáveis e encontrando peças desaparecidas que solucionarão o mistério. Gil Grissom, o supervisor do turno noturno, lidera a equipe de investigadores do laboratório de criminalística de Las Vegas.

A equipe é formada por Catherine Willows, uma batalhadora mãe solteira com um passado comprometedor e uma filha adolescente que ela tem que criar sozinha; Nick Stokes, um jovem homem que simpatiza com as vítimas através de suas próprias experiências; Greg Sanders, o estranho técnico do laboratório que se tornou um investigador de campo; e Riley Adams, a nova membro da equipe que é fascinada pelas pessoas desprotegidas da sociedade e não se choca ou é intimidada por nada.

A equipe do CSI também trabalha com o Capitão Jim Brass, o ex-chefe, agora designado para o departamento de homicídios; o Dr. Albert Robbins , o sempre profissional médico legista, e o assistente dele, David Phillips; e David Hodges, um técnico do laboratório especializado na análise de marcas e substâncias desconhecidas.

Sem simplificações

Não se pretende aqui, simplificar as complexas razões que produzem uma mente criminosa e levam alguém a cometer um crime. Os fatos relativos ao recente episódio do seqüestro de Santo André e a cobertura que dele fez a grande mídia ainda estão vivos em nossa memória (ver ”As lições do caso Santo André” e ”A liberdade de comunicação não é absoluta”). Não se pode, no entanto, ignorar que a assustadora presença de conteúdo violento nas séries de televisão – e nos filmes, DVDs, videogames – tenha também alguma responsabilidade na criminalidade urbana.

Na mesma semana em que a ”responsabilidade” da grande mídia brasileira e da televisão, em particular, foi louvada em voto no Supremo Tribunal Federal, é preocupante que um assassino declare ter se inspirado nela para cometer seus crimes. Será que estamos falando da mesma televisão?

Artigo publicado originalmente no Observatório da Imprensa




*Venicio A. de Lima, Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília. Autor/organizador, entre outros, de ”A mídia nas eleições de 2006” Editora Fundação Perseu Abramo – 2007