Arquivos Mensais: março \31\UTC 2009

O fim do “apartheid” na educação brasileira

Por Serys Slhessarenko

Apartheid. Um regime que foi abolido quando se realizaram as eleições de 1994, na África do Sul. A palavra cuja tradução é “vida separada”, e naquele país, significou que os brancos detinham o poder, e os povos restantes – os negros, principalmente – eram obrigados a viver separados dos brancos, de acordo com regras que os impediam de ser verdadeiros cidadãos. Ao meu ver, algo semelhante acontece no Brasil, porém no plano educacional.

Fui professora por mais de 20 anos na Universidade Federal de Mato Grosso e me recordo que eram poucos negros ou índios que frequentavam cursos superiores. Quem possui graduação, pode atestar o que escrevo, seja em universidade pública ou privada. Você se lembra de quantos negros estudavam em sua sala de aula, na época da faculdade? Ouso até dizer sobre quantos negros ou índios você conhece que são médicos, advogados ou dentistas, por exemplo? A resposta, com certeza, será um número pequeno.

No entanto, contrapondo a ínfima quantidade destas etnias presentes nas universidades, no Brasil, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006, aferida pelo IBGE, verificou-se que 6,9% da população brasileira se declara negra, e 42,6% se declaram pardos, ou seja: mulatos, caboclos ou cafuzos. Nesta conta, então, mais de 50% dos brasileiros são afro-descendentes, não tem a pele branca.

Algo está errado. Os afro-descendentes não estudam? Não são capazes de conseguir uma vaga na universidade? Na verdade, cursar uma graduação superior no Brasil ainda é sinônimo de regalia. Somente brancos e aqueles que possuem boa condição financeira estão freqüentando os bancos escolares de graduação superior.

Igualdade nas oportunidades e nos resultados. Queremos aplicar uma ação afirmativa no Brasil, um combate à discriminação racial já enraizada em nosso país. Queremos corrigir ou abrandar a discriminação praticada há anos, principalmente na área educacional.

O projeto de cotas para as universidades públicas, que tramita há dez anos no Congresso Nacional, trabalha em três vertentes de inclusão, buscando não criar o chamado beneficiamento racial. Primeiro ele reserva 50% das vagas para alunos que tenham cursado todo o ensino médio em escola pública, dentre estes alunos a metade deverá ter renda familiar per capita não superior a 1,5 salários mínimos.

A grande justiça racial está na necessidade de que do total de alunos beneficiados pelas cotas haja o respeito a proporção de negros, pardos e índios na população do Estado onde se encontra a Universidade ou Escola Técnica Federal, segundo o último censo do IBGE. Tal recorte será aplicado sobre o todo, permitindo o ingresso de alunos que representem um retrato da sociedade daquele Estado, não criando nenhuma distorção racial.

A reserva de vagas apenas para escola pública perpetuará a exclusão do negro, pois até entre as escolas públicas há diferença de qualidade, sendo as escolas mais centrais e conceituadas um reduto da classe média branca. Ou alguém conhece algum colégio militar ou de aplicação com mais de 50% de negros? Negros e pardos têm reserva de vagas, sim, nas escolas periféricas e com pior infraestrutura.

As cotas não fazem parte de uma política de inclusão social, mas sim uma política afirmativa de valorização do negro, acabando com a cultura do espanto, aquela que nos deixa boquiabertos quando somos atendidos por um advogado negro ou um médico índio ou, ainda, um arquiteto pardo e, principalmente, provar que negro pode ter qualquer carreira profissional, e não apenas os chamados sub-empregos.

O combate ao racismo institucionalizado na sociedade será mais eficaz quando o negro deixar de ser visto apenas como o subalterno, a empregada doméstica, ou qualquer outro emprego socialmente desvalorizado. Não que estes empregos não sejam importantes e valorosos, mas a reserva de vaga para estes é superior a 80% para negros e pardos, por outro lado as cotas para negros em profissões valorizadas como advocacia e medicina são inferiores a 1%.

Enegrecer a universidade pública é acabar com a cegueira branca que turva a visão de nossa sociedade, que faz acreditar que vivemos em uma democracia racial. Podemos até conviver em harmonia com negros e brancos, desde que os negros sirvam os brancos universitários. É uma forma de acabar com “apartheid” brasileiro.

Serys Slhessarenko é senadora (PT-MT).

Fonte: 24Horas News

Lei ajuda a tornar pública violência contra a mulher



A farmacêutica bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes afirmou nesta segunda-feira (30) que a Lei 11.340/06 – que leva o seu nome – ainda é muito nova para apresentar o resultado desejado, mas que há resultados. Ela destacou, por exemplo, que a Delegacia Especializada em Atendimento a Mulheres do Pará, estado onde mora, já registra maior número de ocorrências de violência doméstica contra mulheres do que todas as outras delegacias especializadas do país juntas. Os dados se referem ao período de outubro de 2006 a dezembro de 2008.



Ao participar de um balanço do funcionamento das Varas de Violência Doméstica e Familiar contra a mulher no Brasil, apresentado pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), ela destacou que um dos maiores obstáculos da violência doméstica contra mulheres é que ela passa pelo que chama de “ciclo da violência”.


Isso significa que, a partir do momento em que a mulher faz a denúncia, o agressor modifica seu comportamento até que a queixa seja retirada. Mas a agressão, acrescentou, passa a ocorrer em um outro momento.


“O homem agride, pede desculpas, presenteia e volta a agredir. O juiz tem que entender esse lado e evitar que a mulher seja assassinada. Uma mulher, quando chega à delegacia, é vítima de violência há muito tempo e já chegou ao limite. A falha não é na lei, é na estrutura”, disse, ao lembrar que muitos municípos brasileiros não têm delegacias especializadas, centros de referência ou mesmo casas abrigo.


Diante dos dados divulgados pelo CNJ informando que a quantidade de processos de violência doméstica contra mulheres em tramitação em todo o país chega a 150.532, Maria da Penha avaliou que a violência contra as mulheres não aumentou, mas está aparecendo mais porque elas estão dando crédito à lei.


Durante a abertura da 3ª Jornada de Trabalho sobre a Lei Maria Penha, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Carmen Lúcia chegou a afirmar que “crescemos em uma sociedade que diz que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, mas que o Estado brasileiro “pode ter de meter a sua colher”.


Para ela, a violência praticada dentro de um quarto é um problema da sociedade e não apenas das duas pessoas que lá se encontram. Ela avaliou que a Lei Maria da Penha representa um passo importante no combate à violência doméstica contra mulheres, mas que “há muito o que andar”.


“Não é possível, em pleno século 21, ser tratada como a costela de Adão. Não se quer uniformidade. mas que sejamos respeitados todos de acordo com o que nos é peculiar. Falta isso ser posto na mesa como a lei foi posta na prateleira. É preciso efetividade social. Quem esconde a própria dor não cuida dela.”


Agência Brasil

LEI MARIA DA PENHA 02

Autoridades ainda resistem à aplicação

Iano Andrade/CB/D.A. Press – 22/6/06
“As mulheres não podem ser mansinhas, calminhas e silenciosas. Enquanto continuarem invisíveis para a sociedade, a violência vai prosseguir” Cármem Lúcia, ministra do STF

Brasília
– Três anos depois de promulgada, a Lei 11.340/2006 ainda enfrenta resistência para sua efetiva aplicação. A declaração é da farmacêutica e bioquímica Maria da Penha Maia Fernandes, que deu nome à lei. Ela participou da abertura da Terceira Jornada da Lei Maria da Penha, promovida pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em Brasília. Segundo ela, ainda existem autoridades que atribuem à lei a responsabilidade pelo caos do sistema carcerário e apontam que ela viola o direito constitucional de que todos são iguais perante a lei.

Maria da Penha disse ainda que apesar das resistências a lei tem contribuído para a redução da violência contra a mulher. “No meu estado, o Ceará, depois da lei, houve uma redução de 50% nos atendimentos de mulheres feridas nos prontos-socorros de Fortaleza ”, explicou. “Também é comum ouvir as mulheres dizerem que, depois que os maridos das vizinhos foram presos, nunca mais elas apanharam.”

Maria da Penha inspirou o nome da lei por ter sido vítima de uma tentativa de homicídio praticada por seu ex-marido, em 1983, que a deixou paraplégica. Ela lembrou a importância das parcerias com outros tribunais para garantir maior divulgação da lei, como a que ocorreu semana passada pelo Tribunal Regional do Pará, que realizou o Seminário Mulher Cidadã e decidiu incluir explicações sobre a Lei Maria da Penha no trabalho pedagógico de instrução aos eleitores analfabetos do Pará.

A ministra Cármem Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, que falou sobre a efetividade da Lei Maria da Penha, lembrou que a lei foi uma grande conquista, mas que as mulheres precisam denunciar para mostrar que a violência contra elas existe. “As mulheres não podem ser mansinhas, calminhas e silenciosas. Enquanto continuarem invisíveis para a sociedade, a violência vai prosseguir. Se não mudarmos a sociedade, não vamos atingir um estado de paz social, ainda distante do que almejamos.”

FÓRUM PERMANENTE Ao final da abertura da 3ª Jornada de Trabalho sobre a Lei Maria Penha, a conselheira Andréa Pachá reforçou que os dados apresentados ainda não estão consolidados. A expectativa do CNJ, segundo ela, é de que, com a criação de um fórum permanente para debater o assunto, números que indiquem a quantidade e o tipo de condenações, além do perfil do agressor, sejam divulgados. “São só indicativos. Nossa prioridade em 2008 foi a instalação das varas e a formação dos profissionais.”

BONS RESULTADOS

Processos ajuizados – 150.532
Ações penais – 41.957
Medidas protetivas – 19.400
Prisões em flagrante – 11.175
Processos sentenciados – 75.829
Condenações com prisões – 1.808

Fonte: Conselho Nacional de Justiça

CONHEÇA A LEI

• Aplica-se à violência doméstica que cause morte, lesão, sofrimento físico (violência física), sexual (violência sexual), psicológico (violência psicológica) e dano moral (violência moral) ou patrimonial (violência patrimonial);

• No âmbito da unidade doméstica, onde haja o convívio de pessoas, com ou sem vínculo familiar, inclusive as esporadicamente agregadas.

• No âmbito da família, formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos por laços naturais, por afinidade ou por vontade expressa;

• Em qualquer relação íntima de afeto, na qual o agressor conviva ou tenha convivido com a ofendida, independentemente de coabitação;

• Aplica-se também às relações homossexuais (lésbicas);

• A ofendida não poderá entregar intimação ou notificação ao agressor;

• Quando a agressão praticada for de pessoa estranha, por exemplo vizinho, prestador de serviço ou médico, continuam os velhos termos circunstanciados;

• Garantir proteção policial, quando necessário, comunicando de imediato ao Ministério Público e ao Poder Judiciário;

• Informar à ofendida os direitos a ela conferidos;

Feito o registro da ocorrência, deverá a autoridade, de imediato:

• Ouvir a ofendida, lavrar o boletim de ocorrência e tomar arepresentação a termo, se apresentada;

• Colher todas as provas que servirem para o esclarecimento do fato;

• Remeter no prazo de 48 horas expediente apartado ao juiz com o pedido da ofendida, para a concessão de medidas protetivas;

• Expedir guia de exame de corpo de delito e exames periciais;

• Ouvir o agressor e testemunhas;

• Ordenar a identificação do agressor e juntar aos autos sua folha de antecedentes;

LEI MARIA DA PENHA

Muita ação, pouca punição
Levantamento do Conselho Nacional de Justiça mostra que existem 150 mil processos no Brasil sobre violência doméstica contra a mulher, mas só 2% dos réus foram para a cadeia
Renata Mariz
Antônio Cruz/ABR
O presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, cumprimenta Maria da Penha em encontro em Brasília
Brasília – Balanço divulgado ontem pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que existem, atualmente, 150.532 processos tramitando nas varas especializadas de violência doméstica e familiar contra a mulher, cuja criação está prevista na Lei Maria da Penha. Dois anos e sete meses depois de sancionada a legislação que pune com mais rigor a agressão dentro de casa, foram decretadas 11.175 prisões em flagrante e 915 preventivas. Dos 75.826 processos que já tiveram sentença, 1.808 levaram o réu para trás das grades (2% do total). Para a juíza Andréa Pachá, do Conselho Nacional de Justiça, a estatística não sinaliza pouca eficácia da lei.

“Convencionou-se imaginar que punição é prisão. Isso não é verdade. A lei prevê outros tipos de punição, tais como prestação de serviços, participação em grupos”, afirma Andréa. Na avaliação da juíza, o dado mais importante do levantamento respondido por 23 tribunais de Justiça do país — ficaram de fora as estatísticas de Rondônia, Roraima, Rio Grande do Norte e Paraíba, que não repassaram as informações ao CNJ — diz respeito às medidas protetivas, como retirar o agressor de casa ou impedi-lo de se aproximar da vítima. Foram 88.972 pedidos desde a criação da lei, mas 19,4 mil (ou 22%) deferidos.

Presente no evento em que os números foram apresentados, a ativista Maria da Penha, que deu nome à lei, ressaltou a resistência do Judiciário em aplicar a norma. “Às vezes entram na seara da inconstitucionalidade, alegando a quebra do princípio da igualdade. Já ouvi até a acusação de que a Lei Maria da Penha é responsável pelo aprofundamento do caos em que o sistema penitenciário vive. Mas o que sei é que, onde a lei tem sido implementada, muitas mudanças estão ocorrendo”, destaca a farmacêutica que, depois de sofrer duas tentativas de homicídio pelo ex-marido, 26 anos atrás, perdeu os movimentos da perna.

Segundo ela, ainda há resistência para a efetiva aplicação da lei. Mas, apesar dos preconceitos, a legislação tem contribuído para a redução da violência contra a mulher.

MUDANÇAS O presidente do Supremo Tribunal Federal (STJ), ministro Gilmar Mendes, admitiu que há dificuldades em realizar “transformações culturais” a partir de iniciativas jurídicas. “A Lei Maria da Penha tem essa pretensão”, disse, ao destacar que as pessoas têm dificuldade de denunciar e de obter algum tipo de proteção em uma relação “extremamente complexa”.

Para o ministro, a ampliação da lei envolve “uma série de aprendizados” e é preciso “subsídios multidisciplinares”. Gilmar Mendes diz acreditar que, em casos de violência doméstica contra mulheres, a Justiça deve “calçar as sandálias da humildade” e consultar pessoas que são vítimas, além de profissionais de outras áreas. “Nossas decisões, muitas vezes, têm eficácia limitada.”

Durante o evento, o secretário de Reforma do Judiciário, Rogério Favreto, afirmou que, no ano passado, o Ministério da Justiça chegou a investir R$ 16,8 milhões na implantação de sete varas especializadas e que os órgãos são “estratégicos” para o enfrentamento do tema.

Nova perspectiva profissional


Ricardo Beghini
O envolvimento com a Fábrica do Futuro mudou os rumos profissionais de Karina Freitas, de 26 anos. Formada em história, ela descobriu no projeto a vocação de produtora. “Aqui, se aprende de tudo um pouco”, diz a jovem, que atuou em várias ações administradas ou correalizados pela ONG. O primeiro foi a edição de estreia do Cineport (festival de cinema de países de língua portuguesa), em 2005, além do Festival Ver e Fazer Filmes, em dezembro, o Cidades Digitais, também no ano passado, e o Identificart e o Ponto-a-Ponto, que estão em andamento.

“A mobilização social, inerente a alguns projetos, tem a ver com história”, ressalta ela, aproximando as duas áreas profissionais. Em suas saídas a campo, Karina mostra empolgação no contato com a comunidade carente, alvo do projeto de intercâmbio Ponto-a-Ponto, realizado em parceria com a ONG Tivi no Morro, de Sabará, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Conduzidos pela produtora da Fábrica do Futuro, os colegas sabarenses fizeram gravações em bairros pobres de Cataguases, estimulando a participação dos moradores.

“Este trabalho mudou a minha vida totalmente”, conta ela, que recebe cerca de dois salários-mínimos dos projetos. Karina e Juliano Braz, de 24 anos, visitaram a sede do Tivi no Morro, em Sabará. Em seguida, estiveram em comunidades carentes para produção de vídeos. “Estou me profissionalizando cada vez mais”, afirmou Juliano, que, antes de comandar as câmeras da ONG, atuava em teatro de bonecos e reciclagem. O rapaz, também desenhista, conta que a Fábrica do Futuro contribui para a formação de redes criativas, fundamentais em sua atividade.

CARREIRA A mudança na vida profissional de Fábio Paternoster foi ainda maior. Antes de conhecer a entidade, dava aulas de informática e desenvolvia softwares. Convidado pelo gestor cultural da ONG, César Piva, o rapaz integra a equipe há quatro anos. “Comecei a trabalhar com vídeos, fiz cursos de formação e dei uma guinada profissional”, diz Fábio, que se tornou coordenador do Núcleo de Produção Audiovisual.

Sem abandonar o posto da Fábrica do Futuro, Fábio, há cerca de um mês, abriu a própria produtora de vídeo, em uma sala no Centro de Cataguases. Ele pretende confeccionar peças publicitárias, institucionais e de eventos, atendendo, inclusive, pedidos de serviços da ONG. A demanda por profissionais especializados na cidade estimulou o espírito empreendedor do rapaz, que ficou ainda mais animado com a possibilidade de participar do polo audiovisual, onde várias empresas poderão compartilhar a estrutura. “Aprendi muito na Fábrica sobre a importância da parceria.”

OLHAR CRIATIVO

Câmera e ação em Cataguases

Ricardo Beghini

O cineasta Glauber Rocha, maior representante do Cinema Novo, dizia que bastava “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. Em Cataguases, na Zona da Mata, a 311 quilômetros de BH, uma nova geração de operários põe em prática a famosa frase. Eles são funcionários da Fábrica do Futuro, onde câmeras, microfones e criatividade são as principais ferramentas de trabalho. Parcerias com empresas privadas formam a matéria-prima da ONG, que produz vídeos, filmes, sites, áudios e fotografias com o trabalho de jovens da região.

Desde que foi criada, em 2003, pelo Instituto Cidade de Cataguases, a Fábrica do Futuro se envolveu em cerca de 50 projetos, oficinas e encontros, visando à produção de conteúdos audiovisuais. As iniciativas, que atualmente proporcionam trabalho para 12 pessoas, pretendem convergir para o estabelecimento de um polo audiovisual no município, focado em novas tecnologias de comunicação. “Será o maior produto da Fábrica do Futuro”, ressalta o coordenador de comunicação e de projetos da ONG, Gustavo Baldez. Viabilizado por uma parceria com o Sebrae, a previsão é de que o prédio do polo fique pronto até 2011.

Além de um passado cinematográfico fértil, os projetos que culminarão no polo contam com apoio de grandes empresas de atuação regional, entre elas a Energisa, Companhia Brasileira de Alumínio (CBA), Vivo e Companhia Industrial Cataguases, que, por meio do Instituto Francisca de Souza Peixoto, acolheu a sede da ONG entre 2005 e 2007. As empresas parceiras aproveitam os benefícios fiscais dos projetos geridos pela organização, geralmente enquadrados em leis de incentivo à cultura. “A credibilidade conquistada pela Fábrica do Futuro também pesa na decisão das corporações”, assinala Bárbara Piva, produtora cultural da entidade. De acordo com ela, a ONG cataguasense foi a primeira de Minas Gerais e a quarta do país a ganhar o status de ponto de cultura, título concedido pelo Ministério da Cultura, em 2005.

“Logo nos primeiros contatos, percebemos que a conexão seria especial, que iria muito além da relação patrocinador-patrocinado. Hoje, a Fábrica do Futuro é um dos parceiros com quem a Vivo compartilha o planejamento e as discussões mais estratégicas sobre a política cultural que a empresa realiza”, destaca Marcos Barreto, gerente de Desenvolvimento Cultural da Vivo. A operadora, por meio do Instituto Telemig Celular, se tornou uma das principais parceiras. Patrocina os projetos Rede Geração Digitaligada de Webvisão, Identificart, Conexão Digital e Cidades Digitais.

MERCADO Neste último trabalho em conjunto, foram produzidos fotos, vídeos e áudios com conteúdos culturais sobre Cataguases, Ouro Preto, Diamantina, Tiradentes, Itabira e Belo Horizonte. Em fase de finalização, o material poderá ser reproduzido em celulares de clientes da Vivo que moram ou estão de passagem por essas cidades. Berço do modernismo mineiro, Cataguases abrigou o cineasta atualmente considerado o pai do cinema brasileiro. Entre 1925 e 1930, Humberto Mauro iniciou a carreira na cidade, onde gravou Valadião, O cratera, Os três irmãos, Na primavera da vida, entre outros longas históricos.

Dinheiro e poder

Arquivo pessoal

Rosângela Firmino Santos
aluna do 3º período de direito da Faculdade Dom Hélder Câmara

Quando Judas traiu Jesus, não havia esse apelo comercial, tecnológico, e hipnótico que invade nossos lares, não havia lojas virtuais, não havia sequer, uma loja capaz de fazê-lo gastar, as trinta moedas de prata que tinha. Portanto, ele não foi influenciado pelo consumismo capitalista, contextualizado no atual mundo globalizado. Mesmo assim, é inegável que o dinheiro é a raiz de todo mal. Infelizmente, por ele, matam, nascem, mentem e agem ilicitamente conforme a paixão. Ao contrário disso, o dinheiro, é o mal necessário, moeda de troca, na vida do ser humano, que satisfaz, produz prazer, eleva a autoestima, concretizando desejos e ambições desejadas e planejadas. Semelhantemente, mais do que o amor, o dinheiro cega e embriaga, entorpece verticalmente da mente ao coração.

Em razão disso, resulta então, uma inversão de valores éticos e morais na condição humana de viver. Judas, com efeito, sucumbiu, precipitou no mais profundo abismo, de sua consciência, não desfrutando com prazer, o valor da sua traição, sendo refém do seu momentâneo prazer, fugaz e abstrato,compartilhado com seu espírito atribulado, aflito e condenado por seu foro íntimo, a amargar solitário, seu ato insano.

Como deter, a repetição do suicídio de Judas na época atual? Da mesma sorte, nossos olhos, nos corrompem nos fazem cativos, aprisionando nosso entendimento. O olhar humano é refém da beleza. O que é a beleza? Ela é necessária e abstrata, e fundamental para o deleite da alma, , interessante se faz dizer, que sua arma seduz, tanto quanto o dinheiro. Honestamente, é bem-vindo e abençoado, causa bem estar, alegria e satisfação ao ser humano. É certo, vale lembrar, ser de grande importância à via de entrada. Lícita ou ilícita. Mas a corrupção tem a capacidade de transformar, o ilícito em lícito. Portanto, o que é ilícito pra alguns, é lícito pra outros, depende do ponto de vista, nem sempre coerente com a realidade.

A escravização, pelo dinheiro, projeta na sociedade, indivíduos que, como uma bomba relógio, a qualquer momento, se revolta, e tentam das mais variadas formas, lícitas ou ilícitas, concluir com paixão a posse do objeto do seu desejo. De fato. O prazer da felicidade, não está vinculado ao ter e querer. De modo geral, a saber, vincula no prazer estampado no ego de cada um, em exibir, ostentar interna ou externamente, o alimento propulsor, a mola mestra, saciada e momentaneamente feliz, até o próximo evento, que sob hibernação, ressurge ao contemplar uma aquisição de outrem, levantando a bandeira do poder axiomático, afirmando, decididamente que, só tem valor, quem tem bens materiais predeterminados.

Pela janela da alma, se observa o mundo, seu avanço, seu retrocesso moral e ético culminando com a degradação passiva do maior bem criado por Deus: o homem, zoon politikon logikon. Em análise última, a busca da prosperidade é mais excelente, do que a busca pelo dinheiro, pois a prosperidade permanece, e o dinheiro vai.

PARA PARTICIPAR
Envie sua crônica e foto para a página D por e-mail (demais.em@uai.com.br). Podem participar universitários de qualquer curso de graduação. Os textos serão escolhidos e editados após uma seleção prévia

Painéis grafitados


Déa Tomich/Divulgação
Por meio do Programa Arte Favela, que surgiu em 2003, patrocinado pelo Banco Mercantil do Brasil, jovens produziram oito painéis grafitados (de 1,40m x 2m) com imagens que retratam a literatura de Murilo Rubião, importante escritor mineiro do realismo fantástico. Eles tiveram a oportunidade de participar da exposição Painéis grafitados com sarau de literatura, poesia e música, que percorre sete espaços públicos de Belo Horizonte. O objetivo do Arte na Favela é promover o desenvolvimento cultural e social de jovens de baixa renda de vilas e favelas de BH, gerando trabalho com experimentações de diversas linguagens da arte contemporânea ligadas à vida urbana. As propostas do projeto são alinhadas às diretrizes da Política de Responsabilidade Socioambiental do Mercantil do Brasil, que visam criar alternativas de desenvolvimento cultural e social. “Temos muita satisfação em contribuir com a realização de um programa de propósito e resultado tão relevantes”, afirma Luciana Figueiredo Avelar, coordenadora de Eventos e Gestão Socioambiental do Mercantil do Brasil. A exposição ainda vai passar, na quinta-feira, pelo Via Shopping, no corredor de acesso ao terminal BHBus, às 14h, no Bairro Barreiro. Em 7 de abril, ela vai estar na rodoviária, no Centro de BH, às 14h. E, dia 18, será na Vila Presidente Vargas, no Bairro Goiânia, também às 14h.

Crime de assédio moral no trabalho pode gerar até dois anos de reclusão



Além de ser crime, assédio e abuso moral no trabalho causam problemas aos trabalhadores, comprometendo tanto a saúde física quanto psíquica dos mesmos

Jéssica Balbino

Exposição dos trabalhadores a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongas durante a jornada de trabalho. Assim é definido o assédio moral, do qual muitos trabalhadores são vítimas. Tão antigo quanto trabalhar, mas pouco discutido, o ‘tema’ só ganhou uma repercussão maior após ter sido explorado pela mídia. Os tipo de explorações mais comuns vem das escalas hierarquias autoritárias e assimétricas, onde predominam condutas negativas, relações desumanas e sem ética de longa duração, de um ou mais chefes, dirigidas aos subordinados. Desta forma, a vítima fica desestabilizada em sua relação com o ambiente de trabalho e a organização do mesmo, sendo forçada a desistir do emprego. Mesmo sem ser um fenômeno novo, o assédio ou violência moral trazem novidades no que diz respeito a intensificação, gravidade, amplitude e banalização, além da abordagem. Conforme explica o advogado trabalhista Matheus Barreto, atuante em Poços de Caldas e na região sul mineira, o assédio moral no emprego caracteriza-se, especialmente, pela degradação deliberada das condições de trabalho. “É quando prevalecem atitudes e condutas negativas dos chefes em relação a seus subordinados, constituindo uma experiência subjetiva que acarreta prejuízos práticos e emocionais para o trabalhador e a organização”, explica. E advogado relata ainda que a vítima escolha é isolada do grupo sem explicações, passando a ser hostilizada, ridicularizada, inferiorizada, culpabilizada e desacreditada diante dos pares. “Estes, por medo do desemprego e a vergonha de serem também humilhados associado ao estímulo constante à competitividade, rompem os laços afetivos com a vítima e, freqüentemente, reproduzem e reatualizam ações e atos do agressor no ambiente de trabalho, instaurando o ’pacto da tolerância e do silêncio’ no coletivo, enquanto a vitima vai gradativamente se desestabilizando e fragilizando, ’perdendo’ sua auto-estima”, destaca.

Danos à saúde mental e física

Para Cássia Pedroso, 24 anos, estudante de psicologia e estagiária, atendente numa clínica, de pessoas sem auto-estima em razão do trabalho, a humilhação repetitiva e de longa duração interfere na vida do trabalhador, causando danos até mesmo irreversíveis. “A agressão moral interfere na vida destas pessoas de forma direta. Pelo que observo, compromete a identidade, a dignidade e as relações afetivas e sociais, ocasionado graves danos à saúde física e mental, que podem evoluir para a incapacidade de trabalhar, desemprego ou em último caso, a morte, por depressão, constituindo um risco invisível, porém concreto, nas relações e condições de trabalho”, comenta a estudante. As pessoas vítimas de assédio moral passam a conviver com depressão, palpitações, tremores, distúrbios do sono, hipertensão, distúrbios digestivos, dores generalizadas, alteração da libido e pensamentos ou tentativas de suicídios que configuram um cotidiano sofrido. É este sofrimento imposto nas relações de trabalho que revela o adoecer, pois o que adoece as pessoas é viver uma vida que não desejam, não escolheram e não suportam. De acordo com um levantamento feito pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), com diversos países desenvolvidos, a pesquisa aponta para distúrbios da saúde mental, relacionado com as condições de trabalho em países como Finlândia, Alemanha, Reino Unido, Polônia e Estados Unidos. Este levantamento revela ainda perspectivas sombrias para as duas próximas décadas, pois, segundo a OIT e a Organização Mundial da Saúde (OMS), estas serão as décadas do ‘mal estar na globalização’, onde predominará a depressão, angustias e outros danos psíquicos, relacionados com as novas políticas de gestão na organização de trabalho. Segundo relato de Rosana L.* (nome alterado), que foi vítima de assédio moral quando trabalhava numa loja de roupas no centro da cidade, foi forçada a pedir demissão do emprego, frente as humilhações, ridicularizações e escassez de recursos para trabalhar, oferecidos pelo ex-patrão. “Eu era impedida de me expressar e não sabia o porque, além de ser frequentemente ridicularizada na frente dos outros ‘colegas’ de trabalho. Sem falar que estes mesmo ‘colegas’ tentavam me culpar por coisas que eu não havia feito, gerando ainda mais comentários de que eu era incapaz de exercer minha função. Com isso, fiquei desestabilizada emocionalmente. Perdi a confiança que tinha em mim mesma, adquiri uma úlcera e fui me isolando inclusive da minha família e dos meus amigos. Entrei em depressão e pedi minha demissão”, conta. Ela diz ainda que está tentando se estabilizar e ter uma vida normal. Rosana procura um emprego como vendedora ou balconista em lojas e espera conseguir superar o trauma, uma vez que tem feito tratamento e acompanhamento psicológico.

A Lei

O artigo 136-A do novo Código Penal Brasileiro institui que assédio moral no trabalho é crime, com base no decreto – lei n° 4.742, de 2001. O Congresso Nacional então decreta, no artigo 1° – O decreto lei n° 2.848, de 07 de dezembro de 1940, que no artigo 136- A, depreciar, de qualquer forma, e reiteradamente, a imagem ou o desempenho de servidor público ou empregado, em razão de subordinação hierárquica funcional ou laboral, sem justa causa, ou trata-lo com rigor excessivo, colocando em risco ou afetando sua saúde física ou psíquica pode acarretar uma pena de um a dois anos de reclusão. Ainda no mesmo artigo consta que desqualificar, reiteradamente, por meio de palavras, gestos ou atitudes, a auto-estima, a segurança ou a imagem do servidor público ou empregado em razão de vínculo hierárquico funcional ou laboral pode causar a detenção de três meses a um ano e multa.

Formas de assédio e abuso moral

De acordo com a lei, amedrontar um funcionário com ameaças de demissão podem ser caracterizadas como assédio moral. Outras atitudes como desestabilizar emocionalmente o trabalhador ou dar ordens confusas e contraditórias, sobrecarregar de trabalho ou impedir a continuidade de um, negando informações também podem ser consideradas atitudes de assédio moral. Além disso, desmoralizar publicamente, afirmando que está errado, rir a distância e em pequeno grupo, conversar baixinho, suspirar e executar gestos direcionando-os ao trabalhador também acarretam punição de lei a empresa. Ignorar a presença do trabalhador, não cumprimentar ou impedi-lo de almoçar, além e exigir que se faça horários fora da jornada, ser trocado de turno sem ter sido avisado ou ser mandado executar tarefas acima ou abaixo do conhecimento geram danos ao trabalhador e são considerados tipos de assédio moral. Hostilizar, não promover ou premiar colega mais novo/a e recém-chegado/a à empresa e com menos experiência, como forma de desqualificar o trabalho realizado, espalhar entre os colegas que o/a trabalhador/a está com problemas nervoso, sugerir que peça demissão, por sua saúde e divulgar boatos sobre sua moral também são formas de abuso. É comum também que as empresas, grandes ou pequenas, tomem atitudes como estimular a competitividade e individualismo, discriminando por sexo: cursos de aperfeiçoamento e promoção realizado preferencialmente para os homens, discriminar salários entre funcionários que exercem a mesma função ou remunerar melhor um funcionário com função inferior, além de não seguir a regulamentação e o piso salarial de cada profissão, estabelecida pelo Ministério do Trabalho pode acarretar processos à empresa e penas de reclusão. Comum, o desvio de função como: mandar limpar banheiro, fazer cafezinho, limpar posto de trabalho, pintar casa de chefe nos finais de semana é caracterizado como crime. Considerado ainda um tipo de assédio e abuso moral grave, é não fornecer ou retirar do funcionário todos os instrumentos de trabalho, impedindo-o de realizar, conforme determina a empresa, a sua função. Demitir os adoecidos ou acidentados do trabalho também é bastante grave e configura abuso.

O que fazer?!

Especialistas sugerem que as vítimas de assédio moral devem anotar, com detalhes toda as humilhações sofrida (dia, mês, ano, hora, local ou setor, nome do agressor, colegas que testemunharam, conteúdo da conversa e o que mais você achar necessário). Uma outra sugestão é que estes busquem a ajuda dos colegas, principalmente os que testemunharam o fato ou já sofreram humilhações do agressor. “Sugiro também que evitem conversar com o agressor sem testemunhas. Quando for necessário uma conversa, levar sempre um colega de trabalho ou representante sindical. Também exigir, por escrito, explicação do ato agressor e permanecer com cópia da carta enviada ao departamento pessoal ou Recursos Humanos e da eventual resposta do agressor”, sugere a estudante de psicologia, Cássia. Procurar o sindicato e relatar o acontecido para diretores e outras instâncias como : médicos ou advogados do sindicato assim como: Ministério Público, Justiça do Trabalho, Comissão de Direitos Humanos e Conselho Regional de Medicina por ser um caminho, ou ainda recorrer ao Centro de Referencia em Saúde dos Trabalhadores e contar a humilhação sofrida ao médico, assistente social ou psicólogo. “Buscar apoio junto a familiares, amigos e colegas, pois o afeto e a solidariedade são fundamentais para recuperação da auto-estima, dignidade, identidade e cidadania”, finaliza a estudante.

Precursor do grafite é homenageado em São Paulo



Mais de 30 grafiteiros promoveram intervenções nos quatro cantos da cidade de São Paulo neste final de semana para comemorar o Dia do Grafite. As atividades começaram na sexta-feira, dia 27 de março, com uma vernissage e um coquetel em homenagem ao artista plástico e grafiteiro Rui Amaral, um dos pioneiros do grafite no Brasil. Atividade que agora é conhecida como ‘nova arte pública’. Não quer dizer que os grafiteiros passaram a sair por aí dizendo que são ‘novos artistas públicos’, é verdade. Mas esse foi o jeito que a turma da arte achou para se referir a um conjunto de trabalhos que incorpora técnicas variadas, tem estilo apurado e se relaciona tanto com o passado do grafite quanto com a pintura tradicional.



Este ‘muralismo’ – representado por nomes como Osgemeos, Titi Freak, Zezão, Speto, Daniel Melim, Stephan Doitschinoff, Nunca, Ramon Martins e Onesto – vive um de seus melhores momentos, que coincide também com o início do processo de profissionalização da atividade.


Rui foi um dos primeiros a fazer o grafite com spray à mão livre, antes era feito com estêncil. Conta que, “quando eu era garoto de mais ou menos 15 anos eu já fazia de spray com estêncil”.


O grafite cresceu muito nos anos 1980 e Rui diz ter sido influenciado por isto. “Comecei a me interessar nos anos 80, uma nova onda no mundo acontecendo”, conta.


No Brasil, começou no bairro de Pinheiros, zona Oeste da cidade de São Paulo. Nessa época, no exterior, as galerias começaram a abrir suas portas aos novos artistas. Rui entende que com isto se formou um grupo jovem no Brasil. Para ele, “uma patota que excluía todo o resto. Lá não tinha espaço pra mim, recorri a essa arte nova, que ninguém conhecia, entendia”.


“Fui para a rua por ser mais democrático e por dar mais visibilidade ao meu trabalho”.


Rui e mais grafiteiros da sua geração começaram a entrar nas galerias grandes. “Foi quando teve um boom no grafite”, brinca. Passaram então a fazer grafite à luz do dia, enfrentar a polícia e tomar processo criminal da prefeitura. A cidade tinha no máximo dez pessoas que se dedicavam ao grafite.


“Uma das maiores contribuições do grafite é deixar a cidade mais bonita, é uma arte pra todo mundo. A arte transforma a vida, o grafite também. Ele é mais vibrante, faz pulsar a cidade. É uma ferramenta muito poderosa a qual poucos se dão conta do poder que tem”.


Existe um conselho de grafiteiros com o Matarazzo, secretário da subprefeitura, para revitalização das ruas da cidade. “Eu, os Gêmeos e outros grafiteiros pretendemos dar nossa arte pra cidade. Precisamos nos organizar para isso”, avalia Amaral.


“ntes éramos dez, hoje passa de dois mil. Se a gente não se organizar, empresas como a Skol usarão a nossa arte para vender cerveja. A Skol, por conta da Lei Cidade Limpa não pôde colocar outdoor, então pagou alguém pra grafitar uma propaganda. Isso não é certo.


“O grafite Brasileiro desde 1980 é bastante reconhecido. O grafiteiro conta que em 1987 saiu com o adido cultural da França para fazer grafite. “Era muito legal, saí para grafitar com o carro do consulado, imagina?”, revela.

Cidade Limpa e cinza


Oficializado em São Paulo por meio da Lei 13903/2004, de autoria do vereador Odilon Guedes (PT), o Dia do Grafite é uma homenagem ao artista Alex Vallauri, morto no dia 27 de março de 1987, vítima da AIDS. Contudo, ano passado, o prefeito Gilberto Kassab (DEM), ao normatizar o calendário oficial da cidade, deu um chega pra lá no Dia Municipal do Grafite para se adequar à sua maior bandeira, a Lei Cidade Limpa.


No ano passado, a Lei Cidade Limpa levou a Prefeitura a cobrir de tinta cinza várias destas obras – o que reeditou um confronto com os artistas que se repete desde os anos 70. Depois disso, porém, os dois lados entraram em um acordo e ficou definido que os grafites não seriam mais apagados.


Muros de cinco locais da cidade foram pintados ontem e anteontem por grafiteiros em comemoração ao dia do grafite.


A ação contou com a participação de artistas de vários lugares do Brasil, que coloriram as paredes externas de entidades beneficentes e empresas de todas as regiões da capital como Grajaú, Bixiga, Vila Maria, Cidade Tiradentes e Vila Madalena. Segundo a organização, cada grafiteiro ficou livre para desenhar o que quisesse.


E, entre os dias 1 e 15 de abril, exibições de filmes e debates sobre o tema ocorrerão na sede da Ação Educativa. “O bacana disso tudo é poder reafirmar ainda mais o grafite como arte contemporânea, deixando assim a arte mais democrática e acessível”, disse Celso Gitahy, um dos ilustres grafiteiros presentes no evento.


Mulheres grafiteiras


Talvez seja esta umas das conseqüências da tal “democratização da arte” a que Celso se referiu. Cada vez mais mulheres estão indo às ruas para grafitar. “Ainda tem gente que olha estranho, algum preconceito sempre aparece”, disse Bete Nóbrega, de 40 anos, há 20 fazendo arte nas calçadas. Bete trabalha mais com stêncil, técnica que se utiliza de um molde, influência do grafite europeu.


Para Lia Fêniz, de 26 anos, outra “menina de rua”, o número de mulheres grafiteiras vem mesmo aumentando consideravelmente. “Tem quem torça o nariz e diga ‘ah, isso é coisa pra homem’, mas a gente vai levando mesmo assim”, disse a grafiteira.


Só que nem só de problemas vivem as mulheres grafiteiras. Bete lembrou que algumas vantagens aparecem para contrabalancear os eventuais preconceitos. “Cara, a polícia sempre me liberou. Isso eu tenho que admitir que é uma bela duma vantagem”, disse.


Mapa do grafite pela cidade


Veja os principais pontos onde o grafite pode ser encontrado em São Paulo:


– Avenida Amaral Gurgel (Embaixo do Elevado Costa e Silva)
– Praça Roosevelt
– Chegada da Rodovia Dutra
– Túnel da Dr. Arnaldo com Avenida Paulista
– Avenida 23 de maio
– Batcaverna (Beco na Vila Madalena)
– Clube Jd. São Paulo (Próximo à estação de Metrô Jd. São Paulo)
– Tucuruvi (O bairro é um pólo de ruas grafitadas)
– Cambuci (Final da Lins de Vasconcelos)
– Avenida Cruzeiro do Sul (Próximo à estação de Metrô Santana)
– Grajaú (Península banhada pela represa Billins)





Casagrande: "Caí para a segunda divisão da vida, mas voltei"

Casagrande conta que não tem sentido preconceito por parte das pessoas e que mudou seus “modelos” de vida

Gazeta Esportiva

Relembre o caso:

SÃO PAULO – Sempre lembrado por sua trajetória como jogador do Corinthians, Walter Casagrande Júnior associou seu problema com drogas, seguido do processo de recuperação, com a queda do Alvinegro para a Série B do Campeonato Brasileiro e o retorno da equipe à elite do futebol.

“Minha história e a do Corinthians tem uma ligação forte. E coincidiu de o Corinthians cair para Série B e eu ter problemas, com os dois se recuperando quase ao mesmo tempo. É lógico que não dá pra comparar uma coisa com a outra, mas são situações que se cruzam”, apontou Casagrande, continuando em seguida.

“A recuperação do Corinthians está igual a minha: aos poucos vai voltando ao lugar que merece. Mesmo caindo para série B, o Corinthians é o Corinthians. As pessoas olham para o clube e respeitam. Meu caso é mesma coisa: o que eu fiz, o que eu fui e sou, não tem como apagar. O que aconteceu comigo foi um retrocesso, uma queda para a segunda divisão da vida. Mas eu voltei. Ou melhor, estou voltando aos poucos, adquirindo respeito novamente”.

Neste processo de recuperação, Casagrande conta que não tem sentido preconceito por parte das pessoas e que mudou seus “modelos” de vida depois da internação. “Eu sei que tenho problemas, que sou uma pessoa doente. Não quero esconder isso. Mas eu não senti preconceito algum até hoje, estão me tratando na boa, as pessoas me dão força e carinho. Eu sempre fui muito ligado aos anos 60 e 70, ao “sexo, drogas e rock´n´roll”. Meus ídolos eram aqueles que morreram de overdose e queria ser como eles. Hoje, com a internação, coloquei as coisas no devido lugar e quero ser como aqueles que sobreviveram”, explicou o ex-jogador do Corinthians e da seleção brasileira.


Futuro
Afastado da TV Globo desde 2007, Casagrande pretende retomar a carreira de comentarista de futebol e acredita que isso ocorrerá logo. “Já tive uma reunião com a diretoria da Globo e eles pediram o laudo da minha psiquiatra. Pelo que sei, é só uma questão burocrática, de um documento que eu tenho que assinar. Meu processo de recuperação foi bom e já estou bem mais à vontade na sociedade. Só está faltando trabalhar para voltar a seguir meu caminho”, explicou Casagrande, que prevê uma volta por etapas.

“Não tem uma data (para voltar a comentar). Eu vou voltar no Arena Sportv, do Cléber Machado, depois vou fazer o programa do Galvão Bueno (Bem Amigos), vou fazer alguns jogos do Sportv e depois posso ir para Globo“.


Drogas no futebol
Afetado pelos problemas das drogas ainda quando era jogador, Casagrande afirmou que o uso de substâncias ilegais é comum no meio do futebol. “Hoje em dia, a droga é muito comum em qualquer lugar. Seria inevitável não ser no futebol também. Eu não vivo no meio do futebol desde quando eu parei, mas eu tenho certeza que tem (o uso comum de drogas no futebol), como tem em todos os meios”, afirmou o ex-camisa nove do Corinthians.

Comunidade se une para promover transformação social

Izabela Ferreira Alves – Estado de Minas
Jackson Romanelli/Especial para o EM
Marcos Vinícius, João Batista, Elizio, Jonathas, Eduardo, Adão e MC Nubil acreditam na mudança de vida
Um projeto de transformação social pelas cores vem levantando a auto-estima de três comunidades do Barreiro, na Região Oeste de BH. Periferia Colorida é o nome do projeto desenvolvido depois de encontro entre dirigentes da Associação Pró-melhoramento Vila Cemig e da Polícia Militar, promovido pelo Núcleo de Prevenção à Criminalidade da região. Na ocasião, o presidente da entidade comunitária, o socorrista do Samu Adão Caetano, de 41 anos, inspirado em trabalho no Morro do Papagaio, às margens da Avenida Nossa Senhora do Carmo, propôs recuperar as fachadas das casas da vila e também do Conjunto Esperança e do Alto das Antenas.

Em novembro de 2007, o presidente da associação, acompanhado do também socorrista e motorista do Samu Elisio de Souza Pinto, de 40, e do oficineiro do Programa Fica Vivo Silviano Geraldo da Silva, de 33, mais conhecido como rapper MC Nubill, estiveram no Morro do Papagaio para conhecer a tecnologia social do Projeto Favela Bela, que mudou a cara da vila. “Fomos também ao Aglomerado Santa Lúcia ver como eles conseguiram patrocínio para as tintas e materiais e aprender sobre mobilização comunitária”, conta Adão. O coordenador do projeto no Morro do Papagaio, Fabiano Valentino, o Pelé, também visitou as três vilas no Barreiro, onde moram cerca de 12 mil pessoas.

A iniciativa não consiste somente em pintar a frente das casas. Nos oito mutirões feitos desde a criação do Periferia Colorida, a comunidade, com recursos próprios e doações de comerciantes, rebocou as fachadas das residências e aplicou uma demão de resina, preparando as paredes para as tintas. E elas são as mais vivas e diferentes, sempre a gosto do freguês. Há 30 anos morando na Vila Cemig, a aposentada Universina Garcia da Silva, de 66, apelidada pelos moradores de dona Santa, elegeu o verde para iluminar sua vida. “É a cor da esperança. Sempre acreditei que nossa comunidade viveria momentos de paz e tranqüilidade e o projeto ajuda muito nesse aspecto”, afirma.

Morador e participante dos mutirões, o maître João Batista Ferreira de Souza, de 35, comemora a união das três vilas durante e depois dos trabalhos. “O mutirão levanta o moral do povo e une as pessoas”, acrescenta. E não só as casas ficaram mais bonitas. Alguns espaços públicos, como muros e bancos de praças, também receberam novas cores e os grafites da oficina do Fica Vivo. “Nosso objetivo é pintar todos os postes, até a metade, e depois enfeitá-los com flores. Engana-se quem pensa que isso é frescura. Deixa o ambiente leve e traz alegria para o coração da gente”, diz Elisio Pinto. Para ajudar com doações ou trabalho voluntário, basta entrar em contato com a associação pelos telefones (31) 3383-5557 ou (31) 8689-3573. O telefone do núcleo de prevenção da PM é (31) 3383-6951.

Custo não é único ponto de avaliação

Juarez Rodrigues/EM – 4/12/06
Programas mostram que investimento social é a melhor arma da paz
A pesquisa do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp) analisou programas que não têm como foco principal o combate à violência, mas que acabam interferindo nessa realidade. É o caso do Bolsa-Família, iniciativa focada na transferência de renda. A cada R$ 1 milhão investidos no programa, 88 crimes futuros são evitados. As pesquisadoras Betânia Peixoto e Mônica Viegas adaptaram para o Brasil uma metodologia de avaliação econômica de programas desenvolvida pelo Washington Institut of Public Policy, em 1998. Na época, a análise comparou projetos desenvolvidos em regiões da Califórnia, nos Estados Unidos. São locais em que a violência gerava uma perda de bem-estar para a sociedade, o que se refletia em menos qualidade de vida e no aumento dos recursos financeiros alocados para prevenção e combate.

Como não há no Brasil informações sobre a efetividade dos programas sociais desenvolvidos, as pesquisadoras usaram taxas de projetos similares no exterior. “Reconhecemos a fragilidade dessa escolha, em função das possíveis particularidades existentes nos programas desenvolvidos no Brasil”, disseram as autoras. Elas explicam que as taxas sofreram correções para que essa fragilidade fosse contornada. No estudo, os crimes evitados são calculados considerando como cada intervenção impactaria ao longo da suposta carreira criminal de um indivíduo.

Doutoranda em economia e pesquisadora do Crisp, Betânia Peixoto lembra que programas mais caros com menores taxas de redução de criminalidade não devem ser extintos. “Cada um atua em determinado momento e é responsável por uma fração do atendimento”, afirma ela, citando a experiência da Associação de Proteção e Assistência aos Condenados (Apac). A iniciativa apresenta o custo mais alto entre os programas analisados (R$ 4,8 mil/pessoa). Mas é metade do custo do sistema carcerário tradicional (R$ 14,4 mil/pessoa, em média).

Betânia, contudo, defende a idéia de que o Fica Vivo tenha um prazo de duração, ainda que a longo prazo, até que a população procure formas de perpetuar a iniciativa por conta própria. Por isso, o envolvimento da comunidade é fundamental. (TH)

Reflexão

Eu gosto da oficina do Fica Vivo da qual faço parte. Acho que o programa tem um lado bom, porque traz uma opção de entretenimento e formação. Na atividade, aprendemos muito sobre vídeo, comunicação e ética. Já assisti documentários que ampliaram minha visão e a dos meus colegas de oficina sobre o papel da comunicação e audiovisual. Para os jovens da comunidade, é ótimo ter mais uma opção.

O programa ainda tem alguns problemas. Acho que falta incentivo financeiro e profissional para os jovens se manterem longe da criminalidade. Para mais pessoas participarem, também seria importante fazer mais propaganda na comunidade. Mesmo assim, as pessoas começaram a ver a gente usando a camisa do programa, segurando a câmera, e algumas ficam interessadas. Elas perguntam “o que significa o Fica Vivo?”. Depois, percebem que é a idéia do tipo “fique esperto”, “não fique morto”.

Daqui para a frente, pretendo me especializar em vídeo, acho que gosto mesmo é de trabalhar com direção.

Nilo Augusto Paiva, 16 anos, estudante do 1º ano do ensino médio, há um ano participa de oficina de comunicação do Fica Vivo no Morro das Pedras, na Região Oeste de BH.

Parceria de forte impacto

Sem grandes despesas, programa educacional leva policiais militares às escolas das redes estadual, municipal e particular. A meta é afastar os jovens do perigoso mundo das drogas
Beto novaes/EM – 6/7/07
Na gaveta de um móvel que fica no quarto de sua casa, a estudante Tacianne Rocha dos Santos, de 11 anos, guarda uma medalha e um certificado de uma data que considera muito especial. São lembranças da formatura no Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd), da Polícia Militar, que busca prevenir o uso de entorpecentes e combater a violência entre crianças e jovens em Minas.

O programa é desenvolvido em parceria com as escolas das redes estadual, municipal e particular. Dez aulas são ministradas por policiais militares fardados e desarmados, que usam uma cartilha para “reforçar a auto-estima dos jovens, lidar com as tensões, resistir às pressões do ambiente e aprimorar o espírito de cidadania”, na definição da tenente Ana Paula de Lima, coordenadora do Proerd em Belo Horizonte. “Eu gostava de fazer redações sobre as drogas e o mal que elas fazem. Gostava muito das aulas e da sargento Célia, que era muito amiga do pessoal”, conta a menina, que há um ano apresentou uma dança na cerimônia de formatura no programa, que dura um semestre letivo. Segundo o capitão Hudson Ferraz, assessor de Prevenção ao Uso e Tráfico de Drogas da PM, o programa tem um custo muito baixo perto do seu impacto. Em 2006, foram investidos R$ 500 mil.

“Cada cartilha custa apenas R$ 0, 60”, afirma. De acordo com a PM, atualmente 45 mil crianças de 4ª e 6ª séries do ensino fundamental são atendidas pelo Proerd na capital. Em Minas, o número pode chegar a 300 mil.

Programa de cumprimento de medida socioeducativa aplicada pelo Juizado da Infância e da Juventude, o Liberdade Assistida apresentou o segundo melhor custo-benefício na avaliação econômica de programas de prevenção e controle da criminalidade no Brasil. Para cada R$ 1 milhão investidos na iniciativa, 684 crimes são evitados. No estudo, as pesquisadoras lembram que o espaço do programa é o mais adequado para a ressocialização de jovens que precisam receber assistência psicosocial, podendo desenvolver atividades socializantes, sem privá-los de liberdade.

“O programa trabalha na perspectiva de inclusão do jovem e, muitas vezes, ressarcimento de direitos que não lhe foram garantidos”, explica Lúcia Elena Rodrigues, gerente de medidas socieoducativas da Secretaria Municipal de Assistência Social de BH. Ela aposta no investimento do estado em políticas de atendimento ao adolescente infrator em meio aberto. Para isso, cita uma frase que considera a síntese mais adequada da lógica à qual se insere o programa: “Ninguém aprende a ser livre estando preso”.

PROVIDÊNCIA
Relatórios do Orçamento da Criança e do Adolescente (OCA) produzido pela Prefeitura de BH, referente aos anos de 2005 e 2006, mostram que, a exemplo do Fica Vivo, a totalidade de recursos previstos para o programa não foram investidos de acordo com o planejado. Em 2005, foram aplicados R$ 709,5 mil de R$ 1,1 milhão (59,4%). No ano seguinte, a execução foi melhor. Do valor previsto de R$ 1,8 milhão , houve aplicação de R$ 1,6 milhão (89,5%).

Lúcia Elena afirma que o valor não aplicado no ano passado se refere ao encerramento do convênio com a Providência Nossa Senhora da Conceição, instituição que foi parceira até o início de 2006. Ela garante que o projeto não teve atividades interrompidas durante o ano e que a equipe foi expandida no segundo semestre de 2007. A gerente afirma que o custo do Liberdade Assistida é ainda maior, já que não estão contabilizados na rubrica do OCA parte dos gastos das noves regionais que executam o programa. (TH)

Combate sem arma tem resultado positivo em Minas

Pesquisa da UFMG mostra o sucesso da prevenção na luta contra a violência. Investimentos em projetos sociais têm resultado impressionante: R$ 1 milhão destinados ao Fica Vivo representam 1,5 mil delitos a menos
Auremar de Castro/EM
Felipe, que já foi “soldado do tráfico”, descobriu a paixão pela imagem em uma das oficinas do programa.
Pela primeira vez em Minas Gerais, uma pesquisa mostra, de fato, que o combate à violência não se resume ao uso de armas e força. O Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp), da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fez um estudo, publicado recentemente, e calculou quantos crimes são evitados quando se investe em programas de prevenção. Segundo as especialistas Betânia Totino Peixoto e Mônica Viegas, a cada R$ 1 milhão destinados ao Programa de Controle de Homicídios Fica Vivo, 1,5 mil crimes deixam de ocorrer nos anos seguintes. Aplicado no Liberdade Assistida, o mesmo valor impede 684 crimes; no caso do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), da Polícia Militar, são 594 delitos. É a certeza de que a presença do Estado, nas formas menos tradicionais de enfrentar o crime, também gera efeitos expressivos.

Quando governos instigam a busca por valores e identidade, além de levar informação e atividades a comunidades que convivem com a violência, oferecem a crianças, jovens e adultos alternativas à realidade imposta pelo crime e onde quase tudo falta. Apreendido duas vezes quando adolescente, Felipe, de 18 anos, apresenta-se como garçom ou pedreiro, mas não convence. Logo depois, assume que já foi soldado do tráfico. Mas faz questão de usar o verbo no tempo passado para falar sobre a experiência, que lhe garantia dinheiro fácil (“R$ 4 mil numa noite, desembolado”). É uma vida que ele não está mais disposto a levar. “De que adianta, você está ganhando dinheiro, mas ele é maldito, não é bem-visto, não é suado. Incomoda, minha mãe não gosta. Quero andar de cabeça erguida, quando ver a polícia não ter que me apavorar e correr”, conta o jovem.

Felipe participa de uma das 492 oficinas do Fica Vivo, que funciona em um dos 20 bairros e aglomerados de Minas , 15 deles na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Quando a equipe do Estado de Minas entrou na sala onde era desenvolvida a atividade, ele sacou seu aparelho de telefone celular e filmou o trabalho por quatro minutos. Nos últimos meses, descobriu a paixão pela imagem, instigado pela oficina de comunicação da qual participa. “Vídeo é bacana, pela ordem, é bacana. Estou lutando devargarzinho, para comprar uma câmera”, diz ele, que pensa em filmar uma família inteira, “do cachorro ao gato”. Depois, quer fazer uma cópia, “vender e até arrancar um dinheirinho de parente”, brinca, “é pouco, mas pelo menos vai ser uma graninha suada”, completa.

Entre seis programas mineiros avaliados no estudo do Crisp/UFMG, o Fica Vivo foi o que apresentou a melhor relação custo-benefício. Cada um dos 12 mil jovens atendidos custa apenas R$ 84, de acordo com Betânia e Mônica. Ainda assim, nos últimos dois anos não foram investidos os valores totais previstos para os períodos em que foram planejados. Segundo dados da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), dos R$ 9,7 milhões previstos para 2005, R$ 5,8 milhões (60,5%) foram aplicados até o fim daquele ano. Em 2006, a execução orçamentária foi no mesmo patamar: dos R$ 7 milhões planejados, R$ 4,4 milhões foram destinados até dezembro. O problema preocupa a Rede de Proteção da Criança e do Adolescente, que considera urgente a aplicação de recursos em programas para jovens, dado o tempo acelerado da adolescência. A Seds informa que os recursos faltantes foram aplicados nos anos seguintes e que o Fica Vivo continua em expansão.

Para tentar intervir na realidade social antes que os crimes aconteçam, diminuindo os índices de homicídios e melhorando a qualidade de vida da população, o programa tem duas frentes de atuação. A primeira é uma ação de proteção social em um núcleo de prevenção à criminalidade, que prevê oficinas de esporte, cultura, comunicação e inclusão produtiva, além de incentivar a mobilização comunitária. A segunda frente é uma intervenção estratégica de combate ao crime, que reúne polícias e Ministério Público para discutir os problemas da região e pensar como combater os focos de criminalidade. “O fenômeno da violência é localizado. A idéia de que todos os moradores são potencialmente criminosos não é verdade”, afirma a superintendente de Prevenção à Criminalidade da Seds, Fabiana Lima Leite.

Mesmo que proponham ao jovem uma nova descoberta de sua identidade, sob a ótica de novos valores, as atividades de proteção social nem sempre rompem a bolha do crime. O próprio Felipe se considera um exemplo não muito comum. “A nova geração está chegando, é cara de 15 anos que já está lá, mandando nas paradas. Brota um alemão (inimigo) lá e dá tiro nele, é mais uma mãe que chora. Já chamei para vir aqui (participar do programa), mas falam que não é coisa para eles”, explica Felipe, que conclui: “Coração de bandido é só na sola do pé”. Mas ele reconhece que, sem o programa, talvez estivesse na mesma condição dos colegas. Sem contar os jovens da mesma comunidade que nunca pegaram em armas e antes não tinham opções de atividades.

A diretora de Promoção Social da Juventude da Seds, Kátia Silva Simões, lembra que intervir na estrutura do tráfico de drogas é um dos objetivos da segunda parte de atuação do programa, a repressiva, e não das oficinas. Destaca dados da Polícia Militar, que apontam a redução de 50%, em média, da criminalidade violenta nas áreas beneficiadas pela iniciativa. Na maioria dos casos, a presença do tráfico não impede a instalação dos núcleos. Mas o trabalho em uma realidade tão complexa não poderia deixar de ter exceções. Em dezembro de 2006 a Seds inaugurou o Fica Vivo na Vila Ideal, uma das mais perigosas de Ibirité, na Grande BH. Mas, pouco tempo depois, os técnicos do programa saíram da região.

“Havia pessoas do tráfico que impediam as nossas ações. Agimos com responsabilidade, porque o trabalho envolvia também a equipe do programa. Percebemos que precisamos articular melhor a mobilização comunitária que garanta a entrada na região”, afirma Fabiana Leite. A Seds promete voltar ao aglomerado no primeiro semestre de 2008. No período posterior às duas chacinas que mataram 11 pessoas da Pedreira Prado Lopes, na Região Noroeste de Belo Horizonte, algumas atividades do Fica Vivo também foram canceladas, por causa do clima de tensão e insegurança no aglomerado. A Seds informa que as atividades na região voltaram à normalidade.

• O nome do jovem é fictício, em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)

Como anda a privacidade na vida moderna?

Em tempos de Orkut, Youtube, Big Brother e celular com câmera de alta definição, dá pra ter privacidade? E, afinal, será que o pessoal tá a fim disso ou quer mesmo é se expor? Buscando respostas pra essas perguntas, o Ragga Drops conversou com os alunos do Colégio Arnaldo. Confira aí o que eles acham:
Thaís Pacheco
Fotos: Carlos Hauck/Esp. EM

Todo mundo aqui tem Orkut?

Victor – Não. Porque acho que você se expõe muito. Também, como esse ano comecei a estudar no 3º ano, achei que não entrando no computador pra olhar Orkut ia perder menos tempo e poder estudar. Mas, antes, eu tinha Orkut.

Vocês acham que o sucesso do Orkut é porque podemos ver a vida dos outros ou por podermos expor a nossa?

Isabela – Pelos dois. Tem gente que tem Orkut pra poder fuçar a vida dos outros, mesmo sabendo que a intenção é fazer amigos. Mas gosta de saber da vida dos outros e até expor a própria.

E qual é sua intenção lá? Encontrar pessoas? Namorar? Fazer negócios?

Isabela – Antigamente, era me comunicar com os amigos mesmo e até fuçar. Mas agora não tenho entrado muito… Tinha até pensado em excluir, mas por enquanto não vou.

Lembram quando a Paris Hilton apareceu no YouTube transando com o namorado? Dizem que foi ela mesmo quem postou o vídeo. Será?

Isabela – Acho que é mais uma jogada de marketing, pra aparecer. Pra pessoa poder se promover, aparecer na mídia, ter mais fama e tal. Pode ser que não… Mas acho que no caso dela é pra aparecer.

No início do bate-papo, o Ragga Drops perguntou se alguém já tinha postado algum vídeo e todo mundo jurou que não. Então, comentamos que outro dia vimos um vídeo de um colégio aqui de BH, em que o professor brigava com o aluno na sala de aula…

Samuel – O pessoal da minha sala colocou um aluno levando tapa, mas não sei quem postou. Mas muitos alunos fazem isso. Às vezes, não exatamente sobre a escola, mas o bacana no YouTube não é isso. É você poder assistir só o que quer. Sai um pouco da exclusividade de uma gravadora ou emissora. É como se fosse uma TV em que você não está preso a uma grade.

Mas é um veículo de comunicação no qual você pode aparecer. Como fica a história da privacidade? E aquele cara que postou? E se ele não gostar?

Samuel – Aí é um problema exclusivo dessa pessoa. Não sou a favor de expor a vida, os problemas, mas acho que isso é irreversível na sociedade de hoje. O BBB é um exemplo disso. Você fica ali assistindo às outras pessoas.

O que você acha do BBB?

Samuel – Um programa que não mostra a maioria. Tem um feio, uma feia e o resto são caras supersarados e mulheres maravilhosas. A maioria das pessoas não é assim. Não estamos vendo nossa vida e sim a de artistas.

Victor Caldeira, Samuel Souza e Isabella Nery (com o microfone foto abaixo) soltaram o verbo em debate sobre os limites da privacidade

Quem assiste ao BBB?

Isabella Nery – Assisto e leio várias entrevistas sobre isso. Acho um programa muito inteligente, porque eles gastam pouco e lucram muito com isso. Tem muita repercussão e, com isso, não precisam pensar em outros programas, como os que passavam na terça ou na quinta-feira. E eles gastam bem menos porque vão deixando em banho-maria e muita gente vai assistindo. Acho que esse programa é muito legal, mesmo sendo a exposição da vida de outras pessoas… Todo mundo gosta de uma fofoca e eles usaram isso em prol deles.

Tem a inglesa Jade Goody, que participou de dois BBBs na Inglaterra, um reality show de celebridades na Índia e, agora, que descobriu que vai morrer de câncer, vendeu os direitos de imagem de seus últimos dias… Ela está apelando ou isso é normal?

Isabella – Acho que todo mundo fica comentado e julgando as pessoas. Mas a gente não pode julgar porque não conhece essas pessoas e não sabemos o que elas estão passando. A gente sabe um pouco porque assiste aos programas, mas não podemos julgar.

Vocês participariam de um BBB?

Yuri – Sim. Pelo dinheiro e pela repercussão que dá depois. Deve ser um sentimento muito legal, mas o pessoal que faz fica meio egoísta, deve se sentir melhor que os outros…

Você pode ser famoso. Nos Estados Unidos, tem um serviço em que pessoas anônimas podem pagar pra ser perseguidas por paparazzi por quatro horas, pra se sentir famosas…

Yuri – Isso deve ser um desejo muito grande da pessoa de tentar ser celebridade. Não é meu caso. Não sonho em entrar, mas se tivesse uma chance no BBB eu ia porque, além do dinheiro e da fama, depois de cinco meses que acaba o programa ninguém mais se lembra de você. Você ganha um monte de coisa lá dentro, mas não é perseguido pela sociedade.

Isso tudo, afinal, é ser celebridade ou viver em um mundo onde não existe mais privacidade?

Yuri – No caso do BBB você tem que pensar que vai ficar só três meses na casa e não vai expor tudo o que você é. É ficar em um cubículo fechado, com mais 13 pessoas. Isso não interfere na sua vida ou em quem você é. Influencia, mas pode ser de forma positiva. Além de concorrer a R$ 1 milhão, você abre muitas portas pra outras profissões.

O que mais faria falta se tirassem de você? A TV, o celular ou o computador?

Yuri – A TV.

Quem aqui não assiste ao BBB?

João – Antes assistia. Mas comecei a ver que colocar pessoas numa casa, pra uma derrubar a outra, mostra que o mundo é competitivo, o que é lógico, porque aquilo é um jogo. Mas não acho legal uma criança assistir a brigas e discussões sendo que o mundo precisa de muito mais coisas, como música boa e cultura boa. Mais do que de gente brigando e discutindo pra ganhar dinheiro.

Gabriel – Do mesmo jeito que pode abrir portas, pode fechar. O BBB manipula. Pode mostrar só os momentos bons ou ruins. Fui a um Axé Brasil em que o Alemão estava num camarote e tudo era só alegria. Mas no outro estava aquele Alberto Cowboy e o tanto que ele foi vaiado… O que era aquilo… Não queria estar na pele dele não.

Um novo campo de atuação para a advocacia

Marcelo Campos Galuppo,Advogado, doutor em Direito, professor da Una e coordenador do programa de pós-graduação em Direito da PUC Minas, presidente do Conselho Nacional de Pesquisa e de Pós-graduação em Direito e sócio do escritório Porto, Galuppo, Monteiro & Sarapu Advogados.

A própria natureza do direito está sendo alterada nos últimos tempos, e essa alteração implica, também, uma necessidade de alteração no modo de atuação dos profissionais jurídicos, que, agora, não podem mais se pautar apenas pela lei, pela doutrina jurídica e pela jurisprudência ao aconselhar seus clientes sobre que decisões são as melhores, não apenas financeiramente, mas também em termos éticos

As sociedades desenvolvidas ou em processo de desenvolvimento têm passado por profundas transformações, fruto da globalização e do acesso instantâneo à informação, que criaram uma nova pauta de valores, tais como a dignidade da pessoa humana, a necessidade de preservação das condições de vida para as gerações futuras, a transparência no governo de estados e empresas e a responsabilidade social e ambiental do capital. Tal mudança tem modificado profundamente o direito, ganhando importância uma forma de regulação jurídica até então periférica: a autorregulação. Cada vez mais, empresas e setores da atividade econômica têm elaborado normas jurídicas para si próprios.

Isso representa um grande problema para o direito, uma vez que os cursos jurídicos concentram a formação dos futuros bacharéis em meios de se lidar com litígios que envolvem diretamente o Estado e que se baseiam na ideia de monopólio da regulação jurídica pela via clássica do Legislativo e do Judiciário, tendo pouca importância em seus currículos o desenvolvimento de uma mentalidade não-litigiosa ou a valorização de fontes não estatais do direito.

Uma segunda característica dessas novas sociedades é o aumento da consciência da interconexão das decisões tomadas em um âmbito com os demais âmbitos sociais, sobretudo aqueles cujos bens não podem ser mensurados de forma estritamente econômico-financeira. Em consequência disso, a ideia de que os fins justificam os meios tem cada vez menos guarida nessas sociedades, aumentando-se a percepção de que o processo de tomada de decisões no mundo empresarial envolve dilemas éticos.

Ligado a esse movimento mundial, começou a se desenvolver a Business Ethics, que estuda os princípios e as consequências éticas que desempenham papel importante no ambiente dos negócios, e que ganhou relevância desde o escândalo da Enron, que conduziu à elaboração da Lei Sarbanes-Oxley, em 2002. Questões de responsabilidade social das empresas, de relações assimétricas entre elas (ofertas hostis, espionagem industrial, concorrência desleal), de governança corporativa, de relações entre os empregados, direção e clientes de uma empresa, de consequências dos impactos ambientais da atividade empresarial e até questões sobre a redução de erro médico em clínicas e hospitais e o comércio realizado nos níveis de ensino fundamental e médio são questões com as quais lida a Business Ethics.

Ela surge em um contexto em que a pura eficiência econômico-financeira não é mais suficiente, por si só, para determinar o sucesso de uma atividade empresarial, um contexto em que os valores éticos desempenham um papel regulativo tão importante quanto a sustentabilidade financeira, a ponto de redefinir a própria estrutura do capital.

Uma prova disso é a criação, em 2005, pela Bovespa, do índice de sustentabilidade empresarial, que alia critérios econômico-financeiros a critérios de responsabilidade social e ambiental (três elementos que compõem a chamada triple bottom line) e de governança corporativa.

As questões abordadas pela Business Ethics envolvem vários ramos tradicionais do direito. A novidade está em que a Business Ethics propõe uma forma renovada de se abordarem essas questões. A primeira novidade é que pretende encontrar resposta para essas questões aliando uma visão holística a princípios éticos. Cada ramo do direito estuda os problemas que lhes são submetidos de modo analítico, o que implica desconsiderar as repercussões de uma decisão tomada em um determinado âmbito para os demais âmbitos do direito e para os demais aspectos e dimensões da vida e da cultura de uma empresa.

A Business Ethics, ao contrário, pretende estudá-los sem isolá-los das demais questões jurídicas ou da cultura administrativa de uma empresa ou do contexto mais amplo da sociedade. Além disso, enquanto os ramos isolados do direito permitem uma abordagem em termos estritamente legais, sem se considerar as implicações éticas das decisões tomadas, a Business Ethics entende que os princípios e valores éticos são tão normativos quanto as normas jurídicas estatais, na medida em que desempenham um papel estruturante na autoimagem e na cultura de uma empresa e que correspondem a um anseio legítimo da sociedade que não pode mais ser contido por chicanas.

Uma segunda diferença é que, enquanto os ramos do direito pretendem resolver as questões que lhes são submetidas recorrendo a uma regulação jurídica externa ao ambiente da empresa, geralmente estatal, a Business Ethics o faz privilegiando a autonomia da empresa, ou seja, elaborando códigos de conduta internos às empresas e desenvolvendo comitês, conselhos e ouvidorias capazes se supervisionar a aplicação desses códigos pelas próprias empresas.

Pode-se pensar que, ao desenvolverem atividades dessa natureza, os escritórios podem estar deixando de exercer atividade inerente à advocacia. Os que afirmam isso não percebem, no entanto, que é a própria natureza do direito que está sendo alterada nos últimos tempos, e que essa alteração implica, também, uma necessidade de alteração no modo de atuação dos profissionais jurídicos, que, agora, não podem mais se pautar apenas pela lei, pela doutrina jurídica e pela jurisprudência ao aconselhar seus clientes sobre que decisões são as melhores, não apenas financeiramente, mas também em termos éticos. E essas exigências dos novos tempos parecem ser irreversíveis.

Lula culpa “brancos de olhos azuis”

Diante de premiê britânico, presidente brasileiro diz que negros e índios não podem pagar pela crise

Na busca por culpados pela crise financeira mundial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deu ontem uma indicação ao dizer que foi causada por “gente branca de olhos azuis”. Ele acrescentou que agora não é justo negros e índios pagarem essa conta.

– É uma crise causada por comportamentos irracionais de gente branca de olhos azuis, que antes da crise parecia saber tudo e agora não sabe nada – afirmou, diante do primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Gordon Brown, e da imprensa britânica, quase todos com perfil semelhante ao descrito pelo presidente.

Questionado por um jornalista inglês se estaria adotando uma postura ideológica no combate à crise, Lula negou e disse que estava apenas “constatando um fato”:

– Como eu não conheço nenhum banqueiro negro ou índio, eu só posso dizer que (não é possível) que essa parte da humanidade, que é a mais vítima do mundo, pague por uma crise. O que nós percebemos é que, mais uma vez, grande parte dos pobres do mundo são as primeiras vitimas.

Brown evitou entrar na polêmica e afirmou apenas que a crise bancária começou no sistema norte-americano e que o resto do mundo teve de lidar com os problemas. Os dois líderes defenderam a regulamentação do sistema financeiro para evitar que a crise se repita.

O presidente brasileiro cobrou decisões na próxima reunião do G-20 (grupo que reúne os países ricos e os principais emergentes), em 2 de abril, em Londres.

– Se cometermos o erro de fazer uma reunião para marcar outra reunião, poderemos cair em descrédito e a crise se aprofundar – afirmou.

Brown foi mais específico e antecipou que na cúpula do G-20 proporá a criação de um fundo de US$ 100 bilhões “para assegurar que as empresas possam exportar”. As contribuições de cada país a esse fundo deverão ser discutidas, mas o premiê britânico disse confiar que o valor proposto será aceito pois é o “mínimo necessário” para impedir maiores efeitos sobre o comércio mundial.

Fonte Zero Hora

Dez regras da grande imprensa ao abordar movimentos sociais


Convenções básicas (quem não cumprir está sujeito à demissão):

Por Osvaldo da Costa, na Adital



1ª) Toda ocupação de terra deve ser chamada de invasão
Ao invés de usar o termo adotado pelos movimentos sociais, “ocupação” – manifestação de pressão para o cumprimento da Constituição pelo Estado e denúncia da existência de latifúndios –, é mais eficiente para o objetivo de defesa do princípio da propriedade privada a utilização da palavra “invasão” – tomar para si pela força algo que não lhe pertence.

Dessa maneira, implicitamente, estamos dizendo que discordamos dessa prática e a consideramos ilegal, e conseguimos gerar a sensação de pânico generalizado em todos os donos de propriedade, sejam elas rurais e produtivas, ou até mesmo propriedades urbanas.

Observação: essa regra não é generalizável. Para os casos em que os Estados Unidos invadem países, destroem a infra-estrutura e matam a população, deve-se utilizar o termo “ocupação”.

2ª) Regra do efeito dominó: fale só do maior para bater em todos
O acordo da grande imprensa é manter somente o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na pauta dos noticiários, e evitar sempre que possível falar da existência de outros movimentos sociais. Para isso, quando se tratar de movimentos do campo, basta usar sempre a expressão genérica “movimento dos sem-terra”, ou falar dos “sem-terra”, sem mais detalhes.

Se a pauta exigir o detalhamento do movimento, recomenda-se associá-lo sempre ao alvo principal, com expressões como “movimento dissidente do MST”.

Essa regra ainda colabora para a desunião entre os movimentos, pois os menores se incomodam pela invisibilidade e pelo fato de terem suas ações relacionadas sempre ao MST.

3ª) Reforma Agrária deve ser tratada como questão de polícia
Movimentos sociais e reforma agrária devem, sempre que possível, ser tratados na página policial, no caso de jornais impressos, e no bloco do crime e dos desastres, no caso dos telejornais.

Caso não seja possível enquadrá-los na seção policial ou em espaço próximo, use títulos para editorias que lembrem o belicismo, como “campo minado”. Não importa o que diga sua matéria, os títulos devem falar por ela, mesmo que não tenham relação com o conteúdo. Use tons sensacionalistas e fatalistas.

4ª) Nunca divulgue os artigos progressistas da Constituição Federal
Os artigos da Constituição Federal que tratam da função social da terra, que integram o código agrário – 184 a 191 – nunca devem ser mencionados em reportagens sobre os movimentos sociais, para evitar a compreensão de que a ação de invasão de terras pode ter algum respaldo legal.

É sempre recomendável lembrar da lei de Segurança Nacional e da necessidade de uma legislação contra o terrorismo no Brasil. O termo “Estado de Direito” é ideal para isso. Considere qualquer manifestação uma afronta ao Estado de Direito, mesmo que ele seja apenas o Direito do Estado.

Se falar do Estado de Direito e suprimir os artigos progressistas da Constituição não for suficiente, convém colocar as reportagens próximas à cobertura de ações terroristas ou, levantar a suspeita de que há relação do movimento social com uma organização terrorista ou guerrilheira estrangeira.

Conjunto de regras para serem selecionadas e aplicadas conforme a conjuntura exigir:

5ª) Levante a bola para o oportunista de plantão
Não é verdade que o papel da imprensa é apurar a verdade dos fatos. Todo aspirante deve saber que a imprensa tem poder para gerar os fatos.

Além disso, apurar fatos implica em sair da sua cadeira e nem todos eles podem ser apurados por telefone. Basta fazer uma reportagem suspeitando de algo, e procurar um oportunista que queira protagonizar a indignação pública para a suspeita ganhar dimensão de notícia.

Sempre há alguém à disposição esperando para se deslumbrar com as luzes dos holofotes. O exemplo bem sucedido mais recente foi o caso da requentada pauta da suspeita da legalidade do financiamento público para cooperativas da reforma agrária, em que o presidente do Superior Tribunal Federal (STF) desempenhou o papel de porta-voz da bancada ruralista, dando respaldo para a suspeita, e de quebra, aproveitando para atacar o governo federal.

Se não houver ninguém do Judiciário ou algum deputado, não importa, qualquer um, sem nunca ter ido a um assentamento ou acampamento pode ser transformado em “especialista” em questão agrária: sociólogos, filósofos e até jornalistas.

6ª) Nem sempre devemos apurar os dois lados da notícia
Quando já conseguimos incutir um pré-julgamento na opinião pública sobre o caráter marginal das ações dos movimentos sociais, podemos reforçar essa opinião entrevistando somente o lado agredido pelas ações, as vítimas dos movimentos. Fica implícita a informação de que, como os integrantes dos movimentos são foras da lei, quem deve escutá-los é a polícia e o poder judiciário. Se ainda assim tiver que ouvi-los, seja breve e descontextualize a frase.

7º) Não deve existir noção de historicidade, nem de causa e conseqüência em nossas reportagens
Não abordar as razões da ação dos movimentos sociais, evitar a divulgação da nota à imprensa. Não importa há quanto tempo às famílias estejam acampadas, quais promessas foram feitas pelo governo, se a terra é do banqueiro que saqueou os cofres públicos ou do coronel que vive do trabalho escravo. Se detenha nas conseqüências da ação.

8°) Dramatização da repercussão das ações dos movimentos sociais

Retire o foco das motivações estruturais e causas históricas e centre a abordagem nas conseqüências para os indivíduos donos ou empregados das propriedades invadidas ou atacadas.

– fale do prejuízo econômico para o proprietário, e se possível faça uma entrevista com o mesmo ou com um familiar próximo para mostrar a comoção da família diante do ataque bárbaro. É importante mostrar o estado de choque emocional, e o ideal é que a pessoa esteja chorando.

– surte grande efeito a entrevista com trabalhadores da fazenda ou da empresa. O maior exemplo é o caso da ação no horto da multinacional Aracruz no Rio Grande do Sul, em que uma técnica de laboratório se fez passar por pesquisadora e, em prantos (!), afirmou que a destruição das mudas de eucalipto acabou com mais de vinte anos pesquisa.

Nesse caso, as reportagens conseguiram colocar os movimentos sociais como contrários à ciência e ao desenvolvimento tecnológico, evitando a pauta concreta da ação, que se centrava na expansão ilegal das terras da empresa e na depredação da natureza com o monocultivo de eucalipto.

9ª) Campanha de desmoralização permanente dos movimentos sociais
É sempre bom manter semanalmente pautas de desgaste aos movimentos sociais, mesmo que não haja uma ação que renda manchete. Nesses casos, a regra é trabalhar com associação, encaixando uma reportagem que fale sobre um movimento após ou entre matérias que falem, por exemplo, de casos de corrupção no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), venda de terra e desmatamento em assentamentos da Amazônia Legal, etc.

Bata nas mesmas teclas, insista nas mesmas teses permanentemente, mesmo que elas já tenham sido usadas antes. Insista, por exemplo, que o MST irá romper com o Governo Lula desta vez, mesmo que o movimento afirme e demonstre desde o primeiro dia de governo que nunca esteve atrelado.

E quando não for possível tomar como alvo os movimentos sociais, vale mirar nas bandeiras de luta deles, alegando estarem ultrapassadas, deslegitimando-as como parte da solução atual para os problemas do país. Nesse caso, pode-se até reconhecer o valor histórico que bandeiras como reforma agrária cumpriram no Brasil e em outros países, mas deve-se usar essa manobra apenas para recusar essas propostas no presente.

10ª) É fundamental saber manipular a dimensão subjetiva do telespectador ou do leitor
Não é apenas com a manipulação dos fatos e com a edição das entrevistas que podemos influenciar na interpretação que os nossos consumidores farão. Na TV, a expressão facial e o tom de voz dos repórteres, dos comentaristas e, sobretudo, dos âncoras, é determinante. A adoção do semblante sério e do tom de voz grave deve indicar a importância do tema.

Além da performance dos jornalistas como atores, é recomendável que o pano de fundo do cenário também traga imagens que gerem medo e desconfiança. O exemplo do Jornal Nacional é o mais ilustrativo: para falar da reforma agrária e dos movimentos que lutam por ela: aparece uma cerca rompida e três vultos disformes – “afinal não são pessoas, são sombras” –, empunhando ferramentas de trabalho como se fossem armas, numa ação de invasão da propriedade (e da casa do espectador).

BOLSA FAMÍLIA E TERRORISMO ELEITORAL
Por Reinaldo Azevedo

Lula esteve ontem em Pernambuco e concedeu uma entrevista a um programa popular de rádio. E mandou ver: “Tem gente que fala mal do Bolsa Família. São R$ 80, R$ 90, R$ 95, R$ 65, e tem gente que acha ruim. Tem gente que fala que é esmola. Eu acho que, para o cidadão que pode entrar em um hotel cinco estrelas e pode dar de gorjeta, depois de tomar os seus uísques, R$ 100 não é nada. Mas dê R$ 100 na mão de uma mãe para você ver a multiplicação dos pães que ela faz”.

Estava se referindo, mais imediatamente, ao senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE), que, na já histórica entrevista à VEJA, apontou a exploração eleitoreira do Bolsa Família. Destaco: Vasconcelos não atacou nenhum programa emergencial de combate à pobreza. Disse o óbvio: na forma como se faz a coisa, tem-se a maior máquina eleitoreira do mundo. A prova estava anteontem nos jornais. O programa destinado a criar portas de saída do Bolsa Família não conta com um miserável tostão. Saída para quê? Lula sabe muito bem que a entrada no programa corresponde à entrada de voto na urna.

O PMDB não teve a coragem de atacar Jarbas frontalmente. Nem precisava. Lula, como se vê, foi a Pernambuco e fez o serviço, agindo, nesse caso, como um bom subordinado de Renan Calheiros. Mas é claro que sua fala tem alcance maior, né? Já começou a fase de reciclagem do mito do “Lula social” com vistas à eleição de 2010. E o motivo é claro. Dilma, se for mesmo a candidata do PT, não conseguirá opor um “PT da fazeção” a um “PSDB da retórica”. Tal confronto é falso. Há o que mostrar. E os petistas têm motivos, claro, para estar convencidos de que não se ganha uma eleição só com a verdade… Terei sido muito sutil?

Tática Pipoca
O governo se prepara para usar a “Tática Pipoca do Desafio”. Pipoca, sabem, é a vira-latinha aqui da casa, mixuruca toda vida. A gente dá pra ela uns pedacinhos de couro de boi, especialmente preparados para limpar os dentes e cuidar do hálito, uma recomendação do veterinário — alguns humanos deveriam mascá-lo, se é que me entendem… É batata: é ganhar um pedacinho daquele troço, ela pega a sua jóia entre os dentes e corre para o seu cafofinho e fica lá por uns dois ou três minutos. Depois volta com ele na boca, larga em algum lugar mais ou menos ao alcance dos adversários da hora (os moradores da casa) e se mantém na vigilância, a uma distância prudente. É supor que alguém se move em direção a seu precioso bem, ela corre, chega antes, pega o troço nos dentes e sai no que os cronistas de antigamente chamariam “desabalada carreira”. E a coisa se repete algumas vezes. Digo a Dona Reinalda que a bichinha detesta o tal courinho. Ela gosta mesmo é de ganhar na corrida.

Ninguém ameaça, em suma, o courinho da Pipoca ou o Bolsa Família de Lula. Mas Pipoca nos desafia: “Venham pegar o meu courinho, venham… Vocês não vão conseguir, não vão…” Ou então: “Ah, eles querem acabar com o Bolsa Família; olhem aqui o Bolsa Família; eles não gostam do Bolsa Família!!!”. E, bem, ninguém vai acabar com o Bolsa Família. Nem quer isso. Esse troço vai continuar com Dilma Serra, Aécio ou o J. Pinto Fernandes, que, até agora ao menos, não entrou na história.

As bobagens de Pipoca são sinceras e irrelevantes, como supõem. As do PT, nem tanto. É bom a oposição se preparar. Para a ponta da pirâmide, Dilma (ou alguém em seu lugar) vai se apresentar como a solução conservadora — haverá o “Cuidado com Serra; ele é meio esquerdista…” Para a base, assistiremos à volta do discurso do “social”. O terrorismo de 2006 foi a acusação de que o PSDB, se vitorioso, privatizaria as estatais. NOTA: ontem, no Roda Viva, Eliane Cantanhede, acreditem, teve a coragem de perguntar a FHC se isso não havia uma ponta de verdade nisso, já que Geraldo Alckmin, o candidato de então, estaria “mais à direita…” Era terrorismo eleitoral, como até as pedras sabem. Em 2010, o medo tentará vencer a esperança também com o fantasma do fim do Bolsa Família. A cascata já começou.

Por Reinaldo Azevedo

Quem é louco, afinal

De Rubem Alves

“Fui convidado a fazer uma preleção sobre saúde mental. Os que me convidaram supuseram que eu, na qualidade de psicanalista, deveria ser um especialista no assunto.

E eu também pensei. Tanto que aceitei. Mas foi só parar para pensar para me arrepender. Percebi que nada sabia. Eu me explico.

Comecei o meu pensamento fazendo uma lista das pessoas que, dentro do meu ponto de vista, tiveram uma vida mental rica e excitante, pessoas cujos livros e obras são alimento para a minha alma.

Nietzsche, Fernando Pessoa, Van Gogh, Wittgenstein, Cecília Meireles, Maiakovski. E logo me assustei.

Nietzsche ficou louco. Fernando Pessoa era dado à bebida. Van Gogh matou-se. Wittgenstein alegrou-se ao saber que iria morrer em breve: não suportava mais viver com tanta angústia. Cecília Meireles sofria de uma suave depressão crônica. Maiakovski suicidou-se.

Essas eram pessoas lúcidas e profundas que continuarão a ser pão para os vivos muito depois de nós termos sido completamente esquecidos. Mas será que tinham saúde mental? Saúde mental, essa condição em que as idéias comportam-se bem, previsíveis, sempre iguais, sem surpresas, obedientes ao comando do dever, todas as coisas nos seus lugares, como soldados em ordem unida, jamais permitindo que o corpo falte ao trabalho, ou que faça algo inesperado; nem é preciso dar uma volta ao mundo num barco a vela, bastar fazer o que fez a Shirley Valentine (se ainda não viu, veja o filme) ou ter um amor proibido ou, mais perigoso que tudo isso, a coragem de pensar o que nunca pensou.

Pensar é uma coisa muito perigosa… Não, saúde mental elas não tinham. Eram lúcidas demais para isso. Elas sabiam que o mundo é controlado pelos loucos e idosos de gravata. Sendo donos do poder, os loucos passam a ser os protótipos da saúde mental.

Claro que nenhum dos nomes que citei sobreviveria aos testes psicológicos a que teria de se submeter se fosse pedir emprego numa empresa. Por outro lado, nunca ouvi falar de político que tivesse estresse ou depressão. Andam sempre fortes em passarelas pelas ruas da cidade, distribuindo sorrisos e certezas.

Sinto que meus pensamentos podem parecer pensamentos de louco e por isso apresso-me aos devidos esclarecimentos. Nós somos muito parecidos com computadores.

O funcionamento dos computadores, como todos sabem, requer a interação de duas partes. Uma delas chama-se hardware, literalmente “equipamento duro”, e a outra se denomina software, “equipamento macio”.

O hardware é constituído por todas as coisas sólidas com que o aparelho é feito.

O software é constituído por entidades “espirituais” – símbolos que formam os programas e são gravados nos disquetes.

Nós também temos um hardware e um software. O hardware são os nervos do cérebro, os neurônios, tudo aquilo que compõe o sistema nervoso. O software é constituído por uma série de programas que ficam gravados na memória.

Do mesmo jeito, como nos computadores, o que fica na memória são símbolos, entidades levíssimas, dir-se-ia mesmo “espirituais”, e o programa mais importante é a linguagem.

Um computador pode enlouquecer por defeitos no hardware ou por defeitos no software. Nós também. Quando o nosso hardware fica louco faz-se necessário chamar psiquiatras e neurologistas, que virão com suas poções químicas e bisturis consertar o que se estragou. Quando o problema está no software, entretanto, poções e bisturis não funcionam.

Não se conserta um programa com chave de fenda. Porque o software é feito de símbolos, somente símbolos podem entrar dentro dele.

Assim, para se lidar com o software há que se fazer uso dos símbolos. Por isso, quem trata das perturbações do software humano nunca se vale de recursos físicos para tal.

Suas ferramentas são palavras, e eles podem ser poetas, humoristas, palhaços, escritores, gurus, amigos e até mesmo psicanalistas.

Acontece, entretanto, que esse computador que é o corpo humano tem uma peculiaridade que o diferencia dos outros: o seu hardware, o corpo, é sensível às coisas que seu software produz. Pois não é isso que acontece conosco? Ouvimos uma música e choramos. Lemos os poemas eróticos de Drummond e o corpo fica excitado. Imagine um aparelho de som. Imagine que o toca-discos e os acessórios (o hardware) tenham a capacidade de ouvir a música que ele toca e se comover.

Imagine mais, que a beleza é tão grande que o hardware não a comporta e se arrebenta de emoção! Pois foi isso que aconteceu com aquelas pessoas que citei no princípio: a música que saía de seu software era tão bonita que seu hardware não suportou.

Dados esses pressupostos teóricos, estamos agora em condições de oferecer uma receita que garantirá, àqueles que a seguirem à risca, saúde mental até o fim dos seus dias.

Opte por um software modesto. Evite as coisas belas e comoventes. A beleza é perigosa para o hardware. Cuidado com a música. Brahms e Mahler são especialmente contra-indicados. Já o rock pode ser tomado à vontade.

Quanto às leituras, evite aquelas que fazem pensar.

Há uma vasta literatura especializada em impedir o pensamento. Se há livros do doutor Lair Ribeiro, por que se arriscar a ler Saramago? Os jornais têm o mesmo efeito. Devem ser lidos diariamente. Como eles publicam diariamente sempre a mesma coisa com nomes e caras diferentes, fica garantido que o nosso software pensará sempre coisas iguais.

E, aos domingos, não se esqueça do Silvio Santos e do Gugu Liberato.

Seguindo essa receita você terá uma vida tranqüila, embora banal.

Mas como você cultivou a insensibilidade, você não perceberá o quão banal ela é.

E, em vez de ter o fim que tiveram as pessoas que mencionei, você se aposentará para, só então, realizar os seus sonhos. Infelizmente, entretanto, quando chegar tal momento, você já terá se esquecido de como eles eram.”

Hip Hop queniano perde uma de suas maiores ativistas

Do Quênia para o mundo,em memória de Angel Wainaina, surge a organização “Angel Trust”, para tornar viva, sempre, a crença de um outro mundo possível.

Panikinho

Em 28 janeiro ouvia-se falar sobre o desaparecimento de Angel Wainaina, uma jovem apresentadora da “Guetto Radio” localizada em Nairóbi, no Quênia, a mesma que teve como inspiração a Rádio Favela, de Minas Gerais, contava com uma equipe de jovens homens e mulheres talentosos, com uma forte ligação com o Hip Hop e, acima de tudo, ativistas pelas causas sociais e humanas.

Angel, que tinha apenas 25 anos, se encontrava dentro de um supermercado de Nairóbi quando teve início um incêndio e a gerência do supermercado, leviana ou criminosamente, entendeu que deveria trancar as portas da loja para evitar possíveis saques. Essa atitude criminosa a matou juntamente com mais 40 pessoas, a notícia chocou o país.

(JPG)

Tive a oportunidade de conhecê-la pessoalmente quando estive no Fórum Social Mundial, sediado em Nairóbi, em janeiro de 2007, juntamente com os Hip Hoppers do Ukoo Flani Mau Mau, Buddha Blaze que organiza o Hip Hop Wapi, que é um dos maiores eventos de expressão do gênero em solo africano, onde Angel era colaboradora.

Segundo Blaze, o que há de mais triste nisso é que Angel tinha apenas começado a viagem para uma grande carreira, pois além de apresentadora da Rádio, idealizada e criada por eles, ser uma Mc de muito talento expressivo, ativista do Hip Hop e de discussões ligadas às questões do direitos das mulheres, era também atriz e estreava em um popular programa de TV chamado “Esquadrão Cobra”, onde representava o papel de uma sargento durona do exército queniano, a quem fazia duras críticas em suas composições. Também contribuía muito na produção musical de grupos underground dos guetos quenianos como por exemplo Big Kev, Kenyanna, Goreala, Die Hard, que se destacaram juntamente com o impulso respeitável de sua carreira.

No ano passado, ela estava trabalhando em um álbum juntamente com outros rappers subterrâneos de diferentes guetos quenianos, intitulada “Revolução Pacífica”, abordando a recente situação caótica no Quênia devido atitude de políticos que exploram a juventude. Toda sua luta em tão pouco tempo, a levou adquirir muito respeito e admiração de outros ativistas para além das fronteiras de seu país. Em julho de 2008, Angel esteve na Ilha de Gorée (Senegal), para um curso voltado a direitos humanos e questões de gênero onde conheceu as brasileiras Liliane Braga, Mafoane Odara e Priscilla Ferreira, ativistas ligadas aos movimentos negro e de mulheres negras.

Angel foi enterrada no dia 23 de fevereiro de 2009, e está sendo justamente homenageada com a criação de uma organização dedicada a promover direitos humanos e o respeito à vida batizada com o nome de “Angel Trust” (algo como “a crença da Angel” ou “em que Angel acredita”). Não há dúvidas de que sua luta fará muita falta. Que sua alma descanse em paz.

Para maiores informações, escreva (em inglês) para o Omar Jabbar, da Ghetto Radio (info@ghettoradio.nl). Link para o site da organização: http://angeltrust.org/. Página da radio: http://www.ghettoradio.nlválida

http://www.youtube.com/watch?v=wL52zaqhtdI

http://www.youtube.com/watch?v=Flmp25lBCuI&feature=related


O Artista e Sua Obra!
O Grafiteiro Kenyano Bank Slave homenageia Angel, grande inspiração de sua belíssima obra de Arte.

Um mundo sem racismo é possível



Movimento negro brasileiro e organizações africanas discutem estratégias para combater o racismo.

Suelma Inês Alves de Deus , Gevanilda Santos

O FSM contou com a participação de várias organizações do Movimento Social Negro Brasileiro e algumas organizações de países africanos, cada uma dentro da sua área de intervenção, debateram e refletiram com os participantes os problemas que dizem respeito às relações raciais brasileiras e conflitos internacionais que a cada dia ganham maior visibilidade. Pessoas das mais variadas áreas de atuação e origem étnica demonstraram interesse em compreender a construção ideológica do racismo e os problemas decorrentes da discriminação racial, preconceitos e todas as formas de intolerância. Questões de gênero, educação, saúde, trabalho, criança e juventude, foram alguns dos pontos discutidos nas oficinas.

SOWETO ORGANIZAÇÃO NEGRA FALA SOBRE A EDUCAÇÃO POPULAR NO FÓRUM SOCIAL MUNDIAL. BELÉM (PA)

Em roda de conversa realizada dia 29 de janeiro como atividade no FSM, a Soweto Organização Negra, dialogou com os participantes sobre a importância da educação popular na intervenção política de combate ao racismo e todas as formas de discriminação.

Foi relatado que em 2005 a Soweto se aproximou dos pressupostos teóricos metodológicos de Paulo Freire, a partir da perspectiva de trabalhar com a formação de jovens destacando a continuidade da resistência intergeracional de combate ao racismo.

Para a Soweto os pressupostos teóricos auxiliam no entendimento e identificação de como o racismo é percebido por cada grupo ou pessoa e potencializa a ação política conscientizadora já desenvolvida no interior do Movimento Negro, porém, às vezes, não reconhecido como tal. Alguns elementos já utilizados como estratégia de resistência no Movimento Negro foram identificados, como a resistência histórica, a oralidade, a ancestralidade, a dinâmica intergeracional das vivências comunitárias.

Na atividade, os participantes puderam vivenciar como a organização atua em sua metodologia de ação política. O diálogo foi horizontal, os participantes expuseram seu ponto de vista, algumas histórias de vida e a visão de mundo. Ao termino da atividade os impasses e desafios foram encaminhados coletivamente.

Para a Soweto, o importante em sua ação política é discutir, a partir da educação popular, as estratégias para enfrentar o racismo, fortalecer os segmentos sociais que estão em vulnerabilidade por não conseguirem identificar como o racismo age e como enfrentá-lo.

ASSEMBLÉIA DO CONGRESSO DE NEGRAS E NEGROS DO BRASIL (CONNEB)

O Congresso de negras e negros brasileiros marcou presença no Fórum Social Mundial. Depois de visitar a cidade de Belo Horizonte para realizar sua primeira assembléia e a capital de São Paulo na sua segunda assembléia.

O CONNEB visitou a cidade de Belém do Pará com sua terceira assembléia realizada no auditório do Teatro Gasômetro, centro de Belém. O objetivo do CONNEB é construir um projeto político do povo negro para o Brasil.

A coordenação nacional do Conneb é formada por entidades negras de âmbito nacional, como Coordenação Nacional de Entidades Negras (Conen), Movimento Negro Unificado (MNU), UNEGRO, Fórum Nacional de Mulheres Negras, Agentes de Pastoral Negros (APN’s), Círculo Palmarino e outras organizações que compuseram a da coordenação do Pará como o Cedenpa e o Mocambo.

A passeata contra a Intolerância Religiosa abriu a assembléia e contou com a presença de autoridades locais e representantes de movimentos sociais presentes no fórum social mundial de Belém.

Os temas debatidos na assembléia foram o projeto políticos que queremos; soberania nacional e resistência da amazônia negra; regularização fundiária e a questão quilombola e o genocídio da juventude negra.

O ministro da Igualdade Racial, Edson Santos esteve na assembléia do Conneb, e ouviu as reivindicações das organizações presentes na assembléia. Entre as diversas reivindicações consta a atenção e agilidade na demarcação e titulação das terras quilombolas, maior empenho na aprovação do Estatuto da Igualdade racial e PL73/99, agilidade na aprovação dos projetos enviados à SEPPIR (Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial).

A assembléia de negras e negros de Belém recebeu a visita do Comitê africano do FSM e foi reafirmado a unidade entre os povos Afrodescendentes na diáspora entorno do movimento pela reparação.

A CONEM afirmou que reparação social e política para negras e negros do Brasil por 500 anos de exploração e opressão deve estar comprometida com o projeto político que queremos, um projeto político capaz de superar a opressão de raça, classe e gênero.

Ao final da assembléia foi anunciada uma unidade de ação entre organizações do movimento negro e alianças com os demais movimentos sociais capaz de fortalecer o projeto político que queremos. A próxima assembléia do CONNEB será em Porto Alegre/ RS.

O tradutor centenário dos sertanejos

Patativa do Assaré transformou “coisas complexas para um código de comunicação que fosse compreensivo para o seu povo”

Patativa do Assaré transformou “coisas complexas para um código de comunicação que fosse compreensivo para o seu povo”

Eduardo Sales de Lima

da Redação

No dia 5 completaram-se os cem anos de nascimento de Patativa do Assaré, um poeta que construiu a si mesmo e desenvolveu uma poesia valorizando o sujeito popular. Leitor ferrenho de clássicos da literatura portuguesa, não seguiu metodologias acadêmicas para elaborar seus versos; e sim sua sensibilidade. O que talhou uma arte para ter, entre outras funções, a de enfrentar as injustiças sociais, sem que sua riqueza estética ficasse abalada.

“O Patativa virou um tradutor do mundo. Ele se inquietava com tudo o que via e imediatamente passava a comunicar aquilo”, afirma Luiz Tadeu Feitosa, antigo amigo e estudioso da obra do autor. Como explica, o poeta transformou “coisas complexas para um código de comunicação que fosse compreensivo para o seu povo”.

Também conhecido como “poeta cidadão”, Patativa vai na contramão a outros escritores, considerados eruditos pela universidade, pela academia. O crítico literário Mário Chamie já lembrava pouco depois da morte de Patativa: “Enquanto um Guimarães Rosa, um João Cabral de Melo Neto e outros escritores eruditos convertem a matéria-prima da tradição oral em alta literatura, Patativa faz o inverso, serve-se da literatura erudita para enunciar uma linguagem de comunicação direta”.

Para ouvir

A oralidade dos versos, característica acentuada do sertanejo, e presente desde a “meninice” de Patativa, nos remete para o fato de que sua poesia, apesar de conter estilo e métrica, sempre foi construída para ser ouvida. Uma característica produzida pela próprio modo de aprender do menino agricultor da Serra de Santana (zona rural de Assaré, no Ceará). Patativa foi “alfabetizado pela voz, não pela letra”, lembra Feitosa, que também é professor de jornalismo na Universidade Federal do Ceará (UFC). Não à toa, ele recebeu como apelido o nome do “Patativa”, pássaro cantador do nordeste, no período em que visitou Belém (PA), nos anos 1930.

Um anseio do poeta era o de que o sertanejo se reconhecesse por meio da produção cultural local, e não pelo que pessoas de outras regiões do Brasil falavam em relação ao sertanejo. Uma parte do poema “Cante lá que eu canto cá” mostra isso: “Cante a cidade que é sua / Que eu canto o sertão, que é meu”. Segundo Feitosa, o poeta compreendia muito bem o modo preferencial que a mídia eletrônica e outros meios de comunicação utilizava ao falar do sertão, com “olhar estrangeiro”.

“Ele leu ‘Os Sertões’ de Euclides da Cunha e se impressionou, por exemplo, com a primeira parte do livro, que de forma muito competente Euclides falava da ecologia, da geografia do sertão. Mas na hora em que ele começa a falar do povo e da luta, como paulista que era, não havia como retratar esse povo com o código que formava a sua pessoa; é o olhar do outro”, explica Feitosa.

Doutô?

O poeta frequentou a escola somente por seis meses. Entretanto, por iniciativa própria, leu inúmeras obras clássicas, dentre elas, as de Luiz de Camões e de Bocage. Considerava Castro Alves como seu grande mestre. O cearense chegou a ler o “Tratado de Versificação”, escritos pelos parnasianos Olavo Bilac e Guimarães Passos. Agraciado com o título de Doutor Honoris Causa em três universidades públicas do Ceará, Patativa foi estudado por universidades na França e na Inglaterra.

Mas sua relação com clássicos, eruditos e mesmo com a academia para por aí. Patativa optou por chamar a si mesmo de “poeta matuto”. Segundo Feitosa, era uma forma desdenhosa de o próprio poeta tratar essas instâncias. “A academia acha que para ser o cânone literário ou poético tem que passar pelas bancadas acadêmicas, e isso não é verdade. Porque todos os antropólogos sabem que existem formas distintas de sabedoria”, afirma Feitosa.

Outra coisa. Por ter sido alfabetizado pela voz e não pela letra, e posteriormante, por transmitir sua arte também pela voz, acadêmicos o classificaram como sendo um poeta analfabeto. Mas tal preconceito “faz parte do processo civilizatório, em que as hegemonias arbitram os padrões que uma sociedade deve seguir”, como explica Feitosa.

Para o pesquisador, Patativa não precisa desses cânones, da representação materialista, romântica, regionalista para subsidiar sua licença poética, “diferente dos poetas de bancada que precisavam do modelo e da metodologia da criação poética para fazer poesia; ele não. Tudo porque ele é gênio”, atesta.

Mas o que impede a academia de considerar Patativa tão poeta quanto João Cabral de Mello Neto? Como acrescentou outro pesquisador da obra de Patativa, Cláudio Henrique Sales Andrade, “o que incomoda é a pobreza: não a dos versos, mas a do autor deles”.

Tota: O primeiro bairro a ter sua história contada através do graffiti




O bairro Cidade Tiradentes, berço do coletivo 5zonas ganha mais um mural.



Lateral de prédio pós coletivo

Em 2007, quando o coletivo realizou o projeto “5 Zonas de Graffiti”, Cidade Tiradentes foi o primeiro bairro a ter sua história contada através de um mural de graffiti. Para colher as informações necessárias o coletivo conversou com alguns moradores antigos, que desvendaram desde histórias com escravos à vontades de melhorias no bairro. Todo esse trabalho pode ser visto na Av dos metalúrgicos.

O coletivo 5zonas, possui artistas de renome da cena do graffiti-art paulistano, que por si, trazem em suas bagagens diversos trabalhos e experiências por todo o país. Quando se juntaram em 2006, com o intuito de trabalhar em coletivo, o bairro Cidade Tiradentes passou a fazer parte de suas vidas, até mesmo dos que alí não moram.

Em 2008, o bairro recebeu mais um mural, mas dessa vez, o que se pode encontrar nas imagens, cores e formas não são histórias, mas sim trechos de uma poesia, pois esse mural fez parte do projeto “Graffiti Poético 2008”, onde o coletivo interpretou poesias escritas por alunos do EJA da EMEF do CEU Jambeiro.

Atuando em diversos bairros de São Paulo e da Grande São Paulo, o coletivo não esqueceu de suas origens, e por um dos projetos de 2009 do coletivo, Cidade Tiradentes está ganhando mais um mural, dessa vez é a lateral de um prédio que está ganhando as cores e os traços poéticos do grupo.

Mas dessa vez não foi conversa com moradores, muito menos poesias que serviram de inspiração para o grupo, mas sim o que eles mesmos sentiam vivendo e atuando no bairro.

O mural, ainda sem nome, está representando a falta de auto-suficiência do bairro, chamando atenção para carência de algumas coisas como: postos de gasolina, agências bancárias, drogarias, bibliotecas e etc.

Podemos entender um pouco melhor esse mural quando temos acesso a dados como esse: “imagina a fila em um único posto de gasolina num bairro que possui aproximadamente 300.000 (trezentos mil) habitantes” diz um dos integrantes do grupo.

O mural está finalizado, e está localizado na Rua Coração de Maçã, 72
Este projeto do prédio foi contemplado no edital do proac-Programa de açãocultural – da Secretaria do Estado da Cultura-2008/2009

Tota é Graffiteiro morador de Santo André integra o coletivo 5zonas juntamente com Credo, Eve 14, Hope e Sow. Mais informações www.5zonas.com.br




Em Destaque

Violência doméstica: uma questão nacional

Maria Clara Lucchetti Bingemer

Antigamente o mês da mulher era maio. Não tinha esse nome, mas era (e ainda é) em maio que a sociedade civil comemora o Dia das Mães e a Igreja Católica celebra mais intensamente Nossa Senhora, mãe de Jesus e modelo de mulher. Só mais recentemente, 8 de março foi instituído como Dia Internacional da Mulher, celebrando as conquistas das mulheres modernas que disputaram com o homem o espaço público e tiveram avanços significativos.

A ideia da existência de um Dia Internacional da Mulher foi inicialmente proposta na virada do século XX, durante o rápido processo de industrialização e expansão econômica que levou aos protestos sobre as condições de trabalho. As mulheres empregadas em fábricas de vestuário e indústria têxtil foram protagonistas de um desses protestos em 8 de Março de 1857, em Nova York, quando se manifestavam sobre as más condições de trabalho e reduzidos salários. No Ocidente, o Dia Internacional da Mulher foi comemorado durante as décadas de 1910 e 1920, mas depois esmoreceu. Foi revitalizado pelo feminismo na década de 1960. Em 1975, designado como o Ano Internacional da Mulher, a Organização das Nações Unidas começou a patrocinar o Dia Internacional da Mulher.

As conquistas da mulher nas últimas décadas são muitas e inegáveis. A entrada no mercado de trabalho, os salários, a notoriedade em profissões antes apenas masculinas colocaram a mulher em um patamar de visibilidade que antes não tinha, restrita ao papel de esposa e mãe. Testemunha disso é a crença estabelecida e legitimada de que a mulher que não se casava era “encalhada”, “solteirona” etc. E a que se casava dependia quase que totalmente do marido.

No entanto, ao lado desses avanços e progressos, estão outros sinais que parecem nos dizer o quanto ainda falta para que a mulher seja realmente livre e emancipada. A violência doméstica talvez seja o mais triste e preocupante de todos. Recentemente trazido ao proscênio da mídia, o caso da menina de Recife que engravidou de gêmeos do próprio padrasto, reacendeu a discussão e fez vir à tona diversos outros casos que foram acontecendo pouco antes ou pouco depois.

Em diversos pontos do país aconteciam coisas parecidas com mulheres muito jovens, algumas meninas impúberes, violentadas por homens tarados dos mais diversos tipos, desde desconhecidos que invadiram suas casas ou interceptaram seu caminho na volta da escola até o inimigo que dormia em sua própria casa, disfarçado no papel de pai, padrasto, irmão, tio etc.

Todos esses aterrorizantes episódios nos interpelam e nos pedem que voltemos nosso olhar e nossa atenção para as vítimas. Ou seja, para aquelas mulheres, em muitos casos meninas, que ainda não estão emancipadas nem libertas, mas pelo contrário, amargam dura escravidão e opressão nas mãos de homens irresponsáveis e violentos que muitas vezes moram em sua própria casa.

Não é possível que enquanto nos orgulhamos de frivolidades tais como ter “investment grade” e havermos sido agregados ao grupo dos países respeitáveis internacionalmente, ainda admitamos em nosso meio atos de barbárie em tão larga escala. O caso da menina de Recife apenas engrossa estatísticas que já têm dimensões simplesmente terríveis. Tanto é assim que a mídia parecia não se interessar muito por sua pessoa. Estava mais preocupada em confrontar os médicos, o bispo, a polícia etc. Estava mais preocupada com a discussão que o caso ia gerar e que certamente ajudaria a vender jornal e aumentar a audiência.

Por isso, enquanto a violência contra a mulher, sobretudo aquela que é menor de idade, for uma realidade tão constante em nosso país, não faz o menor sentido comemorarmos estatísticas que falam de libertação da mulher. As vítimas nos interpelam e a nossos discursos triunfalistas. Voltemo-nos para as prioridades que ainda não estão atendidas. E quando se virem os frutos desse esforço que deve ser de todos, aí sim, poderemos celebrar.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de “A Argila e o espírito – ensaios sobre ética, mística e poética” (Ed. Garamond), entre outros livros.

Clique aqui para conhecer o site pessoal de Maria Clara Lucchetti Bingemer

Direito ao aborto

Direito ao aborto

Frei Betto

Embora contrário ao aborto, admito a sua descriminalização em certos casos, como o de estupro, e não apoio a postura do arcebispo de Olinda e Recife ao exigir de uma criança de 9 anos assumir uma gravidez indesejada sob grave risco à sua sobrevivência física (pois a psíquica está lesada) e ainda excomungar os que a ajudaram a interrompê-la.

Ao longo da história, a Igreja Católica nunca chegou a uma posição unânime e definitiva quanto ao aborto. Oscilou entre condená-lo radicalmente ou admiti-lo em certas fases da gravidez. Atrás dessa diferença de opiniões situa-se a discussão sobre qual o momento em que o feto pode ser considerado ser humano. Até hoje, nem a ciência nem a teologia tem a resposta exata. A questão permanece em aberto.

Santo Agostinho (sec. IV) admite que só a partir de 40 dias após a fecundação se pode falar em pessoa. Santo Tomás de Aquino (séc. XIII) reafirma não reconhecer como humano o embrião que ainda não completou 40 dias, quando então lhe é infundida a “alma racional”.

Esta posição virou doutrina oficial da Igreja a partir do Concílio de Trento (séc. XVI). Mas foi contestada por teólogos que, baseados na autoridade de Tertuliano (séc. III) e de santo Alberto Magno (séc. XIII), defendem a hominização imediata, ou seja, desde a fecundação trata-se de um ser humano em processo. Esta tese foi incorporada pela encíclica Apostolica Sedis (1869), na qual o papa Pio IX condena toda e qualquer interrupção voluntária da gravidez.

No século XX, introduz-se a discussão entre aborto direto e indireto. Roma passa a admitir o aborto indireto em caso de gravidez tubária ou câncer no útero. Mas não admite o aborto direto nem mesmo em caso de estupro.

Bernhard Haering, renomado moralista católico, admite o aborto quando se trata de preservar o útero para futuras gestações ou se o dano moral e psicológico causado pelo estupro impossibilita aceitar a gravidez. É o que a teologia moral denomina ignorância invencível. A Igreja não tem o direito de exigir de seus fiéis atitudes heróicas.

Roma é contra o aborto por considerá-lo supressão voluntária de uma vida humana. Princípio que nem sempre a Igreja aplicou com igual rigor a outras esferas, pois defende o direito de países adotarem a pena de morte, a legitimidade da “guerra justa” e a revolução popular em caso de tirania prolongada e inamovível por outros meios (Populorum Progresio).

Embora a Igreja defenda a sacralidade da vida do embrião em potência, a partir da fecundação, ela jamais comparou o aborto ao crime de infanticídioe nem prescreve rituais fúnebres ou batismo in extremis para os fetos abortados…

Para a genética, o feto é humano a partir da segmentação. Para a ginecologia-obstetrícia, desde a nidação. Para a neurofisiologia, só quando se forma o cérebro. E para a psicossociologia, quando há relacionamento personalizado. Em suma, carece a ciência de consenso quanto ao início da vida humana.

Partilho a opinião de que, desde a fecundação, já há vida com destino humano e, portanto, histórico. Sob a ótica cristã, a dignidade de um ser não deriva daquilo que ele é e sim do que pode vir a ser. Por isso, o cristianismo defende os direitos inalienáveis dos que se situam no último degrau da escala humana e social.

O debate sobre se o ser embrionário merece ou não reconhecimento de sua dignidade, não deve induzir ao moralismo intolerante, que ignora o drama de mulheres que optam pelo aborto por razões que não são de mero egoísmo ou conveniência social, como é o caso da menina do Recife.

Se os moralistas fossem sinceramente contra o aborto, lutariam para que não se tornasse necessário e todos pudessem nascer em condições sociais seguras. Ora, o mais cômodo é exigir que se mantenha a penalização do aborto. Mas como fica a penalização do latifúndio improdutivo e de tantas causas que, no Brasil, levam à morte, por ano, de cerca de 21 entre cada 1.000 crianças que ainda não completaram doze meses de vida?

“No plano dos princípios – declarou o bispo Duchène, então presidente da Comissão Espiscopal Francesa para a Família – lembro que todo aborto é a supressão de um ser humano. Não podemos esquecê-lo. Não quero, porém, substituir-me aos médicos que refletiram demoradamente no assunto em sua alma e consciência e que, confrontados com uma desgraça aparentemente sem remédio, tentam aliviá-la da melhor maneira, com o risco de se enganar” (La Croix, 31/3/79).

O caso do Recife exige uma profunda análise quanto aos direitos do embrião e da gestante, a severa punição de estupros e violência sexual no seio da família, e dos casos de pedofilia no interior da Igreja e, sobretudo, como prescrever medidas concretas que socialmente venham a tornar o aborto desnecessário.

Frei Betto é escritor, autor, em parceria com L.F. Veríssimo e outros, de “O desafio ético” (Garamond), entre outros livros.

8 de Março

By José Saramago

Acabo de ver nos noticiários da televisão manifestações de mulheres em todo o mundo e pergunto-me uma vez mais que desgraçado mundo é este em que ainda metade da população tem que sair à rua para reivindicar o que para todos já deveria ser óbvio…

Chegam-me informações oficiais de solenes instituições que dizem que pelo mesmo trabalho a mulher cobra 16 por cento menos, e seguramente esta cifra está falseada para evitar a vergonha de uma diferença ainda maior. Dizem que os conselhos de administração funcionam melhor quando são compostos por mulheres, mas os governos não se atrevem a recomendar que quarenta por cento, já não digamos cinquenta, sejam compostos por mulheres, ainda que, quando chega o colapso, como na Islândia, chamem mulheres para dirigir a vida pública e a banca. Dizem que para evitar a corrupção na organização do trânsito em Lima vão colocar guardas mulheres, porque se comprovou que nem se deixam subornar nem pedem coimas. Sabemos que a sociedade não funcionaria sem o trabalho das mulheres, e que sem a conversação das mulheres, como escrevi há algum tempo, o planeta sairia da sua órbita, nem a casa nem quem nelas habitam teriam a qualidade humana que as mulheres colocam, enquanto os homens passam sem ver, ou, vendo, não se dão conta de que isto é coisa de dois e que o modelo masculino já não serve.
Continuo vendo manifestações de mulheres na rua. Elas sabem o que querem, isto é, não ser humilhadas, coisificadas, desprezadas, assassinadas. Querem ser avaliadas pelo seu trabalho e não pelo acidental de cada dia.

Dizem que as minhas melhores personagens são mulheres e creio que têm razão. Às vezes penso que as mulheres que descrevi são propostas que eu mesmo quereria seguir. Talvez sejam só exemplos, talvez não existam, mas de uma coisa estou seguro: com elas o caos não se teria instalado neste mundo porque sempre conheceram a dimensão do humano.

Conselho Nacional de Justiça regulariza advocacia voluntária



No dia 10 de fevereiro, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou a resolução nº 62 que disciplina a assistência jurídica gratuita e cria um cadastro nacional de advogados voluntários.

Apesar da medida ter sido criticada pela Ordem dos Advogados dos Brasil (OAB), muitas organizações comemoram a resolução, como o Instituto Pro Bono (IPB), que conta com mais de 400 advogados cadastrados e 27 escritórios de grande e médio porte em todo o Brasil. De acordo com a atual regulamentação da OAB, somente entidades carentes do terceiro setor podem usufruir da advocacia pro bono, e mesmo assim, apenas os Estados de São Paulo e Alagoas possuem esse tipo de resolução.

Para Marcos Fuchs, Diretor do IPB, “o que é necessário é uma resolução pro bono na esfera federal que regule e discipline essa questão. Ou seja a permissão de realizar atividade pro bono tanto para pessoas físicas como jurídicas (ONGs) em todo o território nacional. Sem essa resolução a atividade sempre é questionada e aí os impedimentos ficam mais evidentes. Tanto o Conselho Estadual da OAB quanto o Conselho Federal enxergam e entendem a necessidade desta resolução, só falta colocar em prática. A OAB deveria estabelecer critérios e punir aqueles que infringirem o código de ética e disciplina”, afirma.

Segundo Fuchs, há mais de oito anos existe a mobilização pela regulamentação nacional para advocacia solidária de interesse público e para pessoas físicas. “Apenas em São Paulo a proporção de defensor público é de um defensor para cada 58 mil pessoas, dentro da faixa que ganha menos de três salários mínimos. No entanto, não faltam advogados. Hoje existem 600 mil no país e só em São Paulo são 300 mil”, diz ele, concluindo, “o advogado tem que fazer e exercer a responsabilidade social no direito”.

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Envie suas sugestões para:
faleconosco@promenino.org.br

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I – Encontro de Mulheres

I – Encontro de Mulheres

“EU” E MEUS CAMINHOS

A redescoberta do “Ser” na busca do equilíbrio e interação humana, com finalidade de se conhecer melhor e trabalhar a recuperação da auto-estima.

17 a 20 de Abril

SPA Paraíso da Terra – Lavras – MG

Coordenação : Rosi Máximo

Inscrições :
Medicina Integral : 31-33377385 e 31-97012332

Vagas Limitadas

O Islã dos manos

Islã cresce na periferia das cidades do Brasil
Jovens negros tornam-se ativistas islâmicos como resposta à desigualdade racial. O que pensam e o que querem os muçulmanos do gueto

Eliane Brum

Marcelo Min

O ISLÃ NA LAJE
Carlos Soares Correia virou Honerê Al-Amin Oadq. Ele é um dos principais divulgadores muçulmanos do ABC paulista. Na foto, na periferia de São Bernardo do Campo, onde vive, reza e faz política

Cinco vezes ao dia, os olhos ultrapassam o concreto de ruas irregulares, carentes de esgoto e de cidadania, e buscam Meca, no outro lado do mundo. É longe e, para a maioria dos brasileiros, exótico. Para homens como Honerê, Malik e Sharif, é o mais perto que conseguiram chegar de si mesmos. Eles já foram Carlos, Paulo e Ridson. Converteram-se ao islã e forjaram uma nova identidade. São pobres, são negros e, agora, são muçulmanos. Quando buscam o coração islâmico do mundo com a mente, acreditam que o Alcorão é a resposta para o que definem como um projeto de extermínio da juventude afro-brasileira: nas mãos da polícia, na guerra do tráfico, na falta de acesso à educação e à saúde. Homens como eles têm divulgado o islã nas periferias do país, especialmente em São Paulo , como instrumento de transformação política. E preparam-se para levar a mensagem do profeta Maomé aos presos nas cadeias. Ao cravar a bandeira do islã no alto da laje, vislumbram um estado muçulmano no horizonte do Brasil. E, ao explicar sua escolha, repetem uma frase com o queixo contraído e o orgulho no olhar: “Um muçulmano só baixa a cabeça para Alá – e para mais ninguém”.

Honerê, da periferia de São Bernardo do Campo, converteu Malik, da periferia de Francisco Morato, que converteu Sharif, da periferia de Taboão, que vem convertendo outros tantos. É assim que o islã cresce no anel periférico da Grande São Paulo. Os novos muçulmanos não são numerosos, mas sua presença é forte e cada vez mais constante. Nos eventos culturais ou políticos dos guetos, há sempre algumas takiahs cobrindo a cabeça de filhos do islã cheios de atitude. Há brancos, mas a maioria é negra. “O islã não cresce de baciada, mas com qualidade e com pessoas que sabem o que estão fazendo”, diz o rapper Honerê Al-Amin Oadq, na carteira de identidade Carlos Soares Correia, de 31 anos. “Em cada quebrada, alguém me aborda: `Já ouvi falar de você e quero conhecer o islã´. É nossa postura que divulga a religião. O islã cresce pela consciência e pelo exemplo.”

Em São Paulo, estima-se em centenas o número de brasileiros convertidos nas periferias nos últimos anos. No país, chegariam aos milhares. O número total de muçulmanos no Brasil é confuso. Pelo censo de 2000, haveria pouco mais de 27 mil adeptos. Pelas entidades islâmicas, o número varia entre 700 mil e 3 milhões. A diferença é um abismo que torna a presença do islã no Brasil uma incógnita. A verdade é que, até esta década, não havia interesse em estender uma lupa sobre uma religião que despertava mais atenção em novelas como O clone que no noticiário.

O muçulmano Feres Fares, divulgador fervoroso do islamismo, tem viajado pelo Brasil para fazer um levantamento das mesquitas e mussalas (espécie de capela). Ele apresenta dados impressionantes. Nos últimos oito anos, o número de locais de oração teria quase quadruplicado no país: de 32, em 2000, para 127, em 2008. Surgiram mesquitas até mesmo em Estados do Norte, como Amapá, Amazonas e Roraima.

Autor do livro Os muçulmanos no Brasil, o xeque iraquiano Ishan Mohammad Ali Kalandar afirma que, depois do 11 de setembro, aumentou muito o número de conversões. “Os brasileiros tomaram conhecimento da religião”, diz. “E o islã sempre foi acolhido primeiro pelos mais pobres.”

Na interpretação de Ali Hussein El Zoghbi, diretor da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil e conselheiro da União Nacional das Entidades Islâmicas, três fatores são fundamentais para entender o fenômeno: o cruzamento de ícones do islamismo com personalidades importantes da história do movimento negro, o acesso a informações instantâneas garantido pela internet e a melhoria na estrutura das entidades brasileiras. “Os filhos dos árabes que chegaram ao Brasil no pós-guerra reuniram mais condições e conhecimento. Isso permitiu nos últimos anos o aumento do proselitismo e uma aproximação maior com a cultura brasileira”, afirma.

Eles trazem ao islã a atitude hip-hop e a formação política do movimento negro

A presença do islã na mídia desde a derrubada das torres gêmeas, reforçada pela invasão americana do Afeganistão e do Iraque, teria causado um duplo efeito. Por um lado, fortalecer a identidade muçulmana de descendentes de árabes afastados da religião, ao se sentir perseguidos e difamados. Por outro, atrair brasileiros sem ligações com o islamismo, mas com forte sentimento de marginalidade. Esse último fenômeno despertou a atenção da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, que citou no Relatório de Liberdade Religiosa de 2008: “As conversões ao islamismo aumentaram recentemente entre os cidadãos não-árabes”.

Os jovens convertidos trazem ao islã a atitude do hip-hop e uma formação política forjada no movimento negro. Ao prostrar-se diante de Alá, acreditam voltar para casa depois de um longo exílio, pois as raízes do islã negro estão fincadas no Brasil escravocrata. E para aflorar no Brasil contemporâneo, percorreram um caminho intrincado. O novo islã negro foi influenciado pela luta dos direitos civis dos afro-americanos, nos anos 60 e, curiosamente, por Hollywood. Cruzou então com o hip-hop do metrô São Bento, em São Paulo , nos anos 80 e 90. E ganhou impulso no 11 de setembro de 2001.

Marcelo Min

ATIVISTAS
O grupo de Malik (à esq.) e Sharif sonha com um estado islâmico no Brasil, quer construir uma comunidade muçulmana na periferia e levar a religião aos presos nas cadeias

Para contar essa história é preciso voltar a 1835, em Salvador, na Bahia, onde a revolta dos malês, liderada por negros muçulmanos, foi a rebelião de escravos urbanos mais importante da história do país. Pouco citada nos livros escolares, depois de um largo hiato ela chegou às periferias pela rima do rap. Lá, uniu-se ao legado do ativista americano Malcolm X, assimilado pela versão do filme de Spike Lee, de 1992. E ao 11 de setembro, que irrompeu na TV, mas foi colado às teorias conspiratórias que se alastram na internet.

É esse o islã que chega para os mais novos convertidos. E com maior força em São Paulo , porque a capital paulista foi o berço duro do hip-hop no Brasil – movimento histórico de afirmação de identidade da juventude negra e pobre. A tentacular periferia paulista é, como dizem os poetas marginais, a “senzala moderna”. E cada novo convertido acredita ter dentro de si um pouco de malê. Não é à toa que Mano Brown, o mais importante rapper brasileiro, mesmo não sendo muçulmano, diz no rap “Mente de vilão”: No princípio eram trevas, Malcolm foi Lampião/Lâmpada para os pés/Negros de 2010/Fãs de Mumia Abu-Jamal, Osama, Saddam, Al-Qaeda, Talibã, Iraque, Vietnã/Contra os boys, contra o GOE, contra a Ku-Klux-Klan.

“Fico assustado com a linguagem desses rappers, mas não tem mais jeito. Alastrou. Depois que o fogo pega no mato, vai embora. O islã caiu na boca da periferia. E não sabemos o que vai acontecer. É tudo por conta de Alá”, diz Valter Gomes, de 62 anos. Ele parece mais encantado que temeroso. Nos anos 90, “advogou” diante das organizações do movimento negro do ABC paulista e dos guetos de São Paulo com grande veemência. Defendeu que a salvação para os afro-brasileiros era a religião anunciada por Maomé quase 15 séculos atrás: “Irmãos, vocês estão querendo lutar, mas não têm objetivo. Trago para vocês um objetivo e uma bandeira. O objetivo é o paraíso, a bandeira é o islã”.

Essas palavras encontraram material inflamável no coração de alguns rappers, que há muito procuravam um caminho que unisse Deus e ideologia. Enquanto o islamismo soou como religião étnica, trazida ao Brasil pelos imigrantes árabes a partir da segunda metade do século XIX, não houve identificação. Mas, quando o movimento negro, e depois o rap, difundiu a revolta dos malês como uma inflexão de altivez numa história marcada pela submissão, a religião passou a ser vista como raiz a ser resgatada. Os jovens muçulmanos dizem que não se convertem, mas se “revertem” – ou voltam a ser. Para eles, a palavra tem duplo significado: recuperar uma identidade sequestrada pela escravidão e pertencer a uma tradição da qual é possível ter orgulho.

As igrejas evangélicas neopentecostais, que surgiram e se multiplicaram a partir dos anos 80, com grande penetração nas periferias e cadeias, não tinham apelo para jovens negros em busca de identidade e sem vocação para rebanho. “Na igreja evangélica da minha mãe, me incomodava aquela história de Cristo perdoar tudo. Eu já tinha apanhado de polícia pra cacete. E sempre pensava em polícia, porque o tapa na cara é literal. Então, o dia em que tiver uma necessidade de conflito, vou ter de virar o outro lado da cara?”, diz Ridson Mariano da Paixão, de 25 anos. “Eu não estava nesse espírito passivo. Pelo Malcolm X, descobri que, no islã, temos o direito de nos defender. Deus repudia a violência e não permite o ataque, mas dá direito de defesa. Foi esse ponto fundamental que me pegou também quando eu vi pela TV o 11 de setembro e achei que o mundo ia acabar.”

Eles se inspiram em Malcolm X e acreditam que o 11 de setembro divulgou o islã entre os oprimidos

Ridson tornou-se Dugueto Sharif Al Shabazz em 2005. Seu nome é uma síntese histórica da trajetória do islã na periferia brasileira. Ridson, o nome que deixou, foi escolhido pelo pai, um negro que gostava de piadas racistas. Dugueto é o nome do rap, para marcar a origem do gueto. Sharif é o nome do personagem de um filme de gângsteres. Shabazz foi tirado do nome islâmico de Malcolm X.

Essa geração também não perdoa ao catolicismo sua omissão no período da escravidão africana. “Minha família é católica, mas comecei a investigar a história e descobri que a Igreja deu sustentação à escravidão. Diziam que os negros não tinham alma”, afirma Honerê. “Sem contar que Jesus era branco, os anjos eram brancos. E tudo o que era ruim era negro. Aí eu pensava: `Então tudo o que é ruim vem de mim?´. Isso parece pequeno, mas na cabeça de um adolescente maltrata, faz com que a gente se torne ruim, viva uma vida ruim. Então conheci o islã.”

Honerê tornou-se um dos principais divulgadores da religião no ABC paulista. Ele é dirigente do Movimento Negro Unificado (MNU) e funcionário do Centro de Divulgação do Islam para a América Latina (CDIAL). Para ele, como para a maioria dos muçulmanos negros, não faz a menor diferença que raça não exista como conceito biológico. Raça é um conceito cultural, que determinou todas as assimetrias socioeconômicas que determinaram sua vida e hoje representa um elemento fundamental na construção de sua identidade, inclusive a religiosa. Ele narra com clareza como Carlos Soares Correia transformou-se em Honerê Al Amin Oadq, em meados dos anos 90:

– Minha mãe era doméstica em casa de branco, muitas vezes foi chamada de “negra infeliz”. Eu percebia que, no sistema de saúde e a todo lugar que eu ia, só gente da minha cor passava por dificuldades. Eu mesmo já levei coronhada da polícia sem justificativa, já defendi mulher negra no metrô, porque branco bêbado achava que era prostituta. Não tem um negro neste país que não tenha uma história de discriminação para contar. Então fui em busca da minha história. Era o tempo em que o rap era música de preto para preto. E o rap me apresentou Malcolm X. Aos 14, 15 anos, ele se tornou a minha grande referência político-racial. Depois descobri a história dos malês. Eles estavam num nível diferente se comparar com os outros negros da senzala. Não bebiam, não fumavam, sabiam escrever, eram instruídos. Se tivessem conseguido tomar a Bahia naquele 25 de janeiro de 1835, teriam o país em suas mãos, e o Brasil seria um estado islâmico

Marcelo Min

QUILOMBO
Em São Paulo , a Mesquita Bilal Al Habashi reúne 150 africanos e brasileiros nas orações da sexta-feira, principal dia islâmico

A revolta dos malês (muçulmanos, na língua iorubá) abalou não apenas o Brasil, mas repercutiu na comunidade internacional. Jornais de Londres, Boston e Nova York publicaram notícias sobre o levante. Aumentou o tom da crítica à escravidão.Setenta rebelados morreram. Mais de 500 foram punidos com prisão, pena de morte e deportação para a África. Segundo o historiador João José Reis, em seu livro Rebelião escrava no Brasil (Companhia das Letras), numa comparação com a população atual de Salvador, isso equivaleria hoje a cerca de 24 mil negros castigados.

A força do levante dos malês inspira os novos muçulmanos do gueto. Muitos sonham com um estado islâmico no Brasil – “ainda que seja um estado dentro do Estado”. “Acredito que daqui a dez, 15 anos, isso será possível. Há uma geração tentando fazer isso de forma organizada. O povo brasileiro é religioso. Quando percebeu erros na Igreja Católica, tornou-se evangélico. O islã hoje ainda é pequeno, mas isso pode mudar”, afirma o ex-católico Paulo Sérgio dos Santos, de 33 anos, assessor parlamentar da Câmara de Vereadores de Francisco Morato. Desde a virada do milênio, ele se tornou Abdullah Malik Shabbazz. “É óbvio que não vamos para um confronto armado. Esse caminho terá de vir pela consciência.”

No processo de construção da identidade, os novos convertidos trocaram perguntas e lacunas por certezas. A história é resgatada naquilo que serve a uma afirmação positiva – e as contradições, quando existem, pertencem ao outro. Esses jovens não querem tataravós como Pai Tomás, o escravo humilde do romance de Harriet Beecher Stowe, um marco na abolição da escravatura nos Estados Unidos. Preferem um antepassado como Ahuna, homem-chave na rebelião dos malês. E, sensíveis aos ecos da América negra, desejam eles mesmos ser não o pacifista Martin Luther King, mas o controvertido, belicoso e muçulmano Malcolm X, cuja trajetória de desamparo, violência, prisão e, finalmente, superação é semelhante à de muitos deles. E cujo X – símbolo da identidade arrancada pela escravidão – foi preenchido com um nome islâmico. Embora afirmem que a conversão seja um resgate da tradição, não deixam de exercer o ideal moderno de criar a própria identidade, até com a liberdade de inventar um novo nome que dê conta apenas de seus desejos – e não mais do de seus pais. Agora, eles são filhos do islã. E não mais – ou não apenas – de pais humilhados.

Antes de adotar um nome muçulmano, Honerê foi um dos fundadores de uma das mais antigas posses de hip-hop em atividade, a Haussa, hoje com 15 anos de existência. As posses são grupos que reúnem pessoas com afinidades culturais e políticas para realizar metas comuns. Na história, os africanos haussás lideraram rebeliões escravas na Bahia no início do século XIX. Muçulmanos, eles vinham do que hoje é o norte da Nigéria e de uma guerra santa que forneceu muitos cativos para o tráfico negreiro. No Brasil, é provável que haussás de ambos os lados do conflito tenham se unido contra os brancos. Dois séculos depois, Haussa é uma frente só de negros, com 40 integrantes, no ABC paulista. O nome foi escolhido “porque os haussás não se deixavam domar, tinham convicções e só eram submissos a Deus”.

Os haussás de hoje estavam entre os grupos que escutaram a preleção de Valter Gomes. Alguns, como Honerê, se converteram ao islã. “Descobrir minha história foi como ter passado a vida olhando para baixo, com a sensação de que todo mundo está te julgando e, de repente, passar a andar olhando as pessoas no olho, sem medo”, diz ele.

Os muçulmanos compartilham a certeza de que, quanto mais difamam o islã, mais ele se fortalece. O anúncio do Vaticano, em 2008, de que o islamismo superou pela primeira vez o catolicismo no mundo em número de adeptos para eles é uma prova de que, ao forjar a ligação da religião, como um todo, ao terrorismo fundamentalista, as conversões se multiplicaram, em vez de encolher. Essa face perseguida, vilipendiada e dura tornou-se um ponto de identificação.

Nas telas de TV, o 11 de setembro tornou o islã popular nas periferias do planeta, que vê nos Estados Unidos o símbolo de todas as opressões. No Brasil, o fenômeno se repetiu. “Para nós, aquilo foi coisa do próprio governo americano, para ter desculpa de invadir países muçulmanos. Mas o 11 de setembro ajudou pra caramba na divulgação”, diz o rapper Leandro Arruda, de 33 anos. “Todo mundo queria saber o que era o islã. Não que o Bin Laden seja um herói , mas a gente que vem do gueto tem certa rebeldia contra o governo opressor.”

Rapper e ex-presidiário, Leandro está entre os que se interessaram pela religião ao ver a realidade imitar o cinema-catástrofe de Hollywood. “Percebi que existe um povo com uma postura diferente na Palestina, no Iraque, no Afeganistão. Comecei a procurar informação, encontrei o Malik e acabei me revertendo”, diz. “Eu e minha esposa queremos estudar para divulgar o islã. Porque ninguém melhor do que a gente, que sobe o morro, tem acesso à periferia e conhece a massa, para falar a eles. Porque, se chegar um cara lá vestido de árabe, os `negos´ vão dar risada.” Leandro desenvolve há um ano, numa favela da Zona Leste de São Paulo, o projeto Istambul Futebol e Educação, com 25 garotos em situação de risco. Os recursos vêm de um ativista islâmico da periferia paulista que hoje estuda na Síria.

A atuação social responde ao projeto político, que vê no islã uma reação às estatísticas da violência. “Não temos problemas com outras cores e raças. Não nos organizamos por racismo. Só queremos que os afro-descendentes parem de morrer aos 20 anos. Quem morre jovem no Brasil são os que não conhecem suas origens nem tiveram acesso ao conhecimento. É um genocídio da população periférica que vem desde a senzala”, diz Malik. “Desde que me tornei muçulmano, não bebo, não fumo, meus filhos têm pai e mãe, educação e uma vida regrada. O islã nos dá instrumentos para combater problemas sociais que fazem com que sejamos a maioria e tenhamos menos que todos os outros.

Marcelo Min

ARAUTO
Valter Gomes foi um dos principais divulgadores do islã no movimento negro. Na foto, ele ora num abatedouro halal, que segue os preceitos islâmicos

Malik é o presidente do Núcleo de Desenvolvimento Islâmico Brasileiro (NDIB), a organização mais combativa do novo islã negro. O vice-presidente faz formação no Paquistão desde o ano passado. Pequeno, o NDIB tem apenas oito integrantes, entre eles Sharif e Leandro. Mas foi capaz de promover, no fim de 2007, um encontro entre o americano Fred Hampton Jr., o rapper Mano Brown e lideranças do movimento negro e de jovens muçulmanos, em São Paulo. Fred Hampton Jr. é o filho do líder dos Panteras Negras – organização criada nos anos 60, nos Estados Unidos, que defendia teses como o pagamento de compensação aos negros pela escravidão e o armamento daqueles que se sentissem ameaçados pela força policial.

Ativista como o pai, Hampton Jr. passou quase nove anos preso e fundou na cadeia o Prisoners of Conscience Committee (POCC), em português Comitê dos Prisioneiros de Consciência. Nem o POCC nem Hampton Jr. se apresentam como muçulmanos. Mas a organização tem islâmicos na coordenação, com quem o NDIB mantém boas relações. O POCC defende que todos os detentos são prisioneiros políticos, porque a desigualdade racial não lhes deu escolha. As prisões seriam, para eles, um dos passos do extermínio planejado da população negra.

Numa parceria com o Conselho Nacional de Negros e Negras Cristãos, o NDIB levou Hampton Jr. a um encontro com a comunidade afro-brasileira em Salvador, na Bahia. Suas teses têm pontos de conexão com a campanha “Reaja ou será morto, reaja ou será morta”, concebida por organizações sociais baianas, que denuncia aquilo que consideram ser o “genocídio da juventude negra brasileira pela violência do aparato repressivo do Estado” e prega “a defesa por todos os meios necessários”.

Hampton Jr., que também conheceu os morros do Rio de Janeiro, anunciou uma conexão entre o Brasil e os Estados Unidos. “O manifesto antiterrorista não deve observar nenhuma fronteira colonial. Precisamos combater todas as formas de terrorismo que nos são impostas: o crack, a falta de políticas públicas, a aids e o ataque policial. O povo negro é a vítima preferencial”, diz. Em Salvador, ele concluiu com uma analogia: “Para nós, do POCC, cada dia é como se fosse 11 de setembro. O que os brancos sofreram com o ataque terrorista, nós, negros, sofremos todo dia”. Em São Paulo , Hampton Jr. e Mano Brown cerraram os punhos. E foram aclamados.

O principal articulador da vinda de Hampton Jr. foi Sharif, que mantém contatos com muçulmanos dos guetos da França, do Canadá e dos Estados Unidos. Rapper, ele trabalha com a educação de crianças e faz parte do movimento de literatura periférica. Aos 25 anos, tem um texto contundente, com forte denúncia da desigualdade racial. Descendente de africanos e italianos, tem olhos verdes e pele clara, mas não tem dúvidas de que é negro. “Dizem que não existe raça e somos todos brasileiros, mas qual é a cor que predomina nas cadeias, na Febem e nas favelas? Negros”, afirma. “Não queremos vingança, só nosso lugar numa sociedade que ajudamos a construir. O islã não tem cor, é para todos. Mas somos negros numa sociedade racista. Então temos problemas à parte para resolver e nos posicionamos.”

Os ativistas do NDIB acreditam que o islamismo pode ser uma alternativa à conversão evangélica, maciça nas prisões brasileiras. Para seu projeto político-religioso, entrar nas cadeias é estratégico, e o POCC, de Hampton Jr., é um parceiro importante. “Os presos têm virado crentes por falta de opção, porque a última escolha do presidiário é virar evangélico”, afirma Leandro. “O islã é construção de conhecimento. Queremos trabalhar levando essa consciência, construindo a história de cada um e mostrando que, independentemente do crime que cometeram, eles são presos políticos”, diz Sharif.

Em 2009, o núcleo islâmico quer iniciar a construção de Nova Medina, uma comunidade muçulmana capaz de acolher os convertidos de vários pontos da periferia paulista. “Hoje estamos espalhados, e isso dificulta a organização”, diz Malik. “Sonhamos com um bairro muçulmano onde não existam bares com bebidas alcoólicas nas esquinas, os açougues não vendam carne de porco, nossas crianças possam estudar em escolas islâmicas e nossas mulheres não sejam chamadas de mulher-bomba.” Para isso, pensam em adquirir um pedaço de terra e fazer um loteamento. Alguns já se mudaram para a periferia de Francisco Morato, um dos municípios mais pobres da Grande São Paulo. Medina, até agora o nome mais provável, está na origem do islamismo: é a cidade da Arábia Saudita para onde o profeta Maomé migrou para escapar das perseguições que sofria em Meca. A migração marca o início do calendário islâmico.

Eles planejam converter os presos e construir uma comunidade muçulmana na periferia paulista

Diante de expressões de incredulidade, eles dão um sorriso malicioso: “Se, há dez anos, eu dissesse a você que um negro seria o presidente dos Estados Unidos, você acreditaria?”. Ou, como diz Valter Gomes: “Eu vi Martin Luther King morrer. E posso dizer que é uma revolução muito rápida. Um torneiro mecânico é presidente do Brasil, um índio é presidente da Bolívia e um negão com nome muçulmano é presidente do país mais poderoso do mundo. Ou é o fim do mundo ou é o começo de alguma coisa…”.

No islã dos manos, o rap é o instrumento e a linguagem de divulgação da religião. “Muita gente ainda vai vir para o islã pelo rap. Nós ganhamos consciência pelo hip-hop, então não podemos negar nossa história. As pessoas na periferia veem aquela negrada fazendo rima e poesia, percebem sua atitude diferenciada, sua postura na vida, e querem se aproximar. Isso é o começo da reversão”, diz Honerê. “É um passo depois do outro.”

Com uma takiah verde-amarela na cabeça – símbolo de sua condição de muçulmano brasileiro que não aceita mudar de nome -, Valter Gomes entrega tudo nas mãos de Alá. Tem os olhos úmidos quando afirma: “Alá diz no Alcorão que para cada povo há um profeta que fala a sua língua. Então, quem sabe não aparece um negrinho cheio de ginga e de rima na periferia?”.

Marcelo Min

LUVAS E ALCORÃO
Muhammad Al Mesquita, ex-campeão mundial de boxe, converte na academia

O boxeador de Alá

Na Paraíba, ex-campeão mundial tem uma mussala na academia

Cinco vezes ao dia, toda atividade cessa na Academia Mesquita Brothers, um dos principais centros de treinamento de boxe em João Pessoa , na Paraíba. Os sacos de areia deixam de ser esmurrados sem parar. No ringue, os lutadores baixam a guarda. Produz-se, então, uma cena impressionante. Tapetes são rapidamente estendidos, e os boxeadores, liderados por Muhammad Al Mesquita, se prostram em direção a Meca. Brasileiros, recitam versos do Alcorão em árabe. Depois, voltam a bater com força e ainda mais inspiração.

Muhammad era Francisco Mesquita, ex-campeão mundial de boxe na categoria superleve. Carioca, converteu-se ao islã em Nova York , nos anos 90. Compartilha com Muhammad Ali o boxe e a religião. “Mas não me converti por causa dele. Um amigo me convidou para ir a uma mesquita. Lá o xeque falou de Deus como eu nunca tinha ouvido”, diz. “Tocou meu coração.”

O boxeador de Alá se esquiva de questões políticas como se fossem jabs. Confessa que sonha em transformar o Nordeste no “celeiro do islamismo”, com pelo menos uma mesquita e um xeque em cada capital. “Todos precisam saber que existe essa opção de fé, que responde a questões que outras religiões não respondem. É preciso mostrar o caminho da verdade. Aí cada um decide se quer trilhá-lo”, diz. Ele já mostrou o “caminho” a 17 jovens boxeadores.

Marco Bahé

Marcelo Min

VELHA-GUARDA
Seu Malma é um dos pioneiros do islã afro-brasileiro

A mesquita dos negros

No centro de São Paulo, uma África islâmica

A Mesquita Bilal Al Habashi é um daqueles lugares que fazem de São Paulo uma cidade fascinante, apesar do trânsito e da poluição. No 9o andar do Edifício Esther, exemplar modernista do centro, estudado nas escolas de arquitetura, a mesquita acolhe imigrantes da África e brasileiros de origem africana para as cinco orações do dia. Instalada no apartamento que foi do pintor Di Cavalcanti, ela evoca uma intrigante algaravia: inglês, francês, português e dialetos tribais. As vozes só silenciam para ouvir o xeque recitar o Alcorão – em árabe. Enquanto os muçulmanos rezam, o edifício repete uma rotina caleidoscópica. Na cobertura, vive o padeiro com sotaque francês Olivier Anquier. No subsolo, um cabaré exercita outras línguas. No histórico Edifício Esther, a Bilal al Habashi tem essa sina. Cultiva o espírito, espremida entre o pão e a carne.

Inaugurada em 2005, a mesquita tem um nome simbólico. Bilal foi um escravo abissínio torturado pelo dono para renunciar à religião. Resistiu e tornou-se o primeiro muezim do islã, encarregado de chamar os fiéis para as orações. Bilal era também o nome de um dos líderes da revolta dos malês. Assim, é um símbolo de resistência tanto para africanos no Brasil como para brasileiros com raízes na África.

O presidente da mesquita é também uma instituição. Muhammad Ali, como o famoso boxeador, foi um dos primeiros muçulmanos sem ascendência árabe em São Paulo. Aos 17 anos, chamava-se Jair Maceió quando ouviu pela primeira vez o nome do islã junto ao Viaduto do Chá, ponto de encontro dos negros paulistanos. Jair vivia a orfandade com os pais vivos. Sem recursos para criá-lo, eles entregaram-no ao Estado. O sobrenome, Maceió, como é comum entre descendentes de escravos, indicava a terra onde o avô fora cativo. Desenraizado, a luta pelos direitos civis dos negros americanos, nos anos 60, retumbou dentro dele. Quando o boxeador Muhammad Ali se recusou a lutar no Vietnã, dizendo que aquela não era uma guerra dele, Jair acreditou ter agarrado a ponta de uma raiz comum. Parou de dançar, seu “único vício”, e tornou-se Muhammad Ali Numairi. Com esse nome, fundou a Mesquita Muçulmana Afro-Brasileira, em 1974, ao lado de Joel Azor da Silva e Abdullah Menelik Omar. O objetivo “era arrumar a sociedade negra e impedir a dissolução da família afro-brasileira pela bebida e pela droga”.

Aos 58 anos, Seu Malma, como é conhecido, diz que o islã é para todos. Sua mesquita virou bússola para os perdidos africanos, a maioria clandestinos no Brasil. Eles dividem o espaço com “o pessoal do rap”, que tem dado dor de cabeça a Seu Malma. “Música é proibido no islã. E gueto só serve à classe dominante, que quer mantê-los lá”, diz. “Mas eles acham que o rap é importante para divulgar o islã na periferia e que eu sou da velha-guarda.” Com a “jovem guarda do islã”, Seu Malma compartilha a utopia: “Quero fazer do Brasil um país muçulmano”.

Marcelo Min

DO RIO GRANDE PARA MECA
Muhammad (de camisa listrada) é líder religioso de uma das mais organizadas comunidades do interior do país

Muhammad foi ao cinema e se converteu

Hoje, ele prepara “a base de um levante cultural”, com migrantes nordestinos e gaúchos sem-terra, em Passo Fundo

Nivaldo Florentino de Lucena recebeu a dica de um amigo: “Tem um filme com a história de um negão que é da hora!”. O “negão” era Malcolm X. O filme era a biografia do ativista americano, dirigida por Spike Lee. Numa sessão lotada de rappers, Nivaldo, da Zona Leste de São Paulo, concluiu que o negão era da hora mesmo. Filho de uma mãe que, no censo do IBGE, se declarava “branca” e de um pai que se anunciava “pardo”, ele pertencia à geração que tinha certeza de que eram todos “negros”. Saiu do cinema decidido a encontrar uma mesquita. Era 1992. Muhammad trocou a bebida, as drogas e os pequenos crimes pelo Alcorão. Anos mais tarde, se formou em teologia islâmica na Líbia. Em 2002, desembarcou na gaúcha Passo Fundo, cidade de colonização europeia, onde loiras naturais são tão corriqueiras como o chimarrão. Tinha duas metas sob a takiah muçulmana: assumir um posto numa multinacional de frangos halal (abatidos segundo a prescrição islâmica) e divulgar o islã.

Quando Muhammad Lucena chegou, havia três famílias muçulmanas de origem árabe. Hoje, ele conta mais de 40, a maioria composta de trabalhadores da empresa. Muhammad se tornou o imã, líder religioso, de uma comunidade com um perfil inédito: migrantes nordestinos que chegaram ao sul como mascates e gaúchos que trocaram a zona rural pela periferia da cidade. No caso de Passo Fundo, o islã disputa, no campo religioso, com a Igreja Católica e com as neopentecostais evangélicas. No campo político, com o MST. “Sempre fui peão e, como negro, fui vítima de muito preconceito aqui no Rio Grande”, diz Valdivino Bueno da Silva. “Tinha intenção de virar sem-terra, como o meu irmão, mas acabei ficando por aqui e me convertendo.” Em 2005, aos 24 anos, ele conseguiu vencer o alcoolismo e virou Abdallah.

Tornou-se “irmão” no islã de João Paulo Silva, que deixou o sertão do Ceará para vender artigos de cama e mesa pelas ruas de Passo Fundo. “Gaúcho chama todos os nordestinos de baiano”, diz. “Era uma vida sofrida.” Aos 20 anos, mudou de sina, adotou o nome de Jaber e virou um obstinado divulgador do islã. Converteu a mulher, irmã de um pastor da cidade. E também os sogros, que abandonaram a crença evangélica e vieram do interior do Paraná para ficar perto da comunidade islâmica de Passo Fundo, em franca expansão. Ela já tem um cemitério e o terreno da futura mesquita, doado pelo governo do Kuwait.

Muhammad, de 33 anos, casado com uma branca e pai de cinco filhos, defende um islã para todas as cores e raças. Na Líbia, conheceu Louis Farrakhan, mas não simpatiza com as “ideias radicais” do líder da Nação do Islã. Ele crê, porém, que o Brasil vive “uma nova revolução islâmica”. “Há focos do islã borbulhando em toda parte. Existem hoje brasileiros estudando na África, na Ásia e no Brasil para fazer a inserção de muçulmanos em órgãos-chave”, diz. “Já temos a base pronta, com os mais pobres. Só nos falta um líder para ter um levante. Não armado, mas cultural.”

Marcelo MinMarcelo Min

CAMINHOS DO ISLÃ
Brasileiras sem ascendência árabe, Latifa, Samira e Andréia vivem na comunidade muçulmana da gaúcha Passo Fundo… e Luana, Elisângela e Dona Ilma, que cruzam o Viaduto Santa Ifigênia, no centro da capital paulista, são militantes da religião na Grande São Paulo

Por trás do véu, um novo perfil de mulher islâmica

Chamadas de “mulher-bomba” nos ônibus metropolitanos, elas começam a alterar o cenário urbano

Ela é “Dona” Ilma. E tão dona que o dela merece maiúscula e já se integrou ao nome. Não por acaso, é a que lidera a fila na foto. Como ela mesma diz, abriu seu espaço com “punhos e conhecimento”. Ilma Maria Vieira Kanauna é uma das pioneiras no movimento islâmico afro-brasileiro, em São Paulo. Aos 53 anos, convertida há mais de duas décadas, é tratada com um temor respeitoso, porque Dona Ilma é mulher braba. Nada mais distante dela que o estereótipo da mulher árabe submissa, sempre dentro de casa, que resiste no imaginário ocidental como a realidade única da mulher no islã. Sua cartilha é a das malês, mulheres ativas no levante escravo de 1835. “A América foi edificada sobre os ombros dos homens negros e o ventre das mulheres negras”, diz com solenidade. “E o islã é o espelho em que eu me vi refletida.”

Dona Ilma é filha de uma “tradicional família negra”, de origem matriarcal. Até os 6 anos, se criou numa área de quilombo, em Minas Gerais. Lembra a avó e a mãe sempre vestidas de preto, rezando com a janela aberta e mandando nos homens e no curso da vida. Quando a mãe morreu de parto, o pai se mudou, e ela ainda hoje diverte-se com a memória dos primeiros brancos que surgiram no seu campo de visão. “Eu e meu irmão achávamos que eram lobisomens”, diz. “Nos chamavam pra brincar, e a gente se escondia achando que iam nos comer.”

Algumas aventuras mais tarde, porque a vida de Dona Ilma dá mesmo um romance, acabou filha adotiva de uma família de descendentes de alemães, com quem ainda hoje vive e se entende bem. Primeiro tornou-se comunista, depois muçulmana. É educadora por vocação e, por convicção, só trabalha em escolas de periferia. Compara o 11 de setembro a “uma mulher que passa a vida apanhando e um dia dá 11 tiros no marido”. E acredita que a violência no Brasil, da qual já foi vítima, é a forma de as minorias sem identidade e futuro pedirem socorro. “Nossas crianças estão perdidas, escrevendo Joaquim com `n´ e não se reconhecendo em espelho algum”, diz.

A testa lisa de Dona Ilma só é contraída por uma ruga quando fala sobre a nova geração de muçulmanos. “O islã sempre trouxe cidadania para as minorias. E as periferias são as senzalas de hoje. Mas as novas gerações têm muito punho ainda, tenho medo que acabem sendo segregacionistas”, afirma. “Não precisamos mais de um discurso de raça, precisamos de cidadania. Acredito, porém, que é um ritual de passagem. Quando me converti, também era muito radical. Vamos deixar eles gritarem um pouco.”

Na foto, ela é seguida por Elisângela Résio, de 31 anos, e Luana de Assis, de 28. Há quatro, Luana trocou a vida de “balada de segunda a segunda” e um figurino hip-hop para se tornar muçulmana. Elisângela se converteu em maio, no dia em que casou com o rapper Leandro Arruda, que conheceu num show dos Racionais MC´s. Até pouco tempo, um início de romance inusitado para uma muçulmana. “O que você acha de Jesus?”, ele perguntou. Tudo começou a dar certo quando ela disse que Jesus era um profeta – e não o filho de Deus.

Como qualquer trabalhadora, elas pegam ônibus e trens lotados de segunda a sexta- -feira, da Grande São Paulo para a capital, e vice-versa. Nas ruas, já se habituaram a ser chamadas de “mulher-bomba” ou “prima do Bin Laden”. “O povo não está acostumado a ver muçulmanas sacolejando em ônibus e trens como qualquer mulher que precisa trabalhar”, diz Luana. “Confundem religião com cultura, acham que todo muçulmano é árabe e toda muçulmana só fica em casa.”

Fiel às rimas de sua geração, Elisângela dá um conteúdo político próprio à indumentária islâmica. “A mídia impõe que brasileira tem de andar de minissaia ou shortinho, meio pelada. É a imposição de um estereótipo que as mulheres seguem desde criança sem nem se dar conta”, diz. “Por que minha roupa de muçulmana chama a atenção dentro do trem e a menina seminua não?” A própria Elisângela responde: ” Porque estou fora dos padrões que a mídia impõe, tenho identidade própria, fiz minha escolha”.

Elisângela afirma que conseguiu até parar de fumar. Só demorou a aceitar que o marido possa ter outras mulheres – “direito” pouco exercido no Brasil, que pune a bigamia no Código Penal. Depois de embates internos, ela capitulou. “É um direito dele. Quem sou eu para discordar do Alcorão? “, diz. “Prefiro que tenha uma segunda mulher do que me traia. O homem tem necessidades.”

Essa mesma mulher traz na cabeceira O capital, de Karl Marx, e diz admirar Che Guevara com fervor revolucionário.

Carta aberta a uma menina

Maria Clara Lucchetti Bingemer

No Dia Internacional da Mulher penso a quem homenagear. E só você me vem à cabeça e à pena. Você que ainda não é uma mulher, mas uma menina. Você que tem apenas nove anos, um corpo frágil e magrinho, cabelinhos compridos atados em rabo de cavalo. Você que deveria estar brincando de bonecas e, no entanto teve sua infância brutalmente interrompida dentro de sua própria casa. Você de quem não sei o nome, mas de quem acompanhei a tragédia pelos jornais, televisão e toda a mídia disponível neste mundo que se excita de curiosidade com o sofrimento alheio.

Aquele que acabou com sua vida de menina vivia em sua própria casa e era marido de sua mãe. Mas ele não era uma pessoa normal e por isso, às escondidas como costumam agir os criminosos, além de ter sua mãe no leito, também para lá levava você e sua irmã mais velha que além de ser menor ainda era deficiente física. Abusava de vocês que seguramente por medo ou por inocência não se queixavam nem o descobriam diante de sua mãe. E o estupro silencioso continuava povoando a casa que devia ser de convivência familiar, transformando-a em bordel sem paga, usando duas menores para saciar a sede de sexo de um homem que não era marido nem padrasto e sim tarado e criminoso.

Você certamente não entendia nada do que estava se passando com seu corpinho de menina. Não entendia por que aqueles seios crescidos, as dores no ventre, o mal estar. E tinha medo de perguntar. Medo de ser mal compreendida, medo de apanhar, de ser castigada. Por isso calou até que as dores se tornaram insuportáveis e você se abriu com sua mãe que constatou sua gravidez de gêmeos. Sua mãe que nunca desconfiou de nada porque seu padrasto tratava você muito bem. “Ele tratava ela sempre muito bem, eu não ia achar que era por mal” disse sua mãe à imprensa.

Eu acredito nela. São tão indefesas as mulheres diante do homem a quem amam e com quem vivem, muitas vezes. São tão impotentes para reconhecer que muitas vezes, infelizmente, eles só querem usá-las ou fazê-las de ponte para usar as filhas menores que estão com elas. Não foi apenas sua mãe que sofreu esse horror. Gente muito mais culta, formada e intelectualizada que ela, como a grande atriz de cinema Mia Farrow, há alguns anos atrás, teve que passar pela dor insuportável de ver seu marido, o talentosíssimo diretor Woody Allen, admitir que molestava sexualmente suas duas filhas – uma adolescente de 15 anos e outra pequena ainda – e que ia separar-se dela para viver com a mais velha, uma linda vietnamita que os dois haviam adotado juntos para criar e proteger.

Eu sei, querida, que mal de muitos não é consolo a não ser de bobos. Não é porque seu caso não é o único que é menos brutal e horripilante. Recordo hoje suas irmãs de sexo para que, ainda com o coração sensibilizado pela brutalidade do que aconteceu com você, as pessoas tomem consciência das barbaridades que ocorrem nesse nosso país, nesse nosso mundo, das quais a mulher é vítima principal.

Não é possível que enquanto nos orgulhamos de frivolidades tais como ter “investment grade” e havermos sido agregados ao grupo dos países respeitáveis internacionalmente, ainda admitamos em nosso meio atos de barbárie como esse, em tão larga escala. Seu caso, infelizmente , apenas engrossa estatísticas que já têm dimensões simplesmente terríveis. Nestas últimas semanas nosso noticiário esteve cheio de casos de meninas como você, mais velhas ou mais novas, mas sempre meninas, indefesas e desprotegidas que foram violentadas, sofreram constrangimentos de toda sorte e morreram em conseqüência da violência de que foram vítimas.

Por isso eu, neste Dia Internacional da Mulher, quando todos celebram as conquistas da mulher emancipada no mercado de trabalho, na vida sexual e em não sei mais quanto terrenos, eu quero homenagear você. A mídia parecia não se interessar muito por sua pessoa. Estava mais preocupada em confrontar os médicos, o bispo, a polícia, etc. Estava mais preocupada com a discussão que seu caso ia gerar que ajudaria a vender jornal e audiência.

Eu estou preocupada com você. Gostaria de estar perto de você para poder te abraçar, te beijar, dizer que você é uma pessoa amada e querida por Deus que te criou, que toda essa maldade que se abateu sobre você não pode destruir sua identidade de filha de Deus, que você com a ajuda dele pode superar tudo isso e transformar sua dor em ajuda para que outras meninas não sofram o que você sofreu.

Como estou longe, não posso dar-lhe mais que esse texto. Que você o sinta como um afago, mesmo sem lê-lo. Feliz Dia Internacional da Mulher, menina anônima, feita mulher e mãe antes do tempo. Que seu frágil corpinho que só vimos de costas, de mãos dadas com o médico e levará para sempre as marcas desse sofrimento nos sirva de ícone para lembrar-nos que enquanto a violência contra a mulher, sobretudo aquela que é menor de idade, for uma realidade tão constante em nosso país, não faz o menor sentido comemorarmos estatísticas que falam de libertação da mulher. As vítimas nos interpelam a nós e a nossos discursos triunfalistas. Voltemo-nos para as prioridades que ainda não estão atendidas. E quando se virem os frutos, aí sim, poderemos celebrar.

* Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio, e Diretora Geral de Conteúdo do Amai-vos. É também autora de “A Argila e o espírito – ensaios sobre ética, mística e poética” (Ed. Garamond), entre outros livros.

Literatura com sons e cores

Flávia Ayer
Daniel Monteiro grafitou na tela a própria identidade
Bárbara, A casa do girassol vermelho e outros contos de Murilo Rubião deixaram de ser apenas histórias do escritor mineiro. Eles ganharam sons e cores, a partir da criatividade de integrantes do projeto Arte Favela, criado em 2003 para aproximar jovens da Vila Presidente Vargas, no Bairro Goiânia, na Região Nordeste de Belo Horizonte, de diversas linguagens da arte contemporânea. Desde julho, oito jovens, de 15 a 23 anos, estudaram a obra do escritor, um dos mais importantes autores do realismo fantástico, que serviu de inspiração para raps, poesias e oito painéis grafitados. Ontem, foi a hora de mostrar o resultado do trabalho para a comunidade, durante o espetáculo Ritmo & Poesia – obras alusivas a Murilo Rubião, no Teatro Marília. “Assim, as pessoas podem reconhecer nosso trabalho e ver que na favela não tem apenas violência”, comenta Naiara Lelis, de 18 anos.

A exposição vai passar ainda por mais seis pontos da capital, como Praça Sete, rodoviária e até um beco, na Vila Presidente Vargas. Para se preparar para a exposição, os jovens tiveram oficinas de literatura e artes visuais. Em uma delas, eles receberam, inclusive, a visita da sobrinha do escritor, Silvia Rubião. “Percebi um interesse dos meninos em literatura e resolvemos trabalhar o grafite e o hip-hop em cima dos contos de Murilo Rubião. É uma fusão da identidade deles, marcada pelo hip-hop, com a cultura regional”, afirma Hely Costa, coordenador do projeto.

Fotos: Juarez Rodrigues/EM/D.A Press
Jovens de vila do Bairro Goiânia criaram painéis com base na obra de Murilo Rubião

Daniel Monteiro, de 22, inspirado no conto “Os dragões”, grafitou na tela sua carteira de identidade, com foto irreverente. “Mostrei uma identidade própria, diferente do padrão”, comenta o grafiteiro, que, antes do projeto, se aventurava pichando as ruas da cidade. O Arte Favela conta com o patrocínio do Banco Mercantil do Brasil e, atualmente, tem 70 integrantes. Além do grafite, há oficinas de dança, arte digital, entre outras manifestações.

ELEVADORES LIBERADOS

Um dia depois da interdição de todos os elevadores do Edifício Joaquim de Paula, de 24 andares, no quarteirão fechado da Rua Carijós, na Praça Sete, no Centro de Belo Horizonte, a empresa responsável pela manutenção dos equipamentos do prédio apresentou ontem à prefeitura um laudo minucioso, atestando as boas condições das instalações, assinado pelo engenheiro Luís Carlos de Moura Braga. Com o documento, a Gerência de Regulação Urbana da Regional Centro-Sul liberou o funcionamento de três dos quatro elevadores. Ainda continua interditado o equipamento que, na tarde de terça-feira, caiu do 12º andar, ferindo 11 pessoas.

EXPOSIÇÃO ITINERANTE

• 18/03 – Praça Sete, no quarteirão fechado da Rua Rio de Janeiro, às 14h
• 25/03 – Escola Municipal Murilo Rubião, às 14h
• 27/03 – Faculdade de Letras da UFMG, às 18h
• 2/04 – Via Shopping (corredor de acesso ao BHBus), às 14h
• 7 a 13/04 – Rodoviária
• 18/04 – Exposição do Beco, Vila Presidente Vargas, às 14h

VIOLÊNCIA SEXUAL x ABORTO

Sxc.Hu / Ilustração: Matheus Dias

Imagine que você é uma menina – ingênua – mais fraca que um homem e é obrigada a manter relações sexuais sem o seu consentimento? Agora, imagine que você tem 9 anos, mora com seu padrasto e ele faz isso com você. E o pior: você engravida. Isso aconteceu, na semana passada, com uma menina do interior do Pernambuco.

Ela ficou grávida de gêmeos, vítima de violência sexual doméstica, ou seja, estupro dentro de casa, e pra piorar, a gravidez estava colocando a vida da garota em risco. Segundo o médico, ela poderia morrer, ter uma sequela definitiva e nunca mais poder engravidar.

Foi feito um aborto e, em consequência, os pais da menina e todos os médicos que estavam envolvidos no processo foram excomungados da Igreja Católica pelo arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho. Isso porque Dom José acredita que o que eles fizeram foi contra as leis de Deus.

Aqui, no Ragga Drops, a gente está se perguntando se Dom José também excomungou o padrasto, que estuprou a garota.

Leia mais sobre o assunto e dê sua opinião no blog.
www.dzai.com.br/raggadrops/blog/poenaroda

TÉCNICAS & TRUQUES
Enfeitando documentos

B.Piropo
E-mail para esta coluna: bpiropo@uai.com.br


Que tal criar um documento como o da figura com o Word do Office 2007 usando apenas os recursos corriqueiros do programa? É mais fácil do que parece. Senão, vejamos… Carregue o Word e abra um novo documento. Tecle ENTER uma ou duas vezes para abrir um espaço no alto do documento e deixe o cursor de edição no início da linha. Comece pelos quatro triângulos que formam os cantos. Que, na verdade, são o mesmo triângulo em quatro diferentes posições e arranjos e se não parecem triângulos é porque estão parcialmente escondidos pelos cantos de uma “caixa de texto” inserida sobre eles, como logo veremos.

Mas onde conseguir um triângulo com uma ilustração abstrata no Word? Não sei. Mas como conseguir um quadrado eu sei: procurando entre as imagens disponíveis na coleção de ilustrações oferecidas pelo programa e denominada “Clip-art”. Passe para a Faixa de Opções “Inserir” e clique no ícone “Clip-art” (o segundo da esquerda para a direita no grupo “Ilustrações”) para abrir o painel “Clip-art” à direita da tela. Entre com “abstrato” (assim mesmo, porém sem aspas”) na caixa “Procurar por”, deixe as outras duas caixas como estão e clique em “Ir”. Você será brindado com mais de uma centena de miniaturas de desenhos em arte abstrata. Percorra a coleção acionando o elevador da borda direita do painel e escolha aquele que mais lhe agradar. Um clique duplo sobre ele inserirá a figura no local do cursor.

O problema é que a figura é demasiadamente grande. Para reduzi-la às dimensões adequadas selecione a imagem clicando sobre ela, mova o cursor para cima do pequeno círculo que marca seu canto inferior direito até que assuma a forma de uma seta dupla inclinada, prema o botão principal do mouse e arraste o canto da figura até que ela assuma o tamanho conveniente. Neste ponto, você terá um quadrado no canto superior esquerdo do documento. Mas precisamos de um triângulo. Selecione o quadrado para forçar o aparecimento da entrada “Ferramentas de imagem” na barra título e clique nela para abrir sua Faixa de Opções. Nela, acione a entrada “Forma de imagem”. Aparecerá um painel com diversos formatos. No segundo conjunto, “Formas básicas”, há um pequeno triângulo. Clique nele e seu quadrado imediatamente assume o formato triangular. Pronto, temos nosso canto triangular.

Clique nele, acione a combinação de teclas “Ctrl C” para copiá-lo na Área de Transferência e acione três vezes seguidas a combinação “Ctrl V” para colá-lo no documento para criar quatro triângulos iguais na mesma linha. Clique entre o segundo e o terceiro e tecle ENTER tantas vezes quantas necessárias para mover os dois últimos triângulos para a extremidade inferior do documento (cuja altura é de sua escolha). Depois clique entre os dois triângulos do alto da página para colocar o cursor de edição entre eles e tecle ESPAÇO para mover o segundo para o canto superior esquerdo. Repita o procedimento com os dois triângulos de baixo da página. Agora teremos quatro triângulos, um em cada canto do documento.

Três deles não estão na posição desejada. Vamos corrigir isto. Selecione o primeiro, abra novamente a Faixa de Opções “Ferramentas de imagem”, procure pela entrada “Girar” e acione-a tantas vezes quantas necessárias até que o triângulo fique na posição correta. Repita com os outros dois. Você terá quatro triângulos limitando seu documento.O corpo do documento será formado por uma caixa de texto simples. Para isso abra a faixa de opções “Inserir”, clique em “Caixa de Texto” e escolha o primeiro modelo para inserir uma caixa de texto no local do cursor. Com o mouse, arraste cada canto da caixa para o centro de cada triângulo, criando o efeito de moldura. Pronto. Agora é escolher uma fonte adequada de tamanho conveniente e dar o seu recado…

Trincheiras do cidadão

Menos de 10% dos 853 municípios mineiros contam com Procons
Délio Malheiros – Advogado especializado em direito do consumidor, vice-presidente da Comissão de Defesa do Consumidor da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG)
O Código de Defesa do Consumidor (CDC), ao completar 18 anos, pode ser considerado a Bíblia do consumidor brasileiro. Por sua vez, os Procons gozam de toda a credibilidade no seio da população do país, desde que foram criados, a partir da década de 1970. Na atuação dessas verdadeiras trincheiras em defesa dos interesses da sociedade, não se tem notícia de quaisquer traços de corrupção, que tanto contamina a administração pública. Ao longo destes anos, os Procons tornaram-se a última instância em busca da proteção de seus direitos. Some-se, ao trabalho repressivo contra desvios de conduta de fornecedores que ainda insistem em descumprir a lei, a atuação preventiva dessas instituições. Para se ter ideia, apenas o Procon Assembleia, em Belo Horizonte, realizou mais de 1 milhão de atendimentos em seus 10 anos de atuação. Preocupados com os consumidores do futuro, os Procons também vão às escolas, ajudando, de maneira decisiva , a formar cidadãos mais conscientes de seus direitos e deveres.

Entretanto, nem tudo merece comemoração nesse momento em que o CDC completa sua maioridade. Menos de 10% dos 853 municípios mineiros contam com Procons – no país, com suas 5, 5 mil cidades, não é diferente. Essa situação tem origem na omissão de dirigentes municipais, atacados por descabidos preconceitos ou mesmo pela falta de vontade política para promover a instalação do órgão. É uma dura realidade imposta aos munícipes, que poderiam contar, a baixíssimos custos, com um fortíssimo aliado. Por mais que o estado e o Ministério da Justiça tentem, ainda há resistência de alguns prefeitos, que temem que o Procon pode prejudicar seus projetos políticos, face à atuação do órgão no comércio local, financiador permanente das campanhas eleitorais. É um gritante equívoco.

Os Procons atuam em todos os campos da defesa do consumidor. Enfrenta a resistência, a ilegalidade e os abusos de operadoras de telefonia, planos de saúde, empresas de energia elétrica, bancos, financeiras, seguradoras e muitos outros setores, onde sempre há maus empresários. Privar o cidadão do interior dos serviços relevantes de um Procon é entregá-lo à voracidade e à covardia de fornecedores de má-fé; é prejudicar o pleno exercício de sua cidadania. Esse cenário, infelizmente, tende a piorar com a crise econômica, pois os municípios, certamente, justificarão falta de recursos para implantar a reivindicada estrutura.

E, cruelmente, no outro polo, a tendência é aumentar ainda mais a demanda dos consumidores, seja porque estão endividados e passam a sofrer abusos na cobrança ou simplesmente precisam negociar os débitos, seja porque os golpes se alastram nessas ocasiões. A ausência de Procon gera incerteza quanto à solução de eventuais problemas e desestímulo na busca pelo cumprimento da lei, especialmente o CDC. Agrava ainda mais o já abarrotado Poder Judiciário, já que em mais de 80% dos casos que chegam o Procon a solução ocorre mediante acordo. Evitam-se processos judiciais onerosos e demorados.

Claro, fatores burocráticos e legais precisam ser observados na instalação de um Procon. Mas há meios de encurtar caminhos e facilitar processos. A contratação de um advogado, por exemplo, pode ser superada mediante convênio com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O promotor de Justiça local, na condição de curador da defesa do consumidor, por força de lei, já tem a obrigação de dar o suporte que o órgão precisa.

Fica evidente, pois, que falta aos administradores públicos uma visão menos arcaica e mais sintonizada com os tempos atuais, cujos ventos sopram no sentido de facilitar, cada vez mais, o acesso do cidadão aos instrumentos de proteção aos seus direitos. O Procon, sem sombra de dúvidas, exerce esse papel. Quem sabe os prefeitos que assumiram o poder em janeiro possam, enfim, dar ouvidos aos ecos desses gritos abafados da população do interior, que, há décadas, reclama o direito de ser assistida por um desses órgãos.

Frei Betto: Igreja está ‘encastelada’ e não vê a realidade



Mais do que ter dificuldade para se adaptar à realidade atual, a Igreja Católica “fica encastelada em seu principismo abstrato”. A opinião é do frade dominicano e escritor Frei Betto.



Em entrevista à repórter Michelle Amaral, do Brasil de Fato, ele comenta os dois casos recentes envolvendo representantes da Igreja Católica: a excomunhão dos envolvidos no aborto da menina pernambucana de 9 anos e o afastamento do padre Luiz Couto de suas atividades eclesiásticas em decorrência das declarações controversas às da doutrina católica

Segundo frei Betto, tais exemplos explicam como o conservadorismo ainda defendido pela Igreja — em contrapartida à realidade do povo — contribui para o afastamento de seus fiéis. Nas duas situações, o posicionamento da Igreja causou grande polêmica.

Dom José Cardoso Sobrinho excomunhou a mãe e a equipe médica que realizaram o aborto de uma menina de 9 anos, que foi violentada por seu padrasto e acabou grávida de gêmeos. Sem considerar os riscos que a menina corria, Dom José afirmou que cumpria uma lei católica.

No caso do padre Luiz Couto, Dom Aldo di Cillo Pagotto o suspendeu do uso de Ordem até que se retrate em público sobre declarações feitas por ele em uma entrevista, na qual defende o fim do celibato, o uso de preservativos e o combate à discriminação de homossexuais. O padre é também deputado federal e atual presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minoria (CDHM) da Câmara dos Deputados.

Confira a entrevista.

Como o sr. avalia a posição da Igreja Católica frente a estes dois recentes casos, da excomunhão (por Dom José Cardoso Sobrinho) pelo aborto da menina de 9 anos e do afastamento do padre Luiz Couto (por Dom Aldo Pagotto) por suas declarações controvérsias ao pensamento conservador católico?
Penso que demonstram a dificuldade de a Igreja Católica se adaptar à realidade atual. Comparo a atitude do arcebispo de Olinda e Recife com a de Jesus diante da mulher adúltera… Que diferença! Jesus foi capaz de compreender, perdoar, acolher.

Os médicos agiram corretamente, para salvar a vida da menina e evitar o risco de três mortes. E manifesto todo o meu apoio ao padre Luiz Couto, de quem sou amigo e admirador.

Dessa forma a Igreja se afasta da realidade vivida pelas pessoas atualmente?
Sim, a Igreja fica encastelada em seu principismo abstrato, sem considerar o que a teologia chama de “moral de situação”, a partir da realidade concreta. Assim, os fiéis buscam outras denominações religiosas, onde se sentem mais acolhidos pela compaixão, o perdão, a misericórdia divina manifestada através de seus pastores. A cada ano a Igreja Católica perde, no Brasil, 1% dos fiéis.

Para um católico, o que representa a excomunhão?
A exclusão da instituição eclesiástica e da participação em seus sacramentos, jamais a ruptura com Deus e com o próximo.

As mudanças propostas por Luiz Couto fazem parte de um debate estabelecido por muitos segmentos da sociedade e da própria igreja. O senhor acredita que a polêmica em torno de seu afastamento, pode contribuir para que essas propostas ganhem mais força?
É bom esclarecer aos leitores que o padre Luiz Couto foi suspenso de ordens — proibido de celebrar os sacramentos — por defender o fim do celibato e da discriminação aos homossexuais, bem como o uso de preservativos. Acho que ele está coberto de razão.

A Igreja teve apóstolos casados, como Pedro (Jesus curou a sogra dele), e sacerdotes casados nos primeiros séculos. A vocação ao sacerdócio não coincide necessariamente com a vocação ao celibato.

Quanto à homossexualidade, defendo que é uma tendência natural do ser humano e, como tal, deve ser respeitada, e não discriminada ou condenada como ocorria em sociedades patriarcais, machistas, como as que estão espelhadas no Antigo Testamento. E concordo com o cardeal Arns quanto ao preservativo: é um mal menor frente à epidemia que leva à morte milhões de pessoas.

E como a Igreja deveria se posicionar?
Sempre em favor da vida e do amor, como o que une um casal do mesmo sexo.

De que forma a Teologia da Libertação contribui para as mudanças na forma de se praticar o cristianismo da Igreja Católica?
A Teologia da Libertação faz uma nova leitura das fontes da revelação cristã, como o Bíblia e a tradição da Igreja, assim como fizeram Santo Agostinho, no século 4, e Santo Tomás de Aquino, no século 13.



Pesquisa traça perfil da violência nas escolas



do clipping da Andi
Uma pesquisa feita com 849 estudantes do ensino fundamental e médio revela que pelo menos 66% deles já sofreu ou cometeu agressões contra seus colegas de escolas nos últimos seis meses. Entre os casos mais relatados estão violência física e apelido depreciativo. Coordenada pelo Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná, o estudo identificou presença quatro vezes maior de indícios de depressão entre alunos vitimizados e sete vezes mais entre agressores e vítimas agressivas.
O intuito da pesquisa é identificar as principais características de bullying (nome dado à violência interpessoal entre indivíduos da mesma condição) nas escolas brasileiras. Com base em questionários respondidos pelos alunos, que aferiam a qualidade do relacionamento com amigos, família e comunidade, os adolescentes foram divididos em quatro grupos: agressores, vítimas, vítimas agressivas e não-envolvidos. “Mesmo aqueles que classificamos como não-envolvidos podem ter participado indiretamente da violência com sua omissão e passividade”, ressalva Josafá Moreira da Cunha, principal autor da pesquisa.
Participaram do trabalho estudantes de escolas públicas e particulares de quatro cidades brasileiras: Curitiba (PR), Goiânia (GO), Governador Valadares (MG) e Teresina (PI). O bullying tem sido uma preocupação constante entre especialistas em educação, não só no Brasil, mas também em todo o mundo. Um estudo norte-americano mostrou que 40% dos alunos do país não se sentem seguros nas escolas. Um trabalho análogo realizado no Brasil pelo próprio núcleo da Federal do Paraná identificou uma percepção de insegurança mais alta: 67%.
Fonte: O Estado de São Paulo (SP) – 26/02/2009

Adolescentes consomem álcool cada vez mais cedo



do clipping da Andi
Em artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, a psicóloga Rosely Sayão, apresenta dados de uma pesquisa que aponta o álcool como a droga mais usada por adolescentes. O consumo vem aumentando, principalmente entre os mais novos e entre as meninas. Hoje quase metade dos jovens com idade entre 12 e 17 anos já ingeriu bebida alcoólica, enquanto na década de oitenta, o consumo iniciava-se entre os 16 e 17 anos.
O uso constante também tem crescido entre pessoas com menos de 18 anos. Rosely levanta hipóteses com o intuito de sugerir possíveis causas dessa precocidade. A primeira delas relaciona o uso cotidiano da bebida alcoólica a um estilo de vida desejado pelos jovens (popularidade, alegria, beleza e outros) aliado à permissão dos pais. Segundo a psicóloga, muitos adultos acreditam que oferecer bebida aos filhos em casa é uma atitude aconselhável e dão festas para os adolescentes nas quais permitem bebidas, por exemplo.
Outro alerta é sobre a lei que proíbe a venda de bebida alcoólica para menores de 18 anos, que não é respeitada. Muitos estabelecimentos comerciais as vendem sem pedir documentos aos jovens e muitos adultos aceitam o pedido deles para passar a bebida em sua compra.
Ainda de acordo com Rosely, os jovens bebem, entre outros motivos, porque o álcool provoca euforia, desinibição e destrava os mais tímidos. Entretanto, afeta a coordenação motora, os reflexos e o sono, além de interferir na percepção do que o jovem considera certo e errado. Ela afirma que “os mesmos pais que ensinam o filho a beber não o ensinam sobre os cuidados que podem reduzir seus efeitos, como alimentar-se bem antes, não misturar diferentes tipos de bebida e ingerir muita água”.

Fonte: Folha de S. Paulo (SP), Rosely Sayão – 26/02/2009

O primeiro dia internacional da mulher

A história do dia em que tudo começou…

Copenhagen, 1910. Desde 1869, quando John Stuart Mill diante do parlamento inglês havia brigado pelo direito de votos das mulheres. Muitos movimentos na direção da emancipação feminina haviam sido feitos. E em 1893, a Nova Zelândia, quem diria, tornara-se o primeiro país do mundo a conceder às mulheres o direito de votar. Agora, já na segunda Conferência Internacional de Mulheres Trabalhadoras, tratava-se de consolidar algumas vitórias e celebrar. E a proposta de Clara Zetkin, lider do escritório alemão do Partido Social Democrata da Alemanha, encarregado dos direitos das mulheres, muito ousada, na época, caiu como uma luva.

“Vamos criar um dia, sempre o mesmo, todos os anos, para que em todos os países as mulheres possam lembrar a sociedade de suas necessidades e fazer pressão por mudanças”, ela propos diante de 100 outras mulheres, de 17 países, representando clubes, sindicatos, partidos, e incluindo as três primeiras finlandesas que foram as primeiras mulheres do mundo eleitas como parlamentares. A ideia foi aprovada, por unanimidade.

O primeiro Dia Internacional da Mulher aconteceu no ano seguinte, em 19 de março de 1911. Clara escolheu a data, que lembrava o dia de 1848 em que o rei da Prússia havia prometido diante da “força do proletariado insurgente”, entre tantas outras coisas que eventualmente não seriam cumpridas, a garantia do direito de voto às mulheres. Para nós, hoje, a data parece carecer de um certo glamour, mas o dia foi um tremendo sucesso!

Já na semana anterior, dois jornais dedicados à causa feminina foram criados, um na Áustria e outro na Alemanha. Encontros e discussões foram organizados em toda parte, desde pequenas aldeias, até nas grandes cidades.

Naquele dia, os homens ficaram em casa cuidando das crianças enquanto as mulheres saíam em protestos e passeatas. Muitos, no entanto, resolveram acompanhá-las. Os números falam de mais de um milhão de mulheres nas ruas da Alemanha, Suíça, Dinamarca e Áustria.

Menos de uma semana depois, no dia 25, nem bem os ânimos haviam se acalmado, a morte de 146 mulheres trabalhadoras no incêndio que destruiu a Triangle, uma fábrica de tecidos em Nova Yorque, trouxe à luz um quadro aterrador de maus tratos e condições de trabalho subhumanas. E precipitou a adesão dos EUA ao movimento de defesa dos direitos de mulheres, mas também de homens, ao trabalho digno e remunerado em igualdade de condições.

Dois anos depois, em 1913, 8 de março foi o dia em que as mulheres saíram de novo às ruas. Dizem que a data havia sido instituída na Rússia de Lênin, para celebrar a “heróica mulher trabalhadora”. As feministas gostaram certamente do tom heróico e do vínculo com os ideais socialistas. E aderiram…

Hoje, essas origens socialistas e briguentas do Dia Internacional das Mulheres poucas vezes são lembradas. E com tanta festa, a gente acaba esquecendo desse passado “heróico” em que era muito perigoso ser mulher…

Essa história foi criada a partir das informações do site oficial do International Women’s Day 2009.

Mulher: Sinônimo de vida, lutas e conquistas



As grandes transformações vivenciadas pelo mundo contemporâneo há muito constituem um imenso legado de luta, parte dele edificado a ‘sangue e fogo’ pelo gênero feminino nos mais diversos rincões do planeta. Todavia, a quebra dos velhos paradigmas com que antes a sociedade machista tentava justificar a posição supostamente subalterna da mulher, como um ente de segundo plano, coloca hoje em xeque uma outra visão de caráter puramente discriminatório. Quer seja, o ‘reconhecimento’ como que tardio, por parte dos formadores de opinião, por exemplo, de que é preciso promover novas aberturas para a atuação das mulheres no seu contexto social e político, bem como em todas as demais correlações de forças.



Ora, as mulheres já têm demonstrado serem por si só, capazes o suficiente de dar prosseguimento a sua ascendência histórica de conquistas, através dos seus próprios méritos. Basta apenas agora que a sociedade machista compreenda de uma vez por todas, que a questão de gênero neste país precisa sim, ser tratada num outro patamar de equilíbrio; ou seja, o da igualdade de condições e de direitos como versa a lei. Por ser um dos esteios fundamentais para a verdadeira democracia cidadã a que todos almejamos edificar coletivamente.


Portanto, sem os antigos ranços de preconceitos e outras pieguices discriminatórias mastodônicas que infelizmente, ainda ‘infestam’ o cotidiano interminável de lutas e conquistas das bravas mulheres em todos os recantos do planeta e, especialmente as brasileiras.


São deveras inegáveis as conquistas já empreendidas pelas mulheres que num esforço hercúleo têm trilhado uma trajetória de luta na busca incessante dos seus direitos à liberdade e a uma convivência cada vez mais harmoniosa de paz e justiça social entre os homens. A presença feminina é por tudo isso hoje, uma constante em todos os estratos do nosso dia-a-dia emancipacionista, com expressivo respaldo nos mais diferentes ramos das nossas atividades, tanto profissionais, quanto sócio-políticas e culturais.


Para usarmos um dos elementares conceitos Nietzschiano, a mulher não precisa de “nenhum tipo de piedade”, mas sim do reconhecimento verdadeiro, sobretudo pela sua coragem e disposição para lutar contra as mais variadas formas de opressão; construindo assim um caminho de efetivas conquistas na construção da sua própria história. A piedade pura e simples, além de contraproducente é mais uma modalidade de preconceito implícito e que por isso mesmo precisa ser abolida de forma definitiva do nosso meio. Muito mais que isso, a mulher só precisa de um pouco mais de respeito e compreensão numa perspectiva de valorização do importante papel que ao longo do tempo vem desempenhado no processo construtivo da nossa sociedade.


A mulher – a célula mater do mundo e da própria vida – há muito é sinônimo de poesia, sendo por isso mesmo decantada por quase todos os grandes vates da literatura universal. Não obstante tudo isso, é nossa partícipe essencial na árdua e cansativa batalha com que cada dia nos doamos à transformação de um mundo mais humano, fraterno e digno para todos. O mundo ulterior que haveremos todos de deixar como um legado aos nossos filhos e a posteridade de uma forma geral.


Parabéns a todas às mulheres do Brasil, do Cariri e do mundo! Pela passagem deste dia tão singular que, na proporção das suas lutas, haverá certamente de assumir o exato valor e a dimensão não apenas de uma vida, mas de uma história inteira.

José Cícero é Pres. Mun. do PCdoB Aurora – CE.


Mesmo sofrendo com a violência, mulheres protagonizam luta



Ao mesmo tempo em que as mulheres têm sofrido com a violência de maneira específica – o que muitas vezes não é reconhecido pelas instituições -, elas têm se tornado fortes lideranças na defesa dos direitos humanos.



A avaliação é do pesquisador da Anistia Internacional para temas relacionados ao Brasil, Tim Cahill. “Elas buscam sair da condição de vítimas e passam a protagonizar soluções. Têm a coragem, dedicação e, digamos, a paciência para estar a frente da luta” afirmou em entrevista à Agência Brasil.

A coordenadora organização não-governamental de mulheres negras Criola , sediada na capital fluminense, a médica Jurema Wernek, aponta o protagonismo das mulheres na resolução de problemas das comunidades.

Para Jurema, embora as mulheres ainda sejam ameaçadas, humilhadas pelas diversas instâncias de poder, abusadas e até mesmo mortas na defesa dos direitos de todos, como mostram pesquisas, “não desistem porque têm um compromisso com a vida”.

“As mulheres não recuam diante dos problemas. Vão ao tribunal do tráfico, acompanham a Polícia – para impedir que agrida os detidos – e vão aos tribunais de justiça. Apesar do medo, em nome do compromisso com a vida, fazem tudo”, afirmou.

Na região metropolitana do Rio de Janeiro, a Associação de Familiares e Amigos das Vítimas de Violência na Baixada Fluminense é um exemplo da mobilização de mulheres a partir de situações de violência.

Há quatro anos, movidas pelo desejo de justiça, mães, irmãs e esposas de 29 mortos durante uma chacina criaram a associação que hoje tornou-se um movimento em defesa dos direitos humanos.

A coordenadora da associação, a doméstica Cátia Patrícia da Silva, 34, destaca a participação feminina na organização. Segundo ela, as mulheres, “foram mais corajosas” e não se intimidaram com ameaças. Cátia conta que, no primeiro momento, elas se reuniram para cobrar indenizações, mas hoje auxiliam outras famílias que passam por situações semelhantes a superarem o medo e o trauma da violência e a procurarem a Justiça.

Mãe Beata de Yemanjá, 78, de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, é outro exemplo de liderança feminina na luta contra a violência. Há décadas, ela trabalha orientando mulheres vitimizadas e falando sobre cidadania. Os temas vão desde a importância da gravidez assistida, o acesso à creches até o problema da homofobia.

“Faz parte da minha tarefa como mulher negra, do Candomblé – onde nasci e me criei – , da minha identidade”, disse Mãe Beata.

Promovendo seminários em parceria com governos e organizações não-governamentais e orientando pessoas nas suas casas ela acabou se tornou referência para uma rede informal de terreiros, que, desde a década de 1980, busca promover a cidadania nas localidades onde estão inseridos divulgando informações sobre violência, preconceito, saúde e outros direitos.

Isabela Vieira
Repórter da Agência Brasil

Aconteceu em
8 de março
1911 – Dia das mulheres do mundo

1ª celebração do Dia da Mulher, proposta da marxista alemã Clara Zetkin na Conferência Internacional da Mulher Socialista (Dinamarca, 1910). Calcula-se 1 milhão de participantes. Anos depois, a data se fixa: 8 de março.

Cartaz alemão para o 8 de Março de 1914

A Religiosidade

“Como entender a guerra entre religiões, cada uma matando em nome de seu Deus? É que lhes falta a religiosidade”

“Do ponto de vista do comportamento, qual o papel da religião de deus na vida das pessoas? Ela ajuda ou atrapalha a evolução do homem?”

Fábio, de Belo Horizonte

A religiosidade é fundamental, pois é a religação do homem com Deus, com o universo, com o cosmo, com o todo, com o outro e consigo mesmo. É uma tendência natural do ser humano. É um impulso básico para o infinito. Pessoas que têm uma ligação com o infinito, com o desconhecido, viverão com maior abundância, com mais amor ao próximo. A religião, por outro lado, é a posse de rituais e crenças religiosas. A religião é uma escolha e um caminho para a religiosidade, um meio para se entrar em contato com a divindade. Em si ela não é essencial e, sim, o impulso de ligação com Deus. A religião passa a ser importante à medida que facilita tal ligação. Todos os rituais, sons, palavras, mantras, cheiro de incenso e velas criam um clima propício para o contato com o eu interior e com o eu cósmico.

A falta de religiosidade tem trazido graves consequências nas relações pessoais e sociais. O grande dom espiritual são os valores encarnados por essa espiritualidade, tais como solidariedade, amor, alegria, celebração e esperança. À medida que falta essa espiritualidade, faltam também esses valores. Aí acaba prevalecendo nos relacionamentos os valores ditados por nossa sociedade, como competição, cobiça, esperteza, violência e ciúme. A violência aparece quando desrespeitamos o outro. Todo ato de violência é uma invasão ao espaço de alguém. É o não consentimento do outro como indivíduo, como alguém que é outro, que não eu. E isso tem a ver com os valores disseminados por uma cultura de competição que privilegia o prazer imediato acima de tudo.

– De repente quero dinheiro, então destruo alguém.
– Quero o carro do outro. Simplesmente tomo.
– Quero um filho, vou à maternidade e roubo um bebê.

O prazer em si é bonito e sagrado. Todos nós buscamos, mas não pode ser a qualquer preço. Há hora para adiar o prazer ou abrir mão dele em função da realidade. A verdadeira religiosidade nos ensina a conjugar o material com o espiritual, o imediato com o depois, o prazer com a realidade. E entre todos esses valores, o principal deles é o amor, com todos os seus ingredientes de alegria, encantamento, serenidade, paciência e paz.

Pessoas que se dizem religiosas e não são amorosas, na verdade, não o são. Ter uma religião é fácil. Basta entrar para uma delas, pagar o dízimo e frequentar os rituais. Ser religioso é mais difícil porque supõe um caminho de crescimento na tolerância, no respeito a todos os seres, na honestidade com a realidade, no amor real a Deus.

Como entender a guerra entre religiões, cada uma matando em nome de seu deus? É que lhes falta a religiosidade. Uma pessoa amorosa não mata em nome do amor. O apego excessivo aos sinais exteriores da religião às vezes atrapalha o crescimento espiritual, nos infantilizando na relação com Deus e nos tornando cada vez mais supersticiosos.

Uma forma infantilizada, por exemplo, de nos ligarmos a Deus é vê-lo apenas como protetor, a quem recorremos constantemente à espera do milagre. Deus só faz uma parte do milagre. A outra nós temos de completar. O maior milagre ele já fez: deu-nos a vida. A construção é nossa. Deus não nos substituirá. Se não, não precisaríamos existir. A idéia do milagre sem nossa participação é alienante e nos leva à acomodação. Pode ocorrer a intervenção direta de Deus, mas grande parte dos milagres tem de ter nosso esforço, nossa dedicação.

Estamos sempre pedindo coisas a Deus. Sempre querendo sua proteção. É uma forma quase supersticiosa, como um amuleto. Deus nos protegendo do mal como se ele estivesse fora de nós. Nossa relação com Deus deve também primar pelo amor. Algumas religiões têm, por prática, o agradecimento a Deus por todas as dádivas que ele nos dá, a começar pela vida. Ele nos deu o livre-arbítrio. Ele está mais interessado em nos fazer construtores de nosso mundo. Muitas vezes pensamos em Deus nos momentos de sofrimento. Na verdade, dois caminhos nos encaminham à realidade. O amor e a dor. Pessoas alegres, amorosas e celebrativas vão encontrar Deus necessariamente.

A solidariedade, a compreensão do outro e a compaixão nos colocam em sintonia com algo mais profundo. Um coração religioso é um coração com Deus dentro. A dor, a perda, a tristeza profunda também nos despertam, porque nos colocam em contato com os limites humanos, com a transitoriedade e esbarramos na necessidade da transcendência. Mas, para que a religião não se torne oca, sem sentido, e periférica, ela deve virar comportamento.

Religiosidade é uma forma de viver. A graça supõe a natureza. Há algum tempo, alguém me perguntou por que eu falava muito pouco de Deus em meus programas de televisão. Minha resposta, na qual acredito piamente, foi: “Deus não é para ser falado, mas para ser vivido”.

Valorização da mulher

É necessário dar às mulheres a oportunidade de trabalhar com salários justos, ter acesso a crédito e abrir negócios
Hillary Clinton – Secretária de Estado dos EUA
Há 11 anos, em viagem à China, encontrei mulheres ativistas que me relataram seus esforços para melhorar a situação da mulher no país. Elas me apresentaram um vívido retrato dos desafios enfrentados pelas mulheres: discriminação no emprego, assistência médica inadequada, violência doméstica, leis antiquadas que impediam o avanço das mulheres. Reencontrei algumas delas há poucas semanas, durante minha primeira viagem à Ásia, como secretária de Estado. Desta vez, ouvi progressos obtidos na década passada. Porém, mesmo após alguns avanços importantes, essas mulheres chinesas não deixaram dúvidas de que ainda existem obstáculos e injustiças, como ocorre em muitas partes do mundo.

Tenho ouvido histórias como as delas em todos os continentes, à medida que mulheres buscam oportunidades para participar de forma integral da vida política, econômica e cultural de seus países. E, hoje, ao comemorar o Dia Internacional da Mulher, temos a chance de avaliar tanto os avanços conquistados quanto os desafios remanescentes – e de pensar sobre o papel vital que as mulheres devem desempenhar na ajuda à solução dos complexos desafios globais deste século. Os problemas que enfrentamos hoje são demasiadamente grandes e complexos para serem resolvidos sem a plena participação das mulheres. Fortalecer os direitos das mulheres não é somente obrigação moral constante: é também uma necessidade, no momento em que enfrentamos uma crise econômica global, disseminação do terrorismo e das armas nucleares, conflitos regionais que ameaçam famílias e comunidades e mudanças climáticas com seus respectivos perigos para a saúde e a segurança mundiais.

Esses desafios exigem tudo o que temos. Não os resolveremos com meias medidas. No entanto, com demasiada frequência metade do mundo é deixada de fora destas questões e de muitas outras. Atualmente, mais mulheres chefiam governos, empresas e organizações não-governamentais (ONGs) do que nas gerações anteriores. Mas essa boa notícia tem outro lado. As mulheres ainda constituem a maioria dos pobres, desnutridos e não escolarizados do mundo. Ainda estão sujeitas a estupro como tática de guerra e ainda são exploradas em âmbito mundial por traficantes, em atividades criminosas que rendem bilhões de dólares.

Crimes em nome da honra, incapacitação e mutilação genital feminina, além de outras práticas violentas e degradantes cujo alvo são mulheres, continuam a ser tolerados atualmente em muitos lugares do mundo. Há apenas alguns meses, uma jovem do Afeganistão estava a caminho da escola quando um grupo de homens lhe jogou ácido no rosto, causando-lhe danos permanentes à visão, só porque se opunham à sua busca por instrução. A tentativa de aterrorizar a moça e sua família fracassou. Ela afirmou: “Meus pais me disseram para continuar a ir à escola, ainda que possa ser morta”.

Especialmente em meio a esta crise financeira, devemos lembrar o que um conjunto crescente de pesquisas nos diz: o apoio a mulheres é um investimento de alto retorno, que resulta em economias mais fortes, sociedades civis mais vigorosas, comunidades mais saudáveis e mais paz e estabilidade. E investir em mulheres é um modo de apoiar futuras gerações: as mulheres gastam a maior parte de sua renda em alimentos, remédios e escolas para os filhos. Mesmo em países desenvolvidos, o pleno poder econômico das mulheres está longe de ser alcançado. Mulheres de muitos países continuam a ganhar muito menos que os homens para fazer os mesmos serviços – uma lacuna contra a qual o presidente Barack Obama deu um passo adiante nos Estados Unidos este ano, ao assinar a Lei Lilly Ledbetter de Pagamento Justo, que fortalece a capacidade das mulheres de contestar salários desiguais.

É necessário dar às mulheres a oportunidade de trabalhar com salários justos, ter acesso a crédito e abrir negócios. Elas merecem igualdade na esfera política, com acesso igual à urna eleitoral, liberdade para apresentar reivindicações ao governo e candidatar-se a cargos públicos. Elas têm direito à assistência médica para si e suas famílias e o direito de enviar os filhos à escola – tanto filhos quanto filhas. E desempenham um papel vital no estabelecimento da paz e da estabilidade no mundo inteiro. Em regiões arrasadas pela guerra, são frequentemente mulheres que dão um jeito de superar diferenças e descobrir interesses comuns.

Ao viajar pelo mundo em minha nova função, não me esquecerei das mulheres que já encontrei em todos os continentes, mulheres que lutaram contra adversidades extraordinárias para mudar leis de modo a poder possuir bens, ter direitos no casamento, frequentar escola, apoiar a família e até atuar – trabalhando com meus pares de outras nações, assim como com ONGs, empresas e indivíduos – para continuar a promover o avanço dessas questões. Reconhecer o pleno potencial e o comprometimento de mulheres e meninas não é apenas questão de justiça. Trata-se de fortalecer a prosperidade, o progresso e a paz global para as próximas gerações.

Lya Luft : No paraíso da transgressão

“Vivemos feito bandos de ratos aflitos, recorrendo à droga, à bebida, ao delírio, à alienação e à indiferença, para aguentar uma realidade cada dia mais confusa”

A gente se acostuma a criticar os jovens por eles serem pouco educados, os homens por serem arrogantes, as mulheres por serem chatas, os governos por serem omissos ou incompetentes, quando não mal-intencionados. Políticos sendo acusados de corrupção é tão trivial que as exceções se vão tornando ícones, ralas esperanças nossas. Onde estão os homens honrados, os cidadãos ilustres e respeitados, que buscam o bem da pátria e do povo, independentemente de cargos, poder e vantagens?

Transgredir no mau sentido é natural entre nós. Ladrões e assassinos, mesmo estupradores, recebem penas ridículas ou aguardam o julgamento em liberdade; se condenados, conseguem indultos absurdos ou saem em ocasiões como o Natal, e boa parte deles naturalmente não volta. Crianças continuarão a ser estupradas, inocentes mortos, velhinhos roubados, mulheres trancadas em suas casas, porque a justiça é cega, porque as leis são insensatas e, quando prestam, raramente se cumprem.

Nesta nossa terra, muitos cidadãos destacados, líderes, são conhecidos como canalhas e desonestos, mas, ainda que réus confessos ou comprovados, inevitavelmente se safam. Continuam recebendo polpudos dinheiros. Depois de algum tempo na sombra, feito eminências pardas, voltam a ocupar importantes cargos de onde nos comandam. Assassinos ao volante nem são presos. Se presos, são soltos para o famoso “aguardar o julgamento em liberdade”. Centenas e centenas de vidas cortadas de maneira brutal e o assassino, a não ser que acossado pela culpa moral, se tiver moral, logo voltará ao seu dia-a-dia, numa boa. Se invadir a casa de meu vizinho, fizer seus empregados de reféns, der pauladas na sua mulher ou na sua velha mãe e escrever nas paredes com excremento humano frases ameaçadoras, imagino que eu vá para a cadeia. Os bandos de pseudoagricultores (a maioria não sabe lidar na terra) fazem tudo isso e muito mais, e nada lhes acontece: no seu caso, bizarramente, não se aplica a lei.

Ilustração Atômica Studio


Se sobram muitas vagas nos exames vestibulares, em alguns casos simplesmente se fazem novas provas, provinhas mais fáceis. Leio (se me engano já me desculpo, nem tudo o que se lê é verdadeiro) que, como são poucos os aprovados nos exames da OAB, porque os estudantes saem despreparados demais das faculdades de direito que pululam pelo país, o exame se tornou mais simples: há que aprovar mais gente. Quantidade, não qualidade. Governantes, os bons e esforçados, viram objeto de ódio de adversários cujo interesse não é o bem da comunidade, estado ou país, mas o insulto, o desrespeito, a violência moral do pior nível. Aliás, nesses casos o nível não importa, o que importa é destruir.

Eis o paraíso dos transgressores: a lei é a da selva, a honradez foi para o brejo, a decência tem de ser procurada como fez há séculos um filósofo grego: ao lhe indagarem por que andava pela cidade com uma lanterna acesa em dia claro, declarou: “Procuro um homem honesto”. O que devemos dizer nós? Temos pouca liderança positiva, raríssimo abrigo e norte, referências pífias, pobre conforto e estímulo zero, quase nenhuma orientação. A juventude é quem mais sofre, pois não sabe em que direção olhar, em que empreitadas empregar sua força e sua esperança, em quem acreditar nesse tumulto de ideias desencontradas. Vivemos feito bandos de ratos aflitos, recorrendo à droga, à bebida, ao delírio, à alienação e à indiferença, para aguentar uma realidade cada dia mais confusa: de um lado, os sensatos recomendando prudência e cautela; de outro, os irresponsáveis garantindo que não há nada de mais com a gigantesca crise atual, que não tem raízes financeiras, mas morais: a ganância, a mentira, a roubalheira, a omissão e a falta de vergonha. E a tudo isso, abafando nossa indignação, prestamos a homenagem do nosso desinteresse e fazemos a continência da nossa resignação. Meus pêsames, senhores. Espero que na hora de fechar a porta haja um homem honrado, para que se apague a luz de verdade, não com grandes palavras e reles mentiras.

Lya Luft é escritora

Dia Internacional da Mulher

Elizabeth Cezar Nunes*bethcn851@gmail.com*

No momento em se comemora o Dia Internacional da Mulher, observa-se com preocupação a discriminação, o preconceito e o racismo que persiste em excluir e violar a dignidade da mulher negra no mercado de trabalho.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), demonstra que, em 2006, o rendimento médio real das mulheres não-negras era de R$ 524,6, enquanto o das negras era de R$ 367,2.(1)

De acordo com o Retrato das Desigualdades de Gênero e Raça, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), que observa os dados da Pnad 2007, as mulheres negras estão mais presentes no trabalho doméstico – 21,4% contra 12,1% entre as mulheres brancas – na produção para subsistência e trabalho não remunerado. Estas mulheres também são o grupo com as menores proporções de carteira assinada (23,3%) e na posição de empregadoras (1,2%).(2)

O estudo do Ipea destaca que as taxas de desemprego apresenta indícios da maior precarização da situação das mulheres negras no mercado de trabalho. Enquanto elas apresentaram uma taxa de desocupação de 12,4% em 2007, as mulheres brancas registraram desemprego de 9,4%, os homens negros, 6,7% e os homens brancos, 5,5%.(3)

Como ensina Alice Monteiro de Barros,(4) a preocupação com a discriminação fundada em raça extrai-se da ação internacional, mais precisamente da Convenção Internacional da ONU sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial.(5)

A Constituição Federal prevê em seu artigo 7º, inciso XX, que além de outros direitos que visem à melhoria da condição social dos trabalhadores em geral, a proteção do mercado de trabalho da mulher, tratando em especial da questão da discriminação da mulher na hora de sua contratação pelo empregador.

Ainda em relação à discriminação da mulher no âmbito do trabalho, Alice Monteiro, lembra que o constituinte brasileiro atento para a existência do racismo, encontrou preceito muito severo com a promulgação da Constituição Federal de 1988. E é em seu artigo 5º, inciso XLII, da Lei Maior que a prática do racismo esbarra na norma legal, pois esta a transformou em delito inafiançável, imprescritível, sujeitando o autor à pena de reclusão.

Agrega-se à Carta Maior o Decreto de 20 de agosto de 2004 que cria a Comissão Tripartite no Ministério do Trabalho, com o objetivo de promover políticas públicas de igualdade de oportunidades e tratamento, visando a combater as formas de discriminação de gênero e de raça. E finalmente, vem o Decreto n. 5.397, de março de 2005, instituir o Conselho Nacional de Combate à Discriminação.

A partir dessas instituições e das normais jurídicas vigente, é indispensável implementar políticas públicas de ações afirmativas que possam estabelecer a igualdade de condições e oportunidades de trabalho para todas as mulheres, independente da cor de sua pele.

Para isso, é fundamental que se amplie também o número de mulheres negras na esfera dos operadores do Direito e entre os que combatem a exclusão no mercado de trabalho. Esse espaço vem sendo reivindicado desde o século passado por meio de uma luta histórica, encampada por mulheres como Laudelina de Campos Melo e Maria Rita Soares da Andrade

Laudelina de Campos Melo, nasceu em Poços de Caldas, Minas Gerais, trabalhou como doméstica, tornando-se a primeira líder sindical de sua categoria no país. Diante das discriminações sofridas pelas mulheres no mercado de trabalho, integrou-se ao movimento negro, no qual participou da promoção de inúmeras atividades sociais e culturais, especialmente em defesa dos direitos trabalhistas.(6)

Maria Rita Soares de Andrade, natural de Aracaju, SE, diplomou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em 1926, sendo a única mulher da turma e a terceira a se formar no estado. Destacou-se na luta pelos direitos das mulheres, foi a primeira mulher a integrar o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, representando o estado da Guanabara. Em 1967, tornou-se a primeira juíza federal do país.(7)

Da luta iniciada no século passado para os dias de hoje muitas mulheres continuam rompendo barreiras, superando limites, lutando para mudarem o panorama no mercado de trabalho no Brasil.

Todos os anos as homenagens do Dia Internacional da Mulher reverenciam o conjunto das mulheres, conforme os termos do artigo 5º da Constituição Federal, caput, “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza…” Em nome desta igualdade, no entanto, uma representante se faz destacar, mais uma vez, não só por suas conquistas ao longo da vida, mas por percorrer um processo de muitos obstáculos até alcançar os postos mais altos da carreira profissional.

Obstáculos esses que fazem parte do caminho de muitas mulheres trabalhadoras, pobres e negras, e é dever do operador do Direito contribuir para o desenvolvimento de normas que estejam em harmonia com a realidade social e que impeçam a exclusão e a discriminação destas mulheres nomercado de trabalho.

Neuza Maria Alves da Silva - Foto: Ubirajara Machado - Revista RaçaNeuza Maria Alves da Silva,(8) mulher negra, que teve uma trajetória muito sofrida, pela dor da discriminação em relação à cor de sua pele, cursou Direito na Universidade Federal da Bahia e, desde aquele momento, sua carreira profissional tem sido permeada de conquistas, principalmente a partir de 1988, quando assumiu um cargo na magistratura federal. Em 2004, foi nomeada desembargadora do Tribunal Regional Federal, tornando-se a primeira mulher negra a ocupar esta função no Brasil.(9)

Diz Neuza Maria Alves à revista jurídica ‘Justiça e Cidadania’(10) publicada em abril de 2006, que jamais se deixou abater pelos fracassos: haveria de se recuperar e insistir, seria sempre forte. Ao encontrar uma barreira, deveria estudar formas de ultrapassá-la: iria, se necessário, contornar, escalar ou cavaria um túnel, mas nunca pisaria em ninguém e nem usaria pessoas como trampolim para atingir seus objetivos.

Vale ressaltar que, aos treze anos e meio, ficou frustrada por não conseguir sequer dançar numa simples quadrilha, “era a única negra do grupo”, mas não se abateu, decorou em pouco tempo um monólogo de várias lendas e abriu os festejos interpretando o texto, para seu deleite “fez a noite memorável!”

Superou muitos outros percalços, como quando já juíza federal deixou de ser convidada para comemorações particulares ou coletivas em residências de seus colegas.

Esta mulher, como tantas outras, recebeu do Estado uma educação de qualidade em escola pública, como comentou em entrevista à revista ‘Justiça e Cidadania’. Lamentou apenas não ter conseguido outros tipos de ajuda dos poderes constituídos àquela época, pois quem sabe poderia ter conseguido ir mais longe.

E o que mais chama a atenção nas revelações feita Neuza Maria Alves, além de suas atitudes com o ser humano, “é a sua convicção de que o reconhecimento da dignidade do negro não poderá nunca depender exclusivamente de ato seu, extraordinário ou heróico”.

Convoco todas as mulheres, neste dia em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, a reivindicarem seus direitos violados, a lutarem pela igualdade de condições de oportunidades de trabalho, independente da cor de sua pele.

Finalmente, como observa Neuza Alves, “que todos abracem a causa da abolição do racismo, sob qualquer forma, e que promovam a cidadania, a solidariedade entre os seres humanos e a justiça social”.

Bacharel em Direito pelo Centro Universitário de Brasília (UniCeub).*

Mulheres no século XXI




Escrito por Inês Buschel
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“Pode-se graduar a civilização de um povo pela atenção,
decência e consideração com que as mulheres são educadas,
tratadas e protegidas”.
Jane Austen (1775-1817)

Neste dia 8 de março de 2009, mais uma vez celebraremos o Dia Internacional da Mulher. Cabe a nós refletir e avaliar as perdas e os ganhos na longa caminhada de conquistas, bem como planejar nosso futuro a curto, médio e longo prazo. Tarefa bastante difícil.

A primeira questão que se coloca é saber de quais mulheres estaremos falando. Sim, porque somos muitos diferentes dentro da igualdade, a começar pelas distintas etnias e classes sociais a que pertencemos por nascimento. Somos mestiças, louras, indígenas, negras, enfim, de muitas cores; temos nenhuma, pouca ou muitas posses; freqüentamos boas escolas ou não tivemos sequer educação escolar; somos boas ou más, justas ou injustas; vivemos sozinhas ou em companhia da família; temos filhos ou não; trabalhamos no ambiente doméstico, no mercado fora de casa ou fazemos as duas coisas concomitantemente; temos desejos e idades diferentes; somos homo ou heterossexuais; camponesas ou citadinas; imigrantes ou nacionais; brasileiras do norte, sul, leste e oeste.

Enfim, a diversidade impera entre nós e por isso não poderemos tratar de conquistas de direitos e cumprimento de obrigações de uma maneira generalizada sob pena de cometermos injustiças. Teremos de utilizar a balança da eqüidade e sempre levarmos em conta a cultura do território domiciliar de cada grupo social.

Pois bem. Tentaremos encontrar um denominador comum à maioria de nós: vivemos, com raras exceções, em sociedades essencialmente patriarcais onde ainda quem manda são os homens, sejam eles nossos pais, maridos, companheiros ou irmãos. Apesar de algumas pesquisas sociais já indicarem que, a partir do final do século XX, o patriarcado dá mostras de pleno declínio, levará anos para que haja uma modificação cultural substancial nessa área. O nascimento de meninas ainda não é recebido com alegria pela maioria das famílias no mundo afora.

Entretanto, graças à luta de muitas mulheres corajosas, vimos conquistando alguns espaços significativos de liberdade e poder. O movimento feminista mundial foi bastante vitorioso em questões de direitos humanos das mulheres, mormente no campo dos direitos sexuais e reprodutivos, embora ainda não tenhamos obtido a despenalização do abortamento e esta luta continue. A educação escolar para as meninas e ensino superior para jovens mulheres já é realidade, assim como o direito ao voto e de ser votada, o divórcio legal. Houve avanços nos direitos da mulher trabalhadora etc. Todavia, estamos longe de nos igualarmos ao poder social mantido pelos homens.

Desde o final do século passado e neste início do século XXI, no Ocidente, estamos sendo vítimas de uma guerra publicitária que os homens escolheram para nos dominar. Eles determinaram um padrão de beleza feminino bastante desfocado da realidade – a sofisticação da magreza – e nos impõem esse figurino através da mídia, fazendo com que muitas meninas e jovens de todas as classes sociais sucumbam a essa régua masculina e adoeçam com bulimia ou anorexia. É ilusão crermos numa solitária e individual autonomia da vontade dos humanos. Somos seres gregários e sucumbimos às pressões sociais. Tanto homens como mulheres devem reagir, juntos, a essa imposição.

A posse do dinheiro, em geral, continua em mãos masculinas e, sem dinheiro, as mulheres pouco ou nada podem fazer no sistema capitalista. Sem dinheiro estamos condenadas a nos submeter ao mando patriarcal. A sociedade condena moralmente a prostituição e, no entanto, essa prática é determinada essencialmente pelo poder econômico dos homens, ou seja, pela falta de dinheiro e trabalho digno para as mulheres.

O abuso sexual de meninas, sejam elas filhas, enteadas, sobrinhas, vizinhas, é cometido por homens que, na maioria das vezes, integram suas famílias de uma forma ou outra. As mães dessas crianças se iludem amorosamente e, como que cegas pela submissão econômica, acham impossível que tais crimes ocorram em suas próprias casas. Muitas mães embrutecidas pela miséria chegam até mesmo a pensar que essas meninas são culpadas pelo mau comportamento masculino. A “pecaminosa” visão do corpo feminino – outra regra determinada por homens que dirigem igrejas – é geradora de conflitos internos que enlouquecem.

Entre os desafios que vislumbramos para o futuro está a conquista de políticas públicas eficientes para a educação infantil, com a universalização de boas creches. E, na outra ponta, tendo-se em conta o aumento da expectativa de vida, políticas públicas efetivas que contemplem a proteção das mulheres idosas que, em sua grande maioria, encontram-se sozinhas.

Há, neste início de século, o triste fenômeno da disseminação do vírus HIV nas mulheres idosas. Elas se descuidaram da saúde talvez por falta de informação (a mídia tem como foco os jovens adolescentes e adultos letrados e esquece-se dos idosos iletrados) ou, por outro lado, na esperança de afastarem a solidão ou manterem seus atuais companheiros, submetem-se aos encantos dos homens idosos que, graças aos avanços da indústria química, reconquistaram sua potência masculina e, muitos, tornaram-se eufóricos e promíscuos.

Para que haja paz social e, porque não dizer, conjugal e familiar também, será preciso que a sociedade avance mais e mais na distribuição da riqueza acumulada pelo trabalho incansável de homens e mulheres. O dinheiro precisa ser repartido com eqüidade, sempre tendo como ponto de partida as condições sociais dos grupos e a valorização do trabalho doméstico. Sim, porque são as mulheres com seu trabalho cotidiano que mantém a sociedade produtiva, gerando mão-de-obra tanto para a força militar, como também para as empresas privadas e públicas. São também elas (como regra e em qualquer sociedade) que cuidam das crianças, dos idosos e dos doentes. A implementação de uma renda mínima para todos poderá ser o caminho a ser trilhado.

Vale, para finalizar, lembrar às próprias mulheres que temos de desenvolver uma forma social de evitar a condenação moral umas das outras. O comportamento ético deve ser valorizado, mas regras morais são adotadas individualmente e, em geral, têm sentido religioso e não são universais. A solidariedade entre mulheres deve ser incentivada desde a infância. Lembrando, ainda, às mulheres mães – e também aos pais – de meninos, que devem educá-los no sentido de que nunca violentem alguém, em especial quando se trata de uma mulher, seja ela de qualquer classe social. Isto se faz necessário porque a natureza dotou os homens de grande força física.

Fica aqui nossa homenagem à senadora colombiana Piedad Córdoba, mulher de sensibilidade, beleza e muita coragem, que recentemente intermediou a soltura de seqüestrados pelas FARC.

Inês do Amaral Büschel, promotora de justiça de São Paulo, aposentada, é associada-fundadora do Movimento do Ministério Público Democrático. Website: http://www.mpd.org.br/

Mulheres negras sofrem duplo preconceito – por Jamyle Vanessa

Construído ao longo dos séculos, o conceito de democracia racial no Brasil se mostra, na verdade, uma grande mentira. O IBGE mostra isso de forma clara, e em Rondônia não poderia fugir a regra nacional.

Constatou-se que o preconceito está presente em vários aspectos do cotidiano, inclusive na saúde. Ele faz com que um grande número de mulheres negras nunca tenha feito o exame clínico de mama, capaz de identificar o câncer em estágios iniciais. O quantitativo de mulheres brancas que nunca tiveram acesso a essa medida profilática é bem menor.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostra que as desigualdades entre a população brasileira, referenciam questões de raça e gênero e permitem assim identificar uma hierarquia social que coloca os homens brancos no topo, seguidos por mulheres brancas, homens negros e mulheres negras, que sofrem dupla discriminação: de raça e gênero. A mulher negra continua na base desta pirâmide.

No mercado de trabalho, por exemplo, a situação de negros e mulheres brancas em praticamente todos os indicadores analisados piorou embora elas tenham, um ano a mais de estudo do que os homens. Os dados evidenciam ainda a dupla discriminação que atinge as mulheres negras. Vítimas do racismo e do sexismo, elas ocupam os piores postos de trabalho, recebem os menores rendimentos e sofrem com as relações informais (como a falta de carteira assinada).No caso as empregadas domésticas,pescadoras, as mulheres quebradeiras de coco e entre outras que trabalham na ilegalidades, mas que os ajuntamentos de sindicato, associações e cooperativas tragam um pouco de justiça social ao trabalho.

As desigualdades observadas são persistentes em todas as áreas ao longo dos anos e que, apesar do esforço do atual governo em promover a inclusão – com a criação de secretarias com status de ministério, por exemplo: mulheres e racial -, as mudanças ainda são muito lentas. “O Brasil é racista e o preconceito é velado. As ações de governo para acabar com isso, em forma de políticas públicas, são tímidas perto do que deve ser feito”, lamentável e a política, como vem sendo feita no país, não se mostra eficiente para incorporar uma justiça de gênero, raça e classe. Portanto ser mulher é tarefa difícil e ser mulher negra duplamente difícil. Portanto é necessário, que as mulheres e mulheres negras estejam organizadas e lutando por espaços e direitos. É importante, principalmente a articulação de mulheres negras, para reparar alguns dos efeitos da desigualdade de social, raça e gênero, que dificultam que elas exerçam plenamente os seus direitos.

Fonte: Rondonoticias
Autor: Militante do Movimento Negro-
UNEGRO, em Rondônia

Revista Mátria vai ”acender” discussão de gênero nas escolas



O que tem a ver a escola com as questões de gênero e o comportamento sexual? Para a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) – que representa mais de dois milhões de professores -, tudo. Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, a entidade lança a sétima edição da Revista Mátria – A Emancipação da Mulher, direcionada a alunos e professores de escolas públicas de todo o país.



A revista tem encarte ”O que é ser mulher?”

Os avanços da luta pela igualdade de gênero no Brasil, a sexualidade, a situação da mulher na família e no trabalho e a qualidade do ensino são discutidos de forma a envolver a escola em uma educação não-sexista. Além de comemorativa ao dia 8 de março, a revista pode ser utilizada durante todo o ano. A publicação traz textos interativos com indicações de atividades em sala, leituras, filmes e calendário com várias datas relativas às lutas das mulheres, artigos e reportagens.


Para Raquel Guisoni, secretária de Relações de Gênero da CNTE e coordenadora da publicação, “a revista Mátria é um meio de comunicação que tem muita aceitação no meio acadêmico, feminista, no movimento sindical e social porque a luta emancipacionista é de todas e todos que reagem contra opressão e discriminação das mulheres na perspectiva de um mundo de igualdade e solidariedade.”


A novidade desta edição é a o encarte teórico “O que é ser mulher?” elaborado pelo psicólogo Milton B. de Almeida Filho. Segundo Raquel, a inclusão deste artigo objetiva um maior aprofundamento da concepção emancipacionista “com isso, também abrimos a participação de homens neste debate” destaca.


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A capa de 2009 é a escritora francesa Simone de Beauvoir, ícone feminista do século 20 e referência na longa jornada contra o preconceito sexista. Sua histórica teoria de vida inspirou a revista a rever temas como o casamento e a instabilidade dos sentimentos. Hoje, eles desafiam as relações e colocam em xeque o antigo núcleo familiar.


Como os educadores lidam com a sexualidade dentro de sala? Por que as escolas devem implementar políticas que esclareçam temas polêmicos como a relação homoafetiva – presente em todas as idades e classes sociais? Uma escola da cidade de Abreu e Lima (PE) reafirma sua linha editorial em prol de uma educação não-sexista ao mostrar o trabalho de professores que fizeram a diferença no tratamento desses temas em sala.


A opinião da escritora e ativista Clara Charf sobre os conflitos intermitentes no oriente médio e a luta pelos direitos humanos no Brasil e no mundo é outro destaque da última edição. A companheira do fundador da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, avalia a atual situação política e social nos países e o engajamento das mulheres em movimentos sindicais.


Sobre a participação das mulheres na política, a revista revela um aumento da atuação delas no poder, mas o desequilíbrio com relação aos homens persiste. Outra reportagem mostra que a situação social da mulher tem melhorado no Brasil, mas elas aguardam projetos mais efetivos pela saúde pública. “Dados da Pesquisa Nacional por Amostragem por Domicílio revelam que, no Brasil, 36,4% das mulheres de 25 anos ou mais nunca fizeram exames clínicos de mamas”, cita a matéria.


A crise econômica tomou conta dos noticiários e arrefeceu os ânimos de trabalhadores e empresas de todo o mundo. E, de maneira particular, as mulheres também foram atingidas. Por isso, a revista discute os problemas conjunturais que agravam ainda mais a discriminação feminina no mercado de trabalho.


As lutas e os avanços revelam-se, também, em detalhes de personalidades, conhecidas ou anônimas, que transformam diariamente o país. Seja por meio da irreverência de Carmem Miranda, que enfrentou preconceitos ao afirmar o seu lugar na sociedade; das vitórias de esportistas, responsáveis por enaltecer o nome do país no exterior; ou da defesa da terra e do meio ambiente por centenas de mulheres, que, em pleno século 21, no Norte do país, vivem, por isso, sob a ameaça de morte.


Fonte: CNTE