Arquivos Mensais: janeiro \31\UTC 2009

O Hip-Hop e a crise mundial

Entrevistado: – Eu estava tentando explicar para o povo (boys) o por quê do rap, claro eles não entenderam.


(…) Repórter: – O contrário também é verdadeiro? (…) Você consegue entender a bolsa de valores, o dólar, essa parada toda?


Entrevistado: – Meu, eu vou falar uma coisa pra você. Se pra entender a periferia já é meio complicado, entender isso aí é pior ainda.”


… Uma pausa para reflexão…



Esta é uma transcrição de um trecho do documentário “É Tudo Nosso!”, de Toni C. Mais que uma simples entrevista, é uma oportunidade de entendermos a importância do conhecimento. É imprescindível a reflexão: Como ser ‘Tudo Nosso’ se não sabemos o que nos oprime? Como modificar um sistema se não conhecemos como ele opera?

O conhecimento é o nosso quinto elemento, os demais são insuficientes se não conhecemos a história e o presente do hip hop, da sua quebrada, do Brasil e do mundo. Na economia capitalista, a informação é o que liga. Muita gente ganha dinheiro devido à nossa falta de informação sobre a administração financeira e os mercados de capitais.

Não raro vemos no jornal que o mercado financeiro estava tranqüilo, agitado ou nervoso. O mercado é sentimental! Tratado pela mídia como se tivesse vida própria, acaba-se ocultando que o mercado é formado de pessoas de pele e osso, celular e gravata. São os investidores financeiros.

Esses investidores ganham a vida vendendo títulos mais caro que compraram, não produzindo um único produto. A raça mais cruel dos investidores são os especuladores, aqueles com cinco celulares ao mesmo tempo fazendo caça predatória ao lucro. Parasitas sugando as Economias do mundo todo. O mesmo que o homem faz com a natureza em que vive.

O assunto do momento é a Crise Econômica Mundial. Enquanto a elite está discutindo a crise, nós, os verdadeiros prejudicados, nem sabemos realmente o que é essa tal crise. Somos os verdadeiros prejudicados porque quando a economia vai mal, as indústrias, para diminuir os produtos encalhados, demitem os funcionários da produção, aqueles que recebem os menores salários. Elas não cortam os altos salários nem reduzem custos com administração. O lucro é concentrado, mas o prejuízo é repartido.

Há um conceito interessante: se em uma determinada indústria somarmos todos os salários dos funcionários, inclusive um bom salário para os donos, teremos uma quantia menor que a receita da empresa. e vão parar no bolso dos donos, embutido nos lucros. Isso é o que Marx chamou de mais-valia. Em outras palavras, mais-valia é o dinheiro furtado dos trabalhadores que não recebem toda a sua parte daquilo que produziu.

Mas o que importa saber se a bolsa de valores caiu ou subiu? Meu sonho é que o jornal falasse da taxa de analfabetismo com a mesma freqüência que dos índices da bolsa. Enquanto isso não acontece, vamos conhecer a bolsa.

A Bolsa de Valores é o local em que se compra e vende títulos, seja títulos de ações, moedas ou outros tipos. Nela, conseguimos ver como anda a economia, pois os investidores financeiros são os mais avessos a riscos (exceto a raça especulador).

Quando a bolsa cai, “fecha em baixa”, o cenário para a economia está mal, e quando ela sobe, quer dizer que a expectativa para a economia melhorou.

Títulos de ações são papéis de valores potenciais que geram dinheiro sem terem sido criadas por dinheiro ou produto. Em português claro, é uma criação de riquezas forçadas, dando valores a papéis. Os títulos não possuem lastros porque valem bem mais que as instalações da padaria. O próprio dinheiro é um papel que tem valor potencial apenas, ele em si vale somente o custo da fabricação da nota.

O fato de se forçar a geração de valores causa um colapso quando se quer dinheiro de verdade, pois estes não existem até então, o que gera as crises econômicas. Ou seja, essa forçação de barra (de ouro?) cria-se bolhas especulativas que, de quando em quando, estouram. Acontece hoje uma crise de 29 por semana, mas não produzem os mesmos estragos porque os bancos centrais do mundo inteiro intervêm.
A crise atual é uma dessas bolhas especulativas que os bancos centrais do mundo todo não estão conseguindo manter intacta. Tem como principal causa direta o mercado imobiliário dos Estados Unidos. Os bancos americanos, durante juros baixos, criaram facilidades de crédito e títulos de imóveis baseado em hipotecas. Para conter a inflação, os juros foram aumentados, tornando as hipotecas difíceis de serem pagas, gerando inadimplência.

Os bancos perderam duas vezes, primeiro pela inadimplência das imobiliárias que não tinham como pagar porque não recebiam hipotecas, e segundo pela própria perda de valor dos títulos baseados em hipotecas. Imobiliárias quebraram e levaram para o buraco junto os bancos. Tudo rezado pelos sacerdotes especuladores dentro dos templos financeiros.

A falta de dinheiro em bancos causa diminuição generalizada de empréstimos e investimentos, criando demanda por dinheiro real, o que diminui o valor das ações e a quantidade de dinheiro disponível do mundo todo. Com isso, as indústrias passam a vender menos, e corta primeiramente na produção, gerando desemprego, como já vimos.

Se cada um se informar melhor, não restam dúvidas que o país será bem menos desigual. Ignorar a economia e a política é o que nos torna, oprimidos e excluídos, mesmo com nossa riqueza cultural e moral. E torna o Brasil em paraíso para investidores do mundo todo.

Somos o movimento do oprimido. Para que tenhamos êxito em nossa caminhada, é necessário saber onde pisamos e em que lugar o mundo chegou, para podermos pegar um caminho melhor. Temos que unir os conhecimentos, envolver com o coração, destrinchar com o cérebro, gritar as soluções e lutar por elas. Aí sim, É Tudo Nosso!

André Ebner é membro da Nação Hip-Hop Brasil de Ribeirão Preto – SP.



Pais integrados à escola


Professor defende pais integrados à escola

Geraldo Edson Gonçalves (Edinho) – Paracatu-MG

“A escola hoje é um instrumento, principal, primordial. Para funcionar, precisa de três pilares: ela própria, a família e os professores. Não podemos, no mundo globalizado, esquecer que são muitas as fontes de informação e que a família precisa definir sua proposta pedagógica – um passo importante. Precisa decidir qual a formação desejada para seus filhos e escolher a escola que também tenha uma proposta na mesma direção, para que possam falar a mesma linguagem, filtrando o que de bom há para assimilar dos meios de comunicação. É preciso haver sintonia entre a proposta da família e a proposta da escola. Por quê? A proposta da família deve se unificar com a da escola. Só que esta tem alguns deveres com o aluno e a família continua com os deveres com o filho, duas coisas diferentes que deságuam no mesmo córrego, com a família acaba sendo também o aluno. Ela tem que participar da vida da escola do aluno, não pode deixar de participar, sendo isso muito importante para o sucesso do aluno; tem que ir à escola, não por obrigação, mas para contribuir prazerosamente e para ajudar a enriquecer o currículo, colaborando naquilo que as coisas possam se desviar do leito correto: a escola com suas atribuições e a família com outras. Contudo, as duas têm que sentar e andar juntas. A escola trabalha os valores – do respeito, do limite, da assiduidade e todas as proposições de boas maneiras, de solidariedade, de justiça e de paz – na sua proposta e a família, também. A escola tem que falar desses princípios, a família também. A família não pode mais deixar de dar o exemplo para seu filho. Se a escola fala de uma proposta, a família deve fazê-lo da mesma proposta, querer que essa proposta seja vital. É importante perceber que se educa pelo exemplo. Você não pode dizer uma coisa, ou a escola dizer uma coisa para o seu filho, e você fazer exatamente o contrário. Pede a ele para não jogar papel no chão, e ele joga. Às vezes, manda praticar a leitura e ele não lê, manda ir à missa e ele não vai. Insiste que o filho faça a primeira comunhão, mas o pai nunca foi à missa, nunca levou o seu filho à igreja. O ideal seria se ele, os irmãos, a mãe, fossem à missa, porque aquele exemplo vale mais que o curso de primeira comunhão que ele fez. A escola precisa ter um ambiente saudável, com as pessoas responsáveis pela instituição presentes nela, os pais também, para que tudo seja visto não de forma isolada, mas de uma forma humana. Há que se buscar uma solução viável para trazer a comunidade e a família para a vida escolar; instituírem-se eleições para a escolha de diretores, como ocorre nas escolas estaduais, para que a comunidade participe diretamente na escolha de quem vai lidar com a educação de seus filhos. Por sua vez, valores são valores em qualquer lugar, dentro ou fora da escola; diferentemente, não dá certo. Não existe isso. Então, família é o sustentáculo, a base de tudo; a escola é o meio e o instrumento. Formar um aluno é trabalhoso demais, e ninguém tem regra infalível para isso. Não tem pai bom, nem escola boa; juntos é que construímos o aluno para a vida. Não é fácil, mas mais difícil será se as famílias permanecerem à margem dos problemas que afligem o
ambiente escolar.”

MCs duelam debaixo do viaduto de Santa Tereza

Walter Sebastião – EM Cultura

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Pedro David/Esp. EM
Pedro Valentim divulga a cultura do rap em BH

É confronto amigável, em versos, de personagens importantes da cultura hip-hop: os MCs. A sigla quer dizer mestre de cerimônias – poeta, animador e voz oficial do movimento que mescla poesia e ritmo. Com novidades: em vez de xingamentos, como ocorre nos campeonatos tradicionais, os participantes vão improvisar sobre temas sorteados na hora, sugeridos pelo público ou pela organização. O primeiro Duelo de conhecimento vai rolar hoje, a partir das 20h30, debaixo do viaduto de Santa Tereza, em frente à Serraria Souza Pinto. Interessados podem se inscrever lá mesmo.

“O mais divertido é observar a velocidade de raciocínio e a capacidade de improvisar as rimas”, conta Pedro Valentim, de 25 anos, o MC PDR. Cada participante tem 45 segundos para exibir sua perícia. “Essa arte cobra agilidade, concentração, malícia e principalmente carisma para conquistar a plateia. Se o participante é antenado, conhece o assunto apresentado”, completa.

PDR esclarece: o MC é “personagem clássico” da cultura hip-hop, “a linha de frente do movimento”. Usa a voz para transmitir mensagens, informações e fazer a mediação entre artistas e o público. Pedro Valentim compara os MCs aos repentistas, que, de pandeiro na mão, encantam o público com seus versos.

Se alguns MCs trabalham com intuição e alma, outros são fãs de literatura. Mas o essencial é ter feeling. “Depois, é ato de coragem louvável alguém subir no palco, pegar o microfone e falar coisas que não trouxe escritas de casa”, completa. O coletivo Família de Rua, promotor do evento, vem fazendo duelos desde 2007.

Pedro Valentim explica que, mesmo quando o duelo tem formato mais agressivo, os participantes confraternizam depois da disputa. O grupo do qual ele faz parte quer virar associação para incentivar a arte de rua. “É nossa contribuição para a vida cultural de Belo Horizonte, mas sem sisudez. A cultura hip hop nasceu no meio do povo e é do povo”, conclui o MC.

DUELO DE CONHECIMENTO
Rap, improvisação, intervenções de grafite, roda de b-boys. Hoje, a partir das 20h30, debaixo do viaduto de Santa Tereza. Entrada franca.

SEPARAÇÃO


Dinheiro de sobra, problemas maiores

Gilson de Paula – Belo Horizonte

“Deus, quando criou o homem, o fez com duas naturezas: física e espiritual. A alma é a parte física do ser humano em sua configuração psicológica; a outra é o espírito, que é imortal. Ao morrer, a alma se desintegra e o espírito, não. Os bens materiais pertencem ao físico, portanto, o homem – seja rico ou pobre – nada leva ao morrer. Tudo que fica pertencerá a seus herdeiros. Com relação a um casal riquíssimo e que está em litígio para se divorciar, o que emperra a ação judicial é justamente a imensa fortuna que o casal acumulou. Ambos desejam a separação, mas cada qual quer uma parte maior das posses. Sabemos que uma ação judicial desse porte é demorada, levando talvez cinco, 10 ou 20 anos. Então fica a sugestão para uma solução imediata: que a mulher, valendo-se de valentia, sensatez e pragmatismo, se disponha a receber uma boa quantia em dinheiro, que lhe permita desfrutar de uma vida tranquila e de padrão que tem habituado até o presente, deixando o marido com seus bilhões de reais. É bom lembrar que a pessoa, para ser feliz, não precisa ser bilionária. Assim, o caso seria encerrado rapidamente, evitando as demoradas e desgastantes pendengas jurídicas.”

Uma outra mídia é possível (e necessária)



O Fórum Social Mundial começa com o Fórum Mundial de Mídia Livre. Nesta segunda, dois painéis e outras atividades põem em debate os meios de comunicação e, mais importante, discutem a construção de meios alternativos de comunicação. Será isto possível? É como perguntar se um outro mundo é possível. Talvez um outro mundo seja mesmo possível, mas, com certeza, não o será sem uma outra mídia necessária.

Por Marcos Dantas*, na Carta Maior



Nas dimensões sociais e espaciais em que vivemos hoje, neste mundo em que somos afetados, instantaneamente, tanto pelo que acontece em nosso bairro, quanto por uma guerra em alguma região aparentemente distante como Gaza ou Chechênia, a realidade que nos chega é aquela que nos chega pela mídia. Aquilo que aconteceu, aconteceu porque foi noticiado no jornal, na TV ou no rádio. Se não foi noticiado, não aconteceu.

Significa dizer, boa parte de nosso conhecimento do mundo, boa parte do modo como pensamos, é moldado pela mídia. No limite, a mídia decide o que devemos pensar, sobre o que devemos pensar e como devemos pensar o mundo. Pensar uma outra organização de sociedade, alternativa a esta ordem capitalista que aí está, poderá ser quase impossível, se o mundo que vemos, lemos e ouvimos através da mídia, parece ser um mundo sem alternativas…

Daí a importância da construção de uma mídia alternativa, de uma mídia livre dos compromissos políticos e econômicos da mídia hegemônica, de uma mídia livre para discutir e disseminar a idéia de que um outro mundo é possível.

A base social para a construção dessa mídia é o próprio movimento popular. Na medida em que os mais diversos segmentos da sociedade se organizam em defesa dos seus interesses e se mobilizam para viabilizar suas plataformas políticas e culturais, é natural que eles queiram verbalizar suas demandas e propostas.

Através da rede mundial de computadores e graças ao barateamento generalizado dos meios de reprodução das idéias, o movimento popular não precisa mais depender de custosos equipamentos e instalações para colocar suas propostas em debate na sociedade.

O jornal ou revista impressos podem ainda serem veículos importantes, mas não são mais os únicos. Blogues, sítios de internet, rádios de baixa potência (comunitárias), até mesmo canais de TV, sem falar das listas de discussão em rede ou simples panfletagens digitais (spans) já se tornaram poderosos meios de divulgação de idéias alternativas e de mobilização política.

Através deles, o agendamento do que pensar, sobre o que pensar e como pensar ditado pela mídia hegemônica, pode ser contraditado por uma agenda alternativa, isto é, por uma nova proposta a respeito do que deve ser prioritário para ser pensado e sobre como deve ser pensado.

O FML que, nesta segunda, realiza o seu primeiro fórum mundial, nasceu com essa proposta e pôde assim nascer porque foi construído por organizações e entidades jornalísticas ou não, comprometidas com a construção dessa agenda alternativa e popular. Parte de seus construtores são jornalistas e estão engajados na produção, edição e veiculação de publicações jornalísticas. Parte deles porém não são propriamente jornalistas, mas são comunicadores vinculados ao movimento popular que estão também muito engajados na produção, edição e veiculação de publicações (impressas ou eletrônicas) que discutam a agenda de interesse do movimento popular.

Não raro, esses comunicadores demonstram muito mais competência e sensibilidade para perceber e elaborar essa agenda, do que os profissionais do ramo. Trata-se de uma competência e sensibilidade nascida da vivência real com os problemas da injustiça, da exploração, da exclusão.

O I FMML discutirá a construção dessa nova mídia e, também, claro, não poderá deixar de discutir as responsabilidades da mídia hegemônica na construção da crise econômica e social na qual fomos mergulhados pela especulação financeira e por seu arautos neo-liberais. Era uma crise anunciada. Alguns analistas insuspeitos já diziam, há anos, que ela logo viria.

Fatos só agora revelados, ainda assim a conta-gotas, mostravam que a prosperidade neoliberal não passava de fachada. Essa imprensa que não dava voz aos críticos, essa mídia que não corria atrás de informações perturbadoras, são tão responsáveis por essa crise quanto os especuladores de Wall Street ou da Bovespa. Alimentaram a ilusão. A sociedade não pode agora inocentá-las.

É de se esperar que o FSM, em Belém, defina alguns pontos essenciais de agenda para a reconstrução da sociedade, dada a crise. O I FSML deverá definir os caminhos para dar às propostas do FSM, a mais ampla divulgação possível pelo mundo a fora.

* Marcos Dantas é professor de Comunicação Social da PUC-Rio, doutor em Engenharia de Produção pela COPP-UFRJ e autor de A Lógica do Capital-Informação (Ed. Contraponto)



Em defesa da sociedade

Querem tampar o sol com a peneira opaca da demagogia

É assustadora a crescente onda de assaltos que atinge toda a sociedade brasileira. E exatamente por isso – pela sua extensão e profundidade – o problema extrapola a simples e burocrática tentativa de solução por meio das tradicionais providências legais e policiais.

Qualquer um percebe que estamos em autêntica guerra urbana, pois os marginais se associam em verdadeiras instituições criminosas, as chamadas quadrilhas e por meio delas, ameaçam, roubam, matam e se estruturam em organizações de defesa de seus interesses inconfessáveis e de ataque à sociedade desprotegida.

Se assim é – se estamos em plena guerra urbana – as soluções deveriam ser emergenciais, ainda que ultrapassando os limites impostos pela legislação atual. E se esta legislação cerceia ou limita as providências do poder público, que se promova, com urgência, a reformulação das leis, dando à polícia e ao judiciário instrumentos mais eficazes no combate aos marginais.

Vivemos um período de anormal desestruturação social, que exige, por isso mesmo, medidas igualmente anormais para conter a onda de crimes que nos ameaça.

A atual crise nos faz lembrar a época do gangsterismo americano. Uma simples Lei Seca ainda mais incentivou o crime organizado, que só se extinguiu com extremas medidas da promotoria pública.

Nem se diga que os tempos são outros, que outra é a nossa realidade, e que o crime organizado é resultado de um mundo de opressão e injustiças. Isso é tampar o sol com a peneira, a peneira opaca da demagogia e do engodo de falsas libertações.

Antes que este país se transforme em uma enorme escola nacional do crime, salvemos o que tanto nos custou construir, restabelecendo a ordem que falece e os direitos humanos – estes, sim, os mais legítimos direitos humanos – que fundamentam a estrutura da sociedade moderna.

A consciência negra no contexto latino americano


A consciência negra, no território latino, exprime e expressa a relação desigual de poder frente à lógica de crise permanente instituída pelo capital contra o trabalho

Roberta Traspadini

Foto: Douglas Diego

A consciência negra no recorte de classe

Em meio à atual crise do capitalismo e sua forma de propagação no continente latino, a classe que vive do trabalho deveria parar no mês de novembro, para discutir em profundidade, os temas advindos da consciência negra, frente à inconsciência da barbárie geral do capital contra o trabalho.

Na América Latina, vivem, ou melhor, sobrevivem, segundo os relatórios de pesquisa da cepal, aprox. 120 milhões de homens e mulheres afro-descendentes. Destes, 76 milhões são brasileiros, 10 milhões são colombianos, 9 milhões são mexicanos, 2,5 milhões venezuelanos, e os outros 22,5 milhões se distribuem nos demais países do continente.

Na lógica da dominação burguesa este grupo étnico-racial, conta com uma condição histórica singular no nosso continente: a de ser herdeiro da invasão e deslocamento territorial-continental a que foi submetido, para cumprir em terras longínquas às suas, com os desígnios da exploração européia, reproduzida e ampliada na conquista-saqueio da América. Lógica que utiliza a diversidade e a diferença como violenta forma de manifestação de seus históricos conteúdos de escravização e neo-colonização.

Estamos falando de uma visível forma de dominação que objetiva tornar invisíveis diferenças centrais na sua lógica de exercício do poder. Estamos falando da invisibilidade centrada na diferença da cor da pele. Estamos falando da invisibilidade da cor da pele mesclada com o gênero. Isto é, da invisibilidade da população negra, e dentro desta de mulheres negras, frente à geral opressão-exploração vivida por muitos trabalhadores/as. Estamos falando da intencional invisibilidade dada pelo capital aos sujeitos produtores do próprio e reprodutores do alheio que se tornaram ao longo do tempo, negros e negras latino-americanos.

As consciências expressas na consciência negra:

A consciência negra, no território latino, exprime e expressa a relação desigual de poder frente à lógica de crise permanente instituída pelo capital contra o trabalho. As crises de realização do capital evidenciam as permanentes, mas sempre inconclusas conformações dos pactos de poder contra o trabalho. O que permanece, em meio às múltiplas crises, é a sujeição de parte expressiva da população latina à condução econômica-política-ideológica dos donos do capital que atuam no continente em sua aliança com os Estados (trans)Nacionais.

Frente a isto, alguns elementos chaves, comuns, como classe que devem estar contidos no debate a partir da histórica condição de negros e negras no continente latino, são:

A consciência negra sobre a histórica disputa de classe, em meio à brutal dominação burguesa. A consciência negra sobre a exploração do trabalho pelo capital que, aparenta superar a diferença, mas que, em essência, a utiliza como critério de disputa dentro do mundo do trabalho, para sua realização, a partir de uma redução ainda maior dos salários pagos aos negros e negras do continente. A consciência negra sobre a opressão, na dominação, européia e nacional, na conformação do poder e do pacto político executado ao longo dos últimos 500 anos no continente, um poder que continua sendo branco, rico e masculino. A consciência negra sobre a diferença cultural excludente, onde cultura se mistura com pacto de poder e a indústria dita as normas e as condutas do dever ser de cada época. A consciência negra sobre a organização para a libertação da opressão e exploração, via formação política, educação popular e consolidação de instrumentos políticos de disputa e superação da atual lógica de poder. A consciência negra sobre a esperança diurna, essa que, ao se sonhar acordado, desperta, coletivamente para uma ação rumo à realização de um projeto de fato democrático, com a necessária socialização dos meios de produção, a partir da consolidação de um instrumento político de classe.

A capoeira: pedagogia do exemplo da consciência negra

Uma das mais expressivas formas culturais negras propagadas no continente latino é a capoeira. Essa arte expressa muitas contradições. Mas ao longo da história explicita a rebeldia de contestando a ordem vigente, instituir no canto, ora oculto, ora público, sua condição e a necessidade de superação. A capoeira ganha o continente e globaliza a lógica da rebeldia, da consciência negra frente à exploração e opressão.

Através da capoeira, seus mestres narram, com seus pontos de vistas sobre a história, tanto a opressão quanto a luta pela libertação vivenciada por eles e seus antepassados, em cada período histórico no continente. Estes negros e negras narram, ao mesmo tempo, a condição da consciência de muitos negros analfabetos formais, pois não tiveram acesso à escola, que são políticos negros alfabetizados, mestres alforriados detentores desta arte. A cultura oral, a manifestação às divindades negras, o canto e a musicalização manifestos na capoeira, explicitam que o outro processo global só é possível se a lógica de dominação estiver para além do capital.

A capoeira está em toda América Latina. Está em outros continentes. E por mais que seja praticada por brancos, mestiços e negros, sua raiz manifesta em toda sua expressão, a histórica consciência negra. Por isso, como ferramenta de classe, a capoeira explicita que a formação política, a partir de vários processos pedagógicos diferenciados no nosso continente, conta com a história oral como elemento de recuperação da memória histórica de luta dos povos de nossa América.

Naturalmente, no espaço contraditório da produção do novo em meio à reprodução do velho a capoeira, como outras artes em disputa, está cheia de tensões e de confusas ações apropriadas pelo capital. Mas dentro destas tensões se encontram universos fantásticos de produção, através do corpo, de superação da condição de opressão-exploração-sujeição.

O instrumento político de classe e a consciência negra:

A consciência negra coletiva em nossa América, manifesta a ação política de uma formação que tem na classe sua referência, mas joga para ela o diálogo da diversidade que por anos foi ocultada dentro de uma mesma lógica de reprodução que tenta revolucionar mas reproduz mecanismos de invisibilidade do ser.

Por isso e muito mais, o mês de novembro é central, dado o legado de Zumbi e seus pares, para a reflexão dos lutadores e lutadoras latinos, a partir da tomada de consciência sobre a histórica condição de negros e negras do continente. Consciência que aprende na coletividade a riqueza das aprendizagens particulares. Mas que só se sustenta se tiver claro um instrumento político que, a partir da formação, articule um novo projeto popular para o Brasil e para nossa América.

Em meio à atual crise da hegemonia americana e de seus pares no continente, o permanente é a mudança. E a mudança não ocorre a partir da figura de um sujeito no poder já instituído a partir da cor de sua pele. Em especial quando sua lógica de pensar e agir não se contrapõe à histórica herança de dominação e preconceito desenvolvidos no continente. A mudança não virá do norte tão ao norte, dentro das rígidas estruturas de poder do capital. A mudança está ao sul, logo abaixo. Parte dos territórios autônomos zapatistas e demais regiões camponesas, negras e indígenas mexicanas e vai se mesclando com as demais terras latinas, ainda mais ao sul do nosso continente, tecendo a real teia da projeção do novo.

A mudança se expressa pela capacidade dos povos latinos se organizarem para a consolidação de uma outra lógica de poder, de um outro pacto político de Nação, de um outro sentido de trabalho e de realização para além do capital. A mudança parte da capacidade dos povos latinos executarem o poder popular, a partir da projeção de seus instrumentos políticos: negros/as, índias/os, camponeses/camponesas aliados aos trabalhadores e trabalhadoras das cidades, que no formal e no informal produzem sua sobrevivência, que não lhes permite, na lógica atual, viver.

Roberta Traspadini é educadora e economista

As cores da África-Brasil

por Michelle Amaral da Silva última modificação 25/11/2008 15:02

Colaboradores: Augusto Juncal

Pedi dois copos. Enchi o meu de cerveja, e deixei o outro vazio junto à garrafa. Não demorou muito para que um jovem se aproximasse da minha mesa

Pedi dois copos. Enchi o meu de cerveja, e deixei o outro vazio junto à garrafa. Não demorou muito para que um jovem se aproximasse da minha mesa

Augusto Juncal

Atravessando uma ponte sobre um esgoto, cruzando uma larga avenida confusa de carro e de gente, sob um sol quente que nuvem nenhuma amenizava, do outro lado da avenida eu avistei o começo de Thokozo. Só mesmo um olhar atento, de corte de navalha, para delinear com clareza cirúrgica, e de claridade de céu africano, a confusão da avenida que passava paralela à Thokozo, e a própria confusão do township aglomerada na sua porta de entrada.

Sua porta de entrada era um imenso portão metafísico que sinalizava: você está entrando no township de Thokozo. Talvez seja bem-vindo. Talvez não. Depende de quem você seja e do que você quer aqui. Nesse twonship não há pacotes turísticos. Se é isso que você procura, dirija-se a Soweto. Hambakahle.

Towship, uma intradução. Uma condição humana materializada em… bairro? aglomeração? gueto? favela? periferia? cidade-satélite? campo de concentração? De quem? Dos brancos? Dos capitalistas? Dos brancos e capitalistas? Dos negros e capitalistas? De quem? Township é uma intradução porque é cidade-satélite, é periferia, é favela, é gueto, é holocausto. E se é preciso buscar as causas, as conseqüências estão ali. Sem esforço nenhum para a percepção. Mesmo para as mais embotadas.

Passei por aquele imenso portão, portão para iniciados, com a segurança de quem está com o passaporte carimbado com visto de entrada. Sibusiso era meu passaporte com visto de entrada. Negro e morador local. Com ele entrei. Havia outros motivos, outras razões para minha segurança. Uma confiança em algo que havia em mim, que naquele momento me era obscuro. E que ainda não tenho identificado. Que ainda é negativo de foto não revelada.

Quando entramos em Thokozo havia muita música. Vários bares, várias músicas. Em um deles identifiquei Zola. Noutro, Hip Hop Pantsula. Tuks. E em outro, o gospel da Rebecca. Pensei no Brasil. Vivemos num país onde a mídia tenta banalizar todas as coisas: a política, a sensualidade, a sexualidade, o afeto, os sentidos diários da vida.

Einstein explica

De São Paulo a Johannesburg tudo me pareceu a mesma realidade reproduzido-se a si mesma. Mas os townships eram novas realidades que começava a conhecer. Estava em Thokozo, e, incrível, estava em Guaianazes. Poderia estar. Como sou do muito pequeno e seleto grupo que sai da universidade contemporâneo de Einstein e não mais de Newton, aceitei, sem problemas a possibilidade de meu corpo único, ocupar dois espaços ao mesmo tempo. Mas claro, nada se repete. Nem o Sol, nem a miséria. Todas as misérias são una, e são cada uma, uma.

Debaixo daquele Sol e diante daquela expressão da pobreza, eu me perguntei: “Como é possível uma militância política divorciada dos códigos simbólicos, presentes todo o tempo nos cotidianos?”.

A vivência nos centros e nos bairros periféricos de nossas cidades, debaixo dos viadutos e dentro de guetos, revelam-me imagens que antes eu nunca vi. Não poderia ver. Imagens do abandono e da fome que transcendem o corpo físico e o texto específico dos atores. Será que a questão é só a falta de dinheiro ou de trabalho? Será que são esses itens que movem um povo a revolucionar sociedades como as nossas?

Penso que a exclusão social, se é que posso usar essa expressão sem a explicar, sugere outras condições humanas, que estão dentro dos sentimentos, dos gestos, do ser e estar na vida desprovida. Estes contatos diários com o lixo, os cheiros que exalam dos esgotos, a angústia da sobrevivência, os medos de não amanhecer, enfim… parecem inscrever formas de sentir no mundo não só desprovido, mas sem qualquer alento, sem qualquer esperança. A única maneira de estar vivo é na alegria, na criatividade da alegria… e aí a mídia pega pesado… e de todos os lados. Por que vamos acreditar na contaminação, se a nós é dado perceber um cotidiano de modo subjetivo? E a maioria dos militantes de esquerda? … Que tão-pouco se conhecem a si mesmos? Pouco se miram ou fingem em si (sem o saber), um outro personagem, fora, externo ao seu, para explicar, para representar, uma condição que nem sempre “conhece”, ou não a sente…de um Outro?…Talvez por esta razão estejam cansados, ausentes, entregues.

Meandros próprios

Vou me aprofundando ruas adentro e vou pensando: “Quem vive em São Paulo pode viver em qualquer cidade do mundo”. Inverdade! “Quem anda com uma certa segurança de si em Capão Redondo, Jardim Elba, Glicério, e Gato Preto, não tem porque temer as ruas de Johannesburg. Nem dos townships.” Inverdade! Os acúmulos da miséria têm meandros próprios de culturas e materialização local que uma mente forasteira pode não perceber. Não sentir.

Em São Paulo, a pobreza faz privado um espaço que é público. Sempre que passo muito próximo a um morador de rua, tenho a desconcertante impressão que estou entrando numa casa sem ser convidado. Mas eu, ali, em Thokozo, queria fazer público um espaço que era privado. Queria fazer minhas, as ruas para as quais eu era estranho. E pior que estranho, um branco para eles.

Thokozo e todos os townhips de África do Sul eram dos negros. Deles somente. Eram espaços privados. E eu queria me apropriar deles. Não. Na verdade queria ser apropriado por eles.

Manifestei meu desejo por uma cerveja bem gelada. Sibusiso me deixou na casa de sua irmã. Uma irmã de pouco e curto inglês. O inglês era uma condição sócio-educacional. Às vezes, tinha a impressão de que entendia o que ela me falava em zulu. E respondia. Muitas vezes, acertei na reposta.

Uma cerveja, please

Meu amigo me deixou em casa e foi visitar uma velha tia. Quis ficar e quis tomar cerveja. “Você não pode sair só. Se quiser tomar uma cerveja, minha irmã vai com você. Você compra e volta para beber aqui em casa. Não quero que você sofra nenhuma agressão verbal. Ou mesmo física.” Disse e foi na direção da casa de sua tia, sua irmã foi arrumar o quarto em que eu ia dormir, e eu fugi para o barzinho mais próximo.

Andei por duas, três ruas, seguido por olhares que não soube identificar. Mapeei quatro ou cinco botecos. Escolhi o mais cheio de pessoas e de música. Entrei. Pedi uma Castle no balcão. Um balcão protegido por grades. Todos os bares eram assim: te serviam por trás de grades. Apenas um espaço aberto para a passagem do dinheiro e da cerveja. “Uma Castle, please.” Não tinha. “Heinenken? No. Eu quero south african beer.” “Ah! Hansa.” “South african?”, perguntei. “South african.” “Ok. Hansa.”, então. Ele trouxe, me cobrou e eu pedi dois copos. “Ngiyabonga”, agradeci dizendo obrigado em zulu. Ele respondeu e sorriu. Me sentei, enchi o meu copo, e deixei o outro vazio junto à garrafa.

Não demorou muito para que um jovem se aproximasse da minha mesa. De pé, com seu copo de cerveja na mão, falou pra mim. Eu não entendi. Mas vi a agressividade do seu tom, e seus olhos quase imóveis, fixos sobre mim. O rapaz do balcão intercedeu falando alguma coisa que também me escapou dos sentidos. Senti que chamava o outro à atenção. O rapaz à minha frente respondeu pra ele, e tornou a me falar. Todos no bar olhavam. Posso ter um problema sério agora, pensei enquanto mantinha meu olhar firme no olho do rapaz. “Igama Iami ngu Augusto. Ngubami igama lakho?” (Meu nome é Augusto. Qual o seu?). Senti um vacilo de confusão no olhar. Não dei tempo e estendi a mão, dizendo: “Unjani?” (Como você está?). Seu olhar era menos inquisidor, e até vislumbrei, com um pouco de esforço, um sorriso zulu no fundo de suas pupilas negras, para as quais eu olhava intensamente.

Sem me responder e sem me estender a mão, perguntou: “Uphumaphi?” (De onde você é?). “Brasil”. E ele falou mais. Mas minha cota de zulu tinha acabado. Tinha na manga apenas mais uma frase para uma urgência e fui logo desembolsando ela: “Ngisagala ukufunda isiZulu. I speak isiPortuguese and isiEnglish.” (Apenas comecei a aprender zulu. Falo português e inglês). Soltei meu melhor sorriso. Agora sim, seu olhar tinha vacilado bastante. Era a hora do golpe final: “I don’t undersand what you said. But if you are inviting me to drink a beer with you, let me invite you to drink a beer with me” (Não entendi o que você falou, mas se você me estiver convidando com uma cerveja, deixa eu convidar você com uma).

Enchi o copo vazio, que aguardava sua hora. Ele recebeu o copo. “Brasil? Ronaldinho!”. Bati a mão no peito da camisa que vestia e disse: “Ronaldinho no! Corinthians!”. E aqui começou uma amizade construída a partir da desconfiança e em segundos. Tinha agora um novo carimbo no meu passaporte: “Augusto, Igama Iami ngu Bhekithemba”. Disse e me estendeu sua mão imensamente negra. Estendi-lhe, outra vez, minha mão marrom. Da cor do apartheid do meu país.

Augusto Juncal é integrante da torcida organizada Gaviões da Fiel e do Coletivo de Projetos Internacionais do MST.

PARA ENTENDER

Township – Durante o apartheid racial da África do Sul, townships eram cidades-dormitório da periferia onde moravam negros e negras. Para ir trabalhar nas grandes cidades, precisavam “passe”. Com o fim do apartheid racial, permaneceu o apartheid econômico e social. Hoje as negras e os negros pobres continuam a viver nos townships.

Zola, Hip Hop Pantsula, Tuks e Rebecca são músicos sul-africanos

Aposentados têm prejuízos de 105% com reajuste


Daqui a uma semana, quando o reajuste de 12,05% elevar o salário mínimo de R$ 415 para R$ 465, os benefícios de aposentados e pensionistas do INSS que ganham acima do piso previdenciário terão acumulado prejuízos de 105,20%, com perda da metade do valor desde 1991, quando, por lei, os reajustes passaram a ser diferenciados para os dois grupos de segurados.

O cálculo da Associação dos Aposentados e Pensionistas de Volta Redonda considerou, desde aquele ano, o mesmo valor de mínimo para as duas categorias, aplicou os índices distintos e demonstrou que o piso desse grupo seria de R$ 226,62 no dia 1º de fevereiro – com a correção de 6,22%, prevista em orçamento. Fala-se que, internamente, o governo discute e tenta chegar a 7%, mas a equipe econômica tem sido dura. Ao ser pressionado por dirigentes de centrais sindicais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que “tentaria” um índice maior para o grupo que ganha mais.

A política de correção dos benefícios foi duramente atacada ontem, em eventos por todo o País. Segurados do Rio de Janeiro lotaram caravanas para ir ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida, nas comemorações do Dia Nacional do Aposentado e da Previdência Social (24 de janeiro), em ato marcado por protestos e reivindicações de recuperação das perdas.

Em São Paulo, o Sindicato de Aposentados e Pensionistas da Força Sindical organizou uma festa, em padrão semelhante ao que as centrais promovem no Dia do Trabalho. Os aposentados de hoje são os sindicalistas que marcaram os anos 80 e que projetaram nomes como o de Lula na cena política. “O governo Lula não cumpriu o seu compromisso com os aposentados. Todos os anos, milhares de aposentados e pensionistas caem para a faixa do salário mínimo após o reajuste. Em um ano, só fomos recebidos uma vez pelo atual ministro da Previdência, José Pimentel. Há dinheiro para bancos, construtoras, montadoras, mas não para os reajustes dos aposentados”, atacou o presidente do sindicato, João Batista Inocentini, destacando que a falta de negociação não condiz com o passado sindicalista de Lula e do ministro.

A presidente da Faaperj, do Rio, Yedda Gaspar, definiu a política como covarde: “vamos protestar, apesar de todas as manobras do governo, como a que retirou de pauta o Projeto de Lei nº 1, do senador Paulo Paim (PT-RS), que trata do reajuste único, no dia 18 de dezembro, antes do recesso parlamentar. Em 1990, eu ganhava o teto, que atualmente está em R$ 3.038. Mas agora ganho R$ 1.570. Não é justo, porque não há déficit na Seguridade Social. O dinheiro que pagaria o reajuste dos benefícios é desviado para outros fins. Nós, aposentados, estamos pagando a dívida pública”.

Estudo da Associação Nacional de Fiscais da Previdência Social (Anfip) descreve a evolução do superávit (resultado positivo, na compensação entre arrecadação e despesas) da Seguridade Social, com e sem a Desvinculação das Receitas da União (DRU), recurso que permite remanejar 20% do orçamento carimbado para outras áreas. O último dado fechado, de 2007, confronta R$ 60,9 bilhões contra R$ 21,8 bilhões, com a DRU. Pelas contas do governo, o reajuste único elevaria a despesa do INSS, por ano, em R$ 6,5 bilhões.

No olho da rua

Luiz Neves da Silveira: No olho da rua

O Hip-Hop como expressão cultural


A história do surgimento do hip-hop no Brasil (e nos EUA) denotam seu caráter de cultura de resistência, ou seja, afirma a autenticidade de um movimento proveniente da periferia que, assim como o samba, aos pouco é legitimado pela mídia.



Batizados de DJ, rapper, break e grafite, esses são os elementos do hip-hop, uma manifestação de origem norte-americana que chegou ao Brasil no começo da década de 1980 e encontrou por aqui um terreno fértil para se desenvolver. Inicialmente despercebido pela maioria do público, o movimento caiu nas graças da juventude das periferias das grandes cidades, que virou tudo pelo avesso e criou uma expressão com cara e alma brasileiras.

A situação é considerada uma verdadeira heresia pelos puristas, defensores da idéia de que o hip-hop deve preservar o estilo difundido pelos americanos, apenas adequando-se à língua e à realidade social de cada país.

O rapper capixaba Renegrado Jorge, um dos mais antigos membros do movimento local, acredita que “se a gente deixa, daqui a um dia a capoeira vai se misturar também com o rock metal. Daqui a pouco vai se misturar congo com balé e a originalidade vai desaparecer”.

Mas os liberais relembram que a própria origem do movimento foi o cruzamento da arte urbana dos Estados Unidos com componentes da tradição cultural do Caribe, mais especificamente a dança de Porto Rico e o som da Jamaica, de onde vários artistas emigraram para Nova York nos anos 60. Além desse argumento, os que defendem a abertura destacam que no mundo globalizado, onde todas – ou quase todas – as culturas se entrelaçam, é natural que a expansão do hip-hop faça com que ele influencie e seja influenciado. Um dos que encaram a coisa assim é justamente um dos precursores do movimento no país, o dançarino Nelson Triunfo. “Muitos dos que se dizem radicais são na verdade pessoas limitadas que não percebem que a cultura do mundo todo já está fundida”.

“A cultura hip hop é uma cultura já mundial, a gente não poderia ficar de fora, e a gente tem um material humano legal, que é um povo criativo, a gente tem gente excluída e a gente tem uma cultura, uma industria cultural muito forte no Brasil, então eu acho que tinha que pegar.”


(Jorge Nascimento – professor do Departamento de Letras da UFES)

As culturas marginais, como o samba, surgem primeiro nas periferias, no ambiente das “fábricas”, onde pessoas cansadas do modo de vida sem perspectiva e das imposições da sociedade, no qual sua posição social já está marcada, vêem na manifestação cultural a fuga, um lugar onde elas podem ser elas mesmas.
Como sugere Armand Mattelart e Erik Neveu os sistemas de valores de uma cultura, ou seja, as representações que eles encerram levam a estimular processos de resistência. Para o professor de Literatura Brasileira da UFES Jorge Nascimento “o mais interessante é ver a garotada querendo rediscutir as verdades que são colocadas pela mídia”.

O discurso característico dos integrantes deste grupo trata-se, ao mesmo tempo, de uma declaração de independência, de intenção de mudança, de uma recusa ao anonimato e a um estatuto subordinado.

Embora o cunho de resistência ao sistema esteja impregnado, não há como negar a vontade de ascensão social de quem vive pela arte, mesmo que seja o hip-hop. “Pra viver bem de música, poder ter uma vida decente. Poder ter a sua casa legal, e tal. Sustentar a minha filha que eu tenho também, eu tô pra dizer que tá caminhando”, diz o rapper J3, pois viver de música é difícil.

Mesmo Renegrado Jorge sonha com a melhora de vida por meio do seu rap. “E eu vivo através do hip-hop, pago meu aluguel, sustendo meus filhos e sempre comprando uma parada diferente, sempre produzindo um som. E vou vivendo do hip-hop. Pra ver se um dia compro até um Opala melhor”.

Já DJ Gorinho, que desde os 13 anos toca para juntar dinheiro e comprar novos discos para sua coleção, ao indicar a agulha G-80 como boa e barata, diz não poder comprar uma de 400 reais. “Um dia será que eu vou poder comprar uma agulha de 400 reais? Quem sabe?”, indagou.

A vontade de viver melhor por meio de sua produção intelectual pode ser o fim da autenticidade, da resistência, se o conteúdo das letras do rap, por exemplo, perder o cunho contestador. Por outro lado, grupos como o Racionais MC’s vendem centenas de discos, mesmo estando fora do mainstream das grandes gravadoras multinacionais, assim, não se pode dizer que eles “venderam a alma” para o mercado. Na verdade, vão de encontro, segundo Micael Herschmann, “ao poder burocrático-empresarial sobre o indivíduo, sobre a sociedade e sobre o próprio Estado, o qual, por sua vez, vai se apoiar na promoção do crescimento econômico e do consumo, tomados como fins em si mesmos”.

As letras das músicas dos Racionais é um exemplo típico de literatura popular, na qual o povo é emissor e receptor da mensagem, mesmo sabendo que, em tempos da poderosa indústria cultural, o povo é quem compra CDs (mesmo que pirata). Mano Brown diz não se preocupar com a classe média: ”Eu me preocupo é com o favelado. Se você se preocupar com classe média, ou você vai começar a xingar muito, pra querer ofender, ou vai querer analisar, pra ver se os caras compram mais”. Na fala transparece a intenção de centrar a mensagem da vida suburbana aos manos. Há o projeto pedagógico de educar os irmãos, ou seja, realizar atividades culturais nas classes populares para que para eles mesmos comecem a se interrogar acerca das funções que assumem perante a dominação social.

E para falar de diferença temos que falar de identidade, conceito discutível em tempos de globalização. Ver grupos musicais fazerem sucesso fora do caminho dos “jabas” e da pasteurização nos é estranho, pois somos levados a supervalorizar a visão de uma produção cultural como resposta explícita as claras expectativas de classes ou de grupos de consumidores. Para um produtor ser produto neste tipo de raciocínio o objeto de ser moldado para ser facilmente vendido às massas. Um produto deve ser igual ao outro.

Transformar algo em produto consumível é deixá-lo atraente. O que vai vender mais: o disco de um “negão” com letras sobre desigualdade social ou Eminem, por exemplo, com um rap “engraçadinho”?

Os sujeitos envolvidos no assunto deste artigo são, antes de qualquer coisa, pessoas comuns. Claro ressalvando suas individualidades. Mas o que tratamos são suas perspectivas comuns acerca do seu objetivo de vida – ter sua arte reconhecida para, um dia, ter condições de vida melhor. É exatamente aí que os Estudos Culturais entram. A tal resistência nada mais é do que o rompimento de um de um regime, no qual é imposto um modo de consumo.

Os integrantes do hip-hop não querem comprar idéias prontas, idéias que não são as deles. Há a necessidade de produzir algo para o seu próprio consumo. É necessário colocar a cara a tapa sem a necessidade de obter sucesso. Mas a aceitação faz parte do objetivo de qualquer tipo de arte, mesmo que não declarado. O artista quer aplausos, quer reconhecimento. O grande problema, em relação aos Estudos Culturais, é que a legitimação da mídia destrói a originalidade.

O MC, o DJ, o B.Boy o Grafiteiro e os produtores, para ganharem a vida com o hip-hop devem deixar sua arte perder identidade e ganhar dinheiro, ou manter o discurso periférico e serem mandados para o olho da rua pelo patrão capital?

Quem são:
J3 – músico que enveredava pelo universo do rock’n’roll e resolveu fazer rap após morar nos EUA. Por mesclar eletrônica e rap, a qualidade de sua música é considerada desvirtuada por puristas do hip-hop.

Renegrado Jorge – De origem periférica, ele é um dos primeiros rappers de Vitória. Negativista em relação a mistura de ritmos no rap. Seu programa de rádio, Universo Hip-Hop, que vai ao ar domingo, das 18 às 21 horas, na rádio Universitária 104,7 FM, é o mais antigo do gênero na Grande Vitória.

Dj Gordinho – pratica o oficio de DJ desde os 13 anos. Hoje com 29 dorme no chão do seu quarto, pois os discos comprados durantes os anos ocupam todo o espaço do quarto. Já tocou em bandas como Salvação, Bomba Relógio e J3, além de discotecar em boates e festas de hip-hop.

Jorge Nascimento – professor de Literatura Brasileira do Departamento de Letras da UFES.

Bibliografia:
MAttelart, Armand; Neveu, Erik; Marcionilo; Marcos. “Introdução aos estudos culturais”. Parábola Editorial. São Paulo: 2004.

Rocha, Janaína; Domenich, Mirella; Casseano, Patrícia. “Hip Hop – A Pereféria Grita”. Editora Fundação Perseu Abramo. São Paulo: 2001.

C., Toni (org.). “Hip Hop a lápis”. Editora Anita Garibaldi. São Paulo: 2006.

Herschmann, Micael. “O Funk e o Hip-Hop invadem a Cena”. Editora UFRJ. Rio de Janeiro: 2000.



MST, 25 anos: Ocupar, resistir e produzir





A questão agrária no Brasil, onde predomina o monopólio das terras e os latifúndios improdutivos, tem origem na própria formação da nação brasileira. A medida que a estrutura econômica do país foi evoluindo, e ficando mais complexa, os conflitos entre trabalhadores rurais e proprietários de terras também foram se ampliando. De outro lado, a crescente miséria e desemprego foram gerando um exército de pessoas despossuídas e sem perspectiva de sobrevivência.

Nesse contexto, com o advento da redemocratização, o surgimento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, há 25 anos, foi um marco na luta para alterar esse panorama. Rapidamente o MST se espalhou pelo campo, organizando dezenas de milhares de pessoas na luta pela Reforma Agrária, um dos pilares essenciais para a transformação e democratização da sociedade brasileira.

As ocupações de latifúndios improdutivos e as implantações de assentamentos foram, sem nenhuma dúvida, estopim para que o governo agilizasse os processo de desapropriação de latifúndios. Infelizmente esse não foi um processo pacífico, foi resultado de inúmeros enfrentamentos, da morte de dezenas de militantes da causa da Reforma Agrária e da prisão de dirigentes do MST.

É provável que na escalada da criminalização dos movimentos sociais vista no auge da aplicação do neoliberalismo no Brasil, pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o MST tenha sido uma das organizações mais atingidas pela repressão do Estado.

O alcance das lutas pela terra foram além da questão específica da Reforma Agrária, contribuíram na denúncia do neoliberalismo. Nesses 25 anos o MST tem contribuído com outras lutas, fortalecendo a pauta política de outros setores do movimento social brasileiro.

Para avançarmos decididamente na construção de uma alternativa política, econômica, social e cultural no Brasil, em que se avance no rumo de uma política nacional de desenvolvimento, com soberania, distribuição de renda e justiça social, a união dos movimentos sociais e o surgimento de outras organizações combatentes como o MST tem papel estratégico.

Como lembra Renato Rabelo, presidente nacional do PCdoB, nestes 25 anos o “MST também se destacou no caminho da unificação dos movimentos sociais no país e em toda a América Latina, pela soberania nacional, pela Reforma Agrária, e 0por uma verdadeira alternativa civilizacional avançada em nossa terra.” Por tudo isso, é uma data de luta que precisa ser comemorada por todos os democratas e progressistas.


Compulsão à citação




Escrito por Gabriel Perissé

Há pessoas que precisam apoiar-se em citações o tempo todo. Alguns trazem esse hábito do berço… O pai citador transmite ao descendente essa mania — filho de peixe, peixinho é. Citações de provérbios, ou citações mais requintadas. Quando não lembra a citação, o citador sofre, sabendo, porém, como dizia Oscar Wilde, que “as nossas tragédias são sempre de uma profunda banalidade para os outros”…

O citador vive entre aspas, coleciona as palavras alheias com reverência. Não teme a recriminação daqueles que, citando algum pensador, repetem: “Quem cita os outros jamais desenvolve suas próprias ideias”.

E daí? Mais vale uma citação na mão do que repetir, sem saber, e de modo menos genial, o pensamento que outros já formularam com exatidão. Quem cita pensa também. Citando com a consciência alerta, pensarei ao lado de grandes pensadores. Por exemplo, ao lado de Leonardo da Vinci, que escreveu: “Quem pouco pensa, muito erra.” Não seria o caso de admitir que quem cita muito… muito acerta?

E tem mais. O citador compulsivo nunca está sozinho. Dentro dele dialogam centenas de pessoas, com frases redondas, aforismos intrigantes. O citador é um solitário acompanhadíssimo. Dizia isso com outras palavras, sem desconfiar que se referia ao citador, o poeta Carlos Drummond de Andrade: “A solidão gera inúmeros companheiros em nós mesmos.”

Solitário, ensimesmado, o citador adora dicionários de citações. Passa horas em convívio intenso com centenas de pessoas que disseram algo relevante, mais ou menos inteiradas do poder de suas palavras. Montaigne mencionava os “doutores pela ciência alheia”, mas talvez seja de fato impossível chegar ao “doutorado” de outro modo. Só Deus prescinde de citações, e todas as que Ele faz são citações por Ele mesmo inventadas!

A mania de citar, à medida que aprofunda suas raízes na mente do citador, transforma o citador num pensador original. Seu talento consiste em aplicar em contextos diferentes as frases que nasceram em diferentes lugares e tempos. “Por toda a minha vida eu vou te amar” perderá suas aspas na declaração de amor que o citador fizer com a paixão que o primeiro poeta jamais teve.

Citar é aceitar que alguém foi feliz em dizer algo que eu não disse antes. Mas é também aceitar outro fato. Ao citar tantos outros, poderei talvez, distraidamente, criar minhas próprias frases. Frases que, no futuro, outro citador compulsivo salvará do esquecimento.

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.

Website: http://www.perisse.com.br/

A má abolição

Hoje um estudo clássico, “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, de Florestan Fernandes, atacou o mito da democracia racial

ANTONIO RISÉRIO
ESPECIAL PARA A FOLHA

É impossível pensar o Brasil sem pensar a escravidão. O escravismo teve, entre nós, praticamente a idade que o país tem hoje. Durou quase 400 anos, num país com pouco mais de meio milênio de existência. Enraizou-se em toda a nossa extensão territorial. E deu às nossas vidas formas, práticas e sentidos singulares.
Como se não bastasse, nossa formação histórica aconteceu pelo encontro de povos escravistas. E escravistas fomos todos -senhores e escravos (palmarinos escravizavam; negros forros compravam cativos etc.)- até meados do século 19, quando se configurou o movimento abolicionista. Foi aí, pela primeira vez em nossa história, que o sistema escravista em si foi colocado em questão.
Daí a profundeza das marcas que a escravidão gravou na vida brasileira. A onipresença da herança escravista. Desse ponto de vista, aliás, a produção intelectual brasileira surpreende. E de forma desconcertante, que mereceria ser analisada com vagar.

Freyre e Florestan
É certo que nossa historiografia produziu um rio de livros sobre a escravidão. Mas o tema escasseia nos ensaios de interpretação social da vida brasileira. Não foram muitos os que seguiram o exemplo de [Joaquim] Nabuco. Este, como André Rebouças, se concentrou no exame da escravidão e, ao mesmo tempo, na formulação de um projeto de futuro, propondo uma reforma geral da sociedade, de modo que o ex-escravo nela pudesse ingressar como cidadão pleno.
É nesse campo que surgem Gilberto Freyre [1900-87] e Florestan Fernandes [1920-95]. Freyre, o mais ousado e inovador dos pensadores sociais que o Brasil produziu. Florestan, espírito ao mesmo tempo desbravador e meticuloso, mestre do rigor sociológico. Freyre, em “Casa-Grande & Senzala”, concentrando-se na escravidão.
Florestan, esquadrinhando a outra ponta do arco nabuquiano: o ingresso do descendente de escravos na “ordem social competitiva” -não como o cidadão do sonho de Nabuco, mas como expressão crua da subcidadania, formando a ralé de uma São Paulo em tenso e intenso processo de expansão e transformação. Esse é o tema de “A Integração do Negro na Sociedade de Classes”, livro de meados da década de 1960, cujo primeiro volume agora se relança. Um clássico? Sim. Florestan quer nos mostrar, em seu estudo, como “o povo emerge” na história brasileira. E o faz por meio do preto e do mulato “porque foi este contingente populacional que teve o pior ponto de partida para a integração ao regime social que se formou ao longo da ordem social escravocrata e senhorial e do desenvolvimento posterior do capitalismo no Brasil”. É assim que nos fala do destino do liberto na transição da ordem escravocrata à ordem competitiva -para então examinar as profundas consequências materiais, políticas, sociais e culturais desse processo. E identifica, no abandono do liberto naquele momento de transição, a base da exclusão social das massas negromestiças na moderna sociedade brasileira. Mas, ao buscar as causas últimas dessa marginalização, vai encontrá-las num compósito que independe da cor da pele.
À época da abolição, o Estado e a igreja, assim como os senhores ou já ex-senhores, entregaram os libertos à própria sorte. No campo, eles não tinham terras para cultivar. Na cidade, não recebiam educação, nem instrução técnica necessária para se engajar no novo mundo produtivo.
Foi assim que ex-escravos e descendentes de escravos chegaram ao século 20. Não apenas em estado de pobreza ou de miséria, mas, sobretudo, sem os instrumentos indispensáveis à superação de tal situação. Vale dizer, condenados ao subproletariado urbano, num contexto de inadaptação e anomia. Ainda segundo Florestan, ao encarar essa realidade e combater o preconceito, pretos e mulatos davam uma resposta a dois dilemas sociais que definiam o atraso do Brasil como sociedade moderna.

Interesse histórico
Por fim, Florestan faz sua célebre crítica da ideologia da democracia racial, que acabaria se convertendo no cerne da oposição da esquerda acadêmica à obra de Freyre -uma disputa de poder, no espaço intelectual brasileiro, que ainda está para ser estudada.
Hoje, a crítica de Florestan tem interesse principalmente histórico. Ninguém mais, no país, acha que vive numa democracia racial. De outra parte, o buraco é mais embaixo. Não somos uma democracia racial, mas podemos vir a ser. Florestan dizia que aquela ideologia era manipulada em razão dos interesses da classe dirigente.
Mas que, se caísse nas mãos de pretos e mulatos e estes dispusessem de autonomia social, poderia se transformar em “fator de democratização” da riqueza, da cultura e do poder.


ANTONIO RISÉRIO é poeta e antropólogo, autor de “Oriki Orixá” (Perspectiva) e “A Utopia Brasileira e os Movimentos Negros” (ed. 34).

A INTEGRAÇÃO DO NEGRO NA SOCIEDADE DE CLASSES (vol. 1)
Autor: Florestan Fernandes
Editora: Globo (tel. 0/xx/11/3767-7000)
Quanto: R$ 65 (440 págs.)

Veja se é do seu interesse.

ARTISTAS
Até 3 de fevereiro estão abertas as inscrições para os editais dos projetos Terças Musicais e ocupação da Galeria Renato Almeida em 2009. Serão selecionados oito artistas plásticos e oito músicos interessados em divulgar seu trabalho no Centro Cultural Pró-Música. As propostas e os currículos encaminhados serão avaliados por uma comissão julgadora, que divulgará o resultado da seleção em 25 de fevereiro. O edital está disponível no site http://www.promusica.org.br. Informações: (32) 3215-3951.

Um Forte Abraço!

Especialistas divergem sobre cotas raciais na educação

BRASÍLIA – A aprovação de uma política de cotas na área de Educação pela Câmara dos Deputados, em novembro passado, não foi suficiente para acabar com a polêmica sobre o assunto. O Projeto de Lei 73/99 foi aprovado em votação simbólica, depois de um acordo entre os líderes, mas deputados, pesquisadores, professores e alunos discordam sobre as cotas de ingresso nas universidades e escolas técnicas federais.

A proposta voltou para o Senado por causa da inclusão, pelos deputados, de critérios econômicos para a seleção dos alunos, e ainda está em análise pelos senadores da Comissão de Constituição e Justiça. A Câmara aprovou o projeto em 20 de novembro passado, Dia da Consciência Negra.

Cotas sociais

O texto aprovado determina que 50% das vagas das instituições federais sejam destinadas a alunos provenientes da escola pública. Dessas vagas, 50% serão preenchidas por estudantes de famílias com renda igual ou inferior a 1,5 salário mínimo (R$ 622,50) por pessoa. Além das cotas sociais, a proposta exige que as vagas sejam destinadas a negros, pardos e indígenas em proporção igual a dessas populações no total de habitantes de cada estado.

O texto estabelece ainda que a seleção dos alunos que terão direito ao ingresso na universidade por meio das cotas será feita a partir de um coeficiente de rendimento, obtido pelo cálculo da média aritmética das notas ou menções recebidas pelos alunos durante o Ensino Médio. As instituições privadas de ensino superior também poderão adotar as cotas para ingresso dos alunos.

Caráter paliativo

Para o sociólogo Demétrio Magnoli, que é contrário ao projeto, são aceitáveis apenas cotas provisórias para os alunos da escola pública. Segundo ele, isso deve ser feito em caráter emergencial, por causa da disparidade atual entre a qualidade do ensino público e privado. Entretanto, o sociólogo afirma que somente o investimento na melhoria da qualidade da escola pública e a ampliação no número de vagas das universidades públicas podem democratizar o acesso ao ensino superior.

Sobre as cotas raciais, ele considera que elas representam a “introdução do conceito de raça na lei, um conceito que não existe na biologia, mas que pode ser incluído na legislação por motivos políticos”. Magnoli teme que a inclusão do conceito de raça na legislação possa estimular “processos de ódio racial de massa”.

Desigualdade histórica

Já o antropólogo e professor da Universidade de Brasília (UnB) José Jorge de Carvalho considera as cotas raciais necessárias para corrigir a desigualdade histórica entre brancos e negros no Brasil. “As cotas são necessárias porque os negros no Brasil são 48% da população. Enquanto isso, o número de professores negros na universidade pública não chega a 1%. Ou seja, nós vivemos uma realidade de exclusão que é, provavelmente, uma das mais severas do planeta.”

Para Carvalho, as cotas sociais não alteram o perfil racial da desigualdade brasileira e, por isso, cada um dos aspectos precisa ser tratado separadamente. “Mesmo entre os pobres, leva vantagem quem é branco”, afirma. O professor ressalta que, mesmo que sejam aprovadas, as cotas incidirão apenas sobre 3% das vagas do ensino superior.

Na opinião de Carvalho, o sistema atual não será corrigido se as condições não forem modificadas. “Pelas projeções, mesmo com as cotas, levaremos 60 anos para alcançar um patamar igualitário”, afirma. Além disso, ele destaca que as cotas não deixam de lado a meritocracia do acesso ao ensino superior, porque há poucas vagas em disputa. “As vagas não podem é ser plutocráticas como agora, ou seja, não podem estar ao alcance somente de quem tem dinheiro e pode pagar um cursinho.”

Ódio à escravidão moveu idéias de Darwin



Um novo livro sobre Charles Darwin diz que um ódio passional à escravidão foi fundamental para que ele desenvolvesse a sua teoria evolucionista. A teoria foi contra a suposição de muitos à época de que negros e brancos eram de diferentes espécies.



Darwin’s Sacred Cause (A Causa Sagrada de Darwin) é um dos primeiros entre as dezenas de trabalhos sobre o cientista do século 19 que deverão ser lançadas em 2009 — ano do bicentenário de seu nascimento e quando se completam 150 anos da publicação do revolucionário A Origem das Espécies. Os autores do livro, Adrian Desmond e James Moore, também acreditam que ele será dos mais polêmicos.

A obra explora o que os dois chamam de humanitarismo de Darwin — e contesta a noção de que suas conclusões tenham sido resultado apenas da busca científica. “Deve haver razões para ele ter chegado a imagens da origem comum da evolução quando não havia precedentes para tanto na zoologia de seu tempo”, disse Desmond à Reuters. “Isso vem do antiescravagismo.”

“Ninguém duvida que as ilhas Galápagos, os tentilhões, as preguiças gigantes e as tartarugas gigantes tenham sido absolutamente fundamentais para seus pontos de vista e para o que ele estava interessado”, agrega Desmond. “Mas é preciso observar um certo princípio norteador. Cada navio levava mais de um naturalista naqueles tempos. Por que nenhum deles chegou a essa idéia da origem comum, ainda que a maioria deles tivesse exatamente a mesma evidência?”

Moore disse que o livro não pretendia simplificar o argumento para “sou contra a escravidão, portanto sou evolucionista”. E acrescentou: “Esse não é um argumento reducionista. Estamos ressaltando que era preciso que Darwin acreditasse em uma ‘ciência da fraternidade’ para ver a origem comum. Não podemos descobrir de onde mais ele teria tirado isso.”

Desmond e Moore voltam ao naturalista 18 anos após lançarem Darwin — a aclamada biografia do homem que chegou à conclusão de que todas as espécies evoluíram de ancestrais comuns. Como o próprio cientista sabia, suas teorias foram revolucionárias. Ele derrubou os humanos de seu pedestal ao sugerir que compartilhamos ancestrais com macacos e lesmas, acabou com as pesquisas científicas sugerindo que brancos eram de uma espécie superior aos negros e contestou suposições criacionistas.

Desmond e Moore argumentam que o seu ponto de vista é importante porque mostra que Darwin foi movido por desejos e necessidades humanas. A tese dos autores renova as luzes sobre trabalhos atacados até hoje por serem considerados moralmente subversivos.

Da Redação, com informações da Reuters

Cidades Partidas

Geraldo Magela Teixeira, Reitor do Centro Universitário UNA
A administração das grandes cidades brasileiras deverá sempre estar atenta a uma realidade pungente. São cidades partidas, a população mais opulenta vive encastelada nos condomínios cercados e protegidos pelo medo de uma violência quase generalizada. Parte da população vive nos vastos bairros de classe média ou mesmo na chamada “nova classe média”. Outra parte da população, bem numerosa, se concentra em favelas e grandes conglomerados, quase sempre em condições ínfimas de vida, com tantas famílias desestruturadas onde imperam o tráfico e a violência. Essa realidade deve ocupar a mente e os corações dos administradores na formulação das políticas públicas e, de modo especial, nos planos educacionais. Diante das dificuldades de oferecer uma educação homogênea para todas as crianças, prefeitos e governadores nas últimas décadas implantaram generosos e criativos programas para os pobres, infelizmente, de pouco êxito. Assim surgiram as escolas de tempo integral, os famosos Cieps de Leonel Brizola, no Rio de Janeiro, até a escola integrada de Belo Horizonte. Surge agora uma experiência diferenciada em São Paulo. É uma tentativa de copiar em parceria com os institutos Itaú Social e Fernand Braudel uma experiência em curso em Nova York desde 2001. Espero que o governo de São Paulo esteja fazendo as necessárias adequações, pois a proposta no Brasil esbarra em ordenamentos legais e possíveis conflitos na área sindical.

Tentemos um resumo das principais alterações feitas em Nova York. As escolas mais problemáticas também lá se situam nas regiões mais pobres, de modo especial, na vasta região do Queens. As inovações são importantes. A primeira delas um substancial aumento salarial para os professores e estímulos para os que moram próximo ao local de trabalho. Só isso já atraiu para o projeto profissionais qualificados de todo o país. Ampliaram-se as atribuições dos diretores, que passaram a gerir recursos, elaborar currículos, afastar professores faltosos ou desmotivados, selecionar seus docentes e serviços de apoio. Cada escola tem uma equipe de apoio educacional e equipes de segurança, sobretudo para os pontos de tensão em corredores e escadarias.

Foram criados mecanismos de avaliação dos diretores, com admoestação aos mais fracos e eventual afastamento caso não se recuperem. Os candidatos a diretor são treinados por outros mais experientes na chamada Academia de liderança. A rede escolar de Nova York começou a recrutar jovens talentos recém-formados para lecionar as matérias mais difíceis. Os alunos passaram a ser testados quatro vezes por ano e as famílias convocadas quase semanalmente para integrar o projeto das escolas. Resultado: diminuiu a violência, aumentou o aproveitamento escolar; reduziu-se o número de alunos com a idade inadequada à série que frequentam.

Não sei se a experiência será implantada integralmente em todas as áreas de risco de São Paulo. É que educação tem um preço alto e os administradores não querem ou não podem pagar salários compatíveis com a função e muito menos com os riscos. Tanto que o teto salarial dos professores tornado lei aguarda um pronunciamento definitivo do Supremo Tribunal Federal, arguido de inconstitucionalidade pelos estados. Continua letra morta o aumento a 1/3 da carga horária a ser paga pelo trabalho extraclasse. Ouço de autoridades e até de educadores que o salário não é o elemento que mais motiva os professores. Se não é, me expliquem por que estão vazios os cursos particulares de formação de professores. Se o salário mal dá para pagar a faculdade particular, o que levará os nossos jovens a escolher uma carreira tão sublime? Sabemos que a falta de feijão não sustenta os mais lindos sonhos, nem desvairados amores.

IBGE: renda cresce, mas mulher e negro ganham menos

Agencia Estado

O mercado de trabalho metropolitano registrou aumento na ocupação e no rendimento e queda na taxa de desemprego desde o início do governo Lula, mas as mulheres e os negros ainda ganham menos, segundo estudo divulgado hoje pelo IBGE. O levantamento mostra a evolução desde 2003, quando a taxa média anual de desemprego chegou a 12,3%, até o ano passado, que apresentou taxa de 7,9%.

A taxa média de desemprego de 2002, ano em que teve início a nova série da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, não é utilizada como comparação porque os dados daquele ano só levam em conta o período de março a dezembro. Na média dos meses de março a dezembro, a taxa de 2002 foi de 11,7%.

O estudo mostra também que o número de desocupados caiu 29,4% em seis anos, passando de 2,6 milhões de desempregados nas seis regiões na média de 2003 para 1,9 milhão, em média, no ano passado. No que diz respeito ao número de empregos gerados, houve um aumento de 3 milhões de vagas, passando de 18,7 milhões de ocupados em 2003 para 21,7 milhões na média do ano passado.

No que diz respeito ao rendimento médio real dos trabalhadores, houve aumento de 11,3% de 2003 a 2008, mas não foi o suficiente para recuperar as perdas dos dois primeiros anos do governo Lula. Em 2003, a renda média foi de R$ 1.132,13, chegando a R$ 1.260,74 na média do ano passado. Porém, em 2002, levando-se em conta os dados disponíveis de março a dezembro, a renda média chegava a R$ 1.284,50.

Apesar dos avanços ocorridos nos últimos seis anos, em 2008 as mulheres ainda ganhavam apenas 70% dos salários dos homens nas seis regiões, enquanto o rendimento dos negros e pardos ainda era metade do dos brancos.

Congresso Nacional aprova regulamentação da profissão de DJ



O projeto de lei que regulamenta a profissão de DJ foi aprovado pelo Congresso e deve ser publicado no Diário Oficial no próximo mês de março. O Projeto de Lei do Senado nº 740 é de autoria do senador Romeu Tuma (PTB-SP) e, através dele, a figura do DJ é incorporada na categoria de Artistas e Técnicos em Espetáculos e Diversão.



Segundo o texto, o projeto aplica-se a lei àqueles que, previamente inscritos no Ministério do Trabalho e Emprego, tiverem seu serviço esses profissionais para a realização de espetáculos, eventos, festas, comícios, programas, produções ou mensagens publicitárias.

Para seu registro, os profissionais devem possuir diploma de curso profissionalizante e atestado de capacitação profissional fornecido pelo sindicato representativo da categoria. O modelo de contrato de trabalho será definido pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Os eventos realizados com a utilização de profissionais estrangeiros deverão ter a participação de, pelo menos, 70% de profissionais nacionais.

O surgirmento de Djs

Um disc jockey (DJ ou dee jay) é um artista profissional que seleciona e roda as mais diferentes composições, previamente gravadas para um determinado público alvo, trabalhando seu conteúdo e diversificando seu trabalho em radiodifusão em frequência modulada (FM), pistas de dança de bailes, clubes, boates e danceterias.

O termo disc jockey foi primeiramente utilizado para descrever a figura do locutor de rádio que introduziam e tocavam discos de gramofone, posteriormente, o long play, mais tarde compact disc laser (CD) e atualmente, empregam o uso do mp3. O nome foi logo encurtado para DJ.

Hoje, diante dos numerosos fatores envolvidos, incluindo a composição escolhida, o tipo de público alvo, a lista de canções, o meio e o desenvolvimento da manipulação do som, há diferentes tipos de DJs, sendo que nem todos usam na verdade discos, alguns podem tocar com CDs, outros com laptop (emulando com softwares), entre outros meios. Há também aqueles que mixam sons e vídeos (VJs), mesclando seu conteúdo ao trabalho desenvolvido no momento da apresentação musical. Há, no entanto, uma vasta gama de denominações para classificar o termo DJ.

Djs e o rock and roll

No rádio, os DJs contribuíram para a consolidação do movimento rock and roll à partir da segunda metade dos anos cinquenta, como a maior manifestação cultural da juventude do século 20. Nomes de artistas tão díspares como Elvis Presley e The Beatles, não teriam alcançado o estrelato não fosse o empenho dos DJs originais.

Com o advento da discoteca em meados dos anos setenta, os DJs também ganharam fama fora do rádio e foram para as pistas de dança. Nas pistas, os DJs que atuaram até o meio da década de 1990 utilizavam apenas discos de vinil em suas apresentações. Em que pese o fato de já existirem CDs antes disso, não haviam equipamentos que permitissem o sincronismo da música entrante com a música em execução (ajuste do pitch para posterior mixagem). A forma como esta ação de mixagem é realizada, aliás, é o principal diferencial entre os profissionais desta área.

Um DJ tem a percepção musical de saber quais composições possuem velocidades (mensuradas em batidas por minuto) próximas ou iguais, de forma que uma alteração em um ou dois por cento da velocidade permite com que o compasso das mesmas seja sincronizado e mixado, e o público não consiga notar que uma faixa está acabando e outra está iniciando, pois as duas faixas estão no mesmo ritmo, métrica e velocidade.

Tecnologia e música

DJs das décadas de 1980 e 1990 sincronizavam a composição mixada (entrante) regulando a velocidade do prato do toca-discos, com o cuidado de fazer com que a agulha não escapasse do sulco do vinil (que na prática faz com que a música “pule”) e também com que o timbre da voz da música não ficasse, por demais, alterada com a velocidade muito alta ou muito baixa do prato.

Esta alteração da velocidade era possível em toca-discos que possuem o botão chamado pitch. O toca-disco mais famoso, nesta época, era o Technics SL-1200 MK-2, que até hoje é vendido e procurado por profissionais e amantes do vinil pela robustez e força que o seu motor de tracção directa apresenta.

Após a popularização do CD, fabricantes como Pioneer, Technics e Numark desenvolveram aparelhos do tipo CD player com recursos próprios para DJ. Conhecidos como CDJs, possuem botões especiais para alteração de pitch, de retorno da faixa, de marcação de ponto (efeito cue) e looping.

O timbre da música passou a ser controlado (opcionalmente) por um acionador específico, normalmente conhecido como Master Tempo. Com este recurso, mesmo que a composição esteja extremamente acelerada (ou desacelerada), o timbre da voz, teclados, guitarras, etc. é mantido, driblando de certa forma a capacidade de percepção do público, em notar que determinado som está tocando em velocidade diferente da normal.

O DJ é, no fim das contas, um animador de eventos. Este deve conhecer canções o suficiente para saber como e quando mixá-las, deve sentir a vibração do público que o está ouvindo, e saber mudar um estilo na hora certa, para que a pista não esvazie. Deve ser o mais eclético possível, ou deixar bastante claro ao seu público e ao seu contratante qual é seu estilo ou tendência. Existem DJ especializados em raves. Outros, que se dedicam a canções que já fizeram sucesso a oito, dez ou vinte anos atrás.


Da redação, com agências

Tropa de Elite: problema ou solução?



Foto: Camila de Souza

O filme Tropa de Elite, dirigido por José Padilha, nos dá a ver a abordagem da violência do tráfico de drogas na cidade do Rio de Janeiro sob a ótica e a ”ética” do policiamento ostensivo, ou seja, do policiamento uniformizado e armado, que tem por missão a prevenção e a repressão do delito. Como nos ensina Leonardo Boff, “todo ponto de vista é a vista de um ponto”, no caso em pauta, a violência nos é apresentada desde o ponto de vista dos integrantes do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro (a Tropa de Elite seriam os nossos Intocáveis?).

A mesma situação poderia ser abordada de outros ângulos, por exemplo, o do crime organizado (como no Poderoso Chefão), o dos moradores das favelas não envolvidos com o crime, o das pessoas não faveladas atingidas pela violência, o das organizações de promoção e defesa dos direitos humanos, o da opinião pública e o da mídia que a formata.

Para combater esta e outras formas de crime organizado, o Estado detém dois monopólios: o do emprego da força e o de privar as pessoas de liberdade. Esses poderes da autoridade policial visam tornar efetiva e eficaz a resposta da sociedade ao delito com base na lei. A forma como uma sociedade atua na prevenção e na repressão do delito é parte da sua política criminal. Neste ponto, uma pergunta se impõe: a atuação da Polícia Militar na modalidade que nos é apresentada é parte do problema ou parte da solução?

A julgar pela reação das pessoas que assistiram o filme, segundo vários comentários, a ação da polícia é vista como parte da solução. Se, por outro lado, consideramos a visão dos ativistas de direitos humanos, essa mesma atuação passa fazer parte do problema. A opinião pública alimentada e retroalimentada diariamente pela mídia tende a perfilar-se ao lado dos que defendem a primeira posição. Nesse contexto, o que prevalece é a sensação de insegurança, que atinge, ao mesmo tempo, diversos segmentos sociais. Este sentimento está na raiz de uma atitude básica assumida pela maioria da população: é preciso combater a violência a qualquer preço. No caso, o preço a ser pago é a tolerância generalizada ao uso de estratégias e táticas, que se dão à margem da lei.

Os policiais, como ocorre com os agentes penitenciários, são funcionários encarregados de fazer cumprir a lei. Em nome da segurança cidadã é lícito admitir, como um mal menor, práticas como a tortura, a corrupção e a violência generalizada contra pessoas não envolvidas com o delito? É por aí que passa a linha divisória entre as duas posições assumidas pela sociedade diante da situação que o filme nos coloca. Para o senso comum, a conduta do BOPE deve ser encarada como um bem ou pelo menos como um mal menor. Já para os defensores do bom senso, estamos diante de uma tentativa desesperada de “apagar fogo com gasolina”. O desafio, a nosso ver, está em fazer com que o senso comum e o bom senso caminhem de mãos dadas. Definitivamente, isso não é o que está ocorrendo no momento.

Como fazer com que os funcionários encarregados de fazer cumprir a lei cumpram seu dever sem prejuízo da eficiência e da eficácia no combate ao crime? O primeiro ponto é que a lei deve ser cumprida com severidade e sentido de justiça. No caso dos adultos, a resposta ao delito deve basear-se no que está disposto no Código Penal. No da menoridade, a legislação pertinente é o Estatuto da Criança e do Adolescente. Como, no entanto, o sistema de administração da justiça deve proceder no caso de uso instrumental de pessoas entre 12 e 18 anos por parte de criminosos adultos no cometimento de delitos? Nosso entendimento é de que tal conduta deve ser considerada um fator agravante no julgamento dos responsáveis por tais práticas. Quanto aos adolescentes nessa situação, o ato infracional cometido, em razão das circunstâncias (envolvimento com o crime organizado), deve ser caracterizado como de violência ou grave ameaça à pessoa, implicando, assim, no emprego da medida socioeducativa de privação de liberdade.

O importante é que o direito à segurança dos cidadãos e os direitos humanos dos adolescentes e adultos autores de atos que quebram a Lei Penal não sejam considerados como irmãos inimigos, de modo que, quando um entra em cena, o outro necessariamente tenha que sair. Como fazer isso? Cumprindo a legislação, elaborando uma política criminal, que saiba balancear o emprego da inteligência com o emprego da força, e aprimorando de forma intensiva as técnicas de ação policial empregadas no combate concreto e direto a essa modalidade de crime organizado.

Antonio Carlos Gomes da Costa

Guerra De Água




Escrito por Danilo Pretti di Giorgi

Em dias de calor paulistano, por falta de uma praia ou de um rio limpo para nadar, enchemos no quintal uma pequena piscina portátil. Dia desses, domingo de verão, deixei meu filho dentro da baleia azul de plástico e pedi para que mantivesse a mangueira ali dentro apenas até enchê-la. Saí de perto e, logo depois, quando voltei para ver a quantas andava o processo, vi que a piscininha estava cheia, mas meu menino não havia fechado a torneira: brincava com o jato d’água, direcionando-o para onde sua imaginação infantil mandava, ora regando o jardim, ora brincando de fazer chover.

Já me preparava para falar-lhe sobre a importância ecológica de economizar água, um recurso tão valioso e tal e coisa, quando me contive e resolvi deixá-lo brincar em paz pelo menos por mais alguns minutos. É que me lembrei que o uso doméstico corresponde a uma parcela ínfima da água doce usada pelos seres humanos no Brasil. Os dados variam um pouco dependendo da fonte consultada, mas, grosso modo, 70% do total é consumido no agronegócio, 20% na indústria e apenas 10% corre pelos canos das casas e apartamentos.

Entretanto, quando o problema é abordado pelos grandes meios de comunicação e em campanhas de órgãos públicos, é lembrado apenas o “comportamento leviano” dos urbanos, que aliviam o calor lavando um carro, uma calçada ou se divertindo numa piscininha. Ou que se refazem de um dia cansativo tomando um banho um pouco mais demorado no inverno. Reparem que o foco é sempre direcionado apenas para o consumidor doméstico: devemos tomar banhos de cinco minutos, usar a água da lavadora de roupas para lavar o quintal e fechar a torneira enquanto escovamos os dentes. Lavar o carro? Só se for com balde, porque assim você gasta não sei quantas vezes menos água do que com mangueira.

Por que esta patrulha, que faz-nos, cidadãos comuns, ficarmos neuróticos a ponto de censurar uma criança por brincar com a água? Por que não direcionam sua artilharia também para as gigantes da indústria alimentícia, como as processadoras de carnes, altamente poluidoras e que utilizam grandes quantidades de água limpa em seus processos, muitas vezes devolvendo-a contaminada para o ambiente?

Por que não questionam o sojicultor e o sucroalcooleiro que, ao irrigarem suas megaplantações com água limpa, levam de volta para os rios e impregnam a terra com venenos, como agrotóxicos e fertilizantes produzidos a partir de petróleo? Ou, ainda, por que não questionam a necessidade de alguns processos que consomem (e poluem) quantidades enormes de água, como, por exemplo, as indústrias de aço e de tecidos, refinarias de petróleo e cervejarias, entre muitas outras? Eu tenho um palpite: porque eles ganham rios de dinheiro com as atividades que poluem os rios.

O mesmo raciocínio pode ser utilizado com relação ao consumo de energia elétrica. Enquanto fazem-nos sentir culpados pelo banho quente ou por deixar a geladeira aberta por mais do que alguns segundos, a produção de alumínio responde sozinha por mais de 5% de toda a energia elétrica consumida no Brasil. Vale destacar que, na quase totalidade dos casos, os processos produtivos, sejam eles na indústria ou no agronegócio, não são eficientes, até porque muitas vezes as empresas contam com subsídios governamentais e pagam pouco pela água e pela energia elétrica que consomem. Quase sempre há perdas significativas desses insumos, que poderiam ser reduzidas com um pouco de boa vontade para a tomada de algumas medidas relativamente simples. Mas não se vê governo ou mídia cobrando a implementação dessas medidas. Um grande mistério.

É verdade que, na maior parte dos casos, a água usada no agronegócio e na indústria não passa por tratamento para tornar-se saudável para o consumo, como a que chega às nossas torneiras. São as chamadas águas de reuso ou aquelas captadas diretamente dos rios. Poder-se-ia, portanto, contra-argumentar por aí. Mas perceba que a alta cada vez mais acentuada no custo dos processos de purificação da água está ligada diretamente com o crescimento da poluição, a maior parte dela causada pelos, voltando para o começo, processos industriais e agropecuários. Trata-se de um ciclo interligado em todas as suas muitas fases, que não pode ser analisado separadamente.

Pior: o próprio poder público, que cobra da população uma atitude responsável, não parece importar-se: quase a metade (45%) de toda a água que se retira de mananciais para abastecer as capitais brasileiras é perdida antes de chegar às casas e atender à população, na maior parte dos casos por conta de vazamentos nas tubulações (ou, importa-se sim, mas importa-se apenas em nos culpar, não em resolver o problema). Não, não é brincadeira. São dados oficiais do Ministério das Cidades, a partir de informações fornecidas pelos órgãos estaduais: quase metade da água tratada pelas “Sabesps” Brasil afora não chega nas torneiras pela falta da manutenção. Então, ao invés de focar apenas no consumidor, os governos poderiam cuidar da parte que lhes cabe e consertar os canos. Mas, não!

Mais alguns dados alarmantes relacionados ao governo (e perceba que “governo” quando tratamos desse tipo de questão são todos, os atuais e passados, desde sempre): apesar de ser bastante divulgado que mais de 60% das residências no Brasil já contam com coleta de esgoto, pouca gente lembra que apenas 6% do esgoto é tratado. O restante é despejado in natura em rios e lagos, novamente encarecendo o tratamento da água que chega às casas e alimentando o ciclo da sujeira e do descaso.

A moral dessa história é que continuamos nós, cidadãos comuns, arcando com todo o ônus e passando longe do bônus. Para não mexer com interesses poderosos (dos quais são parte integrante), governo e mídia preferem transferir o problema para o elo mais fraco, eu, você e nossos filhos, mesmo que possamos fazer muito pouco pela solução do problema. Veja só: somos 180 milhões, responsáveis por 10% do consumo. Não seria mais inteligente compartilhar os esforços com aqueles que consomem os 90% restantes, ainda mais considerando que eles são em número infinitamente inferior? E trabalhar arduamente para eliminar as perdas na rede de distribuição e para universalizar o tratamento de esgotos?

Não vou, por conta disso, deixar de economizar água. Vou também continuar adotando as práticas defendidas nas reportagens especiais que sempre surgem nos meios de comunicação sobre o colapso do abastecimento nas grandes cidades – até porque elas são “tecnicamente” incontestáveis. Varrerei a calçada, apesar de saber que a vassoura hidráulica é muito mais divertida. Aproveitarei a água da piscininha e captarei água da chuva para regar meus vasos nos dias de seca, apesar do trabalho que dá. Fecharei a torneira enquanto escovo os dentes, apesar de adorar o barulhinho da água correndo enquanto medito durante minha higiene bucal. Farei tudo que venho fazendo, sabendo que minha parte faz diferença. Mas não me peça para não deixar as crianças se divertirem brincando de guerra de água no quintal num dia de calor.

Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.

E-mail: <!– var prefix = 'ma' + 'il' + 'to'; var path = 'hr' + 'ef' + '='; var addy96595 = 'digiorgi' + '@'; addy96595 = addy96595 + 'gmail' + '.' + 'com'; var addy_text96595 = 'digiorgi' + '@' + 'gmail' + '.' + 'com'; document.write( '‘ ); document.write( addy_text96595 ); document.write( ” ); //–>\n digiorgi@gmail.com <!– document.write( '‘ ); //–> Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email <!– document.write( '’ ); //–>

Os homens também necessitam da proteção especial prevista na Lei Maria da Penha?

Narra os fundamentos legais e constitucionais que garantem somente às mulheres uma política especial de proteção afirmativa, com vista a assegurar ao gênero feminino o benéfico tratamento processual diferenciado previsto na Lei Maria da Penha.

Lindinalva Rodrigues Corrêa
linrocea@terra.com.br

A recente e polêmica decisão de um magistrado do Juizado Especial Criminal de Cuiabá-MT, que aplicou, segundo o próprio “por analogia”, as medidas de proteção da Lei Maria da Penha em favor de um homem que estaria sofrendo violência doméstica praticada por uma mulher, obriga-nos a algumas oportunas reflexões. Passemos então a elas:

Sobre a justificativa do juiz do juizado especial criminal que entendeu que os homens também fariam jus às normas protetoras elencadas na Lei Maria da Penha, em razão da constatação formal-constitucional simplista e idealizaria de que “todos são iguais perante a lei”, recorro novamente aos comentários de Streck, que ao ser perquirido acerca dos avanços femininos na sociedade brasileira, indagou: “de que mulher vocês estão falando, já que estamos em um país que pode ser dividido, por faixa de renda per capita, em Itália, Colômbia, Quênia e Somália… Nesse contexto, por certo estavam a falar da mulher ‘italiana’…! Mas, pergunto: e o que sobra para a ‘queniana’ ou a ‘somalis’ brasileiras? Ora, não existe ‘a mulher’. Existem ‘várias mulheres’….” [1]1

Segundo investigação feita pela ONG Human Rights Watch, em nosso país, concluiu-se que de cada 100 mulheres brasileiras assassinadas, 70 o são no âmbito de suas relações domésticas. [2] Todas as pesquisas demonstram que o lar, o âmbito doméstico e familiar, na maioria dos casos, institui o local de risco para as mulheres vítimas de violência doméstica e familiar. Conforme Soares: “A ameaça do ponto de vista das mulheres, não vem de fora, quando se trata de agressão física. Está na casa, não na rua; é episódio inscrito em dinâmicas típicas da vida privada, o que evidentemente não lhe reduz a gravidade, antes a aprofunda”. [3]

Parece-nos claro que o ordenamento jurídico brasileiro não só permite ao Estado a promoção de políticas de ações afirmativas, como as impõe, a fim de que sejam alcançados os direitos fundamentais baseados no artigo 3º da Constituição Federal, pois na sua redação temos o emprego de verbos como “erradicar, construir, reduzir e promover”, devendo o ente público desenvolver um comportamento ativo, positivo e eficaz neste sentido.

De outra parte, o art. 5º, caput, da Constituição Federal, analisado em conjunto com o art. 3º, ao afirmar que todos são iguais perante a lei, estabelece que: o Estado garantirá a todos o direito à igualdade, sem ignorar as desigualdades existentes, que motivam, dentre outras medidas, a criação das normas de ação afirmativa, visando o alcance do ideal de igualdade efetivo idealizado pelo legislador constituinte ao descrevê-lo formalmente, sendo certo que o igual tratamento pela lei, para ser legítimo, pressupõe uma igualdade de fato preexistente. Constatando-se que não há igualdade de fato entre homens e mulheres, tratarem-se desiguais como se iguais fossem, é que constituiria a verdadeira inconstitucionalidade.

Ademais, a Lei Maria da Penha não criou um só tipo penal, que continuaram os mesmos que sempre foram, alcançando homens e mulheres indistintamente, sem fazer qualquer distinção, tanto para figurarem no pólo passivo como no ativo, quer quanto ao tipo penal ao qual se responderá, tal como em relação à pena prevista em lei para tais delitos e sem definir qualquer tipo penal que exigisse como sujeito passivo exclusivamente pessoa do sexo feminino, criou tão somente mero procedimento, com vista à peculiar e necessária proteção às maiores vítimas de violência doméstica e familiar, que incontestavelmente são AS MULHERES, fato que não se pode negar, já que para isso temos dados numéricos e em números até os operadores jurídicos mais resistentes crêem, posto que a violência praticada contra as mulheres, conhecida como violência de gênero, constitui na razão implícita do número estarrecedor de casos.

Portanto, ainda que inegáveis os avanços femininos rumo à igualdade real de gênero, é notório, conforme explicitado no tópico anterior, que as mulheres necessitam, e muito, da proteção especial oferecida hoje pela Lei Maria da Penha. Tão claro, tão simples, e uma enorme quantidade de operadores jurídicos a divergir, insistindo em negar às mulheres o direito de reagir à violência e à efetiva proteção Estatal de seus direitos humanos. A quem interessa manter as mulheres sob controle?

É inevitável a conclusão de que respeitadas as regras de conexão e continência, ante a própria causa da existência da Lei Maria da Penha, que indubitavelmente deva ser aplicada tão somente nos casos de violência doméstica e familiar praticados contra MULHER, pela razão pura e simples de que somente as mulheres são vítimas de violência de gênero, o que ocorre em número significativo, que por si só justifica a existência de uma lei especial que as protejam.

Evidentemente, não se nega que os homens podem ser vítimas de violência doméstica, tal como não se ignora que as mulheres são perfeitamente capazes de praticá-las. Contudo, é notório que a quantidade inexpressiva de tais casos comparados àqueles que vitimam mulheres, já que os homens, felizmente para eles, nunca sofreram a famigerada violência de gênero, jamais haveria de justificar a existência de uma lei especial de proteção como a Lei Maria da Penha em prol dos mesmos.

Ademais, como a inédita decisão teria concedido medidas de proteção a fim de impedir a mulher agressora de se aproximar ou manter contato com o homem agredido, sabe-se que não haveria qualquer necessidade de se aplicar a Lei Maria da Penha no caso em exame, porque a Lei dos Juizados Especiais Criminais, no artigo 69, parágrafo único, sem fazer qualquer distinção quanto ao sexo da vítima, é muito clara ao dispor que nos casos de violência doméstica e familiar, o juiz poderá determinar como medida de cautela, seu afastamento do lar, domicílio ou local de convivência da vítima e dentro deste contexto, também se poderia proibir a aproximação ou contato da autora do fato da residência ou local de trabalho do ofendido.

Portanto, tal decisão carece de amparo legal, além de acirrar ainda mais os ânimos dos litigantes nos casos em que os homens ostentam dificuldades de assumir suas responsabilidades nas agressões, ocasiões em que distorcem os fatos até encontrarem uma maneira de “justificar” para si e para terceiros suas atitudes violentas e abusivas, colocando na própria vítima a culpa e responsabilidade exclusiva pelas agressões por eles perpetradas, episódios em que os agressores encontrarão neste tipo de interpretação judicial extremamente expansiva, mais uma maneira de tumultuar o processo, alterando a situação real, o que, sem dúvidas, poderá servir de argumento para desestimular as mulheres vítimas de violência doméstica de procurarem ajuda, por medo de represálias, razão que torna a decisão ora repudiada bem mais perigosa do que à primeira vista possa parecer.

Concluo afirmando que ao continuarmos ignorando de forma ingênua ou autoritária as evidentes desigualdades do tratamento dispensado a homens e mulheres em todos os tempos e na atualidade, estaremos de forma expressa ou velada negando sem êxito a história de subjugação do feminino aos ditames masculinos e transformando gritantes diferenças culturais de gênero (masculino e feminino) em uma estereotipada e ridicularizada guerra entre sexos (homem e mulher), diante de um injustificado e “oculto” receio de que o “mundo masculino” esteja ameaçado pela “ditadura do feminino”, que alguns menos atentos vêem nos dispositivos da Lei Maria da Penha, avançaremos sem entender o sentido e a origem de tanta violência contra mulheres, sendo certo que deste modo também não conseguiremos combatê-la, numa contenda desgastante e inacabável em que, certamente, não haverá vencedores, já que um gênero carece indubitavelmente do outro, para a própria sobrevivência.

Referências

[1] Streck, op. Cit., 2004, p.118

[2] Human Rights Watch, abril de 1997. Injustiça Criminal x Violência contra a Mulher no Brasil. Número de catálogo, Library of Congress: 97-71949.

[3] SOARES, L.E.; SOARES, B.M & CARNEIRO, L.P., 1996. Violência contra a mulher: as DEAMs e os pactos domésticos. In: Violência e Política no Rio de Janeiro (Soares, L.E. orgs.), p. 66. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará / ISER.

A Bolívia também é negra. E tem um rei

RESISTÊNCIA Com apenas 35 mil pessoas, comunidade afro-boliviana reconhece seu próprio monarca e luta contra invisibilidade e discriminação

RESISTÊNCIA Com apenas 35 mil pessoas, comunidade afro-boliviana reconhece seu próprio monarca e luta contra invisibilidade e discriminação
Igor Ojeda
de Mururata (Bolívia)

JULIO NÃO é soberbo. Tampouco pomposo. Sua casa, um sobradinho, é simples. Até demais. Um tanto deteriorada: os cômodos no andar de cima, uma vendinha no de baixo. A roupa que veste é surrada, o boné, velho. Julio é fechado, seco, desconfiado. Lacônico. Seu trabalho? Agricultor. De sol a sol.
Mas, antes de tudo, Julio Pinedo é rei. Em plena Bolívia de quase dois séculos de história republicana. Seu reinado vale para todo o território nacional. Mas não para todos os bolivianos. Na verdade, Julio exerce poder sobre um povo esquecido, quase invisível, que soma pouco mais de 35 mil pessoas, 0,4% da população do país: os afro-bolivianos. Sim, a Bolívia também é negra.
E a Bolívia negra planta coca, cítricos, café. Habita, principalmente, a região dos Yungas, a cerca de três horas ao norte de La Paz. Zona quente, úmida, de vales profundos e vegetação densa. No meio do caminho entre os Andes e a Amazônia boliviana. A Bolívia negra é pobre. Não tem serviços como saúde, educação e saneamento. É rural, mas também urbana. E é na cidade onde sofre mais discriminação. Por isso, luta para ser reconhecida e respeitada. Como qualquer boliviano.

A “corte” chega à América
Os primeiros africanos que chegaram no país governado por Evo Morales foram levados a Potosí para trabalhar como escravos nas minas e na Casa da Moeda, como acunhadores. “E não deu certo”, explica o rei. “Morreu quase a metade. Porque eles eram acostumados com um clima cálido, e em Potosí é um pouco frio. Com o esforço no trabalho, não puderam agüentar.” Assim, foram vendidos para as haciendas – organização do latifúndio na América espanhola – localizadas na região subtropical dos Yungas.
Numa das levas de escravos, vinda do atual Congo Kinshasa, estava a família de Julio. “Foram buscados para trabalhar nas minas de Potosí. Depois os trouxeram para cá em Mururata, para as haciendas.
Os patrões os faziam cultivar sempre a coca”, conta. Só que, entre seus familiares que foram trazidos da África, havia um rei. “Estou herdando o título que era anterior ao meu avô. De muitos anos atrás. Cerca de 500 anos, mais ainda. Da época que os espanhóis invadiram a Bolívia. Então, na família, sempre houve um rei.”
No entanto, o último a exercer o cargo antes de Julio havia sido seu avô, Bonifacio Pinedo. “Quando ele faleceu, em 1954, não houve mais rei. E ficou assim, até 1992, quando veio um senhor, um dos netos do proprietário da hacienda em que Bonifacio trabalhava, e disse: ‘Olhe, seu Julio, seu avô foi rei, você tem que seguir com essa carreira, você tem que ser o rei, tem que exercer o cargo que era dele’. O homem o via como parte de uma linhagem nobre. Seu Julio aceitou, e o coroaram em seguida”, lembra Angélica Larrea de Pinedo, a esposa real.

Pobreza
Julio exerce sua realeza na pequena comunidade de Mururata, onde nasceu, há 66 anos. Chegando ao povoado, após cerca de meio hora de táxi de Coroico, a “capital” dos Yungas, percebe-se logo sua precariedade. Uma única rua de terra, casas bastante humildes, uma escola simples, uma praça malcuidada, uma pequena igreja. Não há hospital ou posto de saúde. A população que caminha para lá e para cá é majoritariamente negra, mas percebe-se uma quantidade considerável de indígenas da etnia aimara.
Sentado numa calçada elevada, observando a movimentação, está Pedro Reyes Pinedo, um “quase primo do rei” (em uma comunidade tão pequena, quase todos seus habitantes parecem ter algum grau de parentesco). Chapéu preto na cabeça, sorriso no rosto, uma bengala segurada entre as pernas.
De aparência bastante idosa, Pedro não lembra sua idade: “já tenho vários anos”. Confirma seus 81 anos mostrando a carteira de identidade. Há cinco, ficou viúvo. Há três, foi operado da próstata, deixando-o impossibilitado de trabalhar. Seus três filhos já não moram em Mururata. “Sou sozinho. Como jogado fora.”

Servidão
Até os 78 anos, Pedro trabalhava na agricultura, assim como a maior parte dos afro-bolivianos. “Plantava coca, mexerica, laranja… O trabalho era muito duro. Tem que cavar, plantar. É muito sacrificante.” Hoje, vive apenas com os 200 bolivianos (cerca de R$ 70) que ganha mensalmente através da Renda Dignidade, uma bolsa concedida pelo governo Evo: “Não dá pra viver com isso”.
Durante boa parte da sua vida, Pedro sentiu na pele os resquícios da opressão colonialista, que perduram até hoje em alguns lugares da Bolívia. Antes da Revolução de 1952, Pedro trabalhava no sistema de pongueaje, como era chamado o regime de servidão imposto aos indígenas bolivianos. “Tinha que atender o patrão. Por uma semana, tinha que trabalhar na terra dele, ir na casa da hacienda”, lembra.
A vida difícil dos afro-bolivianos é contada, também, por Antonia Pinedo, outra prima do rei Julio. Aos 55 anos, essa dona de casa, promotora de saúde e catequista de Mururata recorda as histórias que seu avô lhe contava, como, por exemplo, a proibição de estudar que os brancos impunham aos negros que viviam nos Yungas.
“Um dia, meu vôzinho me disse: ‘filhinha, aprende a ler, não seja como nós que não sabíamos. Antigamente, os patrões não deixavam o negro aprender a ler. Fomos escravos, não conhecíamos médico… quando doía o molar, o arrancávamos com alicate. E, se estragávamos algo, nos batiam. Não havia sapato. Se a mulher paria seu bebê, tinha três dias de descanso. Se não pudesse trabalhar, era chicoteada. Você está agora na glória.”

“Pouco trabalho”
Sobre Julio, Antonia diz que ele é o eixo principal da comunidade negra: de toda a Bolívia, não apenas a de Mururata. “Todo afro o reconhece e aceita sua forma de ser”, referindo-se ao jeitão reservado. “Eu estou tentando abri-lo. Agora, pelo menos ele fala, responde. Eu conheço os tios do rei. Não falam, nem sequer riem. Sua família é muito seca. É diferente do resto da comunidade, que é aberta.”
Quando a reportagem chegou a Mururata, por volta das 8 horas da manhã, não pôde ser atendida pelo rei, mesmo após alguma insistência. O motivo não era nenhuma atividade “oficial”, algum problema a resolver em seu reino. A explicação era simples e, claro, seca: estava na hora do início da jornada de trabalho. Julio tinha que ir a seu pedaço de terra, onde cultiva folha de coca e alguns cítricos.
No fim da tarde, no novo horário marcado, após voltar da roça, o rei atende o Brasil de Fato. Sempre lacônico, se diz orgulhoso pelo título, por seguir os passos de seus antepassados. No entanto, minimiza sua importância. Segundo ele, os antecessores cumpriam mais funções e eram mais reverenciados.
“Para os primeiros afro-bolivianos, um rei era muita coisa, porque haviam vivido na África e já sabiam o que isso significava. Então, o respeitavam muito. Meu avô, durante os três anos que pude ver, resolvia os problemas da comunidade. Então, se era preciso castigar, castigava… fazia obedecer. Fazia cumprir. Agora não existe isso. Diminuiu o trabalho”, explica.

Resolução de problemas
Julio lembra que, hoje, a função real é dividida: nos povoados, há autoridades, sindicatos, corregedor, associação de vizinhos… “Então, é pouco trabalho para um rei. Pouco atendimento.”
No entanto, chama a atenção para o fato de que, ao contrário de, por exemplo, um corregedor, a máxima autoridade dos afro-bolivianos tem alcance nacional.
É sua esposa, Angélica, que conta com mais detalhes as atribuições reais: “É uma autoridade para qualquer ocasião.
Para ver o que está bom, o que está mal. Dizer que algo tem que ser assim ou de outro jeito. Tomar medidas drásticas. Por exemplo, se há uma briga, fazer os dois lados saberem que as coisas não podem ser assim. E eles respeitam”.
Sobre o futuro da dinastia Pinedo, nem Julio nem Angélica estão preocupados. Afinal, os dois têm um filho de 12 anos. “Acho que ele será o herdeiro da coroa”, prevê, quase envergonhado, o rei.

Cornos, covardes e impunes!


“Queria que, quando de posse de uma queixa, o delegado mandasse buscar o acusado e lhe explicasse as possíveis consequências de um ato insano, quem sabe o colocasse para dormir uma noite no xadrez”

Sidney Lopes/EM/D.A Press – 10/07/2008
Agressões e ameaças a mulheres não podem ficar impunes
O que era prática inexplicável e repudiada nas últimas décadas do século passado virou rotina… Homens que não têm seus desejos atendidos pelas mulheres que amam as matam, não antes de agredir e ameaçar. Eles contam com a impunidade, com a indiferença do nosso sistema de defesa social. É raro o caso em que um assassinato de natureza passional não foi precedido de uma queixa da vítima na polícia, que, burocraticamente, põe o documento na gaveta e espera o pior acontecer para arranjar justificativas.

Tenho insistido que não me parece a solução definitiva para evitar a violência contra a mulher a criação de uma ou algumas delegacias em um estado de 853 municípios. Creio que o ideal seria dotar todas as unidades da Polícia Civil de (pelo menos) uma agente, treinada para acolher queixas e providenciar imediata ação.

Não peço muito, sabendo das dificuldades de nossa polícia. Só queria que, quando de posse de uma queixa, o delegado mandasse buscar o acusado e lhe explicasse as possíveis consequências de um ato insano, quem sabe o colocasse para dormir uma noite no xadrez, enfim, aquele antigo procedimento de cidade do interior. Que funcionava.

Hoje, não é raro casos como aquele de São Paulo em que um cidadão com ficha suja na polícia, respondendo até por assaltos, ameaçou a ex-namorada e, embora ela tivesse pedido providências quatro vezes em dois anos, acabou assassinada, enquanto trabalhava, em uma academia.

Hoje é assim. O cidadão, por incompetência ou omissão, recebe um cartão vermelho da amada e, em vez de juntar os cacos, partir para outra, opta por matar a ex, sabedor que a lei já não é tão rigorosa e sua aplicação é sempre mais favorável a quem atira. Para quem morre, adeus!

Ética, moral, Justiça e direito


Antônio Marcos Batista Silva
,
8º período de Direito da Faculdade Pitágoras
Desde os primórdios, nossa realidade social clama pela pacificação sóciopolítico-econômica e cultural. Assim, mister se faz o correto entendimento de predicados tão importantes e extremamente necessários ao convívio e à harmonia coletiva. Como as relações sociais evoluem constantemente, podemos aferir sem margem de erro, que as relações sociais hoje experimentadas são muito mais complexas que outrora vividas pelos povos mais antigos. A interação hoje havida entre os indivíduos é de gigantesca proporção e, quanto mais intensa, mais conflituosa.

Para que os indivíduos percebam maior segurança em seus relacionamentos, convencionam entre si determinadas regras que estabeleçam possíveis formas de solução a suas controvérsias, bem como a punição a certas condutas consideradas lesivas a sua vida coletiva. Sem tais regramentos, as relações sociais seriam completamente instáveis, pois, partindo da subjetividade do ideal de justiça encontrado em cada ente, nunca poderíamos prever com certeza o comportamento de um indivíduo ao confrontar-nos seus interesses.

O problema em foco é discernir entre as várias espécies de regras estabelecidas pela sociedade, delimitando assim o campo de atuação da ética, moral, Justiça e direito.

Quanto ao conceito de ética, além de consistir em um ramo específico das ciências que se ocupa do comportamento moral dos homens em sociedade, como preleciona o professor Eduardo Bittar, também como prática nos reporta a uma especial forma de agir: a conduta ética, que “consiste na atuação concreta e conjugada da vontade e da razão, de cuja interação se extraem resultados que se corporificam de diversas formas.”

Salutar importância encontramos na distinção entre ética e moral. A segunda consiste no objeto de estudo da primeira enquanto ciência e também pode ser considerada seu substrato enquanto prática, pois toda conduta ética será necessariamente moral, porém, nem toda conduta moral será considerada ética. A ética se ocupa de postulados gerais, advindos da consciência coletiva. Segundo Durkheim, tal consciência consiste na síntese de todas as consciências individuais de um dado grupo social em tempo e espaço determinados, consistindo em mais que uma simples soma, um produto novo oriundo da contraposição dessas consciências.

Já acerca do vocábulo justiça, importante ressaltar a existência de seu caráter dúbio. O justo sob um prisma individual, subjetivo, corresponde aos anseios dos indivíduos sob a égide moral, ou seja, aquilo que parece ser justo a uns pode não contentar a outros. Por muitas vezes, encontrar a solução mais palpável à resolução de um conflito torna-se um contrassenso, pois a decisão pode confrontar à psique do indivíduo, o que não reflete propriamente um ideal coletivo, ou melhor, social. De outra forma, lidamos com um conceito objetivo da justiça, adentrando no terreno do justo coletivo.

Da mesma forma que a ética diferencia-se da moral, a justiça também o faz, não devendo ser a expressão isolada de anseios individuais, mas uma produção advinda da consciência coletiva. A justiça não deve atender uma vontade individualmente, nem tampouco realizar plenamente os desejos de todos, porém, deve pautar-se em um senso coletivo, oriundo de uma determinada sociedade em lugares e épocas também determinados.

Quanto ao vocábulo direito, em consonância aos ensinamentos do professor André Franco Montoro, em nosso idioma tem significação análoga, ou seja, aplica-se a diversas realidades que apresentam entre si certa semelhança. Podemos interpretá-lo sob os seguintes prismas: norma, faculdade, ideal de justiça, ciência, arte e fato social. A ciência positiva do direito, contudo, se ocupa das normas jurídicas, que consistem em normas de conduta merecedoras de regulação legal.

Estando o objeto de estudo do direito relacionado à norma de conduta, advinda da síntese de valores sociais vigentes em uma determinada época e por uma determinada sociedade, temos que a primazia do direito constitui alcançar um ideal máximo de justiça, não individual, mas, uma justiça objetiva, transcendental, imanente da sociedade, conforme esta a entenda e a processe a cada momento.


Afinal, em que consiste o nepotismo?

Se a verdadeira intenção reside em moralizar o serviço público, com os aplausos de toda A população brasileira, deveria ser extirpado o chamado cargo em comissão de recrutamento amplo, fazendo imperar o recrutamento limitado sujeito a concurso público. Não sendo possível adotar-se o recrutamento limitado, por questões outras, seria o caso de limitar-se ao máximo a nomeação sem concurso, com a vigilância das instituições existentes no sentido de verificar se o recrutamento, de fato, é necessário e se o nomeado não estaria, aí sim, abrigando-se no nefasto nepotismo

Sérgio Antônio de Resende
, desembargador presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG)
“Nepotismo (do latim nepos, ou neto ou descendente) é o termo utilizado para designar o favorecimento de em detrimento de pessoas mais qualificadas, especialmente no que diz respeito à nomeação ou elevação de cargos,” segundo a Wikipédia.

E acrescenta a conhecida enciclopédia livre: “Originalmente, a palavra aplicava-se
exclusivamente ao âmbito das relações do papa com seus parentes, mas atualmente é utilizada como sinônimo da concessão de privilégios ou cargos a parentes no funcionalismo público. Distingue-se do favoritismo simples, que não implica relações familiares com o favorecido”.

“Atitude de alguns papas que concediam favores particulares a seus sobrinhos ou a membros de sua família. Favoritismo, proteção escandalosa, filhotismo” (Koogan/Houaiss).

“Autoridade que os sobrinhos e outros parentes do papa exerciam na administração eclesiástica; protecionismo, compadresco, filhotismo, favoritismo, patronado” (Dicionário do MEC).

Assim, diante da súmula 13 do Supremo Tribunal Federal (STF), impõe-se fazer uma indagação. Será que, efetivamente, a forma adotada é a correta?

Creio, sinceramente, que não. Uma ressalva se impõe para que não pareça aos menos avisados que estaria a favor do nepotismo. Muito ao contrário. A eliminação deve ser feita em todos os poderes em respeito à moralidade no serviço público.

Reza o artigo 5º da Constituição Federal que “todos são iguais perante a lei…”. No entanto, ao se aplicar indistintamente a citada súmula, sobretudo na espécie em estudo, significa dizer que “nem todos são iguais perante a lei”.

Ora, onde há nepotismo na nomeação de uma pessoa qualificada (já exerceu o cargo anteriormente) para a assessoria de um desembargador pelo simples fato de ser sobrinho de um juiz de uma distante comarca? Se o cargo existe e se a pessoa preenche as condições necessárias e se não houve qualquer influência do distante parente para a nomeação, como pode o escolhido ser excluído se, forçosamente, outro deverá ser designado?

A verdade é que, em respeito a uma questionada moralidade no serviço público, procede-se a uma “caça às bruxas”, retirando do serviço público todos os parentes até o terceiro grau, inclusive, de todas as autoridades, permitindo que, no respectivo lugar, tenham assento os outros “apadrinhados”.

Creio que, se a verdadeira intenção reside em moralizar o serviço público, com os aplausos de toda população brasileira, deveria ser extirpado o chamado “cargo em comissão de recrutamento amplo”, fazendo imperar o recrutamento limitado sujeito a concurso público.

Não sendo possível adotar-se o recrutamento limitado, por questões outras, seria o caso de limitar-se, ao máximo, a nomeação sem concurso, com a vigilância das instituições existentes (Ministério Público, Tribunal de Contas e a própria mídia) no sentido de verificar se o recrutamento, de fato, é necessário e se o nomeado não estaria, aí sim, abrigando-se no nefasto nepotismo.

O que não se pode, a meu sentir, é afirmar que todos os meus parentes possuem uma doença transmissível, até à ausência de contato físico, que os impeça de ocupar um cargo de recrutamento amplo, ainda que preencham todos os requisitos necessários à nomeação. Essa atitude, repito, sob minha ótica, representa uma tremenda injustiça e causa a todos nós que percorremos uma longa caminhada no serviço público (mais de quatro décadas) “uma tristeza sem fim” (o cancioneiro popular diz o contrário).

No entanto, atendendo o que foi decidido pelo ilustre ministro Cézar Peluso, nos autos de nº 587.756, em caso semelhante envolvendo o candidato, outra solução não tenho a não ser indeferir o pedido.

Essa decisão foi proferida em 29 de outubro de 2008, em resposta ao pedido de informações da Diretoria Executiva de Administração de Recursos Humanos (Dearhu) envolvendo um caso discutido no Tribunal de Justiça de Minas Gerais e publicada no Diário do Judiciário no dia 6 de novembro de 2008.

PICHAÇÃO


Luciano Ricardo da Silveira – Belo Horizonte

“Prefeito Márcio Lacerda, a população de Belo Horizonte já não aguenta mais a ação dos pichadores, que emporcalham muros, casas e obras públicas, brincando com a cara de todos nós e contribuindo para sujar e minimizar as melhorias dos últimos anos. A Linha Verde, recém-inaugurada, já está tocada pela ação desses marginais, assim como o novo complexo da Lagoinha e grande parte das casas e muros da cidade. Passa a sensação de que o problema não é levado a sério pelas sucessivas administrações. Como uma cidade que não sabe gerir tal problema pretende se tornar centro turístico e cultural? Prefeito, é preciso energia para erradicar esse mal ou reduzi-lo a níveis ao menos suportáveis.”

Ismaelitas e Israelitas


O mundo anseia que ismaelitas e israelitas se abracem
José Nazareno Ataíde – Advogado, filósofo, teólogo, professor na Faculdade de Direito de Ipatinga-MG
Ao folhearmos a Bíblia, encontramos, no livro do Gênesis, a partir do capítulo 12, a história de Abraão, por volta do ano 1850 a.C. Ele foi um dos 10 patriarcas, nome dado aos primeiros chefes de família no Antigo Testamento. Abraão, que significa pai de uma multidão, é um ponto de referência no cenário bíblico. É o protótipo de homem fiel, leal e obediente à inspiração divina, mesmo quando isso lhe custa muito. Característica de Abraão é ser aceito e reverenciado tanto pelos judeus como pelos cristãos e pelos muçulmanos. Quem sabe esse ponto de convergência ainda vai ser lembrado e usado na busca de paz no Oriente Médio, onde parece haver só divergência.
Abraão era casado com Sara, também judia, que se revelou estéril. Não ter filho, na cultura da época, era constrangedor, sinal de frustração, de maldição. A própria Sara sugeriu a Abraão que ele se unisse a Agar, uma de suas escravas, egípcias, para que tivessem filho. De Agar, a mulher escrava, nasceu Ismael, do qual se originaram os ismaelitas, que são os palestinos. Tendo Sara recuperado a fecundidade, gerou Isaac, do qual nasceu Israel, segundo nome de Jacó. De Israel, neto de Abraão, se originaram os israelitas, que são os judeus. Portanto, a descendência de Abraão se bifurcou: ismaelitas, originados de Ismael, filho de Abraão e Agar, a escrava; israelitas, descendentes de Israel, que descende de Abraão e Sara, a mulher livre. Isso foi o germe de uma discriminação, de uma rivalidade que a poeira do tempo ainda não conseguiu apagar: os descendentes da mulher livre e os descendentes da mulher escrava nunca se afinaram, apesar de terem um pai comum, Abraão. No tempo de Jesus, a geografia daquele território era outra: ao norte, Samaria, dos palestinos; e, ao sul, Judeia, dos judeus. Sempre vizinhos, sempre rivais e antagônicos.

Jesus, que é judeu, fez tudo para as duas etnias se aproximarem, alargando a visão de mundo e de Deus. O Deus anunciado por Jesus não é um Deus tribal, fruto de um exacerbado nacionalismo. É Deus de todos, universal, à semelhança da chuva, que cai sobre todos, à semelhança do Sol, que a todos ilumina. Deus sem fronteira. Quando Jesus, à beira de um poço, conversava com uma mulher samaritana, os judeus o flagraram e o censuraram pela sua atitude, sendo ele um judeu. Ela mesma manifestou estranheza pelo fato de Jesus ter-se dirigido a ela (Evangelho segundo João, cap. 4º ).

Quando quis ensinar que o amor não tem limites nem restrições, Jesus contou uma história (parábola) em que um judeu viajante caiu nas mãos de ladrões, que o saquearam, deixando-o quase morto à beira da estrada que liga Jerusalém a Jericó. Vários judeus, ligados à hierarquia religiosa, por ali passaram e seguiram em frente, sem dar atenção ao ferido. Mas houve alguém que parou e lhe deu todo o socorro de que precisava. E quem deu socorro ao judeu foi um palestino, um samaritano (Evangelho segundo Lucas, 10, 29-37). Essa visão de Jesus, eclética e globalizante, foi mal recebida pelos judeus, caiu como remendo novo em roupa velha, tornando-se o epicentro das razões que levaram à sua condenação. Vê-se, pois, que a rixa entre judeus e palestinos é muito antiga. O mundo anseia que ismaelitas e israelitas se abracem, que os filhos de Sara e os filhos de Agar se entendam. Pai Abraão e mestre Jesus vão sorrir.

… não contava com o exercito de calça larga



por Toni C.*

Quem matou o hip-hop, (clique para ler) não contava com o exercito de calça larga e bombeta, não contava com os maluco comprometido com o barato de verdade, não contava com a Nação Hip-Hop Brasil…



Para azar de Julio Medáglia e de quem se preparava para a missa de sétimo dia. O hip-hop segue e se adapta. Organizou o Eco Hip-Hop para discutir aquecimento global iniciou dia 14 e finalizou na noite do domingo 16 com uma frase que sintetiza que neste sistema a vida humana não esta em primeiro plano: “Vida Loka!”

Durante estes três dias, quente e seco, mais de dez mil pessoas passaram pela estação cultura de Campinas. Uma antiga estação ferroviária de arquitetura inglesa que hoje abriga a secretaria de cultura da cidade.

“Como é que é rapa. Calor do Caralho!” Racionais MC´s

Foi exibido no encontro o documentário “Carta ao Presidente” (Letter To The President) título de uma música de 2Pac, o vídeo traz os maiores nomes do rap estadunidense, como Snoop Dog, 50 Cent, Chuck D entre outros. Todos demonstrando que nem o desprezo, a repressão ou a fortuna de alguns fez esquece-los de onde vieram, ou perder totalmente, seus ideais.

Eu pensei: “Mano do céu, se até o rap gringo, ainda tem bem lá no fundo a chama libertária acesa, mesmo que só uma brasinha. E se até o Shetara consegue se empolgar novamente com o barato e esquecer por um segundo o faz-me rir… Então pro mais que a arvore não tenha nenhum fruto e mesmo depois de perder a última folha. Se a raiz está saudável. Já era, esse bagulho ainda é nosso!

“Como Feniks, renasci” Dexter

“Esse Eco Hip-Hop é Gênesis ou Apocalipse?” Perguntaram da platéia quando eu debatia acompanhado de Mayla Porto, Paulo Shetara e Aquiles do Tiuna el Fuerte grupo que é uma espécie de Nação Hip-Hop venezuelana em Caracas onde mora.

O encontro realizado em campinas, acontece num estado onde a quase 15 anos é governado pelo mesmo partido. Em todo esse tempo fizeram praticamente 2 coisas: finalizaram apenas 1/3 do Rodoanel e “asfaltaram” o poluído rio Tietê, ambas com grande impacto ambiental. Acha pouco? Então façamos justiça. É verdade que também foram responsável pela construção de novas estações de metrô que virou uma cratera que engoliu algumas pessoas vivas…

“Nos não temos coisas mais urgentes para debater?” perguntou um mano para mim durante o debate. Que adianta discutirmos outra coisa se esse é um problema extrutural? Não foi nós na periferia que criamos este problema se quer são os países periféricos os responsáveis pelo aquecimento global. Só os EUA sozinhos é responsável por mais de 50% da emissão de gases que causam o efeito estufa e consequentemente o aquecimento global. Mas e ai?

Quando chove onde fica os barracos que alagam? Quando não chove onde é o primeiro lugar a faltar água? “É inevitável o hip-hop discutir esse tema, isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.” comentou DBS em entrevista depois de sua apresentação no encontro. “Negôooo!”

Apresentado por Nuno Mendes o Show do Face da Morte ponto a alto do encontro fez as pessoas cantarem refrão antes do grupo. “Sou rap brasileiro, com muito orgulho, com muito amor!”

“Estamos diante um grande precipício, é necessária atitude!” Brown sentencia nos intervalos entre uma música e outra durante a apresentação dos Racionais no encerramento do evento.

O planeta e o hip-hop estão sendo ameaçado de extinção. Existem alguns que já denunciam que não tem mais jeito. São ambos moribundos condenados, o rap e o planeta Terra…

Josué revela que Sorocaba continua zona de conflito “us caras vinham com as maquinas agente apedrejava, vinha polícia agente expulsava e assim desistiram em desapropriar nossa área.” Este é só um dos epsódios de O Hip-Hop Em Meio a Guerra, livro que está preparando.

Domingo pela manhã recebo uma ligação, no visor do celular vejo: “Sérgio Vaz”
– E ai macaquinho, tudo certo rapá? Da uma olhada na época, fizeram um material sobre a Semana de Arte Moderna da Periferia. Chamamos os boy no rodo!
Essa Eliane Brum é firmeza mesmo!

Se não bastasse durante esta semana tivemos Mano Brown no centro do programa Roda Viva, a maior audiência do ano. Lançamento do livro Suburbano Convicto Apresenta, organizado pelo Alessandro Buzzo.

Em Recife aconteceu mais uma etapa da Liga de MC´s. Em Sergipe esta tudo pronto para a estreia do programa Periferia. Amanhã terá na Casa de Hip-Hop de Diadema homenagem a Stive Biko. Em Ribeirão Pires domingão o Nação Rap Fest com o lançamento do livro Trocando umas Idéias e Rimando Outras de Walter Limonada. O prêmio Hutúz vem ai…

…enfim como ouvi falando o parceiro Mano Oxi do Rio Grande do Sul: Se a Nação Hip-Hop foi uma mentira. Já era, porque uma par de vagabundo acreditou. E mesmo que alguém quiser desmentir num dá mais…”

Eco Hip-Hop é gênesis ou apocalipse? A pergunta que me fizeram no debate em alusão ao primeiro ou último livro da Bíblia, teve como resposta: Eco Hip-Hop ta mais pros Salmos… Escrito pelo rei Salomão, tido por ser a pessoa mais sabia da terra.

Precisamos sabedoria, pois estamos em desvantagem de recursos, não temos o mesmo poder, não temos as mesmas armas. Mas “Os números são nossos. Quem tem a maioria é nós, quem tem a massa somos nós tem que fazer esses pesos virar para nós.” Mano Brown no Roda Viva.

Pra maioria se impor, para este exercito de calça larga se impor, é necessário sabedoria.




*Toni C., DJ e produtor. Autor do vídeo documentario “É Tudo Nosso! O Hip-Hop Fazendo História”, organizador do livro “Hip-Hop a Lápis” e membro da Nação Hip-Hop Brasil e da equipe do Portal Vermelho.

Mariana Bonora: Os rumos do hip-hop, formas de preservação do movimento

Faz tempo que não escrevo nada sobre o movimento hip-hop, eu fiquei praticamente os quatro anos da minha faculdade pesquisando, lendo e escrevendo sobre esse movimento socio-cultural. Não só isso, fiquei, especialmente no último ano, em contato direto com todas as manifestações do hip-hop na minha cidade. Na tentativa de escrever algo sobre esse movimento, que eu admiro muito e que ao mesmo tempo me entristece ao ver que os alicerces do hip-hop em Bauru estão se enfraquecendo em alguns pontos, eu lembrei de um epsódio durante a minha faculdade.



Quando eu estava fazendo minha iniciação científica, eu pesquisava sobre a obra dos Racionais MC’s na época, uns colegas estavam fazendo um trabalho sobre negros, acho que era uma radiorrevista e vieram me entrevistar já que eu pesquisava o movimento hip-hop, que tem uma raiz inegável nas questões raciais, tanto na temática como no próprio sentido cultural do movimento, nas suas influências que vêm dos tempos dos griots africanos. A primeira pergunta foi sobre a questão do preconceito racial, presente nas músicas, como funcionava isso dentro do movimento. Eu não lembro exatamente o que respondi, mas, eu abordei mais pelo lado social e não a questão racial em si, pelo fato de temáticas diferentes estarem aparecendo no mundo do hip-hop, pelo fato de pessoas brancas, também, participarem dessa evolução, tanto como consumidores ou artistas de cada uma das quatro manifestações. E, assim, a música do hip-hop, o rap, passou a abordar uma temática mais social. Beleza, mas, hoje eu vejo essa reposta como um pouco ingênua.

De fato as temáticas são variadas dentro do rap. Hoje na verdade se vê letras que podem falar sobre tudo, inclusiva da ”bailarina, que era tão linda” e demais rimas (pobres) que se vê por aí. No entanto, eu acho que isso inclui uma outra questão, o rap como estilo musical e o rap como um elemento do hip-hop. Eu sei que muitos puristas do movimento são contra isso, contra a comercialização da música do hip-hop (o rap), mas, isso é fato inegável. O estilo assumiu contornos que hoje não existe mais um perfil de um cantor de rap. Um estilo musical tem certas caracteristícas que o identificam como tal, e isso, também, acontece com o rap.

Mas, a discussão não deve ser se isso deve ou não acontecer, porque a música é licença poética, se um artista a tem, ele pode falar sobre o que quiser no ritmo que for conveniente, cabe ao público aprovar a não, com respectivas palmas ou vaias. O que deve ser preservado sempre é a raiz do hip-hop, e o hip-hop não é só rap. Uma vez eu estava entrevistando um cara que dava oficinas de grafite e ele falou uma frase que eu guardei e reflete bem isso, não lembro bem o que eu perguntei a ele, mas, no meio da resposta ele afirmou que ”o hip-hop é um elemento do grafite, mas, não necessariamente o grafite é sempre um elemento do hip-hop”. A consciência disso poderia evitar muitas discussões vazias. Manifestações paralelas são formas de arte. O que tem seu valor sim, claro, é cultura. Mas, a essência do hip-hop é muito mais que isso, ele é um movimento com raízes sociais, com ações e manifestações que refletem essa questão. E nesse ponto não existe licença poética, só quem é pode ser, só quem vive essas raízes pode saber e cantar, desenhar, dançar ou musicar isso.

Diante disso, eu acredito que são discussões vazias decidir quem pode ou não cantar rap, grafitar, ser DJ ou b-boy, é perder tempo pensar em maneiras de frear a comercialização do rap, é tentar parar com um processo que acontece com todas as formas culturais que transpuseram os muros formado pelo grupo social onde nasceram, formas que ganharam visibilidade e sucesso. Quem conhece a história de evolução dos ritmos musicais negros entende o que eu estou falando, de alguma forma ele se renderam ao mercado, muitas vezes não pela ação dos que os inventaram, mas, pela apropiação por parte de outras camadas sociais. A bandeira do movimento tem quer ser a preservação do próprio movimento.

Um cantor de rap não é necessariamente um militante do hip-hop, mas, um militante que se reduz a um artista apenas não pode ser mais considerado parte integrante do hip-hop. É nesse ponto que o a luta tem que se focar, em ações que viabilizem o lado social do movimento e que isso seja passado para a nova geração, através de oficinas, palestras, debates e outras formas de discussão para o hip-hop não se transformar em uma fábrica de artistas e sim continuar sendo uma ferramenta de inclusão social através da cultura, um movimento socio-cultural legítimo que se manifesta em quatro pilares artísticos (os elementos) e um pilar fundamental: o conhecimento.

Um conhecimento que é necessário por parte dos críticos do movimento também. Por isso eu bato palmas para o artigo do Aliado G publicado recentemente no Hip-Hop a Lápis, onde ele esclarece e explica mais uma vez a rica raiz do rap e indica nessa história um ponto que deve ser explorado pelas manifestações artísticas do hip-hop – a raiz africana. Eu acredito que o hip–hop no Brasil tem que se prender mais a essas influências e buscar a cara brasileira do movimento se afsatando um pouco da matriz norte-americana que já perdeu muitos dos seus ideais, pelo menos é o que espelha a nova geração de rappers que vemos se multiplicar a cada dia, como uma verdadeira fábrica de artistas. Eis um caminho a ser trilhado: a busca pela Mãe- África.

Mariana Bonora é jornalista formada na Unesp – Bauru.



Aliado G: Um pouco sobre: periferia, juventude e hip-hop


Milhões de CDs vendidos, grifes de sucesso, comportamento, poesia, artes plásticas, dança, filosofia e literatura. É possível influenciar em todos estes sentidos, sem dispor de um poderoso instrumento de difusão em massa, ou passar necessariamente pelo “crivo” da grande mídia?



O hip-hop consegue, daí surge à questão central deste texto, que tem ganhado cada vez mais a pauta no debate sobre juventude, seja na academia, nas administrações públicas ou mesmo no conjunto da sociedade. Como o hip-hop estabelece este intenso e íntimo relacionamento com a juventude, sobretudo urbana e periférica?

Hoje já são inúmeras as pesquisas acerca deste tema. Tem se tornado rotina, meu telefone toca, quando atendo alguém diz:
– Desculpe, um amigo me passou seu numero, eu sou estudante e estou trabalhando numa pesquisa sobre Hip-hop, você se importaria em responder algumas perguntas?

Eu particularmente não passo uma semana sem receber ao menos uma ligação nesse sentido. Procuro responder a todas. Se me permitem um breve comentário, é que eu considero a pesquisa algo fundamental para o desenvolvimento humano, inclusive penso que um dos grandes desafios do Brasil, é justamente transformar nossa internacionalmente reconhecida capacidade cientifica em tecnologia, a serviço de um ”Projeto Nacional de Desenvolvimento”.

Por vezes ouvi, ou mesmo pude ler, diferentes opiniões como resposta a nossa questão. Um ”intelectual” afro-brasileiro, certa vez disse: ”Hoje os índios usam camisetas do Chicago Bulls, e o hip-hop é o culpado”. Eu gostaria de ter a oportunidade de perguntar a ele, se do alto de sua sabedoria, poderia me responder, quem seria então o ”culpado” por ”nativos” de diferentes nacionalidades usarem a camiseta da seleção brasileira de futebol, seria o Samba? Reparem que eu prefiro o termo ”nativos” para não ser contraditório, afinal o termo ”índios”, esse sim, é herança maldita dos colonizadores, escravagistas, que vitimaram meus ancestrais, que por coincidência são os mesmos do referido ”intelectua””, postulante a condição de ”meritocrata das questões neocoloniais”.

Por favor, não queiram atribuir ao hip-hop o que é inerente ao conjunto da sociedade, o hip-hop é sim, um movimento internacional, porém não é responsável pela internacionalização dos tráficos de armas, drogas, seres humanos, violência, desigualdades sociais ou quaisquer outros males desses tempos de ”globalização”.

Mas, dentre esta diversidade de opiniões a que mais me intriga, é a afirmação de um renomado maestro (tão renomado que não necessita ser citado) que, ”o hip-hop se resume a uma forma colonização do negro norte-americano sobre os negros brasileiros” e que o ”rap”, não é música e qualquer ”retardado” pode fazer. Muito bem Senhor Maestro, seguindo sua linha de raciocínio, ouvir Beethoven, ler partituras, reger ou executar música clássica européia, seria então uma forma de perpetuar a colonização do branco europeu sobre os brancos brasileiros?

Não vamos aqui desprezar nossa rica capacidade ”antropofágica”, em devolver ao mundo as diferentes contribuições culturais que recebemos, em belíssimos contornos bem delineados em ”verde e amarelo”. O que é o nosso samba, se não o encontro da ”batucada africana” com a ”harmonia das cordas européias”, e o que é musica? Se não a organização de sons e ruídos segundo uma cultura? E ai está a minha dúvida Maestro, existe cultura melhor, ou seriam apenas diferentes? O senhor que é um homem culto e avançado, com certeza tem a resposta, eu como sou apenas um ”retardado” que graças a esta ”estupidez” chamada hip-hop, contrariei as estatísticas, completei 32 anos, vou continuar cantando meu rap (o que eu tenho certeza que o senhor não consegue fazer), e escrevendo de forma humilde minhas opiniões, que felizmente divergem das suas, viva a ”democracia”, a música clássica, o rap, o samba, o tango, o vira, e todas as manifestações culturais mundo afora, meu eterno respeito a todas.

Porém nossa questão central continua sem resposta, então vamos a minha tentativa. Quando a ”Mãe África” foi violentada e os africanos foram arrancados de seus braços para serem escravizados nas Américas, uma tentativa de matar a cultura desse povo foi posta em prática. Destruindo seus instrumentos musicais, imaginaram que estariam destruindo a cultura e sem cultura não há identidade quanto ”Nação”, com isso a dominação estaria facilitada, porém este esforço não passou de um ”Equivoco Histórico”. Nos Estados Unidos, ao ter contato com a guitarra, os negros mudaram sua afinação e com um dedal de aço para pressionar as cordas, criaram o que hoje é mundialmente conhecido como ”BLUES”, aqui no Brasil, ao ter contato com o arco e a flecha dos ”Nativos” criaram um novo instrumento musical, conhecido como ”BERIMBAU”, o fato é que o ”BERIMBAU” e a “Guitarra de BLUES” tem exatamente a mesma afinação, e isso não foi combinado pelo ”MSN”, com certeza.

Isso mostra que a cultura está no ”DNA” do povo e não no instrumento. Junto com os negros, também sobreviveram ao atlântico, ao porão do navio negreiro, as chibatadas, a tortura e a humilhação, o seu maravilhoso ”Canto Falado”, que começa a ser difundido em novas bases rítmicas, produzidas a partir destes novos instrumentos, como bateria, contrabaixo e guitarra, quando surge a técnica dos DJs em misturar o som de dois discos iguais, criando um novo som, o ”Canto Falado” se soma a isso e o batizam como ”rap”. No Brasil, o canto falado também se soma a diferentes sons, como o do pandeiro e ai surge o ”repente”, só pra citar um exemplo. Ainda hoje, temos no Brasil, mais de sessenta (60) diferentes tipos de canto falado.
Agora observemos, quem é essa juventude da periferia dos grandes centros urbanos?

Simples, os filhos da ”classe trabalhadora brasileira”, que migrou do campo, no processo de ”industrialização”. E quem formou essa classe? Alguns europeus (imigrantes em busca de uma nova vida, longe da ”Guerra Napoleônica” e que cumpriam um importante papel para a ”elite da época” que desejava o ”branqueamento do povo brasileiro”), somada a alguns ”nativos” (sobreviventes do massacre promovido pelos colonizadores), mas sobretudo formada essencialmente pelo ”povo negro”. Esse povo que se valia do seu ”canto falado” em momentos de plantar, colher, comemorar, ou mesmo ir às batalhas. Portanto, esta ai a questão central, o hip-hop é uma cultura de ”Matriz Africana” e está no ”DNA” dessa Juventude periférica, quando um ”rap” bate na caixa de som no barraco, e ecoa pela favela, é como se fossem os novos tambores ecoando pela diáspora, e os ”rimadores” que o maestro classificou como ”retardados” são os novos ”Griôs” (aqueles que na África, viajavam pelas aldeias passando os conhecimentos de geração em geração).

Essa juventude urbana e periférica, estigmatizada, marginalizada, sofrida, herdeira, não de terras e diamantes, mas apenas da história de luta de seus ancestrais, é com certeza a que mais sofre, é a que tem seus direitos históricos e mesmo os constitucionais, violados cotidianamente. É aquela que mais absorve o impacto da cobrança desta sociedade do ”ter para ser”, que vende hoje, o melhor tênis no pé, a melhor roupa no corpo, o celular mais moderno, o carro, a moto. Sufocando pelo rádio, jornal, revista, outdoor, TV, exigindo de todos que tenham, e exijam do outro que também tenha para ser aceito. Só deixa como alternativa de responder na mesma velocidade da cobrança, uma profissão que não requer formação, nem sequer experiência em carteira, ou documento algum, apenas sua alma. ”Me de sua alma, e eu te darei tudo o que a mídia mostrou, a sociedade cobrou e você não conseguiu, sou sua única alternativa, tome sua decisão, viva pouco como um ”REI”, ou muito como um ”ZÉ”.

Espero-te de braços abertos, eu sou o crime

Infelizmente essa é a realidade, que se parece muito com a ficção mostrada naquele famoso filme ”Matrix”, onde em um determinado momento é oferecido ao protagonista uma escolha entre duas pílulas: ”se você escolher a azul, continuará vivendo nesta realidade forjada da ”Matrix”, mas se a escolha for à vermelha, você vem para o mundo real, e ao ver os demais vivendo a alienação da ”Matrix” nunca mais deixará de lutar”. O hip-hop é um instrumento, eu e muitos outros tentamos fazer dele uma fábrica de pílulas vermelhas. Faça o mesmo a partir da sua realidade. Juntos, nós do hip-hop e todos aqueles que desejam uma sociedade onde a escola forme cidadãos e não os treine para aceitar essa “Matrix”, onde a diversidade não signifique desigualdade ou intolerância, e a liberdade de imprensa não signifique “libertinagem ou manipulação de imprensa”. Conquistaremos nosso tão sonhado ”Mundo Livre”.

Aliado G é rapper do grupo Face da Morte, presidente da Nação Hip-Hop Brasil
e membro do Conselho Nacional de Juventude.



DJ Saddam: O Hip-Hop faz mal à saúde?!



por Especial Hip-Hop*

Muita gente deve estar se perguntado: que mato que esse tal de DJ Saddam fumou pra vir com um título de texto desses? Aí eu respondo: fiz uso de algumas das piores drogas existentes no mundo: o preconceito, o elitismo e o reacionarismo, embutidos no texto do escritor Ruy Castro, amante da Bossa-Nova e autor do livro “Chega de saudade”, no JB online, ao querer polemizar com o projeto anunciado pela Secretária Municipal de Cultura do Rio, Jandira Feghali de erguer no bairro boêmio da Lapa, o Centro de Referência da Cultura Hip Hop, a “Casa do Hip Hop da Lapa”.



Segundo Rui Castro: “ Uma casa de hip hop na Lapa equivale a implantar um McDonalds na Albânia. Tenho fé em que a secretária Jandira, albanesa de coração, não levará adiante esse absurdo. Além disso, como médica, ala sabe que o hip hop faz mal à saúde.”

Percebemos na afirmação obtusa do escritor, que quis fazer gracinha para os seus pares conservadores, um profundo preconceito não só ideológico mas também social e musical, que ultrapassa os limites da sensatez e que, infelizmente é comungada não só por outros escritores e jornalistas, mas também por alguma parte da classe artística.

Isso ocorre como uma história cíclica que volta de décadas em décadas para imprimir todo o seu preconceito com a cultura que vem do andar de baixo, principalmente aquela que é oriunda dos negros. Foi assim com o samba, que era tratado em meados do século passado como “coisa de crioulo vagabundo”, foi assim com a capoeira e hoje em dia é com o hip hop (principalmente em São Paulo onde as raízes com a periferia são fortíssimas) e o funk, que no Rio é o ritmo das comunidades.

Muita gente fala, com relação ao Hip Hop, que se trata de “cultura gringa” que não deve ser apoiada pelo poder público, que deveria estimular a cultura nacional. Se partirmos deste pressuposto, veremos que várias facetas da nossa cultura como o próprio samba, o jongo e o maracatu, não tiveram suas origens no Brasil e sim na África e logo, partindo deste princípio, a Bossa Nova que é derivada do samba, também não poderia ser enquadrada como “cultura nacional”.
Ainda mantendo esta linha de pensamento, o Rock, o Jazz, o Blues e a própria música erudita também não poderiam receber apoio do governo pelas suas origens norte-americanas e européias.

A grande questão não é essa, mas sim o ponto central deste preconceito com aquilo que vem da favela, da maloca, dos bairros mais afastados e, principalmente, da raça negra. Por mais que este tipo de, segundo estes conservadores,“subcultura”, seja responsável por tirar milhares de jovens em todo o Brasil do caminho do crime e da droga, constituíndo um novo horizonte para estes jovens, vamos ter que aturar reações como a de um famoso cantor brasileiro, que em um acesso de raiva, talvez pelo atual ostracismo de sua carreira esbravejou: “Eu odeio funk, eu odeio hip hop, eu odeio esse negócio de bater tambor! (se referindo ao Afroreggae)”. Aí na mesma hora eu pensei na camiseta do Afroreggae que diz: “O Jovem que veste essa camisa não usa outra para esconder o rosto”. O seja: talvez o ilustre cantor preferisse que cada jovem daquele em vez de um tambor pendurado tivesse uma AK-47. É como diz trecho trecho da música do meu parceiro MV Bill: “Talvez quando o sangue bater em sua porta você entenda, que ser preto e pobre é foda”.

Mas, deixando esta cambada reacionária de lado, cuja a reação só vem comprovar o quanto o hip hop incomoda, vale registrar que tal enquete do JB online com 10 pessoas ligadas à cultura, só encontrou críticas à Casa do Hip Hop no escritor retro mencionado, com os demais entrevistados concordando com a iniciativa, que foi um pleito legítimo apresentado à Jandira pelo movimento hip hop carioca, especialmente os companheiros ligados à cena da Lapa, que sem sombra de dúvidas é a mais representativa da cidade, de onde saíram nomes como Marcelo D2, MC Marechal, Gustavo Black Alien, Inumanos, A Filial, B Negão e Quinto Andar, entre muitos outros.

Será levado adiante pela Secretaria Municipal de Cultura e contará com salas para oficinas, anfiteatro para a realização de pequenos shows, batalhas de Mcs, debates e exibição de filmes, estúdio de gravação e rádio comunitária. Esta casa será apenas a coroação das políticas públicas que pretendemos desenvolver para o setor, que estão sendo iniciadas com o oferecimento de oficinas nas lonas culturais da cidade do Rio, localizada em bairros afastados da Zona Norte e Oeste e que atendem as comunidades locais e, até então, não dispunham de atividades ligadas ao Hip Hop. Vamos construir uma nova realidade para a cena do Rio de Janeiro, apesar da oposição de alguns.

DJ Saddam – Produtor cultural e membro da Nação Hip Hop – RJ e do Opalão76 Hip Hop Crew




*Especial Hip-Hop, Espaço para convidados especiais do Hip-Hop a lápis.


Associação de prostitutas na PB rifa pacote sexual a R$ 5 para pagar dívidas


BRENO COSTA
DA AGÊNCIA FOLHA

Por R$ 5, um homem poderá selecionar, na noite do dia 31, uma entre dez prostitutas que fazem ponto nas ruas de João Pessoa (PB) para pernoitar em um motel -com tudo pago.
O pacote sexual -que, na média, sairia por R$ 600, incluindo o motel- foi a solução encontrada pela Apros-PB (Associação das Profissionais do Sexo da Paraíba) para se livrar de uma dívida de R$ 3.000 em aluguel, luz, telefone e água.
Ideia de uma das 120 associadas, desde a semana passada a Apros está rifando o programa completo por R$ 5. Até ontem, segundo a presidente da associação, Luza Maria, 36, mais de cem números haviam sido vendidos.
Apesar de a procura masculina ser maior, michês serão contatados para servir de “prêmio” às mulheres. A previsão de Luza é obter mil interessados na “noite de prazer” -ou R$ 5.000 nos cofres da entidade. Segundo ela, entre as dez voluntárias, há muita variedade, com mulheres de até 50 anos.
A Apros-PB, criada em 2001, tinha como renda a venda de preservativos. Segundo Luza, em julho o grupo ficou sem recursos do Ministério da Saúde, que financiava vale-transporte para as visitas. Sem dinheiro para as passagens, caiu a venda de preservativos.
Pela lei brasileira, prostituição não é crime. Tirar proveito da atividade ou induzir alguém a esse tipo de trabalho são crimes. No caso da rifa, as dez mulheres decidiram se voluntariar e ser escolhidas pelo vencedor.

ISLÃ


Militar da reserva analisa radicalismo

Manuel Cambeses Júnior – Rio de Janeiro

“Certamente, não é a mesma coisa falar de árabes e de islamitas. O islã é fundamentalmente árabe, porém, nem todos os árabes são seguidores da sharia, a lei baseada nos textos sagrados. Existem árabes católicos, como os libaneses, e também árabes ateus e socialistas, como os que impuseram a revolução no Egito. Da mesma maneira, encontramos islamitas na África e Ásia, que não são etnicamente árabes. Entre os grupos muçulmanos, há diferenças pronunciadas. Há os verdadeiramente fiéis, seguidores das práticas do Corão, o livro sagrado do islamismo; os que apregoam a espiritualidade e a paz; e o grupo mais radical, os extremistas, dementes que invocam o nome de Deus para perpetrar e justificar atos terroristas. Entre os mais radicais, os que tomaram para si a Jihad, ou ‘guerra santa’, são os que desataram uma carnificina mundial. Cabe destacar que a palavra Jihad, na verdade, se refere ao esforço de propagação do islã no mundo, pelo medo. As diversas interpretações desse pretenso dever de todo maometano são as armas, que fomentam a guerra contra os ‘infiéis’. Enquanto outras religiões fazem proselitismo por meio de convencimento pacífico, certos grupos islamitas, especificamente os extremistas, se dedicam à tarefa de empreendê-la contra todo ímpio que cruze em sua frente, tornando-o alvo passível de ser eliminado se não for convertido à sua fé. A recente agressão, desproporcional e grosseira, desse mundo fanático contra Bento XVI, portanto, não é de se estranhar. O papa, em discurso feito na universidade alemã de Rogensburg, nada disse que já não soubéssemos. Abordou, em seu pronunciamento, que nenhuma fé poderia ser verdadeira se invocasse a morte, o terror, a irracionalidade violenta e a guerra como princípios. Para isso, citou um diálogo entre o rei bizantino Manuel II e um erudito persa sobre cristianismo e islã, ocorrido durante o cerco a Constantinopla, entre 1394 e 1402, em que o imperador assevera: ‘Mostre-me, apenas, o que Maomé trouxe de novo, e então você vai achar coisas apenas más e inumanas, como sua ordem para espalhar, pela espada, a fé que ele pregava’. É bem verdade que a Igreja Católica carrega o estigma de haver propiciado as Cruzadas, atos de guerra e de conquista que causaram muito dano ao Oriente Médio. Porém, a Igreja, na atualidade, é muito diferente da de 700 anos atrás. Hoje, entendemos a fé de forma muito distinta da que entendiam os homens de oito séculos passados. Ou seja, houve uma grande evolução nesse sentido. Ao contrário, na contramão da história, os radicais muçulmanos simplesmente não evoluíram. Na concepção deles, o mundo é uma grande pedra estática. Exemplos desta afirmativa é a forma com que estes extremistas tratam as mulheres. Simplesmente elas não são vistas como pessoas e, sim, como propriedades. Para eles, a modernidade é vista como algo demoníaco, e o papa, evidentemente, passa a ser um dos objetivos maiores dessa fúria tresloucada. A humanidade tem testemunhado, amiúde, as ofensas, a neurótica maneira de ver o mundo, o desprezo aos que não pensam como eles, o afã de sangue e ódio descarregado contra pessoas inocentes. Algo que nos preocupa, sobremaneira, é observarmos que seitas extremistas começam a se infiltrar, sorrateiramente, e de modo insidioso, no mundo ocidental. E o que isso pressagia? Lamentavelmente, a cultura da morte, até que o mundo ocidental tome consciência da gravidade do problema e, inexoravelmente, atinja o limite extremo da suportabilidade humana. Nós, ocidentais, devemos começar a nos defender, com veemência, contra essas doutrinas solertes e espúrias, eivadas de ódio incontido, antes que seja tarde demais.”

95% dos downloads de música são ilegais, diz indústria

Lil Wayne, campeão de downloads em 2008 com o single 'Lollipop'
Lil Wayne foi o campeão de downloads em 2008 com ‘Lollipop’

Um relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI, na sigla em inglês) afirma que 95% da música baixada pela internet é ilegal, sem pagamento para artistas ou gravadoras.

De acordo com o relatório anual da IFPI, que representa 1,4 mil companhias em 70 países, estima-se que mais de 40 bilhões de arquivos de música foram compartilhados de forma ilegal em 2008.

Matt Phillips, representante da indústria fonográfica britânica, admite que as gravadoras têm um grande problema com a pirataria.

“Se houver mais investimentos em música no futuro e se a inovação no desenvolvimento de novos serviços legalizados continuar, então (a pirataria) é algo que temos que tratar”, afirmou.

Identificação

Segundo o repórter da BBC Rob Norris, Nova Zelândia, França e Grã-Bretanha estão estabelecendo novos programas para tentar identificar as pessoas que baixam mais música ilegalmente.

As gravadoras estão usando programas de computador para procurar nas redes de compartilhamento de música os usuários que baixam mais arquivos ilegalmente e, então, denunciá-los para provedores de internet.

Os usuários que desrespeitam a lei recebem e-mails com o alerta de que foram descobertos e que poderão ter a conexão de internet interrompida.

As gravadoras informam que, geralmente, estas medidas são o bastante para desencorajar a pirataria, mas admitem que provavelmente nunca conseguirão acabar com o problema.

Mesmo assim, o presidente e diretor-executivo da IFPI, John Kennedy, afirma que é preciso enfrentar a pirataria.

“Governos estão começando a aceitar que, no debate a respeito de ‘conteúdo livre’ e o envolvimento de provedores de internet na proteção dos direitos de propriedade intelectual, não agir não é a opção se quisermos um futuro para o conteúdo digital comercial”, afirmou.

Aumento nas vendas

Apesar dos números altos de pirataria, o relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica afirma que houve também um aumento de 25% nos downloads legais, que agora correspondem a um quinto de todas as vendas de música.

Segundo a IFPI, foram baixados legalmente 1,4 bilhão de singles em 2008. O single que ficou em primeiro lugar em vendas pela internet foi Lollipop, de Lil Wayne, com 9,1 milhões de cópias baixadas.

A federação revelou em seu relatório que os negócios em música digital vêm registrando um crescimento constante nos últimos seis anos e agora o seu valor estimado é de US$ 3,7 bilhões.

Mas, a renda mundial do mercado musical diminuiu em 7% em 2008, devido à queda nas vendas de CDs.

Violência policial é crônica no país, diz ONG internacional


DA SUCURSAL DO RIO

A ONG Human Rights Watch classificou a violência policial como um “problema crônico” do Brasil em seu relatório anual sobre a violação dos direitos humanos no mundo.
“As áreas metropolitanas brasileiras são assoladas pela violência cometida por gangues criminosas e policiais abusivos”, diz o texto, que sustenta a tese com números do Rio de Janeiro e de Pernambuco.
“No Estado do Rio de Janeiro, (…) a polícia foi responsável por aproximadamente um em cada cinco homicídios intencionais nos primeiros seis meses de 2008, segundo estatísticas oficiais”, diz o documento, segundo o qual as mortes são registradas como “resistência”.
Já em Pernambuco, de acordo com a entidade, promotores estimam que 70% dos homicídios são cometidos por esquadrões da morte com a suposta participação de policiais.
A Secretaria de Segurança Pública do Rio afirmou que “auto de resistência nunca foi e não é carta branca para matar e os números apontam para uma queda desse delito. A política da Secretaria de Segurança é a de não esconder os problemas e o enfrentamento a criminosos continuará”.
A Secretaria de Defesa Social de Pernambuco não se manifestou.

ORISHAS- COSITA BUENA

Ritmo, poesia e consciência

Os cubanos do Orishas, o mais bem-sucedido grupo de hip hop da América Latina, se apresenta dia 31 em BH, no lançamento do disco Cosita buena
Janaina Cunha Melo
Mario Anzuoni/Reuter
Radicados na Europa, os rappers do Orishas não escondem as raízes cubanas, mas cobram mais liberdade em seu país

Ruzzo Medina, Roldán Gonzáles e Yotuel Romero encontram a fórmula para o rap purificar as referências norte-americanas que predominam no gênero. Para os três artistas cubanos, radicados na Europa, a solução é simples, e está na busca cada vez mais honesta das raízes do país onde se criaram. Afinal, nasce em Cuba uma das músicas populares mais intensas, ricas e insinuantes, que provoca o mundo, em qualquer estilo. Para o Orishas, que se apresenta em Belo Horizonte no fim do mês, na turnê internacional de lançamento do novo CD, Cosita buena, a fusão de beats eletrônicos com a força da tradição africana e suas variações, que deram origem ao son e à salsa, é a essência do trabalho que deixou de ser proposta para se consolidar como a marca do mais bem-sucedido grupo de hip hop da América Latina.

Com 12 faixas – Cosita buena, Maní, Bruja, Camina, Guajira, Borrón, Mírame, Que quede claro, Machete, Isi, Público y Melodías – e o bônus track Hip hop conga, Cosita buena é considerado o disco mais autoral do grupo. Depois da experiência adquirida com os quatro trabalhos anteriores, desta vez eles cuidaram pessoalmente de todas as etapas do projeto, incluindo produção e composição. E se permitiram influência do ambiente musical europeu, em que estão imersos desde 1997. “Partimos juntos, do zero, até que tudo ficasse pronto. Continuamos com todas as fusões, porque esse é o fundamental no Orishas, mas é natural que o que vivemos na Europa nos pegue um pouco também”, adianta o rapper Yotuel.

Nas músicas inéditas estão os sinais de que o trio é eclético. Eles escutam do rock ao guaguancó, passando pela indie music e a música eletrônica. “Não há nada específico, que nos interesse mais. Gostamos de tudo. O que nos faz diferentes é a consciência de que a música popular cubana está entre as melhores do mundo, e não vamos renunciar a esse privilégio, a esse legado”, diz.

Rebelde numa cultura disciplinada, Yotuel conta que se formou nas ruas. Não ingressou em escola de música e optou cedo pelo hip hop. Ele foi um dos fundadores do coletivo Amenaza, em Havana. O grupo, anterior ao Orishas, encontrou dificuldades para expressar suas opiniões a respeito do que ele chama de “racismo da polícia contra a juventude” no cotidiano em Cuba. Ele conta que as músicas foram censuradas pelas rádios oficiais e que seria impensável a gravação de um disco do Amenaza nos estúdios da Egren – a gravadora mais bem estruturada do país, também mantida pelo governo. “Foi muito difícil fazer esse trabalho lá. Éramos uma espécie de Public Enemy”, lembra Yotuel, citando artista emblemático do rap norte-americano.

Desde que me levanto, o que como, leio e vejo faz parte da minha vida e se reflete na minha poesia. Mais que poesia, o rap é a minha vida


Yotuel, rapper

Ainda assim, venceram o festival Hip Hop Havana, em 1995, e receberam como prêmio viagem a Paris, para intercâmbio. Essa foi a oportunidade que mudou a história dos rappers, inicialmente convidados para integrar o projeto Afro Cuba Orishas Underground de Havana. Nos primeiros anos na Europa, Yotuel lembra que também não foram poucas as dificuldades. Morou no metrô, passou fome e muitas vezes roubou alimentos em supermercados. “O Orishas mudou minha vida, para melhor, mas passamos por um processo duro até chegarmos ao estágio em que estamos hoje”. Por isso, ele diz, sua poesia não se alimenta de sonhos, ou ideologia, mas da realidade, com tudo que ela oferece. “Desde que me levanto, o que como, leio e vejo faz parte da minha vida e se reflete na minha poesia. Mais que poesia, o rap é a minha vida.”

ESCOLA DAS RUAS Dos três integrantes do Orishas, Roldán é o único que passou por formação musical tradicional, em classes de violão. Os outros dois, brinca Yotuel, são da escola Beny Moré, lembrando um dos maiores e mais destacados talentos da música cubana, que também aprendeu na prática a emocionar o público com suas melodias. Nas ruas, diz o rapper, ele aprendeu a realizar sonhos, a não aceitar limites impostos e a ter seu próprio estilo. “Entendido em tudo e licenciado em nada. É assim que me vejo.” A última vez que o Orishas se apresentou em Cuba foi há oito anos. Embora queira retornar ao país, ele não o fará enquanto não houver condições para show de grande porte do grupo. “Queremos fazer o show que as pessoas merecem.”

Há três anos sem se apresentar no Brasil, o músico conta que é grande a expectativa do retorno. Brasileiros e cubanos, ele diz, são irmanados pela matriz africana. Djavan, Caetano Veloso, Chico Buarque, entre muitos outros, influenciaram a nova trova cubana, principalmente pela afinidade cultural, na avaliação de Yotuel. “Sabemos o quanto é difícil músicos de outros países terem sucesso no Brasil, pela qualidade da música, que não deixa espaço para concorrência, mas somos recebidos como filhos do país, e isso nos orgulha”. Depois dos 60 shows realizados na Europa e da passagem pela América do Sul, o Orishas segue com Cosita buena para os Estado Unidos.


DISCOGRAFIA

A lo cubano (1999)

Emigrante (2002)

El kilo (2005)

Antidiótico (2007)

Cosita buena (2008)

GRAMMY
Antidiótico, quarto CD do Orishas, recebeu três Grammy, nas categorias melhor álbum de música urbana, melhor canção urbana e melhor vídeo, além do Grammy Latino de melhor música urbana.

ORISHAS – COSITA BUENA

Chevrolet Hall, Av. Nossa Senhora do Carmo, 230, Savassi, (31) 2191-5700. Dia 31, às 21h. Abertura de Paco Pigalle. Pista/arquibancada: 1º lote: R$ 80 (inteira); R$ 40 (meia-entrada); 2º lote: R$ 90 (inteira), R$ 45 (meia-entrada); 3º lote: R$ 100 (inteira), R$ 50 (meia-entrada).

Relatos de violência contra a mulher crescem mais de 22%

A Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SEPM) registrou aumento de 22,3% nos relatos de violência recebidos pela Central de Atendimento à Mulher em 2008 em relação ao ano anterior. Foram 24.523 chamados em 2008 e 20.050 em 2007. O balanço foi divulgado nesta segunda-feira (12).

A central de atendimento registrou quase 270 mil atendimentos (que engloba informações, relatos de violência, reclamação, entre outros) entre janeiro e dezembro de 2008 – um aumento de 32% em relação a 2007. Destes, mais de 117 mil eram solicitações de informação sobre a Lei Maria da Penha, aplicada em casos de violência à mulher. O número representa um crescimento de 245% em relação ao ano anterior.

Segundo a SEPM, diversos fatores contribuíram para o crescimento, entre eles a maior divulgação da lei e a capacitação das atendentes da central de atendimento.

Entre os relatos de violência, 52,5% foram registrados como lesão corporal leve, 26,5% como ameaça e 5,9% como difamação. Estupro corresponde a 1,2% e violência patrimonial a 1,9%. Quase todas as agressões foram identificadas como violência doméstica (94,1%).

Em mais da metade dos casos, o autor da agressão era o cônjuge da denunciante (63,2%). Os amigos representam 3,5% dos autores, e o pai, 0,8%. Em 64,9% das ligações, o serviço constatou que as agressões eram feitas diariamente.

Perfil O balanço também mostra o perfil da mulher que ligou para o 180: negra (39,2%), tem entre 20 e 40 anos (53,2%), é casada (24,8%) e cursou parte ou todo o ensino fundamental (33,3%).

O campeão de ligações foi o Distrito Federal, com 351,9 atendimentos para cada 50 mil mulheres. Em segundo lugar está São Paulo (220,8) e, em terceiro, aparece o Estado de Goiás (162,8).

O serviço da SEPM (ligue 180) funciona 24 horas, todos os dias da semana, inclusive finais de semana e feriados. A central de atendimento foi implantada em novembro de 2005.

Fonte: Uol

Sobre mercado matrimonial, diáspora negra e Michelle Obama

Diony Maria Oliveira Soares*

Ao realizar pesquisa(1) sobre o impacto do discurso estético midiático em jovens mulheres negras, estudantes do ensino médio em escola pública, escutei reclamações em relação ao mercado afetivo no Brasil. Segundo as estudantes entrevistadas, enquanto muitos jovens homens brancos não gostam de mulheres negras, muitos jovens homens negros “adoram uma loira”. Constatação que, obtida em 2007, ratifica queixa recitada por mulheres negras brasileiras já há bastante tempo.

A questão passou a ser reconhecida no meio acadêmico por intermédio do trabalho da demógrafa Elza Berquó(2) que, em 1987, analisou o mercado matrimonial, em investigação sobre a nupcialidade da população negra no Brasil. Neste estudo, Berquó apresentou a Pirâmide da Solidão, na qual demonstrou com números a solidão das mulheres negras.

Em 1995, o jornal Folha de S. Paulo realizou a pesquisa Racismo Cordial(3) que se transformou em um marco da mídia impressa na abordagem das relações étnico-raciais no Brasil. Para destacar algumas pessoas negras bem sucedidas, a divulgação do estudo apresentou apenas fotos e histórias de vida de homens negros, quase todos casados, na época, com mulheres brancas.

A desvantagem de mulheres negras no mercado matrimonial também foi abordada algumas vezes pela revista Raça Brasil, incluindo matéria publicada já no primeiro número da revista, em setembro de 1996, intitulada Casais Mistos – da cor do pecado, assinada por Ângela Oliveira. A matéria, que tratava de relacionamentos inter-raciais a partir de depoimentos de integrantes destes casais, afirmava em um dos subtítulos que Homens têm mais preconceitos, sintetizando que “nem sempre a alquimia dá certo. Principalmente na raça brasileira. Ora é o homem branco que mostra seu preconceito em relação às mulheres negras. Ora são os próprios homens negros que preferem as brancas”.

Dois anos depois, em outubro de 1998, o tema foi retomado pela Raça Brasil em matéria assinada por Tânia Regina Pinto, e intitulada Por que eles preferem as loiras?, na qual a reflexão de D. P., um administrador de empresas negro e bem-sucedido, dispensa comentários: “Se eu encontrasse uma negra na faculdade, será que eu me casaria com ela? Não. Minha esposa não tem curso superior, é baixa, gorda e tem barriga. Mas é branca.”

Nesta mesma época, Lilia Schwarcz(4) detectava que a mestiçagem resultava mais de casamentos entre mulheres brancas e homens pretos do que o contrário. Ou seja, o embranquecimento viabilizava-se mais acentuadamente a partir das escolhas dos homens negros.

Finda a primeira metade da primeira década do século XXI, a pesquisadora Maria Luiza Heilborn(5) divulgou, em 2006, investigação sobre mitos e comportamentos sexuais. O estudo resultou de dadosprovenientes de um inquérito domiciliar realizado emtrês cidades de distintas regiões do país, com jovens de ambos os sexos, de 18 a 24 anos. Na análise desta pesquisadora, “a preferência de homens negros por mulheres brancas, em casamentos inter-raciais, é reveladora de uma forma de ascensão social e de uma hierarquia, tanto de beleza como racial”.

Já em 2007, a cientista social Raquel Souzas e a socióloga Augusta Thereza de Alvarenga, em investigação(6) sobre as diferenças de gênero e de raça nas questões reprodutivas de mulheres negras e brancas, tendo em vista à concepção de liberdade, observaram que “no Brasil, mulheres negras são preteridas do mercado matrimonial, como aponta Berquó e supervalorizadas, como exóticas, para o tráfico sexual, como denunciam pensadoras do movimento negro”. Na opinião destas pesquisadoras, “a estereotipia a que as mulheres negras estão submetidas impede-as de usufruírem da liberdade, inclusive a sexual, e de exercitarem sua autonomia e dignidade, ferindo, portanto, os direitos sexuais das mulheres negras”.

A meu ver, o cruzamento entre estes e outros estudos sobre a desvantagem de mulheres negras no mercado matrimonial e os depoimentos concedidos em 2007 por adolescentes negras apontam que a condição étnico-racial pode dificultar a performance destas jovens nos jogos que levam aos arranjos afetivos. O que pode significar uma desvantagem em um jogo de cartas marcadas, no qual não adianta muito lançar mão de práticas que supostamente mantêm a auto-afirmação feminina por intermédio dos atrativos do corpo, tendo em vista acionar nos parceiros em potencial o arquétipo da musa. Ou seja, uma condição determinista que aponta que as relações étnico-raciais condicionam fortemente as escolhas afetivas, o que pode resultar para mulheres negras em poucas chances de negociação no que tange a essas escolhas.

Diante disso, tendo em vista a perspectiva de análise de componentes que contribuem para delinear características das relações de gênero na diáspora negra, Michelle Obama ingressa oficialmente na política mundial como um poderosíssimo emblema: uma mulher negra, 44 anos, crescida em um bairro pobre no Sul da cidade de Chicago; formada em Sociologia pela universidade de Princeton e em Direito por Harvard; casada com um homem negro bem-sucedido; mãe de duas meninas negras.

Durante a corrida eleitoral, a condição da esposa de Barack Obama chegou a suscitar questionamentos que escancaravam a perversidade do cruzamento do racismo com o sexismo: “há quem diga que será mais difícil para os americanos aceitar uma primeira-dama negra do que um presidente negro” alertava, por exemplo, matéria publicada por um dos maiores jornais do Brasil. Paralelamente a isso, reportagem de uma das principais revistas semanais do país informava que, antes da campanha, Michelle “fazia 200.000 dólares por ano como administradora de um centro médico” e previa que ela seria “uma primeira-dama inesquecível”.

Pois bem, no histórico discurso da vitória, Barack Obama conquistou para sempre o meu coração e, penso eu, os corações femininos da diáspora africana ao declarar ao mundo o seu amor pela esposa.

Sendo assim, às vésperas da posse, não é demais repetir: seja bem-vinda, Michelle Obama. Sim, nós podemos sonhar com príncipes encantados. Sim, nós podemos desejar o amor. Sim, nós podemos ser muitíssimo amadas.

* Mestra em Educação, especialista em Antropologia Social e jornalista.

Cota Para Meia-entrada Tira Direitos



A presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Lúcia Stumpf, vai aproveitar a audiência com o presidente Lula, nesta quarta-feira (14), em Brasília, para criticar o projeto de lei, aprovado no Senado, que limita a concessão de meia-entrada para estudantes em eventos culturais e esportivos.



A proposta é que no máximo 40% dos ingressos de um espetáculo sejam vendidos por metade do preço. “Vamos tentar convencer Lula de que as cotas (de meia-entrada) só retiram direitos”, diz Lúcia. “É preciso que o Executivo construa uma opinião sobre o assunto.”

Apesar de ser contra a criação desta cota, a UNE concorda em limitar a meia-entrada apenas a alunos do ensino formal, como prevê o projeto de lei. Assim, quem faz curso pré-vestibular ou de idioma, por exemplo, ficaria sem o benefício. “Eles aproveitaram um vácuo na legislação para ter desconto, mas nunca tiveram esse direito assegurado”, explica Lúcia.


O projeto, de autoria do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), foi aprovado em dezembro passado na Comissão de Educação do Senado e agora passa por avaliação na Câmara dos Deputados. De lá, se não houver modificação, o texto segue para sanção ou veto do presidente Lula.


Ajuda aos carentes


A UNE também vai falar com o Presidente da República sobre a criação de um plano nacional de assistência a alunos de baixa renda que estudem em universidades particulares. “Queremos que o governo garanta, além do acesso, a permanência dos jovens na universidade privada”, afirmou Lúcia Stumpf.


A intenção é somar o auxílio a iniciativas como o Programa Universidade para Todos (ProUni), que concede bolsas de estudos a alunos carentes. “Não basta pagar a mensalidade, pois muitas vezes o estudante não tem condições de cobrir gastos com transporte e alimentação”, argumenta Lúcia.


Os recursos para o projeto estariam desvinculados da verba já reservada à assistência a alunos das universidades públicas. “Não podemos tirar do ensino público o pouco que recebe”, diz a presidente da UNE. Ela espera que até março do próximo ano os alunos de faculdades privadas já sejam atendidos por essa nova política assistencial.


De Brasília
Com agências

Professor recebe indenização por xingamento

LARISSA GUIMARÃES
DE BRASÍLIA

Uma estudante universitária de Brasília terá de pagar indenização a seu ex-professor por tê-lo xingado e ameaçado fisicamente após ter sido flagrada colando em uma prova.
A 1ª Turma Recursal do Tribunal de Justiça do DF condenou, por unanimidade, a aluna do curso de direito Sandra de Sousa a pagar R$ 5.000 por danos morais ao professor Alexssander de Oliveira, 25. A aluna não pode recorrer.
Na decisão de primeira instância, a universitária havia sido condenada a pagar R$ 3.000, mas tanto ela quanto o professor recorreram. A 1ª Turma Recursal do TJ-DF aumentou o valor da indenização.
O professor Alexssander de Oliveira disse que entrou com a ação, em 2007, por ter ficado “estarrecido” com a atitude da aluna.
A estudante não quis comentar o caso.

Direito sucessório na união estável

Daniella Pierotti Lacerda, advogada da Miguel Neto Advogados Associados
Desde o início dos tempos, as uniões informais sempre existiram como uma opção de constituição da família. Ocorre, porém, que durante muito tempo os relacionamentos entre homens e mulheres que não tinham a rubrica do casamento não eram bem-vistos pela sociedade, pois eram tidos como contrários aos ensinamentos da Igreja. Somente com a Constituição de 1988, a união estável passou a ser reconhecida como entidade familiar, sendo digna de direitos e obrigações. Ocorre, porém, que, mesmo com o reconhecimento da união estável pela Carta Maior, as questões patrimoniais e sucessórias ainda eram herméticas, pois, apesar de terem sido apreciadas pela Constituição, essa não dispôs como solucionar os casos de ruptura dos relacionamentos estáveis, fossem eles por vida ou por morte.

Importante salientar que, quando foi redigido o Código Civil de 1916, não havia previsão do direito à sucessão hereditária entre companheiros, sendo certo que, em caso de falecimento, somente os descendentes, ascendentes, o cônjuge sobrevivente e até os colaterais poderiam fazer jus ao direito de sucessão. Assim, a única maneira de o companheiro adquirir bens do outro depois do falecimento seria por meio de testamento em seu favor. Portanto, se o convivente que faleceu não tivesse essa preocupação em vida, nada receberia. Somente com o advento das leis 8.871/94 e 9.278/96, os companheiros adquiriram o direito à sucessão hereditária em caso de morte de um dos conviventes.

A Lei 8.871/94 trouxe como requisito para o direito à sucessão por conviventes que a união fosse superior a cinco anos ou com filhos. Já a Lei 9.278/96 reconheceu que tem direito à sucessão o convivente que tenha se unido a outro de forma duradoura, pública e contínua, com o objetivo de constituir família. Com o advento do novo Código Civil brasileiro, ocorreram algumas mudanças, as quais limitaram os direitos sucessórios dos conviventes atribuídos por essas legislações. Isso porque referido diploma legal dispõe que o companheiro, ao contrário do cônjuge supérstite, não figura como herdeiro necessário, o que acarreta a possibilidade de o autor da herança dispor em testamento da integralidade de seu patrimônio (Código Civil, artigos 1.845, 1.846, e 1.857), ressalvado, conforme o caso, ao companheiro sobrevivente o direito de meação quanto aos bens adquiridos onerosamente na constância da união estável, excluindo-se os bens particulares.

Diante disso, temos que a patente diferenciação entre cônjuge e companheiro, conforme consta do Código Civil de 2002, implica verdadeiro retrocesso social frente à evolução doutrinária e jurisprudencial do instituto da união estável havida até então. Essa diferenciação ganhou relevância a ponto de haver projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional (PL 508/07 de autoria do deputado Sérgio Barradas Carneiro), propondo a modificação/revogação de artigos do Código Civil de 2002, visando garantir a igualdade de direitos sucessórios entre cônjuges e companheiros de união estável.

Espera-se que, com aprovação desse projeto de lei, de vez por todas, venha a abolir qualquer regra que corra em sentido contrário a equalização do cônjuge e do companheiro, conforme comando constitucional, que prescreve a ampliação do conceito de família, protegendo de forma igualitária todos os seus membros, sejam eles os próprios partícipes do casamento ou da união estável, como também os seus descendentes. Essa equalização produzirá a harmonização do Código Civil com os avanços doutrinários e as conquistas jurisprudenciais correspondentes, avalizando quase um século de vigoroso acesso à Justiça e de garantia da paz familiar.

Gaza é aqui

Só no Rio de Janeiro, a polícia matou mais de 1,3 mil pessoas em 2007
Robson Sávio Reis Souza, Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (UFMG) e Núcleo de Direitos Humanos (PUC Minas)
O mundo assiste, passiva e comovidamente, ao massacre israelense na Faixa de Gaza. Independentemente das motivações político-eleitoreiras do conflito, o massacre de crianças, visivelmente indefesas, mostra o despreparo e a ineficiência bélica para resolver qualquer tipo de conflito. Por falar em eficiência bélica, uma das indústrias mais exitosas das últimas décadas – e que não foi nem sequer afetada pela tão propalada crise econômica mundial – é a das armas. Nunca se fabricaram tantos equipamentos letais, desde armas individuais e caseiras, até grandes equipamentos de artilharia terrestre, aérea e naval.

No Brasil, país que não está em guerra (sob o ponto de vista semântico), essa indústria cresce assustadoramente. E no seu calcanhar aumenta, não menos perigosamente, a indústria da segurança privada. Estima-se que cerca de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) é empenhado em segurança. E, quanto mais ineficiente é a segurança pública, mais sofisticada e cara (e, para muitos, indispensável) é a segurança privada. Os horrores das guerras em outros países parecem ofuscar a carnificina humana que dizima milhões de vidas no Brasil, a cada ano. Parece algo proposital como a barbaridade alheia, noticiada em doses cavalares pela mídia, serve para anestesiar o pouco que resta da nossa sensibilidade em relação às mortes em nosso país.

Em um dos rankings mais indesejáveis, o Brasil está muito, mas muito à frente da Itália, por exemplo, e é um dos líderes mundiais. Enquanto a taxa de homicídios por 100 mil habitantes no país chega a 25,2, na Itália o índice é ínfimo, de 1,1 por grupo de 100 mil pessoas. No Brasil, com os dados do último ano disponível (2005), foram registradas 47.578 mortes; na Itália (2003) apenas 648 (73 vezes menos). Ou seja, o Brasil ocupa o sexto posto entre 83 países analisados. Quando se trata apenas de homicídios entre jovens, o Brasil avança no ranking e ocupa a quinta posição, com uma taxa de 51,6 por 100 mil habitantes. Por outro lado, o número de mortes nas estradas durante o feriado de fim de ano cresceu 13,3% em relação ao mesmo período de 2007 – 435 pessoas morreram no país somente nas rodovias federais. No mesmo período, o conflito no Oriente Médio tinha matado 500 palestinos. Se somarmos os homicídios e os acidentes de trânsito, no período entre o fim de 2008 e a primeira semana de 2009, teremos algo semelhante a três vezes o número demortos em relação a Gaza.

No estado do Rio de Janeiro, a polícia matou mais de 1,3 mil pessoas em 2007, número que representa 18% de todos os assassinatos ocorridos no estado. Todos estas mortes são descritas pelos dados da segurança pública como “resistência seguida de morte”. Em Pernambuco, cerca de 70% dos homicídios registrados foram praticados por grupos de extermínio, muitos dos quais com a participação de policiais. Os números de homicídios e mortes no trânsito, somados ao aumento constante dos suicídios, são responsáveis, anualmente, pela dizimação de cerca de 100 mil vidas de brasileiros.

O silogismo da impunidade

Carlos Alberto Di Franco, Professor de ética, doutor em comunicação pela Universidade de Navarra (Espanha)
O roubo de donativos destinados às vítimas das enchentes em Santa Catarina provocou indignação e também uma discussão sobre os reflexos da impunidade no país. O professor de ética e filosofia da Univesidade Estadual de Campinas (Unicamp) Roberto Romano disse que o comportamento de juízes, políticos e empresários que advogam em causa própria incentiva ações como as dos soldados e voluntários que roubaram alimentos e roupas doados a quem perdeu tudo o que tinha nas enchentes. “A gente fica horrorizado. Quando se vê um político dividindo sacos de dinheiro, de forma tranquila, começa-se a achar natural um voluntário separar daquele conjunto o que é melhor para ele. É necessário dar um basta a isso. Quando vamos romper esse ciclo? Quando se banaliza a corrupção se banaliza a culpa. O risco é de que se torne um comportamento epidêmico.” O historiador Marco Antônio Villa pergunta: “Para onde vamos”. Por sua vez, a presidente da Pastoral da Criança, Zilda Arns, diz ter ficado envergonhada com o que aconteceu em Santa Catarina. Para ela, quem rouba donativo não tem firmeza de caráter.

Uma das causas dos crimes e dos desvios de comportamento que castigam a sociedade brasileira é, sem dúvida, a certeza da impunidade. O criminoso sabe que a probabilidade de um longo período de reclusão só existe na letra morta da lei. O Brasil, como bem sabemos, não padece de anemia legal. O nosso drama é a falta de eficácia na aplicação da lei. A Itália, nação também latina e emocional, soube combater suas máfias com notável sucesso. E não falemos nos países anglo-saxões. Lá fora também existe corrupção, só que as autoridades colocam os ladrões na cadeia.

O que a sociedade assiste, em todos os níveis, a começar pelos patamares mais altos, é ao jogo do faz-de-conta e ao triunfo da mais obscena impunidade. O teatro das CPIs, a reeleição de inúmeros corruptos, a novela inacabada dos escândalos que se sucedem e tantas outras bofetadas na cidadania compõem o ambiente perfeito para a institucionalização do crime. A fibra moral da sociedade vai se desfazendo numa velocidade assustadora. Mas há, estou convencido, causas ideológicas mais profundas para o eclipse da ética e para a explosão das ações criminosas. O relativismo ético e a ausência de limites estão na raiz da patologia social.

De fato, quantas correntes ideológicas, quantos modismos intelectuais vivemos nas últimas décadas? A busca da verdade é frequentemente etiquetada como fundamentalismo, ao passo que o relativismo, isto é, o deixar-se levar ao sabor da última novidade, aparece como a única atitude à altura dos tempos que correm. Vai-se constituindo a intolerância do relativismo que não reconhece nada como definitivo e que usa como critério apenas o próprio eu. Mas, como lembra Bento XVI do alto de sua inequívoca autoridade intelectual, “a renúncia à verdade não soluciona nada, mas ao contrário: conduz à ditadura da arbitrariedade”. O relativismo está, de fato, na origem do enfraquecimento da democracia e nas agressões cada vez mais brutais aos direitos humanos.

Há no cerne da crise uma profunda raiz ideológica. Na verdade, as bases racionais da modernidade foram minadas pelo relativismo. Rompeu-se, dramaticamente, o nexo de união entre vontade e razão. Dessa forma, as pessoas passaram, no seu comportamento prático, a confundir gosto com vontade, sem conseguir captar as profundas diferenças existentes entre ambos. Por isso, cada vez mais o gosto, o capricho, o prazer (incluindo as suas manifestações mórbidas e doentias) passaram a impor sua força cega. Um dos traços comportamentais que marcam a decomposição ética da sociedade é, efetivamente, o desaparecimento da noção da existência de relação entre causa e efeito. A responsabilidade, consequência direta e lógica dos atos humanos, simplesmente desapareceu. O fim justifica os meios. Sempre. Trata-se da consequência lógica do raciocínio construído de costas para a verdade e para a ética. O político não tem limites na busca do poder. O burocrata avança no dinheiro público. E o voluntário saqueia os mantimentos e furta os donativos destinados a minorar o drama de nossos compatriotas. É terrível, mas é assim. Sem uma profunda renovação moral da sociedade é arar no mar.

China anuncia ajuda a jovens que atuarem em regiões pobres


Estudantes chineses (arquivo)
Cerca de 1,5 milhão de jovens recém-formados não estão empregados

Jovens recém-saídos da universidade que aceitarem trabalhar em províncias menos desenvolvidas do centro e oeste da China terão os custos da universidade totalmente reembolsados pelo governo, anunciou o jornal estatal China Daily.

Segundo o governo, a medida visa promover migração de talento para as áreas mais pobres do país, que se localizam longe dos centros urbanos da costa leste.

Universitários que entrarem para o Exército receberão o mesmo tipo de auxílio.

Os incentivos ainda incluem a redução de impostos para os recém-formados que queiram montar o próprio negócio.

O anúncio das medidas ocorre em meio a incertezas no mercado de trabalho do país.

Milhares de universitários estão desempregados e, segundo reportagem do jornal Guangzhou Daily, somente na província de Guangdong recentemente mais de 2 mil recém-formados se candidataram a vagas de babá e doméstica por falta de escolha.

Desemprego

“Essa é a primeira vez que o governo oferece reembolso de taxas educacionais, e isso mostra a determinação de estabilizar o mercado de trabalho”, disse ao China Daily Chen Guangjin, pesquisador da Academia Chinesa de Ciências Sociais (CASS, na sigla em inglês).

Um relatório da CASS divulgado há algumas semanas afirmou que o nível de desemprego entre recém-formados no final de 2008 já estava na casa dos 12%, muito acima dá media nacional, de 4%.

Isso significa que mais de um milhão e meio de jovens que concluíram um curso universitário não estão empregados.

O estudo também estimou que 6,1 milhões de chineses completarão o curso superior neste ano, o que colocará o governo sob grande pressão, pois a insatisfação universitária poderá gerar protestos causando instabilidade social.

Ensino público

Na China, a maioria das universidades é pública, e o processo de admissão ocorre por meio de um exame nacional realizado anualmente, uma espécie de vestibular unificado que vale para todo o sistema.

As faculdades públicas, entretanto, não são totalmente gratuitas como no Brasil.

Muitas vezes os estudantes precisam pagar uma anuidade de centenas de dólares, além de arcar com os custos de moradia e alimentação, quando estudam longe da casa dos pais.

Universidades privadas são minoria e normalmente recebem candidatos que não conseguiram qualificação para as vagas públicas.

No entanto, com a modernização do país, a educação superior privada tem crescido e já acolhe centenas de milhares de estudantes, principalmente jovens da emergente classe média.

I MARCHA ESTADUAL PELA LIBERDADE RELIGIOSA E PELA VIDA

21 de Janeiro – Dia Nacional de Mobilização Contra a Intolerância Religiosa e o RS Berço do Racismo e da Intolerância não pode ficar na inércia

A Marcha está crescendo, ganhamos apoio da CEUCAB-RS, AFRORITO, AFROBRAS, FUNDAÇÂO MOAB CALDAS, Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, Gabinete da Vereadora Sofia Cavedon –PT-RS.

Precisamos colocar nas Ruas de Porto Alegre um número expressivo de Babalorixas, Iyalorixas, Omorixas e simpatizantes, bem como agregar outras religiões que pactuam do nosso mesmo sentimento de que “um mundo com tolerância e respeito é possível”.

Uma violência histórica foi impetrada contra o nosso povo, e esta é irreparável. Impuseram-nos uma religião, arrancaram os nossos nomes africanos colocando nomes cristãos, que nada tem a ver com nossa cultura e tradição, depois nos proibiram de entrar nas igrejas (tínhamos que ficar amontoados às portas). Proibiram nossa manifestação religiosa e fé e nossas práticas à Luz do dia, e agora, querem nos tirar a noite. Arrancaram-nos da nossa Pátria, tiraram-nos de nossas terras, e até hoje, nos negam o direito a territorialidade. Chega “deles” decidirem!

FORA RACISMO! FORA INTOLERANCIA RELIGIOSA! VIVA O ESTADO LAICO!VAMOS TOCAR TAMBOR, E A HORA É AGORA!

Dia 21 de janeiro acontecerá em Porto Alegre a I MARCHA ESTADUAL PELA LIBERDADE RELIGIOSA E PELA VIDA, e você tem que estar nela.

Quem tem ORI não Baixa a Cabeça!!!!

Baba Diba de Iyemonja

CEDRAB-RS – Congregação em Defesa das Religiões Afro Brasileira do RS

Baba Diba de Iyemonja
Pùpó Àsé Àwá
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Tumulto eclode na Califórnia após polícia matar jovem negro

Fonte: Folha de S. Paulo

Cerca de 120 pessoas foram presas na noite de anteontem nas ruas de Oakland, Califórnia, quando protestavam contra o assassinato de Oscar Grant 3º, auxiliar de açougueiro de 22 anos, supostamente baleado por um policial numa estação de trem, no dia 1º.

Grant e um grupo de amigos foram retirados do vagão em que voltavam de uma festa de Ano-Novo assim que uma briga entre grupos rivais teve início.

“Meu recado é: calma, pessoal”, disse o prefeito Ron V. Dellums. “Isso não é um jogo.” Houve quebra-quebra e incêndio de carros. Participantes do protesto foram acusados de vandalismo, reunião ilícita, tumulto e agressão a um policial.

Diante dos policiais, manifestantes se apresentavam com as mãos nas costas, dizendo “Eu sou Oscar Grant”, à maneira de “Spartacus”. O nome da vítima foi grafitado pelas ruas.

Segundo o delegado responsável pelo policiamento do sistema de trens local, Gary Gee, investigadores ainda estão colhendo provas do assassinato.

Pelo menos quatro câmeras de celular de passageiros captaram imagens de Grant deitado no chão com as mãos para trás quando o policial Johannes Mehserle, 27, puxa sua arma e dá um tiro. Mehserle olha para um colega e algema Grant.

Na quarta-feira, Mehserle pediu demissão. Seu advogado afirmou, em nota, que o policial tem apoio de seu sindicato, mas não fez nenhuma referência ao tiro. Mehserle não foi formalmente acusado.

“Se não é possível fazer acusação em um caso como esse, então não sei em que caso é possível”, diz John Burris, advogado da família de Grant.

O prefeito Dellums afirmou que a polícia de Oakland iniciaria uma terceira investigação sobre o ocorrido, ao qual ele se referiu como homicídio. Esse é só o mais recente episódio de tensão entre a comunidade negra de Oakland e a polícia. Líderes locais condenaram a ação.

Internet A agressão de policiais contra negros remete também àquela sofrida pelo motorista Rodney King, em Los Angeles, e filmada por um morador em 1991. No ano seguinte, policiais foram inocentados pelo espancamento, provocando uma onda de protestos que deixou 53 mortos e US$ 1 bilhão de prejuízo.

Diferentemente do caso de 17 anos atrás, que tinha apenas um registro em vídeo caseiro, as imagens das agressões e dos confrontos após a morte de Grant são várias. Blogs pessoais trazem mais vídeos e comentários sobre os confrontos.

No YouTube, basta digitar “Bart shooting” para que surjam mais de 400 resultados, entre reproduções das imagens do assassinato, vários ângulos dos protestos e comentários de cidadãos comuns sobre o caso.

“A questão é se um julgamento desfavorável vai gerar mais tumultos e confusão. É possível”, disse à Folha o blogueiro Zenophom Abraham, ou Zennie, do “Oakland Focus” (oaklandfocus.blogspot.com).

Zennie filmou parte dos protestos e colheu opiniões de moradores e manifestantes. “É um assunto importante, do qual eu não poderia escapar. Além disso, é um jeito de me conectar com a cidade, com as pessoas e também com a mídia”, diz.

“Sempre há um certo voyeurismo no vídeo on-line. Acho que as pessoas querem ver por elas mesmas”, afirma Bill Murray, administrador do site da KTVU-TV, afiliada da Fox em São Francisco. Ali, mais de 500 mil pessoas já viram o vídeo da morte de Grant nesta semana. (ALEXANDRA MORAES)

Com agências internacionais

A consciência negra no contexto latino americano

A consciência negra, no território latino, exprime e expressa a relação desigual de poder frente à lógica de crise permanente instituída pelo capital contra o trabalho

Roberta Traspadini

Foto: Douglas Diego

A consciência negra no recorte de classe

Em meio à atual crise do capitalismo e sua forma de propagação no continente latino, a classe que vive do trabalho deveria parar no mês de novembro, para discutir em profundidade, os temas advindos da consciência negra, frente à inconsciência da barbárie geral do capital contra o trabalho.

Na América Latina, vivem, ou melhor, sobrevivem, segundo os relatórios de pesquisa da cepal, aprox. 120 milhões de homens e mulheres afro-descendentes. Destes, 76 milhões são brasileiros, 10 milhões são colombianos, 9 milhões são mexicanos, 2,5 milhões venezuelanos, e os outros 22,5 milhões se distribuem nos demais países do continente.

Na lógica da dominação burguesa este grupo étnico-racial, conta com uma condição histórica singular no nosso continente: a de ser herdeiro da invasão e deslocamento territorial-continental a que foi submetido, para cumprir em terras longínquas às suas, com os desígnios da exploração européia, reproduzida e ampliada na conquista-saqueio da América. Lógica que utiliza a diversidade e a diferença como violenta forma de manifestação de seus históricos conteúdos de escravização e neo-colonização.

Estamos falando de uma visível forma de dominação que objetiva tornar invisíveis diferenças centrais na sua lógica de exercício do poder. Estamos falando da invisibilidade centrada na diferença da cor da pele. Estamos falando da invisibilidade da cor da pele mesclada com o gênero. Isto é, da invisibilidade da população negra, e dentro desta de mulheres negras, frente à geral opressão-exploração vivida por muitos trabalhadores/as. Estamos falando da intencional invisibilidade dada pelo capital aos sujeitos produtores do próprio e reprodutores do alheio que se tornaram ao longo do tempo, negros e negras latino-americanos.

As consciências expressas na consciência negra:

A consciência negra, no território latino, exprime e expressa a relação desigual de poder frente à lógica de crise permanente instituída pelo capital contra o trabalho. As crises de realização do capital evidenciam as permanentes, mas sempre inconclusas conformações dos pactos de poder contra o trabalho. O que permanece, em meio às múltiplas crises, é a sujeição de parte expressiva da população latina à condução econômica-política-ideológica dos donos do capital que atuam no continente em sua aliança com os Estados (trans)Nacionais.

Frente a isto, alguns elementos chaves, comuns, como classe que devem estar contidos no debate a partir da histórica condição de negros e negras no continente latino, são:

A consciência negra sobre a histórica disputa de classe, em meio à brutal dominação burguesa. A consciência negra sobre a exploração do trabalho pelo capital que, aparenta superar a diferença, mas que, em essência, a utiliza como critério de disputa dentro do mundo do trabalho, para sua realização, a partir de uma redução ainda maior dos salários pagos aos negros e negras do continente. A consciência negra sobre a opressão, na dominação, européia e nacional, na conformação do poder e do pacto político executado ao longo dos últimos 500 anos no continente, um poder que continua sendo branco, rico e masculino. A consciência negra sobre a diferença cultural excludente, onde cultura se mistura com pacto de poder e a indústria dita as normas e as condutas do dever ser de cada época. A consciência negra sobre a organização para a libertação da opressão e exploração, via formação política, educação popular e consolidação de instrumentos políticos de disputa e superação da atual lógica de poder. A consciência negra sobre a esperança diurna, essa que, ao se sonhar acordado, desperta, coletivamente para uma ação rumo à realização de um projeto de fato democrático, com a necessária socialização dos meios de produção, a partir da consolidação de um instrumento político de classe.

A capoeira: pedagogia do exemplo da consciência negra

Uma das mais expressivas formas culturais negras propagadas no continente latino é a capoeira. Essa arte expressa muitas contradições. Mas ao longo da história explicita a rebeldia de contestando a ordem vigente, instituir no canto, ora oculto, ora público, sua condição e a necessidade de superação. A capoeira ganha o continente e globaliza a lógica da rebeldia, da consciência negra frente à exploração e opressão.

Através da capoeira, seus mestres narram, com seus pontos de vistas sobre a história, tanto a opressão quanto a luta pela libertação vivenciada por eles e seus antepassados, em cada período histórico no continente. Estes negros e negras narram, ao mesmo tempo, a condição da consciência de muitos negros analfabetos formais, pois não tiveram acesso à escola, que são políticos negros alfabetizados, mestres alforriados detentores desta arte. A cultura oral, a manifestação às divindades negras, o canto e a musicalização manifestos na capoeira, explicitam que o outro processo global só é possível se a lógica de dominação estiver para além do capital.

A capoeira está em toda América Latina. Está em outros continentes. E por mais que seja praticada por brancos, mestiços e negros, sua raiz manifesta em toda sua expressão, a histórica consciência negra. Por isso, como ferramenta de classe, a capoeira explicita que a formação política, a partir de vários processos pedagógicos diferenciados no nosso continente, conta com a história oral como elemento de recuperação da memória histórica de luta dos povos de nossa América.

Naturalmente, no espaço contraditório da produção do novo em meio à reprodução do velho a capoeira, como outras artes em disputa, está cheia de tensões e de confusas ações apropriadas pelo capital. Mas dentro destas tensões se encontram universos fantásticos de produção, através do corpo, de superação da condição de opressão-exploração-sujeição.

O instrumento político de classe e a consciência negra:

A consciência negra coletiva em nossa América, manifesta a ação política de uma formação que tem na classe sua referência, mas joga para ela o diálogo da diversidade que por anos foi ocultada dentro de uma mesma lógica de reprodução que tenta revolucionar mas reproduz mecanismos de invisibilidade do ser.

Por isso e muito mais, o mês de novembro é central, dado o legado de Zumbi e seus pares, para a reflexão dos lutadores e lutadoras latinos, a partir da tomada de consciência sobre a histórica condição de negros e negras do continente. Consciência que aprende na coletividade a riqueza das aprendizagens particulares. Mas que só se sustenta se tiver claro um instrumento político que, a partir da formação, articule um novo projeto popular para o Brasil e para nossa América.

Em meio à atual crise da hegemonia americana e de seus pares no continente, o permanente é a mudança. E a mudança não ocorre a partir da figura de um sujeito no poder já instituído a partir da cor de sua pele. Em especial quando sua lógica de pensar e agir não se contrapõe à histórica herança de dominação e preconceito desenvolvidos no continente. A mudança não virá do norte tão ao norte, dentro das rígidas estruturas de poder do capital. A mudança está ao sul, logo abaixo. Parte dos territórios autônomos zapatistas e demais regiões camponesas, negras e indígenas mexicanas e vai se mesclando com as demais terras latinas, ainda mais ao sul do nosso continente, tecendo a real teia da projeção do novo.

A mudança se expressa pela capacidade dos povos latinos se organizarem para a consolidação de uma outra lógica de poder, de um outro pacto político de Nação, de um outro sentido de trabalho e de realização para além do capital. A mudança parte da capacidade dos povos latinos executarem o poder popular, a partir da projeção de seus instrumentos políticos: negros/as, índias/os, camponeses/camponesas aliados aos trabalhadores e trabalhadoras das cidades, que no formal e no informal produzem sua sobrevivência, que não lhes permite, na lógica atual, viver.

Roberta Traspadini é educadora e economista

Grafiteiro reproduz fotos antigas de SP em mural na 23 de Maio


MÁRCIO PINHO

Um retrato do centro na década de 20 com pessoas usando trajes e carros da época é no que está se transformando a parte inferior do viaduto Tutóia, na av. 23 de Maio, na zona sul de SP.
A obra é comandada pelo artista e grafiteiro Eduardo Kobra e está sendo feita para comemorar os 455 anos da capital, no dia 25 -data provável da inauguração.
Quem passar de carro pela avenida poderá apreciar imagens da rua Direita, à época já uma importante via.
“Pesquisei imagens da época no Departamento de Patrimônio Histórico da prefeitura e encontrei um acervo rico de fotos da década de 20. Fundimos cerca de dez imagens no computador para construir um retrato do centro daquela época.”
As fotos formam um cenário fictício, mas com ideia de continuidade. A obra tem mil metros quadrados de área.
As cores preto e branco serão predominantes, para manter a ideia de algo antigo.

VIVENDO LONGE DAS DROGAS


Raquel Chagas Pessôa*

Sou ainda apenas uma garota apavorada e assustada com a destruição com que as drogas vêm causando no mundo e nas famílias. É triste ligar a televisão pela manhã e deparar com uma verdadeira guerra entre traficantes e a polícia, nas grandes cidades. Mas é ainda mais triste saber que em nossa cidade compram e usam no barzinho da esquina ou até dentro das escolas. Me pergunto sempre: o que será que passa na cabeça desses jovens e desses adolescentes? Será que está faltando amor, diálogo entre pais e filhos, amizades verdadeiras? Porque, somente o amor, as grandes amizades, o respeito entre as pessoas nos levam a trilhar caminhos e a ter atitudes corretas e sensatas na vida. Uma vida sem vícios, sem maldade, sem mentes desequilibradas, pois o uso de drogas nos leva a ser jovens irresponsáveis e incoerentes diante da vida, que poderia ser uma vida de sonhos e grandes conquistas. As drogas só atrapalham as nossas realizações e matam todos os nossos sonhos. Por isso, desejo que todos fiquem longe desse grande mal que são as drogas.

*Aluna da Escola Estadual Professora Maria de Magalhães Pinto, em Igarapé (MG)