Arquivos Mensais: dezembro \31\UTC 2008

Ator do morro do Vidigal é novo galã de "Malhação"



Micael Borges iniciou carreira como um dos garotos "caixa-baixa" de "Cidade de Deus'
Protagonista da nova fase da novelinha da Globo, ele tem uma banda pop com Thiago Martins e Phellipe Haagensen e vai gravar CD
LAURA MATTOS

Micael Borges não tinha nem 10 anos quando entrou na fila da criançada das favelas do Rio para um teste com a equipe do filme "Cidade de Deus". Passou e ganhou o papel de um dos "caixa-baixa", grupo de garotos que roubam nos morros.
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Boca de Rua



O Boca de Rua é produzido em Porto Alegre desde 1999 por meninos e meninas de rua. O Boca como é chamado é coordenado pela ONG ALICE (Agência Livre para Infância,Cidadania e Educação). Reinaldo Luiz dos Santos foi morador de rua e hoje atua no Boca como universitário. Esse jornal é inspirado em algumas idéias surgida na Inglaterra. É um dos primeiros jornais vendidos nos metrôs de Londres. Clara Glock, que é uma jornalista que trabalhou por 14 anos na editoria de Cidadania da Zero Hora, visitou Londres e teve a idéia de trazer para o Brasil a experiência. Junto com a Eliane Brum, escrevia para Zero Hora, hoje para a Revista Época, Jaime, que é um dos integrantes do Fórum de Democratização para a Comunicação, e a Rosina Duarte criaram o Boca de Rua.
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O conceito de “escravo”


Kabengele Munanga, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo explica o conceito de escravo.
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Workshop de Tranças

15 de FEVEREIRO de 2009
das 10 ás 13 horas
WORKSHOP DE TRANÇAS DA REGIÃO METROPOLITANA DE CAMPINAS
Local:- PAULINIA / SÃO PAULO
Valor da inscrição:- R$ 30,00
Inscrições e Informações:- SALÃO HAIRLACE
fone:- (19) 3844-6134 com Elicia ou Ana
Realização:- ANTAB e EXPOAFRO BRAZIL
Apóio:- Revista Cabeleireiros.com

Aeromoça cinqüentona

“A regra discriminatória preconizando que comissários devem ser sempre jovens extrapola os céus e chega a muitos outros lugares. Há mais exemplos, como no caso de vendedores de loja de shopping”
Aparece sempre a pergunta nos mais variados ambientes: alguém já viu um enterro de anão ou uma cabeça de bacalhau? Mas há outras possíveis. Alguém já viu uma aeromoça com idade, digamos, um pouco mais avançada? Ora, aeromoça ou comissária de bordo, como se diz atualmente, é sempre nova, maquiada e com cara de quem acabou de sair do banho. Qualquer figura que fuja a esse estereótipo vai chamar a atenção.

Pois num vôo recente, havia uma chefe de cabine que, possivelmente, já quebrou a barreira dos 50. Absolutamente simpática, atenciosa e eficiente, desfilava sua experiência pelo corredor estreito do avião, chamando a atenção pelo inusitado da cena. Enfim, uma comissária de bordo com mais de 20 e poucos anos. Será que aquela companhia estava descumprindo alguma lei ou norma da aviação, ao colocar para chefiar a equipe uma mulher com mais de 40? Mesmo quem viaja muito vai se surpreender com a mulher madura atendendo graciosamente aos passageiros.

Outra coisa que chama a atenção é que os comissários de bordo nunca são os mesmos. Parece que há um número infinito de equipes viajando pelos céus. Os comissários e comissárias são sempre desconhecidos. A impressão que dá é de que as equipes são permanentemente renovadas e mudadas. São sempre jovens e sempre diferentes. Ou alguém aí se lembra de ver o mesmo comissário em diferentes vôos?

A regra discriminatória preconizando que comissários devem ser sempre jovens extrapola os céus e chega a muitos outros lugares. Há mais exemplos, como no caso de vendedores de loja de shopping. Lá nas lojas da Avenida Paraná ou Rua Caetés existem vendedores que ali estão há anos e anos. Mas em shoppings parece que a norma exige a presença de vendedores muito jovens. E fica a pergunta: onde vão parar os que ultrapassam uma barreira invisível que acaba virando uma verdadeira e cruel data de validade?

Em bancos também os atendentes são cada vez mais jovens. Onde vão parar os velhos bancários? Será que dentro dos cofres, fazendo a contabilidade do dia e os tais serviços internos, longe do público? Recolhidos ou confinados? Qual a justificativa? São mais experientes e, por isso, aproveitados em funções que exigem mais experiência? Ou é porque as rugas ficam nos fundos e, na porta da frente, só os lisos e bem passados?

Barrigas pronunciadas, rugas aprofundadas, calvas reluzentes e cabelos grisalhos não parecem combinar com certas atividades que pressupõem relacionamento com o público, mesmo que os clientes apareçam, sem preconceito, com suas barrigas pronunciadas, suas rugas aprofundadas, suas calvas reluzentes e seus cabelos grisalhos. Do lado de fora do balcão, a vida real; do lado de dentro, estereótipos de beleza. Entre eles, a pergunta que não pode calar: qual o sentido disso tudo?

Voltando à comissária cinquentona, tirando a surpresa inicial, era visível a expressão de aprovação por parte dos passageiros, inclusive porque a gentileza dela parecia muito mais natural do que o habitual nos apertados corredores de avião. É muito esquisito. Se, diferente dos passageiros, que existem de todas as idades, elas são sempre jovens, onde envelhecem as aeromoças? Deviam deixar que elas fiquem repetidas e dêem um bom dia ou boa tarde mais natural do que o ensinado nas salas de treinamento.

SUBSERVIÊNCIA

Fernando Franco – Ibirité-MG.
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Ler é Preciso

Carlos Alberto Di Franco, professor de ética, doutor em comunicação pela Universidade de Navarra (Espanha)
Os adolescentes são fascinados pelas ferramentas da era digital. Eles não desgrudam do celular, vivem digitando mensagens de texto, passam horas escrevendo em blogs, navegando na web ou absortos nos videogames. Para o americano Mark Bauerlein, professor da Universidade Emory, em recente entrevista, as conseqüências dessa imersão digital não são boas. Segundo Bauerlein, a nova geração de adolescentes americanos tem mais acesso à informação que qualquer outra antes dela. Mas isso não se reflete em um ganho cultural. O uso incessante dos dispositivos digitais criou um “casulo” em torno dos jovens, que só se relacionam entre si, 24 horas por dia, sete dias por semana. “A falta de contato com os adultos impede os jovens de crescer.” Ler é preciso. Jovens, e menos jovens, precisam investir em leitura e reflexão. Só assim, com discernimento e liberdade, se capacitam para conduzir a aventura da própria vida. Compartilho com você, amigo leitor, algumas obras. Espero, quem sabe, que o estimulem no ano que começa.

What were they thinking? (Harvard Business School Press, 2007). É o título do livro de Jeffrey Pfeffer, professor de Stanford e um dos mais renomados gurus da administração na atualidade. Esteve em junho no Brasil. No capítulo 3, comenta a grata impressão que lhe causou a experiência de ter sido professor visitante no IESE de Barcelona, a escola de negócios da Universidade de Navarra. “Bem na época em que saía a versão para o cinema do Da Vinci Code”, diz Pfeffer, “eu passava umas semanas no IESE Business School, escola de negócios espanhola que figura entre as líderes do mundo. O que eu encontrei lá não foi nem cilícios, nem cadáveres, nem monges albinos: foi great management. Uma escola de grande sucesso. Eu me perguntava o que é que estaria por trás desse sucesso. Descobri que havia pessoas brilhantes, bem preparadas, que poderiam ter condições econômicas mais rentáveis em outros lugares, mas havia algo que as atraía e as mantinha lá: esse algo é caring culture (cultura de atenção, cuidados, serviço às pessoas). Como eu mesmo experimentei. Minha esposa contraiu uma forte dor de ouvido por ter tido que pegar um vôo resfriada.

O diretor geral do Iese, Jordi Canals, não teve dúvida: providenciou primeiro uma consulta com um clínico geral, depois com um famoso especialista em ouvido, destacou uma funcionária de fala inglesa para acompanhar minha esposa, serviço de táxi, pagou tudo e não nos fez nenhuma pergunta. Isto era algo que não estava previsto no contrato de minha estadia no IESE e simplesmente conquistou nossa eterna gratidão. Para Canals era algo que fazia parte da missão de serviço aos membros da instituição, mesmo que fossem membros temporários, como era o nosso caso”. O livro, carregado de experiências, suscita inúmeras reflexões.

A Igreja das Revoluções (Editora Quadrante, São Paulo, 2008). Este é o último título da História da Igreja de Cristo, a monumental obra de Daniel-Rops. O autor, membro da Academia Francesa de Letras, estava trabalhando no décimo primeiro, que trataria do Concílio Vaticano II, quando faleceu, em 1965. Emérico da Gama, um editor apaixonado e autêntico artesão das letras, caprichou na qualidade da edição. A multissecular história da Igreja, intimamente relacionada com a história da civilização, é um banho de cultura e um magnífico prazer intelectual.

Deu no New York Times (Objetiva, 2008). É o fruto das experiências vividas pelo correspondente norte-americano Larry Rohter durante quase quatro décadas no Brasil. Enviado do New York Times ao país entre 1999 e 2007, o jornalista já havia desempenhado a mesma função no final da década de 70 e no começo dos anos 80 na revista Newsweek e no jornal The Washington Post. Ao longo de todos esses anos, cruzou o Brasil entrevistando de presidentes a anônimos. Só pelo jornal nova-iorquino, publicou mais de quinhentas reportagens. A todos, boa leitura e feliz 2009!

PIRÂMIDE


Classe média estaria massacrada no Brasil

De Gaulle afirmava peremptoriamente, nos anos 60, que nenhum país poderá se arvorar a ser uma potência econômica sem uma classe média forte e empreendedora

Por: Sérgio Villaça – Recife
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Violência no Rio diminui



A luta contra o crime não é questão partidária, mas de política de governo


GLÁUCIO SOARES
ESPECIAL PARA A FOLHA

Os dados recém-divulgados sobre o decréscimo da violência no Rio de Janeiro mudam a estratégia eleitoral para os próximos pleitos. Até então, o único caso claramente exitoso era São Paulo, com uma drástica redução da criminalidade violenta que atravessou quatro administrações (e três governadores) estaduais, todos do PSDB.
Outro Estado que mostrou dados promissores, mas muito aquém de São Paulo, é Minas Gerais, que, no último quadriênio, reduziu a taxa de crescimento dos homicídios, que aumentaram mais devagar, e, nos últimos dois anos, a diminuiu.
Os crimes violentos baixaram. Como há e houve outras administrações tucanas sem bons resultados na luta contra a violência, é óbvio que não bastava ser tucano, mas a propaganda partidária sugeria que era necessário ser tucano para vencer a luta contra o crime.

Bravatas políticas
O cenário das administrações de outros partidos era negativo. Explosões de violência em Estados com administrações partidárias diferentes, como Alagoas, Bahia e Paraná. Em Pernambuco, a violência desafiou diferentes governadores, de diferentes partidos. Houve muita bravata política e poucos resultados.
A divulgação de que, nos nove primeiros meses do ano, os homicídios no Rio de Janeiro atingiram um nível muito baixo (alguns afirmando que era o mais baixo desde 1991), trouxe um brado partidário de alerta: afinal, era uma administração peemedebista, que sucedeu duas administrações catastróficas, igualmente peemedebistas, que obteve esses bons resultados.
Além da redução nos homicídios e nos furtos e roubos de automóveis, os autos de resistência (mortos pela polícia), calcanhar-de-aquiles da política de segurança do governador Sérgio Cabral, caíram um pouco em 2008, embora se mantenham num nível inaceitável. Os furtos e roubos de veículos, cujos dados são confiáveis, continuaram caindo, mas os grandes ganhos foram anteriores, nos primeiros 18 meses dessa mesma administração.

Falta de consenso
A segurança pública se transformou num tema eleitoral relevante, num momento em que poucos governadores apresentam ou apresentaram bons resultados. Ter um governador peemedebista com resultados positivos na luta contra o crime e a violência e algumas administrações tucanas com resultados negativos simplesmente demonstrou que não se trata de questão partidária, de que um partido teria know-how, bons gestores, e, os demais, não.
Não é o partido, mas as políticas de segurança adotadas pelo governador e, mais especificamente, pelo seu secretário de Segurança Pública.
As políticas adotadas no Rio de Janeiro são consideradas duras, pela maioria dos analistas sérios, e até enfrentacionistas, pelos mais críticos. Diferem das implementadas em São Paulo, cuja explicação tampouco é consensual.
Há argumentos que enfatizam o crescimento do número de presos em São Paulo, outros que enfatizam a elevação da qualidade técnica e moral da polícia, outros que apontam para a redução da coorte jovem, mais inclinada aos crimes violentos, outras ainda apregoam os ganhos educacionais e muitas mais.
Não obstante, as políticas implementadas no Rio produziram resultados, inclusive algumas focalizadas, como as usadas em favelas e outras áreas específicas, os exemplos da favela Dona Marta e da Cidade de Deus sendo os mais recentes.
O crime e a violência, elementos-chave da segurança pública, entraram no debate político para ficar. A relevância está indicada pela mídia. O fato de o debate ter atingido a mídia acarretou sua melhora.
Já não bastam citações eruditas, afirmações ideológicas ou bravatas políticas: o debate, em alguns Estados, já se faz com dados, com análises estatísticas crescentemente sofisticadas, nas quais quem afirma tem que demonstrar. São boas notícias.


GLÁUCIO SOARES é sociólogo e pesquisador do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. É autor de “Não Matarás” (FGV).

Disputa com YouTube marca posição frágil das gravadoras



Primeiro foi a MTV, depois a Apple, e agora o YouTube. O setor de música, diante da queda nas vendas de CDs, vem repetidamente tentando encontrar novas fontes de receita e tem visto seus parceiros prosperarem.



Assim, no novo campo de batalha dos vídeos online, as companhias de música estão desesperadas por evitar os erros do passado mas encontram dificuldades para negociar com um novo e poderoso parceiro na Internet.


A decisão do Warner Music Group de retirar milhares de vídeos de música do YouTube, controlado pelo Google, anunciada no sábado depois do colapso de negociações contratuais entre as duas partes, demonstra até que ponto as gravadoras podem ter de ir para ganhar influência sobre o processo.


Algumas das maiores gravadoras estão até mesmo considerando a hipótese de formar um site conjunto de vídeos musicais a fim de ampliarem seu poder de negociação, disse um executivo de música, já que a disputa entre a Warner e o YouTube destaca as limitações de confiar em parceiros externos.


Uma joint-venture como essa se assemelharia à Hulu.com, da NBC Universal e News Corp, que veicula online programas de TV e poderia incluir o YouTube como parceiro, disse o executivo, que se recusou a ter seu nome revelado porque as negociações apenas começaram.


À medida que despencam as vendas de CDs e o mercado de canções em formato digital se desacelera, as gravadoras cada vez mais consideram os vídeos online como essenciais para o crescimento de suas receitas. Mas elas não têm mão forte nas negociações de licenciamento com o YouTube, o qual, em companhia do MySpace, se tornou uma das mais importantes ferramentas para descoberta de música pelos consumidores jovens.


Ecoando o sucesso da MTV Networks ou o do iTunes, da Apple, de 2003 para cá, o YouTube em três anos se tornou o maior site de vídeos online, com mais de 100 milhões de espectadores nos Estados Unidos em outubro, de acordo com a comScore, uma empresa que mede a audiência da Web.


“A primeira coisa que as crianças fazem quando ouvem sobre uma nova banda é ir ao YouTube para saberem mais”, afirmou um executivo de uma grande gravadora que pediu para não ser identificado.


A Warner, terceira maior gravadora do mundo, foi a primeira grande companhia de mídia a assinar um acordo de licenciamento com o YouTube em 2006, permitindo que o site transmitisse clipes de música de grupos e artistas como Red Hot Chili Peppers e o rapper T.I.


O acordo, que expirou meses atrás, foi assinado antes do YouTube ser comprado pelo Google.


A Warner quer mais dinheiro do YouTube pelos direitos de transmissão dos clipes, mas o YouTube tem se recusado a abandonar os termos negociados anteriormente, segundo duas fontes próximas das discussões.


A Warner obteve do YouTube menos de 1 por cento de sua receita com produtos digitais de 639 milhões de dólares no ano fiscal de 2008, segundo uma fonte próxima da companhia.


A gravadora apostava que o YouTube seria uma força publicitária significativa atualmente, mas, em vez disso, o site se concentrou mais em construir audiência que em aumentar receita.


“Eles fizeram todas essas promessas iniciais de implementar identificação de áudio enquanto no meio tempo nós perdemos receitas e eles ficaram atrás de outros competidores”, disse uma pessoa próxima da Warner Music, citando a rede social MySpace e a AOL como oferecendo melhores taxas.

Fonte: Reuters


Em 10 anos, presença negra nas universidades passou de 18 para 31,5%



As políticas de ações afirmativas adotadas até agora por universidades públicas e pelo governo federal, por meio do Prouni, tiveram impacto mais simbólico que prático sobre a participação dos pretos e pardos no ensino superior. Mesmo assim, verifica-se uma trajetória crescente na última década. Em 1998, pretos e pardos eram 18% dos estudantes de graduação. Em 2007, o número já era de 31,5%.



Dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) mostram que, de 2002, quando as universidades começaram a instituir programas de cotas, a 2007, a participação de pretos e pardos no ensino superior público variou 1,8 ponto percentual –passou de 36,4% dos estudantes de graduação do setor para 38,2%. De 2001 a 2002, a variação foi de 2,8 pontos percentuais.


Pretos e pardos são nomenclaturas usadas pelo IBGE para a classificação de raça/cor, a partir da autodeclaração dos entrevistados.


Na rede particular, a presença do grupo passa de 26,2% para 29,5% de 2004 a 2007. A principal ação afirmativa no setor é o Prouni, que desde 2005 concede bolsas a estudantes carentes de escola pública na proporção igual à de pretos, pardos e indígenas de cada Estado.


O baixo impacto das políticas de ação afirmativa adotadas até agora pode ser explicado pelo fato de que a maior parte dos alunos não é afetada por elas.


No Prouni, os 197 mil pretos e pardos que entraram pelo programa desde sua criação correspondem a 45% dos bolsistas. Considerando os que entraram em 2006, porém, o ingresso representou apenas 1% do total de matrículas no ensino superior.


O impacto de cotas em universidades públicas também é restrito considerando-se que três quartos dos estudantes estão em instituições privadas.


Desde 2002, segundo estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 33 universidades públicas, de ao menos 250, passaram a adotar algum tipo de cota racial.


O projeto de lei que o governo quer aprovar no Congresso prevê que 50% das vagas nas federais sejam reservadas a alunos de escolas públicas, e que esse percentual seja dividido de acordo com a proporção de pretos, pardos e indígenas de cada Estado.


Mesmo se aprovada, porém, a lei terá reflexo pequeno sobre o quadro geral, embora de fato aumentem a presença de pretos e pardos nas instituições federais em que as cotas forem instituídas.


Segundo o mais recente censo do ensino superior produzido pelo Inep, com dados de 2006, as federais respondiam naquele ano por 12,4% das matrículas em todos os cursos de graduação do país.


Caso as vagas para pretos e pardos correspondessem à sua representação na população brasileira -ou seja, 49,8%-, haveria uma reserva correspondente a 3,1% das matrículas no ensino superior.


“Há todo um engodo em torno desse assunto [lei que cria cotas]”, diz José Luiz Petrucelli, pesquisador do IBGE, favorável às cotas. “Mesmo se essa lei tivesse sido aprovada e estivesse sendo cumprida, ela não tem um efeito prático muito importante. Tem um efeito simbólico muito importante, por isso tanta polêmica.”


Os números acendem no movimento negro uma reivindicação de cotas em todas as universidades, públicas e privadas.


Segundo frei David, da ONG Educafro, essa reivindicação é planejada para daqui a cerca de três anos, já que, na atual lista de prioridades, vêm antes a aprovação do projeto de lei pelo Senado, a criação de bolsas para os alunos cotistas conseguirem se manter nos cursos e o monitoramento do desempenho acadêmico deles, para, segundo afirma, divulgar os benefícios da política para a população como um todo. A idéia não deve encontrar apoio no Ministério da Educação.

Crescimento

Mesmo com baixo impacto de ações afirmativas, a presença dos pretos e pardos no ensino superior, contando tanto o público como o particular, tem uma trajetória crescente na última década. Em 1998, pretos e pardos eram 18% dos estudantes de graduação. Em 2007, o número já era de 31,5%.


Para Simon Schwartzman, do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), a principal razão para o crescimento é o aumento de matrículas, que foi de 187% na última década.


Isso aconteceu no ensino médio. A participação dos pretos e pardos nessa etapa passou de 42% para 50,5%, aumentando o número de pessoas aptas a cursar o ensino superior.


A qualidade da educação é um fator apontado para melhorar o acesso à universidade pela população mais pobre –e, conseqüentemente, de mais pretos e pardos, geralmente associados a essa faixa econômica.


Jorge Abrahão, do Ipea, diz que, aliadas à expansão das vagas nas universidades federais que vem ocorrendo sob o governo Lula, as ações afirmativas poderão produzir um impacto maior do que o de hoje.


Fonte: Folha de S. Paulo



HPV – 72% dos homens carregam o vírus no Brasil, diz pesquisa

FLÁVIA MANTOVANI
DA REPORTAGEM LOCAL

Um estudo internacional, que envolve Brasil, EUA e México, está sendo conduzido para pesquisar o HPV em 4.200 homens de 18 a 70 anos.
A previsão é que o trabalho continue até 2013, mas resultados preliminares com 1.161 homens mostram que 72% dos brasileiros têm o vírus. A média dos três países é de 65,2%.
Foi observado também que a taxa de infecção no sexo masculino se mantém com o avançar da idade, enquanto nas mulheres o pico é na faixa dos 20 anos, diminuindo com o tempo.
Trata-se do primeiro estudo multicêntrico sobre o tema a envolver o Brasil. “Há duas décadas, devido ao grande problema que é o câncer de colo de útero, a premissa era estudar o HPV em mulheres. Aprendemos que a mulher contrai o vírus do parceiro, mas as pesquisas com homens não estão amadurecidas”, diz Luisa Lina Villa, diretora do Instituto Ludwig de Pesquisa sobre o Câncer e coordenadora do trabalho.
O fato de o homem ter o vírus não significa que ele vá desenvolver lesões. A maioria dos pacientes é assintomática, mas alguns podem ter verrugas genitais e cânceres de pênis ou no canal anal. “Estudos mostram que 50% dos pacientes com câncer de pênis têm o vírus”, diz o urologista Roberto Carvalho Silva, do Centro de Referência e Treinamento em DST/AIDS do Estado de São Paulo, que faz parte da pesquisa. Além disso, o homem pode passar o vírus para a parceira. “O HPV pode ser transmitido quando a pessoa se coça ou usa objetos infectados. Mas a maior transmissão é por via sexual.”

Diferenças de gênero
Uma das variáveis que serão exploradas na pesquisa é o fato de a freqüência de HPV ser semelhante em pacientes de várias idades. Uma hipótese a ser testada é se os homens têm mais dificuldade do que as mulheres para eliminar o vírus. “Quase 80% das mulheres eliminam o vírus naturalmente no segundo ano”, diz Silva.
Outra diferença entre gêneros são os tipos de HPV: ao contrário delas, eles tiveram maior freqüência de tipos que não levam a câncer.
Os pesquisadores agora buscam voluntários para completar o grupo. Devem ser homens sadios, de 18 a 44 anos, moradores de São Paulo e que nunca tiveram verruga genital ou câncer genital ou anal. Eles passarão por consulta a cada seis meses. O telefone para informações é 0/xx/ 11/5549-1967.

24% das jovens têm lesão por HPV no 1º ano de vida sexual

Segundo pesquisa da Fiocruz, 36,5% delas apresentam o problema após 5 anos

Câncer de colo de útero, decorrente de lesão de HPV, é o terceiro mais comum em mulheres, depois do câncer de pele e do de mama

AMARÍLIS LAGE
DA REPORTAGEM LOCAL

Um estudo realizado no Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, com 403 garotas mostrou que, um ano após o início da vida sexual, quase uma em cada quatro delas já apresenta lesões causadas por HPV. Em cinco anos de vida sexual, 36,5% apresentam o problema. O câncer de colo de útero, decorrente das lesões, é o terceiro mais comum em mulheres, depois do de pele e do de mama.
A pesquisa foi feita pela ginecologista Denise Monteiro, com jovens de 11 a 19 anos atendidas entre 1993 e 2006 pelo Ambulatório de Ginecologia para Adolescentes do Hospital de Jacarepaguá (RJ). As pacientes não tinham lesões cervicais no início do estudo e haviam tido a primeira relação sexual havia menos de um ano.
Os dados mostraram que, no primeiro ano de atividade sexual, 97 delas (24,1%) apresentaram lesões no colo do útero. Ao longo do estudo, 147 desenvolveram o problema.
A primeira alteração geralmente era de baixa gravidade. Em 113 pacientes, foram encontradas lesões intraepiteliais de baixo grau. Em 12 jovens, foram detectadas lesões de alto grau. Ambas lesões são precursoras de câncer cervical, mas as de alto grau têm um maior potencial oncogênico.
Nas outras 22 jovens, o exame mostrou “alteração escamosa de significado não identificado”. “O exame detectou alguma anormalidade, mas não pôde definir se era lesão de baixa gravidade ou outra coisa, como inflamação”, diz Monteiro.
Um dado, porém, inquietou a pesquisadora. Mesmo com exames periódicos, parte das lesões já eram de alto grau na primeira vez em que foram detectadas. “Na história natural da lesão, ela começa como de baixo grau e, com os anos, evolui. Mas não é isso que temos observado. Em muitos casos, o vírus é tão oncogênico que a lesão já surge como de alto grau. Encontramos meninas com três meses de atividade sexual que já tinham lesão de alto grau”, afirma Monteiro.

Vulnerabilidade
De acordo com Ismael Guerreiro da Silva, professor de ginecologia da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), as mulheres mais jovens são realmente mais vulneráveis ao HPV. Um dos motivos é que o sistema imunológico ainda não conhece o vírus e, portanto, não tem imunidade contra ele.
Além disso, há um fator fisiológico. Segundo Silva, entre as mulheres que têm de 12 a 20 anos, é muito comum encontrar uma ferida ao redor do orifício externo do colo do útero chamada ectopia. Essa lesão é normal, não corresponde a nenhuma doença, mas é uma área muito sensível ao HPV.
O lado bom, afirma o ginecologista, é que, na maior parte dos casos, há uma regressão completa da lesão. Nas de alto risco, a remissão costuma ocorrer em 14 meses e, nas de baixo risco, em oito. O aparecimento de lesões é mais preocupante quando ocorre em mulheres com mais de 30 anos.

Evolução da lesão
Na pesquisa de Monteiro, em dois anos, a maioria dos casos de “alteração escamosa de significado não identificado” (91%) e das lesões de baixo grau (63,3%) e a metade das lesões de alto grau regrediram. Mas houve também casos em que a lesão progrediu: 6,1% das lesões de baixo grau, por exemplo, passaram a ser de alto grau no período de dois anos.
De modo geral, as lesões de baixo grau são apenas acompanhadas pelos médicos, que buscam controlar com antibióticos infecções concomitantes, como candidíase. Quando a lesão é de alto grau, a recomendação é a retirada do colo do útero.
Essa medida, porém, também traz outras conseqüências. Segundo Monteiro, já foi constatado que mulheres que se submeteram a esse procedimento são mais sujeitas a ter partos prematuros.
Como o estudo mostrou que parte das lesões de alto grau regride, Monteiro defende que, dependendo do caso, o ginecologista busque acompanhar como o quadro da paciente evolui, antes de retirar o colo do útero. “Mas a escolha por só acompanhar é arriscada e deve ser feita com jovens esclarecidas e sobre as quais se tenha controle.”

Fatores de risco
Em uma pesquisa anterior, também com pacientes do Hospital de Jacarepaguá, Monteiro avaliou por que algumas pacientes estavam mais vulneráveis ao aparecimento de lesões causadas por HPV. Ela mensurou a presença de cada fator de risco nas jovens e constatou que, a cada ano de atividade sexual, o risco de a paciente ter a lesão praticamente dobra. A gravidez na adolescência também dobra o risco.
O cigarro e o uso da pílula anticoncepcional são também considerados fatores de risco, segundo a literatura científica. No estudo, Monteiro não encontrou essa associação. “Pode ser que o cigarro não tenha aparecido devido ao baixo tempo de exposição. Como são muito novas, elas não fumavam há muito tempo ainda”, disse.
Monteiro questiona ainda a idéia de que a infecção esteja ligada à promiscuidade. “Não encontrei nenhuma associação entre as lesões e o número de parceiros sexuais. Teoricamente, quanto maior o número de parceiros, maior a chance de um deles estar infectado com o vírus, mas tudo depende de quem é o parceiro”, diz ela.

Estatuto ainda desconhecido

Maioria dos idosos não sabe quais são seus direitos
Evaldo A. D%u2019Assumpção, Biotanatólogo e bioeticista, presidente da Academia Mineira de Medicina
Após sete anos de penosa tramitação no Congresso Nacional, em 1º de outubro de 2003 foi sancionada a lei 10.741, que dispõe sobre o Estatuto do Idoso. Cinco anos se passaram. Pesquisa realizada em 2007 pela Fundação Perseu Abramo, de São Paulo, em parceria com o Sesc, revela que um em cada quatro brasileiros com mais de 60 anos nunca ouviu falar do Estatuto dos Idosos. E os que o conhecem dele não se beneficiam. Com 70 anos, procuro nunca abrir mão dos meus direitos de idoso e, freqüentemente, descubro o quanto as leis no Brasil, especialmente as que não trazem vantagens para as grandes empresas, são totalmente desrespeitadas. E o Estatuto do Idoso é uma delas. Dou dois exemplos. No Banco do Brasil, apesar da placa dizendo: fila única. Prioridade para idosos, gestantes e deficientes, segundo uma das caixas que interpelei, a ordem da gerente era ter caixa único para essas pessoas. Flagrante infração da lei, que determina em seu artigo 3º do estatuto exatamente o que a placa dizia e, não, a existência de um caixa diferenciado para os idosos. Em razão disso, os que se encontravam na outra fila eram rapidamente atendidos, enquanto os cinco conformados idosos aguardavam passivamente. Insatisfeito, reclamei com o vigilante e ele filosofou: “Por que o senhor não entra na fila normal?” Atitude facilmente enquadrável no artigo 4º da mesma lei, que trata das punições aos seus infratores.

O segundo caso, situação bem mais comum, é o do ônibus, em que todas as cadeiras reservadas por lei para os idosos estão ocupadas por jovens que conversam animadamente, cuidando de olhar somente para o lado das janelas, nunca para o corredor. Noutra, um rapagão finge dormir. De quando em vez abre os olhos rapidamente, só para ver se já está chegando onde vai descer. Todos ignoram os três idosos, dois deles bastante decrépitos, de pé e sem coragem para reclamar seus direitos. Ressalto: direitos, e não benefícios. Pior ainda: o trocador e o motorista, a quem cabe cuidar da ordem dentro do ônibus, fazem ouvidos de mercador aos comentários dos três, que sofrem com as curvas, as arrancadas e paradas bruscas.

A isso se somam as ridículas aposentadorias famélicas, as agressões verbais no trânsito, a total falta de respeito aos que já foram jovens, trabalharam, construíram o mundo e agora são o que os imprevidentes jovens de hoje serão amanhã. Esperemos um ano novo melhor!

Tudo parece normal, apenas parece

Gilson E. Fonseca – Consultor de empresas
O Brasil que se desenvolveu tanto em todas as áreas científicas e tecnológicas, sendo destaque em muitas delas, tem nos decepcionado com a perda de valores morais e éticos, jamais imaginada. A corrupção ocupa o 5º lugar no mundo e as principais causas são problemas crônicos como a impunidade, educação precária, grupos de oligopólios e cartéis com grande influência governamental e a política comandada por “coronéis” que são verdadeiros sanguessugas do estado. O prof. Pierre Weill, falecido recentemente, grande estudioso do comportamento e valores humanos, diante de tantos desmandos e inconseqüências, inteligentemente, utilizou-se do neologismo normose para expressar tudo aquilo que é anormal e se vê como normal. A gerência holística, tão sonhada por ele, está longe de ocorrer: Brasília não deixa. Os três poderes da república estão contaminados e as notícias recentes, como no judiciário do Espírito Santo, são estarrecedoras.

Pessoas de bem estão extremamente preocupadas e tudo terá que começar pela educação das crianças, porque mudar adultos sem princípios morais é quase impossível. A aliada seria a Justiça, mas como a impunidade está generalizada, não se pode contar com ela. Quando pensamos que nada ruim pode ocorrer, depois de determinado fato, somos surpreendidos com outros piores e, parece, também, que a sociedade se cansou tanto que entregou os pontos e pouco reage e aí está o perigo de ela ver tudo normal.

Em 1994, com a desculpa de conhecer as riquezas do país, a Receita Federal permitiu declaração de bens sem comprovação de origem e de renda. Os sonegadores ganharam a legalidade, igualmente aqueles que sempre cumpriram com suas obrigações. Agora, a Receita irá anistiar quem deve até 10 mil reais. Como a carga tributária é de cerca de 40%, provavelmente, seja a causa dessa inadimplência. Até aí é aceitável, mas, desanimador mesmo é o governo federal declarar que estuda permitir a todos que mantêm contas no exterior, não declaradas, poder repatriá-las, sem comprovação de origem, pagando apenas 8% de Imposto de Renda. A alegação é de que o país precisa dar liquidez ao mercado , pela falta de crédito que a crise internacional está gerando, e estima-se que há US$ 70 bilhões no exterior escondidos. O estrago moral não seria muito pior? A maioria a ser beneficiada é de políticos corruptos, sonegadores, contrabandistas, traficantes, doleiros e deveria é estar presa. Outro fato intrigante é que se fala quase só dos corruptos, passando a idéia de que o corruptor não comete o mesmo crime. Um hospital sempre nos inspirou o maior respeito, mas não para os formandos em medicina do Paraná, que promoveram a maior baderna, inclusive soltando foguetes dentro do pronto-socorro, na casa que será deles, sem se importar com os doentes. As evidências do estado de normose são tantas que nosso futuro está seriamente comprometido pela falta de bons exemplos, que deveriam vir de cima e as primeiras vítimas são os jovens.

Governo diz que projeto de cotas para as federais pode ajudar a mudar o quadro

DA SUCURSAL DE BRASÍLIA O governo reconhece o fosso entre negros e brancos no ensino superior, mas está cumprindo a sua parte com o Prouni e com o envio, ao Congresso, de projeto de lei que institui reserva de vagas para negros e estudantes de escola pública nas universidades federais, diz André Lázaro, secretário de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC.
“O governo encaminhou o projeto de lei em 2004. Se ele tivesse sido aprovado, o cenário seria mais favorável”, diz. Sobre o Prouni, afirma que o programa “não reduziu brutalmente a distância [entre brancos e negros], mas brecou”. O projeto sobre cotas nas federais foi aprovado na Câmara e agora deve ser apreciado no Senado antes da sanção presidencial.
Lázaro defende que, para melhorar o quadro, é preciso aumentar a qualidade do ensino público, mas diz ser essencial a existência das cotas.
“Em todas as faixas etárias, a diferença entre brancos e negros no ensino superior vem caindo de modo bem expressivo, mas essa queda será insuficiente se a gente não conseguir estimulá-la, por exemplo, com a reserva de vagas”, diz.
Lázaro também ressalta que as ações afirmativas podem não ter tido impacto estatístico sobre o quadro geral, mas foram importantes para os indivíduos que, de outra maneira, não teriam acesso ao ensino superior. Desde 2005, 197 mil negros entraram no ensino superior pelo Prouni. E, segundo estudo do Ipea, cerca de 58 mil entraram por cotas nas universidades públicas que adotaram o sistema, considerando que todas as vagas tenham sido ocupadas.
Em relação à reivindicação de cotas em todas as universidades, inclusive as particulares, defendida por frei David, da ONG Educafro, o secretário se mostra reticente. “O ministério vê com muito respeito a luta do frei David, mas não tenho clareza se esse instrumento é o melhor. O modo como o MEC se relaciona com o setor privado é regulatório, mas tem que ser construído em parceria.”
Para o ministro Edson Santos, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República, o problema também está na ausência de uma lei que determine a adoção da reserva de vagas em todas as universidades públicas.
Ao criticar os que atacam as cotas por considerar que não se aplicam a uma sociedade miscigenada, ele aponta que as cotas em universidades irão aumentar a presença de negros nos cursos mais elitizados. “Quero desafiá-los [os críticos] a mostrar essa miscigenação em medicina, engenharia, odontologia, cursos que exigem formação integral. Se eles provarem isso, ganham esse debate.” (AP)

Para gêmeos da UnB, sistema é uma "furada"


DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

René de Souza, 32, negro, tentou entrar na UnB por quatro anos. “Por ter feito o ensino médio em escola pública, eu tenho o direito de fazer escola pública”, diz, ao justificar o fato de somente no ano passado ter se candidatado a ingressar em uma universidade particular por meio do Prouni.
Mas também pelo programa do governo federal ele não conseguiu passar, porque, para entrar nas universidades privadas que escolheu -instituições prestigiadas de Brasília-, precisaria ter tido uma nota maior do que a que obteve no Enem.
René defende o sistema de cotas, diferentemente dos irmãos gêmeos Alan e Alex Teixeira da Cunha, 19. No ano passado, eles protagonizaram uma polêmica quando apenas um deles foi considerado negro pela UnB, que depois reviu sua decisão.
Alan, que, como seu irmão, fez escola particular, hoje estuda educação física na universidade. Diz que tirou a melhor nota entre os cotistas do curso e que seria aprovado de qualquer maneira. “Essa história mostrou que é uma furada.”

Cota não altera nº de negros na universidade

Participação de pretos e pardos no ensino superior público variou 1,8 ponto percentual -passou de 36,4% dos alunos para 38,2%

Número de estudantes negros nas universidades particulares passou de 26,2% para 29,5% de 2004 a 2007; Prouni dá bolsas desde 2005

ANGELA PINHO
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA

As políticas de ações afirmativas adotadas até agora por universidades públicas e pelo governo federal, por meio do Prouni, tiveram pouco impacto sobre a participação dos pretos e pardos no ensino superior.
Dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio) mostram que, de 2002, quando as universidades começaram a instituir programas de cotas, a 2007, a participação de pretos e pardos no ensino superior público variou 1,8 ponto percentual -passou de 36,4% dos estudantes de graduação do setor para 38,2%. De 2001 a 2002, a variação foi de 2,8 pontos percentuais.
Pretos e pardos são nomenclaturas usadas pelo IBGE para a classificação de raça/cor, a partir da autodeclaração dos entrevistados.
Na rede particular, a presença do grupo passa de 26,2% para 29,5% de 2004 a 2007. A principal ação afirmativa no setor é o Prouni, que desde 2005 concede bolsas a estudantes carentes de escola pública na proporção igual à de pretos, pardos e indígenas de cada Estado.
O baixo impacto das políticas de ação afirmativa adotadas até agora pode ser explicado pelo fato de que a maior parte dos alunos não é afetada por elas.
No Prouni, os 197 mil pretos e pardos que entraram pelo programa desde sua criação correspondem a 45% dos bolsistas. Considerando os que entraram em 2006, porém, o ingresso representou apenas 1% do total de matrículas no ensino superior.
O impacto de cotas em universidades públicas também é restrito considerando-se que três quartos dos estudantes estão em instituições privadas.
Desde 2002, segundo estudo do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), 33 universidades públicas, de ao menos 250, passaram a adotar algum tipo de cota racial.
O projeto de lei que o governo quer aprovar no Congresso prevê que 50% das vagas nas federais sejam reservadas a alunos de escolas públicas, e que esse percentual seja dividido de acordo com a proporção de pretos, pardos e indígenas de cada Estado.
Mesmo se aprovada, porém, a lei terá reflexo pequeno sobre o quadro geral, embora de fato aumentem a presença de pretos e pardos nas instituições federais em que as cotas forem instituídas.
Segundo o mais recente censo do ensino superior produzido pelo Inep, com dados de 2006, as federais respondiam naquele ano por 12,4% das matrículas em todos os cursos de graduação do país.
Caso as vagas para pretos e pardos correspondessem à sua representação na população brasileira -ou seja, 49,8%-, haveria uma reserva correspondente a 3,1% das matrículas no ensino superior.
“Há todo um engodo em torno desse assunto [lei que cria cotas]”, diz José Luiz Petrucelli, pesquisador do IBGE, favorável às cotas. “Mesmo se essa lei tivesse sido aprovada e estivesse sendo cumprida, ela não tem um efeito prático muito importante. Tem um efeito simbólico muito importante, por isso tanta polêmica.”
Os números acendem no movimento negro uma reivindicação de cotas em todas as universidades, públicas e privadas.
Segundo frei David, da ONG Educafro, essa reivindicação é planejada para daqui a cerca de três anos, já que, na atual lista de prioridades, vêm antes a aprovação do projeto de lei pelo Senado, a criação de bolsas para os alunos cotistas conseguirem se manter nos cursos e o monitoramento do desempenho acadêmico deles, para, segundo afirma, divulgar os benefícios da política para a população como um todo. A idéia não deve encontrar apoio no Ministério da Educação.

Crescimento
Mesmo com baixo impacto de ações afirmativas, a presença dos pretos e pardos no ensino superior, contando tanto o público como o particular, tem uma trajetória crescente na última década. Em 1998, pretos e pardos eram 18% dos estudantes de graduação. Em 2007, o número já era de 31,5%.
Para Simon Schwartzman, do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade), a principal razão para o crescimento é o aumento de matrículas, que foi de 187% na última década.
Isso aconteceu no ensino médio. A participação dos pretos e pardos nessa etapa passou de 42% para 50,5%, aumentando o número de pessoas aptas a cursar o ensino superior.
A qualidade da educação é um fator apontado para melhorar o acesso à universidade pela população mais pobre -e, conseqüentemente, de mais pretos e pardos, geralmente associados a essa faixa econômica.
Jorge Abrahão, do Ipea, diz que, aliadas à expansão das vagas nas universidades federais que vem ocorrendo sob o governo Lula, as ações afirmativas poderão produzir um impacto maior do que o de hoje.

Brasil comemora os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos

Entre terror estatal e supremacia branca, o Brasil comemora os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos

Por Jaime Amparo Alves* e João Costa Vargas**

O ano de 2008 deve terminar com novos recordes de mortes por agentes do Estado nas capitais brasileiras, marcadamente Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife. No ano dos cento e vinte anos da abolição formal da escravidão, dos vinte anos da chamada Constituição Cidadã e dos sessenta anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, nada a comemorar: o terror racial se solidifica e a morte do povo negro é, mais que nunca, condição indispensável para a garantia da paz.

Dois recentes acontecimentos dão um balanço parcial do que celebrar no sexagésimo aniversário da Declaração da ONU: o assassinato do menino Matheus Rodrigues, de oito anos, executado pela Polícia Militar, na Baixa doSapateiro, Complexo da Maré, no ultimo dia 05 de dezembro, e a absolvição, no último dia 10, do policial militar William de Paula, acusado de homicídio duplamente qualificado do menino João Roberto, de 3 anos. A lista de atrocidades nas comemorações da Declaração poderia ser mais extensa e incluir mortes anônimas ainda sem explicação, como a de LucasHungria Trindade, 16 anos, Alexandre Fraga, de 17 anos, Ricardo Matos dos Santos, de 21 anos, mortos pela polícia militar baiana em janeiro deste ano. Ou ainda a morte de sete jovens no Jaraguá (zona norte de São Paulo), em mais umadas incontáveis execuções sumárias no município.

Guilherme Pinto - ExtraA Declaração de 1948 surgiu no rastro de atrocidades da Segunda Guerra Mundial, e tinha como um de seus principais objetivos a prevenção de genocídio. Assustada com o horror de Hitler em casa, embora acostumada a exercê-lo nas suas colônias, a Europa – e os Estados Unidos – assumiu a vanguarda de proteger os direitos humanos a partir de uma carta universal que tem como pano de fundo o homem branco europeu/anglo-saxão. Como era de se esperar, o conceito abstrato e universalista de ‘direitos humanos’ não incorpora, e não poderia incorporar, as vastas populações que não se incluem na categoria do ideal humano. Os povos negros e indígenas representam a antítese do conceito e por isso estão fora do âmbito de proteção contra as políticas de terror impetradas em nome da paz. E aqui a lógica se aplica tanto no âmbito internacional, quanto nas relações internas do Estado com suas populações.

Entre todas as estratégias de genocídio do povo negro, as ações da polícia militar e civil nos morros cariocas, na periferia de São Paulo, na Grande Recife, ou no subúrbio soteropolitano são as que expõem de forma mais crua as fraturas da política de direitos humanos do Estado brasileiro. O balanço é de terror: em 2007, a Secretaria de Segurança Pública do Rio registrou 1.330 ‘autos de resistência’ seguidos de morte. Somente nos seis primeiros meses de 2008 já foram 849 mortes. Entre 1997 e 2006, oficialmente, foram assassinadas 7.244 pessoas no estado do Rio, de acordo com as organizaçoes de direitos humanos. Na Bahia, o terror não é diferente: segundo relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa, entre os anos de 1998 e 2004, foram assassinadas 6.308 pessoas em Salvador e região metropolitana, das quais 93% eram negras. Sob as mesmas justificativas e com as mesmas estratégias de seleção de suspeitos e execução sumária, a polícia de São Paulo matou 5.333 pessoas entre 1996 e 2006. E estes são apenas os números oficiais permitidos vir a público.

Quais os limites do Estado genocida brasileiro? Não há limites. Como se vê, a absolvição de agentes do Estado acusados pelo assassinato de crianças é sinal verde para que as políticas de extermínio sejam levadas ao seu grau-zero, com a destruição literal de corpos negros infantis com tiros de canhão e metralhadora. Nesse sentido, se o assassinato do menino João Roberto, filho da classe média, pode ser lido como atrocidade, tragédia na prática policial, o que dizer do terror racial sistematicamente vivido por tantas crianças negras nas favelas cariocas? O assassinato do menino Wesley Damião da Silva, de três anos, um dos seis mortos há um ano na operação policial no morro do Jacarezinho, na zona norte do Rio, não mereceu nenhuma linha na imprensa, muito menos explicação das autoridades públicas. O mesmo pode ser dito do assassinato de Iury Andrade da Rosa, de 12 anos, morto em maio de 2007 na operação militar que deixou 17 mortos no Complexo do Alemão. Resistência seguida de morte / auto de resistência: este é o carimbo que sela o anonimato das vítimas e o consolo aos que ficam para enterrar os corpos. Aqui está explícita a licença para invadir residências, torturar, matar suspeitos em nome da ordem. É a política da terra arrasada e do uso permanente do terror como forma de combate ao crime.

As duas máximas são: bandido bom é bandido morto, e “não se pode fazer uma omelete sem quebrar os ovos”, como nos lembra o secretário de segurança pública do Rio. Nesse sentido, se há tempos já se tornaram naturalizadas as cenas brutais de homens negros sendo metralhados por helicópteros da polícia em incursões militares, se o caveirão já se incorporou à geografia dos morros cariocas – assim como o camburão preto se incorporou à geografia do subúrbio de Salvador e Recife, e a Rota à hiperperiferia paulistana – porque a morte de crianças negras com balas no coração iria comover a classe média branca brasileira?

Cínica, dissimulada e cruel, a ‘turma do asfalto’ nega o terror racial em que vivemos. Os seus mais ilustres representantes ocupam os principais meios de comunicação para defender a insustentável tese da excepcionalidade brasileira: o Brasil, ao contrário da África do Sul e dos Estados Unidos, não segrega, nem lincha seus negros, dizem nossos neofreirianos. A verdade é que o Jim Crown brasileiro é tão perverso quanto o dos Estados Unidos, ou o sistema de apartheid da África do Sul. A excepcionalidade pode ser o fato de que se naqueles países se iniciou há décadas um sistema de reparação, por certo ainda longe de concluído, aqui o linchamento de negros em praça pública e a segregação nos morros caminham a passos largos.

No cálculo do cinismo neofreiriano está a lógica racial da sustentabilidade da supremacia branca: admitir que o sistema criminal penaliza os negros, admitir que a favela é a reatualização da senzala e admitir que raça informa a distribuição da morte prematura de homens negros no país equivaleria a aceitar a tese do genocídio negro e suas implicações políticas para os racialmente privilegiados. A política de segurança pública do nosso tempo é a política da descartabilidade do corpo negro. Estes são os princípios que orientam as políticas nazifacistas de segurança pública de Sérgio Cabral no Rio, José Serra em Sao Paulo, Jaques Wagner,em Salvador, Eduardo Campos, em Pernambuco, e, por que não, a política de Lula com sua selvagem Força Nacional de Segurança.

Portanto, se o massacre do povo negro, e da juventude negra de modo particular, é condição indispensável para a paz dos brancos, não há outra saída a não ser lutar. E é nesse contexto de lutas em que nos encontramos que se põe para nós uma questão a nosso ver essencial: re-pensar a nossa posição política em relação ao Estado. Como buscar reconhecimento de direitos de cidadania de um Estado assassino? Quais os limites do diálogo entre o movimento negro e o Estado genocída? Não seria o caso de que aceitando os termos e dialogando com o Estado o movimento negro legitima suas ações? A constatação desconcertante é a de que, em que pesem a qualidade e o ainda ínfimo número de cargos, é inédita tamanha representatividade negra nos postos do Estado. Até a polícia militar começa a falar em programa de diversidade! E a máquina não pára… o sangue negro jorra – e jorra forte – nas ruas Brasil a fora. Voltaremos ao assunto. Por hora, viva os 60 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, viva a supremacia branca!

*Jaime Amparo Alves – é jornalista
**João Costa Vargas – é professor de antropologia na Universidade do Texas, em Austin.

Rádio e TVs são obrigados a divulgar autores das músicas



As emissoras de rádio e televisão do País são obrigadas a informar ao público os dados das músicas executadas durante a programação diária. A proposta, que visa facilitar a fiscalização de direitos autorais e valorizar os criadores das obras musicais, do deputado Ivan Valente (Psol-SP), foi aprovado na Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, este mês.



Segundo o texto aprovado, os programas deverão informar o título da música, o autor da letra e da melodia, e o intérprete. No caso de músicas eruditas, a informação deverá recair sobre o autor, a nome da orquestra e do regente. Os dados podem ser veiculados antes ou após a execução.


O texto determina que as informações deverão ser prestadas até mesmo nas execuções públicas. Nesse caso específico, o desrespeito sujeita os responsáveis pelo evento a multa de 20 vezes o valor do direito autoral devido.


Os recursos arrecadados, segundo a proposta, serão revertidos para o Fundo Nacional de Cultura (FNC). Instituído pela Lei de Incentivo à Cultura, o FNC é usado para financiar projetos culturais no País.


Outro aspecto importante do projeto, apresentado pelo relator, deputado Carlos Abicalil (PT-MT), é a exigência imposta às emissoras de rádio e TV de divulgar no seu site na internet, no último dia útil de cada mês, a relação completa das músicas veiculadas durante o mês.


O projeto, que tramita em caráter conclusivo, já havia sido aprovado pela Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática. A proposta ainda será analisada pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ).


Com Agência Câmara

Escola e Esperança

Liberal só na aparência, a escola continua autoritária
Lair Mattar – Mestre em educação pela UFMG
O aumento da violência nas escolas públicas e particulares brasileiras, em geral, tem sido atribuído à omissão das famílias na educação dos filhos, quando, na verdade, pode ser conseqüência da falta de adaptação das crianças e dos jovens ao mundo. Os valores de quase toda sociedade contemporânea vinculam-se à produção e ao lucro, mas, já que a criança e o jovem não os geram, passaram a ser vistos apenas sob a ótica de consumidores. Embora vivam melhor do ponto de vista do conforto material que a tecnologia oferece e de certa liberalidade que podem ter no comportamento, as pessoas de todas as faixas etárias sentem que sua participação social restringe-se a consumir o supérfluo. O que é particularmente doloroso para quem não tem dinheiro para exercer esse papel indigno destinado aos cidadãos. Além disso, frente ao discurso amoroso das religiões, a desigualdade social é uma contradição difícil de ser compreendida pelos mais jovens, que ainda não aprenderam a lidar com a hipocrisia.

A vida verticalizou-se; não há mais casas com quintais, na periferia pobre das grandes cidades do País. A maior parte da população vive em apartamentos pequenos e em ruas barulhentas, ou em condições piores, nas favelas. Os pais e as mães precisam sair para trabalhar fora, deixando as crianças sozinhas. Fechadas em pequenos espaços, em virtude da violência, elas acabam ficando muitas horas sob o domínio da televisão, que lhes estimula o consumo. O lazer é caro para as famílias que não dispõem de recursos financeiros sequer para se alimentar, por outro lado, as mais afortunadas têm poucas opções além da ida ao shopping, nos fins de semana.

A sociedade brasileira ainda não se deu conta de que está sonegando às crianças e aos jovens outra parte da vida, que foi tão importante para as pessoas de outras gerações. Trata-se do contato com a natureza, que não pode ser substituído por qualquer outra atividade, pois é por meio dele que as pessoas conseguem transcender à dimensão meramente material da existência. A globalização produziu cidadãos alienados para o consumo de toda espécie, e fez a todos reféns. Assim, na escola, a educação, que se mostra liberal na aparência, continua, em sua essência, autoritária, pois não consegue apresentar alternativas de vida para as novas gerações. Aquelas professoras e professores que eram amados porque levavam seus alunos a querer transformar o mundo, e que inspiraram homens e mulheres que deram e ainda estão dando uma contribuição valiosa para nossa história, quase não existem mais. Quando uma menina de 11 anos escreve de Ibirité, cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte, para o “Papai Noel dos Correios”, desejando que ele viva mais mil anos, vem-nos o temor provocado pelo aquecimento global. Quando, porém, pede cadernos de desenho e conta, com entusiasmo, que costuma compartilhar seu material escolar com seus colegas de turma, vizinhos e primos, a chama da utopia volta a iluminar a noite do planeta.

Ele não nasceu numa manjedoura

por Michelle Amaral da Silva última modificação 19/12/2008 13:48

Colaboradores: Silvia Beatriz Adoue

Nenhuma boa estrela anunciou a chegada de Carlos, mas a mãe o recebeu, como se fosse trazido por um anjo. Um garoto comum entre todos os garotos comuns de Bauru, com uma mãe e uma irmã, como todas as mães e irmãs que lutam cada dia para manter a casa em pé com a maior decência

Nenhuma boa estrela anunciou a chegada de Carlos, mas a mãe o recebeu, como se fosse trazido por um anjo. Um garoto comum entre todos os garotos comuns de Bauru, com uma mãe e uma irmã, como todas as mães e irmãs que lutam cada dia para manter a casa em pé com a maior decência

19/12/2008

Silvia Beatriz Adoue

Ele não nasceu numa manjedoura, também não chegou aos 33 anos e nem surpreendeu os doutores do templo com a sua sabedoria. Há, porém, um par de coincidências entre os dois garotos. Para começo de conversa, os dois vieram ao mundo numa família pobre. Nenhuma boa estrela anunciou a chegada de Carlos, mas a mãe o recebeu, nove anos após o nascimento da sua filha, como se fosse trazido por um anjo. Foi um garoto comum entre todos os garotos comuns de Bauru (SP), com uma mãe e uma irmã, como todas as mães e irmãs que lutam cada dia para manter a casa em pé com a maior decência.

Mesmo que esteja num canto da sala, a máquina de costura é o coração da casa. Nela se revezam mãe e filha para pagar as contas. Aquela máquina, elas pensam, é uma bênção. Sem ela, não teriam segurado as pontas. O menino cresceu ouvindo aquele barulho intermitente como um acalanto. RRRRRRRR (silêncio) RRRRRRRR (silêncio). Não há feriado. Só param o barulho para não atrapalhar o sono dos vizinhos. Do seu quarto, era só ouvir o barulho e o Carlinhos podia adivinhar o gesto de cada uma das mulheres da casa. A irmã mais rápida, com intervalos menores. RRRR (…) RRRR (…). A mãe, mais cuidadosa, fazendo olhinho de japonês, já não enxergando. Ela sempre esquece de acender a luz. Trabalhando no escuro? Acende a luz, mãe. Nos últimos tempos, Carlos começou a ter raiva do barulho da máquina, raiva do esforço das mulheres que apenas lhes deixava tempo para comer, dormir e tomar banho. Serviço não se rejeita. A conversa, o filme, o cafuné e os planos de estudar junto, tudo que é bom ficava adiado. Ano próximo a gente volta, fazemos supletivo.

Tudo nessa casa ficava para depois. Eles tentaram, bem que tentaram. Foi bem difícil com Carlinhos. Ele não era bom pros estudos. Todo mês mudava a professora. E as que duravam mais também não tinham paciência com aquele bando de moleques. Carlinhos ia ficando para trás e a professora não reparava. A mãe também não sabia ajudá-lo com a lição. Ficou três anos na quarta série. Deu uma esticada boa de repente, os pelos crescendo nas pernas. Tinha vergonha de ficar entre as crianças menores e foi ficando cada vez mais caladão. Mais triste. Cada vez com mais raiva do barulho da máquina. Ia logo pro quarto ouvir música de fone de ouvido.

Quando era mais novinho, a máquina o fascinava. Ficava em pé observando a agulha subindo e descendo rapidão, mastigando o pano. Cuidado com a mão, Carlinhos, que você machuca. Ele ficava olhando hipnotizado. Mas, no último ano, o olho dele desviava da agulha, desviava da máquina, desviava dos olhos das mulheres da casa. Havia sangue no olho do menino. Não podia ouvir o barulho da máquina que saía pra rua. Pra onde você vai, menino? Vou co’s amigos. Esses amigos… Ele tem que fazer alguma coisa, mãe. Sem estudo, não vai conseguir emprego decente.

A mãe, Elenice, se matriculou com ele. Toda noite iam juntos pra aula e depois faziam juntos a lição de casa. Carlinhos recuperou a mãe da máquina. Era tão bom poder ser criança outra vez. Ele estava gostando, e aprendia. Mas tinha as contas pra pagar, aparecia serviço urgente. Carlinhos, vou ficar para terminar este serviço, você pega a matéria e a gente estuda junto depois. Faltou um dia e depois outro. Se a senhora não for, eu também não vou. A dona Elenice ficava agoniada, entre a espada e a parede. Como que era? Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

O bicho comeu. Carlinhos parou de ir pra escola. E saía direto pra rua. A dona Elenice tentava segurar. Ele até tem seu quarto. Mas co’barulho da máquina nem dá pra assistir televisão. Lembra. Ela lembra daquele dia que olhou pro seu menino. Aquele menino que nenhuma estrela anunciou, mas que ela recebeu como se fosse trazido por um anjo. Olhou bem no fundo do olho do menino de sangue no olho, pra além do sangue no olho, lá no fundo. Ano próximo a gente matricula de novo. Sim, mãe. Ano próximo a gente volta. E saiu pra rua.

Naquela sexta-feira, perto do Natal, Carlinhos apareceu com uma moto. De quem é essa moto? De um colega, mãe, vamos dar uma volta na avenida e depois ele pega.

Dona Elenice olha pra trás. Pensa como as coisas chegaram até esse ponto. Uma e outra vez pergunta a si mesma como podia ter evitado. Naquela madrugada, chegaram 6 policiais batendo com força na sua porta e gritando. É um erro, pensou. Mas não, estavam atrás do Carlinhos. Cinco ficaram trancados com ele e um ficou na sala com as mulheres. Horas a fio trancafiados. Devia ser um erro. Eles iam perceber. Meu filho é um menino. Eles vão perceber. Ele só tem 15 anos. É procedimento normal, senhora. No começo, ela até confiou. Mas ouviu, entre os gritos dos policiais, os gemidos do Carlos, mais menino que nunca no mesmo quarto onde ele se deitava para ouvir música. Na estante, ainda, os cadernos de escola. A porta se abriu e viu seu filho carregado, inconsciente, para fora da casa.

No quarto, os CDs fora das caixinhas, os cadernos no chão, o fio desencapado. Na sala, a máquina de costura, agora silenciosa, sem acalantos para o menino que não nasceu na manjedoura.

Silvia Beatriz Adoue é professora da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF).

O almirante negro

MÁRIO MAGALHÃES

NADA COMO SENTENÇAS e pitacos sobre o passado para revelar cabeças e miolos do presente. Por dever de ofício, horas antes da inauguração da estátua do marinheiro de primeira classe João Cândido Felisberto, no dia 20 de novembro, indaguei à Marinha sua opinião acerca da homenagem.

O presidente da República participava do ato diante da baía de Guanabara, a mesma onde em 1910 mais de 2.000 marinheiros -boa parte negra- se sublevaram em quatro navios de guerra contra os castigos físicos que perduravam na Força, decorridos 22 anos da Abolição.
Foram mortos quatro oficiais a bordo e duas crianças em terra, quando a então capital foi bombardeada pelos rebeldes. O episódio se tornaria célebre como a Revolta da Chibata. A refrega foi determinante para o ocaso das atrocidades herdadas da escravidão.
Líder do movimento, João Cândido acabaria pouco tempo depois em cana, em uma ilhota junto com 17 companheiros. Só ele e um outro saíram vivos. O velho marinheiro morreria pobre em 1969. Aldir Blanc e João Bosco dedicaram-lhe um samba de antologia no qual foi aclamado como “Almirante Negro” -questões paralelas impuseram a mudança da letra para “Navegante Negro”.
Noventa e oito anos após o levante, o Centro de Comunicação Social da Marinha respondeu que não identifica “heroísmo nas ações daquele movimento. Entretanto, nada tem a opor à colocação da estátua, desde que haja o cuidado de evitar inserções ofensivas à Força e às vítimas dos amotinados”.
Por inserções ofensivas talvez se entenda a recusa ao hábito de açoitar o tronco dos marinheiros como o dos escravos nos pelourinhos décadas antes. Ainda hoje, a Marinha do Brasil ensina: tratou-se de “um triste episódio da história do país” -a Revolta da Chibata, não o cotidiano de corpos golpeados.
A Marinha, que em 1964 conheceu de perto a indisciplina militar, melhor faria se cultivasse a cautela. Enquanto Lula exaltava João Cândido e os revoltosos, a Força os condenava. Ao arrolar as atribuições do presidente, a Constituição obriga-o a “exercer o comando supremo das Forças Armadas”. Chefe de um governo pusilânime diante dos militares, Lula fez que não ouviu a insubordinação.
Pior do que peitar o comandante das Forças Armadas -e as bases do Estado Democrático de Direito- é a sobrevivência de um pensamento que justifica as chibatadas, ao demonizar quem contra elas se insurgiu. A história, contudo, é implacável: enquanto a Marinha mantém a pregação anacrônica, João Cândido, feito estátua, contempla as águas da Guanabara onde um dia combateu o bom combate.


MÁRIO MAGALHÃES, repórter especial da Folha, escreve hoje excepcionalmente neste espaço.

A adoção por famílias homossexuais

Maura Angélica de Oliveira Ferreira, juíza de Direito da 1ª Vara Regional do Barreiro, especialista em Direito Público, doutoranda em Ciências Sociais e Jurídicas, professora no curso de Direito da Faculdade Metropolitana
Hoje, a adoção é totalmente regulada pelo Código Civil (CC) e podemos chamá-la de irrestrita, pois é irrevogável e estabelece vínculos absolutos de filiação entre o adotando e o adotante. Fora do CC ficaram só os casos de adoção por estrangeiros, ainda regidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Desprezaram todos os laços de consangüinidade, desvinculando-se, definitivamente, o adotado de sua família biológica, tornando-o, de forma absoluta, filho da nova família. Nada mais fez o legislador que cumprir as disposições do artigo 227 da Constituição da República de 1988.

Qualquer pessoa pode adotar isoladamente outra, bastando apenas ser maior de 18 anos e que entre ele e o adotando haja uma diferença de idade de 16 anos. A adoção só se processa por meio do Judiciário e, depois da sentença, ela se torna irrevogável, transformando o adotando em membro da família, como se biologicamente assim já o fosse. Em conseqüência, ele se torna parente não só dos adotantes, mas de todos os seus ascendentes, descendentes e colaterais, inclusive para efeitos sucessórios.

Com a existência de um Estado Democrático de Direito, a instituição “família” assumiu novos contornos: deixou de lado os valores que a constituíam e passou a se fundamentar nas relações de afeto, no interesse de vida comum, independendo até da existência de vida sexual, vez que já se admite reprodução da espécie sem sexo e sexo sem matrimônio, assim como existem pessoas ligadas pelo casamento e que optam por não ter prole, e filhos sem um dos pais.

Constatamos que o conceito de família modificou-se substancialmente. A regra não é mais a família formada por homem e mulher ligados pelo casamento e com filhos. Até mesmo a Constituição Federal cedeu a essa nova concepção de família quando criou a figura da “união estável” e concedeu o poder familiar àquele que estivesse no comando, e não ao pai de família tradicionalizado na figura do homem. Com a igualdade entre as pessoas e a proteção dos filhos até mesmo fora do casamento, este deixou de ser o pilar da família, que hoje é constituída pela união de pessoas ligadas pelo afeto, pela comunhão de vida e parceria.

Pautando-nos nessa orientação constitucional que igualou as pessoas, no princípio da dignidade da pessoa humana e daquele que proíbe qualquer discriminação, não podemos deixar de admitir que hoje existam famílias formadas por homossexuais. Porém, apesar desta evidência fática e social, as uniões entre pessoas do mesmo sexo ainda encontram resistência jurídica, que a mim se apresenta como um retrocesso sociocultural, um apego ao revogado CC, resquício de um patriarcado que não tem mais sentido.

Sendo a família constitucionalmente admitida como aquela formada pelo afeto, todas as uniões que visem à constituição de uma relação sólida, contínua e duradoura, permitindo aos seus componentes alcançar a realização pessoal, o crescimento individual, o desenvolvimento socioafetivo que os torne cidadãos melhores têm que ser admitidas como unidades familiares merecedoras da proteção estatal. Em face disso, filio-me à corrente daqueles que entendem já ser constitucionalmente protegida a união familiar entre pessoas do mesmo sexo, porque família é instrumento, e devemos proteger todas as formas de vínculos afetivos, mesmo aqueles não previstos expressamente em lei, mas que se identifiquem com o sistema constitucional.

Definido que a união entre pessoas do mesmo sexo, se presentes os requisitos da notoriedade, publicidade, coabitação e fidelidade, constitui-se em uma unidade familiar que merece receber a proteção do Estado, devemos indagar agora sobre a possibilidade de essa família homossexual adotar filhos. Quando falamos inicialmente sobre a adoção, enfatizamos o fato de que qualquer “pessoa” pode adotar. Demos ênfase à palavra pessoa porque, ilogicamente e de forma hipócrita, com preconceito, admite-se que um homossexual, isoladamente, adote um filho, mas não se permite que esse mesmo filho seja adotado também pelo parceiro sexual daquela mesma unidade familiar.

Puro preconceito, mascarado sob o manto de alguns segmentos sociais, que alertam para provável perigo de identificação entre o filho adotivo e o modelo do adotante, que por lealdade afetiva também se tornaria homossexual. Nada mais retrógrado e preconceituoso. Por menos conhecimento que tenhamos no ramo das ciências, sabemos que a criança se identifica com a função exercida pelos seus genitores, independentemente do sexo, ou seja, ela se identifica de forma masculina com aquele que exerce a função paterna e de forma feminina com quem exerça a função materna, não importando se quem as exerça seja do sexo masculino ou feminino.

A orientação sexual dos pais não é causa determinante no desenvolvimento da personalidade da criança. Será que todas as crianças educadas por famílias heterossexuais se tornam heterossexuais? Se assim fosse, de onde teriam surgido aquelas que posteriormente se decidiram pela homossexualidade? Há uma série de argumentos, sem fundamentos, a querer enfatizar a proibição da adoção por homossexuais, seja ela concomitante ou não. Chega-se até à ridícula argumentação de que não haveria como colocar no registro civil o nome de um homem como mãe ou de uma mulher como pai em caso de adoção concomitante. Nada mais fácil de resolver: bastava consignar no registro: “nome dos pais” ou “nome das mães”.

Muito mais séria do que tais discussões fúteis e discriminatórias é a situação de milhares de menores que moram nas ruas, abandonados em orfanatos ou qualquer outra instituição ou abrigo. Nenhuma instituição dessas, por mais estruturada que seja, pode oferecer aquilo que de fato necessita uma criança: amor e afeto, carinho e aconchego de família. Admitir-se a adoção por famílias homossexuais, com certeza ajudaria em muito a minimizar a questão do menor abandonado, que, com certeza passaria a ser educado com assistência material e intelectual, recebendo carga de amor, afetividade e carinho necessários e suficientes para se tornar um adulto saudável e produtivo como convém à sociedade e ao Estado.

PICHADORES

Castigo para quem suja
Ministério Público identifica vândalos que poluem a cidade e começa a aplicar punições aos integrantes das gangues que atuam principalmente na Região Centro-Sul da capital
Bernardino Furtado
Sidney Lopes/EM/D.A Press – 13/11/08
Muro do Colégio Estadual Central, no Santo Antônio, alvo dos grupos formados por adolescentes

A investigação sobre gangues de menores de idade de Belo Horizonte que usam a internet para fazer apologia da pichação, do uso de armas de fogo e de drogas começou a colher os primeiros resultados. Nos últimos dias, a Coordenadoria de Combate aos Crimes Cibernéticos do Ministério Público Estadual (MP) encaminhou ao Juizado da Infância e da Juventude quatro adolescentes, todos de classe média alta, identificados graças ao monitoramento de imagens no site de relacionamento Orkut. Três deles confessaram a autoria de pichações nos bairros Buritis e São Bento. O quarto negou ser pichador, mas admitiu que é o rapaz que aparece numa fotografia no Orkut com uma tarja nos olhos e um revólver na mão diante de um espelho rabiscado.

Segundo a promotora Vanessa Fusco, que coordena a investigação, mais oito adolescentes serão ouvidos nas próximas semanas. Ela explicou que, apesar da negativa, há provas de que o garoto da arma participou de pichação nos muros dos colégios Santo Tomás de Aquino, no São Bento, e Coração de Jesus, no Funcionários. O menor, que assina as pichações com a alcunha de ‘Shot’, e um comparsa, também ouvido pelo MP, moram em apartamentos de alto padrão no próprio Bairro São Bento, um dos mais nobres da Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

A situação de Shot, por sinal, é a mais grave. Além de recuperar a pintura dos prédios pichados, tende a ser penalizado com multa e a obrigação de prestar serviços à comunidade por um determinado período, segundo a promotora. Isso porque ele tem uma passagem recente pela polícia. Em outubro, foi apreendido por porte ilegal de arma e passou uma noite nas dependências da Divisão de Orientação e Proteção à Criança e ao Adolescente (Dopcad). O menor estava em um restaurante do São Bento com o revólver ostensivamente colocado à sua frente, sobre a mesa. Apavorados, clientes das mesas vizinhas chamaram a polícia.

Um dos rapazes ouvidos, morador do Buritis, na Região Oeste, já acertou as contas com a lei. Antes mesmo de ser levado à presença de um juiz, seus pais comprovaram ter custeado a recuperação de paredes e de muros que o garoto havia pichado nas redondezas de casa. Um colega, residente no Bairro Floresta, mas que pichava no Buritis, aguarda a audiência na Justiça para saber que medidas punitivas terá de cumprir. Segundo Vanessa Fusco, no caso das pichações no Santo Tomás de Aquino e no Coração de Jesus, o MP solicitou à direção dos colégios um orçamento da recuperação da pintura dos muros externos para estimar a extensão do dano a ser pago pelos pichadores.

Criada em junho deste ano, a Coordenadoria de Combate aos Crimes Cibernéticos armazenou cerca 300 mensagens postadas no Orkut por integrantes de grupos de pichadores. Além de textos, alguns assinados com apelidos, contêm imagens dos próprios pichadores em ação, exibição de armas de fogo, de munição, de dinheiro e de substâncias apresentadas como cocaína e maconha. A equipe da coordenadoria concluiu que há cerca de 10 gangues desse tipo em ação na Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

EDUCAÇÃO O uso da internet pelas gangues está associado à compulsão dos jovens pichadores de dar visibilidade à própria ousadia, seja para impressionar colegas ou, principalmente, integrantes de grupos rivais. A investigação do MP descobriu que, além da pichação, a garotada resolveu exibir na rede internacional de computadores o namoro com crimes mais graves, como o assalto à mão armada.

O trabalho dos promotores de Belo Horizonte chamou a atenção da filial brasileira da Microsof, que desenvolve um trabalho de educação de jovens para o uso seguro da internet. A empresa firmou uma parceria com o MP no início deste mês para a realização de um programa de palestras sobre o tema em escolas de Belo Horizonte.

Já às vésperas do fim do ano letivo, houve tempo suficiente para um colégio particular, o Santo Tomás de Aquino, e um público, a Escola Estadual Paschoal Comanducci, no Bairro Jaqueline, na Região Norte. No Colégio do São Bento, as apresentações do diretor de assuntos jurídicos e corporativos da Microsof Brasil, Rinaldo Cesar Zangirolami, e da promotora Vanessa Fusco atraíram, além dos alunos, cerca de 50 pais.
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Roubo de donativos

Caso de Santa Catarina pede reflexão sobre a corrupção e a impunidade no Brasil

As águas deste fim de ano ainda nem terminaram e já produziram muitas tragédias, destruição e mortes em várias cidades mineiras e fluminenses, depois de ter arrasado regiões inteiras no Sul do país. Mas, até agora, nenhum desastre chocou mais do que o flagrante do furto de donativos para flagelados de Santa Catarina, praticados por voluntários e por soldados do Exército que ajudavam no socorro às vítimas da mais dramática enchente dos últimos tempos naquele estado. De repente, o país, que havia se comovido e se solidarizado com o sofrimento daquelas famílias, acompanhou revoltado pela televisão as cenas degradantes de pessoas que, embora não tenham sido atingidas pela enxurrada, subtraíram sem o menor constrangimento roupas, alimentos e objetos destinados a reduzir o sofrimento das vítimas da enchente. Um desastre moral.

Felizmente, esses aproveitadores da desgraça alheia são minoria. Mas o golpe que perpetraram não atingiu apenas os flagelados catarinenses. O assalto impõe uma reflexão sobre o tamanho do estrago que o sucesso da corrupção e a impunidade podem estar causando nos espíritos mais fracos deste país. Afinal, não têm faltado maus exemplos, oferecidos todos os dias por governantes, políticos, empresários e até magistrados que se locupletam, ora com o desvio do dinheiro público, ora com o ilícito comercial. Portanto, não se trata apenas de cobrar mais eficiência dos órgãos públicos responsáveis por receber e administrar o fruto da generosidade de milhares de brasileiros, essa sim, a virtude que melhor representa a média do nosso povo. É preciso reforçar os processos civilizadores e de transmissão de valores morais, a começar pela educação e pelo funcionamento mais ágil e eficaz da Justiça.

Se há gente roubando de quem perdeu tudo, a culpa não é só da insuficiente segurança do depósito de donativos. A coisa é muito mais grave. Na verdade, estamos falhando em construir uma sociedade fundada na ética, e não na esperteza do egoísmo; no trabalho, na honradez, e não na malandragem e na frouxidão de caráter. Que prevaleça o exemplo de Daniel Manoel da Silva, o catarinense que perdeu netos, um irmão, a casa, o trabalho e, mesmo assim, mandou devolver R$ 20 mil, esquecidos num casaco de pele que sua família recebeu em doação. “Esse dinheiro não era para mim. Não é certo usar o que não é seu”, disse ele. Foi o bastante para resgatar a verdadeira índole do povo de seu estado e promover uma enchente de esperança nas pessoas de bem de todo o país.

E o rádio digital? Uma análise responsável

O rádio digital, mesmo nos países de origem, tem ainda muitos problemas, que precisam ser solucionados antes de tomarmos uma decisão que terá um impacto direto nas comunicações
Hélio Costa, Jornalista, senador da República, ministro das Comunicações
O artigo de Nair Prata (3/12) sobre o projeto de rádio digital, em estudos no Ministério das Comunicações (Minicom), merece reparos em virtude dos inúmeros equívocos cometidos pela autora. O primeiro é não ver que a TV digital está com o seu cronograma de instalação adiantado em 18 meses e que, em apenas um ano, desde seu lançamento, em 2 de dezembro de 2007, cerca de 46% da população brasileira, inclusive a de Belo Horizonte e região, já tem cobertura de TV digital. Os Estados Unidos levaram 10 anos para chegar a esse índice em um país que tem aproximadamente a mesma extensão territorial do Brasil. Diferentemente da TV, o rádio digital continua enfrentando sérios problemas nos seus países de origem. Em retrospecto, quando chegamos ao Ministério das Comunicações, há três anos, algumas das principais emissoras brasileiras já estavam testando, sem observação de normas técnicas, o sistema norte-americano IBOC de rádio digital. O grupo de trabalho que criamos para supervisionar as decisões sobre o rádio digital sugeriu a realização de testes oficiais e rigorosos com o IBOC e também com os padrões europeus. O nosso objetivo é encontrar as ferramentas básicas de um sistema que transmita em ondas médias (OM) e freqüência modulada (FM), de modo a que o receptor do rádio digital possa captar as transmissões no sistema analógico atual, em OM e FM, e passar automaticamente para o digital onde a tecnologia estiver disponível. Caso contrário, precisaríamos de três receptores diferentes: um para o rádio analógico que você tem em sua casa ou no carro, um para captar a transmissão em FM digital e outro para captar a transmissão em ondas médias ou OM digital.

Os padrões norte-americano e europeu de rádio digital têm diferenças fundamentais. Enquanto o IBOC transmite no mesmo canal, sem utilização de um novo espaço no espectro eletromagnético, tanto em OM quanto em FM, o europeu DAB (digital audio broadcasting) , precisa de freqüências diferentes para a transmissão em ondas médias e não faz transmissões em FM, ou freqüência modulada. O DRM, por sua vez, também só transmite em OM e precisa de novos canais, impossibilitando a sua utilização nas principais cidades brasileiras. Só recentemente o padrão europeu DRM informou que está estudando um sistema de freqüência modulada, transmitido no mesmo canal, no sistema digital. A empresa IBiquity, detentora da patente do IBOC, ou Radio HD, se prontificou a trazer os equipamentos para os testes que estão sendo conduzidos no Brasil pela Universidade Mackenzie, supervisionados pelo Ministério das Comunicações, Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) e Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). Os europeus, entretanto, até agora, não viabilizaram a aparelhagem necessária às medições de campo, fundamentais para uma avaliação científica e correta dos seus padrões. Outra questão que os três sistemas precisam resolver é a transmissão em baixa potência, que ainda não está definida, para que o rádio digital, no Brasil, não exclua as rádios comunitárias autorizadas, principais instrumentos de interação dos bairros e pequenas comunidades. Na verdade, esperamos que os EUA e a Europa resolveram os problemas que encontraram na implantação do rádio digital e que impediram, até agora, a sua popularização.

Vejam os exemplos: a edição do Wall Street Journal de 4 de novembro trouxe um artigo assinado pela editora de tecnologia Sarah McBride, no qual diz que “apesar dos milhões de dólares gastos no desenvolvimento e divulgação do Rádio Digital HD, os consumidores, até agora, não têm informações suficientes e ainda não demonstram qualquer entusiasmo pela nova tecnologia”. A revista Radio World, editada por engenheiros de rádio, em artigo de Paul J. McLane, diz que apenas 0,0015% dos norte-americanos ouvem o rádio digital, que está sendo testado comercialmente por 1,8 mil rádios de um total de 13 mil emissoras existentes no país. A FCC, a agência reguladora norte-americana, informa que o Radio HD cobre, atualmente, só 1,5% do território norte-americano e que tem apenas 450 mil usuários em uma população de 300 milhões de pessoas. A revista Radio World critica, também, o preço do receptor de rádio digital nos EUA: US$ 80 (R$ 170), o mais barato. Imagine a que preço esse rádio chegaria ao Brasil. Na Europa, a implantação do rádio digital também está com enormes problemas. A conceituada publicação Observatório do Direito à Comunicação, em 22 de fevereiro deste ano, fez uma análise crítica da questão sob o título “A transição para o rádio digital ainda está em xeque na Europa”. O artigo relata o “relativo fracasso do rádio digital, em ondas médias, reafirmando que os testes demonstraram que a qualidade do áudio do sistema DAB ou transmissão de rádio digital é pior do que o áudio da transmissão FM analógica”. O jornal inglês The Guardian, por sua vez, foi ainda mais incisivo na observação técnica que fez, e reproduziu assim o pensamento dos radiodifusores europeus: “Nós temos medo de dizer isso publicamente, mas, se pudéssemos, todos nós (dirigentes de rádios digitais) devolveríamos nossas licenças de DAB amanhã”. O analista de mídia do Dresdner Kleinwort, Richard Menzies-Gow, completou: “Os custos são altos e o formato não gera lucro”.

Como se vê, claramente, nem mesmo nos Estados Unidos e na Europa o rádio digital está aprovado. O Brasil está atento a tudo isso e só tomará uma decisão quando ela for tecnicamente correta e atender o interesse público. A demora não é nossa. O rádio digital, mesmo nos países de origem, tem ainda muitos problemas que precisam ser solucionados antes de tomarmos uma decisão que terá um impacto direto nas comunicações, na indústria eletroeletrônica e principalmente nas políticas públicas de inclusão digital. Por outro lado, como fez na decisão da TV Digital, o Governo Brasileiro não escolherá “um sistema de rádio digital até o fim de 2008”, como diz equivocadamente a articulista. Vamos indicar as ferramentas que devem compor a arquitetura do rádio digital. Na verdade, entre outras exigências, já amplamente divulgadas, o sistema terá de contemplar a transmissão em FM e OM, no mesmo canal, cobrir todas as zonas de sombras do rádio analógico, dar à indústria brasileira acesso aos detalhes técnicos do padrão, promover a transferência de tecnologia e não ter custo para o rádio-ouvinte.

Assim, ao contrário do que diz um e-mail divulgado pelo Núcleo de Pesquisa de Rádio e Mídia, e citado pela articulisa Nair Prata no Estados de Minas, o Minicom não propôs qualquer parceria com a empresa americana IBiquity. O que sugeriu foi que as indústrias brasileiras de eletroeletrônicos procurem os detentores das patentes dos sistemas norte-americano e europeus para discutir a transferência de tecnologia e os direitos de uso, especialmente do IBOC estadunidense, um sistema proprietário e com várias ferramentas exclusivas que demandam pagamento de royalties. Os mais recentes testes do rádio digital, realizados na cidade de São Paulo pela Universidade Mackenzie, concluíram, em julho último, que o IBOC, em ondas médias, apresenta sérios problemas de propagação, com áreas de sombra maiores do que as que são observadas no sistema analógico. O sistema europeu, DRM, por sua vez, só agora anuncia que está trabalhando com a possibilidade de transmissão em FM, no mesmo canal. Ainda ao contrário do que diz a articulista, o Ministério das Comunicações não defendeu, e nem defende, a adoção de qualquer dos sistemas estudados enquanto os técnicos do Minicom e da Anatel não estiverem satisfeitos com os testes que estão sendo realizados no Brasil e forem criteriosamente avaliadas as experiências com o rádio digital nos EUA e na Europa. Certamente, precisamos modernizar o rádio, mas só podemos fazer isso quando os sistemas estiverem funcionando a contento, seguindo as normas técnicas exigidas no exterior e no Brasil.

A cara do povo

Sandra Werneck prepara o lançamento de Sonhos roubados, filme rodado na periferia carioca.O longa aborda o dia-a-dia de três garotas que vivem em comunidades carentes
Janaina Cunha Melo
Vantoen Pereira Júnior/Divulgação
O rapper MV Bill interpreta o presidiário que se envolve com uma das meninas de Sonhos roubados
O filme Sonhos roubados, da diretora Sandra Werneck, funde realidade e ficção ao abordar a juventude na periferia. Com o realismo de quem há anos se debruça sobre esse universo, mas sem perder a referência da subjetividade, a cineasta conta que o novo trabalho é inspirado no livro-reportagem As meninas da esquina, da jornalista Eliana Trindade. O projeto vem sendo desenvolvido desde 2006 e foi proposto à autora por outros produtores. “Acho que pesou o fato de eu ser mulher. Talvez por isso tenha conseguido os direitos autorais”, lembra ela.

Antes de terminar o documentário Meninas, sobre gravidez precoce, Sandra já pensava em Sonhos roubados. Para ela, essa é a oportunidade de unir a observação de documentarista, mais atenta a questões sociais, à abordagem das relações pessoais. O filme, que deve estrear em 2009, retrata o cotidiano de três garotas do subúrbio carioca. “Falo do que é ser adolescente nessas comunidades, de como é sobreviver onde falta apoio e escola, de famílias desestruturadas”, adianta.

Entre as personagens está Daiane (Amanda Diniz), que tem adoração pelo pai, mas mora com o tio e é vítima de abuso sexual por parte dele. O sonho da garota é comemorar 15 anos como as adolescentes de classe média. Sabrina (Kika Farias) se apaixona por um bandido e fica grávida dele. Jéssica (Nanda Costa) perde a guarda da filha, mora com o avô e faz o impossível para recuperar o direito de conviver com a criança. Esse são os fios condutores da trama de Sandra, que resulta numa história de afetos, desencontros e amizade. No dia-a-dia das meninas há funk, pagode e a efervescência cultural de regiões onde a criatividade se oferece como alternativa à pobreza.

RAPPER O rapper MV Bill está no elenco principal. A diretora conta que ele foi convidado por demonstrar interesse em discutir a situação da juventude nas favelas a partir do ponto de vista feminino, como no livro Mulheres do tráfico, que escreveu em parceria com Celso Athayde, e pela série televisiva Falcão. “Foi maravilhoso trabalhar com ele. Bill entende o que estou fazendo, traz uma verdade sensacional ao filme. Ele é ótimo parceiro”, elogia. Para atuar, o rapper contou com o apoio de colegas experientes como Caio Blat, além de passar por processo de preparação cênica. “Ele chegava tranqüilo ao set. Trabalhamos bastante para dar tudo certo”, revela Sandra.

MV Bill interpreta o presidiário que se envolve com uma das protagonistas. O elenco também conta com Nanda Costa, Amanda Diniz, Kika Farias, Marieta Severo, Nelson Xavier, Daniel Dantas, Lorena da Silva, Guilherme Duarte, Ângelo Antônio, Silvio Guindane e Zezé Barbosa.

O ambiente retratado de forma violenta – sobretudo pelos telejornais, que enfocam as ações da polícia e do tráfico de drogas – interessa à cineasta. Sandra buscou outros aspectos dessas comunidades, chamando a atenção pelo sentimento de brasilidade que elas despertam. “É incrível a alegria da periferia por causa do futebol aos sábados, dos bailes. Não se imagina que seja assim um lugar retratado pelo tiro. Isso me seduz”, afirma ela.

Essa convicção fez com que a diretora trabalhasse com figurantes da comunidade, optando por gravar fora do estúdio para ficar o mais perto possível da realidade local. A maioria das cenas foi filmada em Ramos e em Curicica. “Será a primeira vez que o cinema mostrará o famoso piscinão de Ramos”, avisa ela.

Os vários meses de contato com as favelas permitiram a Sandra Werneck outras descobertas. O intercâmbio com os figurantes e os moradores, em clima de muita gentileza, e a disposição deles em filmar demonstram que o trabalho representou muito mais que a possibilidade de reforçar o orçamento. “O cinema dá às pessoas o poder de sonhar, ainda que por tempo determinado. Por isso eles foram tão solícitos. É importante que o cinema também mostre a cara do povo, para que o Brasil possa se reconhecer como nação”, conclui.

Grito dos Excluídos propõe plataforma de luta dos migrantes



O Grito dos Excluídos divulgou nesta quinta-feira (18), Dia Internacional do Migrante uma proposta de plataforma para um segmento dos movimentos sociais que tende a conquistar dramática atualidade devido à crise global capitalista: o dos trabalhadores emigrados. A proposta parte de uma concepção de luta por ”Um Mundo Sem Muros”.



A plataforma encontra-se nas conclusões de um longo artigo publicado no portal Adital, vinculado ao Grito, sobre A crise sistêmica do capitalismo e as migrações latino-americanas e caribenhas.*

Com base em dados da Organização Internacional para as Migrações (OIM), o artigo estima que atualmente há mais de 200 milhões de migrantes internacionais no mundo. Os latino-americanos somam 25 milhões, dos quais quase a metade provém do México. O Brasil, segundo o artigo, ”tem mais de 4 milhões de emigrantes, dos quais 1.5 milhões estão nos Estados Unido”.

O texto aponta que a ”profunda crise sistêmica do capitalismo mundial” tornou a situação dos trabalhadores migrantes ”mais vulnerável em todo o mundo”. Deixa em aberto se a crise levará a um retorno dos migrantes aos seus países de origem ou, ao contrário, a um aumento do fluxo migratório. Ao mesmo tempo, denuncia a política das metrópoles da América do Norte e União Européia, que ”criminalizam e vulneram” os migrantes.

O artigo fornece uma visão panorâmica das lutas dos migrantes, destacando o 1º de Maio de 2006 nos Estados Unidos. Fala também da sua organização:

”Muitas dessas organizações e associações de migrantes têm feito do Fórum Social Mundial das Migrações, derivado do Fórum Social Mundial, um espaço de reflexão, organização e denúncia das violações a seus direitos, demandando respostas de seus países e dos países receptores. Outro importante espaço é o Fórum Global sobre a Migração e o Desenvolvimento que reúne uma grande quantidade de organizações de migrantes asiáticas/os em sua luta contra as políticas dos governos que promovem o desenvolvimento à revelia dos próprios migrantes.”

O texto do Grito dos Excluidos – assinado também pela articulação panamericana equivalente, a Aliança Social Continental – apresenta como conclusão uma proposta de plataforma, que elvanta ”a bandeira da Cidadania Universal e de uma integração dos povos baseada sobre novos princípios de solidariedade, complementaridade, respeito à dignidade humana e responsabilidade com a natureza, entre outros”. Veja a plataforma:

”Definimos a Cidadania Universal que reconhece a todo ser humano (e grupo de humanos) em função de sua humanidade e não de sua origem nacional, ser titular/es de direitos econômicos, sociais, políticos e culturais, com respeito à diversidade, onde estejam. A Cidadania Universal compreende:

– Acesso e pleno desfrute dos direitos humanos e políticos consagrados pelos direitos internacionais e nacionais sobre essas matérias, inclusive o direito ao voto. É imprescindível que todos os governos assinem, ratifiquem e ponham em prática a Convenção Internacional da ONU sobre os Direitos dos Trabalhadores Imigrantes e de suas Famílias.

– Não criminalização das pessoas migrantes devido à situação administrativa em que se encontrem, pois não existe ser humano ilegal.

– Livre circulação das pessoas migrantes em nossa região, bem como nos Estados Unidos e na Europa (os principais destinos das/os migrantes latino-americanas/os).

– Regularização Geral, pois para poder chegar a uma verdadeira integração dos povos é necessário que todas as pessoas tenham asseguradas as mesmas condições de acesso a uma vida digna.

– A partir dessa perspectiva, condenamos a ‘Diretiva de Retorno’, a ‘Tolerância Zero’ e os ‘Muros da Vergonha’ que a EU e os estados unidos erigem como muros visíveis e invisíveis à dignificação das pessoas migrantes.

– A Cidadania Universal é uma urgência atual no mundo no qual acontecem as migrações, pois a dignificação das pessoas não pode esperar mais e devemos seguir a luta pela mesma com mais compromisso quando os governos das grandes potências e de muitos outros países impõem legislações punitivas, persecutórias e racistas contra as pessoas que saem de seus países buscando a forma de sobreviver dentro de um sistema econômico e social que as obrigou a deixar seus países e que, ao chegar a outro as castiga, como se as pessoas fossem responsáveis ou culpadas por ter sido obrigadas a emigrar.

– Que a migração seja uma eleição livre das pessoas e não uma imposição, uma opção forçada.

– Que a crise seja paga pelos que a causaram: OMC, FMI, Banco Mundial e pelas empresas especuladoras e pelos bancos. Não podemos tirar recursos da sociedade para salvá-los.

– A solução não é consumir mais, pois o planeta não agüenta mais; a solução é repartir, distribuir de forma justa e equitativa segundo as necessidades humanas em todo o mundo.

– Necessitamos uma mudança de modelo econômico, já que este de cunho neoliberal tem demonstrado não mais servir e que nunca serviu para a humanidade em geral.”

O Grito dos Excluídos é uma iniciativa da Igreja Católica no Brasil. Nasceu em 1995, por iniciativa do Setor Pastoral Social da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), como uma forma de dar continuidade à reflexão da Campanha da Fraternidade. Afirmou-se sobretudo graças ao protesto que realiza a cada ano durante a Semana da Pátria, na cidade de Aparecida (SP).

Com informações da http://www.adital.com.br

Aborto: o Brasil não pode fechar os olhos





O debate sobre os direitos sexuais e reprodutivos da mulher tem ocupado, a cada dia, mais espaço na agenda do governo, do parlamento e do judiciário. Isso se deve à luta das mulheres em suas mais variadas organizações por reconhecimento a direitos negados em nome, principalmente, da ética e moral religiosa.

Contudo, e talvez pela primeira vez na história do país, o principal dirigente do Estado arriscou dar declarações favoráveis à mudança do foco que tem prevalecido na abordagem do tema, trazendo-o para a ótica da saúde pública.

No Brasil, estima-se que mais de 1 milhão de abortos clandestinos aconteçam por ano. Dados do SUS mostram que nos últimos cinco anos, mais de 1,2 milhão de mulheres foram internadas com os mais variados problemas de saúde em consequência de abortos realizados sem as mínimas condições de higiene e segurança.

Os depoimentos do presidente Lula sobre essa questão geraram forte reação dos movimentos contra o aborto, em particular dos setores mais vinculados à Igreja. Na ocasião da visita do Papa Bento XVI ao Brasil o assunto ganhou grande visibilidade na mídia e reascendeu a discussão. Outro momento sensível do debate foi a apreciação e votação, pelo Supremo Tribunal Federal, da liberação do uso de células tronco embrionárias para terapias genéticas que, na visão dos setores contra o aborto, seria um passo para abrir a discussão da legalização da interrupção da gravidez nos país.

A reação a um possível posicionamento do governo favorável ao tema veio na forma de protestos, de apresentação de projetos de lei anti aborto na Câmara dos Deputados, inclusive alguns que são piores que a já ultrapassada legislação existente, que permite o aborto em casos de risco de morte para a mãe e de estupro.

Recentemente, a Justiça do Estado do Mato Grosso do Sul abriu verdadeira caça às bruxas a partir do fechamento de uma clínica que realizava abortos. Os arquivos do local foram apreendidos e cerca de 10 mil mulheres foram indiciadas, numa ação inaceitável e que passa por cima dos mais elementares direitos humanos.

O Brasil precisa avançar muito nesse debate. As declarações do presidente Lula, inclusive a mais recente feita durante a abertura da 11ª Conferência Nacional dos Direitos Humanos, precisam ter desdobramentos práticos no sentido de garantir à mulher esse direito. O país não pode mais olhar de braços cruzados esse drama que atinge, particularmente, as mulheres das camadas mais populares, as principais vítimas desse atraso na legislação brasileira.



Ódio a pichadores me deixou tanto tempo presa, afirma jovem


Caroline Pivetta da Mota, 24, ficou 54 dias detida por pichar a parede do “andar vazio” da Bienal de São Paulo

Única presa na ação, garota diz que raiva da sociedade é causada pelas “malditas pessoas que picham um muro branco”

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Caroline Pivetta da Mota, 24, ganhou ontem a liberdade, depois de 54 dias de prisão. Ela chegou a chorar ao se despedir da condenada por assalto a mão armada com quem dividiu uma cela na Penitenciária Feminina de Santana (zona norte de São Paulo). Saiu com uma micose que lhe provoca coceiras pelo corpo todo, “culpa da sujeira daquele lugar”, e com a convicção de que sua prisão prolongada foi decorrência do ódio que a sociedade dedica aos pichadores, causado pelas “malditas pessoas que picham um muro branco”. Como é que é?
Caroline, 20 tatuagens espalhadas pelo corpo, incluindo uma caveira entre os seios, piercing no nariz e na língua, baixinha, 1,55 metro, cabelos vermelhos, sobrancelhas recém-depiladas e risonha de felicidade ontem, foi um dos 40 jovens que, no dia 26 de outubro, picharam o andar vazio do prédio projetado por Oscar Niemeyer no parque Ibirapuera, onde acontecia a 28ª Bienal Internacional de São Paulo. Ela foi a única presa.
Caroline diz que foi agarrada pelos seguranças, jogada ao chão, xingada. Novata no mundo da pichação, a garota chegou a ser apresentada como liderança do grupo. Ela nega: “Eu só fiquei sabendo da ação na quinta-feira, três dias antes”.
O advogado Augusto de Arruda Botelho Neto, que assumiu o caso da jovem, diz que ela foi vítima de um “equívoco”.
“Nem o Fernandinho Beira-Mar, se fosse pego pichando um muro, receberia a pena que ela já recebeu. O Ministério Público denunciou a Caroline pelo crime de destruição de um bem protegido por lei, quando deveria tê-la denunciado pelo crime ambiental de pichação. Já seria um erro. Há mais. Também não se aplica a “destruição”. O muro pichado por ela foi pintado e continua lá. Não houve destruição nenhuma.” [Leia nesta página texto com pareceres de outros advogados sobre o caso].
Para Carol Sustos, como é conhecida entre seus camaradas de spray, a pichação na Bienal tinha o objetivo de “chamar a atenção para esta arte marginal”. Ela provoca: “Por que é que se aceita que uma pessoa exibindo-se nua [refere-se ao artista Maurício Ianês] seja uma forma de arte e uma parede com algumas letras e siglas não possa ser?”

Aristocrata
Carol Sustos é uma legítima representante da aristocracia dos pichadores, os que atacam prédios (quanto mais altos, melhor), admirados por seus pares pela coragem e ousadia. Como tal, nutre uma espécie de desprezo pelos pichadores do chão. “Eu detestaria que alguém fosse lá pichar a parede da minha casa. Se eu quisesse um muro sem qualquer cuidado, eu teria deixado sem qualquer cuidado. Mas não, eu pintei de branco. É lógico que vou ficar com raiva se alguém descaracterizá-lo”, surpreende.
Para a garota, rara representante feminina na categoria dos pichadores, o encanto da pichação de prédios (ela admite o ataque a 37) vai muito além do registro com spray naquela caligrafia peculiar.
“Eu gostava da dissimulação. De passar pela portaria, o porteiro me perguntar onde eu iria, eu despistá-lo e entrar, subir até o ponto mais alto, abrir a porta ou a janela e, lá em cima, olhar o céu, sentir o vento, ver a cidade de longe, em paz e em silêncio. É lindo. Deixava a minha vida muito mais contente”, diz a pichadora.
Ela terá de deixar essa beleza de lado. Sabe que, se pichar, volta para a cadeia, o que não quer. Vegetariana por compaixão dos animais, Carol sofreu com a dieta da cadeia. “Tu sabes, a comida lá era triste”, diz. “Aliás, aquele lugar inteiro era muito triste, 3.000 mulheres que não têm direito nem a um ginecologista; baratas, mofos e ratos por todos os lados.”
Carol chegou a participar de uma “rebelião pacífica” com suas colegas de cana. Naquele dia, nenhuma presa trabalhou, ou comeu. Ficou todo mundo fora das celas até as 23h. O protesto foi pela melhoria, entre outras coisas, da alimentação.
Ontem à tarde a jovem ainda não sabia onde dormiria. Durante a prisão, ela perdeu o apê em que morava, por falta de pagamento do aluguel.
Sem um real no bolso, Carol quer retomar o trabalho como artesã e morar no centro da cidade. Por enquanto, jura, ficará longe das latinhas de spray.

CORRUPÇÃO


Palavra conhecida em todo o mundo

José Carlos Morais – Uberlândia-MG

“A palavra corrupção talvez seja hoje a mais pronunciada pela população mundial. Diferentes estudos e experiências mostram que a corrupção é um fenômeno complexo recorrente em todos os países e produz efeitos políticos, sociais e econômicos que prejudicam o desenvolvimento das nações. Mas de acordo com especialistas em educação, o debate sobre a corrupção é fundamental e necessário logo no ambiente escolar. Para eles, mais do que saber o que é corrupção, é importante que os alunos aprendam a examinar, a criticar e a julgar mediante provas as várias faces da corrupção. Feito isso repetidamente, como um hábito, estaremos formando cidadãos honestos. A lei determina que as escolas desenvolvam valores, atitudes e comportamentos de cidadania. Quando se levanta dinheiro para fazer uma festa ou excursão e o aluno participa desse processo, ele pode aprender a respeitar o bem comum. Quando são eleitos representantes de turmas e, sobretudo, se estabelece a interação entre representantes e representados, os alunos aprendem o que são cidadania e democracia. Essas situações, vividas desde a infância, têm maior valor do que conteúdos programáticos. Em vez de ensinar a história do Brasil do passado para o presente, seria interessante partir do presente e verificar como o país foi se formando. Em vez de decorar termos, é melhor fazer um júri simulado sobre a corrupção e suas raízes históricas. Segundo estimativas do Banco Mundial, a cada ano cerca de US$ 1 trilhão em propinas e subornos alimentam a corrupção mundial. De acordo com dados do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, países que combatem a corrupção e fortalecem a aplicação da lei podem aumentar sua renda nacional em até 400%. Da mesma forma, a corrupção reduz a habilidade dos governos de prover as necessidades e serviços básicos para os cidadãos, fazendo com que investimentos em países corruptos possam ser até 20% mais onerosos do que em outros. Eduquemos, pois, nossos filhos, com a orientação devida, para que pautem seus atos sempre dentro da ética e dos bons costumes. Só assim, vamos combater essa maldita chaga, a corrupção.”

Rap é o caminho

Mano Brown encerra série de conversas com jovens, militantes e artistas das periferias de BeloHorizonte e aproveita para desfazer mitos em relação à música que denuncia as desigualdades
Janaina Cunha Melo
Euler Júnior/EM/D.A Press


Não basta ser malandro
e fazer cara de maluco porque vai ser
cobrado do mesmo jeito
na hora de pagar a conta

Mano Brown, rapper

O rapper Mano Brown, dos Racionais MCs, encerrou hoje série de bate-papos que realizou nas periferias de Belo Horizonte, a convite do Grupo Cultural NUC, do Alto Vera Cruz. Desde quarta-feira, ele está na cidade, conversando com jovens, militantes e artistas, sobre protagonismo em vilas e favelas. Acompanhado por Dom Pixote, do U-Time, e Du Bronx, do Rosana Bronx, ele trouxe rappers dos grupos apoiados em São Paulo pelo selo Cosa Nostra, do Racionais. Receptivo, bem-humorado e disposto ao diálogo franco com os participantes, ele iniciou conversa desfazendo mitos: “O rap não é solução. É apenas um caminho, entre muitos outros, para ajudar a resolver nossos problemas”, disse.

Recentemente, Mano Brown afirmou em show em Contagem que era chegado o momento de o movimento hip hop se repensar. Depois de mais de 20 anos de denúncias contra a desigualdade e injustiça social, ele defende mais ação. “Se o movimento só se repetir, vai cair na rotina, vai virar sistema, como ocorre com tudo que não se renova”, ele disse no palco. Durante a palestra ontem, na Escola Municipal Israel Pinheiro, no Alto Vera Cruz, o rapper argumentou sobre a importância de os veteranos motivarem a nova geração. “A gente que faz rap tem a obrigação de trazer mais um para perto, como elos de uma corrente. Montamos a gravadora para ter condições de produzir, orientar, ajudar que está chegando.”

Diferentemente do artista que dispara rimas ácidas, com deboche e ironia, Mano Brown falou de seu dia-a-dia no Capão Redondo, na periferia paulista. “Um minuto depois de acabar o show, estou de volta à realidade.” O cotidiano do rapper que se tornou uma das principais referências para a juventude negra e favelada – mas também tem sucessos repetidos em coro por jovens da classe média – é cercado por fãs de todas as idades. “Sei da minha responsabilidade. Converso, explico, acompanho. Conheço os atalhos e tento fazer algo positivo. O rap é minha vida, minha família.”

ELEGÂNCIA Autor de sucessos como Negro drama, Vida louca, Diário de um detento, que revelam a poesia sofisticada e atenta, Mano Brown conta que sua composição se alimenta dos sentimentos diversos. Raiva, emoção, felicidade, tudo está nas letras que convencem milhares de fãs no país. “O verdadeiro compositor não pode fazer média nem para favelado. Em tudo que faço, mostro a cara, mas nem sempre a verdade é o que agrada”, ele disse, comentando as inúmeras vezes em que foi mal interpretado.

Referência para os adolescentes, ele não contemporizou. Criticou números alarmantes de desempregados nas favelas mineiras, a desatenção governamental, mas também chamou a atenção das lideranças comunitárias e dos moradores dos aglomerados. “Quem tem acesso a esses números escandalosos precisa fazer pressão. Nosso povo é alegre, festivo, passa por dificuldades com elegância, mas, se a vida está de cabeça para baixo, não se pode negligenciar a situação”. E mandou recado direto aos mais jovens: “Não basta ser malandro e fazer cara de maluco porque vai ser cobrado do mesmo jeito na hora de pagar a conta. A cadeia está cheia de gente que não alcançou a meta, que multiplicou o crime querendo abraçar o mundo”, sentencia.

O novo CD dos Racionais MC’s está sendo anunciado para o segundo semestre do ano que vem. Três faixas inéditas, incluindo a polêmica Mulher elétrica, já estão circulando no mercado informal, em coletâneas de hip hop.

Nóis Tudo Hip-Hop


por Marcelo Buraco*

A primeira premiação do movimento hip hop da região do grande ABC foi um evento marcante e reuniu uma seleção de grandes artistas, produtores e militantes do movimento da região que fizeram e fazem à história do hip hop no ABC paulista.



Buraco, comemora o prêmio Guerrilheiro Cultural

A iniciativa pioneira foi da rapaziada do selo “Pau de dá em doido” que também se destaca na cena do movimento e marcaram um golaço ao juntar toda esta galera, trazendo a lembrança seus feitos e legados. Eu não poderia faltar nesta festa e me fiz presente. De quebra fui um dos homenageados e vou narrar pra vocês como foi a premiação intitulada “Nóis Tudo Hip Hop”.

Dia 5 de dezembro de 2008 às 18 horas começam a chegar manos e minas das sete cidades que compõem a região do Grande ABC paulista: Santo André, São Bernardo, São Caetano, Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra. O local escolhido para o evento foi o Saguão do Teatro Municipal de Santo André.

Pra quem nunca veio a região do ABC paulista, vale a pena destacar a importância econômica, cultural e social da região que possui uma população de quase 3 milhões de habitantes. Extensos corredores de vias urbanas interligam toda região com a capital na qual faz limite de um lado, e do outro lado à baixada Santista que possui o maior porto do Brasil. O que acontece aqui reverbera em todo Estado de São Paulo e consequentemente no país. Perguntem ao torneiro mecânico onde ele trabalhava antes de ir pro Palácio do Planalto.

Com o movimento hip hop no ABC a parada foi à mesma. Os grupos daqui se organizaram logo no inicio do movimento no Brasil. Várias casas de shows animavam as noites da galera. As sedes e praças dos bairros e cidades eram tomadas aos finais de semanas pela galera que se reunia pra se divertir e apresentar suas músicas, danças e graffites. E foi assim que artistas da região marcaram presença destacada neste movimento sócio-cultural que foi tomando conta das periferias em São Paulo.

Mesmo que relativamente próximos um dos outros, é mô treta reunir no mesmo evento tantos manos e minas que já fizeram várias correrias no movimento, e até por isto mesmo, geralmente estão organizando algum evento, atividades, nos corres de trabalhos ou tarefas pessoais, não é fácil reunir esta nata, a maioria com mais de 15 anos de atuação no hip hop.

Aí a galera do selo “Pau de dá em doido” capitaneado pelos manos: Enézimo que é vocalista do grupo Armagedom, grupo revelação do rap em 2000, Arnaldo Tifu que vem se destacando São Paulo a fora nos eventos de rap free style e o DJ Nato PK, tiveram a idéia de realizar a primeira premiação do movimento hip hop da região do grande ABC. E nesta primeira de muitas outras edições, como eles fizeram questão de frisar, iniciou homenageando aqueles que se destacaram aos longos dos anos devido à importância ou contundência de seus trabalhos.

Som rolando, a galera chegando se cumprimentando, interagindo e os manos avisaram: Vamos chega todo mundo no Anfitetro porque vamos dar inicio a noite de premiação.

Telão preparado e monitorado pelo DJ Nato PK, no palco reluzia as condecorações e os Mestres de Cerimônias Tifu e Stefânie deram inicio a premiação.

Outra grande sacada foi a particularidade com que chamaram cada premiação: ao DJ que marcou a história do movimento na região a nomenclatura do prêmio foi chamada de “Baileiro”, em função dos grandes bailes realizados pelos DJ’s que reuniam a galera pras festividades. Ao MC deram o nome de “Sonzera” devido ao peso que significou a música na cabeça da galera. E a cada premiação se abria no Telão o mano Enézimo fazendo um breve relato sobre o hip hop, aquele elemento cultural que estava em premiação e fazia também um relato do homenageado.

Só pra vocês terem uma idéia, quando eu tinha 13 anos saia de casa na madruga pra ver o DJ Tubarão que recebeu a homenagem de “Baileiro” tocar no Clube House, uma antiga casa de shows que sacudia as noites de fim de semana. Hoje ele toca pelo Brasil inteiro e já gravou com grandes nomes até da MPB.

Vocês se lembram daquele Rap: Alguém pague uma cerveja agora pra mim/ Já fui a outros bares, agora estou aqui/ Só foi 5 cervejas que eu bebi/ Mas ih daí… quem vai pagar pra mim?

Estou falando de Mister Théo que recebeu o prêmio “Sonzera” e vinte anos atrás foi tocado de norte a sul do Brasil com o rap da cerveja, criada em cima da melodia do rap The Doctor de Kool Moe Dee. A galera foi à loucura quando o mano que há muito tempo não víamos, cantou no palco acompanhado no compasso das palmas.

Outra pegada nervosa foi quando o mano Déxter direto do exílio falou ao radinho agradecendo a homenagem pro grupo “509 E” na premiação “além da quebrada” se destacando com principal grupo de rap do ABC no cenário nacional.

O Mano Nino Brow foi homenageado com o prêmio “História Viva” e aí nem precisa explicar muito o porquê, né? O cara simplesmente foi um daqueles que viveu a transição do “original funk” de James Brown e George Clinton para o rap de hoje.

Foram vários os destaques da noite, aliás, a noite toda foi de destaque, mas gostaria de falar de mais um que foi o prêmio “Quilombo 20” que representa o local ou projeto que marcou a cena do hip hop da região por reunir cotidianamente a galera das periferias de todo ABC, a Casa do hip hop de Diadema, reconhecida mundialmente.

Enfim manos e minas, a fita foi pesada e terminou regado de muito hip hop com a Back Spin Break Crew, DJ Nato PK, o rap do Armagedom com participação do Polemikaos. Fica o convite pra próxima edição do “Nóis tudo Hip Hop” que até no nome traz a marca da mistura do singular com o plural, e do erro proposital na concordância por parte daqueles que nunca ou pouco tiveram oportunidades, mas aí criaram pra si mesmo a sua própria chance.

Eu e o Beto Teoria que compomos a Nação Hip Hop Brasil e somos da região do Grande ABC fomos homenageados na premiação, eu com o prêmio “guerrilheiro cultural” e o Beto Teoria com o prêmio “resistência”. Agradecemos aos manos e minas do “Selo Pau de dá em doido” pela homenagem, e mais do que isto, por escreverem mais esta bela página da história do movimento. E o fizeram com muita criatividade, esforços pessoais e coletivos, muita competência na produção e união.

Segue na íntegra a relação de todos os homenageados pelo “Nóis Tudo Hip Hop”.

Baileiro – DJ Tubarão
Sonzera – Mister Theo
Black Power -Paradise
Arrisco um Risco (graffite) – Guerra de Cores
Role Certo (Casa de Baile) – Clube do Rap
Quilombo 20 – Casa do Hip-Hop de Diadema
Mulher Hip-Hop – Neuza
Multimídia Alternativa – Rádio Zumbi
Guerrilheiro Cultural – Marcelo Buraco
Literatura Hip-Hop – Livro ABC RAP
Vanguarda – Mc´s Black
Coletivo – Posse Hausa
Resistência – Beto Teoria
Dança Urbana – Back Spin Crew
Além da Quebrada – 509-E
História Viva – Nino Brown




*Marcelo Buraco, Membro-fundador da posse Negroatividade de Santo André


Festa do hip hop no Francisco Nunes

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Marcos Michelin/EM/D.A Press %u2013 30/10/08
Júlio César de Souza, Fabiola Rafaela e Bruno Eustáquio formam o Elemento.S

A terceira edição do Hip Hop In Concert – Mostra Metropolitana de Hip Hop de Belo Horizonte será sexta e sábado, no Teatro Francisco Nunes, com entrada franca. A festa, que começou ontem, reúne artistas de break, grafitti, MCs e DJs, além da competitiva de rap. Concorrem hoje os grupos Elemento.S, Instinto e APR – Artilharia Pesada da Rima. Serão destacados melhor performance de palco, conteúdo poético das letras, melodia e originalidade, além da classificação final.

O encontro conta ainda com Foyer Temático sobre elementos da cultura de periferia e com o seminário Hip Hop Chama, sobre profissionalização, autogestão e auto-sustentabilidade. Na noite de encerramento, amanhã, tem show do Sobreviventes do Terceiro Mundo e edição especial do Duelo de MC’s, além de espaço aberto para freestyle. A discotecagem é do DJ Dentinho. Durante a programação, será lançado o livro Guia ilustrado de grafitti e quadrinhos, de Piero Bagnariol e Fabiano Barroso. Realizado anualmente, o Hip Hop In Concert é promovido pela prefeitura com apoio de artistas, instituições e articuladores locais.

HIP HOP IN CONCERT
Teatro Francisco Nunes, Av. Afonso Pena, s/nº, Centro, Parque Municipal. Sexta e sábado, das 19h às 22h. Entrada franca.

Mensagem de Natal

São muitas as solicitações e também as deturpações que se inserem na compreensão do sentido mais verdadeiro da festa
Dom Walmor Oliveira de Azevedo, arcebispo metropolitano de Belo Horizonte
Esta mensagem é uma reverência inspirada na delicadeza de Deus, o Pai de todos os homens e mulheres, a maior delicadeza, a delicadeza insuperável, a delicadeza de enviar Jesus, o seu Filho Amado, ao mundo. Ele vem ao encontro: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, e todos recebemos a dignidade de filhos” (Gl 4,4). A delicadeza de Deus, na encarnação do Verbo, Jesus Cristo, estabelece diálogo direto entre corações, divino e humanos: “Muitas vezes e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas. Nestes dias, que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também criou todo o universo” (Hb 1,1-2). A grandeza desta delicadeza de Deus, Jesus Cristo feito homem, Deus conosco, nos sustenta e inspira para que “corramos com perseverança na competição que nos é proposta, com os olhos fixos em Jesus, que vai à frente de nossa fé e a leva à perfeição” (Hb 12,1b-2ª).

Com os olhos fixos em Jesus! Faço votos que o tempo do Natal seja vivido assim por nós todos. Tendo os olhos fixos n’Ele, seremos sensibilizados por esta delicadeza de Deus, compreendendo o sentido de nossas vidas e vivendo a certeza de que n’Ele está a fonte de toda alegria duradoura. Não é fácil, em se considerando as circunstâncias atuais, fixar os olhos em Cristo Jesus, razão única e insubstituível das festas natalinas. Não é fácil porque são muitas as solicitações; também as deturpações que se inserem na compreensão do sentido mais verdadeiro da festa. A tendência é fixar o coração no que está do lado de fora. As confraternizações são vividas, tantas vezes, apenas como um momento de encontro e de desfrute que pouco alimenta uma fraternidade solidária. A fraternidade solidária é muito mais do que o congregar-se já tradicional para comer, beber. A fraternidade solidária nasce de uma redobrada atenção a esta presença de Deus Conosco.

A alegria desta presença faz brotar no coração um modo novo de ver as coisas e de sentir. Gera os propósitos novos e indispensáveis para qualificar melhor a vida que se tem como dom deste Deus que vem ao nosso encontro para, oferecendo a própria vida, garantir o resgate definitivo da vida de todos nós. Penso, neste momento, especialmente, nas crianças, também nos jovens. Mas particularmente nas crianças. Seus corações estão alimentados pelo folclore em torno de Papai Noel. Esta dimensão folclórica das festividades natalinas tem também seu sentido. Suas origens, tantas vezes pouco conhecidas, remetem ao sentido do bem e da solidariedade, ao compromisso com a alegria que se pode devolver ao coração das pessoas. Contudo, não pode substituir a razão primeira, única, central, insubstituível, inigualável da festa deste tempo do Natal: “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Não há outra razão mais importante para este tempo de festa.

É necessário, pois são estes os verdadeiros votos para que seja abençoado este tempo do Natal, colocar no centro de nossas comemorações e festividades, no centro de nossos corações e de nossas vidas, como está no centro do presépio, Cristo Jesus. Cristo é a luz verdadeira. Ele é a garantia de que “o povo que andava nas trevas viu uma grande luz, para os que habitavam as sombras da morte uma luz resplandeceu” (Is 9,1). Esta luz fulgurante, presença amorosa de Deus Conosco, ilumina os cenários que dolorosamente emolduram o Natal do Senhor deste ano, de cada ano. Estes cenários fazem desfilar diante de nós todos os sofrimentos da humanidade, as dores de homens e mulheres, os escárnios lançados sobre os pobres, as perversidades que perpetuam as brigas e desavenças, a incapacidade de transformar ódios em perdão e reconciliação, os descasos, a ganância que chafurda tantas pessoas na lama da corrupção e dos interesses espúrios.

A delicadeza de Deus, Jesus Cristo, o Salvador, que vem ao nosso encontro, tem força para recuperar a sensibilidade perdida, a convicção de que é bom ser bom e o empenho por uma sociedade justa e solidária, enquanto caminhamos com Ele, indo ao encontro do Pai, que o envia, nossa vida definitiva. Faço votos de que este tempo de Natal seja um exercício meditativo e orante, muito profundo, desta verdade. Este exercício encharcará o coração e fará dele uma fonte inesgotável de delicadezas, grandes e pequenas, nos gestos e palavras, nas partilhas e pelo comprometimento com grandes projetos para o bem de todos, pela vida, a vida, em razão da qual o Senhor Jesus veio: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Seja esta a experiência do nosso Natal. Assim, nosso Natal será Santo, abençoado. São estes os meus votos, de coração, reacendendo em todos nós a chama da esperança.

SÃO PAULO – O Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo concedeu nesta quinta-feira liberdade provisória para a estudante Caroline Pivetta da Mota. Caroline estava presa há mais de 50 dias depois de ter pichado o andar da 28ª Bienal de Artes de São Paulo. De acordo com a assessoria de imprensa do TJ, o alvará de soltura da estudante já foi expedido e um oficial de Justiça irá levar até ela na sexta-feira. A Justiça de São Paulo já havia negado por duas vezes o pedido de liberdade de Caroline.


De acordo com a Secretaria de Administração Penitenciária (SAP) de São Paulo, o alvará de soltura ainda não chegou até Caroline. Como o expediente já foi encerrado, Caroline só deixará a prisão na sexta-feira, informou a assessoria.

Após ser detida pelos seguranças, a garota foi levada ao 36º Distrito Policial (Paraíso) e três dias depois foi presa na Penitenciária Feminina Sant’Ana, no Carandiru.

Ré primária, Caroline dividiu a cela com uma detenta. Seu companheiro de grupo, o taxista Rafael Martins, de 27 anos, também foi preso, mas liberado após sete dias.

Os dois ainda podem responder processo por destruição de prédio público, com pena de um mês a dois anos de prisão. A acusação pode agravar porque o prédio é tombado.

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas – ainda um longo
caminho a ser percorrido – continuação
Foto: Daniel Cardoso

Daniela Giovana, Jornalista e
mestranda em História pela UFMG

Remédios e Exames especializados
Outra dificuldade que atinge em cheio os falcêmicos mineiros diz respeito às consultas especializadas. A Anemia Falciforme funciona como uma anemia crônica que pode afetar qualquer órgão do corpo. Quando afeta o cérebro pode ocasionar derrame, inclusive em crianças de 4 ou 6 anos. O paciente pode ter complicações respiratórias graves e precisar ir para o CTI; complicações no coração e precisar de uma consulta com um cardiologista. Pode ter uma complicação de vias aéreas e necessitar de uma consulta com um otorrino, e assim por diante. Mas muitas vezes o acesso a esses exames, que precisam ser conseguidos em caráter de urgência, é obtido na base da ‘política de boa vizinhança’, a partir de contatos dentro dos hospitais.

O Sistema Único de Saúde (SUS) vê esse paciente como qualquer outro, não respeitando as particularidades da doença e relegando o atendimento à vala comum. Mas o que falta para que o sistema de saúde passe a tratar a doença como sendo de alta complexidade? “Falta aplicar um princípio aprovado pelo próprio Ministério da Saúde que é a equidade racial. O ministério já reconheceu, mas ainda precisa ser aplicado. Assim, esse paciente não vai entrar na vala comum porque vai ter suas particularidades formalmente compreendidas, estabelecidas em portarias, bem conhecidas pelas pessoas. Hoje em qualquer gestor que você vá, ele fala que tem problema com AIDS, com leucemia, com tuberculose, e te pergunta por que ele deveria tratar os doentes falciformes de maneira diferente. Para evitar isso basta que o ministério aplique um princípio que ele mesmo criou”, explica o médico e professor José Nélio Januário.

75% das famílias ganham menos de um salário mínimo, 80% dos pais não têm escolaridade primária e 90% dos pacientes não completam o ensino fundamental. Diante desse quadro, fica fácil perceber a dificuldade presente na hora de comprar os remédios receitados para dar uma continuidade ao tratamento após a saída do hospital. “A gente tem lutado junto às secretarias municipal e estadual para conseguir essa medicação. Muitos pacientes vivem na periferia com baixa renda, isso quando estão trabalhando. Mas por muitas vezes nós temos que procurar a própria Promotoria de Saúde do Estado que dá um grande apoio porque conhece as nossas necessidades”, sentencia o presidente da Dreminas.
O ser humano por trás da doença

Tassia Ludmila Gonçalves Machado, 4, já passou por várias intercorrências, muitas delas obrigando a internação da mãe junto da filha. A última contabilizou o saldo de 15 dias no hospital, com uma crise de dor que teve que ser tratada a base de morfina. “Costumo dizer que essa é uma doença que causa muita dor física para o paciente, mas que traz uma grande dor emocional e psicológica para os pais. A gente vive esse drama dia após dia, igual a uma bomba relógio. Hoje ela está bem, mas amanhã ela pode amanhecer com uma dor que pode ser fortíssima”, confidencia Cláudio Henrique.

As implicações psicológicas que envolvem familiares e pacientes ainda são aspectos pouco ou quase nunca observados pelo sistema de saúde. Diante de uma doença como a Anemia Falciforme em que os processos de dores são estendidos por toda uma vida, a começar do nascimento, aspectos de inclusão social desse paciente e acompanhamento da família são fatores que também não podem continuar a serem esquecidos. Por mais que hospitais cuidem, a família é quem vai acompanhar integralmente a vida desse paciente.

“Muita coisa já avançou, a qualidade da parte técnica do sangue está bem melhor, mas o lado humano ainda fica a dever. Estava na sala de espera e uma criança estava chorando porque não queria tirar sangue. Precisava ter ali uma psicóloga para conversar com essa criança e explicar que ela precisa tirar sangue. Não é fácil ficar numa cama tomando picada para fazer 50 exames. Quando sou internada peço um acompanhamento psicológico, uma pessoa que tem uma doença crônica tem que ter esse atendimento. Muitas mães são simples, acham que se pedirem um psicólogo vão achar que o filho é doido. Muitas não sabem desse direito”, afirma D. Rose Maria Betran.

Preconceito e longos períodos de internação que acarretam em perdas de aulas, contribuindo para o abandono dos estudos, são outras barreiras que dificultam a inserção social. “Parei de estudar no primeiro ano do magistério, fiquei um mês doente e depois não voltei mais, desanimei. Minha mãe dizia ‘se o corpo não está bom, a cabeça está’. Quando ficava em casa lia muito, cheguei a dar aulas particulares para crianças e também fazia artesanatos”, conta D. Rose.

Muitas empresas ao fazerem os exames de admissão não estão contratando pessoas com Anemia Falciforme devido ao grande número de faltas que esse funcionário terá. Em se pensando um mercado de trabalho com a disputa desigual que vemos hoje, a situação se complica ainda mais. A saída tem sido o sub-emprego, com atividades desempenhadas sem carteira assinada.

Ação social que vira política pública
Hoje ainda não se percebe no Estado uma política pública voltada para a Anemia Falciforme. O passo mais concreto nesse sentido foi dado com a Lei Estadual 14.088 de 6 de dezembro de 2001, que dispõe sobre a prestação de aconselhamento genético e assistência médica integral aos portadores de traço e Anemia Falciforme. A Lei foi aprovada após um longo período para ser sancionada e a luta agora é para colocá-la em prática em todo o Estado. Ela existe, mas ainda não funciona. O foco principal deve ser o interior do estado, onde, por falta de informação, até mesmo transfusões de sangue desnecessárias são feitas. Muitos profissionais nos municípios não têm o treinamento para fazer o diagnóstico e o tratamento corretamente.

O trabalho dos movimentos sociais chega à instância governamental e acaba virando política pública. Esta realidade está presente em quase todos os setores da sociedade. “Se a sociedade não se manifestar e mostrar o problema em que vivem ela não alcança os objetivos lá na frente. Por exemplo, hoje as secretarias já estão capacitando o Programa de Saúde da Família, isso foi uma luta do movimento para mostrar a necessidade de se informar sobre a doença e que hoje o governo está olhando com o cuidado de levar isso para âmbito estadual. É uma conquista do movimento”, explica Cláudio Henrique.
A situação mineira no trato com a Anemia Falciforme aponta um quadro de excelência no atendimento ambulatorial, demonstrando uma boa integração entre a capital e os hemocentros do interior. E isso é um resultado direto de um bom entendimento entre uma universidade (UFMG) e uma fundação (Hemominas).
Demonstra na prática os benefícios que podem ser alcançados quando todos os envolvidos juntam forças para conseguir melhorias para suas lutas como é o caso concreto do Centro de Educação, Informação e Apoio ao Doente Falciforme (Ceiadof). Mas é uma experiência que ainda carece de mais investimentos na parte do poder público estadual e municipal no que se refere a parte de tratamento: melhores atendimentos em hospitais, acesso universal a consultas especializadas e medicamentos, sem deixar de lado é claro a atenção humana ao paciente.

Analisando a Anemia Falciforme em Minas Gerias é possível perceber que mudanças mais significativas necessitam de uma urgente reforma do sistema de saúde com aplicação universal de um direito que é garantido ao homem em seu nascimento pela constituição: a igualdade.

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas – ainda um longo
caminho a ser percorrido – continuação
Foto: Daniel Cardoso

Daniela Giovana, Jornalista e
mestranda em História pela UFMG

Hoje existem duas formas de atendimento nos ambulatórios do Hemominas. O primeiro caso, e também o mais comum, é feito por crianças triadas para doença falciforme. “A partir do momento que o sangue é colhido, no quinto dia de vida pelo exame do pezinho, ele é levado para o NUPAD/UFMG, onde é feito o diagnóstico. Quando é identificado um caso positivo, a criança é encaminhada para um dos hemocentros mais próximos de sua casa para fazer a primeira consulta e os pais receberem as orientações necessárias”, explica Júnia Guimarães Mourão Cioffi, Diretora Técnico Científico da Fundação Hemominas. O segundo tipo de entrada fica por conta de pacientes em uma faixa etária maior, detectados por meio de estudo familiar ou atendimento de atenção básica. Atualmente 4.800 pacientes portadores de doença falciforme estão em tratamento na Fundação Hemominas em Belo Horizonte.

Foto: Pedro VilelaNeste acompanhamento, que é ambulatorial, uma vez que a Fundação Hemominas não possui uma estrutura hospitalar, o paciente recebe todas as vacinas básicas e especiais e é atendido por uma equipe multidisciplinar: hematologistas, pediatras, clínicos, infectologistas, assistentes sociais, psicólogos, dentistas, pedagogos, fisioterapeutas, fisiatras e ortopedistas. “Nas unidades que não possuem um desses profissionais, e o paciente precisa de atendimento, ele é referenciado para a capital, mas muitas vezes o atendimento é feito na própria rede. É um paciente diferenciado”, afirma a hematologista Mitiko Murao, da Fundação Hemominas e do Hospital das Clínicas.

Esta uniformização no atendimento pode ser atribuída as próprias características da Fundação Hemominas de funcionamento em rede, utilização de protocolos de atendimento padronizados discutidos periodicamente com as outras unidades do Estado e o próprio protagonismo no atendimento a pacientes falcêmicos. “O Hemominas, criado em 1985, tornou-se referência porque desde o início os paciente com doença falciforme e conglopatias hereditárias eram referenciados para ele. Em 1998 culminou com a triagem neonatal. O paciente quando detectado já era encaminhado para um local de referência e atendido desde o início. O programa de tiragem neonatal e a rede de hemocentros em Minas são bastante diferenciados”, explica a hematologista Mitiko Murao.

Muito se avançou em Minas para o diagnóstico precoce e acompanhamento ambulatorial, mas as etapas seguintes de tratamento continuam carecendo de mais atenção.

Foto: Pedro VilelaDesafios hospitalares
Movimento social, médicos e pacientes são unânimes em apontar as dificuldades de atendimento hoje encontradas nos setores de urgência e emergência da rede hospitalar no estado. Belo Horizonte é uma das cinco capitais de pior atendimento em urgência e emergência do país, segundo ranking levantado pelo Ministério da Saúde. Há um grande sucateamento na atenção a saúde, tanto na capital, quando no âmbito das responsabilidades do Estado.

“A urgência e emergência é um problema principalmente para os adultos”, afirma a médica Mitiko Murao. A mesma opinião é compartilhada pelo médico José Nélio Januário: “a grande dificuldade hoje no estado é com relação às urgências. As crises de dor são um dos principais motivos das intercorrências. Esses atendimentos são parcialmente resolvidos na região metropolitana, mas nós não temos ainda um plano para todo o Estado”.

No entanto, o que se percebe é que esse problema só será totalmente resolvido com uma ampla reforma no sistema de saúde nacional, em que deverão ser colocados em prática os princípios garantidos pela constituição que garante atendimento médico e educação de forma ampla e irrestrita a todos os cidadãos. Enquanto isso não acontecer será muito difícil que a população tenha uma atenção universal voltada para a igualdade no atendimento.

Foto: Pedro VilelaNos hospitais a falta de informação por parte dos profissionais de saúde também compromete o atendimento. “Nós tivemos vários pacientes que chegaram ao médico com crise falando que tinham Anemia Falciforme e os médicos não sabiam como avaliar esse diagnóstico, como fazer esse tratamento a partir dessa crise. Um dos problemas que temos hoje de modo geral em Minas Gerais é a falta de informações tanto de gestores e de médicos, como também de toda a população. Muitas vezes a própria família não sabe como aplicar em casa os primeiros atendimentos ao doente”, afirma o presidente da Dreminas.

Com a experiência de quem vive há 47 anos com uma anemia talessêmica, dona Rose Marie Betran diz que muitas vezes, mesmo em crise, tem que ficar explicando para os médicos o que é a doença na hora de um atendimento de urgência. “A maioria dos médicos não sabem. Já fiquei 5 horas numa fila esperando, fui atendida por um clínico para só depois chegar a um especialista”, conta a artesã. “Há situações em que a família orienta o próprio médico e eles costumam ficar incomodados com isso”, atesta o professor José Nélio Januário. Um caso que chegou ao conhecimento da Dreminas foi o de uma mãe que após receber uma receita médica em que foi prescrita Ferratina informou ao médico que a filha não poderia tomar aquela medicação. O médico perguntou à mãe quem era o doutor, ela ou ele.

Para a médica Mitiko Murao a capacitação dos profissionais “tem que ser contínua, porque a gente sabe como os profissionais flutuam nas unidades de saúde. Esse processo não tem fim e tem que ser feito o tempo inteiro”, entende. Para José Nélio essa questão deve ser vista de uma forma mais ampla. “A rigor todo clínico médico tem condições de fazer um atendimento porque os problemas são clínicos. À medida que esse atendimento se transforme em um programa global de atenção à saúde o paciente poderá ser acompanhado por um pediatra comum. A universidade precisa fazer mais pesquisas em relação à Anemia Falciforme, principalmente pesquisas na área clínica. Novos fármacos, novas intervenções para aliviar o sofrimento das pessoas”, diz.

Em Belo Horizonte as maiores referências para o atendimento de urgência são o Hospital das Clínicas, ligado a UFMG, e o Centro Geral de Pediatria.

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas

Diagnóstico de Anemia Falciforme em Minas – ainda um longo
caminho a ser percorrido
Foto: Daniel Cardoso

Daniela Giovana, Jornalista e
mestranda em História pela UFMG

“Você sabe o que é Anemia Falciforme?”. É assim que a cabeleireira Dora Alves, 50, costuma abordar pessoas nos ônibus e em seu salão de beleza, no trabalho de divulgadora que exerce voluntariamente em Belo Horizonte. “Muitos negros não sabem e muitos profissionais de saúde também não. Desconfio que meu pai, que morreu com 33 anos de AVC, possa ter sido um portador da doença e não sabia”, conta a cabeleireira.

A Anemia Falciforme é uma doença transmitida de pai para filho, em que os glóbulos vermelhos apresentam uma deformação em forma de foice, por isso o nome falciforme. Os glóbulos vermelhos são células do sangue que carregam um pigmento chamado hemoglobina. As pessoas portadoras da doença recebem de seus pais hemoglobina anormal que oferece dificuldade para a circulação do oxigênio no organismo. No Brasil esta anomalia está presente entre a população negra e afro-descendente. Assim, mesmo não tendo a pele negra, a pessoa pode ser portadora do traço ou até mesmo da doença falciforme.

A desinformação é um dos aspectos que mais chamam a atenção quando a questão é colocada. A incidência em Minas Gerais é de 3,2% da população, ou seja, a cada 30 recém-nascidos, um é portador do traço falciforme e cerca de 260 crianças nascem todos os anos com a anemia detectada.
Este dado estatístico revela uma proporção que leva a doença a ser enxergada enquanto um problema de saúde pública que deve ser identificado no nascimento, já que a transmissão é genética, garantindo assim uma vida com mais qualidade ao doente.

Diferentemente de outros estados, Minas Gerais tem desenvolvido um trabalho eficaz junto aos falcêmicos, mas isso não significa que a situação já tenha alcançado níveis ideais de atendimento. O caminho adotado parte do princípio da parceria entre a Secretaria Estadual de Saúde, Secretarias Municipais de Saúde de todo o estado, Universidade Federal de Minas Gerais, por meio do Núcleo de Pesquisa em Apoio Diagnóstico (NUPAD), Associação dos Drepanocíticos e Talacêmicos do Estado de Minas Gerais (Dreminas), Fundação Centro de Hematologia e Hemoterapia de Minas Gerais (Hemominas) e voluntários.

Foto: Pedro VilelaEsse esforço conjunto resultou na criação do Centro de Educação, Informação e Apoio ao Doente Falciforme (Ceiadof), com previsão de inauguração dentro de dois meses. O prédio fica na avenida Francisco Sales, 1715, região hospitalar de Belo Horizonte. O objetivo do Centro é otimizar os esforços para o atendimento aos doentes de todo o estado e se tornar um centro de excelência para a informação das famílias e da população em geral. “Com o Ceiadof vamos dar continuidade à questão da educação continuada, trabalhando em nível municipal e estadual as informações ligadas aos hemocentros e famílias em toda a Minas Gerais. Isso é muito importante. A família recebe um diagnóstico neonatal de Anemia Falciforme. O que fazer nesse momento? Há um desespero enorme dos pais. Por muitas vezes já tivemos com famílias que acharam que iam perder o filho da noite para o dia. A informação chega de uma maneira inadequada”, desabafa o presidente da Dreminas Cláudio Henrique Machado Santos.

Atendimento Ambulatorial
Por meio da Triagem Neonatal, mais conhecido como Teste do Pezinho, toda criança passa a ter direito ao acompanhamento ambulatorial gratuito feito pelo Hemominas. “A ação concreta mesmo foi a de Minas Gerais, em 1998. O Estado junto com a UFMG implementou a triagem para a Anemia Falciforme. Não tinha uma portaria, não tinha uma política nacional, nada. Em Minas aproveitamos a triagem neonatal que já era feita desde 1993 e o programa se alastrou. Em 2001, o Ministério da Saúde torna obrigatória a triagem neonatal para todo o país a partir da experiência mineira”, explica o professor de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da UFMG e diretor do NUPAD/UFMG José Nélio Januário.

O exame, que no Estado de Minas Gerais passou a investigar a Anemia Falciforme a partir de 1998 soma hoje 1 milhão 922.840 crianças triadas, dentre as quais 1.536 foram identificadas positivamente como portadoras da hemoglobina SS, o que configura o quadro de Anemia Falciforme. O modelo de triagem feito hoje em Minas é referência nacional.

A maior parte das crianças vão ao óbito nos primeiros 5 anos de vida, com um acometimento maior até os 2 anos de vida. A finalidade da triagem é instituir o tratamento nos primeiros cinco anos com penicilina, vacinação e acompanhamento rigoroso, aumentando a sobrevida. “Se você não fizer absolutamente nada, 50% morrem até chegar a adolescência, agora quando você institui um tratamento ambulatorial correto, de 45% a 50% vão atingir os 50 anos de idade. A diferença é brutal. Por isso o foco é a infância. Antes da triagem, as crianças estavam morrendo e a morte sendo atribuída a outras coisas, agora não tem jeito: a criança bate na porta da unidade de saúde dizendo que tem anemia falciforme e que quer tratamento”, explica o diretor do NUPAD.


Um tapinha dói e é crime. Defenda seus direitos e denuncie!!!


Vânia Dias, Estudante de jornalismo das
Faculdades Integradas da Bahia (FIB)

De acordo com dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 53 milhões de brasileiros pobres, 33,7 milhões são afro-descendentes. Eles representam hoje 70% dos 10% mais pobres do país. Estudos que denunciam agressões assinalam uma interseção entre raça, gênero e classes sociais, a fim de evidenciar os fortes contrastes entre brancos e negros, ricos e pobres na sociedade brasileira. De acordo com a pesquisa “A mulher brasileira nos espaços públicos e privados”, realizada pela Fundação Perseu Abramo, 6,8 milhões de mulheres no Brasil já foram espancadas ao menos uma vez. Destas mulheres, a maioria é negra. Na Bahia, o Coletivo de Mulheres do Calafate luta em defesa de mulheres negras e pobres que sofrem violência doméstica. O distrito composto por 12 bairros do subúrbio tem uma média de 244 mil 880 habitantes. No Calafate, um dos bairros deste distrito, a violência contra a mulher é uma característica bastante comum. A cada dia surge um novo caso de mulher vítima de violência, declara a coordenadora do Coletivo de Mulheres, Marta Leiro: “Não há uma pesquisa específica para definir o número exato de vítimas e nem quantas já foram atendidas, mas trabalhamos na tentativa de conscientizar e inibir novos casos semelhantes”.

O Coletivo, nos seus 13 anos de trabalho, sempre enfrentou preconceitos. De marido que tirou a mulher à força do grupo a milhares de casos de agressão. Com fama de separar muitos casais, Marta, mesmo em defesa da violência, também é uma vítima. Ela sofre atualmente ameaças de morte por coordenar esta atividade e luta para combater as tentativas de enfraquecimento do Coletivo. “Querem podar nosso trabalho, mas a luta continua. Não se pode intimidar com ameaças”, declara.

Motivada pelo medo de ser ainda mais violentada, ou mesmo, assassinada, Janete Brito dos Santos (38 anos), auxiliar de apoio em escola estadual, sofreu calada por 20 anos, as agressões praticadas pelo pai de seus três filhos e, na época, seu marido, Edmundo Moreira Ferreira. A última agressão praticada por Edmundo aconteceu em um domingo de maio, em um bar onde Janete tomava cerveja com os amigos. Sem nenhum motivo aparente, Edmundo, ao passar pelo bar e ver a sua ex-mulher, agrediu-a publicamente, com um tapa no rosto. “Eu nunca me senti tão humilhada”, declara Janete. Everaldino Sacramento (28 anos), um vizinho que presenciou a agressão, partiu em defesa de Janete e revidou a violência dando um murro em Edmundo. Jorge Cerqueira, atual marido de Janete, mesmo sabendo de todas as agressões, prefere não se envolver no assunto.

Orientada pelo Coletivo de Mulheres do Calafate, Janete pela primeira vez depois de 20 anos prestou queixa na Delegacia Especial da Mulher (Deam). “Se não fosse o Coletivo, eu não teria denunciado”, diz Janete, que recebeu todo apoio e acompanhamento. Aline de Jesus Sacramento (24 anos), mãe de dois filhos, foi agredida na cabeça pelo ex-marido, 25 dias após o parto. Na ocasião, integrante do Coletivo, ela prestou queixa na Deam, mas o caso não foi adiante, não havendo nenhuma punição para o agressor. Para Aline, os vizinhos, baseados no ditado de que em “briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”,não se envolvem, apenas fazem fofocas e julgamentos.

Casos como os de Janete, Aline e de tantas outras mulheres contam agora com a nova legislação, que transforma agressões domésticas em crimes. A inserção dos parágrafos 9º e 10º do artigo 129 altera a detenção de três meses a um ano, para a inclusão da violência doméstica no código penal como crime específico e pena de seis a doze meses de detenção. Órgãos de defesa do direito da mulher, a exemplo da Deam, querem instituir além de multas e cestas básicas, punições consideradas inócuas para os agressores, penas educativas, como o serviço à comunidade e participação em grupos de reflexão. Mesmo com a nova lei, a prisão só é aplicada para casos extremos, como estupro, que é crime hediondo.

Antes de se aprofundar nas múltiplas formas de violência, Marta não tinha consciência de que quando era chamada de burra pelo ex-marido estava sofrendo um caso de agressão verbal e psicológica. “Eu achava que nunca tinha sido agredida, até ser apresentada à violência”, diz Marta. Nos primeiros momentos, o Coletivo de Mulheres fazia encaminhamento de intervenções, entrava na casa da pessoa agredida para garantir a defesa dela. Atualmente, espera-se que a vítima peça ajuda. O Coletivo oferece também palestras, aulas e oficinas que visam a uma maior conscientização e transformação dos problemas locais.

Veraldino Sacremento, conhecido como BS, é professor e presidente do Grupo de Capoeira Calafate. Alegando imaturidade e ciúmes, ele confessa já ter agredido uma ex-namorada e sua ex-mulher. Na ocasião, mesmo sabendo que podia ser punido pela justiça, BS não tinha medo da cadeia, mas da possibilidade de vingança de algum parente. “A justiça não nos protege, a lei da vida não tem sentença e nem regras, difícil é manter-se vivo”, desabafa. Depois de participar de palestras e oficinas oferecidas pelo Coletivo, diz-se consciente e arrependido das agressões. Hoje dá conselho a outros homens que praticam violência no bairro e é ameaçado de morte, por ter defendido Janete da agressão do seu ex-marido, Edmundo. Ficou por muito tempo sem poder andar pelo bairro, deslocando-se apenas de táxi. O caso está na 2º vara criminal e a primeira audiência está marcada para o dia 13 de julho.

Serviço
Para fazer denuncia ou procurar orientação em Salvador:
• Balcão de Justiça e Cidadania – das 9h as 12h – 71 3253-9904,
• Delegacia de Atendimento a Mulher – 71 3245-5481,
• Centro de Atendimento as Vítimas de Violência na Bahia – 71 3362-9090.

Como evitar ou reconhecer os sinais de possíveis agressões violentas:
– Ele olha para mulher ou age de um jeito que provoca medo;
– Deixa ela constrangida falando palavrões ou diminuindo a sua auto-estima;
– Controla o que ela faz, quem encontra, com quem fala e aonde vai;
– Impede a mulher de sair de casa., ver ou falar com os amigos ou parentes;
– Faz ela pedir dinheiro, Fica com o dinheiro dela e recusa a dar dinheiro;
– Diz que não é boa mãe, ameaça tirar as crianças ou machucá-las;
– Sacode, esbofeteia ou bate;
– Destrói as coisas, esconde os documentos ou ameaça matar animais;
– Intimida com armas de fogo ou armas brancas;
– Não se importa com as agressões, tenta culpá-la ou nega ter sido violento;
– Obriga você a retirar a queixa quando você vai a policia;
– Ameaça se suicidar;
– Ameaça matar.

Informações disponibilizadas na Delegacia Especial a Mulher, em Salvador.

Consciência Hip Hop encerra agenda de Festivais da Abrafin em 2008

O festival de hip hop ainda é o único do segmento associado

O Festival Consciência Hip Hop encerra a agenda dos festivais associados a Abrafin – Associação Brasileira de Festivais Independentes. A associação nasceu em 2005 com o intuito de reunir, organizar e potencializar o circuito de festivais de música independente, desde então, em ascensão no Brasil, promovendo a troca de conhecimento entre produtores associados, bem como entre grupos, produtoras e coletivos responsáveis pela realização dos festivais.

O Consciência Hip Hop é ainda o único festival de Hip Hop associado, fato este que demonstra a necessidade de reunir e organizar também os artistas do Hip Hop Fora do Eixo, rede de trabalhos que possui a mesma lógica e intenção do Circuito Fora do Eixo. A meta em 2009 é organizar os eventos formatando uma agenda única.

A Abrafin tem em seu catálogo 32 festivais, dos mais variados segmentos e atingem pelo menos 300 mil pessoas, circulando nada mais nada menos do que 600 bandas nacionais e internacionais, que movimentam um montante superior a cinco milhões de reais por ano. Os festivais são principais vetores de estímulos da cadeia produtiva da música independente brasileira, e geram três mil empregos fixos e temporários, impulsionando também a abertura do diálogo com os mercados ligados ao setor em nível internacional.

SERVIÇO
O que: Festival Consciência Hip Hop
Quando: dia 20 e 21 de Dezembro
Onde: Clube Feminino
Quanto: R$ 5
Mais Informações: 3028-1114

Assessoria de Comunicação – Cufa
Fernanda Quevedo
favelacomunicacao@gmail.com

— Favela Comunicação | CUFA MT
Fone fax: (65) 3028 – 1114 \ 9287-5518
Msn: favelacomunicacao@hotmail.com

Cotas, sim; negros, nem pensar

Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
A negação sistemática do corte racial nas políticas públicas por parte dos principais jornais brasileiros, em razão dos elevados custos humanos que acarreta, pode ser aproximada da negativa de Thabo Mbeki e de seu governo em reconhecer a AIDS e os medicamentos necessários para combatê-la.

A Folha de S. Paulo, em editorial (“Cotas de imperfeição” 25.11.08, p. 2) reafirma que o critério racial não serve para ‘categorizar pessoas’ porque não tem fundamento científico.

Pois bem, na redação da ‘Folha de S. Paulo’ e outros grandes jornais quantas pessoas têm pele escura e cabelo crespo? Alguém duvida de que exista aqui uma classificação sistemática que, independente do que possa afirmar a genética, se apóia em características também biológicas (cor da pele, textura do cabelo, etc.)?

Que divindade, se não o deus da Omissão Cínica, o mantra “raça não existe” invoca mesmo? Aliás, o mantra só é recitado quando os negros pressionam para reduzir os privilégios daqueles que reelaboram, pela negativa, o conceito de raça para servir à manutenção de suas posições e objetivos políticos.

Raça não existe, mas o Brasil é um país de profundas desigualdades raciais. A negação da raça pelos estratos superiores pretende perpetuar as desigualdades… raciais. Se todos são mestiços nos espaços de prestígio e poder, queremos incluir nesses espaços um tipo de mestiço que a eles não tem acesso.

Quando se argumenta, como no citado editorial da Folha, na defesa de cotas sócio-econômicas para ingresso na universidade, sob a alegação de que ‘negros e mulatos’ estariam aí contemplados, identifica-se, ainda que a contragosto, a existência, entre os pobres, de um subconjunto de afro-brasileiros.

Na alternativa das cotas raciais, recusada pela Folha, os ‘negros e mulatos’ não podem ser precisamente identificados: raça não existe, o Brasil é um país mestiço. Na alternativa sócio-econômica, defendida pela Folha, ‘negros e mulatos’ existem e seriam beneficiados também.

Paradoxalmente, quanto mais submersos na noção de classe, mais visíveis se tornam os negros aos olhos da Folha. A tão alegada homogeneidade mestiça desaparece como por encanto, quando submetida ao crivo sócio-econômico defendido pela empresa de comunicação. Nas cotas sociais, os negros serão beneficiados – com a vantagem, para os superiores, de se dispensar a afirmação identitária.

A identidade negra, por essa visão, parece superestimada como fonte de conflitos, potencialmente geradora de ‘divisões radicais’. Alguns negros podem vir a ser beneficiados, mas para isso devem renunciar a sua identidade.

Nos termos da cultura política dominante, pode-se aceitar de todo modo um arranjo, desde que fique assegurado que a identidade negra será submersa em generalizações sócio-econômicas. Os negros poderiam assim ser tolerados, de modo contingente, desde que se pudessem atenuar as dimensões ameaçadoras de sua afirmação identitária.

Por aí se vê que a questão não é cota, nem reserva de vagas. A questão é mesmo a identidade negra, seu conteúdo histórico, suas incontornáveis reivindicações reparatórias, justas e legítimas.

O recalque da identidade negra parece jogar assim um papel decisivo entre nós na manutenção do sistema político e dos modos de representação, na permanência de sistemas simbólicos que realimentam os grupos hegemônicos, e na manutenção da ordem social e econômica.

Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
A negação sistemática do corte racial nas políticas públicas por parte dos principais jornais brasileiros, em razão dos elevados custos humanos que acarreta, pode ser aproximada da negativa de Thabo Mbeki e de seu governo em reconhecer a AIDS e os medicamentos necessários para combatê-la.

A Folha de S. Paulo, em editorial (“Cotas de imperfeição” 25.11.08, p. 2) reafirma que o critério racial não serve para ‘categorizar pessoas’ porque não tem fundamento científico.

Pois bem, na redação da ‘Folha de S. Paulo’ e outros grandes jornais quantas pessoas têm pele escura e cabelo crespo? Alguém duvida de que exista aqui uma classificação sistemática que, independente do que possa afirmar a genética, se apóia em características também biológicas (cor da pele, textura do cabelo, etc.)?

Que divindade, se não o deus da Omissão Cínica, o mantra “raça não existe” invoca mesmo? Aliás, o mantra só é recitado quando os negros pressionam para reduzir os privilégios daqueles que reelaboram, pela negativa, o conceito de raça para servir à manutenção de suas posições e objetivos políticos.

Raça não existe, mas o Brasil é um país de profundas desigualdades raciais. A negação da raça pelos estratos superiores pretende perpetuar as desigualdades… raciais. Se todos são mestiços nos espaços de prestígio e poder, queremos incluir nesses espaços um tipo de mestiço que a eles não tem acesso.

Quando se argumenta, como no citado editorial da Folha, na defesa de cotas sócio-econômicas para ingresso na universidade, sob a alegação de que ‘negros e mulatos’ estariam aí contemplados, identifica-se, ainda que a contragosto, a existência, entre os pobres, de um subconjunto de afro-brasileiros.

Na alternativa das cotas raciais, recusada pela Folha, os ‘negros e mulatos’ não podem ser precisamente identificados: raça não existe, o Brasil é um país mestiço. Na alternativa sócio-econômica, defendida pela Folha, ‘negros e mulatos’ existem e seriam beneficiados também.

Paradoxalmente, quanto mais submersos na noção de classe, mais visíveis se tornam os negros aos olhos da Folha. A tão alegada homogeneidade mestiça desaparece como por encanto, quando submetida ao crivo sócio-econômico defendido pela empresa de comunicação. Nas cotas sociais, os negros serão beneficiados – com a vantagem, para os superiores, de se dispensar a afirmação identitária.

A identidade negra, por essa visão, parece superestimada como fonte de conflitos, potencialmente geradora de ‘divisões radicais’. Alguns negros podem vir a ser beneficiados, mas para isso devem renunciar a sua identidade.

Nos termos da cultura política dominante, pode-se aceitar de todo modo um arranjo, desde que fique assegurado que a identidade negra será submersa em generalizações sócio-econômicas. Os negros poderiam assim ser tolerados, de modo contingente, desde que se pudessem atenuar as dimensões ameaçadoras de sua afirmação identitária.

Por aí se vê que a questão não é cota, nem reserva de vagas. A questão é mesmo a identidade negra, seu conteúdo histórico, suas incontornáveis reivindicações reparatórias, justas e legítimas.

O recalque da identidade negra parece jogar assim um papel decisivo entre nós na manutenção do sistema político e dos modos de representação, na permanência de sistemas simbólicos que realimentam os grupos hegemônicos, e na manutenção da ordem social e econômica.

CORRUPÇÃO


Prática é praga solta em todo o mundo

Victor Peña Santos – São Paulo

“Empresários brasileiros estão entre os mais corruptores do mundo. A constatação está no estudo Bribe Payers Index (Índice de Pagadores de Suborno) 2008, divulgado pela ONG Transparência Internacional. Com 7,4 de nota – pontuação inferior à média mundial de 7,8 –, o Brasil ocupa o 17º lugar. Quanto maior a pontuação para o país, menor a probabilidade de as empresas intervirem com suborno quando fazem negócios no exterior. O estudo ainda mostra que, na América Latina, 87% dos empresários acreditam que a ação dos governos na luta contra a corrupção é ineficaz, muito ineficaz ou não existe. O BPI’2008 classifica 22 países exportadores pela tendência das suas empresas subornarem no exterior. Eles são responsáveis por cerca de 75% do total do investimento estrangeiro (importações e exportações de mercadorias em todo o mundo). No Brasil, 21% dos altos executivos entrevistados disseram que as empresas brasileiras tendem a subornar funcionários públicos para ‘acelerar as coisas’. Outros 18% acreditam que a corrupção afeta muito mais o alto escalão de políticos e partidos políticos e 19% afirmam que a corrupção mais comum é a utilização de amigos ou familiares nas relações públicas para ganhar contratos, o popular ‘tráfico de influência’. A corrupção e os subornos nas transações são complexos e envolvem tanto alguém que oferece um benefício, quanto aquele que o aceita para facilitar as operações de negócio. A relação corrupta nas negociações empresariais entre os países cria uma desigualdade extrema em ambos os mercados e nas sociedades. Bélgica e Canadá dividem o primeiro lugar no BPI’2008, com um resultado de 8,8, índice que coloca as empresas belgas e canadenses como as menos suscetíveis de suborno estrangeiro. A Holanda e a Suíça compartilham o terceiro lugar no índice, cada uma com uma pontuação de 8,7. No outro extremo, está a Rússia, último classificado com uma pontuação de 5,9, logo abaixo dos outros cinco últimos países do índice: China (6,5), México (6,6), Índia (6,8) e Brasil, que divide o pódio com a Itália (7,4). Pelo que vemos hoje aqui e no mundo, está longe o dia em que estas duas palavras estarão fora do vocabulário da sociedade.”

Caravana da Paz Ocupa o Morro

Maria Tereza Correia/EM/D.A Press
Festa, em tom de grafite e som de hip hop, marcou os três anos do Núcleo de Prevenção à Criminalidade do Morro Alto

A comunidade do Morro Alto, em Vespasiano, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, realizou na manhã de ontem uma passeata pela paz, dando ênfase à violência doméstica. O ato marcou as comemorações dos três anos do Núcleo de Prevenção à Criminalidade (NPC), uma parceria da Secretaria de Estado de Defesa Social com entidades e movimentos sociais da região.

A rua principal foi fechada e vários grupos que participam do projeto se apresentaram com capoeira, dança, música, teatro e esportes. Houve também participação de associações de bairro, igrejas e movimentos que integram o grupo gestor do NPC. Uma equipe de grafite do programa Fica Vivo pintou o muro lateral da 180ª Companhia da Polícia Militar com o tema “Juventude e polícia”.

O Núcleo de Prevenção à Criminalidade do Morro Alto desenvolve dois projetos com a comunidade: o Fica Vivo (de prevenção à violência e homicídios) e a Mediação de Conflitos. O primeiro é direcionado ao atendimento de jovens entre 12 e 24 anos. É um dos 25 núcleos considerados de base pela Secretaria de Defesa Social, gerido pelas lideranças comunitárias locais. São elas que levam as demandas e traçam as estratégias em conjunto com os técnicos e profissionais.

São várias ações conjuntas, como explica a gestora social Ana Dorotéia Vincy de Almeida Amaral, e entre os eixos que foram destaque ontem estão a violência doméstica e entre os jovens. O programa é aplicado em áreas de grande vulnerabilidade social.

Além do Fica Vivo, a comunidade tem à sua disposição os mediadores de conflitos, equipe que reúne advogados, psicólogos e assistentes sociais. Eles trabalham como negociadores extra-judiciais em duas frentes: de orientação e de mediação. Os profissionais não opinam e nem resolvem, mas abrem espaços para que as pessoas resolvam por si mesmas questões como conflitos entre vizinhos, violência doméstica, acesso a direitos como moradia e previdência, separações e pensões alimentícias, explica o superintendente de Prevenção à Criminalidade, Talles Andrade de Souza.

VIDA EM CORES O coordenador do grupo de grafite, Valteir Pereira dos Santos, de 20 anos, começou a participar das oficinas há três. Ele já conhecia algumas técnicas, mas foi se aperfeiçoando e logo foi convidado a participar como multiplicador. Fez um curso de capacitação no Senac e hoje orienta 35 jovens da comunidade: “Eu tinha o pensamento voltado só para as ruas e nenhuma referência do que fazer para ter objetivos na vida. Descobri a possibilidade de resgatar outros jovens, assim como eu mudei, com objetivos e metas.”

Os temas do grafite do Fica Vivo Morro Alto estão sempre voltados para os resgates de valores. O grupo participa de movimentos e sua arte também extrapola os limites do bairro: “No grafite há uma disputa artística, sadia, em que os grupos convivem em paz”, atesta.

Exibindo-se com desenvoltura no palco, o estudante Maxwel Brito do Nascimento, de 16, é um entusiasta do hip hop. Há dois anos, começou a participar de uma roda de amigos que eram feras na dança e agora integra o “LJ Hip Hop”, ligado a uma igreja evangélica do Morro Alto, com 22 participantes: “Ficava muito dentro de casa e hoje tem muita gente da turma que poderia estar seguindo outro caminho. No hip hop, temos uma convivência muito boa e cada vez a arte está mais dentro de nós”. (EG)

Zumbi caçador de negro




Escrito por Mário Maestri
19-Nov-2008

A proposta de existência de escravidão em Palmares foi apresentada enfaticamente pela grande mídia quando das celebrações do terceiro centenário da destruição da Confederação e morte de seu último dirigente, em 1995. Seus objetivos eram encontrar gancho para a abordagem do transcurso e dessacralizar o sucesso referencial do movimento negro e do mundo do trabalho, naturalizando a opressão através da idéia de que os oprimidos também oprimem, logo e quando podem.

Em 1995, a discussão sobre a escravidão palmarina gorou apenas devido ao sucesso midiático do bate-boca sobre a eventual homossexualidade de Zumbi. Desde então, a afirmação retorna intermitentemente na mídia e em estudos historiográficos, sem que documentação histórica probatória seja apresentada. Continuamos a contar somente com frágeis referências a cativos que, libertados à força pelos palmarinos, adquiririam a plena cidadania apenas após recrutarem outros cativos para os quilombos.

Contribui igualmente para essa despropositada afirmação a frouxidão conceitual e epistemológica atual das ciências sociais, devido à quase geral renúncia à idéia do passado como fenômeno objetivo capaz de ser reconstituído essencialmente pela ciência histórica. A historiografia tem sido reduzida à mera reconstituição literária do ocorrido, e o passado à realidade maleável segundo os interesses do presente.

Saltos lógicos

Na falta de documentação, apóia-se a tese da escravidão quilombola na provável retomada de práticas escravistas africanas nos mucambos da serra da Barriga. A equação é simples: se na África tinha, por que diachos não teria também aqui? Destaque-se que a equação traz imbricada a velha apologia de que os negreiros apenas transferiam os homens e mulheres de uma escravidão de bárbaros para a servidão cristã e civilizada na América. E sem nem mesmo pagarem a passagem!

O artigo “O enigma de Zumbi”, de Leandro Narloch, publicado na indefectível Veja (19 de novembro), após lembrar que a idéia de Palmares libertário surgiu nos anos 1960 e 70 sob “influência do pensamento marxista”, afirma que, nos “novos estudos”, o “retrato que emerge de Zumbi é o de um rei guerreiro que, como muitos líderes africanos do século XVII, tinha um séqüito de escravos para uso próprio”. Folga dizer que o jornalista se cuidou em não citar os referidos “novos estudos”.

A defesa da escravidão palmarina apoiou-se no silogismo de que não haveria sentido em falar “em igualdade e liberdade numa sociedade do século XVII porque, nessa época, esses conceitos não estavam consolidados entre os europeus” e seriam “impensáveis” nas culturas africanas. Corroborando a proposta, o historiador Manolo Florentino, autor de livro de título sugestivo – Paz das senzalas –, reconstrói o passado a partir de pinote lógico apoiado em premissas fajutas: “Não se sabe a proporção de escravos que serviam os quilombolas, mas é muito natural [sic] que eles tenham existido, já que a escravidão era um costume fortíssimo [sic] na cultura da África.”.

Servidão doméstica

Por ignorância e oportunismo, os negreiros identificaram como escravidão as múltiplas formas de servidão doméstica da África pré-colonial. Prisioneiros de guerra, condenados da justiça, indivíduos sem famílias, estrangeiros etc. eram incorporados às famílias extensas, com obrigações e direitos delimitados. Casavam, tinham bens, integravam a comunidade e, em poucas gerações, extinguia-se a lembrança da origem inferior. A posse comunitária da terra e o caráter semi-natural da economia impediam que tais formas de dominação se degradassem na exploração escravista americana, regida pelo açoite de mercado de fome pantagruélica. Identificar servidão africana e escravidão colonial é procedimento analítico inaceitável.

O caráter relativamente benigno daquela servidão devia-se em boa parte à incapacidade e falta de sentido nas sociedades domésticas africanas em investirem substancialmente recursos na subjugação desses agregados. Fenômeno ainda mais premente em comunidades de resistência, como os quilombos, que dependiam do consenso para furtarem-se aos ataques permanentes dos escravistas. É até interessante imaginar os mocambeiros ocupados no combate aos escravistas e de olho nos seus cativos, para que não fugissem e se … aquilombassem!

E, mesmo que a África tivesse sido sociedade escravista – então, por que exportaria cativos? –, deduzir instituições do Novo Mundo de instituições da África Negra é outro tropeço epistemológico primário. Os quilombos palmarinos e todos os demais foram instituições americanas, e não africanas, nascidas da oposição à escravidão. Quando muito, e nem sempre, eles reelaboraram elementos culturais africanos, já que era materialmente impossível restaurar, no Brasil, a vida do continente negro.

Um Novo Mundo

Os próprios títulos angolanos utilizados em Palmares – nzumbi, nganga nzumba etc. – ganharam no Brasil conteúdos diversos aos que tinham na África. Nesse sentido, como já foi exaustivamente proposto, fenômenos como o kilombo dos yagas, nos sertões da atual Angola, muito pouco têm a ver, no essencial, com o fenômeno identicamente nomeado no Brasil escravista.

Entre as inúmeras sandices do jornalista da Veja, destaca-se certamente a pérola de que o palmarino “não lutava contra o sistema da escravidão”. Proposta que reduz aquela população e todos os quilombolas à situação de verdadeiros energúmenos, já que viviam, apenas por querer, metidos na mata, em cima dos serros, por entre cobras e lagartos, longe das maravilhosas praias de areias brancas das Alagoas da época!

Desde os anos 1950, autores como Benjamin Péret, Clóvis Moura, Édison Carneiro, José Alípio Goulart, Décio Freitas empreenderam detidos estudos sobre as comunidades quilombolas que realçaram as inevitáveis contradições entre os mocambeiros e o interesse que tinham em manter-se distante dos escravizadores, sem perder a possibilidade de estabelecer trocas com os mesmos. Tudo isso tem, no mínimo, meio século de vida.

Sobretudo, esses e tantos outros autores sugeriram e apontaram o que foi essencial e único na experiência quilombola, nos limites determinadas pelas condições materiais da época: seu caráter necessariamente libertário, já que eram comunidades em contradição insuperável com a opressão escravista – desculpem-me por ter escapado essa formulação marxista. Uma liberdade que se materializava nas solas dos pés dos fujões e nos braços armados dos quilombolas, e não em discussões conceituais sobre a igualdade e a liberdade cívica entre os homens, em quimbundo ou latim!

Mário Maestri é historiador e professor do Programa de Pós-Graduação em História da UPF.

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Documentário "Do Tiro à Zoeira" traça história do rap



Marcelo D2 hoje é atração de festa de grife famosa. Gabriel O Pensador tocou em todas as rádios e fez shows no Brasil inteiro e em Portugal. B Negão até hoje é reconhecido nos shows que faz na Europa por causa do Planet Hemp. No entanto, foi uma longa estrada para o hip hop carioca. E é essa história que vai ser contada no documentário ‘Do Tiro à Zoeira’, dirigido por Emilio Domingos e Fernando Shackal, ainda em fase de captação de recursos.



“O nome faz referência à coletânea que apresentou os primeiros rappers do Rio, ‘Tiro Inicial’ (de 1993), e à festa Zoeira Hip Hop, que acontecia numa sinuca na Lapa”, explica o rapper Shackal, 34 anos, idealizador do filme. “É também um trocadilho, porque o rap carioca começou com discurso duro e hoje é mais relaxado”, diz.


Shackal contou a idéia para D2, que abraçou o projeto e deu o apoio de sua grife, Manifesto 33 e 1/3. “O hip hop já faz parte da cultura da cidade, está entranhado nela. É importante contar essa história para deixar registrado lá na frente”, diz Marcelo D2. “O hip hop hoje é um banquete, mas uma galera preparou isso”, compara Shackal.


Emílio, 35, entrou na história porque já conhecia os dois desde 1999, quando foi um dos diretores de ‘A Palavra que Me Leva Além’, sobre os quatro elementos do hip hop – o MC, o DJ, o b-boy (dançarino de break) e o grafite. “É um registro da cena da época, bem datado”, diz ele, antropólogo e hoje também produtor e DJ da festa Phunk!. A finalização vai ficar a cargo do pessoal do Apavoramento. “Eles têm ‘mó’ visão do ‘underground’, estão sempre tocando por aí”, conta Shackal.


Morador do Complexo da Maré, Shackal faz parte da cena hip hop desde 1992. “Na época, a gente ligava o som para ouvir rap e os traficantes mandavam desligar, diziam que era música de preto revoltado.


Hoje, todo mundo em todo lugar se amarra em rap e respeita o meu trabalho”, lembra, ao lado do ‘pupilo’ Menezes, 22 anos, também da Maré.


Antes que torçam o nariz para a inclusão de nomes como Gabriel O Pensador no filme, Shackal justifi ca: “Ele foi o primeiro nome do hip hop carioca que estourou no Brasil, ajudou a difundir. Ele abriu caminhos.”


Fonte: jornal O Dia

Vozes da periferia contra o crack



Marcos Vidal de Souza era apenas um menino nascido em Itapipoca e criado nas vielas da comunidade do Pirambu quando fugiu de casa para aprender a riscar com carvão nas calçadas da Praça do Ferreira e da Beira-Mar. Negro, de família humilde, as perspectivas não eram as melhores pr´aquele garoto agitado.



Mas a paixão pelo traço o tirou dos caminhos óbvios da droga e da marginalidade e o fez caminhar em direção à arte urbana do grafiti. Nos últimos anos, ele se tornou um dos grafiteiros mais requisitados de Fortaleza, com trabalho direcionado especialmente para as lutas sociais, colorindo muros de escolas, viadutos e outros prédios públicos como as sedes das regionais, e privados como colégios e grandes eventos como o Festival Vida & Arte. Mas ninguém o conhece pelo nome de batismo e sim por Preto Rap.

É claro que, ao mergulhar no mundo do grafiti, ele se aproximou da cultura hip hop e logo também se arriscou nos versos ritmados do rap. Daí vem o Preto Rap que, além de ter o nome consolidado na arte do grafiti em Fortaleza, começa a inscrever como revelação da cena local de rap. Ele fez o lançamento do seu primeiro CD, Fala que é nóis, dentro da programação do Pacto Hip Hop contra o Crack que promove campeonato de break individual e shows de hip hop hoje no Teatro da Boca Rica (Praia de Iracema), no último dia 05/07, com a meta de fazer campanha contra o uso de drogas, em especial o crack. O evento é uma promoção da Comunidade Reunida em parceria com a Central Única de Favelas (Cufa-CE). Além de Preto Rap se apresentaram os grupos Costa A Costa, Sertão Rap, Eita! e Arsenal da Rima.

Da mesma forma que seu grafiti busca criar uma linguagem cearense, própria, no traço, Preto Rap busca fazer um hip hop com características regionais. “Se não fica aquela coisa muito sul, muito paulista, ou americanizado. Por isso, procuro fazer um rap usando maracatu, baião…”, explica. Preto Rap se apresenta hoje secundado pelo DJ Falcão e o rapper Caboco – este último integrante do grupo Eita! Uma característica toda particular do CD é que Preto Rap não dá título a seus raps. “Quando você dá um título se direciona um tema da música, mas o rap fala de muito mais coisa”, justifica.


Fonte: www.ujsceara.blogspot.com



Onda Racista Contra Indígenas no Brasil

O campo e as matas são os locais de maior desrespeito aos direitos humanos no Brasil. É o que aponta o Relatório Direitos Humanos no Brasil 2008, produzido por diversas entidades defensoras dos direitos do homem.

Por Camila Souza Ramos, na Revista Fórum



O relatório aponta que o ano foi marcado por uma “onda racista contra indígenas virulenta e disseminada por todo o país”, causada pelos conflitos pela terra entre os índios e invasores de terras da União. O estudo foi lançado neste mês, em do 60º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Segundo o relatório, o conflito com indígenas foi “mascarado” por uma “fachada nacionalista” que coloca as comunidades dos índios como inimigos do país. “Os direitos constitucionais dos povos indígenas passaram a ser vistos como privilégios que deveriam ser revistos urgentemente pelo Congresso Nacional; a ONU passou a ser vista como ameaça imperialista e os países vizinhos como inimigos potenciais”, denuncia o texto.

O desrespeito do direito à terra repetiu-se com a população camponesa. Apesar de políticas do governo de assistência à população rural adotadas recentemente, “permanecem com os mesmos efeitos desigualmente distribuídos” e os “benefícios continuam a ser absorvidos prioritariamente pelos grandes, sejam latifundiários e/ou senhores do capital”.

As denúncias de trabalho escravo em propriedades privadas alcançaram números bem altos. Apenas entre janeiro e setembro deste ano, houve 179 denúncias de unidades de produção rural envolvidas em trabalho escravo.

Os motivos para a precarização do trabalho na zona rural são o excesso de oferta de mão-de-obra, que força o trabalhador a se submeter a condições insalubres de trabalho, e a “flexibilização das normas trabalhistas decorrentes das reformas neoliberais dos últimos governos”, conforme afirmam Maria Aparecida de Moraes Silva e Jadir Damião Ribeiro em artigo divulgado no relatório.

Além de não terem seus direitos garantidos, as manifestações dessas populações reivindicando ações do governo têm sido criminalizadas pelos poderes públicos. A Comissão Pastoral da Terra destacou que “estas ações partiram tanto do poder Executivo quanto do Judiciário e encontraram apoio e respaldo no poder Legislativo”.

O crescimento do desmatamento da Amazônia e suas causas sociais e ambientais também contribuíram para o aumento da violência policial e para uma política educacional voltada para os interesses de mercado e “disputada pela força do capital”.



A bomba

Geraldo Magela Teixeira, Reitor do Centro Universitário UNA
Entrou na pauta de algumas discussões pós-eleitorais em Belo Horizonte o problema da bomba nas escolas. Volta-se à reprovação ou se mantém um tipo de aprovação automática, que acaba ocorrendo também por meio de mecanismos de disfarce, como a segunda época e a recuperação. O que muitos querem é o retorno da velha bomba, que retinha o aluno numa série, num ciclo ou mesmo o deixava na “dependência” em alguma disciplina. Nas faculdades, sentimos o drama de alunos suplicando aos professores, pontos a mais, o suficiente para salvá-los da repetição. Como se aqueles pontos tivessem o poder mágico de agregar-lhes os conhecimentos que não absorveram ao longo do ano, ao longo do semestre.

Da discussão da bomba é fácil entrar na discussão da escola plural, de tantas escolas surgidas ao longo dos tempos na eterna procura de uma forma de ensinar que seja mais fácil, que torne menos penoso o aprendizado, quem sabe até prazerosa a atividade de aprender. Eu não gosto dessa discussão, que em Belo Horizonte acaba recaindo sobre as virtudes ou vícios da chamada escola plural, para muitos, responsável pela degradação de nosso ensino básico. Eu gosto de simplificar as coisas. Para mim, existem apenas duas escolas: a escola que ensina e a escola que não ensina. Eu já disse muitas vezes aqui que hoje todos passam, inclusive os chamados analfabetos funcionais, que costumam chegar às universidades e aos diplomas. Aí vem a pergunta crucial: por insuficiência no aprendizado o aluno deve ou não deve ser retido na escola, na série, na disciplina? Começamos pelo início de tudo: a alfabetização/letramento. Penso que as crianças mineiras têm sido mal avaliadas nos testes nacionais, internacionais porque nossas crianças em grande parte não têm sido alfabetizadas. Não vale culpar o método, vale constatar, como fez a pesquisadora Eunice Durham, que os nossos cursos de pedagogia não ensinam a ensinar. Daí termos um número tão pequeno de verdadeiras e eficientes alfabetizadoras. Perguntei a uma professora, das melhores alfabetizadoras da cidade, onde aprendeu o seu ofício. Ela confessou com tranqüilidade que aprendeu sozinha, trabalhando sempre em zona de risco com crianças sem famílias estruturadas, tendo que fazer a sua parte e a parte dos pais. São jornadas de 10, 12 horas preparando aulas, material didático, recortando jornais e revistas, abrindo interlocuções direta com cada aluno, atenta às diferenças, impondo limites e premiando com afeto e ternura. Assim, ninguém é retido porque todos são alfabetizados no tempo adequado.

O que mais falta na escola fundamental são alfabetizadores competentes, bem pagos, sobretudo os que trabalham em área de risco. Quanto aos outros níveis de ensino, precisamos também de bons professores, pois, além da pedagogia, as licenciaturas não ensinam a dar aulas. Seria interessante proceder-se a uma prova de nivelamento no primeiro ciclo de cada grau de ensino para detectar os alunos menos preparados. Estes devem ser acompanhados, se possível, por um segundo professor na sala para que eles acertem o passo para parelhar com os colegas. O Trabalho Dirigido Interdisciplinar (TDI) poderia ajudar em permanentes nivelamentos. Cada aluno deve ser promovido pelo conjunto dos seus saberes e avaliado por todos os professores do ciclo. Isso evitaria a retenção por alguma deficiência em uma disciplina às vezes não tão importante para a sua continuidade. O aluno retido detesta repetir a matéria, costuma sair-se pior numa segunda vez, isso se não abandona a escola. Vai se arrastando no aprendizado, vai se arrastando na vida.