Arquivos Mensais: novembro \30\UTC 2008

Mulheres exigem fim da violência sexista

por Michelle Amaral da Silva última modificação 25/11/2008 15:09

Durante o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, feministas cobram políticas do Estado que garantam os direitos das mulheres

Durante o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra  a Mulher,  feministas cobram políticas do Estado que garantam os direitos das mulheres

Michelle Amaral,

da Redação

Movimentos feministas e a sociedade civil realizam ações de combate à violência contra a mulher nesta terça-feira(25), por conta da celebração do Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher.

Problema latente em nossa sociedade, a violência contra a mulher será tema de palestras, marchas, manifestações e atos em todo o país. As atividades integrarão os 16 Dias de Ativismo em face da Violência contra as Mulheres, instituídos pelo Centro de Liderança Global da Mulher, que se iniciam nesta terça-feira (25) e irão até o dia 10 de dezembro, data do aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Em São Paulo, acontece o Ato pela Não-Violência contra a Mulher, organizado pela Marcha Mundial das Mulheres, na praça Patriarca, em frente a prefeitura, às 15h. De acordo com a organização do ato, o objetivo é conscientizar e alertar a sociedade sobre esta problemática.

Maria Fernanda Marcelino, militante da Marcha Mundial das Mulheres, diz que ainda hoje as mulheres sofrem com várias formas de violência, que vão desde a violência psicológica até a física. Ela relata que no caso da violência psicológica, muitas mulheres não se dão conta do que estão sofrendo, por estarem acostumadas com uma sociedade onde impera o machismo e a discriminação contra a mulher.

A violência física sofrida por mulheres vai desde agressões públicas – violência sexual, gracejos, piadas, etc –, até a violência doméstica, cometida por maridos, companheiros e mesmo namorados. “Temos visto crescer muito a violência a mulheres jovens, por aqueles que não tem vinculo matrimonial, namorados”, denuncia Marcelino.

Lei Maria da Penha

Em vigor desde o dia 07 de agosto de 2006, a Lei Maria da Penha foi criada com o intuito de combater a violência contra a mulher. Para Maria Fernanda, a lei contribuiu para a conscientização da sociedade quanto ao problema. “A gente não pode dizer que a lei não teve influência ou impacto na vida das pessoas. Sabemos de casos de homens que levantaram a mão para bater em suas mulheres, mas se lembraram que existia a lei e voltaram atrás.

No entanto, a militante afirma que a lei não tem sido cumprida efetivamente e que falta um comprometimento do Estado nesta luta. Marcelino conta que o sistema de fiança para homens presos por violência contra a mulher ainda funciona, ao contrário do que estabelece a Lei Maria da Penha, de que não será permitida a substituição da pena por pagamento isolado de multa.

Maria Fernanda explica que por causa da falta de punição e a omissão do Estado nos casos de violência contra a mulher, o problema ainda persiste em nosso país. “A certeza da impunidade ainda é o principal elemento que impede as mulheres de denunciar esses casos”, lamenta.

Segundo Marcelino, para que o problema seja extinto é necessário que o Estado se empenhe na luta, com a criação de campanhas e iniciativas de conscientização e combate a esta prática, para que haja o comprometimento da sociedade e das famílias no combate à violência contra a mulher. “A sociedade civil já tem se organizado, mas sem o apoio e a ação do Estado, essa é luta se torna bem mais longa”.

Um direito ameaçado

LÚCIA STUMPF

O DIREITO à meia-entrada para estudantes em eventos culturais existe no Brasil desde a década de 40. Serve para garantir a formação plena aos jovens que aprendem não só quando estão em sala de aula, mas também indo a teatros, cinemas, museus. O projeto de lei 188/ 07 que tramita no Senado ameaça esse direito histórico, legítimo e conquistado com muita luta por diversas gerações do movimento estudantil.
A UNE, nos seus 70 anos de história, sempre teve uma atuação marcante no desenvolvimento da cultura nacional. Na década de 60, o Centro Popular de Cultura (CPC) forjou uma geração de artistas que até hoje se destaca no cenário brasileiro.
Hoje, o Centro Universitário de Cultura e Arte da UNE, o Cuca, além de formar jovens artistas, promove o diálogo entre a cultura erudita e a popular. A Bienal de Arte da UNE, que em janeiro de 2009 chegará à 6ª edição, é o maior festival artístico de juventude da América Latina.
Além de fomentar, a UNE defende a democratização do acesso à cultura, formando cidadãos e platéias conscientes. O direito à meia-entrada é o principal instrumento que os estudantes têm para conseguir fazer parte do cenário artístico do país.
É fato que, hoje, esse direito já não mais existe na prática. Desde a edição da medida provisória 2.208/01, de autoria do então ministro da Educação Paulo Renato Souza, assistimos à desregulamentação da meia-entrada.
A medida provisória abriu espaço para que oportunistas de plantão montassem um verdadeiro mercado de falsas carteiras de estudante, emitidas agora por qualquer instituição ou estabelecimento, dando origem às fraudes. Essa proliferação descontrolada permitiu que estabelecimentos artísticos elevassem o preço dos ingressos, fazendo com que, na prática, o preço que pagamos como se metade fosse seja o valor integral.
Os cidadãos de bem, que não se corrompem mesmo com a facilidade de obter um documento falso, são submetidos a preços exorbitantes e incompatíveis com a renda média da população.
São os estudantes os maiores interessados em uma nova e urgente regulamentação da meia-entrada. Precisamos revogar a medida provisória 2.208/01 e estabelecer um novo marco regulatório capaz de atacar o verdadeiro problema: as falsas carteiras estudantis. Defendemos a criação de um documento único, padronizado nacionalmente, que possua mecanismos capazes de coibir a falsificação. Defendemos ainda a criação de um conselho nacional fiscalizador capaz de validar as carteiras emitidas pelas entidades estruturadas e reconhecidas nacionalmente.
Porém, não podemos aceitar calados a tentativa de limitar o acesso dos estudantes ao benefício da meia-entrada. A essência do projeto analisado hoje no Senado é a restrição do direito à meia-entrada para os estudantes, e não a resolução dos reais problemas que enfrentamos.
A limitação do acesso à meia-entrada, a partir da criação de um limite de 40% de ingressos -a serem disputados entre estudantes e idosos-, sem a regulamentação da emissão da carteira de identificação estudantil atenta apenas à questão financeira dos empresários artísticos.
O Congresso Nacional deve se debruçar sobre o tema para solucionar o problema enfrentado pelos estudantes que já não conseguem mais acessar o direito à meia-entrada. O rigor da lei deve estar voltado à aplicação do benefício da meia-entrada, e não à restrição desse direito.
A juventude brasileira é a parcela da população que mais sofre as conseqüências das mazelas sociais. São os jovens as maiores vítimas da violência, do desemprego e da falta de perspectivas. Retirar dos estudantes o direito de acesso à cultura será um duro golpe numa geração já bastante sofrida. Não podemos pagar o preço da ganância de uns poucos empresários. Chamamos a sociedade e o Congresso Nacional para olhar o problema como um todo e a partir da perspectiva dos verdadeiros atingidos pela desregulamentação do direito à meia-entrada: os estudantes. Queremos, sim, uma nova lei capaz de ampliar nosso direito, mas nunca restringi-lo. Abaixo a medida provisória 2.208/01! Pela regulamentação da emissão de carteiras sem restrição do direito!

LÚCIA STUMPF, 26, estudante de jornalismo na FMU, é presidente da União Nacional dos Estudantes.

Universidade para todos

Abrir vagas na universidade massificada é agravar a situação educacional
Darwin Santiago Amaral, Professor de história
Universidade para todos é um erro porque nem todos os estudantes se interessam pela vida acadêmica, distinguida pela reflexão teórica, leitura dos clássicos e troca de idéias que sustentam debates e publicações. A maioria dos discentes poderia ser beneficiada com cursos técnicos de excelência, que podem promover ganhos individuais e fornecer mão-de-obra qualificada, evitando carência de profissionais. Pesquisas mostram que a educação é um assunto pouco atraente para o eleitor, aquele que escolhe os que definirão a política educacional, reafirmando um nexo entre voto e educação. Os encarregados de produzir a imagem dos gestores públicos sabem que milhões de analfabetos funcionais e outros tantos afastados dos livros passaram e passarão por escolas, com muitos deles cursando faculdades país afora. Com esses dados em mãos, profissionais calibram propagandas que vendem candidatos mais ou menos palatáveis e desinteressados pelo ensino fundamental, cuja importância não os elegeu.

Abrir vagas na universidade massificada, como paliativo dos problemas do ensino básico, é agravar a situação educacional. A questão atinge, também, as Forças Armadas, porque o funcionamento delas exige equipamentos que só podem ser operados por gente com conhecimento, instruída e treinada, que, obviamente, não brota do nada nos quartéis, nem emerge sem comportamentos adequados. O Estado precisa reduzir custos e investir na investigação científica, garantindo condições de prosperidade. Elevar padrões educacionais significa enfrentar elementos desestabilizadores do sistema: insegurança dentro da escola e em suas imediações; pobres opções de lazer do alunado; gravidez na adolescência; cultura da cópia; ingerência do tráfico na vida escolar; crenças errôneas acerca da atividade docente, entendida como mera aplicação de técnicas didáticas desconectadas da cultura, além de salários baixos, rotatividade e evasão do corpo docente, corporativismo, clientelismo, greves, politicagens e feiúra dos prédios escolares. Como se pouco fosse, é preciso encarar o conservadorismo machista: em um país em que músicas e coreografias picantes são onipresentes, muitas professoras temem apresentar aos seus alunos Davi, de Michelângelo, ou O beijo, de Rodin, por medo da reação das famílias; e Jorge Amado e Paulo Lins são retirados da estante sob a alegação de que suas obras são inadequadas à juventude.

Ocultando os problemas do fundamental, o ensino superior massificado tem sido incapaz de cumprir as promessas da universidade, se assemelhando a um produto descartável e intrinsecamente distante da pesquisa científica, que requer intensos investimentos de tempo, livros, diálogos, dinheiro, avaliação externa e muita crítica. A universidade para todos existe quando a reflexão teórica enriquece a sociedade e promove a participação cívica, além de produzir conhecimento, inovar, apontar opções, interagir com o mercado, que não pode ser negado, e auscultar a sociedade. O cidadão sabe que a universidade, sendo pública, nunca é de graça.

Rapper Renegado é premiado no Hutuz

Rapper Renegado é premiado no Hutuz, maior festival de hip hop da América Latina, e destaca a força de Minas Gerais no cenário nacional
Janaina Cunha Melo
Glenio Campregher/Divulgação -13/10/08
Renegado faturou dois troféus no evento do Canecão: o de revelação e o de melhor site
Rio de Janeiro – “Estou feliz por ser um dos atores que fortalecem o mutirão”. Com essa frase, o rapper Renegado, do Alto Vera Cruz, comemorou a participação do rap mineiro na noite de premiação do Hutuz, o maior festival de hip hop da América Latina. Anteontem, no Canecão do Rio, ele recebeu dois dos três troféus que disputava com vários outros artistas brasileiros. O rapper mineiro foi destacado nas categorias revelação (dividindo o prêmio com o grupo A286, de São Paulo) e melhor site, em cerimônia que também premiou veteranos como GOG, de Brasília, em videoclipe, e Realidade Cruel, de São Paulo, por melhor álbum e grupo do ano.

Em campanha pelo lançamento do CD Do Oiapoque a Nova York, Renegado acredita no êxito como resultado de processo com muitos desafios, a começar pela falta de reconhecimento dos rappers que atuam fora do eixo Rio – São Paulo. Nas duas vezes que subiu ao palco para receber os troféus, ele fez discurso emocionado, chamando a atenção para a vitalidade do movimento no estado. “Esses prêmios são a prova da nossa evolução, de como estamos conseguindo nos organizar em várias frentes, numa caminhada que tem objetivos e já começa a mostrar a que veio”, disse. Essa foi a primeira vez que Renegado disputou o Hutuz.

Para o rapper, a conquista também precisa ser atribuída à trajetória de vida de sua mãe, dona Regina, a quem ele homenageia em faixa do CD. “Ela deixou o interior sozinha e conseguiu criar três filhos na cidade com educação digna, fazendo-nos entender como é a vida. Devo isso a ela, aos moradores da minha comunidade, à associação de bairro, ao Negros da Unidade Consciente (NUC) e a todos que favorecem a organização do hip hop em Minas”. Além de Renegado, disputaram a final outros grupos mineiros, como Negras Ativas, Ideologia Feminina, Elemento.S e Retrato Radical.

Ariel Feitosa (produtor), Alessandro Buzzo (Ciência e Conhecimento) e Vozes do Gueto (demo masc) venceram em outras categorias prestigiadas. Participaram da entrega dos troféus Cacá Diegues, André Ramiro, Leci Brandão, Fernanda Abreu e Sérgio Lorosa, entre outros convidados de Nega Gizza, coordenadora geral do evento, e Dudu Nobre, que dirigiram a cerimônia. Diretor da Central Única de Favelas, realizadora do Hutuz, o rapper MV Bill fez duras críticas às emissoras de televisão, aberta e a cabo, pela ausência de iniciativas de valorização da produção audiovisual do hip hop no país. “É uma vergonha que a cada ano se confirme mais a qualidade dos videoclipes produzidos no Brasil e os canais, como o Multishow, que cobre o festival, continuam exibindo apenas os americanos”.

A nona edição do Hutuz se encerra amanhã, com mostra de trabalhos dos quatros elementos da cultura hip hop – rap, grafite, break e DJ –, no Circo Voador.

Hip-Hop com sotaque gaúcho

por Especial Hip-Hop*


Manos e minas gaúchos estão se envolvendo e produzindo muita cultura em diversas cidades de todo o Estado, das mais variadas formas, mas sem perder o eixo central de fazer o Hip-Hop crescer.



Através de festas hip-hop muitos jovens têm entrado em contato com os protagonistas da cena artística local como em Passo Fundo, onde Lela e a rapa da Nação fazem a programação que contou já com diversos nomes como o DJ Dee Ley da banda Da Guedes, ainda esse mês estará se apresentando na cidade, ou em Stª Cruz onde a Lisy também produz boas atividades da qual pude participar da última, com dois grupos de Rap um local (DMD) o outro era a Família Seguidores q recém lançou seu CD.

Outro que lançou CD foi o W-Negro de Porto Alegre, que aparece sentado em um tanque de guerra na capa do seu 1° álbum, produzido todo de forma independente.

Também acontecem festivais e grandes eventos como a ”Semana do Hip-Hop de Porto Alegre”, que com grande participação da Nação Hip-Hop Brasil na elaboração e aprovação da lei que hoje faz da segunda semana de Maio data permanente como parte do calendário oficial da cidade tendo acontecido esse ano a 1ª edição na data de Setembro. Está rolando um ”Festival de Funk e Hip-Hop” para novos talentos e ainda um evento que chega à sua 5ª Edição ”COHAB é só Rap” que contou com vários grupos locais e uma atração de São Paulo, o grupo RZO.

Posso citar mais festas que integram o movimento aqui como a Peleia de Mc’s, o equivalente gaúcho a Batalha do Real carioca e da rinha de mc’s de São Paulo, com produção do Nego Robson, ou a festa boa do Fabrício milk-shake, entre outras espraiadas nesse nosso Rio Grande. Mas também informo o encerramento das atividades do Gê Power’s, onde muitas pessoas conheceram o hip-hop e que sempre vai ser referência em relação às festas de rap e Black-music em Porto Alegre. A cena mais Undergroud acontece todas as noites em esquinas de becos e avenidas, com batidas de beat-box e freestyle, já clássicos de lugares como a Cidade-Baixa de PoA, por vezes um palco aberto, onde diversas cabeças observam atentamente as rimas e batidas se enturmando numa grande roda.

Na área da dança, têm acontecido batalhas em diversas cidades, como em St° Ângelo no Fórum de Juventude onde em caravana da Nação o pessoal da Restinga Crew disputou com as crews locais, ou também em Rio Pardo onde recentemente aconteceu a 1ª batalha de b.boy da cidade, por iniciativa dos manos da região, como o b.boy Roger. Na capital aconteceram batalhas nos eventos maiores como a própria semana do hip-hop. Este elemento tem se destacado na área de oficinas, sempre com grande interesse da gurizada.

Aqui também o Graffiti tem aberto muitas portas, entrando de vez no circuito nacional com projetos como ”6 Direções”, que fez um grande intercambio de artistas da cena de todo o país, incluo também nessa lista a expo ”Transfer” numa retomada do Graffiti as galerias de arte, ou a grafitagem da Art do Risco nos muros da fabrica da Coca-Cola no RS quebrando tabus do receio de grandes empresas em investir no talento local, contamos com visitas ilustres de toda a parte da America Latina e destaco a presença do grafiteiro Daze de NY, que trocou muita experiência com a turma daqui. A criação da galeria publica de street art na estação de trem e outros encontros que rolaram em diversos cantos da cidade e do Estado, bem como oficinas e palestras coroando um bom momento do Graffiti regional.

As lojas e grifes próprias do hip-hop tem espaço no mercado aqui no Sul, com produtos cada vez mais atraentes, que vão de camisetas e bonés, casacos e calças e até tênis e meia como no caso da ”Di Boa”, contamos com as lojas ”Ponto Favela” e ”Neurose”, a grife ”Perifa” e a nova loja daqui da cidade a ”Bronx” para encontrar as roupas largas características da cultura de rua.

Muito de minha atuação é voltada pra ação social, então cito os acontecimentos que achei mais positivos nessa área de atuação como o filme ”Vitimas do Crack” do Rapper Dogg, como os ”Domingos Alegres” com o Edinho Dekabrada, que produz diversos grupos no seu estúdio e lembro bem as incontáveis oficinas e palestras que a Nação desenvolveu em escolas de 1° e 2° grau da rede publica, e em faculdades como UFRGS, PUC e IPA e em Caxias com o Duda e o Caramujo, já tendo atingido milhares de jovens com o 5° Elemento, o Conhecimento.

Uma das melhores coisas na cultura é a ampla rede que ela forma, e que visualizada, pode criar grandes fenômenos como o ”Sarau Cultural do Bezerra”, que nasceu nesse ano e que da mesma forma que o sarau da ”Cooperifa” em São Paulo, tem como protagonista a literatura marginal, e no dia 07 de novembro aconteceu uma edição na ”Feira do Livro de Porto Alegre”, com a participação dos três mestres de cerimônia: Washiton Cucurto, que criou um sarau semelhante na Argentina, Sergio Váz que trouxe o sarau pra dentro das favelas paulistas e Mano Oxi, que junto com a Nação adaptou o sarau pra o nosso sotaque gaúcho. Relembro nossa participação na construção da Marcha Zumbi dos Palmares, que resultou em um dia de alforria, em parando o centro de Porto Alegre.

Organizações de hip-hop são importantes pra nós, porque mostram nossa capacidade de interagir com a sociedade, com governos e com a iniciativa privada e ai temos o exemplo da ”Sitio”, temos também a ”Alvo” e a ”Enxame”, os grafiteiros da ”Circulando”, e ainda ”470 Kasulo”, a ”Militantes da Sul”, a ”CUFA” e o ”MOHHB” estão presentes no Estado e a ”Organização Cultural movimento Hip-Hop ”| do programa ”Hip-Hop Sul”, existem alguns programas em rádios abertas que tocam Rap’s entre a onda ”Tsunami” de rits de Funk, e mais algumas rádios comunitárias e rádios ON-LINE, com maior liberdade de programação, fazendo a rede de mídia e comunicação de massa, além, são claro, das comunidades, blogs, my spaces e sites que circulam na internet hoje, como o Adversus do Nitro Di.

Visualizo que após as eleições desse ano o Hip-Hop teve um saldo muito positivo no estado tendo candidatos a vereador em quatro cidades, incluindo Porto Alegre, são eles: Mano Oxi(POA), Valter (Campo Bom), Paraiba (Taquara) e DJ Gutti (Sapucaia), nenhum deles saiu eleito mas serviu para afirmarmos que o povo tem legitimidade para assumir o poder, que sempre esteve do outro lado,que nunca foi do gueto, nunca foi da periferia, e que vamos usar esse poder para quem precisa dele, que são emergencialmente as favelas.

Já fizemos historia e vamos nos empenhar de forma triplicada agora que já temos um piso, agora que temos um chão, uma base de referencia da nossa influência nessas cidades, e ampliar nossas fileiras para os próximos desafios que virão, seja em Alvorada com o White Jay nos eventos da praça da 48, seja em São Leopoldo com o SMUA e sua luta pelas entradas adaptadas para deficientes físicos nos ônibus e estabelecimentos da cidade.

A Nação tem sido um grande diferencial por trabalhar na capacitação dos seus quadros e tem realmente interferido na realidade do Hip-Hop do Sul do país como na aprovação da Lei da ”Semana Estadual do Hip-Hop” aprovada recentemente na Assembléia Legislativa, apresentada pela Nação ao Dep. Raul Carrion e por ele levada a votação.

Encerrando esse depoimento vejo um momento ideal para dizer que através dos elementos do Hip-Hop resgatamos a auto-estima e incluímos na sociedade diversos jovens que estão em situação de risco, oportunizando a eles protagonizarem essa transformação. Avançando cada vez mais na ação coletiva e na capacitação e profissionalização, tendo isso como um processo natural, que pode ser acelerado, conforme nosso próprio esforço. Um Grande ano está vindo e no RS muita confiança e determinação pra encarar esse novo período do seculo21, onde um Presidente negro acaba de assumir o centro do império capitalista mundial. Os ventos da mudança…

Lucas Veiga, Kuca 3000, graffiteiro ArtdoRiscoCrew – PNQ CREW, é também diretor de comunicação da Nação Hip-Hop Brasil de Porto Alegre. Kuca3000@hotmail.com





Cia Baobá apresenta peça sobre cultura e heranças da África

‘Ancestralidade: Herança do Corpo neste sábado, em BH

Ailton Magioli – EM Cultura

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Renata Mey/Divulgação
A Cia. Baobá de Arte Africana e Afro-brasileira faz pré-estréia amanhã e domingo em BH

Desdobramento de Quebrando o silêncio, montagem anterior da companhia, Ancestralidade: Herança do corpo, da Cia. Baobá de Arte Africana e Afro-brasileira, tem pré-estréia sábado e domingo, no Centro Cultural da UFMG e no foyer do Palácio das Artes, respectivamente, trazendo à cena manifestações culturais que são consideradas verdadeiros símbolos de resistência da comunidade afro-brasileira. Concebido pela bailarina, coreógrafa e antropóloga Júnia Bertolino, o espetáculo reúne 14 bailarinas e seis percussionistas, entre os quais o senegalês Mamour Ba e seu filho Cheikh Ba, o primeiro também responsável pela trilha e direção musical.

Veja mais fotos do espetáculo

Produto de uma série de oficinas que a Baobá vem realizando desde agosto, Ancestralidade: Herança do corpo ressalta valores da cultura africana e suas respectivas heranças no Brasil. Oralidade, ancestralidade e identidade estão representados na montagem por meio de esquetes como Ritual da graça, o abre-caminho da montagem em que as mulheres dançam com asas de borboleta em reverência ao matriarcado africano. Em Universo feminino o que está em destaque é o papel da própria mulher na comunidade, enquanto em Djembola as mesmas dançam para pedir chuva e a conseqüente fartura da colheita. Ginga do corpo presta homenagem ao mestre Pastinha e à capoeira angola. Já Dança ancestral é um momento de reverência e louvação aos orixás, enquanto Africana pretende provocar reflexões sobre a dança afro na cena contemporânea.

Além de Júnia Bertolino, estão no elenco da nova montagem da Baobá William Silva, Fred Santos, Alex Diego Tamborilar, Eric Delo, Jander Ribeiro, Evandro Nunes, Lu Santana, Lu Silva, Andréia Pereira, Gaya Dandara Campos, Gabriela Rosário, Marisa Veloso e Simone Meireles. O elenco convidado é formado por Mestre João Bosco, Ludmila Benquerer, Luciana dos Santos, Camila Rievers, Andréia Luar, Gilmara Guimarães, Núria Bispo, Daniela Vieria e Paulo PG, além dos músicos Mamour Ba e Cheikh Ba.

Preparando-se para comemorar uma década de atividades, graças à aprovação do projeto na Lei Rouanet, a Cia. Baobá conseguiu trocar os ensaios semanais, aos sábados, no coreto do Parque Municipal, pela sede de um sindicato no Bairro Floresta. Um dos maiores problemas enfrentados pela companhia é o preconceito, que impede a entrada de bailarinos no elenco. “Se para tocar já é difícil encontrar, imagina para dançar”, conta Júnia Bertolino que, por isso mesmo, acabou privilegiando a temática feminina em suas montagens. Rui Moreira, Carlinhos de Oxossi, Evandro Nunes, Mamour Ba, Mestre João Bosco e Grupo Encaixa Couro foram alguns dos convidados para ministrar as oficinas que resultaram no novo espetáculo da companhia.

Com estréia oficial agendada para 16 de dezembro, no Teatro Francisco Nunes, na pré-estréia do Centro Cultural da UFMG, Ancestralidade: Herança do corpo terá abertura feita pelo projeto Kizomba, do Terreiro Manzo Ngunzu Kaiango. Logo depois, será realizada mesa-redonda para discutir a valorização da dança afro em Belo Horizonte e o processo criativo da Cia. Baobá. Além de Júnia Bertolino estarão presentes Marlene Silva, Marcio Alexandre (Quilombo das Gerais), Rô Fatawa (Aruê das Gerais), Mameto de Inkisse Muiendê (Mãe Efigênia/Manzo Ngunzu Kaiango) Evandro Passos (Cia Bataka), Mamour Ba, João Bosco (Cia. Primitiva), Carlos Afro (Cia. Carlos Afro), Adelson Vieira Sabará (Odum Orixás), agentes e autoridades da cultura e educação.

ANCESTRALIDADE: HERANÇA DO CORPO
Apresentação do espetáculo da Cia Baobá de Arte Africana e Afro-brasileira. Sábado (29/11), às 19h30, no Centro Cultural da UFMG, Av. Santos Dumont, 174, Centro. Domingo, às 11h, no foyer do Palácio das Artes, Av. Afonso Pena, 1.537, Centro.

Rui Moreira celebra nossas raízes africanas e indígenas

Espetáculo Q’eu Isse, da SeráQuê?, sexta e sábado, no Teatro Alterosa

Daniela Mata Machado – EM Cultura

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Guilherme Rodrigues/divulgação

Os festejos africanos se encontram com a cultura indígena no espetáculo Q’eu isse, que a Companhia SeraQuê? apresenta sexta e sábado no Teatro Alterosa. Nesse trabalho, o segundo da trilogia aberta por Esquiz, o cantor Milton Nascimento, a figurinista Bia Lessa e o iluminador Pedro Pederneiras (um dos fundadores do Grupo Corpo) se uniram ao coreógrafo Rui Moreira. O resultado vem agradando o público: Q’eu isse estreou em Brasília e fez temporadas bem-sucedidas no Rio de Janeiro e em São Paulo.

“O trabalho que desenvolvi em 2005, com verba da Bolsa Vitae, serviu para convidar outras pessoas para visitarem minha curiosidade”, explica Rui Moreira. Para realizar esse estudo, intitulado Esquiz q’eu isse com es, o coreógrafo fez pesquisa histórica e estética dos festejos, investigando traços da identidade brasileira nas culturas de matriz africana, sobretudo no universo popular de Minas Gerais, com seus sincretismos. “Estudei as festas de São Benedito e de Santa Efigênia, os reinados e o congado”, explica.

Rui acabou descobrindo onde a cultura africana se encontra com os ritos indígenas. Q’eu isse mostra esse ponto de interseção. Mas é tudo puramente subjetivo. Perceber tais nuanças depende muito do olhar do público. “O que o espetáculo faz é recolocar na pauta do cotidiano a identidade do povo brasileiro”, explica o coreógrafo.

Enquanto Esquiz se concentrava nas manifestações de fé das festas de Nossa Senhora do Rosário, Q’eu isse faz leitura contemporânea dos traços de memória nesses ritos sagrados e das trajetórias diferenciadas que os jovens percorrem para conduzir a espiritualidade. É nesse sincretismo que as manifestações religiosas de origem indígena acabam encontrando lugar e se cruzando com aquelas de matriz africana.

O nome do espetáculo é escrito em “mineirês”. Rui Moreira explica que o jeito mineiro de engolir o final das palavras é fruto da influência banto na cultura brasileira e também dos índios. Reverenciar esses antepassados é, provavelmente, seu maior objetivo.

“Esquiz q’eu isse com es é homenagem a meus antepassados”, explica. “Eles quiseram que eu fosse com eles. Se não houvesse tanta gente atrás de mim, não sei se estaria aqui hoje”, conclui o coreógrafo.

Assista ao vídeo do espetáculo

Q’EU ISSE
Espetáculo da Companhia SeraQuê. Sexta (28/11) e sábado (29/11), às 21h, no Teatro Alterosa (Avenida Assis Chateaubriand, 499, Bairro Floresta). R$ 15 (inteira) e R$ 7,50 (meia-entrada). Informações: (31) 3237-6611.

‘Beleza, que beleza? Na favela’

Jonas Pasck cutuca a Record: ‘Beleza, que beleza? Na favela’


“Beleza na Favela” é o nome de um quadro do programa Hoje em Dia, da TV Record. A idéia é fazer um concurso, mais uma distinção hierarquizada entre o que é bonito e o que é feio no mundo. Ou melhor, que boca tem mais valor, que cabelo faz mais sucesso, que cor é a certa…

Por Jonas Pasck*, no site da Caros Amigos



O programa visita os estados do Brasil em busca de uma candidata, que represente seu estado na final do quadro. Na final, das representantes de cada estado, uma será eleita como representante da beleza da mulher da favela no Brasil.

Em cada estado o programa visita por volta de cinco comunidades carentes, de onde escolhem uma representante que viajará para São Paulo, a cidade maravilha em termos de competição e hierarquização. Ah… com todas as despesas pagas…

O primeiro registro histórico que se tem de favela no Brasil data do ano de 1897. Foram precisos 111 anos para que a mídia percebesse que existe beleza na favela e desse um jeito de explorar. E eis aqui a beleza da favela da Record: alta, magra, cabelos lisos, bem lisos… narizinho fino e pele escura… claro…

“Beleza da favela?” Um estereótipo de beleza que tenta namorar da melhor maneira possível com o estilo europeu possível nos países tropicais: tem pele escura, representando nosso escaldante sol, mas tem cabelo liso, tem nariz fino… ah… e é magra, muito magra…mas e aí? É isso a representação da beleza da favela?

Como se representar a verdadeira beleza do povo negro, ou as grandes belezas exóticas — originadas da miscigenação de três etnias, índios, negros e brancos — tão característica do povo brasileiro, se os únicos traços de beleza que a mídia busca são aqueles que se assemelham aos do branco, europeu ocidental?

Em sua hipocrisia, a mídia até tenta disfarçar seus anseios discriminatórios, mas tropeçam em suas próprias pernas ao criarem um quadro onde se encontra implicitamente estampada a discriminação étnica. Ao elegerem a beleza da favela, talvez tenham se sentido desconfortáveis na escolha de uma representante de pele branca, pois se está incutido no imaginário do povo brasileiro que negro e favelado são sinônimos.

Assim, dentro de uma lógica hipócrita e discriminatória da mídia, quem melhor para representar a beleza da favela que uma mulher de pele negra? Mas claro, cabelo liso, e nariz fino… que ninguém quer por ali o “cabelo ruim e narigão”

A busca de uma candidata de pele negra com traços característicos do branco, europeu ocidental, atende a uma política que reforça a hierarquia da beleza branca, que se articula na mídia desde o inicio das telenovelas. Em um país em que mais da metade da população já não é mais branca fica estranho entender como o lugar social dos negros na mídia ainda esteja ligado a um papel resignado, de inferioridade em relação ao branco.

Coincidentemente, enquanto escrevia este artigo, observei na televisão um comercial de determinado supermercado onde aparece uma dezena de figurantes, nenhum deles negro. Onde o negro está sendo representado? Em papéis inferiores nas novelas como empregadas domésticas? Bandidos ou marginais, capachos, capangas ou seguranças em filmes? Quando aparece em uma camada social mais abastada é um político corrupto? Em programas que buscam eleger a beleza da favela, mas nos padrões mais branqueados possíveis? O problema é que o negro só tem destaque na mídia no papel de negro, não é mais um personagem como outro qualquer, ele é o “negro”.

Seriam mesmo esses personagens estereotipados a imagem do negro no Brasil? O que ocorre é a depreciação do negro, em seus traços de beleza e cultura, advindo de um espírito discriminatório e preconceituoso, encobertos pelo discurso de uma suposta democracia étnica, fruto de 400 anos de escravidão e mais cem anos de exploração do trabalho negro, que por 500 anos carregaram com braços fortes as estruturas deste país, produzindo riqueza para o homem branco e, como recompensa, tendo seu papel na história sempre resignado a um segundo plano.

Isto tudo para nos atermos somente às injustiças com os negros. Mas e as outras pessoas que não se encaixam neste estereótipo de beleza imposto pela mídia? Não teriam essas pessoas um traço de beleza que lhes é peculiar, onde se está sendo representado as outras belezas do nosso povo?

A “ditadura das passarelas”, que a mídia enaltece com uma aura de glamour e elegância, impondo ao resto da sociedade um padrão de beleza, que deve ser tomado como verdadeiro, e resignando o conceito de beleza aos traços do europeu ocidental (branco, magro, cabelos lisos, nariz fino). Cria-se então um mercado da beleza. E os especuladores não deixam de tirar proveito mais uma vez dos sonhos do povo brasileiro.

Quando vamos começar a olhar a beleza do Brasil como ela de fato é, e parar de olhar como deveria ser? Negro, branco, índio em uma miscigenação que torna particular a beleza do povo brasileiro. Sem padrão descobre-se uma variedade de belezas tão magníficas, e exóticas, quanto as do padrão que se impõe.

* Jonas Pasck é estudante de História


Umbanda centenária

A denominação macumba tem, em algumas regiões brasileiras, conotação pejorativa
Alexandre Braga, Coordenador de comunicação da União de Negros pela Igualdade (Unegro)
O Brasil, maior país católico, tem uma religião de feições afro-indigenas e características nacionais. A umbanda, que completou 100 anos dia 15, tem 432 mil adeptos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com base no amor, na humildade e na caridade, essa religião superou todos os obstáculos como credo popular, haja vista os difíceis momentos em que sua prática virou caso de polícia, pois era proibida. Durante o Estado Novo, na década de 1930, Getúlio Vargas criou a Inspetoria de Entorpecentes e Mistificações para combater seus cultos, época em que eles aconteciam de forma clandestina. A umbanda, que significa para todas as bandas, nasceu no Rio de Janeiro em 15/11/1908, por intermédio do médium Zélio Fernandino, então com 17 anos, cuja inspiração para o início das práticas mediúnicas veio por meio do “caboclo das sete encruzilhadas”, que afirmara que estava vindo naquele momento para oficializar uma nova religião, em que não existiria nenhum tipo de discriminação e que estaria aberta para qualquer um. A umbanda é composta de um único deus (Olorum, que é o criador de tudo e todos), em que seus freqüentadores (os de “filhos de fé”) reverenciam entidades superiores denominadas orixás, sendo o principal Jesus (Oxalá).

A associação da religiosidade africana aos elementos do catolicismo ocorreu principalmente como estratégia de sobrevivência nas senzalas contra os maus-tratos e os castigos físicos impostos aos escravos, pois os senhores de engenho não admitiam cultos que não fossem a fé européia, nascendo daí o sincretismo religioso, pelo qual os negros associavam os orixás aos santos de seus senhores, mas na verdade estavam mesmo é praticando a fé dos ancestrais africanos. Essa fusão da umbanda com os elementos das culturas afro (jêje, nagô, banto e mina), pajelança, cardecismo, catolicismo e da natureza são as bases dos rituais umbandísticos. Os cultos da umbanda eram feitos em tendas, posteriormente terreiros. O primeiro deles foi o Centro de Umbanda Nossa Senhora da Piedade. E a religião passa a ser conhecida como macumba, tipo de madeira usada para fabricar o atabaque, principal instrumento musical tocado na umbanda e outras religiões de matriz africana.

Atualmente, a denominação macumba tem, em algumas regiões brasileiras, conotação pejorativa. Em 1946, graças à emenda na Assembleia Constituinte proposta pelo escritor-deputado Jorge Amado, do então PCB, a liberdade de culto foi aprovada. Porém, foi o ex-governador de São Paulo Adhemar de Barrros “o defensor da umbanda”, apoiando, nos anos 1950, os terreiros para que eles se registrassem em cartório, inaugurando um breve período em que a religião deixou de ser “caso de polícia”. Depois do Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965, a Igreja Católica passou a dialogar com as religiões de inspiração afro-indígena, mas o preconceito e a perseguição só começam a ser tipificados como crimes de intolerância religiosa a partir da promulgação da Constituição de 1988.

A violência doméstica e familiar

A violência doméstica e familiar contra a mulher
é a expressão mais perversa do desequilíbrio
de poder entre homens e mulheres.

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http://www.tjpe.gov.br/servsocjec/ver_noticia2.asp?codg=39


google
A PARTIR desta semana, o Brasil passa a contar com uma lei específica para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. A lei aprovada pelo Congresso Nacional e que amanhã será sancionada pelo presidente da República dá cumprimento, finalmente, à Convenção para Punir, Prevenir e Erradicar a Violência contra a Mulher, da OEA, e à Convenção de Belém do Pará, ratificada pelo Estado brasileiro há 11 anos. O Brasil é o 18º país da América Latina a ter uma lei dessa natureza.
Pesquisa realizada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em dez países sobre o impacto da violência contra a mulher sobre sua saúde, divulgada em 2005, revela que, no Brasil, somente na capital de São Paulo, 27% das mulheres (quase um terço) já foram agredidas fisicamente por seus parceiros ou ex-parceiros. Na Zona da Mata, em Pernambuco, esse percentual sobe para 34%.
Levantamento realizado nas Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deams) apurou que no ano de 2005, apenas nas capitais brasileiras, houve cerca de 55 mil registros de ocorrências. O índice salta para 160.824 se consideradas as demais cidades. Esses dados, todavia, tornam-se ainda mais significativos por corresponderem a apenas 27% das Deams existentes e pelo fato de um número significativamente alto de mulheres não recorrer à autoridade policial por medo, vergonha e falta de crença na eficácia de sua denúncia.
A violência doméstica e familiar contra a mulher é a expressão mais perversa do desequilíbrio de poder entre homens e mulheres e é, ainda hoje, um grave problema mundial. No seu rastro, estão índices expressivos de absenteísmo ao trabalho, a feminização da Aids e o baixo aproveitamento escolar de crianças que presenciam a violência.

“Naturalizada” por séculos de cultura patriarcal e machista, a violência contra a mulher se configurou como questão pública, rompendo os limites estabelecidos pelas quatro paredes do lar por meio das vozes de milhares de mulheres que resolveram, há cerca de 30 anos, não mais se calar. Rupturas culturais são desoladoramente lentas, requerem mudanças de atitude nos lares e sociedades, nos marcos legais e institucionais.
Somando-se às questões de natureza cultural -e também como sua conseqüência-, a inexistência de uma legislação específica vem garantindo a impunidade dos agressores. Situações que começaram como uma ameaça evoluíram muitas vezes para assassinatos sem que qualquer intervenção pudesse ser ou fosse feita para evitá-lo.
A nova lei altera o Código Penal e possibilita que os agressores sejam presos em flagrante ou tenham sua prisão preventiva decretada quando ameaçarem a integridade física da mulher. Acaba o pagamento de multas ou cestas básicas. A violência doméstica é tipificada como uma das formas de violação dos direitos humanos. Esses crimes passam a ser julgados em varas criminais até a instituição dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher no âmbito dos Estados.
A lei prevê, ainda, inéditas medidas de proteção para a mulher que corre risco de vida, como o afastamento do agressor do domicílio e a proibição de sua aproximação física da mulher agredida e dos filhos.
O texto legal com que passamos a contar passou por um longo processo de discussão e maturação. Originado em proposta elaborada por um consórcio de ONGs, foi discutido e reformulado por um grupo de trabalho interministerial, coordenado pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, e enviado pelo governo federal ao Congresso Nacional.
Por meio da relatoria do projeto de lei, foram realizadas audiências públicas em Assembléias Legislativas das cinco regiões do país ao longo de 2005. As audiências contaram com intensa participação de entidades da sociedade civil. O produto desse processo foi um substitutivo acordado entre a relatora, o consórcio de ONGs e o Executivo federal. Em dezembro de 2005, o projeto foi aprovado na Câmara dos Deputados e, em julho de 2006, no Senado Federal. Por unanimidade.
“Toda mulher tem direito a uma vida livre de violência”. Esse é o nosso desejo, e esse deve ser o nosso compromisso.

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NILCÉA FREIRE , médica, é ministra da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres da Presidência da República. Foi reitora da Uerj (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) de 2000 a 2003.

Os rappers Mano Brown e os Racionais
1994 – Dia do rap
A PM prende integrantes dos grupos de rap Racionais MC’s e MRN, durante show no Vale do Anhangabaú. Acusa-os de incitarem com sua música o crime e a violência.

D2 liga rap ao funk

Depois do samba, D2 liga rap ao funk Em seu 5º disco solo, “A Arte do Barulho”, músico usa groove dos funkeiros cariocas para fugir da mistura de rap e samba

Novo álbum reincorpora as guitarras dos tempos de Planet Hemp e, segundo D2, tem influências que vão de Justice a Roberto Carlos

CAIO JOBIM
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, DO RIO

Após quatro discos solo, a mistura de rap com samba já virou marca registrada de Marcelo D2. Dizendo-se estar em uma fase influenciada pelo “metal”, o rapper mostra que não quer ficar preso à marca e lança o álbum-manifesto “A Arte do Barulho”, o quinto sem o Planet Hemp.
“Eu vou no rock/ Eu vou funk/ É hip hop/ Atitude punk”, canta D2 em “Pode Acreditar”, anunciando as intenções do novo trabalho na única faixa em que, curiosamente, exercita a sua veia sambista. Em “A Arte do Barulho”, o “laiá laiá” de D2 reincorpora as guitarras aceleradas dos tempos de Planet Hemp, flerta com o funk carioca, mimetiza a fase soul de Roberto Carlos e troca a formação percussiva do samba pelas bases eletrônicas.
“Eu estava sentindo saudade dessa parada mais pesada mesmo. Aí eu fui num show do Justice [dupla francesa], que não tem muito a ver com rock, é uma banda de dance, mas que tem total influência de metal. O show me deixou embasbacado, e eu pensei: “Dá para fazer música pesada com groove. Dançante, mas pesada'”, diz D2.
Depois de abrir o rap ao universo do samba, o músico acredita que seria benéfico aos rappers brasileiros incorporar a linguagem direta e popular dos funkeiros em seus versos.
“Eu acho que o rap nacional precisa buscar essa identidade. A gente precisa falar mais para o povo, e não ficar falando para o nosso ego. Esse é o meu caminho, é o que eu tento buscar no samba. É o que o funk faz. O cantor de funk é totalmente desprovido de ego, é escrachado pra caramba. Eles falam a linguagem do povo, aquilo que o povo quer ouvir”, diz.
D2 tenta conciliar passado e futuro. “Fala Sério!”, com participação de Mariana Aydar nos vocais, “tem uns tambores de congada, uma coisa mineira, mas com uma guitarra punk, meio The Clash”, segundo ele.
Roberta Sá canta o refrão de “Minha Missão”. “Essa melodia é total Roberto Carlos. Quando eu acabei de escrever essa letra, pensei: “Caraca, essa deve ser a minha veia Roberto Carlos”.”

Manifesto
D2 tenta fazer barulho não somente com a música. Numa espécie de manifesto que vem no encarte, exalta de Tom Jobim a Chico Science e prega: “É preciso escrever a nossa própria história… deixar de viver o sonho dos outros”. “Todo mundo fica mais interessado na briga do casal do momento, na revista, do que em cuidar do seu casamento. Todo mundo fica preocupado com quem está fazendo mais sucesso do que em correr atrás do seu próprio sucesso”, afirma.
“Eu gostaria de ter a classe da bossa nova, a malandragem do samba de terreiro e a agressividade do rock’n’roll”. Para o ano que vem, já sabe o que quer: fazer shows de “A Arte do Barulho” no Brasil e no exterior e realizar o sonho de gravar um disco com João Donato.

Com boas faixas, rapper erra nas letras


BRUNO YUTAKA SAITO
DA REPORTAGEM LOCAL

O que fazer após uma obra-prima? “À Procura da Batida Perfeita” (2003) não só conferiu a Marcelo D2 a merecida alcunha de “gênio” como lhe rendeu fama, dinheiro e uma improvável popularidade entre os mais novos -apresentações do rapper costumam reunir mais crianças que qualquer show da Xuxa.
“A Arte do Barulho”, o segundo de inéditas depois desse “boom”, reflete certa desorientação do malandro das ruas alçado ao estrelato.
Rico e interessante musicalmente, o álbum traz faixas que demonstram retrocesso ao passado mais roqueiro e funkeado do rapper no Planet Hemp -caminho tolerável, afinal D2 já atingiu um ápice ao consolidar o gênero samba-rap.
A faixa-título, por exemplo, incorpora guitarras pesadas, mas com balanço -Seu Jorge está lá para dar a “ginga” necessária. O barulho, no entanto, não confere vigor à música.
Mais bem-sucedida nessa direção é “Fala Sério!”, que encontra seu equilíbrio no vocal forte e sutil de Mariana Aydar e na incorporação de pesados tambores. Lembra os melhores momentos da Nação Zumbi. A climática e misteriosa “Vem Comigo que Eu te Levo pro Céu”, de versos como “Aquela coisa na barriga antes de te ver/ A balada sempre era melhor se tivesse com você”, que tanto pode ser sobre uma relação amorosa quanto uma referência às drogas, é boa escolha para fechar o álbum e soa marcante justamente pelo fraseado da guitarra.
O problema maior de “A Arte do Barulho” acaba recaindo nas letras, algo crucial para a arte do MC. Sem idéias bem encadeadas, reflexões pertinentes e o desafio de surpreender constantemente o ouvinte, um MC pode se desviar para o cansativo lado da autocelebração, uma constante no rap norte-americano, por exemplo.
Não que D2 tenha perdido sua sagacidade. As letras são reflexo de sua própria vida, e nesse momento o rapper se mostra como o sujeito que “chegou lá” e indica o caminho aos novatos, como um pai de bons conselhos. “Minha Missão” é exemplar nesse sentido: “Minha missão é vir cantar canções/E provar pra você que esse mundo é seu/E não importa o quanto duro ele for”. Em “A Arte do Barulho”, D2 desponta como um Renato Russo do rap.

A ARTE DO BARULHO
Artista: Marcelo D2
Lançamento: EMI
Quanto: R$ 29,90, em média
Avaliação: regular

Como interpretar o vandalismo nas escolas?


DAGMAR M. L. ZIBAS


O vandalismo praticado é um protesto contra a completa desesperança de encontrar na escola a chave para um futuro melhor


DEPOIS DAS impactantes imagens da depredação da escola estadual Amadeu Amaral por seus alunos, em São Paulo, e da desmedida repressão policial, diversos especialistas vieram a público para opinar sobre o lamentável episódio.
O diagnóstico de decadência institucional, como levantado pelo professor Sérgio Kodato em entrevista a esta Folha (Cotidiano, 13/11), tende a ser consenso entre os analistas. O que falta é mapear a exata dimensão desse processo e aprofundar o debate sobre as soluções.
Remontar à origem da decadência do sistema público não é tarefa fácil.
As esferas oficiais tendem a minimizar suas responsabilidades, relacionando as dificuldades constatadas ao grande aumento da matrícula em todo o ensino básico. Mais difícil é reconhecer os efeitos deletérios das políticas dos anos de 1990, que, em São Paulo, são maximizados pela prolongada continuidade político-administrativa no Estado.
Na base dessas políticas está o argumento de que os recursos destinados à educação não precisariam ser aumentados, mas apenas mais bem administrados.
A decantada valorização do magistério não contemplou aumento de salários que tornasse a carreira docente atraente para jovens mais bem formados. Ao contrário, os professores foram considerados “insumos” secundários, abaixo, por exemplo, da necessidade de distribuição de livros didáticos.
Nessa abordagem, o alarmante problema da repetência foi “resolvido” pela adoção de fato da promoção automática, sem que a escola fosse equipada com instrumental adequado para a recuperação de alunos com aprendizagem defasada.
O vandalismo praticado é uma forma caótica de chamar a atenção para os repetidos erros e omissões das políticas educacionais. É um grito de revolta pela precariedade das instalações e dos recursos didáticos, pela debilidade da formação do magistério e pelas sofríveis condições do trabalho docente. É um protesto difuso, explosivo e não elaborado, mas claramente voltado contra a implacável deterioração institucional, a inutilidade da freqüência às aulas e a completa desesperança de encontrar na escola a chave para um futuro melhor.
Infelizmente, o grau de rebaixamento de todo o processo educativo é de tal ordem que nossos jovens não possuem instrumentos para construir canais mais produtivos para expressar suas frustrações.
Nesse sentido, vale lembrar o exemplo dos secundaristas chilenos, que, desde 2006, estão organizados em um movimento de rebelião, às vezes latente e outras vezes explícito, que já rendeu a aprovação de uma nova legislação educacional e alçou os estudantes daquele país à condição de atores políticos essenciais na cena educacional.
Entre nós, as soluções para o fracasso do sistema público são conhecidas e se traduzem em antigas reivindicações dos educadores: adequada formação inicial e continuada dos docentes, valorização do magistério, com melhores salários e correspondente responsabilização pelo trabalho realizado, dedicação de tempo integral dos professores a um só estabelecimento, maior permanência diária dos alunos na escola, recursos didáticos ricos e variados (laboratórios, internet, biblioteca, equipamentos esportivos, dispositivos multimídia).
Aulas expositivas instigantes, desenvolvimento de projetos interdisciplinares, pesquisas em laboratórios, em bibliotecas, na internet ou no meio social circundante, acompanhamento individualizado das dificuldades e dos progressos de cada estudante, visitas a museus, acesso a teatro, concertos, cinema -tudo isso constitui procedimentos didáticos que se complementam.
Com tal estrutura e com tal dinâmica, a motivação para o ensino e para a aprendizagem estaria restabelecida, e banida definitivamente a eclosão de violência.
Esse dispendioso projeto é uma utopia ou o Brasil poderia dispor de recursos para realizá-lo? O artigo de Janio de Freitas, na Folha de 13/11, divulga alguns dados do Ipea que podem ajudar a responder a essa questão: de 2000 a 2007, o valor destinado à educação no Brasil foi de R$ 149,9 bilhões; no mesmo período, o valor reservado para pagar juros aos compradores de títulos da dívida pública foi de R$ 1,268 trilhão.
Claramente, esse “vandalismo” praticado em cima de nossos recursos supera em muito o vandalismo nas escolas.

DAGMAR MARIA LEOPOLDI ZIBAS, pedagoga, é mestre em psicologia da educação pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e doutora em educação pela USP. Desde 1983, foi pesquisadora da Fundação Carlos Chagas, aposentando-se em 2008.

A arte do barulho

Convocação geral


Com seu novo disco, A arte do barulho, Marcelo D2 convoca brasileiro a pôr mãos à obra para escrever a própria história. Hip hop com samba dá lugar ao som pesado das guitarras

Mariana Peixoto
Washington Possato/Divulgação

Finda a trilogia hip hop com samba – que rendeu Eu tiro é onda (1998), À procura da batida perfeita (2003) e Meu samba é assim (2006) –, Marcelo D2 foi até o Planet Hemp para confeccionar seu novo álbum, A arte do barulho. Não é um retorno à banda, mas a busca de sonoridade mais pesada, que deixa de lado o sampler e se concentra nas guitarras. “É um disco em que peguei tudo o que fiz até agora, tanto que ele traz guitarra, samba, bossa nova”, afirma D2. Além disso, A arte do barulho não é somente nome do álbum e de sua faixa de abertura, mas também do manifesto que vem no encarte do CD.

A gente vive o tempo do culto à celebridade, o que me deixa um pouco angustiado. Imagine artista que não faz arte, que vive de ser celebridade. E todo mundo querendo saber quem está com quem, quem se separou de quem. Isso é inacreditável. Então, A arte do barulho é um chamado para as pessoas irem para a rua, façam barulho. Afinal de contas, o escritor José Saramago diz uma coisa em que acredito também. Ele diz que não trabalha com a inspiração, que senta em frente ao papel em branco e começa a escrever. Ou seja, a gente tem que trabalhar as idéias o tempo todo, botar a cabeça para funcionar”, afirma D2.

Quando começou a pensar no disco, o rapper só tinha uma certeza: queria muitas vozes femininas. “Se pensarmos nas várias maneiras de se fazer samba, sempre tem um refrãozinho com mulher cantando. Essa era a parada que eu queria fazer. O resto foi pintando.” Todas as 12 faixas contam com alguma participação: Mariana Aydar (Fala sério!); Thalma de Freitas (Ela disse); Zuzuka Poderosa (Meu tambor) e Roberta Sá (Minha missão).

“Tirando a Roberta e a Zuzuka, eu conhecia a maioria. A Zuzuka Poderosa é uma menina que descobri no Myspace, mas nunca vi na vida. O interessante é que todo mundo foi muito solícito. Ninguém chegou dizendo que iria fazer isso ou aquilo. Sempre me perguntaram o que queria”, continua D2. Há outra cantora que não gravou propriamente, mas é presença marcante no trabalho. Desabafo, o primeiro single, traz como refrão o sample de Deixa eu dizer, samba de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza gravado por Cláudia na década de 1970. É, por sinal, um dos raros samples do álbum.

Outro destaque é Afropunk no valle do rap, que marca o encontro de D2 com Marcos Valle. “Há muito tempo estávamos a fim de trabalhar juntos”, comenta (Afropunk é o alter ego de D2). Há, ainda, Seu Jorge (A arte do barulho e Pode acreditar) e Stephan Peixoto, o primogênito de D2 (em Atividade na laje). Nos temas das canções, alguma novidade: Ela disse fala de um primeiro encontro. Vem comigo que eu te levo pro céu, atualmente a faixa preferida de D2, é outra a tratar de relacionamentos amorosos.

Mais uma vez, o rapper convocou o produtor Mário Caldato. Aos 15 anos de carreira e nove discos – quatro com o Planet Hemp, os quatro solo e mais um Acústico MTV –, Marcelo D2 tem uma situação confortável na música pop nacional. Ainda que A arte do barulho não seja inovador como À procura da batida perfeita (traz, inclusive, idéias já exploradas em trabalhos anteriores), mostra que D2 não se acomodou.

“Quando conversei com o meu empresário sobre À procura…, a gente achou que aquele disco não iria tocar em lugar nenhum. Que rádio iria tocar hip hop com samba? Mas aquilo virou a parada. Na verdade, quando a música é boa, é nova, você acaba convencendo as pessoas de que elas têm de ouvi-la. E música é música. Quando vou fazer um disco, c… e ando para rádio, nova tendência. Tento fugir disso, quero é bater de frente com os caras”, conclui D2, que, a despeito do sucesso, parece não ter perdido a essência: ser a favor do contra.

O MANIFESTO

“Quando sinto o impulso, escrevo sem pensar tudo que meu inconsciente me grita. Penso depois: não só para corrigir, como para justificar o que escrevi. É preciso escrever a nossa própria história… deixar de viver o sonho dos outros. Queremos cumprir nossa missão que é fazer algo de verdade que venha do coração. Nós temos a coragem d’Os Afrosambas de Vinicius de Moraes e Baden Powell… a visão de Tom Jobim. Nós queremos modernizar o passado como Chico Science falou. Nós declaramos que não somos só um número e queremos escrever o nosso nome. Não há beleza senão na luta, não há paz sem voz. Nós queremos o direito que é a garantia do exercício da possibilidade. A possibilidade de fazer e de participar. Nosso tempo é hoje! A hora é agora! Então vamos fazer barulho…”

25/11: Dia Internacional contra a violência às mulheres



A eleição do dia 25 de novembro como data internacional da luta contra a violência à mulher foi um acordo entre as participantes no Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe que se realizou em Bogotá, em 1981, por solicitação da delegação da República Dominicana que propunha que se homenageasse as irmãs Mirabal: Minerva, Pátria e Maria Teresa. Elas são um exemplo vivo do tipo de mulher comprometida com as lutas de seu povo.



Latinas unidas contra a violência

As três irmãs foram assassinadas pela violência do regime de Trujillo que durante trinta anos manteve o povo dominicano no atraso, na ignorância e no caos. Em 1960, o povo dominicano, descontente e farto da ditadura tão longa, todos os dias ia para as ruas contra as forças militares repressivas que davam sustento ao ditador.

As irmãs Mirabal nasceram na seção Ojo de Água, província de Salcedo, República Dominicana. As condições de vida no país e na zona onde viveram devido ao domínio estadunidense e o atraso das relações de produção determinaram sua sensibilidade diante dos graves problemas sociais.

A participação ativa das irmãs Mirabal na luta contra Trujillo deu-lhes a fama de revolucionárias, motivo mais do que suficiente para que em certa ocasião Trujillo manifestasse ante um grupo de pessoas que seus únicos problemas eram as irmãs Mirabal e a Igreja.

O 25 de novembro de 1960

Minerva e Maria Teresa foram visitar seus esposos na prisão, em companhia de sua irmã Pátria. Foram interceptadas em um lugar solitário do caminho pelos agentes do Serviço Militar de Inteligência. Conduzidas a um canavial próximo, foram objeto das mais cruéis torturas, antes de ser vítimas do que foi considerado o crime mais horripilante da história dominicana.

Cobertas de sangue, destroçadas a golpes, estranguladas, foram colocadas novamente no veículo em que viajavam e jogadas em um precipício, com a finalidade de simular um acidente.

O assassinato das irmãs Mirabal produziu um grande sentimento de dor em todo o país. Porém, serviu para fortalecer o espírito patriótico de um povo desejoso de estabelecer um governo democrático que garantisse o respeito à dignidade humana.

A memória dessas valentes irmãs mártires que arriscaram suas vidas e as ofereceram efetivamente pela causa da mulher nos enche de esperança e nos dá força para continuar lutando por uma sociedade igualitária na qual mulheres e homens possamos viver em fraternidade humana.

* Publicado orginalmente em Coyuntura 63 – Enviado por Carlos Morales Monzón, diretor The Media Services.


Agência Adital

Cotas de imperfeição

O SENADO tem a responsabilidade de corrigir distorções importantes que constam do projeto de lei nº 73/ 1999, sobre reserva de vagas em universidades federais, aprovado na Câmara, votado às pressas no Dia da Consciência Negra.
O mérito do diploma é não se deixar aprisionar pelo prisma racial. Reserva 50% das vagas a alunos que tenham feito todo o estudo em escola pública. Apesar da parcela excessiva -a reserva de metade das vagas teria, inevitavelmente, um impacto sobre o desempenho médio dos cursos federais-, o critério é um modo inteligente de favorecer os estratos mais pobres da população.
Tal viés socioeconômico se acentua na provisão de destinar metade das vagas reservadas a candidatos com renda familiar per capita de até 1,5 salário mínimo. Os dois quesitos bastariam para aumentar a proporção de negros e mulatos -pretos e pardos, na classificação do IBGE- nos bancos das faculdades federais. O projeto, no entanto, insiste num critério racial eivado de problemas insolúveis.
Antes de mais nada, há a dificuldade prática de categorizar pessoas segundo um parâmetro, as raças, sem fundamento científico. E, ainda por cima, para promover uma discriminação -se bem que positiva- difícil de conciliar com o preceito constitucional da igualdade perante a lei.
À parte essa objeção de fundo às cotas raciais, o texto da Câmara peca por pretender impor um padrão rígido a mais de uma centena de instituições federais. Trata-se de um claro atentado à autonomia universitária. Hoje, somente nove delas se enquadram na reserva de 50% das vagas para cotistas; 19 utilizam percentuais mais baixos, e outras quatro, um sistema de pontos extras na nota do vestibular.
Esta Folha reconhece a necessidade de ações afirmativas no acesso ao ensino superior, recurso fundamental para romper o ciclo de reprodução da pobreza nas famílias. Favorece, porém, as cotas sociais e a bonificação, sem institucionalização de “raças”, como a melhor maneira de democratizar oportunidades, porque é a mais conciliável com os princípios de mérito e igualdade.

Educação pelo rádio

Projeto do Uni-BH com Escola Silviano Brandão permite que alunos tenham contato com o radialismo, a tecnologia e a informação, incentivando-os a ler e aperfeiçoar o português
Ingrid Furtado
Emmanuel Pinheiro/EM/D.A Press
No laboratório do centro universitário, crianças de 10 a 12 anos se transformam em repórteres, aprendendo uma nova forma de comunicação

Gravador na mão e transformação na cabeça: está no ar um programa de rádio diferente e inovador. Alunos de escolas públicas de Belo Horizonte trocaram o lápis e o papel por tecnologia e informação. Matérias radiofônicas produzidas por repórteres mirins mostram a capacidade e o interesse de crianças em contar histórias que envolvem a própria comunidade e o universo infantil. Há um semestre, a parceria de sucesso entre o Centro Universitário de Belo Horizonte (Uni-BH) e a Escola Estadual Silviano Brandão, no Bairro Lagoinha, na Região Nordeste da cidade, vem mudando a rotina de estudantes de 10 a 12 anos e mostra a eles a importância do estudo. Segundo os alunos, a principal mudança foi o interesse pela leitura e a necessidade de aprender bem a língua portuguesa.

O projeto de Extensão do Uni-BH Radioescola Ponto Com é veiculado pela internet, no blog criado especialmente para o programa (www.radioescolapontocom2008.blogspot.com). Este ano, a parceria contou com a participação de 19 alunos do 5º e 6º ano do ensino fundamental. Durante seis meses letivos, eles aprenderam locução, como entrevistar e editar e tiveram aulas sobre a história do rádio. A coordenadora do programa e professora do curso de jornalismo Wanir Campelo Siqueira conta que as crianças produziram cinco matérias de acordo com o tema proposto: Em nome do pai, do filho e do neto – O que o rádio produziu para três gerações. Os programas têm de 3 a 10 minutos de duração.

O projeto é aplicado há quatro anos e era desenvolvido com instituições particulares. Mas este ano é a primeira vez que uma escola pública tem acesso às atividades. “Conversamos com a direção da Silviano Brandão e houve interesse imediato. Depois de uma seleção feita pela escola, passei a dar aulas sobre a história do rádio, as transformações desse veículo de comunicação e o modelo usado até os dias atuais. A partir daí, oferecemos a infra-estrutura de nossos laboratórios e cada grupo de crianças recebeu gravadores para entrevistas. Eles buscaram informações sobre o assunto dentro da própria família e na comunidade”, explica a especialista.

Com o material em mãos, as crianças partiram para a terceira etapa do processo. Acompanhados pelos monitores do Uni-BH, fizeram o texto e adaptaram as informações ao formato de rádio. “Grande parte dos alunos mora em área carente e de risco social. Fiquei encantada com o compromisso, educação e a responsabilidade deles. Não havia apatia em nada. Tudo o que era proposto faziam com prazer e vibração. Trabalhar desse jeito é muito bom e o retorno é grandioso. Nosso esforço frutificou, pois despertamos neles o interesse pela informação e também pelos assuntos de cidadania”, afirma Wanir. Ano que vem as vagas serão duplicadas e 40 novos alunos terão acesso à iniciativa.

A vice-diretora da Silviano Brandão, Maria das Graças Ferraz, diz que a escola participa do programa do governo estadual Escola Viva Comunidade Ativa e afirma que as mudanças nos estudantes foram nítidas. “Todos os interessados foram selecionados por meio de uma redação. Fizemos questão de escolher não somente aqueles que foram bem, mas também os que precisavam de incentivo. O resultado não poderia ser melhor. Eles melhoraram em português e tiveram muito mais interesse por livros. O melhor é que estimularam outros colegas a participar. Eles nunca tiveram acesso ao ambiente universitário. Agora, têm uma referência e descobriram que o estudo é o caminho certo para vencer na vida.”

TIMIDEZ A estudante Stephany Cristina dos Santos Cruz, de 11 anos, não titubeou e já escolheu a profissão: “Quero ser jornalista”. Ela conta que percebeu a importância da notícia e venceu a timidez ao entrevistar as pessoas que precisava. “Percebi como é difícil fazer um texto jornalístico. Tenho de ler mais e saber muito português. Agora, presto mais atenção no que está se passando ao meu redor”, diz. O colega Felipe Andrade de Carvalho, de 12, mora no Bairro Bonfim e se empolgou com os bastidores do radialismo e achou engraçado ouvir a própria voz. “Aprendi como são feitas as publicações e as curiosidades. Me considero um repórter, mas tenho que grudar os olhos nos livros, pois sem estudo não dá para ser um bom profissional”, observa.

Desde o ano passado, a UFMG mantém também o Projeto de Extensão Rádio Educativa, em parceria com a Secretaria de Estado de Educação. São 14 escolas públicas participantes e a previsão é que 140 estudantes aprendam a técnica do rádio. Com recursos estaduais, a idéia é que cada escola instale um estúdio de rádio integrado à internet.

Brasil precisa combater impunidade na exploração infantil, diz Unicef


Segundo Unicef, faltam estatísticas sobre exploração sexual de jovens

O Brasil precisa reforçar o combate à impunidade para conseguir enfrentar de maneira mais eficaz o problema da exploração sexual infantil, disse nesta terça-feira à BBC Brasil a diretora-executiva do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), Ann Veneman.

“O Brasil tem leis corretas, mas acho que não tem usado mecanismos para fazer cumprir essas leis de maneira significativa”, afirmou Veneman, que está no país para participar do 3º Congresso Mundial de Enfrentamento da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, no Rio de Janeiro.

“Tantos crimes ficam impunes aqui, não apenas de exploração sexual”, disse Veneman. “Acho que o sistema legal no Brasil ainda precisa ser reforçado para evitar a impunidade.”

Segundo a diretora-executiva do Unicef, porém, esse não é um problema exclusivo do Brasil. “Há muita impunidade em relação a esse tipo de crime”, afirmou.

Uma das principais dificuldades, de acordo com Veneman, é a falta de dados e estatísticas sobre exploração e abuso sexual, que são importantes para conhecer a extensão do problema e planejar ações de combate e prevenção.

“Um dos problemas é que não sabemos a amplitude e a profundidade dessa questão completamente”, afirmou. “Quando você está lidando com atividades ilegais é muito difícil obter estatísticas precisas.”

A diretora-executiva do Unicef disse esperar que um dos resultados do congresso seja encontrar uma forma pela qual a comunidade global possa medir de maneira mais eficaz a extensão do problema.

Aumento

O congresso ocorre pela primeira vez no Brasil. Até o dia 28, o encontro no Rio de Janeiro deverá reunir cerca de 3 mil participantes de 124 países.

A primeira edição, em 1996, foi realizada em Estocolmo, na Suécia. Em 2001, o encontro ocorreu em Yokohama, no Japão.

Apesar dos avanços e do comprometimento de diversos países, mais de 10 anos depois do primeiro congresso estudos indicam que a exploração sexual de crianças e adolescentes vem crescendo no mundo.

Segundo um estudo da ONU divulgado em 2006, em todo o mundo cerca de 150 milhões de meninas e 73 milhões de meninos menores de 18 anos são submetidos a relações sexuais forçadas ou outras formas de violência ou exploração sexual.

De acordo com Veneman, ao contrário dos dois congressos anteriores, que centralizaram o debate na exploração comercial, a edição deste ano pretende ir além, enfocando outras formas de exploração.

“Sabemos que em muitas famílias as crianças sofrem exploração sexual”, afirmou. “Há também exploração por membros do clero. Vimos o grande escândalo dentro da Igreja Católica, envolvendo principalmente os Estados Unidos, mas sabemos que também se estende a outros países.”

A diretora-executiva do Unicef citou ainda os casos de exploração e abuso sexual por parte de militares e tropas de paz enviados a países em conflito.

Internet

Uma das formas de exploração que vem ganhando importância é a internet. Segundo informações do Unicef, o banco de dados da Interpol reunia em 2006 evidências fotográficas de mais de 20 mil crianças que foram exploradas sexualmente para a produção de pornografia infantil.

“Há mais e mais uso da internet, tanto em pornografia como em tentativas de atrair crianças jovens e também na promoção de turismo sexual”, disse Veneman.

No entanto, segundo Veneman, muitas empresas já estão tomando medidas para identificar os sites, tirá-los do ar e punir os responsáveis pela venda e compra de material sexual envolvendo menores.

Muitas das vítimas de exploração sexual são menores que vivem em situação de pobreza, de acordo com Veneman. “Pessoas em situação de pobreza são particularmente vulneráveis à exploração sexual”, disse.

No entanto, há outros fatores, como conflitos nos países e mesmo problemas domésticos, conforme o Unicef.

Segundo a diretora-executiva do Unicef, os governos precisam ajudar a construir sistemas que garantam o cumprimento das leis e também envolver a sociedade no combate e na prevenção. “Nenhum país está imune”, disse.

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Brasil tem quinta maior taxa de homicídio juvenil, diz estudo


Violência
País tem sexta maior taxa de homícidios totais entre analisados

O Brasil tem a quinta maior taxa de homicídio juvenil entre 83 países listados no Mapa da Violência: os Jovens da América Latina, lançado nesta terça-feira. Segundo o relatório, a taxa no Brasil é de 51,6 homicídios para cada 100 mil habitantes.

Os outros quatro primeiros lugares no ranking também são países latino-americanos. El Salvador aparece em primeiro lugar, com taxa de 92,3. É seguido por Colômbia (73,4), Venezuela (64,2) e Guatemala (55,4).

Elaborado pelo sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, diretor de pesquisas do Instituto Sangari, o Mapa da Violência analisa dados de 83 paises, 16 deles latino-americanos, em relação a homicídios, suicídios, acidentes de transporte e mortes por arma de fogo.

O relatório, lançado em parceria pelo Instituto Sangari, o Ministério da Justiça e a Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla), usou como fonte principal o Sistema de Informação Estatística da OMS, com dados de 2002 a 2006, e outras fontes para analisar dados até 1994.

Taxa de homicídio juvenil (em 100 mil habitantes)
1º – El Salvador 92,3
2º – Colômbia 73,4
3º – Venezuela 64,2
4º – Guatemala 55,4
5º – Brasil 51,6
6º – Porto Rico 46,6
7º – Ilhas Virgens 27,1
8º – Santa Lúcia 26,4
9º – Equador 26,1
10º – Paraguai 22,3
11º – Trinidad e Tobago 21,2
12º – Guiana 21,2
13º – Panamá 17,8
14º – Nicarágua 16,6
15º – África do Sul 16,6
Fonte: Ritla e Instituto Sangari

Quando analisada a taxa de homicídio total, o Brasil aparece em sexto lugar, com 25,2, atrás das Ilhas Virgens (28,4). Novamente, os quatro primeiros colocados são El Salvador (48,8 homicídios em 100 mil habitantes), Colômbia (43,8), Venezuela (29,5) e Guatemala (28,5).

O Brasil também tem um dos mais altos índices de vitimização juvenil do mundo. Isso significa que a taxa de homicídios entre jovens é bem maior do que a entre não-jovens. O país aparece em terceiro lugar no ranking, com índice de 2,7, atrás apenas de Porto Rico (3,3) e Venezuela (2,9), e logo à frente dos Estados Unidos (2,6).

Segundo o relatório, “o aumento vertiginoso” de taxas de homicídio jovem no Brasil até 2003 “constitui o fator explicativo do aumento dos índices globais de homicídio, dado que a mortalidade não-jovem teve crescimento baixo no período considerado”.

O documento traz dados de 1994 a 2005. Nesse período, a taxa de homicídios na população total no Brasil passou de 20,2 para 25,2 No entanto, quando se observam as taxas de homicídio na população jovem, a evolução foi bem maior, de 34,9 em 1994 para 51,6 2005.

No mesmo período, a taxa média de homicídio juvenil na América Latina se manteve estável, de 33,9 em 1994 para 33,6 em 2005.

Taxa de homicídio total (em 100 mil habitantes)
1º – El Salvador 48,8
2º – Colômbia 43,8
3º – Venezuela 29,5
4º – Guatemala 28,5
5º – Ilhas Virgens 28,4
6º – Brasil 25,2
7º – Santa Lúcia 24,5
8º – Porto Rico 19,1
9º -Guiana 18,0
10º – Equador 18,0
11º – Trinidad e Tobago 16,2
12º – Paraguai 12,3
13º – Nicarágua 10,4
14º – África do Sul 10,4
15º – Panamá 10,4
Fonte: Ritla e Instituto Sangari

Apesar de o crescimento da taxa brasileira ser elevado em comparação ao conjunto total, quando analisados somente os 16 países latino-americanos ele é considerado baixo, segundo o relatório.

“No contexto latino-americano, o crescimento é considerado baixo”, disse à BBC Brasil o autor do estudo. “A partir de 2003 (quando a taxa era de 56,2), começou a cair, devido ao estatuto do desarmamento, entre outros fatores”, afirmou Waiselfisz.

Segundo o autor, apesar de o Brasil ocupar na quinta posição entre os países da América Latina, tanto na taxa total quanto nos homicídios juvenis, o país já esteve em posições mais elevadas em períodos anteriores, logo depois da Colômbia.

A mudança, conforme Waiselfisz, “se deve ao fato das quedas brasileiras dos últimos anos, enquanto em El Salvador, Guatemala e Venezuela as taxas cresceram significativamente, ultrapassando os índices brasileiros”.

VEM AÍ O 4ºEXPRESSÃO HIP-HOP

DIA 29/11 APARTIR DAS 19:00 NA PRAÇA DO SENAI EM BETIM
PRESENÇA DOS GRUPOS:
ALMA RAP
CALIBRE 66
RAÇA DMC`s
MINAS DO MORRO
PÁGINAS DE CRISTO

APOIO:SINDICATO DOS METALÚRGICOS DE BETIM
O EVANGELHO
O TEMPO
RÁDIO BLITZ FM
STÚDIO RAP MINEIRO ART&SOM

4º expressão hip hop

4º expressão hip hop,sábado dia 29/11 a partir das 19:00.praça do SENAI centro de Betim…
show com os grupos: raça dmcs,minas do morro,alma rap, anjo do rap, calibre 66,7ºsentido e muito mais.
sua presença é indispensável. informações: 97017137(tula)

A Justiça criminal como guardiã dos direitos fundamentais


Gustavo Henrique Moreira do Valle, Juiz de direito em Minas Gerais
A Constituição da República Federativa do Brasil, verdadeiro monumento de direitos e garantias fundamentais da pessoa humana, completou, em 5 de outubro, 20 anos. Documento impregnado de valores e fundado na dignificação da pessoa humana, a Constituição de 1988 passou a ser o centro da vida social, deslocando o eixo em torno do qual gravitava o ordenamento jurídico para se tornar pressuposto de interpretação e aplicação das normas referentes a todos os demais ramos do direito.

Desde sua promulgação, muito se avançou em termos de efetivação de suas normas, sendo certo que, dia a dia, tornam-se reais seus comandos, que saem da incômoda e equivocada posição de promessas vazias e inconseqüentes e ingressam no campo das normas jurídicas, dotadas de imperatividade, passíveis de sindicabilidade judicial.

No campo da Justiça criminal, os direitos fundamentais merecem redobrada atenção, na medida em que se está a tratar de um valor exponencial do ser humano: a sua liberdade. O juiz criminal, portanto, deve ser o grande guardião dos direitos fundamentais, assegurando que o direito de punir do Estado seja exercido dentro das rígidas amarras ditadas, a bem da cidadania, pela Constituição.

Com essa postura não se está estimulando a criminalidade ou incentivando a impunidade, mas sim garantindo que o rolo compressor formado pelos órgãos ligados à segurança pública não passe por cima dos réus, no mais das vezes a parte fragilizada do processo penal.

Como bem destaca, em obra dedicada ao direito processual penal, o notável jurista Claus Roxin, a prisão provisória, antes da formação definitiva da culpa, é a ingerência mais grave na liberdade individual, devendo ser inspirada em um Estado de direito, pelo princípio constitucional da proporcionalidade, de modo a equilibrar, de um lado, a manutenção da ordem, e, de outro, a proteção da esfera de liberdade do cidadão.

A experiência no foro criminal tem revelado que, nesse campo, o grande desafio do magistrado afinado com a Constituição é administrar, com eficiência, as custódias antes do trânsito em julgado da sentença penal condenatória, apenas mantendo presos aqueles que apresentarem efetivo e real risco para a ordem pública ou econômica, bem como aqueles que concretamente turbarem a instrução processual ou ameaçarem frustrar a eventual aplicação da lei penal.

Aqui reside um ponto de relevo: a prisão em flagrante delito tem extração constitucional (inciso LXI do artigo 5º da Constituição), mas somente se justifica para impedir a consumação ou exaurimento do delito, bem como para possibilitar a coleta das provas emergentes da situação de flagrância. Depois disso, a custódia passa a reclamar novo fundamento, sob pena de se transformar em verdadeira antecipação da eventual pena, o que atrita, a não mais poder com o princípio do estado de inocência, segundo o qual “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”.

Assim, comunicada pela autoridade policial a prisão em flagrante delito ao juiz competente, deve este, de ofício, com os elementos que dispuser (auto de prisão em flagrante delito, termos de declarações, folha de antecedentes criminais, certidão de antecedentes criminais, etc.), depois de oitiva do Ministério Público (MP), manter o autuado preso, agora sob novo título, consideradas as hipóteses de cautela previstas no artigo 312 do Código de Processo Penal (CPP), ou colocá-lo imediatamente em liberdade.

A simples homologação, pelo juiz competente, do auto de prisão em flagrante delito, sem exame, de ofício, acerca da necessidade ou não de se manter o autuado preso, a título preventivo, olvida que “ninguém será levado à prisão ou nela mantido quando a lei admitir a liberdade provisória, com ou sem fiança”, bem como faz tábula rasa da norma inserta no parágrafo único do artigo 310 do CPP, que impõe a concessão de liberdade provisória, depois de oitiva do MP, “quando o juiz verificar, pelo auto de prisão em flagrante, a inocorrência de qualquer das hipóteses que autorizam a prisão preventiva”.

É verdade que a adoção desse sistema garantista implica sérias dificuldades, resultantes da insuficiência de elementos concretos para se decidir, nos próprios autos da comunicação da prisão em flagrante, pela segregação ou pela soltura, mas, destaca-se, o impasse deve ser solucionado em favor daquele que a Constituição declarou, até prova em contrário, inocente, o que não obsta, evidentemente, que se decrete, em momento posterior, a prisão preventiva, caso surjam, no decorrer das investigações, novos elementos capazes de justificar a custódia cautelar.

Enfim, os desafios colocados à efetivação dos direitos fundamentais são muitos, mas não podemos esquecer que a concretização do que foi estabelecido na Constituição depende apenas de nós, devendo haver, para tanto, gradativa mudança de mentalidade por parte daqueles que lidam, diariamente, com o direito, de modo a solidificar a posição de reverência que todos devemos ter em relação ao texto maior.

Relembrando as palavras do saudoso deputado federal Ulysses Guimarães, presidente da Assembléia Nacional Constituinte, referindo-se à recém-promulgada Constituição: “Que Deus nos ajude para que isto se cumpra”.

Um outro mundo é possível

O pensamento de Milton Santos devolve-nos a esperança na construção de um mundo mais humano e serve de antídoto à crueza dos tempos atuais e à descrença nos valores de uma história verdadeiramente humana
Péricles Cunha, Pesquisador independente, é mestre em Lingüística (Unicamp)
Nestes tempos cruéis em que vivemos, quando vemos os valores humanos tradicionais sendo desconsiderados ou invertidos, as instituições sendo arrastadas à podridão moral e ética, a representação política desacreditada por gangues de malfeitores que nela se instalaram, os políticos se assemelhando a assaltantes, apropriandose dos dinheiros públicos e usando os mandatos para subtrair-se à aplicação do código criminal, atingindo até mesmo as universidades, onde quadrilhas se instalaram nos departamentos, gerindo-os como um mau executivo de equivocada empresa privada (que não tiveram a competência de criá-las no espaço apropriado das cidades), e a reitoria, destituída de sua magnificência pelo afastamento de seus valores, espelhando-se nos políticos, pratica os mesmos crimes, furtando- se à aplicação das leis, e cinicamente defendendo a naturalidade de seus malfeitos. Na esfera privada, refletindo as elites pais encarceram ou assassinam filhos, por ciúmes ou por qualquer outro motivo fútil, filhos assassinam pais, por cobiça financeira ou outra banalidade qualquer. Enfim, nestes tempos em que, por uma política globalmente radical de redução a um ‘pensamento único’, da complexidade – as naturais e necessárias multiplicidade e diversidade – assistimos à tentativa de, pela exclusão do(s) contrário(s), se engessar a história e finalizar (ou será ‘deletar’) o ‘homem’. Tudo isto vem desabando sobre nós, tornando-nos, conseqüentemente, descrentes quanto à possibilidade da existência de qualquer futuro.

Foi neste exato momento que, por uma dádiva fraterna de um dos meus irmãos (sim, ainda existem irmãos fraternos), me chegou às mãos um livro(1) de um dos mais notáveis intelectuais brasileiros de nosso tempo (sim, eles ainda existem, embora devam ser procurados com lupas). Trata-se de uma coletânea de artigos do geógrafo Milton Santos (1926-2001), sanfranciscano (de Brotas de Macaúbas), como Assis Valente, Darcy Ribeiro, João Gilberto, Adélia Prado, para citar só os que me vieram de imediato à memória. O Professor Milton Santos teve a sua formação básica na Bahia (bacharel em Direito, 1948) e obteve o título de Doutor em Geografia em Estrasburgo, França (1958), de onde retornou à Bahia para dar aulas na Universidade Católica e na UFBa. Da Bahia, saiu para ganhar o mundo, tendo sido professor em várias universidades européias, americanas do Norte e do Sul e africanas. Recebeu o título de Doutor Honoris Causa das Universidades de Toulouse (1980), Buenos Aires (1992) e Barcelona (1996) e foi Professor Emérito da USP-FFLCH (1997), tendo conquistado ainda, em 1994, o maior prêmio internacional de Geografia, o Vautrin Lud, considerado o ‘Nobel’ de Geografia. Ao retornar ao Brasil deu aulas na USP, UFRJ e de novo na UFBa. Como cidadão do Mundo, no entanto, jamais perdeu a consciência de pertencer a um território e a uma história particulares, o patamar de onde descortinava o Mundo. Este livro, apesar de seu diagnóstico cruel, mas lúcido, da realidade brasileira, nos reacende a esperança no homem e, nos devolvendo a crença na construção humana de um futuro, faz renascer o interesse pela política como ‘o exercício de uma ação ou defesa de uma idéia destinada a mudar o curso da história’ (p.105). Destaca-se, neste livro, que é uma leitura do mundo atual marcada por dicotomias (na verdade, o jogo de tese/antítese que faz caminhar o seu pensamento), a sua capacidade de, perscrutando o presente, um perverso presente, delinear com uma clareza ofuscante as grandes linhas do futuro, a possibilidade de um amanhã virtuoso. A sua serena lucidez, certeira e fulminante no equacionamento dos problemas, na identificação dos atores e cenários (‘situações’) em que se dá o embate contemporâneo da humanidade, na explicitação do que, de fato, importa, é que vai lhe possibilitar antecipar o futuro.

Dono da língua, como hoje raramente se vê, sobretudo nos alunos da Universidade, mesmo aqueles ditos ‘das Letras’, o seu texto nos permite ainda a fruição estética: a simplicidade aparente de sua escrita traduz uma elaboração rebuscada, escondida no seu estilo limpo e enxuto.

Os textos reunidos são artigos publicados na Folha de S, Paulo nos anos 80 e 90 do século passado e nos dois primeiros anos deste novo século XXI (2) O livro é aberto com uma apresentação de Wagner Costa Ribeiro, Professor da USP (‘Milton Santos: do território à cidadania’), e fecha com um ensaio de Carlos Walter Porto Gonçalves, professor da Universidade Federal Fluminense (‘Milton Santos: ciência, ética e responsabilidade social’), este último, uma ótima introdução ao seu pensamento. Dividido em três partes: 1. O país distorcido, 2. Por uma globalização mais humana e 3. Os deficientes cívicos, todos, títulos de artigos aí incluídos, e contendo em apêndice, uma bibliografia de livros, artigos e entrevistas recentes do autor, (3) o livro aborda vários sub-temas, centrados nos três temas do subtítulo. Na Parte 1, encontramos textos referentes a intervenções nos debates por ocasião da Constituinte, a críticas ao modelo de inserção do país ao mundo globalizado, a sua visão da Universidade, e da importância da pesquisa científica e tecnológica, o papel do intelectual, a necessidade da preservação da memória nacional e a questão da indústria cultural. Na Parte 2, os textos abordam a situação da África nos anos 80, o caráter estrutural (e não mais conjuntural) das crises no mundo globalizado, a incompletude da redemocratização na América Latina (a partir do caso da Venezuela), a cidadania, o papel do Estado e do ‘território’. Na Parte 3, explorando o tema da desigualdade, trata das cidades e da cidadania, do recomeço da história, do papel da imprensa, da questão dos preconceitos, do que significa ser negro no Brasil, do uso político das estatísticas e faz a defesa da lentidão, diante da velocidade imposta pelos tempos atuais.

Impossibilitado de fazer aqui uma leitura exaustiva dos artigos, até mesmo pela limitação do espaço, vou traçar em linhas gerais o percurso de seu pensamento em relação a um ou dois temas, partindo de seu diagnóstico da globalização até as alternativas que a ela se pode contrapor.

A globalização é vista pelo autor como o resultado de um longo processo de internacionalização, empreendido inicialmente pelos países europeus e, mais recentemente, a eles se juntando os EUA. Milton Santos situa o início desse processo no Mercantilismo dos séc’s. XVII e XVIII, a sua expansão, com a industrialização do séc. XIX, e a sua intensificação e ampliação nos últimos tempos, quando adquire novas feições: o mundo inteiro passa a se envolver em todo tipo de troca (técnica, comercial, financeira, cultural…), abrindo, com isso, um novo período na história da humanidade. O desenvolvimento científico, diz ele, conduzindo o progresso técnico voltado para a produção, faz com que o planeta seja dominado por um único sistema técnico, ‘indispensável à produção, ao intercâmbio, e fundamento do consumo’ (p.79). E continua: com a instantaneidade das trocas informacionais, a produção e a informação se tornam globalizadas, fazendo emergir um lucro em escala mundial que, acionado pelas firmas globais (as ‘multinacionais’), passa a ser o verdadeiro motor da atividade econômica. A concorrência entre os principais agentes econômicos se acirra (a ‘competitividade’). Os lugares (locus da multidimensionalidade da vida, da convivência do diverso) tendem a ser globais: ‘o que acontece em cada um deles tem relação com o que acontece a todos os demais’ (p.79). Isso redunda na ilusão de vivermos num mundo sem fronteiras (a ‘aldeia global’). Mas (aqui incide a sua crítica fundamental à globalização), por um lado, ‘essas relações globais estão restritas a um número muito reduzido de agentes: a grandes bancos e empresas transnacionais, alguns Estados, as grandes organizações internacionais’ (p. 80), e por outro, mais desigualdades são produzidas: crescem o desemprego, a pobreza, a fome, a insegurança, a difusão das drogas, as doenças, as epidemias dos 3º. e 4º. mundos. Com isso, fragmenta- se o mundo, que parece ‘girar sem destino’, ampliam-se as fraturas sociais, e as possibilidades oferecidas pelas conquistas científicas e técnicas, que deveriam estar a serviço da humanidade, não estão sendo adequadamente usadas em seu benefício, decorrendo daí o caráter perverso desta globalização.

Haveria alguma alternativa a isto? Sim, diz o Mestre. E é aí que o seu pensamento, alcançando a utopia, abre as perspectivas que nos ajudam a viver. É possível, sim, um mundo solidário, que produza mais alimentos, mais empregos, mais mão-de-obra, que reduza as doenças e a mortalidade, que amplie um intercâmbio pacífico (sem a ‘beliculosidade da competitividade’ ), um mundo de bem estar, onde os homens serão felizes, enfim, um outro tipo de globalização. E por que isso é hoje possível? Acompanhemos o seu raciocínio. Já que a existência de uma técnica e de uma política planetárias ‘autorizam uma leitura geral, específica, filosófica e prática de cada ponto da terra’ e a emergência de uma universalidade empírica contribui para a formulação de idéias que nos esclareçam o que são atualmente o mundo e os lugares. (p. 153), pode-se então dizer que um novo mundo é criado como uma ‘realidade histórica unitária, [planetária], ainda que extremamente diversificado’. Assim, os traços comuns da constituição técnica desse mundo e a existência do lucro em escala mundial como o único motor das ações hegemônicas, vai nos permitir datá-lo também de forma única: um salto de qualidade se produz nesse momento. Esses dados associados à generalização da informação é o que vão assegurar a comunhão de cada lugar com todos os outros. Para alguns, essas características são apenas novas faces do surrado ‘imperialismo’; para outros indicam apenas o ‘fim da história’; para o nosso Mestre, ao contrário, trata-se do seu verdadeiro início, o inicio de uma história verdadeiramente humana, história da humanidade como um todo, e não apenas de lugares regiões, países, quando muito, continentes (impérios).

Não mais ‘a visão pretensiosa de um país ou continente sobre os outros, considerados bárbaros ou irrelevantes’ (p. 154), co-incidindo, assim, a produção dessa história universal e a relativa liberação do homem em relação à natureza, a tão esperada superação do reino da necessidade. Além disso, ‘os materiais responsáveis pelas realizações preponderantes são cada vez mais objetos materiais manufaturados, e não mais matérias primas naturais’. Isto faz com que esta era possa ser chamada de ‘era da inteligência’. Uma era em que o homem ‘fabrica a natureza ou lhe atribui valor e sentido por meio de suas ações já realizadas, em curso ou meramente imaginadas’(p. 154). Entretanto, a mesma materialidade que permite criar um mundo ‘confuso e perverso’ vai permitir a construção de um mundo mais humano. Para isso, afirma, bastaria que se completassem as duas grandes mutações em curso na espécie humana: a mutação tecnológica (a emergência das técnicas da informação) e a mutação filosófica (a atribuição de um novo sentido à existência de cada pessoa e também do planeta).

Na era que vivemos, prossegue, o homem descobre novas forças, na mesma medida em que o meioambiente se torna menos aleatório, já que cada vez menos natural, a previsibilidade e a eficácia das ações aumentam, as escolhas se ampliam e se diversificam ao se combinar adequadamente a técnica e a política, enfim, o mundo se aproxima de cada homem, que passa a ter a certeza e a consciência de ser mundo, de estar no mundo. Por outro lado, grandes migrações tornam as cidades uma ‘humanidade misturada’, como se o mundo aí se instalasse, colaborando, pelo entrechoque de idéias e costumes (pela ´práxis coletiva’), para uma renovação contínua da produção do entendimento e da crítica da existência. São pois essas ricas dialéticas da vida nos lugares que vão permitir a proposição e o exercício de uma nova política. Desse modo, ‘a história do homem sobre a terra dispõe afinal das condições objetivas, materiais e espirituais, para superar o endeusamento do dinheiro e dos objetos técnicos e enfrentar o começo de uma nova trajetória.’ (p.155).

Haveria muito mais a dizer sobre ‘O país distorcido’, e sobre o autor, tais como a sua posição diante do problema racial brasileiro, as suas distinções entre causa e contexto, entre informação e comunicação, os seus conceitos de espaço geográfico e território, cidadania, formação sócio-espacial, verticalidades e horizontalidades, estrutura, processo, forma e função, a sua metáfora das rugosidades, a sua sugestão de um programa de governo para as cidades brasileiras, e muito mais, inclusive sobre o seu interessante conceito de “olhar distorcido’, que explica e esclarece o seu lugar de ver (4), o que não caberia neste espaço. Portanto, as considerações aqui esboçadas me fazem recomendar vivamente a leitura desse livro, que é uma porta aberta para a sua obra, além de, creio eu, provocar no leitor, como fez em mim, a restauração de suas forças. Trazendo de volta a fé na ação política do animal humano, esse livro faz renascer as esperanças, reinstalando o futuro em seus devidos lugares: lá, como o objetivo final a ser alcançado, onde ele nos aguarda na dependência de nossas ações anteriores; e cá, como sonhos, desejos, intenções e emoções, os criadores, catalisadores e mobilizadores das ações presentes que, só elas e na qualidade delas, nos conduziriam aos estados desejados.

Para finalizar, deixemos a palavra com o Mestre: ‘…a globalização atual não é irreversível. Agora que estamos descobrindo o sentido de nossa presença no planeta, pode-se dizer que uma história universal verdadeiramente humana, finalmente, está começando.’ (p. 156). (5)

(1) SANTOS, Milton. (2001) O país distorcido: o Brasil, a globalização e a cidadania. Org. Apres. e notas de Wagner Costa Ribeiro; ensaio de Carlos Walter Porto Gonçalves. São Paulo: Publifolha
(2) o autor faleceu em 24 de junho de 2001, escrevendo e publicando até as vésperas de sua morte.
(3) Senti falta das referências bibliográficas na Apresentação e no ensaio final.
(4) Cf. o conceito de ‘redução sociológica’ de Guerreiro Ramos.
(5) A construção deste textos e baseou principalmente em dois artigos do Prof. Milton Santos ‘Por uma globalização mais humana’ e ‘A reconstrução da história’. As informações sobre o autor e a sua obra foram extraídas à ‘Apresentação’ do Prof. Wagner Costa Ribeiro e ao ensaio final do Prof. Carlos Walter Pinto Gonçalves.

Novembro Negro, a violência racial não pára

Infelizmente, mesmo em pleno novembro, mês da consciência negra, da luta do povo preto o racismo impera. Desta vez a discriminação seguida por violência física, contra idoso, contra a mulher negra, seguida por abuso de autoridade e falso testemunho partiu do poder público, assentado na 5º delegacia do Subúrbio.

No dia 16 de Novembro de 2008 o delegado Deraldo Damasceno, titular da 5º delegacia de Periperi, muito conhecido por NÓS em aparições nos Programas policiais em que se apresentam pessoas provisoriamente presos (as) como “culpados(as) a priori” invadiu a casa de uma família Negra , deu bofetadas na mãe do jovem por Ele detido, usou palavras de baixo calão xingando a mãe do jovem de “Vagabunda, puta e égua “, só pelo fato dela ter pedido o “mandado judicial”. Ameaçou algemá-la, pegando-a a força e conduzindo-a até a viatura não efetivando o ato por que os moradores começaram a manifestar-se contra a ação truculenta DESSE POLICIAL . Além disso, tem, sistematicamente, exibido o seu filho como “bandido” e “monstro” do Subúrbio em programas de televisão.

Todos esses fatos têm amplas testemunhas e precisam ser apurados pelo Ministério Publico, pela defensoria, pelas Organizações do Movimento Negro e dos Direitos Humanos para que se pare o racismo, a violência e a brutalidade na lógica de segurança pública desse Governo.

Contra essas ações sistemáticas de violência e extermínio fazemos uma convocatória a tod@s comprometid@s com a causa do nosso povo para AMANHÃ, 19/11,participarem de uma AUDIENCIA- DENUNCIA NO MINISTERIO PÚBLICO/BA, Nazaré ÀS 3 HORAS DA TARDE

Assinam

ASFAP/ RESISTÊNCIA COMUNITARIA/ CAMPANHA REAJA/ TRIBUNAL POPULAR/ BA

A exclusão racial nas urnas

Preconceito, falta de identificação racial e resistência dos partidos políticos impedem crescimento eleitoral dos negros no país, segundo especialistas

Júnia Gama e Mário Coelho

Embora 47,3% dos brasileiros se declarem “pretos ou pardos”, segundo dados do último Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o movimento negro ainda está longe de ocupar espaço político proporcional à fatia da população que representa.

Preconceito, falta de identificação racial, resistência dos partidos políticos e imaturidade do eleitor são os principais responsáveis pelo insucesso eleitoral dos negros no Brasil, segundo ativistas ouvidos pelo Congresso em Foco. Na avaliação deles, o país ainda está muito distante de, a exemplo dos Estados Unidos, eleger seu primeiro presidente negro.

As barreiras começam nos números. Aliás, na ausência deles. As entidades representativas não dispõem de estimativas de quantos negros ocupam cargos públicos eletivos no país, tampouco sabem quantos eleitos em outubro empunham a bandeira da promoção da igualdade racial. No Congresso Nacional, nem 10% dos parlamentares são identificados como negros.

“A participação é muito tímida por uma série de fatores. Os negros ainda não ocupam os lugares que deveriam ocupar”, opina o prefeito de Suzano (SP), Marcelo Cândido (PT), que foi reeleito em outubro.

Este ano houve a primeira iniciativa localizada para fazer essa contagem. A ONG Educafro, presente em cinco estados, iniciou um levantamento sobre o número de candidatos apoiados pelo movimento negro em São Paulo na eleição municipal. De acordo com a entidade, cerca de 50 dos 300 postulantes por ela apoiados se elegeram vereadores.

Além de Marcelo Cândido, outros quatro prefeitos paulistas afinados com o movimento foram eleitos: Cido Sério (PT), em Araçatuba; Dr. Hélio (PDT), em Campinas; Sergio Ribeiro (PT), em Carapicuíba, e João Luiz dos Santos (PT), em Penápolis.

Resistências

Para o prefeito de Suzano, parte da culpa pelo fracasso eleitoral dos negros é dos partidos políticos. Cândido diz que, na maioria das vezes, os negros são candidatos coadjuvantes, e não protagonistas, por decisão dos próprios comandos partidários. “Não se vê dentro das legendas discussão sobre as questões do negro no país e políticas afirmativas. O PT tem feito isso com um pouco mais de intensidade”, afirma.

Mas existe outro problema ainda mais complicado de se resolver. Uma das mais destacadas personalidades no debate sobre políticas de ações afirmativas para afrodescendentes, o frei David Raimundo dos Santos, observa um fenômeno que considera “estranho” a esse respeito. “Percebemos que o negro ainda tem dificuldade de votar no negro”, aponta.

Segundo ele, isso ocorre porque muitos brasileiros se sentem envergonhados em assumir sua identidade racial. “A comunidade brasileira ainda não tem maturidade para o voto étnico”, pontua. Mas frei David aponta que essa evolução é uma questão de tempo. Enquanto isso não ocorre, ele vê como necessária a implementação de políticas de cotas obrigatórias.

“Deveria haver um percentual mínimo de participação negra nos partidos. Sem isso, é difícil que as legendas reservem espaço para os negros”, alega. Hoje as siglas são obrigadas, por lei, a reservar 30% de suas vagas para a candidatura de mulheres. O percentual, no entanto, raramente é preenchido.

O prefeito de Suzano também vê com preocupação a resistência do eleitor. “Durante a minha campanha, muitos negros se posicionaram contra. E até usavam em seu discurso termos um tanto pejorativos”, lembra. “Muitos negros disseram que votariam em mim depois que escancarei o racismo velado, quase subliminar que sofri na campanha”, diz.

Compromisso

Os dois principais órgãos governamentais de promoção da cultura negra e das políticas de eqüidade racial – a Fundação Cultural Palmares e a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) – possuem canais de comunicação com diversas lideranças do movimento no Brasil, mas carecem de dados sobre a presença dos negros no poder.

Mesmo o levantamento da Educafro não se baseou na cor da pele, segundo o coordenador para Políticas Públicas da ONG, Eduardo Pereira Neto. “Apoiamos quem se comprometeu com nossa luta, não importa a raça”, conta.

Para garantir o envolvimento do candidato, a ONG convidou os candidatos a participarem de uma sabatina dias antes do primeiro turno das eleições municipais e ofereceu um termo de compromisso com as demandas do movimento para ser assinado. Na capital paulista, os candidatos Ivan Valente (Psol), Soninha Francine (PPS) e Geraldo Alckmin (PSDB) se comprometeram.

Mas os dois candidatos que foram ao segundo turno, o prefeito reeleito Gilberto Kassab (DEM) e a ex-prefeita Marta Suplicy (PT) não assinaram a carta. De acordo com Eduardo, ambos alegaram problema de agenda para cancelar a participação no encontro.

O coordenador da Educafro acredita que o acesso Kassab será mais burocrático, já que ele não se pronunciou formalmente sobre as políticas raciais. No entanto, Eduardo promete acompanhar de perto os passos do prefeito. “Isso não impossibilita o movimento negro de bater à porta da prefeitura e cobrar ações afirmativas para a comunidade negra e para os mais pobres. Vão ser quatro anos de cobrança”, promete.

Poucos no Congresso

Também este ano foi realizado o primeiro estudo sobre a presença de parlamentares negros no Congresso Nacional. A equipe do Laboratório de Análises Econômicas, Históricas, Sociais e Estatísticas das Relações Sociais (Laeser), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) constatou que, dos 513 deputados federais eleitos em 2006, apenas 46 (8,9%) foram identificados como pretos ou pardos – conforme termo usado pelo IBGE.

No entanto, um fator problemático no Brasil é o método usado para identificar quem é negro. Na pesquisa realizada pelo Laeser, por exemplo, a classificação foi feita por um grupo de cinco estudantes do centro, mais o coordenador da equipe, professor Marcelo Paixão. Eles utilizaram fotografias disponíveis no banco de dados do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para avaliar a raça dos candidatos de 2006.

O critério utilizado foi a análise da textura do cabelo e do tom da pele. Embora reconheça que esse não seja o método mais preciso, Marcelo Paixão defende que, se a identificação da raça estivesse presente no questionário sócio-econômico preenchido pelos candidatos, seria mais fácil realizar pesquisas sobre o tema.

O professor admite que a hetero-classificação é passível de erros, mas diz que, ainda assim, é possível ter uma idéia da baixa freqüência dos negros no Congresso. “Não queremos personalizar o debate, nossa objetividade é social, não biológica”, disse o professor, que preferiu não revelar o nome dos parlamentares relacionados.

Cotas polêmicas

Para definir quem será beneficiado pelas políticas públicas afirmativas, que reservam espaços exclusivos para que sejam integrados socialmente, é preciso apontar, primeiro, quem é negro. A dificuldade em identificar a raça no Brasil é uma questão que divide opiniões. Dentro do próprio movimento, há setores contra e a favor do sistema de cotas.

Diferentemente dos Estados Unidos, onde o critério de definição racial é o de ascendência, no Brasil é utilizado o critério da aparência. A histórica miscigenação entre brancos, negros e indígenas do povo brasileiro embaralha a definição.

Utiliza-se, então, em pesquisas governamentais, a autodefinição. Mais uma vez, o método é considerado arbitrário para especialistas. Autora da tese de mestrado “Ações afirmativas à brasileira: necessidade ou mito?”, a procuradora do Distrito Federal Roberta Kaufmann acredita que a classificação racial no Brasil não pode ser desvinculada de questões culturais e sociais.

“A autodenominação é muito falha. Leva a casos como o dos irmãos gêmeos da Universidade de Brasília em que um foi escolhido para concorrer às cotas e outro não. Instituir comissões para dizer se a pessoa é afrodescendente é um retrocesso. Isso é um absurdo num sistema que tenta dar uma identificação objetiva para um critério que nunca foi objetivo”, aponta Roberta.

Congresso em Foco

Os Tambores de um quilombo

Em meio a prédios em bairro nobre de Belo Horizonte, comunidade luta para que seus costumes sobrevivam
Bianca Magela Melo, jornalista de Belo Horizonte – MG
Nove anos. Foi o tempo que a comunidade quilombola dos Luizes, na área urbana de Belo Horizonte (MG) levou para ter coragem de tocar seus tambores de novo. Os ensaios do grupo de cultura afro eram comuns desde que a líder comunitária Maria Luzia Sidônio, hoje com 65 anos, era mocinha. No entanto, o constante estranhamento dos vizinhos dos prédios de classe média, as reclamações e os olhares de condenação silenciaram por um tempo o bonito batuque dos Luizes.
No último dia 29 de julho, quando foi comemorada a festa anual de Santana, um grupo de Luizes ousou brincar de tambor ao final da apresentação da guarda de congado de Bom Despacho (interior de Minas). “Fomos reconhecidos pela Fundação Palmares e os tambores são parte de nossa cultura”, explica Maria Luzia, referindo-se ao título de comunidade Quilombola, concedido em 25 de novembro de 2004.

A titulação mexeu com a auto-estima dos Luizes. Além dos instrumentos de percussão, eles ganharam da Fundação Palmares máquinas para confecção de roupas. “Pode ser uma alternativa de renda para os jovens”, diz. Antes já foi bem diferente, conta a líder: “Todo mundo ria quando eu falava que era quilombola.”
O grupo que representa os interesses da comunidade agora tem nome: Associação de Quilombos Luizes N´tamimawsi, que significa um só coração na língua Eve Von, da República de Benin, conforme ensina a presidente Maria Luzia. De acordo com ela, os habitantes de Benin têm servido ao Brasil como fonte de danças e cantos de religiões de matriz africana.

O núcleo do quilombo está localizado em uma área de quatro mil metros quadrados no bairro Grajaú, zona nobre da capital mineira. Cerca de 120 pessoas vivem no local de casas simples, chão de terra e grandes árvores. De lá, a vista dos Luizes alcança compridos prédios por todos os lados. “Estão todos na área que um dia foi do quilombo”, observa Maria Luzia.

ÁREA INICIAL EM BELO HORIZONTE ERA DE 18 MIL METROS QUADRADOS
Segundo consta nos registros dos Luizes, o terreno inicial ocupado pelos escravos fugidos do domínio do senhor de escravos Antônio Luiz Simões, era superior a 18 mil metros quadrados nas proximidades do bairro Grajaú. Considerando todo o espaço encampado na época pelos Luizes, a área, conta Maria Luzia, seria de 624 mil metros quadrados, incluindo uma grande extensão que liga Belo Horizonte ao município vizinho de Nova Lima.

Os Luizes já perderam a conta do número de advogados contratados sem que medidas fossem tomadas. “Vimos nosso patrimônio ser ocupado bem próximo às nossas casas.” Há outros cerca de 200 descendentes da mesma família espalhados em outras regiões da cidade. Na Secretaria de Regulação Urbana da Prefeitura de Belo Horizonte, a informação é a de que todas as construtoras que deram entrada para obter licença de realização de obras nas imediações, tinham os documentos que comprovavam posse do imóvel.

Maria Luzia revela que a escritura em poder dos Luizes foi ignorada. O documento foi emitido pelo cartório de imóveis da cidade de Sabará em 1895, dois anos antes de Belo Horizonte ser reconhecida como município. “Foi esta luta a vida toda. Diziam (os construtores) que o terreno era deles e ficava aquela história de escritura sobre escritura e a gente sempre procurando a prefeitura sem conseguir nada”, desabafa.

Em 2002, a preparação do terreno para erguer mais um prédio no bairro, levou junto o centro cultural da comunidade. “Até hoje não conseguimos reconstruí-lo e ficamos com a sensação de impotência.” Vontade de desistir não faltou, mas eles prosseguiram. Mesmo quando a tia de Maria Luzia morreu assassinada dentro da própria casa. “Achei muito desaforo e passei a fazer o que ela fazia.”

Seppir — Uma vez identificadas as áreas, a Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial oferece assistência para as comunidades remanescentes de quilombos. “Auxiliamos com apoio jurídico e acompanhamos qualquer ameaça ou dificuldade”, explica a diretora de programas da subsecretaria de políticas para a comunidade, ligada à Seppir, Maria Palmira da Silva. Eles têm cadastrados cerca de três mil comunidades quilombolas no país. “A maioria está totalmente isolada do contato urbano, mas, assim como os Luizes, em Belo Horizonte, há exemplos como o da família Silva, no Rio Grande do Sul.”

MISSA CONGA
As roupas muito brancas dos congadeiros de Bom Despacho salientam os adornos coloridos e a cor da pele que resplandece com o sol do final do dia. A dona de casa Jorgina Nunes Guimarães, da comunidade dos Luizes, era uma das espectadoras atentas à apresentação. Está feliz com seus dois filhos gêmeos de 13 anos, que estão aprendendo a tocar tambor. “É uma tradição que nunca deveria ter parado. Sem batuque parece que está faltando alguma coisa na vida da gente.”

A festa dos Luizes tem missa conga com presença de padre e com todo ritual, mas no lugar das músicas tradicionais da igreja católica, entram os cânticos africanos. “Negro sofria. Negro Chorava. Negro Rezava. Lá na Senzala. Ô ô meu senhor ô ô.” Tradição trazida pelos escravos africanos e espalhada nas terras do ouro, o Congado é ainda hoje muito presente em praticamente todas as regiões de Minas Gerais. Além das danças e da música, as festas sempre têm muita fartura de comidas características: feijão tropeiro, canjica, arroz doce, pipoca e frutas. “Cada família prepara um prato ou mais e não falta boa comida”, explica Luiza Sidônio, irmã da organizadora da festa.

Os arturos e o congado: símbolo de luta e resistência

Júnia Bertolino, Júnia Bertolino é bailarina afro, jornalista (0011097/MG), antropóloga e pós-graduanda em Estudos africanos e afro-brasileiros
juniabertolino@yahoo.com.br

Em Belo Horizonte e Minas Gerais encontramos a forte expressão dos congados, chamados de Reinados e Irmandades de Nossa Senhora do Rosário. Geralmente prestam homenagens aos santos pretos: São Benedito, Santa Efigênia, Santo Antônio, São Jorge, Nossa Senhora Santana e Nossa Senhora das Mercês. Como antropóloga venho transitando em vários grupos culturais e movimentos de matriz africana. A oralidade, ancestralidade, tradição e identidade do povo brasileiro precisam ser discutidas e preservadas sempre. Portanto, eu acredito ser muito importante qualquer iniciativa que divulgue e valorize as diversas manifestações populares, sobretudo os nossos ricos reinados presentes em Belo Horizonte e em Minas Gerais.

A Comunidade dos Arturos vem, há mais de 108 anos, com sua cultura expressiva e forte religiosidade, manifestando culto a Nossa Senhora do Rosário nas festas do Congado. Os Arturos são um grupo familiar que reside em propriedade coletiva no município de Contagem. Durante todo o ano realizam diversas festas, como 13 de Maio – Abolição da Escravatura, Festa de Nossa Senhora do Rosário (outubro), João do Mato e Folia de Reis (dezembro), além do candombe e batuque nas festas de casamento, aniversários e batizados.

A coroação de reis e rainhas tem larga tradição em todo o Brasil. Já em 1674 registrava-se a coroação de reis de Congo na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. em Recife. Em Minas, Saul Martins cita em sua tese que André João Antônio, em 1711, já identificara o costume dos negros de criarem reis, juizes e juízas nas festas de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. Encontram-se também em Minas registros de Irmandades de Nossa Senhora do Rosário datados de 1704 e 1715, nas cidades de Serro e de Ouro Preto.

Os Arturos vêm, cada vez com mais freqüência, atraindo pesquisadores e estudiosos de Minas e de todo o país. A história dos Arturos começou com Camilo Silvério e Felisbina Rita Cândida, em Vila Santa Quitéria, hoje município de Esmeraldas. Dessa união nasceu Arthur Camilo Silvério, que mais tarde constituiu família com Carmelinda Maria da Silva. Os frutos dessa união formam hoje os Arturos, com mais de 50 famílias, tendo atualmente cerca de 400 descendentes instalados em seis hectares de terra no local denominado Domingos Pereira, em Contagem, onde estão radicados desde 1880.

Os filhos de Arthur Camilo são: Geraldo Arthur Camilo (falecido), Maria Gelsa da Silva (falecida), Conceição Natalícia da Silva (Tetane), Juventina Paula de Lima (Intina/falecida), Maria do Rosário da Silva (Induca), José Acácio da Silva (falecido), Antônio Maria da Silva, Mário Braz da Luz, João Batista da Silva (falecido) e Joaquim Bonifácio da Luz (Bill), sendo eles os responsáveis pela bonita e orgulhosa comunidade negra e ainda por transmitir todos os ensinamentos e principalmente a devoção a Nossa Senhora do Rosário, manifestada através do congado, herança deixada pelos seus pais. Atualmente o patriarca é o capitão-mor Mario Braz da Luz, 72 anos, que recebe o carinho e o respeito da comunidade.

A comunidade dos Arturos é representada juridicamente pela Irmandade Nossa Senhora do Rosário de Contagem, que tem como função sobretudo cuidar da organização das festas. Fundada em 1972, compõe-se das guardas de Congo e Moçambique do Reinado. As guardas têm sua representatividade: o congo é responsável por abrir os caminhos, sendo a guarda que segue à frente nos cortejos; o moçambique é responsável por conduzir os reis e rainhas, guardar e proteger o Reinado, sendo portanto os últimos no cortejo, seus capitães também tiram o canto e são autoridades, dentre as quais são consideradas autoridades máximas o Capitão-mor (Mário Braz da Luz) e o capitão-regente (Antônio Maria Silva). José Bonifácio da Luz (bengala), capitão e presidente da Irmandade, diz que ele apenas assina, pois quem decide tudo dentro da comunidade dos Arturos são os mais velhos, assim manda a tradição e o respeito aos mesmos é um valor fundamental na cultura vivenciado pelo grupo.

As festas na comunidade dos Arturos têm início no dia 6 de janeiro, com a Folia dos Santos Reis. Na segunda semana de maio, quando da comemoração da abolição da escravatura, a Irmandade recebe um grande número de visitantes e inúmeras guardas convidadas da capital e do interior de Minas. O mesmo ocorre em 08 de outubro, que é a grande Festa de Nossa Senhora do Rosário. No dia 15 de dezembro tem lugar a festa do João do Mato. O encerramento das festividades ocorre em 25 de dezembro, quando o rei visita os presépios das casas dos Arturos e dos bairros vizinhos.

Nos altares desses grupos, entre coroas, bastões e imagens de santos católicos, se fazem presentes também os pretos velhos, Iemanjá, São Jorge, São Cosme e Damião. Destaca-se o culto de raízes africanas presente principalmente no candombe, onde se evoca a força dos antepassados. Em algumas guardas é um ritual interno e tem a responsabilidade de abrir as festas mais importantes da comunidade.

José Bonifácio (Bengala) explica que toda festa é um momento sagrado: “Além da devoção a Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santa Efigênia e outros santos pretos, é também uma oportunidade que temos de estar com nosso reinado nas ruas, mostrando a força, a herança e a riqueza da nossa cultura para os moradores de Contagem”, enfatiza. Também Marília Campos, prefeita de Contagem, ressaltou a importância da Comunidade dos Arturos para o município, sendo exemplo de luta e resistência, aproveitando para reafirmar seu compromisso com a luta pela igualdade racial e as políticas públicas voltadas para a comunidade negra.

Os jovens da Comunidade dos Arturos criaram o grupo “Filhos de Zâmbi”, através do projeto “Criança Negra, Criança Linda” desenvolvido pela Pastoral do Negro, incentivados por Tereza de Fátima Hatem, Anaíse Fortunato e Maria Gorete Heredia, em 1991. Em 1997, por motivos diversos, o grupo interrompeu suas atividades, retornando somente em 2001 com o objetivo de divulgar os trabalhos da comunidade e a riqueza da dança afro-brasileira, valorizando a auto-estima e a herança dos ancestrais. O grupo tem se apresentado em diversos espaços culturais, escolas, seminários e participou, entre outros eventos, da Feira de Artesanato do Minas Centro, VI Encontro Mineiro de Dança, no Big Shopping, do lançamento do livro “Sons do Rosário”, no Palácio das Artes, e do Encontro Latino América Cultural, no Sesc Venda Nova.

Toda a família vivencia a festa. Nos diversos grupos identificamos a importância dos mais velhos juntamente com a força dos mais novos. São crianças de dois anos que já têm reservados seus instrumentos e uma missão de continuidade. São os jovens com seus chapéus e roupas coloridas, penteados exóticos e alegria contagiante que dão o toque jovial ao encontro, seja no ritmo pulsante (congo e moçambique/feminino ou masculino), no canto e na dança saltitante com suas gungas sonoras, tendo eles o compromisso, assumido com seus pais de guardar e dar continuidade ao reinado.

Saiba mais sobre os ARTUROS:

GOMES, Núbia Pereira de Magalhães & PEREIRA, Edmilson de Almeida. Negras Raízes Mineiras: Os Arturos. Juiz de Fora: Universidade Federal de Juiz de Fora, 1988. Apresenta a história completa dos Arturos, observando modo de vida, preparação das festas, contendo receitas, músicas e a importância deste grupo familiar.
SILVA, Rubens Alves da. Negros Católicos ou Catolicismo Negro? – Um estudo sobre a Construção da Identidade Negra no Congado Mineiro. Belo Horizonte: Universidade Federal de Minas Gerais, 1999.
LUCAS, Glaura. Os Sons do Rosário: um estudo etnomusicológico do congado mineiro – Arturos e Jatobá. Escola de Comunicações e Artes da USP: 1999.
MARTINS, Leda M. Afrografia da Memória: O reinado do Rosário do Jatobá. São Paulo: Perspectiva, Belo Horizonte: Mazza, 1997.
SANTOS, Erisvaldo Pereira dos. Religiosidade, identidade negra e educação: o processo de construção da subjetividade dos adolescentes dos Arturos. Dissertação de Mestrado em Educação: Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais, 1997. SABARÁ, Romeu. A Comunidade Negra dos Arturos: o drama de um campesinato negro no Brasil. Faculdade de Filosofia, Ciências Sociais e Letras da Universidade de São Paulo, 1997.
SILVA, Júnia Bertolina. O Congado na Comunidade dos Arturos: Catolicismo ou Culto Africano? Monografia para obtenção de bacharel no curso Ciências Sociais:Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Federal de Minas Gerais, 2002.

Mandões, racismo e democracia

Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
“Passamos por este mundo apenas uma vez. Poucas tragédias podem ser maiores que a atrofia da vida; poucas injustiças podem ser mais profundas do que ser privado da oportunidade de competir, ou mesmo de ter esperança, por causa da imposição de um limite externo, mas que se tenta passar por interno”.

O fragmento acima, de Stephen Jay Gould, é parte de uma reflexão sobre os limites impostos a seres humanos pelo determinismo biológico e as teorias racistas (“A Falsa Medida do Homem”, Martins Fontes, 1991). É dessa perspectiva, a da caça, que saudamos aqui o Dia Internacional da Democracia, comemorado pela primeira vez na segunda-feira 15 de setembro de 2008.

A data lamentavelmente teve pouca repercussão entre nós. O Brasil, em 2000, em Genebra, num evento sobre Direitos Humanos na ONU, apresentou uma moção declarando a incompatibilidade entre democracia e racismo. Ou seja, ninguém deveria ser privado da oportunidade de competir, em razão da cor da pele. Eu escrevi então num artigo (“O desafio de controlar a própria explosão”, in: “Entre Áfricas e Brasis”, 2001) que a declaração brasileira não passava de “uma mesura diplomática, uma afetação hipócrita, que a leve inclinação do busto tinha o mérito de deixar o rabo a descoberto.”

Salvemos, no entanto, nossa democracia: um general-de-exército, incomodado com o rumo dos interrogatórios dos militares envolvidos com a chacina do Morro da Providência, pediu o afastamento do juiz federal responsável pela condução do processo (FSP, 06.09.08, p.C9). Pediu e levou. Salve, general, salve.

Salvemos também nossos zeladores da Segurança Interna, servidores da Abin, pelas horas que consomem acompanhando nossas marchas, reuniões, telefonemas, jornais (FSP, 06.09.08, p. A9). Salve, zelador, salve.

Por falar em zelador, lembrei-me de uma cena de “Estorvo”, de Chico Buarque (Companhia das Letras, 1991).

O pai do personagem que narra o romance (p. 92), incomodado com o rádio do porteiro do edifício que, no momento da cena, ouvia o horóscopo, “mandou o porteiro desligar aquela porcaria. E disse que nunca se viu empregado ligar para astrologia, ainda por cima crioulo, que nem signo tem. O porteiro achou aquilo a coisa mais engraçada. Vendeu o rádio e passou meses rindo muito e repetindo ‘crioulo não tem signo, crioulo não tem signo‘.”

Alguns intelectuais têm afirmado que sofrer é uma coisa, entender é outra. Começaram com uma historinha de ‘branco mais preto do Brasil’ e terminaram com um ‘chega pra lá, meu preto básico’. Da varanda da casa grande, falando às vezes um iorubá de raiz, eles acrescentam não sem algum carinho: ‘você não entende mesmo nada disso, meu pretinho’.

A submissão do negro, cujo destino é decidido por ordens emanadas de seres superiores, fixados em constelações dispostas nos andares acima da portaria, produz nessa gente um gozo todo especial.

Não, não há nada de perverso nisso. É a democracia, meu velho, ao menos a que nos coube vivenciar. Ou melhor, ponha perversão nisso. O general e o pai, mandões e preconceituosos, eles controlam o processo democrático. O juiz obedece, o porteiro obedece. O porteiro é negro, logo obedece por limitações intrínsecas, segundo diversas autoridades; quanto ao juiz, não se sabe. Mas deve ser porque ele tem juízo, não é mesmo?

Ainda Não

Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
Que feriado foi ontem, dia 15 de novembro? Como entender o esvaziamento ideológico dessa data? Em nossa experiência cotidiana da desigualdade não cabe a fantasia de papel republicana. Novembro parece dominado. A fonte dessa resistência e conquista foi e é, sem dúvida, Zumbi dos Palmares. Sigo cantarolando os versos da canção de Jorge Ben:

“Zumbi é senhor das guerras
É senhor das demandas
Quando Zumbi chega
É Zumbi é quem manda”

Fomos capazes de opor o Vinte ao Treze e ao Quinze, jogando para ganhar numa disputa pelo passado, abrindo caminho por entre visões desumanizadoras que bloqueavam nossa iniciativa política.

A ‘história oficial’ nos obrigava a um confronto com nossa incapacidade de agir. E, pior ainda, uma incapacidade que tinha origem em nossa própria natureza inferior. Desse modo, ainda que o passado fosse apresentado como uma experiência de desigualdade (impossível apagar isso), o fato de que tudo tivesse origem em nossa própria inferioridade intrínseca acabava por justificar a dominação e a opressão ‘civilizadoras’.

A principal vitória da ‘história oficial’ sempre foi, portanto, sua capacidade de disseminar medo e desconfiança entre nós. Medo de agir em nosso próprio benefício, de fazer política. E a desconfiança que torna impossível o reconhecimento mútuo, a ação conjunta.

A vitória do Vinte é, em sua essência, a reconquista da iniciativa política. Sim, somos capazes de agir. Zumbi está conosco, ele também empenhado na luta. A afirmação da vontade em estreita ligação com a experiência de luta que remonta aos tempos coloniais. Grandiosa ousadia!

O Quinze virou pó, um feriado esvaziado de conteúdo e referências, mas, não se iludam, a tensão permanece viva na institucionalização redutora do Vinte a que assistimos. A prefeitura, a secretaria, a fundação, os governos, em suma, ao promoverem eventos de celebração da ‘consciência negra’ não necessariamente estão assumindo uma pauta de reivindicações vinculada aos interesses efetivos da população negra.

Ao contrário, o apoio institucional tem servido de controle da pressão proveniente de demandas urgentes e concretas. E, além disso, transformadoras do poder, como ele é exercido entre nós. Novembro parece dominado, mas não está. Parece negro, mas não é. Estamos ainda excluídos da esfera pública.

“Que é vento, e que passa…”

Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
Sob o ponto de vista político, arriscaria dizer que a grande movimentação em torno do Vinte de Novembro apenas acentuou a distância e os limites institucionais diante das exigências de cidadania do segmento negro da população.

Há um esgotamento definitivo dos apelos e questionamentos de ordem moral, do tipo: “Quando esta sociedade irá se convencer do mal que ela própria praticou e dos estigmas que criou por não reconhecer a dívida desse passado de mais de 400 anos?” A pergunta é de Emanoel Araújo, na edição de novembro de “Le Monde Diplomatique Brasil” (p. 21), e a resposta é: nunca. Nessa dimensão moral e emotiva a batalha política está, para sempre, perdida.

No fundo, são apelos conservadores, de quem teme as conseqüências de uma ação política mais independente. Os constrangimentos que devemos criar são de outra natureza. Nossa experiência de luta contemporânea, que se manifesta numa enfiada infinita de eventos ditos ‘culturais’, parece toda ela centralizada em torno de princípios clientelistas. E a clientela negra, desde tempos imemoriais, é atendida mesmo com migalhas orçamentárias.

Quem poderá determinar com exatidão, por exemplo, o significado da expressão ‘consciência negra’ na boca do governador do Rio de Janeiro?

Imagino não ser uma interpretação segura cogitar que ele esteja se referindo a seu interesse, e de seu governo, em fortalecer as condições que possam, mesmo remotamente, propiciar uma participação mais autônoma da população negra organizada. Ao contrário, ele parece expressar uma abstração dissociada de qualquer demanda política concreta, de quaisquer interesses coletivos imediatos.

A programação oficial lhe deve transmitir o delírio, como na canção tropicalista, de que organiza o movimento, orienta o carnaval e inaugura o monumento. A agenda do Vinte não encerra assim nenhuma ameaça, embora as autoridades sejam obrigadas a tolerar, durante uma tarde inteira, alguns urubus passeando entre girassóis. Há providências e iniciativas destinadas a conter os (im)prováveis excessos? Sim.

Os eventos do Vinte de Novembro, regulamentados em grande parte por diferentes níveis de governo, anunciam, portanto, a impossibilidade de qualquer avanço político no sentido da superação das desigualdades raciais. Encarnam, de certo modo, uma rendição.

Há que adular – a regra geral das grandes transformações sociais

Edson Lopes Cardoso
edsoncardoso@irohin.org.br
O que vivenciamos de sujeição e dependência no ativismo negro permitirá algum dia a autonomia da organização política?

Durante as comemorações do Vinte de Novembro, com que intenções mesmo algumas instituições negras cortejam empresários, autoridades e políticos brancos, distribuindo com mão generosa e sem nenhum critério razoável comendas e medalhas?

Trata-se de perseguir resultados? Quais? O fato é que critérios de distinção de impossível definição estão criando entre nós “os beneméritos da causa negra”. Estamos dedicados a falsificar e vender currículos de iniciativas “em prol da comunidade negra”, do mesmo modo como a igreja católica vendia indulgências.

Na verdade, essas cerimônias parecem dizer muito de nossa incapacidade para definir padrões de comportamento político desejáveis e, por outro lado, sabe-se que a bajulação tem estranha predileção pelos tapetes vermelhos. Penso que eles encarnam valores inalcançáveis para as nossas mentes comuns.

Pressinto ainda que a disseminação e o crescente prestígio dessas práticas de subalternidade irão em breve operar mudanças ainda mais radicais no Vinte de Novembro. Aonde poderá nos levar, afinal, essa aguçada percepção da fidalguia e da nobreza de caráter de autoridades, empresários e políticos brancos revelada por algumas entidades negras?

Segundo os promotores dessas cerimônias de reconhecimento, sem a bajulação não seremos capazes de romper as barreiras da intolerância e do racismo. Há que adular, se você quer, de fato, transformar essa sociedade injusta e desigual. Sendo assim, creio ter descrito aqui não apenas casos particulares, mas a lei geral que preside as grandes transformações sociais.

Lei Maria da Penha: mulheres cobram ampliação do atendimento



Organizações não-governamentais, sindicatos e movimentos feministas promoveram neste sábado (22) ato público na Estrutural, cidade localizada a 15 quilômetros de Brasília, dentro da campanha mundial 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, iniciada no Brasil no último dia 20.



O período concentra atividades de conscientização sobre a gravidade do problema social. No caso brasileiro, a principal bandeira é a busca da implementação efetiva, em todo o país, das garantias da Lei Maria da Penha – que cria mecanismos para coibir a violência doméstica contra a mulher – sobretudo na qualidade do atendimento prestado às vítimas.”

A gente entende que tem muitos desafios ainda para implementar a lei, no sentido de um atendimento humanizado e adequado em todas as delegacias de polícia, e não só nas especializadas no atendimento às mulheres. Elas [as delegacias especializadas] são em número pequeno, apenas 403, o que é muito pouco em um país com mais de 5.600 municípios. Mas se todas as delegacias derem o atendimento que a Lei Maria da Penha coloca, com certeza as mulheres vão denunciar muito mais”, afirmou Marlene Libardoni, diretora executiva da ONG Ações em Gênero Cidadania e Desenvolvimento (Agende), responsável pela coordenação da campanha.

Segundo a ativista, é nos pequenos municípios que as mulheres enfrentam mais dificuldades, pela escassez de delegacias e a existência de juizado único. Para ela, uma alternativa é a Central de Atendimento à Mulher, o Ligue 180, que mereceria maior divulgação. “De qualquer município, a qualquer hora do dia e da noite ou no fim de semana, a mulher ou alguém que assiste um ato de violência pode ligar e acionar uma proteção para a vítima.”

Uma das novidades da campanha neste ano é o relato de 16 pessoas que promoveram atitudes eficazes para o cumprimento da Lei Maria da Penha. Foram convidados artistas, policiais, juízes e funcionários de serviços de atendimento.

Joelma Chaves de Souza, atendente do Ligue 180, disse ter ficado lisonjeada com o convite e espera que o seu exemplo incentive as mulheres que sofrem violência a buscar seus direitos.

“Que elas possam ter a coragem de denunciar, ligar e ir até à delegacia contra esse agressor ,que agride fisicamente, moralmente, psicologicamente. A gente que trabalha no atendimento ajuda até mesmo a salvar a vida de uma pessoa”, ressaltou.

Fonte: Agência Brasil


Capoeiristas destacam inclusão social do esporte em encontro nacional

Na véspera do encerramento do 18º Encontro Nacional de Capoeira (Enca), em Brasília, capoeiristas se apresentam por 24 horas na plataforma inferior da rodoviária da capital. Em meio às atrações, os organizadores reforçam a importância do esporte como instrumento de inclusão social.

“Estamos avançando com a capoeira como política pública. Hoje existem mais de 50 mil praticantes dentro do programa segundo tempo [do Ministério do Esporte em escolas da rede pública]”, afirmou hoje (22) o coordenador do evento e presidente da Associação de Capoeira Ladainha, Gilvan Alves de Andrade.

Segundo mestre Gilvan, como é conhecido, ao reconhecer a capoeira como patrimônio cultural e ajudar na promoção de eventos o governo brasileiro pagou parte de sua dívida com um esporte que sobreviveu desde 1930, sem incentivo, produção ou fomento do poder público.

Outro exemplo de trabalho de inclusão social a partir da capoeira citado por Gilvan é a técnica da capoterapia, desenvolvida em Brasília. “É uma terapia através da capoeira, usando o lúdico e a musicalidade, trabalhando com pessoas da terceira idade, deficientes mentais, auditivos e visuais.”

Cerca de seis mil atletas participaram do 18º Enca, que contou também com o apoio do Ministério da Cultura e do Governo do Distrito federal .

Fonte: Agência Brasil

Comparação entre Brasil e EUA se baseia em caricaturas


Para analista, novo presidente americano pode modificar auto-imagem de brasileiros


NO BRASIL, ASSIM COMO EM PORTO RICO, A IDÉIA DE UM EUA RACISTA EMOLDURAVA UMA AUTO-IMAGEM DE SUPERIORIDADE MORAL

A SEGREGAÇÃO FOI FÁCIL DE COMBATER: ERA UMA INJUSTIÇA EVIDENTE. A DISCRIMINAÇÃO SUTIL É MAIS DIFÍCIL DE SER CONTESTADA


JERRY DÁVILA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Me parece que a essência das relações raciais está na comparação.
Quando eu era menino, em Porto Rico, me ensinaram que na minha ilha não havia discriminação racial: éramos um paraíso onde brancos, negros e todos os que ficavam no meio conviviam tranqüilamente. Podíamos vê-lo na praia, onde se viam casais formados por negros e brancos de mãos dadas. A discriminação racial era um problema do norte, me ensinaram.
Quando minha família se mudou para o norte, compreendi esse problema em primeira mão. Em Porto Rico, eu era branco e de classe alta.
Nos Estados Unidos, era integrante de uma minoria étnica e fazia parte da classe média.
Os administradores do meu colégio novo se negaram a acreditar que um porto-riquenho pudesse estar um ano adiantado em matemática, então me colocaram em aulas remediais, numa trajetória vocacional que me levaria a ser mecânico. Tive sorte por conseguir sair dela.
Anos mais tarde, visitei o Rio de Janeiro pela primeira vez para aprender português, quando fazia meus estudos de pós-graduação. Vivendo em Ipanema, eu ouvia exatamente as mesmas coisas sobre relações raciais que ouvira quando jovem em Porto Rico: aqui não existe racismo; isso é algo que existe no norte. Veja as pessoas na praia etc.
Mas eu tinha justamente dificuldade em conciliar o que me diziam com o que eu via. Era verdade que havia muita interação entre negros e brancos, mas eu via uma hierarquia que estava estampada nos corpos das pessoas de cor, cujo lugar na zona sul do Rio era determinado pelo uniforme que vestiam: a camisa azul do motorista de ônibus, o uniforme branco da babá, o uniforme laranja do gari.

Caricatura
No Brasil, assim como em Porto Rico, a idéia de um Estados Unidos racista emoldurava uma auto-imagem de esclarecimento e superioridade moral. Uma imagem caricata do supremacismo branco e da violência racial naquele país lançava uma sombra que ofuscava a discriminação sistemática e a desigualdade em outras sociedades.
Meu primeiro trabalho de professor “brasilianista” foi em Minnesota, no extremo norte dos EUA. No Norte do país, os centros urbanos eram predominantemente negros, e as áreas suburbanas e rurais eram majoritariamente brancas. Negros e brancos tinham muito pouco contato uns com os outros, diferentemente do Brasil. E, nesse ambiente de separação, os brancos viam o Sul dos Estados Unidos como exemplo de racismo.
Pelo fato de o Norte não ter histórico de segregação, os nortistas se enxergavam como não sendo racistas e como moralmente superiores aos sulistas. Mas não era um ambiente em que os brancos se sentissem à vontade na presença de negros ou vice-versa.
Hoje eu leciono no Sul do país, na Carolina do Norte, um Estado onde houve segregação racial. Paradoxalmente, esses lugares de segregação passada foram e são lugares onde negros e brancos interagem muito mais do que no Norte. Foi essa proximidade que moveu a segregação, estampando uma hierarquia social sobre pessoas que não eram separadas pela geografia, como eram no Norte.
E, paradoxalmente, a segregação levou à criação de instituições paralelas, com grandes contingentes de professores, advogados, corretores de seguros, funerárias e outras atividades profissionais e comerciais exercidas por negros, resultando num grau de ascensão profissional incomum no Norte.
Em aeroportos de cidades como Charlotte e Atlanta, é muito mais comum que no Norte ver cônjuges negros em carros caros, esperando para buscar viajantes a negócios negros, cuja profusão foi gerada primeiramente pelas instituições paralelas e, mais tarde, elevada pela ação afirmativa.
Não pretendo com isso minimizar a violência física e psicológica que a segregação impôs às vidas dos negros no Sul dos EUA nem o drama violento e não-violento da integração racial obrigatória no Sul. Mas o Sul é mais complexo do que sua caricatura difundida em outras regiões dos EUA, da América Latina e do mundo.
A segregação racial foi regional e temporalmente específica. Ela existiu numa região dos Estados Unidos durante oito décadas que culminaram no movimento pelos direitos civis. Mas, como o apartheid, virou sinônimo de racismo. Isso é um problema, porque o foco sobre a discriminação e a desigualdade ostensivas desvia a atenção da realidade mais onipresente da discriminação sutil e informal, que reproduz desigualdades nos EUA, no Brasil, em Porto Rico, na Europa.
A segregação foi fácil de combater: era uma injustiça evidente. A discriminação sutil é mais difícil de ser contestada. Suas características são discretas, normalmente ocultas em outras coisas. Ela existe em valores informais e nas maneiras como as instituições distribuem oportunidades e recompensas. Está presente no vestibular brasileiro e em nossa versão dele, o SAT. E está entremeada em padrões de desigualdade econômica.

Modelo
Ademais, o Sul dos EUA criou o quadro de referência que permitiu que outros, em regiões diferentes dos Estados Unidos e das Américas, se construíssem como comparativamente moralmente superiores e não tomassem consciência e reconhecessem seus próprios padrões de discriminação. A marca da segregação foi tão forte que ela continua a definir o significado do racismo, meio século depois de ter terminado. Ela permitiu não apenas ao Brasil mas a Porto Rico e a Minnesota se construírem como democracias raciais.
O próprio conceito de democracia racial sempre dependeu de uma comparação com o Sul dos EUA para funcionar, de modo que não surpreende que sua ressonância no Brasil tenha perdido força com o fim da segregação nos Estados Unidos. Quando Barack Obama foi eleito, ele conquistou maiorias dos votos em todo o Norte dos EUA. Significativamente, também ganhou em Estados do Sul, como Carolina do Norte, Virgínia e Flórida. Suas vitórias no Sul são um sinal de que, não obstante os legados da segregação, muitos sulistas brancos se dispõem a votar segundo o imperativo de suas carteiras, e não de sua raça.
Isso não muda a realidade da discriminação que perdura no Sul ou no resto dos EUA. Mas desloca o quadro de referência.
Ao longo de quase um século de segregação, e de meio século depois do término dela, os EUA e o Sul do país permaneceram como símbolos de racismo contra os quais, comparativamente, outros povos puderam construir sua superioridade moral.
Agora eleitores do Norte, do Sul, do Meio-Oeste e do Oeste dos Estados Unidos criaram um fato novo contra o qual se podem fazer contraposições. Ao lado do legado do supremacismo branco e da segregação racial, há também a capacidade de eleger um homem negro para presidente.
Isso certamente reposiciona os pontos de comparação.


JERRY DÁVILA , autor de “Diploma de Brancura -Política Social e Racial no Brasil” (ed. Unesp), entre outros, é professor associado de história da Universidade da Carolina do Norte em Charlotte.

Tradução de CLARA ALLAIN

Os muitos movimentos negros



PARA ANTROPÓLOGOS, ATIVISMO NÃO É MERA CÓPIA DOS EUA


MARCIO GOLDMAN
ANA CLAUDIA CRUZ DA SILVA
ESPECIAL PARA A FOLHA

Os grupos constituídos por diferentes formas de identificação racial no Brasil exibem uma multiplicidade de estruturas, objetivos, estratégias e modos de pertencimento. Pode-se, pois, imaginar que o número de participantes em movimentos negros até ultrapasse os 6% entre os “pretos” que declaram tal participação, segundo o Datafolha.
Índice próximo dos 7% e 11% de brasileiros que dizem participar de sindicatos ou partidos políticos.
Reunir tais coletivos sob a rubrica de movimento negro é possível se levarmos o primeiro termo quase ao pé da letra: grupos e pessoas que se “movem” na direção de uma vida mais digna e criativa. Movimento de resistência, na medida em que se busca escapar de um destino atribuído por uma estrutura social injusta.
Nesse sentido, quilombos, movimentos abolicionistas, juntas de alforria, irmandades religiosas, entre outras formas de organização do período escravocrata, são movimentos negros. Do mesmo modo, as várias organizações negras (jornais, clubes de lazer, associações etc.) do período pós-abolição, como a Frente Negra Brasileira, as quais, além de denunciar o racismo, se preocupavam com a educação, a formação profissional, o comportamento social e a autovalorização da população negra buscando sua integração.
Como se sabe -a despeito de todas as expectativas de integração e de toda a exaltação do Brasil como país miscigenado e racialmente democrático-, o racismo sobreviveu à abolição.
Entre as ditaduras, houve uma retração das organizações negras, mas não da luta. Abdias do Nascimento e seu Teatro Experimental do Negro são exemplo disso. Contudo, outras formas de resistência continuaram a existir, entre elas as religiões de matriz africana, os afoxés, os grupos “folclóricos” ou “artísticos”, organizações que preservaram a singularidade e a multiplicidade negras.

Novo movimento
Nos anos 1960 e 1970, as influências foram inúmeras -e inevitáveis, uma vez que havia em comum a luta contra o racismo: do movimento pelos direitos civis nos EUA à luta contra o apartheid na África do Sul, passando pelas lutas anticolonialistas dos países africanos, a chegada do reggae ao Brasil, a contracultura, a maior visibilidade do candomblé, os bailes de soul music, a política de universalização do ensino (que levou mais jovens negros à escola e à universidade) e assim por diante.
Tudo isso se cruzou com as correntes preexistentes, forjando as forças que estiveram na origem desse novo movimento negro. Característica desse movimento surgido na década de 1970 é seu foco na diferença, visando demonstrar que o problema da população negra não pode ser reduzido a uma questão de classe social, e que um racismo propriamente dito permeia a sociedade brasileira; que é preciso superar o “mito da democracia racial” e que a condição de ser negro comporta problemas específicos, exigindo, portanto, direitos específicos.
Nessa década, emergem organizações negras muito diferenciadas, de grupos de teatro e dança aos blocos afro e movimentos políticos, como o MNU (Movimento Negro Unificado), entre outros, que permanecem atuantes.
Mas, desde então, o movimento negro tem se tornado ainda mais plural: pré-vestibulares para negros, pastorais afro, associações quilombolas, núcleos de estudantes negros, grupos de cultura negra, núcleos de estudo, jornais e sites, organizações não-governamentais, hip hop e funk etc.
Ao lado de todas as lutas e conquistas, o movimento negro brasileiro não pára de mostrar como é possível combinar experiências passadas, presentes e futuras, locais, nacionais e internacionais, a fim de produzir, numa espécie de encruzilhada, uma singularidade plural capaz de resistir às incontáveis tentativas de destruição ou de captura de que é objeto.


MARCIO GOLDMAN é professor de antropologia do Museu Nacional, UFRJ, e autor de “Como Funciona a Democracia – Uma Teoria Etnográfica da Política” (ed. 7Letras)

ANA CLAUDIA CRUZ DA SILVA é professora visitante de antropologia na Universidade Federal de Sergipe e autora da tese “Agenciamentos Coletivos, Territórios Existenciais e Capturas -Uma Etnografia de Movimentos Negros em Ilhéus”

Ações afirmativas aumentaram elite negra nos EUA

Para pesquisadora, carreira de Obama “deve muito” às conquistas dos movimentos pelos direitos civis

FABIANO MAISONNAVE
EM BOSTON

Em artigo publicado logo após a eleição de Barack Obama nos EUA, o colunista Dennis Byrne relembrou no jornal “Chicago Tribune” um episódio de 1967, quando era professor para alunos negros num curso supletivo no Estado sulista da Geórgia. Depois de dizer a eles que poderiam ser “o que quisessem”, viu uma aluna arrancar risadas dos colegas ao anunciar ironicamente que seria procuradora-geral.
Para Byrne, a aluna estava certa há 40 anos -hoje, não. Ecoando uma visão crescente nos EUA, ele crê que a eleição de Obama comprova que as políticas de ações afirmativas implantadas a partir da Lei dos Direitos Civis, em 1964, cumpriram o papel de assegurar igualdade de oportunidades aos negros e, portanto, deveriam deixar de existir.
“Como sabemos quando os tipos de desequilíbrios impostos por alguns programas de ação afirmativa não são mais necessários? Se um dos sinais de que devemos estar indo nessa direção não é a eleição de um presidente afro-americano, então o que é?”, escreveu Byrne.
Promulgada pelo presidente democrata Lyndon Johnson sob forte pressão do movimento negro, a Lei dos Direitos Civis proibia a segregação em escolas, espaços públicos e no trabalho. Entre outras medidas, determinou que as instituições que recebem fundos públicos, como universidades privadas, eliminassem toda forma de discriminação racial.
Desde então, os processos de seleção universitários e de trabalho passaram a criar mecanismos -ações afirmativas- para que o ambiente escolar ou de trabalho refletisse a composição racial norte-americana, onde os negros representam 12%. Ao contrário do que se pensa no Brasil, não há cotas nos EUA -estão proibidas pela Suprema Corte desde 1978.

Nova elite
Desde então, afro-americanos passaram a ocupar cargos cada vez mais altos nos setores público e privado e aumentaram sua presença nas universidades, mas as estatísticas mostram que o abismo entre brancos e negros continua em áreas como renda e educação. De acordo com o Departamento de Educação, 19,5% dos negros entre 25 e 29 anos tinham diploma superior em 2007, contra 35,5% dos brancos.
A última grande discussão sobre ações afirmativas nos Estados Unidos ocorreu em 2003, quando, por 5 votos a 4, a Corte Suprema manteve a constitucionalidade dessas políticas.
Na decisão, houve o entendimento de que a Universidade de Michigan pode fazer “uso estrito de raça” para “obter os benefícios educacionais que emergem de um corpo estudantil diversificado”, mas com a ressalva de que é um recurso com tempo de vida limitado.
Dentro desse discurso da “diversidade”, onde fica Obama, filho de um queniano com uma norte-americana branca nascido no Havaí e casado com uma afro-americana?
“A sua história certamente não é a de uma afro-americano crescido no Sul”, afirma a cientista política afro-americana Melissa Nobles, do MIT (Massachusetts Institute of Technology). “Mas a sua carreira profissional se deve muito às conquistas do movimentos pelos direitos civis. E ele nunca teria vencido se Jesse Jackson não tivesse introduzido a idéia de um presidente negro”, completa, lembrando que Obama trabalhou por vários anos na comunidade negra de Chicago.
Para brasilianistas especialistas em relações raciais ouvidos pela reportagem, um fenômeno similar ao de Obama dificilmente ocorreria no Brasil num curto prazo. Entre os motivos está a trajetória ainda pequena das ações afirmativas em comparação com os EUA.
Na avaliação do cientista político americano branco Seth Racusen, do Anna Maria College, o movimento negro brasileiro teve um enfoque inicial concentrado no racismo como um problema principalmente criminal, tendência que vem sido revertida nos últimos anos.
Há mais de 30 anos estudando relações raciais no Brasil, o ganense Anani Dzidizienyo, da Universidade Brown, vê dificuldades para reconhecer o que chama de “racismo institucional”. “No Brasil, a discussão sobre ações afirmativas provoca reações histéricas, existe certa inabilidade para reconhecer o racismo institucional.”
Dzidizienyo completa: “A ironia é que este país racista produziu um Obama. Nem vou começar a pensar se isso é possível no Brasil; está completamente fora de cogitação”.

"Ainda sou exceção", diz Lázaro Ramos

LAURA MATTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

Na televisão, a pequena Taís Araújo via Xuxa, linda, loira e rainha dos baixinhos. Todas as suas amigas do colégio particular, onde era a única negra, aderiram à moda Chitãozinho e Xororó e cortaram os cabelos lisos no estilo “mullet”, comprido atrás e repicado em cima.
“Fui cortar o meu também, amor. Fiquei igual a um poodle”, conta Taís, rindo, ao se referir aos seus cabelos crespos.
A atriz, que completa 30 anos na próxima terça, leva no bom humor, mas admite que “são coisas muito pesadas para uma criança”. “Meus pais e meu colégio me deram segurança suficiente para eu poder hoje brincar com isso, que é muito sério. Era impossível me identificar com os ídolos da televisão.”
De fato, um estudo aponta que, desde o início da teledramaturgia brasileira até a adolescência de Taís, os negros, quando apareciam, não eram os heróis. O livro e documentário “Negação do Brasil” (2000), de Joel Zito Araújo, mostram que interpretavam principalmente empregados domésticos, escravos e criminosos.
Nos últimos anos, acredita Taís, meninas e meninos negros passaram a ter referências positivas na TV. E seu nome está ligado à mudança. Ela foi a primeira mocinha negra em uma novela majoritariamente feita por atores brancos (“Da Cor do Pecado”, 2004). “Quando me chamaram, pensei: “Meu Deus, como isso é importante para a sociedade! Se a Globo aceita, o Brasil vai aceitar”.”
Se Taís se tornou a princesa negra da TV, Lázaro Ramos é o príncipe. Formado no Bando de Teatro Olodum, grupo de atores negros de Salvador, o ator, 30, só teve papel de protagonista desde que chegou à TV.
Para ele, a televisão vive um “momento de reconstrução na questão da inserção do negro”. “Há novelas com muitos atores negros, mas que falam da violência, e há negros nos papéis de médico, gay…” Mas ressalta que sua carreira “é exceção”. “A TV vem mudando muito lentamente e ainda não foi tão esperta quanto a publicidade, que já percebeu que o negro é consumidor e quer se ver refletido.”
Para ele, “é preciso parar com esse negócio de tratar negro como ator negro”. “O personagem de Fábio Assunção [mocinho da novela “Negócio da China”, afastado por problemas pessoais após esta entrevista] poderia ser feito pelo Rocco Pitanga. Eu, no começo da carreira, fiz testes e consegui papéis variados, como o surfista de “Carandiru” e o garoto de “O Homem que Copiava”. Agora que sou famoso, recebo convites com a rubrica “ator negro”. [Devem falar:] “Ah, tem esse cara aí que é negro e é bom ator”.”
A sociedade brasileira se mostra dividida ao analisar a representação do negro na TV (veja ao lado). Enquanto 31% dizem que os negros aparecem da forma como realmente vivem, 27% acham que são retratados de forma mais positiva do que vivem na realidade e 33%, de forma mais negativa.
Para Milton Gonçalves, 74, que sempre lutou por personagens fora dos estereótipos e criou polêmica ao aceitar seu atual papel de político corrupto em “A Favorita”, até hoje “o negro aparece na TV só para dar uma cor local”. “É como a TV americana, que põe um apresentador branco, um negro, um latino e um asiático.” Ele avalia que a TV “está estagnada”. “Os protagonistas de Taís e Lázaro são conquistas, mas nada que tenha alterado. Com é que o fato de eu fazer um corrupto ainda causa irritação? Por que não podemos ser vilões?”
Joel Zito Araújo também acha “uma bobagem” discutir se o negro pode ou não interpretar vilões. “Minha crítica é a ausência de atores negros em papéis positivos. E os negros ainda continuam naquela cota de sempre de 10% do elenco.”
Para o cineasta, “a televisão piora a realidade do negro, que ainda é raramente incorporado. Para equilibrar um peso enorme da representação histórica, a TV deveria até retratar o negro de forma mais positiva porque certamente tem o papel de transformar a realidade”.
Ruth de Souza, primeira protagonista negra da teledramaturgia, em “A Cabana do Pai Tomás” (1969/70), novela sobre escravos, resume a questão com a sabedoria de quem chegou aos 87 anos, mais de 60 de uma carreira com consagrados papéis: “A TV conta histórias, e o negro tem que participar normalmente, como de todos os segmentos da sociedade”.

47 pontos
foi a audiência de “Da Cor do Pecado”, a maior já registrada pela Globo às 19h desde o Plano Real até hoje

"Elite preta" se divide sobre extensão do preconceito

Para herdeiro, racismo ficou “mais velado’; diretor de banco diz que cor não importa

MARIO CESAR CARVALHO
DA REPORTAGEM LOCAL

Para quem teve um avô caçado a laço pela Marinha no final do século 19, porque faltavam marinheiros na Força, temerosos dos castigos físicos, Sydnei Lima Santos (1925-2001) chegou longe. Foi Santos, um coronel que trocou o Exército pela carreira de professor, que criou o que é considerado o maior negócio já levantado por um negro no Brasil -a Universidade Tuiuti do Paraná, que tem 12 mil alunos e fatura cerca de R$ 60 milhões ao ano.
Se a vida fosse um programa lacrimoso de TV, Santos seria um personagem perfeito para ilustrar a queda do preconceito contra negros. Mas não contem com os herdeiros dele para uma empreitada desse tipo. Carlos Eduardo Santos, 53, o filho de Sydnei que administra a universidade, diz que seria ingenuidade olhar só para o preconceito explícito: “O racismo não está diminuindo, só está ficando mais velado. E racismo velado é pior”.
Carlos não é uma exceção entre quatro executivos negros ouvidos pela Folha, todos bem-sucedidos. Só um diz que nunca sofreu preconceito.
“Já me confundiram com motorista na porta de restaurante, mas bastou o cara olhar um pouco para pedir desculpas”, conta o engenheiro Nelson Narciso Filho, 53, diretor da ANP (Agência Nacional de Petróleo) que já foi gerente-geral da ABB (Asea Brown Boveri) no Brasil e diretor-geral da Halliburton em Angola.
Narciso Filho afirma que a maior estranheza do mundo corporativo é a ausência de “pares” em cargos mais elevados: “Nunca encontrei um negro em cargo de diretor nas empresas em que trabalhei. Já comandei e fui comandado por americanos, noruegueses, franceses e escoceses. Aqui, a coisa é pior do que nos EUA”.
Pesquisa feita pelo Instituto Ethos em 2005 confirma a impressão do diretor da ANP. Só 3,4% dos executivos brasileiros são negros (2,9% são pardos e 0,5% pretos).
O diretor de recursos humanos do Bradesco, José Carlos Bueno, 55, parece ser a exceção que confirma a regra. “Não sei o que é preconceito. A única vez que fizeram uma colocação pejorativa sobre a minha cor foi numa partida de futebol, e era só para provocar”.
Filho de um encarregado de uma fábrica de fósforos e de uma lavadeira que tirava água do poço porque não havia água encanada na rua em que viviam, em Osasco, Bueno é diretor numa empresa que contraria os números. No Bradesco, ele diz, 14,3% dos cargos de chefia são ocupados por negros. Não há nenhum tipo de ação afirmativa no banco. E nem precisa, de acordo com o diretor de RH. “Basta não ter preconceito que os negros chegam aos cargos de chefia.”
Não é bem assim, segundo José Vicente, 48, reitor da Unipalmares e da organização não-governamental Afrobras. “No Brasil, não há um negro na presidência de uma empresa como a American Express nem um vice-presidente na IBM. No mundo corporativo, o Brasil é mais racista do que os Estados Unidos”, afirma.
A falta de negros no topo das corporações acabou ajudando os negócios de Vicente na Unipalmares: as empresas que não contratam negros para sua diretoria ajudam a sustentar a escola, segundo ele. Sem patrocínio de empresas como o próprio Bradesco, o Itaú, o Real e o Safra, a Unipalmares já estaria falida. A mensalidade paga pelos alunos cobre 30% dos gastos; o patrocínio empresarial cobre os 70% restantes.

Fardado e armado
A ascensão de Sydnei Lima Santos até a criação da Universidade Tuiuti também passou ao largo de empresas. “Se não fosse o Exército, meu pai não teria feito a universidade. O uniforme de coronel era uma arma contra o preconceito. Em 1951, ele chegou a uma Curitiba dominada por alemães, poloneses e italianos. Para não sofrer preconceito, ele saía na rua de farda e armado.”
A galeria de presidentes do Coritiba Foot Ball Club serve para ilustrar os percalços do militar: ele é o único negro que ocupou o cargo desde que o time foi criado, há 99 anos.
Seria empobrecedor, segundo Narciso Filho, imaginar as pequenas mudanças que ocorrem hoje no Brasil como resultado exclusivo da ação dos negros. “Está havendo uma tomada de consciência do negro e do não-negro. É um processo que se retroalimenta.”
O executivo, porém, afirma não ter dúvidas da origem dessas mudanças: “O que despertou essa consciência foram os movimentos negros. Eles são fundamentalíssimos”.

Para maioria, negro sofre mais preconceito que pobre

Segundo estudo, brasileiro prefere mecânico branco a professor preto como genro

DA SUCURSAL DO RIO

Questionados sobre quem sofre mais com o preconceito no Brasil, a maioria dos entrevistados pelo Datafolha (56%) afirmou espontaneamente que eram os “pretos” ou os “negros”. Em segundo lugar, aparecem os “pobres” (21%). A questão sobre a natureza das desigualdades no Brasil, se exclusivamente social ou se amparada também em critério de cor divide os especialistas.
Isso porque detectar o preconceito específico de cor e seus efeitos não é tarefa fácil nem consensual. Uma tentativa foi feita pelo cientista político Alberto Almeida em “A Cabeça do Brasileiro” (Record).
Em vez de perguntar diretamente para os entrevistados se eles tinham preconceito, a pesquisa de Almeida apresentou fotos de pessoas identificadas como pretas, pardas ou brancas e, a partir daí, fez várias perguntas a respeito da imagem que se faz de cada uma delas.
Em alguns casos, a foto era associada a uma profissão. Quase metade (43%) dos brasileiros disseram preferir que sua filha se casasse com um mecânico de carros branco do que com um professor do ensino médio preto, opção de 27%.
A pesquisa detectou também mais preconceito em relação a pardos do que a pretos. Isso foi constatado a partir da identificação das fotos com atributos positivos ou negativos, como ser mais honesto ou malandro.
Os atributos positivos foram mais associados aos brancos, menos aos pretos e, em escala ainda menor, aos pardos.
Em alguns casos, diz Almeida, trata-se de discriminação estatística, ou seja, o entrevistado deduz que o branco tem mais estudo, por exemplo, por saber que, em média, brancos são mais escolarizados no país.
No entanto, quando se trata de questões como ser mais honesto, preguiçoso ou malandro, esse conceito não se aplica. Para o autor, é aí que fica claro o preconceito. “O preto é visto muitas vezes como alguém que não teve chance na vida, mas que conhece seu lugar. Já o pardo pode ser visto como alguém que teima em disputar posições com os brancos”, diz Almeida. É por essa razão que, para o autor, qualquer política de ação afirmativa no Brasil não deve excluir os pardos.
Outra conclusão da pesquisa foi que a ascensão social não muda a percepção das outras pessoas com relação à cor. Foram mostradas fotos de uma mesma pessoa de cor parda, mas em trajes diferentes e associados a profissões de mecânico, professor e advogado. Não houve diferença significativa nas respostas.

Efeito no salário
Mesmo considerando que existe forte preconceito de cor no Brasil -questão não consensual entre especialistas-, resta ainda uma pergunta difícil de responder: em que medida ele explica os diferenciais de renda no mercado de trabalho?
Em 2007, segundo o IBGE, a renda média dos trabalhadores brancos, de R$ 977, era quase o dobro da verificada entre pretos e pardos (R$ 506). A simples constatação de que essa diferença existe não permite concluir, entretanto, que isso ocorra por discriminação racial no mercado de trabalho.
Como pretos e pardos têm, em média, acesso pior ao sistema educacional, a diferença nos rendimentos pode acontecer principalmente por essa razão, e não por preconceito do empregador. Para se aproximar do que seria o efeito discriminação, é preciso comparar pessoas com as mesmas características e na mesma ocupação.
Ricardo Paes de Barros, Samuel Franco e Rosane Mendonça, ao fazerem isso num trabalho divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada em 2007, mostram que, em 2005, brancos com as mesmas características observáveis e inseridos no mesmo segmento do mercado de trabalho que os negros recebiam remuneração 11% maior.
Isso, no entanto, não esgota a questão, já que as pesquisas do IBGE não identificam aspectos culturais ou relacionados à qualidade do ensino.
Simon Schwartzman, sociólogo e ex-presidente do IBGE, diz que é a escolaridade o principal fator a determinar as desigualdades, ainda que a discriminação por cor tenha, em sua opinião, algum peso.
Para Schwartzman, no entanto, não é possível determinar com precisão pelas pesquisas o quanto o preconceito explica essa diferença.
“As pessoas podem estar na mesma ocupação, mas um pode ter se formado numa faculdade pior e virado advogado de porta de cadeia, enquanto outro estudou numa universidade prestigiosa e hoje trabalha numa multinacional”, diz. (AG)

Cor de celebridades revela critérios "raciais" do Brasil

Lula é visto como pardo por 42% dos entrevistados; FHC, que já se disse “mulatinho”, é campeão de “brancura”

LAURA CAPRIGLIONE
DA REPORTAGEM LOCAL

Uma espécie de daltonismo acometeu os 2.982 entrevistados pelo Datafolha quando lhes foi perguntado que cor atribuíam a 11 celebridades nacionais. Exemplo dessa confusão observou-se a respeito da cor do jogador Ronaldo Fenômeno, autodeclarado branco -“Acho que todos os negros sofrem. Eu, que sou branco, sofro com a ignorância”, disse o craque em 2005 a respeito de episódios de racismo no futebol espanhol. Não convenceu a maioria dos entrevistados -ao menos sobre sua brancura. Para 64%, ele é preto ou pardo. Apenas 23% concordaram com o atleta e disseram-no branco.
“Quando se pede para atribuir cores a celebridades, é óbvio que os entrevistados não responderam apenas sobre a pigmentação da pele. Compõem as respostas critérios de qualificação intelectual, os papéis que a pessoa desempenha na sociedade, como ela quer ser vista. No caso de atores, entram em questão até mesmo os personagens a que eles eventualmente deram vida”, avalia o historiador Luiz Felipe de Alencastro, professor na Universidade de Paris 4.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que em seu primeiro mandato disse ser “mulatinho” com “um pé na cozinha”, foi o campeão de brancura -70% dos entrevistados assim o definiram, contra apenas 17% que disseram que ele é pardo e 1% que é preto.
“FHC apareceu como mais branco do que o Lula. Mas o Fernando Henrique é branco? Ele é um mulato. Se as pessoas não soubessem que se tratava do FHC, provavelmente, julgando apenas pela cor da pele, diriam que se tratava de um mulato. Mas como é o FHC, um intelectual, passa a ser visto como branco”, interpreta o poeta e antropólogo Antônio Risério.
Filha do ator negro Antonio Pitanga, a atriz Camila Pitanga define-se como negra, categoria que muitas vezes é sinônimo de afrodescentente. No caso dela, 27% dos entrevistados cravaram a cor preta, contra 36% que a declararam parda.
Outra atriz (também autodeclarada negra), Taís Araújo, foi reconhecida como preta por 54% dos entrevistados -o dobro do obtido por Pitanga. “Eu tenho cabelo crespo. Depois, tem os personagens que fiz, como a Xica da Silva e a Preta, protagonista da novela “Da Cor do Pecado”. A Camila tem o cabelo mais liso”, analisa.
“Desde os caçadores de escravos fugidos, o critério para saber se se tratava de negro ou de índio era o cabelo”, explica Alencastro.
O professor Ronaldo Vainfas, da Universidade Federal Fluminense, concorda: “Veja o [ex-jogador] Romário, por exemplo. A maioria disse que ele é pardo (51%), contra 31% que acharam que ele é preto. Do ponto de vista estrito da cor, ele é das celebridades mais “enegrecidas” da lista apresentada aos entrevistados. Mas o cabelo não é o típico, daí o fato de o pardo ter prevalecido. Já o Ronaldo é até brancarrão, mas o cabelo o denuncia. Por isso, ele raspava a cabeça. Não tem jeito, no fim, fica o bordão “O teu cabelo não nega, mulata'”.
O pesquisador cita um jogo de futebol de negros contra brancos que acontece em São Paulo todos os finais de ano, desde 1972, reunindo moradores da favela de Heliópolis aos do bairro de São João Clímaco. Segundo Vainfas, os times são montados a partir da autodeclaração dos jogadores.
“Mas eles mudavam de time de um ano para outro. Lá pelas tantas, tentando controlar minimamente esse câmbio de cores, alguém disse: “Tudo bem, mas não pode jogar no time dos pretos o fulano que o cabelo voa quando corre”. Essa é uma característica essencial”.
Há outras. O cantor Zeca Pagodinho definiu-se como “gente”, ao ser perguntado sobre sua cor. “Eu não vivo esse mundo de cores”, disse. Zeca é pardo para 52% dos entrevistados. E preto para 22%.
O artista foi então informado pela Folha de que sócios de um dos clubes mais exclusivos de São Paulo iniciaram movimento contra show dele, programado para ocorrer em um salão nobre. Zeca tentou uma explicação: “Eu sei o que é o preconceito. Embora eu não tenha cor, sou sambista e do subúrbio. Quer dizer: sou preto”.

EM QUE SITUAÇÕES A COR DA SUA PELE SE MOSTRA RELEVANTE?

Haroldo Costa, 68
ator e escritor
“Como qualquer negro brasileiro, fui barrado por porteiro de edifício, olhado com desconfiança ao entrar numa loja e exaltado por expressões como “é negro e é meu amigo”. É uma cota que todos pagamos. Já vieram falar em inglês comigo numa festa sofisticada, como também, no mesmo tipo de festa, já me pediram que servisse um uísque, porque eu estava trajado a rigor. Ou me confundiram com diplomata africano. Preconceito tem para todos os gostos.”

Responsabilidade pelas diferenças é da sociedade atual


FLÁVIO GOMES
MARCELO PAIXÃO
ESPECIAL PARA A FOLHA

No período colonial e imperial brasileiro, um modelo de escravidão extremamente brutal sobre suas vítimas não deixara de lograr mecanismos de mobilidade social para alguns descendentes de escravizados que se tornaram libertos.
No Brasil do século 19, em algumas regiões, eles poderiam chegar mesmo a 80% do total da população livre; dados semelhantes aos de Cuba. No Sul dos Estados Unidos, por exemplo, o índice era de apenas 4%. Alguns destes chegaram -de forma ainda hoje inédita- aos altos escalões da vida cultural e política do país. A lista não é tão pequena assim: Rebouças, Patrocínio, Caldas Barbosa, Machado de Assis.
Na contramão, há quem afirme que a liberdade conquistada pela alforria, em nossa antiga sociedade, era extremamente precária -em razão da cor, tornando as pessoas libertas de tez mais escura no máximo quase-cidadãos.
De qualquer maneira, se é verdade que nossa realidade colonial e imperial guarda uma complexidade própria, o fato é que ao longo do século 20 a antiga sociedade acabaria abrigando um desconcertante paradoxo. O escravismo não tivera nada de harmonioso, mas o sistema de dominação abria margens para infiltrações.
Para as experiências do pós-emancipação, cor, raça e racismo foram paisagens permanentemente reconfiguradas. Ordem, trabalho, disciplina e progresso dialogaram com as políticas públicas de aparato policial e criminalização dos descendentes dos escravizados e suas formas de manifestação cultural e simbólica.
No projeto de nossas elites desse período vigorou a concepção de que o desenvolvimento socioeconômico era incompatível com nossas origens ancestrais em termos étnicos. Países com maiorias não-brancas não atingiram, e jamais alcançariam, o tão desejado progresso. Os perniciosos efeitos do sistema escravista foram associados às suas vítimas, ou seja, os escravizados.
No contexto posterior aos anos 1930, a valorização simbólica da mestiçagem seria um importante combustível ideológico do projeto desenvolvimentista. Dado o momento histórico em que fora forjado, se pode até reconhecer que tal discurso poderia abrigar algum tipo de perspectiva progressista. Por outro lado, ao consagrar como natural a convergência das linhas de classe e cor, tal lógica tentou convencer que diferenças sociais derivadas de aparências físicas (cor da pele, traços faciais), conquanto nítidas e persistentes, inexistiam. Ou se existiam eram para ser esquecidas, abafadas ou comentadas no íntimo do lar.
Como tal, o mito da democracia racial serviu não apenas ao projeto de industrialização do país. Também se associou a um modelo de desenvolvimento que viria a ser assumidamente concentrador de renda e poder político em termos sociorraciais, dado que tais assimetrias passaram a ser incorporadas à paisagem das coisas.

Mito da herança
Após o fim do mito da democracia racial, parece que se torna necessário romper com uma segunda lenda. A de que as assimetrias de cor ou raça sejam decorrência direta do escravismo, findado há 120 anos.
Tal compreensão retira da sociedade do presente a responsabilidade pela construção de um quadro social extremamente injusto gerado a cada instante, colocando tal fardo apenas nos ombros do distante passado. Nosso racismo está embebido de uma forte associação entre cor da pele e uma condição social esperada ou desejada. Tal correlação atua nos diversos momentos da vida social, econômica e institucional.
A leitura dos indicadores sociais decompostos pela variável cor ou raça expressa a dimensão de tais práticas sociais inaceitáveis. Se os afrodescendentes se conformam com tal realidade, fica então ratificado o mito. Se não se conformam, dizem os maus presságios: haverá ruptura de nossa paz social.
O racismo e as assimetrias de cor ou raça do presente não são produtos da escravidão, muito embora tenham sido vitais para o seu funcionamento. Em sendo uma herança perpétua e acriticamente atualizada, o passado fez-se presente.
O que fazer para superar este legado? Este é o desafio de todos nós, habitantes deste sexto século brasileiro que há pouco despertou.


FLÁVIO GOMES é professor de história da UFRJ e co-organizador da coletânea “Quase-Cidadão -Antropologias e Histórias da Pós-Emancipação no Brasil” (ed. FGV)

MARCELO PAIXÃO é professor de economia da UFRJ e co-organizador do “Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil -2007-2008” (ed. Garamont)

Cota é vista como essencial e humilhante

Opinião dos brasileiros em relação às ações afirmativas é contraditória

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

Polêmicas desde que começaram a ser implementadas, em 2002, no Brasil, as cotas para negros nas universidades continuam dividindo opiniões.
Se, por um lado, 51% da população se diz a favor da reserva de vagas para negros, por outro, 86% concordaram com a afirmação de que as cotas deveriam beneficiar pessoas pobres e de baixa renda, independentemente da cor.
As respostas seguem contraditórias quando 53% dos brasileiros concordam que cotas são humilhantes para negros, mas, ao mesmo tempo, 62% dizem que elas são fundamentais para ampliar o acesso de toda a população à educação. Também 62% dizem que elas podem gerar atos de racismo.

Leituras diversas
Como era esperado, o resultado da pesquisa gerou leituras diversas de críticos e de pessoas favoráveis ao sistema.
A antropóloga Yvonne Maggie, contrária à reserva de vagas por cor ou raça, destaca a incoerência dos resultados do levantamento. Para ela, no entanto, é natural que, dependendo da forma como a pergunta é feita, a população concorde com a idéia de dar vantagens àqueles que se sentem mais discriminados.
“Quem vai negar vantagens aos que dizem ser mais discriminados? As pessoas, no entanto, acreditam no esforço pessoal e também são favoráveis ao mérito, até em percentual maior. Também acham que as cotas podem provocar racismo. Será que estão fazendo o cálculo de que é melhor racismo, contanto que as pessoas ganhem alguns privilégios?”, questiona a antropóloga.

Aceitação
Renato Ferreira, do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e defensor do sistema, diz não ter dúvidas de que há uma aceitação à política de cotas.
“Os meios de comunicação, via de regra, se manifestam contrariamente. Se sai algo positivo, quase não comentam. Se é negativo, isso reverbera. Dentro desse contexto, acho significativo que a maioria da população hoje concorde com as cotas raciais”, afirma.
Ferreira fez um levantamento que mostra que, no Brasil, já há 82 instituições públicas adotando algum critério de ação afirmativa no acesso ao vestibular, seja ele de cotas ou de bonificação extra para alunos por sua cor, renda ou tipo de escola cursada no ensino médio.
As ações afirmativas em exames de ingresso, no entanto, estão sendo contestadas numa ação que ainda não foi julgada pelo Supremo Tribunal Federal. Até agora, essas universidades têm conseguido manter nas instâncias inferiores da Justiça seus sistemas.
O STF, porém, ainda não julgou uma ação movida pela Confenen (Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino) contra o ProUni, programa do governo federal que adota ações afirmativas na distribuição de bolsas para estudo em instituições privadas. Caso declare inconstitucional esse critério, a decisão afetará as instituições públicas.
“A Constituição determina que ninguém terá tratamento desigual perante a lei e que o acesso ao ensino superior se dá por mérito. Na reserva de vagas, há uma discriminação ao contrário, e entendemos que isso é ilegal”, diz Roberto Dornas, presidente da Confenen.

Qualidade
Enquanto não há decisão definitiva, as universidades que divulgaram resultados sobre o desempenho acadêmico dos cotistas têm defendido que isso não afetou a qualidade.
Ricardo Vieralves, reitor da Uerj, uma das pioneiras, diz que houve necessidade de criar aulas de reforço, mas que os alunos que se formam saem com a mesma qualidade. Ele afirma também que não foram registrados casos de racismo.
Adriana Pastor, 23, que entrou no curso de odontologia da Uerj graças às cotas, diz não ter percebido diferenças no desempenho entre cotistas e os demais. “Acho que fui uma das melhores alunas de minha turma e não percebi nenhum tipo de preconceito entre meus colegas. Para mim, a maior dificuldade do curso foi que o material era muito caro”, diz.

82
instituições públicas de ensino superior no país adotam algum critério de ação afirmativa na seleção de estudantes, seja ele de cotas ou de bonificação extra para alunos por sua cor, renda ou tipo de escola cursada no ensino médio.

A sociedade culpada


O médico entrou em parafuso, internou-se numa clínica, fechou o consultório e virou jornalista


ESTAVA NA MODA afirmar que loucura não existe, que os remédios psiquiátricos, como o Haldol, eram uma camisa-de-força interna para manietar o doente mental (que não era doente) e que a internação era um ato de violência contra alguém que pensava diferente. Um conhecido meu, médico psiquiatra de mente amplamente aberta, aderiu a tais idéias e conforme elas passou a atuar. Um de seus pacientes era um rapaz de 18 anos que, certo dia, entrou em delírio. Os pais foram procurá-lo, dispostos a internar o filho, propósito esse que foi radicalmente repelido pelo médico. Os dois alegaram que já não dormiam havia alguns dias porque o filho não parava de esbravejar e ameaçar agredi-los. Coerente com suas idéias, o médico tomou uma atitude corajosa: decidiu levar o rapaz para sua própria casa.
Disse e fez, mas, não se passou um dia inteiro, sua mulher reagiu: não suportaria aquele rapaz a falar sem parar dentro de casa; o marido teria de escolher entre ela e o paciente. Disse-lhe isso pelo telefone e avisou que, naquele momento, mudava-se para a casa da mãe. Tomado de surpresa, ele não soube o que dizer mas dispôs-se a conversar com a esposa e convencê-la a voltar para casa.
Naquela mesma noite, foi encontrá-la, mas nada conseguiu. Para encurtar a história: três ou quatro dias depois, o rapaz suicidava-se, jogando-se da janela do apartamento. O médico entrou em parafuso, internou-se numa clínica de recuperação, depois fechou o consultório e virou jornalista.
Nos anos 60 do século passado, quando se drogar era visto como um modo de contestar a sociedade de consumo, muito jovem pirou e foi parar nas clínicas psiquiátricas. Surgiu então a tese de que o diagnóstico de esquizofrenia era fruto de um preconceito reacionário e burguês. Na verdade, o que a “máfia de branco” tentava fazer era calar os jovens e sufocar a rebelião que ia mudar o mundo. Muitas famílias foram arrastadas a esse sorvedouro.
Dentre tantos, houve o caso de um amigo meu, cujo filho, ao tomar uma dose de LSD, entrou em delírio e não conseguiu mais sair dele: queixava-se de que seu cérebro havia desaparecido. Em seguida, entrou em crise furiosa e tentou agredir a mãe. O pai interveio e ele, inesperadamente, saiu pela porta da rua e sumiu. Um mês depois, soube que estava detido numa delegacia de polícia, por ter tentado roubar um carro. Foi até lá e obteve permissão para levá-lo para casa, já que estava evidentemente delirando. Ao chegar, ele se trancou no quarto e tentou fugir pela janela (moravam no quinto andar); como não conseguiu, começou a quebrar os móveis do quarto.
O pai chamou uma ambulância e o internou. Uma semana depois, foi chamado pela equipe médica da clínica para uma conversa: soube então que a causa da doença de seu filho era social e familiar; quem primeiro deveria ser tratado era a família. “Então soltem ele e me internem”, retrucou o pai, fulo da vida.
Inconformado com o diagnóstico, pediu um encontro com a médica que tratava do seu filho. Se a causa era familiar, por que os dois outros filhos seus não adoeceram nem se meteram com drogas?
A resposta da médica foi que alguns adolescentes são mais vulneráveis que outros e, por isso, mais facilmente atingidos pelos problemas sociais e familiares. “Mas, na minha família”, disse o pai, “não existe nenhum problema grave, que eu saiba, já que minha mulher e eu nos damos muito bem”. “É o que todos os pais dizem”, respondeu a médica, “porque não querem admitir sua culpa na doença do filho”.
Foi aí que ele lançou de um argumento definitivo. “Doutora Sílvia, qualquer órgão do nosso corpo não pode adoecer? Por exemplo, uma pessoa não pode sofrer do fígado, ou dos rins ou dos pulmões, sem que a sociedade ou família tenham nada a ver com isso? Ou será que pedra no rim é culpa dos parentes?” “Certamente que não”, admitiu a médica. “Então”, retomou ele a argumentação, “qualquer órgão do nosso corpo pode sofrer de uma anomalia ou por razões genéticas ou lá pelo que for, não pode?” Ela admitiu que sim, pode. “Quer dizer que o coração pode adoecer, os rins, o estômago, só o cérebro que não? Se o cérebro adoecer, a causa é ou social ou familiar? Não pode haver, por exemplo, uma disfunção na química cerebral?”
Não sei qual foi a resposta da médica, mas a verdade é que a medicina descobriu que a causa dessa doença chamada esquizofrenia é a maior ou menor absorção, pelos neurônios, de uma substância chamada dopamina. Essa descoberta permitiu a elaboração de remédios que, se não curam definitivamente a doença, permitem ao esquizofrênico conviver e até mesmo trabalhar.

Igualdade distante

Embora tenham refluído as atitudes explícitas de preconceito racial no país, injustiça e discriminação persistem na prática

DIMINUI o preconceito racial na sociedade brasileira. Tomada isoladamente, a frase tende a despertar algum ceticismo. Já foi dito que “o Brasil não é para iniciantes”, e a complexidade do fenômeno desautoriza, por certo, conclusões triunfalistas.
Diversos dados da pesquisa Datafolha, publicada em caderno especial nesta edição, oferecem todavia motivos para comemoração. É assim que em 1995, data do levantamento anterior, 43% dos entrevistados diziam nunca ter tido namorado ou cônjuge de cor diferente da sua. A proporção caiu para 34%.
Também diminuiu o número dos que concordam com frases de teor abertamente racista. Eram 43% os que aceitavam, em 1995, a idéia de que “as únicas coisas que negros sabem fazer bem são música e esporte”. Hoje, são 20%. Não é pouco; mas vale registrar que opiniões desse gênero se concentram nas faixas de menor escolaridade e de idade mais avançada.
Seria de todo modo exagero concluir desse dado que o preconceito racial está com os dias contados no Brasil. Embora contribuam para diminuí-lo, as preocupações “politicamente corretas” não impedem que o racismo adquira novas sutilezas de formulação.
Com efeito, a presença do preconceito é inequívoca em nossa sociedade, como apontam vários depoimentos transcritos no caderno. Do olhar desconfiado com que um negro é recebido numa loja à discriminação violenta que pode vitimá-lo em situações de abordagem policial, a prática do racismo se dá em nossa sociedade conforme um gradiente variado de intensidades e circunstâncias, que independe de formalização ideológica consciente para se manifestar.
De resto, a injustiça que se abate sobre os afrodescendentes, e sobre os negros em especial, é um fenômeno que não se explica apenas pelo preconceito de que ainda são vítimas.
Em entrevista à Folha, o sociólogo Simon Schwartzman ressalta que, num mesmo nicho profissional, pode variar o tipo de clientela e a qualidade da formação educacional de negros, de mulatos e de brancos. O resultado, que a pesquisa atesta, é uma pior remuneração para os negros, sem que isso indique, necessariamente, preconceito por parte de quem contrata ou não os seus serviços.
Apesar dos progressos verificados na pesquisa, a desigualdade racial persiste. O tempo de negar o problema por meio de subterfúgios retóricos, felizmente, já passou.
Menos do que discutir se “existe ou não racismo” no país, trata-se de enfrentar as várias faces da desigualdade social. O que não pressupõe, vale lembrar, políticas de cotas compensatórias, afirmações artificiais de “negritude” e divisões identitárias radicais numa sociedade que cada vez mais se vê como mestiça. O caminho é a adoção de políticas universais em prol de uma verdadeira igualdade de oportunidades, que não discriminem ninguém pela cor que tenha -ou que deixe de ter.

Diminuem as manifestações de preconceito

Na comparação com pesquisa de 1995, cai racismo “assumido” e concordância com frases discriminatórias

DA SUCURSAL DO RIO

Seja por mero pudor ou realmente por uma questão de consciência, os brasileiros, hoje, se mostram menos preconceituosos do que há 13 anos.
Ao repetir neste ano perguntas feitas em 1995, o Datafolha identificou que caiu significativamente o grau de concordância da população com frases como “negro bom é negro de alma branca” ou “se Deus fez raças diferentes, é para que elas não se misturem”.
O que não mudou de lá para cá foi a constatação, aparentemente contraditória, de que o brasileiro reconhece o preconceito no outro, mas não em si mesmo. Ou, como já definiu a historiadora da USP Lilia Moritz Schwarcz, “todo brasileiro se sente como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”.
Para 91% dos entrevistados, os brancos têm preconceito de cor em relação aos negros. No entanto, quando a pergunta é pessoal, só 3% (excluindo aqui os autodeclarados pretos) admitiram ter preconceito.
Foi igualmente alto (63%) o percentual de entrevistados que afirmaram que negros têm preconceito em relação a brancos, mas somente 7% (excluindo os brancos) dizem ter, eles mesmos, algum preconceito.
Também caiu (de 22% para 16%) a proporção de brasileiros que se sentiram discriminados por sua cor. Esse percentual, no entanto, chega a 41% entre autodeclarados pretos.
Para Schwarcz, o que mudou de 1995 para 2008 foi a popularização do discurso politicamente correto. Ela, no entanto, demonstra algum ceticismo com relação ao menor percentual de concordância com afirmações preconceituosas.
“As coisas mudaram, mas nem tanto. As pessoas reagem mais às frases preconceituosas, como se já estivessem vacinadas. É positivo ver que há maior consciência, mas é preocupante constatar que a ambivalência se mantém. Parece que os brasileiros jogam cada vez mais o preconceito para o outro. “Eles são, mas eu não.'”
Também historiador, Manolo Florentino, da UFRJ, tem opinião semelhante. “O que cresceu foi sobretudo o pudor. Para tanto deve ter colaborado, em alguma medida, a disseminação da praga politicamente correta. Se for este o caso, estaremos mais uma vez frente à constatação de que nosso racismo é envergonhado, que, afora casos patológicos, o brasileiro só expressa seu preconceito racial através de carta anônima.”

Constrangimento
O sociólogo Marcos Chor Maio, da Fiocruz, faz leitura mais otimista. O fato de os brasileiros só admitirem preconceito nos outros -o que pode ser visto como hipocrisia-, para ele, é um valor: “As pessoas têm vergonha de parecerem racistas, cria-se um constrangimento enorme. Isso é ótimo”.
Fulvia Rosemberg, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e coordenadora do programa de bolsas da Fundação Ford, vê na ampliação do debate sobre a questão racial, provocado principalmente pela discussão das cotas em universidades, uma das causas para a queda do preconceito.
“Isso não acirrou a oposição branco/negro e parece ter desenvolvido maior consciência e atenção às relações raciais.”
A socióloga Fernanda Carvalho, do Ibase e uma das coordenadoras do movimento Diálogos Contra o Racismo, concorda: “Não deixamos de ser um país com forte racismo, mas evoluímos. Não se discutia tanto a questão do negro. Hoje, as pessoas estão compreendendo melhor o tema e têm mais consciência de que o preconceito é um valor negativo”.
Yvonne Maggie, antropóloga da UFRJ, tem opinião diferente sobre o racismo no país.
“Os pretos se sentem mais discriminados, mas são eles também os que mais acreditam no esforço pessoal. Somos uma sociedade que tem optado por não marcar o sentimento da vida a partir da raça”, diz ela, citando o dado de que 71% dos pretos concordam que, se um pobre trabalhar duro, melhorará de vida. Entre brancos, o percentual é de 67%.
Maggie diz também que o aumento da escolaridade nos últimos anos deve ter contribuído para a queda no preconceito. “Pode até ser que o debate sobre raça tenha influenciado, mas não é possível concluir isso com base na pesquisa. O que temos de concreto nesses últimos anos foi que houve uma melhoria radical do sistema educacional no Brasil”, diz a antropóloga.
Segundo o Datafolha, quanto maior a escolaridade, menor a manifestação de preconceito. Entre a população com nível superior, apenas 5% concordam que negros só sabem fazer bem música e esporte. Entre os que não passaram do fundamental, a proporção é de 31%.
A idade do entrevistado também influencia. Entre os que têm 41 anos ou mais, 27% concordam com a frase sobre negros na música e esporte. Entre os mais jovens (16 a 25), a proporção cai pela metade: 13%.
(ANTÔNIO GOIS)

Salário e escolaridade dos negros melhoram

Média de anos de estudo de pretos e pardos é ainda menor que a de brancos em 1995

DA SUCURSAL DO RIO

Há 13 anos, na comunidade quilombola de Ivaporunduva, no Vale do Ribeira (SP), ninguém tinha diploma universitário. Essa barreira foi rompida em 2006 por Elson Silva, 25. Depois dele, mais dois concluíram a graduação e outros nove seguem o mesmo caminho.
Com uma bolsa da Fundação Ford, Silva faz mestrado em educação. “O maior acesso ao ensino melhorou a qualidade de vida na nossa comunidade”, diz ele, que vê um preconceito menor, ao mesmo tempo que mais “enrustido”, no país.
O maior acesso à educação de pretos e pardos é destaque na comparação das pesquisas Datafolha de 1995 e 2008. O avanço também é detectado pelo IBGE, mas a diferença ainda é grande, como mostra o Relatório Anual das Desigualdades Raciais, organizado por Marcelo Paixão e Luiz Carvano.
A diferença na média de estudo de pretos e pardos para brancos caiu de 2,1 anos em 1995 para 1,8 em 2007. Mesmo assim, a média de 6,3 anos de estudo de pretos e pardos em 2007 é menor que os 6,4 anos de brancos em 1995.
O IBGE também detecta maior presença de pretos e pardos no ensino superior. Em 1995, eram 18% dos estudantes. Em 2007, 31%. O acesso aos cursos, porém, é diferenciado.
O questionário do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes, do MEC, mostra que, numa graduação concorrida como medicina, só 12% dos concluintes são negros, pardos ou mulatos (definições usadas pelo MEC no exame). Já nos cursos que formam professores, a proporção sobe para 51%.

IDH
Além da educação, a esperança de vida ao nascer, graças em boa parte à queda na mortalidade infantil, também registrou avanço. Em 1995, 5,6 anos separavam brancos de pretos e pardos. Dez anos depois, a diferença caiu para 3,2.
Essas melhorias se refletiram também no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano, usado pela ONU para comparar países). Mas, ainda assim, o IDH de pretos e pardos (0,753 numa escala de zero a um) os coloca no mesmo nível do Irã. Os brancos, com 0,838, ficam perto de Cuba.
Avanços, ainda que insuficientes, também se verificam nos salários. De acordo com uma conta do economista Naércio Menezes Filho, da USP, em 1987, uma mulher negra recebia, em média, 38% do salário de um homem branco. Vinte anos depois, o percentual passou a ser de 56%.
Na comparação entre homens negros e homens brancos, no entanto, os avanços são menos significativos. Em 1987, o rendimento médio dos homens negros representava 58% do recebido por homens brancos. Em 2007, o percentual passou para 62%.
“Mulheres negras estavam mais confinadas a ocupações precárias e sofrem duplo preconceito: por ser mulher e por ser negra. Isso diminuiu um pouco graças à melhoria da escolaridade”, diz Menezes.
Essas mudanças, no entanto, ainda não foram suficientes para mudar a cor da riqueza no Brasil.
Num país em que quase metade da população se declara preta ou parda, em 1995, como mostram Paixão e Carvano, essa parcela representava apenas 17% dos brasileiros que estavam entre os 10% mais ricos. Em 2007, o percentual subiu para 22%.
Já entre os 10% mais pobres, a proporção de pretos e pardos é de 68%. (AG)

Diminuem as manifestações de preconceito


Na comparação com pesquisa de 1995, cai racismo “assumido” e concordância com frases discriminatórias

DA SUCURSAL DO RIO

Seja por mero pudor ou realmente por uma questão de consciência, os brasileiros, hoje, se mostram menos preconceituosos do que há 13 anos.
Ao repetir neste ano perguntas feitas em 1995, o Datafolha identificou que caiu significativamente o grau de concordância da população com frases como “negro bom é negro de alma branca” ou “se Deus fez raças diferentes, é para que elas não se misturem”.
O que não mudou de lá para cá foi a constatação, aparentemente contraditória, de que o brasileiro reconhece o preconceito no outro, mas não em si mesmo. Ou, como já definiu a historiadora da USP Lilia Moritz Schwarcz, “todo brasileiro se sente como uma ilha de democracia racial, cercado de racistas por todos os lados”.
Para 91% dos entrevistados, os brancos têm preconceito de cor em relação aos negros. No entanto, quando a pergunta é pessoal, só 3% (excluindo aqui os autodeclarados pretos) admitiram ter preconceito.
Foi igualmente alto (63%) o percentual de entrevistados que afirmaram que negros têm preconceito em relação a brancos, mas somente 7% (excluindo os brancos) dizem ter, eles mesmos, algum preconceito.
Também caiu (de 22% para 16%) a proporção de brasileiros que se sentiram discriminados por sua cor. Esse percentual, no entanto, chega a 41% entre autodeclarados pretos.
Para Schwarcz, o que mudou de 1995 para 2008 foi a popularização do discurso politicamente correto. Ela, no entanto, demonstra algum ceticismo com relação ao menor percentual de concordância com afirmações preconceituosas.
“As coisas mudaram, mas nem tanto. As pessoas reagem mais às frases preconceituosas, como se já estivessem vacinadas. É positivo ver que há maior consciência, mas é preocupante constatar que a ambivalência se mantém. Parece que os brasileiros jogam cada vez mais o preconceito para o outro. “Eles são, mas eu não.'”
Também historiador, Manolo Florentino, da UFRJ, tem opinião semelhante. “O que cresceu foi sobretudo o pudor. Para tanto deve ter colaborado, em alguma medida, a disseminação da praga politicamente correta. Se for este o caso, estaremos mais uma vez frente à constatação de que nosso racismo é envergonhado, que, afora casos patológicos, o brasileiro só expressa seu preconceito racial através de carta anônima.”

Constrangimento
O sociólogo Marcos Chor Maio, da Fiocruz, faz leitura mais otimista. O fato de os brasileiros só admitirem preconceito nos outros -o que pode ser visto como hipocrisia-, para ele, é um valor: “As pessoas têm vergonha de parecerem racistas, cria-se um constrangimento enorme. Isso é ótimo”.
Fulvia Rosemberg, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas e coordenadora do programa de bolsas da Fundação Ford, vê na ampliação do debate sobre a questão racial, provocado principalmente pela discussão das cotas em universidades, uma das causas para a queda do preconceito.
“Isso não acirrou a oposição branco/negro e parece ter desenvolvido maior consciência e atenção às relações raciais.”
A socióloga Fernanda Carvalho, do Ibase e uma das coordenadoras do movimento Diálogos Contra o Racismo, concorda: “Não deixamos de ser um país com forte racismo, mas evoluímos. Não se discutia tanto a questão do negro. Hoje, as pessoas estão compreendendo melhor o tema e têm mais consciência de que o preconceito é um valor negativo”.
Yvonne Maggie, antropóloga da UFRJ, tem opinião diferente sobre o racismo no país.
“Os pretos se sentem mais discriminados, mas são eles também os que mais acreditam no esforço pessoal. Somos uma sociedade que tem optado por não marcar o sentimento da vida a partir da raça”, diz ela, citando o dado de que 71% dos pretos concordam que, se um pobre trabalhar duro, melhorará de vida. Entre brancos, o percentual é de 67%.
Maggie diz também que o aumento da escolaridade nos últimos anos deve ter contribuído para a queda no preconceito. “Pode até ser que o debate sobre raça tenha influenciado, mas não é possível concluir isso com base na pesquisa. O que temos de concreto nesses últimos anos foi que houve uma melhoria radical do sistema educacional no Brasil”, diz a antropóloga.
Segundo o Datafolha, quanto maior a escolaridade, menor a manifestação de preconceito. Entre a população com nível superior, apenas 5% concordam que negros só sabem fazer bem música e esporte. Entre os que não passaram do fundamental, a proporção é de 31%.
A idade do entrevistado também influencia. Entre os que têm 41 anos ou mais, 27% concordam com a frase sobre negros na música e esporte. Entre os mais jovens (16 a 25), a proporção cai pela metade: 13%.
(ANTÔNIO GOIS)

País se vê menos branco e mais pardo

Demografia e valorização crescente da identidade de cor ajudam a explicar crescimento de pretos e pardos entre 1995 e 2008

ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO

A imagem do Brasil como um país de maioria branca não se sustenta mais nas estatísticas.
Há 13 anos, quando o Datafolha fez a sua primeira grande pesquisa sobre o tema, metade dos entrevistados se definiram como brancos. Hoje, são 37%, percentual próximo ao dos autodeclarados pardos (36%). Os que se classificam como pretos representam 14% da população com 16 anos ou mais, de acordo com o levantamento.
Este movimento é coerente com o detectado pelas pesquisas do IBGE: em 2007, pela primeira vez na história, a soma de pretos e pardos superou a de brancos no total da população.
Duas razões principais explicam o crescimento dos autodeclarados pretos e pardos.
A primeira é demográfica. O Relatório Anual das Desigualdades Raciais no Brasil, organizado pelos pesquisadores Marcelo Paixão e Luiz Carvano, mostra que, em 1995, o número médio de filhos de mulheres pretas e pardas era 3,0. Entre brancas, a taxa era de 2,2.
Dez anos depois, a diferença caiu, mas as mulheres pretas e pardas seguem tendo, em média, mais filhos (2,3 ante 1,9).
No entanto, como a definição de cor ou raça pelo IBGE é autodeclaratória (é o entrevistado quem escolhe entre cinco opções fornecidas), outra razão apontada por especialistas para esse aumento é que pessoas que antes se identificavam como brancas deixaram de se classificar assim.
No relatório de Paixão e Carvano, comparou-se a geração que, em 1995, tinha de 10 a 29 anos, e, em 2005, tinha de 20 a 39 anos. Mesmo nesse grupo -em tese, a mesma população dez anos depois- foi verificado aumento de pretos e pardos.
Para o sociólogo José Luiz Petrucelli, do IBGE, contribuiu para esse aumento o que ele chama de processo de revalorização identitária. “O que antes não entrava nos padrões de beleza ou prestígio e era desvalorizado hoje mudou para se constituir em referência, até para poder usufruir de vantagens relativas”, diz, referindo-se, por exemplo, a ações afirmativas que passaram a dar benefícios a pretos e pardos no acesso ao ensino superior.
Além de investigar como a população se classifica pelo critério do IBGE (branco, preto, pardo, amarelo ou indígena), o Datafolha perguntou como os brasileiros definiriam sua cor de forma espontânea, ou seja, sem restringir a resposta a essas cinco opções.
O resultado foi que, apesar do crescimento na proporção dos brasileiros que se autodeclaram pretos ou pardos, outros termos, como moreno e negro, são mais utilizados de forma espontânea. A soma das respostas moreno, moreno claro e moreno escuro, por exemplo, chega a 33%, quase o dobro dos 17% que se definiram como pardos espontaneamente.
O termo negro, não utilizado pelo IBGE, representou 7% das respostas espontâneas, percentual superior aos 4% que se declararam pretos dessa maneira.
É essa a resposta que é dada pela operadora de telemarketing Érika Nascimento de Paula, 29, que aparece na capa deste caderno. Questionada sobre a sua cor pela reportagem, disse: “Sou negra”. Quando apresentada às opções do IBGE, disse ser “preta”.
“Há negros que têm preconceito com a própria cor e dão outras respostas”, diz, justificando as afirmações taxativas.
Até mesmo quando o Datafolha fez a pergunta sobre cor limitando as respostas às cinco definições utilizadas pelo IBGE, houve quem não aceitasse ter que escolher apenas entre elas. Mesmo a opção não constando desta pergunta do questionário, 4% insistiram e se declararam morenos.

Mudanças
A dificuldade de classificar a população segundo as definições do IBGE vem sendo discutida internamente no instituto, que, neste ano, está elaborando mais um estudo para subsidiar propostas. Um dos desafios é substituir o termo pardo, que, tradicionalmente, representaria tanto descendentes de pretos com brancos quanto de brancos com índios.
Petrucelli, do IBGE, defende mudanças, mas diz que o tema precisa ser tratado com cuidado. Ele afirma que qualquer alteração, se acontecer, será discutida com a sociedade e feita de forma a permitir comparações com pesquisas anteriores.
“Minha posição pessoal é que precisamos aprimorar esse critério, pois é muito rígido e não dá conta da diversidade de identidades dos brasileiros.”
Não é a primeira vez que o IBGE tenta mudar. Antes do Censo de 2000, foi feito um teste com opções de respostas espontâneas. O sociólogo Simon Schwartzman, presidente do instituto na época, afirma que as definições foram tantas que inviabilizaram a mudança.
“A conclusão foi que era melhor ficar com o que tínhamos. Quando você abre a questão, as pessoas dizem ser moreninhas ou cor de jambo, entre tantas outras respostas. A maioria da população não quer ser etiquetada racialmente”, diz.