Arquivos Mensais: agosto \31\UTC 2008

Votar Bem

Representação política não é emprego para ninguém
João Batista de Oliveira Rocha – Advogado
Desta vez, não vou votar em amigo ou em indicação de amigo. Vou votar em candidato de meu bairro, que tenha compromisso com meu bairro, que seja filiado a uma associação de meu bairro e que se disponha a ser fiscalizado e a prestar contas a nós, eleitores. Chega de votar irresponsavelmente, em qualquer um, só porque foi meu colega de escola, trabalhou comigo na repartição, é meu companheiro de clube, foi indicado por um amigo comum, é ou foi meu vizinho. E mais: não vou votar em candidato a vereador porque é radialista, ou apresentador de televisão, ou é padre ou pastor evangélico. Não votar em candidato apenas porque é atleticano, cruzeirense ou americano. Não. Vou votar em quem tem ideais, em quem tem compromissos com a comunidade a que pertence e à qual deve servir. E mais, meu candidato deve ser comprovadamente honesto e ter “ficha limpa”.

Não quero candidato que foi isso mais aquilo. Quero candidato que seja isso e aquilo, isto é, que seja capaz, que seja preparado para o cargo que deseja disputar, que seja honesto, que queira me representar com dignidade e competência. Por que continuar a ser enganado? A maioria absoluta dos candidatos só tem compromissos consigo mesmo. Quer é “tirar o pé da lama”, quer é “encanar a perna”, como se dizia antigamente. Isto é, quer é “se arrumar”. Essa maioria encara o cargo de vereador como um cargo público qualquer, que lhe garante proventos no fim do mês, que lhe permite arranjar empregos para seus parentes ou apaniguados e nada mais. Pouco se importa, depois de eleito, com as promessas que fez e que levaram muitos a votar nele. Não é possível mais continuarmos a ser enganados. Vamos reagir já, nesta eleição.

Vereador tem a ver com a cidade, com o bairro onde você mora. Entre, portanto, em contato com sua associação de bairro. Conheça quem está realmente engajado na luta pela solução dos problemas de seu bairro: segurança, trânsito, obras viárias, obras sociais. Será sempre pessoa mais perto de você, a quem você ou sua associação poderão procurar para cobrar as promessas de campanha, exigir obras que melhorem sua qualidade de vida no bairro. Não vote nos oportunistas. Não vote nos políticos profissionais que pensam que somente eles têm solução para os problemas comunitários. Não vote em quem é político por tradição, passando de pai para filho o direito de representar os cidadãos, quando, quase sempre, só representam seus próprios interesses ou da oligarquia de onde se originam.

Vamos dar um “basta” a este tipo de política. Para isso, a gente começa é de baixo, da eleição mais simples e mais próxima de nós, de nossos interesses, dos bairros em que moramos. Representação política não é emprego para ninguém. É múnus, é tarefa, é encargo, é compromisso com o trabalho para a comunidade. Este tem de ser nosso norte na escolha de nossos candidatos. Ou comecemos agora ou vamos continuar a nos lamentar sempre e ter vergonha dos representantes que temos.

Checar e-mail com muita freqüência pode ser sinal de estresse, diz estudo

Computador e mouse
Estudo analisou hábitos das pessoas de checar e-mails

Um estudo feito por cientistas britânicos afirma que pessoas que checam seus e-mails com muita freqüência podem estar sofrendo de estresse.

O estudo de pesquisadores de universidades da Escócia – um matemático, uma técnica em informática, e um psicólogo – classificou os usuários em três categorias: relaxados, orientados e estressados.

Os “estressados” se sentem pressionados a responder todos os e-mails na medida em que eles chegam e não usam o correio eletrônico como um instrumento útil para a vida pessoal e para o trabalho.

Os “relaxados” olham o e-mail quando bem entendem e não se deixam pressionar por pessoas que estão distantes. Já os “orientados” sentem alguma necessidade de usar o e-mail, sempre respondem às mensagens imediatamente e esperam o mesmo das outras pessoas.

Auto-estima e controle da vida

A pesquisa foi feita com questionários respondidos por 177 pessoas – a maioria em profissões acadêmicas ou que envolvem comunicação e criatividade. Nestas atividades, que em geral requerem bastante concentração, o e-mail tem potencial para ser uma grande fonte de distração.

Entre os entrevistados, 64% disseram checar seus e-mails pelo menos uma vez por hora e 35% afirmaram que olham o correio eletrônico a cada 15 minutos. No entanto, os cientistas acreditam que a freqüência pode ser ainda maior, já que outras pesquisas mostram que muitas pessoas nem percebem mais o ato.

O estudo também analisa a influência que a auto-estima e o controle sobre a própria vida têm nos hábitos de ler e-mails, usando escalas definidas pela psicologia tradicional.

A pesquisa indica que muitas das pessoas que disseram ter pouco controle sobre a própria vida estão na categoria dos “estressados” com e-mail.

Já a baixa auto-estima é uma característica mais presente entre os “orientados”, aqueles que sentem alguma pressão a olhar seus e-mails.

A pesquisa cita outro estudo feito em 2001, que mostra que, após pararem suas atividades para ler um e-mail, as pessoas demoram, em média, 1 minuto e 4 segundos para lembrar o que estavam fazendo.

“Enquanto essa contínua mudança pode parecer benéfica em termos de se conseguir administrar atividades múltiplas, aumentando assim a produtividade, o lado ruim disso é que o ritmo acelerado de trabalho pode ter efeitos negativos na saúde”, diz a pesquisa dos cientistas britânicos.

“Existe muita evidência que esse ritmo acelerado está ligado ao estresse.”

Dignidade humana



por Eduardo Bomfim*

Muito interessante o ensaio, publicado em Carta Maior, do Professor Samuel Pinheiro Guimarães, embaixador e secretário geral do Ministério das Relações Exteriores. O professor Samuel procura explorar questões candentes da atualidade tais como a nação, nacionalismo e o Estado.



Mas o que me chamou a atenção em seu texto é precisamente a abordagem sobre os novos conceitos ideológicos que emergiram, ou tomaram feições mais definidas, no início deste século 21.

Ele afirma que a sociedade atual se caracteriza pela concentração de riqueza e poder, pela transformação tecnológica acelerada, instabilidade social, ansiedade e frustração individual, fundamentalismo religioso, e a fuga da realidade através das drogas pesadas.

Quer dizer, apesar do crescimento econômico as desigualdades sociais não só permanecem, mas avançam, os espetaculares avanços científicos e tecnológicos em todas as atividades humanas não beneficiam as maiorias. Proliferam duvidosos cultos religiosos, tornando-se uma tendência mundial as seitas fundamentalistas, sectárias e agressivas. Nesse quadro de confusão e perplexidade, surge o fenômeno de frustração e ansiedade dos indivíduos como uma síndrome generalizada.

Não é à toa que o jovem e falecido compositor Cazuza, com o seu reconhecido talento, disse: ideologia, eu quero uma para viver. Essa frase transformou-se em um grito de toda uma geração nos recentes anos oitenta do século passado.

Na verdade, não se trata da ausência de crenças, cultura, tradições e instituições na sociedade contemporânea, mas o caráter asfixiante e negativista, destrutivo mesmo, dos valores que compõem a estrutura ideológica dominante, difundida maciçamente através dos oligopólios de comunicação que condicionam os valores da sociedade.

Encontra-se o cidadão médio comum quase que totalmente confuso, perplexo e principalmente conformista, com a nítida sensação de impotência. Como atenuante a tanto desconforto imposto, propaga-se o endeusamento ao corpo, a sociedade do indivíduo como espetáculo. Combatem-se a cultura do saber e do espírito, a luta pelas grandes causas do seu país ou da humanidade. É a difusão da apostasia como forma de viver.

É fundamental compreender que tudo isso é transitório, fruto de uma ideologia insana do lucro. Que é essencial, e possível, lutar por elevadas aspirações humanas, pelo seu país e uma vida digna, plena de justiça social.




*Eduardo Bomfim, Advogado

RENEGADO : A Voz do Morro

Bárbara Dutra/Divulgação
O rapper renegado se apresenta.
Renegado: este nome representa um grito contra os estigmas que costumam associar as periferias à violência. Aos 26 anos, o rapper belo-horizontino, nascido e criado, com orgulho, no Alto Vera Cruz, se orgulha de ter contrariado as estatísticas. “Eu tinha tudo para ter dado errado na vida, mas fui pelo caminho certo”, afirma Renegado, mais conhecido pelo apelido do que pelo nome de batismo, Flávio de Abreu. Desde cedo, o cantor se envolveu com as artes, através, principalmente, das batidas do hip hop. Junto com amigos da comunidade, fundou o grupo NUC – Negros da Unidade Consciente – e a ONG homônima que tem levado aos jovens do bairro a oportunidade de se desenvolver por meio das artes. Agora, ele dá outro passo adiante, com o lançamento de Do Oiapoque a Nova York, seu primeiro disco em carreira solo. Hoje, às 20h, na Serraria Souza Pinto, o rapper apresenta ao vivo o resultado do trabalho, que mistura o rap, gênero nascido nos Estados Unidos, com ritmos legitimamente brasileiros.

No domingo, a partir das 16h, o rapper retribui a força que sua comunidade sempre lhe deu com um evento especial que vai promover no Alto Vera Cruz uma audição exclusiva do álbum, exibição do documentário Freestyle – um estilo de vida e rodas de break. Renegado convidou representantes do samba e até da música cubana para participar do disco.

Mesmo sem ter planejado, Renegado reconhece que virou referência para jovens que têm histórias de vida parecidas com a dele. “Nunca trabalhei para isso, mas a minha trajetória acabou inspirando a molecada. Acho que isso tem a ver com a minha verdade, com a verdade da minha comunidade. São essas coisas que quero passar ”, afirma.

SERVIÇO

RENEGADO
Onde: Serraria Souza Pinto (Avenida Assis Chateaubriand, 809
Quando: Hoje, às 20h
Ingresso: Entrada franca
Informações: 3213-3434

De bois-de-piranha, idiotas úteis, esquerdopatas, comunalha e assemelhados

Às vésperas dos 45 anos do golpe de 1964, e cerca de 23 da redemocratização do país, alguns militares de ultra-direita ainda não entenderam o que se passou no país

Às vésperas dos 45 anos do golpe de 1964, e cerca de 23 da redemocratização do país, alguns militares de ultra-direita ainda não entenderam o que se passou no país

27/08/2008

Editorial ed. 287

Depois do lamentável espetáculo do Clube Militar, na tarde de 7 de agosto, cuja repercussão só serviu para desabonar e expor ao ridículo seus organizadores e partícipes (além, é claro, do ministro da Defesa, doutor Nelson Jobim, que o permitiu), os setores mais renitentes da Reserva das nossas Forças Armadas passam a usar o expediente de uma associação, para prosseguir em suas arengas. Agora, é uma tal de Associação Nacional em Defesa da Democracia (ANDEC) quem surge conclamando as massas para encherem as ruas numa manifestação marcada para setembro, em São Paulo, contra a Impunidade e a Violência no país. De acordo com a entidade, eles aproveitarão “o mote utilisado (sic) para o chamamento às ruas”, e farão “duro discurso contra a desmoralização diuturna das nossas FFAAs” (sic).

O tom e os chavões da convocatória são de fazer inveja aos áureos momentos da guerra fria – tipo Guerra da Coréia ou a Crise dos Mísseis: “Chegamos ao limite do suportável (…) quando vemos a comunalha, enxovalhando e denegrindo nossas instituições, com o firme propósito de fincar essa bandeira desgraçadamente assassina, em solo brasileiro. Não (…) podemos deixar que o povo caminhe com os ouvidos tapados pelas cartilhas esquerdopatas, servindo de idiotas úteis aos interesses da camarilha”.

Há uma dificuldade em aprender com a própria experiência

Às vésperas dos 45 anos do golpe de 1964, e cerca de 23 da redemocratização do país, alguns militares de ultra-direita (especialmente os de pijama) decididamente ainda não entenderam o que se passou no país. O primeiro sintoma, neste sentido, é a idéia de que no pós-ditadura, os que a implantaram, que a geriram e garantiram, continuam “Os Vencedores”.

Nisto há algo de bufão, muito de bazófia e tudo de fanfarronice. Sobretudo quando essa insistente repetição, que soa como disco arranhado em vitrola quebrada, acontece meio à discussão da Lei de Anistia. E mais, da discussão também sobre a punição dos responsáveis pelas torturas, assassinatos e ocultações de cadáveres, durante os anos que aqueles senhores reinaram soltos, cometendo todo tipo de arbítrio e desrespeitos aos direitos humanos.

Seria necessário que esses epígonos do golpismo se dessem conta de que não existem vitórias nem derrotas definitivas. Muitas vezes, ganha-se uma batalha mais ou menos importante aqui, perde-se outra mais adiante.

Senão, como explicar, por exemplo, que são os “eternos vitoriosos” (como se imaginam) que não podem contar em público o que fizeram durante aqueles anos? que são os “eternos vitoriosos” os que morrem de medo que sejam abertos os arquivos da ditadura? que são “os eternos vitoriosos” que não podem erguer a cabeça, e olhar firme, olhos nos olhos dos filhos e netos, quando surgem as verdades sobre o passado?

Esses senhores deveriam, pelo menos, se dar conta de suas palavras e, sobretudo, da sua correspondência ou não à realidade, à objetividade factual, para não descambarem para o cômico, o grotesco – o ridículo, enfim, enxovalhando desse modo as nossas Forças Armadas e sua imagem no país e no exterior.

O vosso tanque, meu general,

É um carro forte (…)

Mas tem um defeito,

precisa de um motorista”

Não se deram conta também, que não basta ter blindados, mísseis e submarinos nucleares e munição capazes de manter seis horas de batalha, para ganhar uma guerra. No caso desses senhores que hoje esperneiam, clamando pelos deuses e ameaçando inauditas vinganças (como se estivessem às vésperas de 64), é indispensável que entendam que, embora importante, não é suficiente ter armas: é necessário ter um programa político que dirija o golpe e, atrás de si, classes, amplos setores sociais organizados – isto é, base social. Talvez alguns deles sequer tenham se dado conta até hoje de que, usando a nova terminologia que acabam de lançar, eles sim, podem ter servido de “idiotas úteis” a um conjunto de classes que, depois de usá-los durante a ditadura (sobretudo para os papéis e tarefas mais sujos), com a redemocratização, esse mesmo conjunto de classes os abandonou à própria sorte, responsabilizando-os por uma “ditadura militar”, expressão que oculta a verdadeira natureza do regime implantado com o golpe, e os expõe (aos militares) enquanto bois-de-piranha, à execração da História.

Ou seja, seria necessário que o atual governo tivesse os inimigos que não tem, tanto em termos internos quanto no plano internacional, para que a nova aventura que parecem querer levar a cabo pudesse dar certo.

Mesmo tendo como ministro da Defesa o senhor Nelson Jobim, o atual governo é suficientemente forte em suas alianças pluriclassistas, para pouco se incomodar com tais arrufos patrioteiros do pessoal do pijama. Mas, apesar disto, não se justifica a decisão do presidente de manter em seu gabinete um ministro que, ao invés de botar ordem em seu Ministério, procura sempre se imiscuir em outras pastas, como um office-boy daqueles que deveria dirigir, em especial nas políticas do Ministério da Justiça e da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH), que têm primado pela defesa intransigente da Constituição e de todo o arcabouço jurídico que conforma a atual República.

Aliás, conviria ao doutor Jobim, sempre de acordo com o que reza a nossa Carta Magna, observar mais o desempenho e a política do senhor Henrique Meirelles (Bank of Boston), frente ao Banco Central. De acordo com a nossa Constituição, além da obrigação de defendê-la, cabe às nossas Forças Armadas defender o país de invasões estrangeiras, garantindo a nossa soberania

Tropa de Elite


Diretor: se conhecesse risco, não faria filme
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Com agência France Presse

“Se soubesse dos riscos que íamos correr, não teria feito o filme”, declarou o diretor brasileiro José Padilha, cujo filme Tropa de Elite, premiado com o Urso de Ouro do Festival de Berlim, estréia na próxima semana na França. Tropa de Elite, que desencadeou desde sua apresentação no Festival de Berlim uma avalanche de polêmicas, narra as violentas ações de homens do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar do Rio de Janeiro (Bope) na luta contra o tráfico de drogas nas favelas da cidade, em contraste com uma polícia regular corrupta.

Ultraviolento e com ritmo vertiginoso, o filme recebeu a maior distinção de um dos principais festivais internacionais e fez um grande sucesso no Brasil, mas sua ambigüidade também suscitou críticas ásperas. A revista Variety o classificou inclusive de “celebração da violência” e de obra “de recrutamento de feras fascistas”. Críticas que o diretor brasileiro rejeita: “Vincular o meu filme ao fascismo é ignorar o sentido dessa palavra. O fascismo é um movimento político totalitário cujo objetivo é controlar o Parlamento, os meios de comunicação, a educação. A Polícia do Rio não tenta controlar tudo, sua violência tem um objetivo totalmente diferente”.

“Meu filme mostra que a violência no Brasil não é o resultado de uma guerra particular entre a Polícia e os líderes do tráfico, como pode ser visto no cinema. Meu filme é entendido como uma provocação porque mostra que toda a sociedade financia o tráfico, inclusive as classes médias quando decidem consumir drogas”, acrescentou.

O diretor mencionou as dificuldades que enfrentou para realizar as filmagens. “É possível rodar em uma favela controlada por traficantes (é o caso de meu filme, como também os de Fernando Meirelles ou Walter Salles) quando eles autorizam. Há duas maneiras de obter essa autorização: ir aos chefes do tráfico ou às associações de moradores”, explicou, acrescentando que a última alternativa “é mais arriscada, mas pode contribuir para reduzir a influência dos traficantes”.

“É preciso tentar usar os moradores nas filmagens, ajudar projetos sociais, mas não dar dinheiro vivo, porque esse dinheiro acabará nos bolsos dos traficantes”: essa foi a opção de Padilha, mas o diretor desaconselha outros a seguir seus passos. “Não recomendo o meu método, já que quatro colegas foram seqüestrados durante as filmagens e nosso material foi roubado. As gravações tiveram que ser interrompidas por duas semanas, e tivemos que encontrar favelas sem tráfico de drogas para continuar rodando”, contou. “Hoje, quando penso no que aconteceu me digo que se soubesse dos riscos que íamos correr não teria feito o filme”, ressaltou.

E tudo não terminou aí. Quando Tropa de Elite foi concluído, o Bope “tentou impedir a sua estréia”, disse. “Tivemos sorte porque a Justiça decidiu rapidamente autorizar a exibição do filme”, afirmou.

O diretor reconhece que o fato de ter sido premiado em Berlim ajudou a distribuição da obra no exterior, porém o mais importante para ele foi receber “o prêmio das mãos de Costa-Gavras”. “Foi simbolicamente muito importante para mim, porque Costa-Gavras é um verdadeiro herói na América Latina, ele compreende o continente, e compreende o filme”, disse.

Corações urbanos

Belo Horizonte recebe na Serraria Souza Pinto a 1ª Bienal Internacional de Grafite

Fotos: Beto Novaes/EM/D.A Press

“O bonito do grafite é poder
expressar o sentimento da
maneira que você
quiser, poder pintar com os
amigos. Alguns têm mensagens
políticas, de protesto. A
minha é: ‘Espalhar amor e
energia positiva no mundo’”

Waleska Nomura (SP)

Quem for amanhã à Serraria Souza Pinho, o amplo espaço cultural situado bem debaixo do viaduto de Santa Tereza, deve se prepara para curtir o que talvez seja a mais contundente mostra de arte já realizada na capital de Minas Gerais, a 1ª Bienal Internacional de Grafite de Belo Horizonte. São dezenas de obras monumentais, vibrantes, de batimento urbano e impactante força visual. Realizadas, basicamente, esta semana, especialmente para o evento, por artistas brasileiros e de outros países. Gente com nomes que parecem de DJs – Hyper, Acme, Lance, Dninja, Trampo entre outros, que pinta tanto sozinha quanto em duplas e equipes. E por diversão – adoram arte como gostam de hip-hop e skate, por sinal, berços também da manifestação que abraçaram. E que, de spray na mão, realizaram uma façanha: levaram a pintura para as ruas, fazendo com que seja de todos a arte que era de poucos.

“É gente de talento, que não vem de elites econômicas, culturais ou religiosas, mas das periferias abandonadas e que, rompendo estruturas acadêmicas, correndo o risco de ser tido como marginal, está fazendo arte com soluções estéticas extremamente novas e com conteúdo ético”, afirma Rui Santana, artista plástico, curador e idealizador da bienal. Há mais de uma década, ele anda às voltas com oficinas e divulgação do pessoal que conheceu por meio do projeto Arena da Cultura. A programação principal é formada por quatro mostras: Módulo histórico, história do grafite desde a pré-história até os dias de hoje; Diálogos híbridos, obras que são produto de parceria entre artistas acadêmicos e grafiteiros; A grande arte, o grafite como arte contemporânea; e Arte de rua, objetos e derivações, grafites sobre carros, camas, máquinas, objetos eletrônicos etc.

O evento reúne artistas do mundo inteiro.

A programação do evento é ampla. Para quem quer conhecer melhor o universo de onde emerge o grafite, Rui Santana recomenda duas palestras: “Arte marginal e nova estética” e “O grafite como identidade do século 20 e 21. E tem, todas os dias, shows com muitos artistas interessantes”, conta Rui Santana.

1º BIENAL INTERNACIONAL DE GRFITE DE BELO HORIZONTE

AMANHÃ, a partir das 16h, na Serraria Souza Pinto, Av. Assis Chateaubriand, 809, Floresta. Até dia 7 de setembro, das 9h à meia-noite. Entrada franca. Informações: www.bigbh.com.br.

SHOWS – Amanhã, 21h, Renegado, Aline Calixto, DJ Spider e VJ Natan; domingo, 18h, Titios do Samba, Julgamento, DJ Yuga/VJ Gtonsegunda; dia 1º/9, 20h30, Negras Ativas, Nós Pega e Faz; dia 2/9, 20h30, Coletivo Dinamite, DejaVuh; dia 3/9, 20h30, Retrato Radical, Quarteirão do Soul; dia 4/9, 20h30, Casa B, LealSoundSystem, VJ Natan; dia 5/9, 20h30, Duelo de MC’s, Black Sonora, VJ Gton; dia 6/0, 21h, Manolos Funk, Júlia Ribas e DJ Renatito, DJ Fausto / VJ Natan; Dia 7/9, 18h, E2, U-Gueto, DJ Alex C/VJ Gton.

SEMINÁRIOS – O novo muralismo e suas abordagens históricas, dia 1º/9; Criatividade, grafite e cidadania, dia 2/9; Grafite, design, publicidade e arquitetura, dia 3/9; Grafite como identidade do século 20 e 21, dia 4/9; Vandalismo, arte marginal ou nova estética?, dia 5/9. Mesas-redondas sempre às 16h.

O coronelismo eletrônico evangélico

por Venicio A. de Lima*

Na Constituinte de 1987-88, ao contrário de todos os outros temas, o capítulo da Comunicação Social só logrou ser “rascunhado” na Comissão de Sistematização e somente ganhou forma definitiva por acordo de plenário. As normas constitucionais finalmente aprovadas sacramentaram bandeiras defendidas por radiodifusores e representantes de igrejas evangélicas, sobretudo no que se refere ao processo de concessão, renovação e cancelamento dos serviços públicos de rádio e televisão.



A ação coordenada dos interesses da “bancada da comunicação” articulada a parlamentares evangélicos está identificada no artigo “Comunicação na Constituinte: a defesa de velhos interesses” [não disponível online], que publiquei no primeiro número do Caderno CEAC/UnB, ainda em agosto de 1987. Àquela época, no entanto, não estava claro que a Constituinte viria a se constituir no ponto de referência para a atuação e o crescimento de representantes das igrejas evangélicas no Congresso Nacional e, sobretudo, para o avanço significativo de diferentes denominações evangélicas como concessionárias de emissoras de rádio e televisão no país.

A participação de igrejas no sistema de comunicações e na política vem, gradativamente, merecendo a atenção de analistas e pesquisadores. A tese de doutorado defendida há pouco no Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) pelo cientista político Valdemar Figueredo Filho, com o título “Os três poderes das redes de comunicação evangélicas: simbólico, econômico e político”, é mais uma contribuição ao entendimento de parte importante das relações entre religião e mídia no nosso país.

O argumento principal do trabalho de Figueredo Filho é que “a representação política evangélica é o mesmo que representação das redes de comunicação evangélicas” e “nem mesmo os supostos valores morais comuns ao grupo religioso conseguem o grau de coesão alcançados pelos interesses relacionados à formação, manutenção e expansão de suas redes de comunicação”. No contexto legal que regula a concessão, renovação e o cancelamento dos serviços públicos de rádio e televisão no Brasil, isso significa a manutenção de um tipo particular de coronelismo eletrônico, agora o evangélico.

Bases do coronelismo eletrônico evangélico

A representação evangélica no Congresso Nacional (ver Quadro 1) tem aumentado na medida em que também aumenta o percentual de evangélicos no total da população brasileira. Dados apresentados por Figueredo Filho para o ano de 2000 indicam que esse percentual já atingia 15,6% contra apenas 9%, em 1990. Em relação à representação política, no entanto, há uma diferença fundamental. Se até o fim da década de 1980 ela era composta, sobretudo, por usuários do rádio e da televisão (a chamada “igreja eletrônica”), a partir de então ela passou a ser principalmente de concessionários deste serviço público.

O levantamento realizado por Figueredo Filho, apoiado em informações da Anatel e da Abert, até março de 2006 revela que 25,18% das emissoras de rádio FM e 20,55% das AM nas capitais brasileiras são evangélicas (ver Quadros 2 e 3). Há de se notar, no entanto, que as denominações pentecostais são as que controlam o maior número de concessões, destacando-se a Igreja Universal do reino de Deus (IURD) entre as FM (24) e da Igreja Assembléia de Deus (IAD) entre as AM (9).

Em relação à televisão, além do grande número de programas evangélicos que é transmitido por emissoras de TV abertas, existem também redes cujas entidades concessionários são igrejas. E, sobretudo, existe um grande número de retransmissoras (RTVs) controladas diretamente por igrejas (Quadro 4, com dados anteriores a setembro de 2007).

A criação de uma Frente Parlamentar Evangélica (FPE), em 2003, formaliza a articulação dos interesses evangélicos no Congresso Nacional. Estes são defendidos através da participação de seus membros nas comissões de Comunicação tanto na Câmara quanto no Senado e nas votações das proposições legislativas em plenário.

Fundada por iniciativa do deputado Adelor Vieira (PMDB-SC), membro da IAD, a FPE é atualmente presidia pelo deputado pastor Manoel Ferreira (PTB-RJ), principal líder da IAD da Convenção Madureira. O Quadro 5, organizado por Figueredo Filho, mostra a composição atual da FPE.

Serviço público ou proselitismo religioso?

A tese de Figueredo Filho demonstra que, a exemplo do que ocorre também em relação às outorgas de rádios comunitárias [ver, neste Observatório, “Rádio comunitárias – Coronelismo eletrônico de novo tipo”], número expressivo das concessionárias das emissoras de rádio e televisão (aberta) e RTVs está vinculado a entidades religiosas. E mais ainda: seus representantes são atores políticos que atuam de forma articulada no Congresso Nacional nas questões referentes às políticas públicas de comunicação e na formação, manutenção e ampliação da suas redes de rádio e televisão.

Obviamente os evangélicos não são o único grupo religioso concessionário do serviço público de radiodifusão. E a utilização de concessões públicas não é a única forma de atuação de grupos religiosos na mídia.

A questão que precisa ser discutida, no entanto, é se um serviço público que, por sua própria natureza, deve estar “a serviço” de toda a população pode continuar a atender interesses particulares de qualquer natureza – inclusive ou, sobretudo, religiosos.




*Venicio A. de Lima, Pesquisador sênior do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade de Brasília. Autor/organizador, entre outros, de ”A mídia nas eleições de 2006” Editora Fundação Perseu Abramo – 2007

Primeira Bienal Internacional De Grafite de BH

Arte viva


Começa amanhã na Serraria Souza Pinto a 1ª Bienal Internacional de Grafite de Belo Horizonte. Evento reúne artistas brasileiros e estrangeiros, em programação que inclui shows e seminários
Walter Sebastião
Beto Novaes/EM/D.A Press
O artista Marcelo Gud em ação: trabalhos monumentais fazem parte das mostras da Bienal de Grafite
Quem for amanhã à Serraria Souza Pinho, o amplo espaço cultural situado bem debaixo do Viaduto de Santa Teresa, prepare-se para curtir o que talvez seja a mais contundente mostra de arte já realizada na capital de Minas Gerais, a 1ª Bienal Internacional de Grafite de Belo Horizonte. São dezenas de obras monumentais, vibrantes, de batimento urbano e impactante força visual. Realizadas, basicamente, esta semana, especialmente para o evento, por artistas brasileiros e de outros países. Gente com nomes que parecem de DJs – Hyper, Acme, Lance, Dninja, Trampo, entre outros, que pinta tanto sozinha quanto em duplas e equipes. E por diversão – adoram arte como gostam de hip-hop e skate, por sinal, berços também da manifestação que abraçaram. E que, de spray na mão, realizaram uma façanha: levaram a pintura para as ruas, fazendo com que seja de todos a arte que era de poucos.

É gente de talento, que não vem de elites econômicas, culturais ou religiosas, mas das periferias abandonadas e que, rompendo estruturas acadêmicas, correndo o risco de ser tida como marginal, está fazendo arte com soluções estéticas extremamente novas e com conteúdo ético”, afirma Rui Santana, artista plástico, curador e idealizador da bienal. Há mais de uma década ele anda às voltas com oficinas e divulgação do pessoal que conheceu por meio do projeto Arena da Cultura. A programação principal é formada por quatro mostras: Módulo histórico, história do grafite desde a pré-história até os dias de hoje; Diálogos híbridos, obras que são produto de parceria entre artistas acadêmicos e grafiteiros; A grande arte, o grafite como arte contemporânea; e Arte de rua, objetos e derivações, grafites sobre carros, camas, máquinas, objetos eletrônicos etc.

A programação do evento é ampla. Para quem quer conhecer melhor o universo de onde emerge o grafite, Rui Santana, recomenda duas palestras: “Arte marginal e nova estética” e “O grafite como identidade dos séculos 20 e 21”. Ambas parte de seminário cujo tema são as relações entre grafite, criatividade e cidadania. “E tem, todas os dias, shows com muitos artistas interessantes. É nosso desejo ampliar o diálogo do grafite com outras linguagens”, conta Rui Santana, brincando que se trata praticamente de festival paralelo ao evento.

Para o curador, o que está explícito ou implícito no grafite são questões não discutidas do cotidiano: “A desumanidade da nossa sociedade, os dramas do abandono, o descaso com a autopreservação, a necessidade de consciência ecológica planetária, questões que foram colocadas diretamente na rua, sem pedido de autorização a ninguém”. E vai além: “O grafite é o primeiro movimento mundial da história da arte. Ele tem dimensão planetária, porque vem movido por grande força criativa”. Rui identifica neste elemento a energia que vaza todas as barreiras. Trata-se, segundo ele, de proposta que praticamente promove o renascimento da pintura depois do hiato criado pela ênfase da produção recente em instalações e na arte conceitual.

“É algo muito original”, avisa. E que introduz nova técnica (o uso do spray), rompe com suporte tradicional (a tela) e trabalha em escalas urbana. “É prática que dialoga com as vanguardas, com a modernidade, carregada de flashes de vários movimentos artísticos”, completa, citando, como exemplo, a pop-art, o expressionismo, o abstracionismo, o futurismo e o hiper-realismo. O hábito de criações em equipe é “quase contramão do individualismo”, praticado por gente que cresceu e adora computadores.

DIVERSIDADE

O paulista Binho Ribeiro tem 37 anos, 24 deles dedicados ao grafite. É também curador da bienal. Já grafitou em vários países, edita revista especializada sobre o assunto, e tem grife de roupas chamada 3º Mundo. Como ele explica, na seleção dos participantes priorizou-se a diversidade de estilos e representação geograficamente ampla. Valorizaram-se, ainda, lideranças regionais do movimento, de modo que possam levar a experiência mineira para onde atuam. “A Bienal de Grafite é oportunidade de ver, num único lugar, arte que existe por toda a cidade. E de conhecer os artistas”, acrescenta. Com relação à produção brasileira, conta que ela tem “improviso, liberdade de técnicas e estilos próprios”, elementos que chamam a atenção de olhares estrangeiros. O futuro do grafite? “Crescer, conquistando mais e novos espaços. E respeito de adolescentes que descobrem a função pessoal e social da arte”, conclui.

“A Bienal é demarcação do território e dos valores da arte urbana e do grafite e reunião de várias culturas. É oportunidade de a sociedade conhecer melhor o que fazemos. O grafite talvez seja a última manifestação expressiva da arte contemporânea. É arte bonita de ser vista. Vai ser, ainda, oportunidade de conhecer os grafiteiros, que são artistas meio invisíveis, já que ninguém os vê pintando”.
Lance e Rivas (DF)

“A importância da Bienal é reunir grafiteiros de todas as partes do Brasil, criando oportunidade de nos conhecermos e lutar pela nossa arte. O bonito do grafite é poder expressar o sentimento da maneira que você quiser, poder pintar com os amigos. Alguns têm mensagens políticas, de protesto. A minha é: ‘Espalhar amor e energia positiva no mundo’”.
Waleska Nomura (SP)

1ª BIENAL INTERNACIONAL DE GRAFITE DE BELO HORIZONTE

Amanhã, a partir das 16h, na Serraria Souza Pinto, Av. Assis Chateaubriand, 809, Floresta. Até dia 7 de setembro, das 9h à meia-noite. Entrada franca. Informações: www.bigbh.com.br.

SHOWS

Amanhã, 21h, Renegado, Aline Calixto, DJ Spider e VJ Natan; domingo, 18h, Titios do Samba, Julgamento, DJ Yuga/VJ Gtonsegunda; dia 1º/9, 20h30, Negras Ativas, Nós Pega e Faz; dia 2/9, 20h30, Coletivo Dinamite, DejaVuh; dia 3/9, 20h30, Retrato Radical, Quarteirão do Soul; dia 4/9, 20h30, Casa B, LealSoundSystem, VJ Natan; dia 5/9, 20h30, Duelo de MC’s, Black Sonora, VJ Gton; dia 6/0, 21h, Manolos Funk, Júlia Ribas e DJ Renatito, DJ Fausto / VJ Natan; Dia 7/9, 18h, E2, U-Gueto, DJ Alex C/VJ Gton.

SEMINÁRIOS

O novo muralismo e suas abordagens históricas, dia 1º/9; Criatividade, grafite e cidadania, dia 2/9; Grafite, design, publicidade e arquitetura, dia 3/9; Grafite como identidade dos séculos 20 e 21, dia 4/9; Vandalismo, arte marginal ou nova estética?, dia 5/9. Mesas-redondas sempre às 16h.

Discurso Pronunciado por Martin Luther King em 28 de agosto de 1963

Pablo Martinez/AP-22/8/03
“Estou feliz de estar com vocês neste dia que entrará para a história como a maior demonstração pela liberdade na história de nossa nação.

Cem anos atrás, um grande americano, sob cuja simbólica sombra estamos hoje, assinou a Proclamação de Emancipação. Esse importante decreto veio como uma luz de esperança para milhões de escravos negros que haviam sofrido nas chamas da injustiça. Um decreto que veio como a alvorada de uma longa noite do cativeiro em que padeciam.

Cem anos se passaram e o negro ainda não é livre. Cem anos depois, a vida do negro ainda é tristemente paralisada pelas algemas da segregação e as cadeias da discriminação. Cem anos depois, o negro vive solitário em uma ilha de pobreza em meio a um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o negro ainda desfalece à margem da sociedade americana e se encontra exilado na sua própria terra. Desse modo, estamos aqui para expor essa vergonhosa condição.

De certo modo, viemos à capital de nossa nação para cobrar uma dívida. Quando os arquitetos de nossa república escreveram as magníficas palavras da Constituição e a Declaração da Independência, estavam assinando uma promissória da qual todo americano seria herdeiro. Essa nota era uma promessa de que todos os homens, sim, os homens negros, bem como os homens brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis de vida, liberdade e a busca da felicidade.

Hoje, é óbvio que aquela América não apresentou essa nota promissória. Em vez de honrar a obrigação sagrada, a América deu para o povo negro um cheque sem fundo, um cheque que voltou estampado com a expressão “saldo insuficiente”. Mas nós nos recusamos a acreditar que o banco da justiça está falido. Nos recusamos a acreditar que não haja capital suficiente no cofre de oportunidades desta nação. Assim, viemos trocar este cheque, um cheque que nos dará o direito de reclamar as riquezas de liberdade e a segurança da justiça. Também viemos a este lugar sagrado para recordar a América dessa cruel e atual urgência. Este não é o momento para descansar no luxo refrescante ou engolir o remédio tranqüilizante do gradualismo. Agora, é o tempo de transformar em realidade as promessas de democracia. Agora, é o tempo de deixar o escuro e desolado vale da segregação rumo ao ensolarado caminho da justiça social. Agora é o tempo de erguer nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade. Agora é o tempo de fazer da justiça uma realidade para todos os filhos de Deus.

Seria fatal para a nação negligenciar a urgência do momento. Este verão sufocante do descontentamento legítimo dos negros não passará até termos um outono renovador de liberdade e igualdade. Este ano de 1963 não é um fim, mas um começo. Os que acreditam que o negro precisava de alívio e agora está contente terão um despertar incômodo se a nação continuar agindo da maneira como sempre se comportou. Não haverá descanso nem tranqüilidade até que o negro obtenha seus direitos de cidadania. Os ventos da revolta continuarão a sacudir as fundações da nossa nação até que nasça o brilhante dia da justiça.

Mas há algo que preciso dizer ao meu povo que se encontra na entrada do palácio da justiça. No processo de conquistar nosso lugar legítimo, não devemos ser culpados de erros que foram cometidos. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da taça da amargura e do ódio.

Sempre temos de conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física. Novamente, temos de subir às majestosas alturas para reunir força física com a força da alma. A maravilhosa nova militância que envolveu a comunidade negra não deve nos levar a desconfiar de todas as pessoas brancas, porque muitos de nossos irmãos brancos, como podemos comprovar pela presença deles aqui, percebem que o destino deles está atado ao nosso destino. Eles percebem que a liberdade deles está inextrincavelmente ligada à nossa liberdade. Nós não podemos caminhar só.

Enquanto caminhamos, devemos assegurar que sempre marcharemos à frente. Não podemos retroceder. Há os que perguntam aos combatentes pelos direitos civis: “Quando é que vocês estarão satisfeitos?” Não estaremos nunca satisfeitos enquanto o negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Não estaremos nunca satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não puderem ter uma cama nos hotéis das estradas e das cidades. Não estaremos nunca satisfeitos enquanto a mobilidade básica do negro for de um gueto menor para um maior. Não estaremos nunca satisfeitos enquanto for negada auto-estima às nossas crianças e sua dignidade roubada por placas dizendo “Somente para brancos”. Não estaremos nunca satisfeitos enquanto um negro do Mississipi não puder votar e um negro em Nova York acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão corram abaixo como águas de uma poderosa correnteza.

Eu não desconheço que alguns de vocês vieram até aqui depois de grandes provações e sofrimentos. Alguns de você saíram há pouco tempo de celas apertadas das prisões. Alguns de vocês vieram de áreas onde a busca pela liberdade lhes deixaram marcas das tempestades das perseguições e dos ventos de brutalidade policial. Vocês são veteranos do sofrimento. Continuem trabalhando com a fé de que sofrimento imerecido é redentor. Voltem para o Mississippi, voltem para o Alabama, voltem para a Carolina do Sul, voltem para a Geórgia, voltem para Louisiana, voltem para as favelas e guetos de nossas cidades do Norte, sabendo que de alguma maneira esta situação pode e será mudada. Não se deixem cair no vale de desespero.

Hoje digo a vocês, meus amigos, que embora nós enfrentemos as dificuldades atuais e de amanhã, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano.

Eu tenho um sonho de que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença – nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos: que os homens nascem iguais.

Eu tenho um sonho de que um dia nas colinas vermelhas da Geórgia os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos desdentes dos donos de escravos poderão se sentar juntos à mesa da fraternidade.

Eu tenho um sonho de que um dia, até mesmo no estado de Mississippi, um estado que transpira com o calor da injustiça, com o calor da opressão, será transformado em um oásis de liberdade e justiça.

Eu tenho um sonho de que meus quatro pequenos filhos vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.

Eu hoje tenho um sonho!

Eu tenho um sonho de que um dia, no Alabama, com seus racistas perversos, com seu governador de cujos lábios escorrem palavras de intromissão e negação; um dia nesse mesmo Alabama, meninos negros e meninas negras poderão dar as mãos com meninos brancos e meninas brancas, como irmãs e irmãos.

Eu hoje tenho um sonho!

Eu tenho um sonho de que um dia todo vale será exaltado e todas as colinas e montanhas virão abaixo, os lugares acidentados serão aplainados, os lugares tortuosos, endireitados, e a glória do Senhor será revelada e todos nós estaremos juntos.

Esta é nossa esperança. Esta é a fé com que volto para o Sul. Com esta fé poderemos extrair da montanha do desespero uma pedra de esperança. Com esta fé poderemos transformar as discórdias estridentes de nossa nação em uma bela sinfonia de fraternidade. Com esta fé poderemos trabalhar juntos, rezar juntos, lutar juntos, ir para a cadeia juntos, defender a liberdade juntos, sabendo que seremos livres um dia.

Este será o dia em que todas as crianças de Deus poderão cantar com um novo significado.

‘Meu país, doce terra de liberdade, eu te canto.

Terra onde meus pais morreram, terra do orgulho dos peregrinos,

De qualquer lado da montanha, deixe a liberdade soar!’

E se a América é uma grande nação, isto tem de se tornar verdadeiro.

Então, deixem a liberdade soar do topo da montanha de New Hampshire.

Então, deixem a liberdade soar das poderosas montanhas de Nova York.

Então, deixem a liberdade soar das alturas dos Alleghenies da Pennsylvania!

Então, deixem a liberdade soar das montanhas rochosas cobertas de neve do Colorado!

Então, deixem a liberdade soar das ladeiras curvas da Califórnia!

Mas não é só isso. Então, deixem a liberdade soar da Stone Mountain da Geórgia!

Então, deixem a liberdade soar das montanhas do Tennessee.

Então, deixem a liberdade soar em todas as colinas do Mississipi. Em todas as montanhas, deixem a liberdade soar.

E quando isto acontecer, quando permitirmos a liberdade soar, quando deixarmos ela soar em todas as casas e vilarejos, em todo os estados e cidades, poderemos acelerar o dia em que todos os filhos de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar as mãos e cantar as palavras do antigo hino negro:

‘Enfim livres, enfim livres.

Agradeço ao Deus todo-poderoso, afinal somos livres.’

Íntegra do discurso pronunciado por Martin Luther King em 28 de agosto de 1963

Injustiça social mata pessoas’, diz OMS

Qualidade de vida
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Relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) concluiu que fatores sociais são os grandes responsáveis por variações severas de saúde e expectativa de vida das populações. Após três anos de investigações sobre as “determinantes sociais” da saúde, os especialistas concluíram que “injustiça social está matando pessoas em grande escala”.

Mostras disso seriam as diferentes expectativas de vida de habitantes de regiões próximas fisicamente, porém distantes economicamente. Um exemplo: espera-se que um garoto dos subúrbios de Londres viva 11 anos a menos do que um menino da mesma idade de um bairro nobre. Outra expectativa retirada da pesquisa: uma menina de Losotho, na África, deve viver 42 anos menos do que uma japonesa. Ou ainda: a chance de uma mulher morrer durante a gravidez ou parto é de 1 em 17.400 na Suécia e 1 em 8 no Afeganistão.

Os especialistas da OMS concluíram que, em quase todos os países, circunstâncias pobres equivalem a condições de saúde ruins. As diferenças encontradas foram tão marcantes que fatores genéticos e biológicos foram descartados, pois não poderiam explicar a relação.

“A combinação nociva de práticas, economias e políticas ruins é, em grande medida, responsável pelo fato da maioria das pessoas no mundo não gozarem de boa saúde”, afirma o estudo. O texto diz ainda que seria possível reverter o quadro em um período relativamente curto, bastando para isso que seriam necessárias correções severas.

“A mensagem central do relatório é que as circunstâncias em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem são fundamentais para a saúde”, comentou Michael Marmot, coordenador da Comissão de Determinantes Sociais da Saúde, da OMS, segundo reportagem da rede britânica BBC publicada nesta quinta-feira. “Temos apostado demais em intervenções médicas como forma de aumentar a expectativa de vida. Uma maneira mais eficiente de tratar disso seria fazer do acesso igualitário à saúde um parâmetro para a avaliação dos governos”.

O relatório aponta algumas questões-chave para combater o problema. Entre elas, estão educação, moradia, alimentação e seguridade social. Ele também diz que os governos deveriam garantir um rendimento mínimo necessário à sobrevivência de seus cidadãos.

Cinema : Sem Deixar a Bola Cair

Em Linha de passe, dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, a realidade brasileira é sintetizada a partir da história de uma família da periferia da cidade de São Paulo
Sérgio Rodrigo Reis
Primeiro Plano/Reuters
A brasileira Sandra Corveloni, com trajetória conhecida no teatro, foi escolhida melhor atriz em Cannes

O cineasta Walter Salles tem uma teoria para explicar o Brasil que a diretora Daniella Thomas sempre repete: “No Brasil, a ficção tem que correr atrás, porque a realidade é inacreditável”. O filme Linha de passe, que repete a dobradinha dos dois na direção depois de produções como Terra estrangeira, ilustra bem a velha máxima. Por trás da história da uma família da periferia que tenta reinventar o próprio destino, a realidade nua e crua da metrópole se apresenta. Numa São Paulo de 19 milhões de habitantes, quatro irmãos buscam formas de sobrevivência à falta de perspectiva na vida. No centro de tudo está a empregada doméstica Cleusa (Sandra Corveloni), a matriarca que luta para mantê-los na linha. “A idéia central em Linha de passe é de que a bola não pode cair”, resume a diretora. Há outras variáveis em questão.

A intenção, desde o início do projeto, foi levar o espectador a acreditar que aquela família existe fora da tela. “Queríamos que as pessoas entrassem no filme de cara. Daí a opção por atores desconhecidos. Encaramos o processo com ajuda da Fátima Toledo (preparadora de atores)”, diz a cineasta. Os escolhidos passaram por quatro meses de treinamento para encontrar um tom mais natural para a narrativa. “É um filme que fala do cotidiano, algo difícil de realizar. Narrar essas situações exige simplicidade e profundidade. Não pode ser dramático, melodramático ou vazio. Foi um trabalho minucioso, quase um bordado”, compara a atriz Sandra Corveloni, escolhida como melhor atriz no último Festival de Cannes por esta atuação. O papel representou um desafio.

Sandra conquistou o personagem no início do processo de seleção. Sonho antigo da atriz, que até estrear no cinema tinha história bem-sucedida no teatro paulista. “Às vezes me pegava antes de dormir imaginando um dia fazer um filme que falasse da minha terra e fosse feito com gente bacana.” O projeto veio sob medida quando uma amiga realizou os testes e achou que Sandra poderia representar Cleusa, o eixo moral do filme. Não foi fácil o desafio. “No início, agia como se fosse irmã e, aos poucos, fui construindo essa mãe, me impondo a eles e fazendo-os acreditar em minha autoridade. Foi duro. Mas ninguém economizou nada.” O que arrebatou os críticos do mundo inteiro em Cannes, onde conquistou este ano o prêmio de melhor atriz, para ela, foi a entrega à personagem. “Esse mergulho apareceu. Sou protagonista tanto quando meus quatro filhos e a cidade de São Paulo. A Cleusa representa milhões de pessoas invisíveis que vivem nas grandes cidades.”

O que mais impressionou a equipe de filmagem em Cannes foi como os estrangeiros foram fisgados nos primeiros dois minutos de projeção e só largaram depois dos créditos. “Houve gente que disse que colocamos uma câmera escondida na vida daquela família”, cita Daniella. A afinidade com Walter Salles foi crucial para este resultado. “A escrita do cinema não parece complexa. Mas exige uma língua muito própria para que, quando o espectador assistir ao resultado na tela, pareça algo natural. O Walter é um exímio falador deste ‘cinemês’.” Ao contrário das parcerias anteriores, em que era possível observar as contribuições individuais ao processo, em Linha de passe o resultado é bastante orgânico. “Senti-me bem mais à vontade neste projeto. Chegamos num ponto que nos comunicamos de maneira sutil. Só com o olhar”, conclui a cineasta Daniela Thomas.

“Narrar situações cotidianas exige simplicidade e profundidade. Não pode ser dramático, melodramático ou vazio. Foi um trabalho minucioso, quase um bordado”

Sandra Corveloni, atriz

Grafite : Do protesto à profissionalização

Glória Tupinambás
Euler Júnior/EM/D.A Press
Daniel do Carmo busca na especialização uma forma de se destacar na profissão e aprofundar conhecimentos

Tubos de spray, pincéis e tintas a óleo pintam os muros de Belo Horizonte e desenham um novo cenário no mundo acadêmico e no mercado de trabalho. O grafite, antes apenas arte de protesto das periferias e genuína expressão do movimento hip hop, aos poucos se transforma em objeto de estudo em cursos de educação artística em universidades públicas e privadas. Como profissão, a manifestação cultural já demarcou seu espaço e hoje é meio de sustento de uma legião de jovens. Essa nova realidade vai estar estampada em painéis e telas da 1ª Bienal Internacional de Grafite, que promete agitar a capital a partir desta semana.

As artes plásticas e visuais estão na lista de cursos de graduação oferecidos em cinco universidades públicas de Minas. A crescente procura pela área se reflete nos números da maior instituição federal de ensino do estado, a UFMG. A relação candidato/vaga no vestibular 2008 para artes visuais teve um aumento de 45% em relação ao ano passado, chegando a 9,24 alunos na disputa por uma cadeira. A Escola Guignard, ligada à Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg), oferece o maior leque de opções para os interessados, que podem escolher entre bacharelados e licenciaturas em artes visuais e plásticas e educação artística.

Dono de exuberantes figuras que hoje enchem de cor a paisagem da capital, Warley Fabiano Santos, de 25 anos, mais conhecido como Warley Bombi, cultiva a paixão pelo desenho desde criança. “Rabiscava as paredes de casa e deixava minha marca por todas as partes. Há nove anos, o grafite me chamou a atenção e, hoje, não vejo outra trajetória de vida senão a arte”, diz Bombi, aluno do 6º período de educação artística da Escola Guignard.

O talento do jovem poderá ser visto em duas exposições durante a 1ª Bienal Internacional de Grafite, a Grande Arte e a Diálogos. Nas telas, ele pretende dar vida ao trabalho que desenvolve com jovens carentes da organização não-governamental Associação Imagem Comunitária (AIC). “Sou um multiplicador da arte e isso é importante para que eu tenha o reconhecimento da minha família. Sou de origem pobre, filho de pessoas que não têm contato com arte, com galerias, e ter um retorno financeiro do meu trabalho é fundamental”, conta Warley, que também participa do Observatório da Juventude da UFMG.

Euler Júnior/EM/D.A Press
Estudante da Guignard, Warley Santos sempre foi apaixonado pelo desenho e hoje não vê sua vida sem a arte

Daniel do Carmo, o Ovlha, de 27, também pretende alçar grandes vôos com o grafite. Formado em artes plásticas pela Escola Guignard, ele agora se dedica à pós-graduação em história da cultura e da arte na UFMG. “Sempre gostei de pintura e desenho, mas, há dois anos, aprendi a usar o grafite nas artes. Tenho buscado formação acadêmica na área para desenvolver meu talento e agora a arte é minha profissão. Conclui a graduação em dezembro, comecei a trabalhar em janeiro e já tenho meu carro e minha independência financeira”, diz Ovlha, que também é professor do projeto Arena da Cultura, da Prefeitura de BH.

HISTÓRIA O grafite, arte marginal que nasceu na Europa, teve seus primeiros registros no Brasil na década de 1970. E, na última semana, a manifestação ganhou um novo status: a Câmara dos Deputados aprovou projeto de lei que trata da descriminalização do grafite. O texto diferencia pichação de grafitagem, que valorizaria o patrimônio público e privado desde que autorizado pelo proprietário do imóvel.

“A arte contemporânea reconhece o grafite como autêntico e o fenômeno está presente nas grandes e pequenas cidades. Os artistas são o espelho de seu tempo e esse movimento não vem de uma elite econômica, cultural e política, mas das periferias. A grande mudança é que a sociedade vai olhar de maneira diferenciada para essa manifestação, carregada de sopros de liberdade e de originalidade. O grafiteiro tem que buscar formação profissional e o mercado absorver esses profissionais é um reconhecimento do valor dessa linguagem”, afirma o artista plástico e professor universitário Rui Santana, que também é o idealizador e coordenador-geral da bienal.

BIENAL Grafiteiros dos quatro cantos do Brasil e de outros seis países da Europa, África, Ásia e América do Norte, vão se reunir em BH, de 30 de agosto a 7 de setembro, para participar da 1ª Bienal Internacional de Grafite. Ao todo, 120 artistas e 190 DJs vão participar de quatro exposições, seminários, oficinas e intervenções urbanas. O evento terá entrada franca das 9h à meia-noite, na Serraria Souza Pinto, na Avenida Assis Chateaubriand, 809, no Bairro Floresta, na Região Leste da capital. Informações no http://www.bigbh.com.br

ONDE CURSAR

Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) artes visuais
Universidade do Estado de Minas Gerais (Uemg) artes visuais, artes plásticas e educação artística
Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) núcleos de arte; ofícios; e conservação e restauração
Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) artes visuais
Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) – artes

Olho no olho, a nova lição


JÚNIA CARVALHO

Jornalista e professora de ética
em comunicação da PUC Minas

De um lado, a riqueza encastelada nos salões e quartos de poucos. De outro, a miséria, que guarda becos e ruelas de guetos e favelas.

Numa ponta, governos que prometem fazer a justiça e a igualdade sair do dicionário.

Na outra, cidadãos atônitos e calados, que prosseguem descrentes das palavras e seus resultados. O apelo medieval da cena pula os séculos e se instaura confortavelmente no Brasil do segundo milênio.

No início da década passada, um termo ganhou fôlego na economia que, como maestro experiente, rege a suposta harmonia do mundo desenvolvido: responsabilidade social.

O conceito veio a galope até a estação do trem-bala, mas com dificuldade percebeu que era necessário descer em cada parada e, por isso, viajar rapidamente tornava-se improdutivo.

É que as pessoas eram ao mesmo tempo fim e meio. Portanto, seria preciso olhar nos olhos delas.

Batizada solenemente, a responsabilidade social guardou distância do primo pobre: o assistencialismo. Ele dava o peixe, ela ensinava a pescar. O chavão se espalhou e todo mundo achou que tinha entendido. O que quase ninguém percebeu é que toda responsabilidade é social e toda sociedade, para se constituir como tal, carece da prática da responsabilidade.

Então, por que responsabilidade social significa somente a adoção de projetos e ações pelas forças econômicas para minimizar flagelos que, como parte da sociedade, ela ajuda a alimentar? Responsabilidade é tarefa de todos, por todo o tempo.

O século XXI trouxe mais um termo que ajuda a compreender o movimento da iniciativa privada para avançar na evolução que o mercado determina: a sustentabilidade.

Por meio dela, a produção de riquezas se dará sem comprometer a capacidade das futuras gerações de também criar novos bens, considerando-se o respeito aos aspectos econômicos, sociais e ambientais.

Difícil falar de objetivos tão amplos e estratégicos sem falar de comunicação.

Até porque, atrás e na frente das fileiras do desenvolvimento sustentável, estão as pessoas que podem fazê-lo acontecer e que são as mesmas que dele irão se beneficiar.

E o negócio da comunicação é gente e suas relações com o mundo.

Empresas são feitas por pessoas. Esse potencial humano é muito mais do que a velha mão-de-obra, cujos braços faziam o que o seu mestre mandou. Independentemente do nível hierárquico, a ordem é participar. Para isso, é preciso conhecer. Qual o caminho a seguir?

Que importância tem o trabalho de cada um?

Por que valores são importantes?

Onde queremos chegar? Um dos reflexos dessa abertura, cujo território concentra a alma da comunicação, é a humanização das relações internas, primeiro passo para atuar responsavelmente. Empregados provam que santo de casa faz milagre.

Da porta pra fora, a complexidade se multiplica. Se do lado de dentro, a empresa é quem deve dizer a que veio, na comunidade, os olhos e ouvidos ocupam o lugar da boca.

Ainda assim, ver e ouvir não são suficientes.

A demanda colhida num grupo pode justificar a troca de uma bica por uma torneira de última geração. Se sim, o que fazer de uma tradição que veio dos antigos? Será que ela vai embora com a água que jorra mais depressa?

A garantia de não explorar dentro de uma propriedade rural pode representar o apoio do proprietário. Mas no interior, diferentemente das capitais, prevalece a proximidade da vista em detrimento da informação. Ali, preservar o espaço de um, não faz crer que se vá preservar o dos outros. E isso incomoda. Com essa retórica, não se faz aliados. A proximidade traz clareza e esta revela que o visitante não é da cozinha. Mal para as empresas, cuja maior conquista hoje é a confiança.

A comunicação caminha de braços dados com a observação e a releitura permanente de cenários. Por isso é companheira da responsabilidade social e da sustentabilidade.

Em certas instâncias, a evolução tecnológica é importante como meio. Mas nem de longe é o essencial. Da velha guarda vem a nova lição: resgatar o olho no olho, porque até agora nada provou tão bem que o diálogo é a porta para apurar com sensibilidade.

O crime de embriaguez e a Lei 11.705/08

A existência do crime depende de um resultado, identificado como a lesão ou perigo ao bem juridicamente tutelado


José Arthur di Spirito Kalil
, Advogado criminalista, diretor do Instituto de Ciências Penais e doutorando em Direito pela UFMG

A Lei 11.705/08, como se sabe, promoveu mudança na disciplina do crime de embriaguez ao volante, que agora é assim tipificado: “Art. 306 – Conduzir veículo automotor, na via pública, estando com concentração de álcool por litro de sangue igual ou superior a 6 (seis) decigramas, ou sob a influência de qualquer outra substância psicoativa que determine dependência”.

Fazendo-se cotejo entre a modalidade revogada e a atual, verifica-se que foi suprimida a expressão “expondo a dano potencial a incolumidade de outrem”. Nota-se também que foi substituída a fórmula da direção “sob influência de álcool” pela comprovação da concentração de álcool no sangue em quantidade igual ou superior a 6dg/l.

A imediata conclusão a que se chega a partir das alterações típicas é a de que o crime em apreço deixa de ser classificado como de “perigo concreto”, para incluir-se no rol dos crimes de “perigo abstrato”. Nessa última modalidade, o perigo ao bem jurídico é presumido a partir da prática da conduta ali incriminada. Assim, à primeira vista, constatado o grau de embriaguez indicado no tipo, estaria configurado o crime.

Todavia, o princípio da ofensividade não pode ser esquecido. Tal princípio, que limita o poder punitivo estatal, é deduzido em nível infraconstitucional dos artigos 13 e 17 do CP. O primeiro dispositivo assegura que a existência do crime depende de um resultado, identificado como a lesão ou perigo ao bem juridicamente tutelado. Já o dispositivo legal que define o crime impossível (artigo 17, CP) condiciona a punibilidade da tentativa à idoneidade dos meios utilizados pelo agente e à existência do objeto material com as características exigidas pelo tipo. Vale dizer, a tentativa, para ser punível e dar ensejo a um delito possível, deve apresentar potencialidade lesiva ao bem jurídico.

O princípio da ofensividade é consentâneo com a noção de tipicidade material. Não havendo a potencialidade lesiva que se quer evitar aos bens de terceiros, não haverá tipicidade (princípio da ofensividade). A conseqüência prática de tal afirmação é de suma importância, porque um fato pode coincidir com o modelo atual de conduta previsto no tipo do artigo 306 do CTB (tipicidade formal), sem que se complete o juízo de tipicidade. Para a ocorrência desta, será necessário algo mais: a verificação in concreto da potencialidade lesiva da conduta praticada (tipicidade material).

Vêm-se na jurisprudência algumas decisões conforme esse entendimento versando sobre crimes contra a fé pública. Note-se que os tipos que definem os crimes de falsidade documental (artigo 297, CP) e de falsidade ideológica (artigo 299) não contemplam a referência ao causar perigo à fé pública. Mas é do conhecimento dos que se dedicam a esse estudo a imprescindibilidade de tal constatação para concluir-se pela tipicidade. Assim, nos crimes de falsum em que a contrafação for irrelevante, inócua, que não repercute no mundo jurídico, não haverá tipicidade (material).

Em conclusão, conquanto o tipo penal do artigo 306 do CTB não exija a constatação do perigo concreto, o fato é que o intérprete e o seu aplicador não estão dispensados de fazê-lo, em conformidade com o princípio da ofensividade.

Registre-se que parte dos crimes de perigo abstrato admite a prova em contrário da existência do perigo; nesse caso, a presunção é relativa (juris tantum) e a defesa possui a possibilidade de demonstrar que a conduta praticada não põe em risco a incolumidade das pessoas no tráfego viário, por exemplo.

Mas há casos outros em que a presunção do perigo é absoluta, ou seja, não admite a prova em contrário. Alega-se que se insere nesse contexto o crime de tráfico de drogas. Desse modo, quaisquer das condutas incriminadas pelo artigo 33 da Lei Antidrogas trariam ínsito um perigo à saúde pública.

É de se ver a enorme limitação ao direito de defesa proveniente dos crimes de perigo abstrato. Tais delitos confrontam-se seriamente com o princípio da não-culpabilidade, e mesmo com o princípio da legalidade. Daí por que a sua previsão deve ser feita com parcimônia, conforme recomendam os princípios da intervenção mínima e da proporcionalidade.

Para a incriminação do perigo abstrato, há regras a serem observadas na sua previsão. É necessário que não seja eficaz a incriminação da conduta através de um tipo penal de dano ou, ainda, de perigo concreto. Proíbe-se, em homenagem ao princípio da proporcionalidade, o excesso representado pela incriminação do perigo abstrato, quando possível outra modalidade menos cerceadora da liberdade. Nesse sentido, caso a incriminação propiciada pelo tipo de perigo concreto mostrar-se adequada a reprimir tal conduta, então será essa a maneira de se fazer a incriminação. É a nossa posição, sobretudo porque a incriminação da embriaguez ao volante como perigo concreto reveste-se de maior taxatividade.

De outro lado, pondera-se que a atual infração administrativa prevista no artigo 165 do CTB mostra-se eficaz no combate à embriaguez ao volante, em face do caráter dissuasório evidenciado no alto valor cominado à multa.

Em suma, há que se exigir do intérprete a constatação do perigo concreto quando aparentemente a conduta do motorista amolda-se ao tipo do artigo 306 do CTB. É de se cobrar, nesses casos, a prova de que a direção empreendida colocava em risco a segurança do tráfego viário, seja por excesso de velocidade, seja porque o motorista transitava pela contramão ou pela calçada, ou porque avançava um sinal vermelho, etc.

Corrupção: um dos legados da colonização


Sílvia Iglésias
, 4º período de Direito – Centro Universitário Newton Paiva

Abolir a corrupção no Brasil ainda é um dos maiores desafios no país. Isso porque tal prática, comum nos dias atuais, tanto na Justiça brasileira como nas esferas dos poderes Executivo e Legislativo – alvos de denúncias de atos corruptos e ilícitos, não é fato recente na história. No entanto, considerando-se o direito como dinâmico e renovado, algumas ações dos magistrados vêm apontando efetivas mudanças no poder Judiciário brasileiro, já que alguns operadores jurídicos mostram-se comprometidos com a justiça em verdadeiras ações de cidadania.

Vários momentos históricos de corrupção, nas mais diversas formas, marcam os 508 anos do Brasil, e o Judiciário vem se destacando como um poder, cada vez mais, fortalecido. O que se deve levar em consideração é que, desde a “descoberta” do “novo mundo”, as bases da formação jurídica nacional foram fundadas com a imposição do direito português por meio da burocracia, da troca de favores e das relações pessoais de parentesco. Nessa configuração, estruturou-se o direito no Brasil: de um lado, uma elite com esquemas formados de corrupção e manutenção de status; de outro, magistrados dispostos a tudo para garantir privilégios para si e para os seus.

Desde os primórdios, o direito nacional não representou a contento os interesses do bem comum da coletividade. O papel dos juízes, por exemplo, que já era o cargo mais importante do poder Judiciário, considerando os pontos relevantes para tomadas de decisões, dava-se com base na lei ou nos aspectos subjetivos. Enquanto algumas heranças históricas se perpetuam ainda nos dias atuais, outras tiveram grande evolução para o exercício da cidadania. A legislação não era expressão da vontade das populações originárias e nativas, e sim imposição respaldada na dominação das elites agrárias. Diferentemente, existem, hoje, um regime democrático participativo e a consolidação de uma identidade cultural e nacional.

Com a democratização do País, depois de 20 anos de ditadura, a corrupção tem sido constantemente colocada no banco dos réus e, mesmo em um processo lento, os resultados têm sido muito benéficos, já que a sociedade tem exigido respostas mais rápidas, tendo como aliada a imprensa, que traz a lume as suspeitas de irregularidades. Isso reflete a responsabilidade maior do Judiciário em dirimir as controvérsias com imparcialidade e segurança, ainda que pese na mais alta cúpula do poder – o Supremo Tribunal Federal (STF) – a atuação de ministros escolhidos pelo presidente da República.

Entre muitos casos envolvendo magistrados, a maioria já chega ao conhecimento da opinião pública. O julgamento histórico em 2007 foi mais uma ação que devolveu a confiança ao poder Judiciário, desvendando amplo esquema de corrupção política – o conhecido “mensalão”. Ao transformar os 40 denunciados em réus, em um processo criminal, o STF cumpriu seu papel e se agigantou como uma instituição sólida e soberana, já que nunca ocorreu um processo como esse na história dos tribunais, tendo em vista o interesse político que envolvia a questão.

Atualmente, as denúncias chegam ao conhecimento da população, com considerações amplas e ágeis e atuação extensiva da imprensa. São inúmeras denúncias de corrupção na magistratura, como a venda de sentenças, abuso de poder em benefício próprio e até mesmo liberação de habeas corpus a pessoas que não fazem jus a esse direito, assegurado constitucionalmente, entre outras. Muitos são julgados e transitados independentemente de qualquer status, mas a impunidade ainda é realidade no Brasil. Isso pelo formalismo que conduz às injustiças pelos “influentes” reinantes nas esferas de alto escalão.

Consciente e crítica, a nação brasileira poderá construir um país verdadeiramente democrático, como é assegurado na Constituição Federal. Basta conhecer a história no passado para compreender a realidade atual e começar a agir para mudanças eficazes e urgentes. Mas será que a sociedade realmente tem criado mecanismos para coibir a corrupção ou acredita-se que a imprensa tem atuado de forma mais cidadã no que tange às denúncias de forma isenta e explícita, com o devido acompanhamento das práticas dos magistrados e dos operadores do Legislativo e Executivo?

Reação é diferente entre meninas e meninos

PATERNIDADE PRECOCE

Henrique Teixeira/Divulgação
Maria Nogueira incentiva os jovens a irem ao Centro de Saúde Cafezal

A reação diante da notícia de gravidez é bem distinta entre as meninas e os meninos. Conforme aponta a pesquisa de Maria Nogueira, enquanto elas ficam tranqüilas e passam a viver para a gestação, eles reagem de outra forma. “Algumas se dizem pressentir grávidas, destacam a sensação de felicidade de ter um filho e mais uma vez enfatizam a vontade de tê-lo”, afirma. Ao serem questionadas sobre a reação do pai do bebê ao ficar sabendo da novidade, as meninas faziam questão de frisar para a pesquisadora que ele havia ficado “muito alegre” com a notícia, depois da surpresa inicial.

O relato dos meninos, porém, difere um pouco em relação à boa aceitação das meninas. Segundo a pesquisa, costumam ficar descrentes diante da notícia e até duvidar se o filho de fato é deles. “Inicialmente, eles duvidam que a adolescente esteja grávida, chegando a não aceitar que o filho fosse realmente deles e atribuindo a ‘culpa’ pelo ocorrido somente à adolescente, colocando-se como vítima em toda a situação”, informa a pesquisadora.

Maria Nogueira destaca que, diferentemente das adolescentes, os jovens manifestam a sensação de impotência diante do fato. “Aí eu tipo zoei (caçoar) com a cara dela. Eu comecei a rir, falei assim: que brincadeira sem graça, pára com isso, você está ficando doida? Aí ela: eu acho que eu estou grávida mesmo. Aí eu fiquei meio nervoso e comecei a rir da cara dela. Falei: não, isso é mentira, isso é lero-lero seu. Aí eu peguei e subi, fui embora e ela ficou lá na casa dela”, afirmou um estudante de 17 anos, que não foi identificado para ser preservado.

FUTURO Foram entrevistados 17 jovens, sendo oito pais e nove mães, com idades entre 15 e 19 anos. Todos eram pertencentes a famílias de baixa renda (até três salários mínimos). Das meninas entrevistadas, oito já tinham tido os bebês e uma estava grávida de seis meses. Sete garotos já eram pais e um será em menos de dois meses.

O futuro de meninas e meninos é bem distinto. As meninas geralmente abandonam a escola, enquanto os meninos não se desvinculam. Dos entrevistados, apenas um adolescente interrompeu os estudos devido ao fato da gravidez. Das adolescentes, sete não freqüentavam a escola, sendo que seis haviam parado por causa da gravidez. A outra estava fora da escola quando engravidou.

Cresce proporção de jovens grávidas

PATERNIDADE PRECOCE

Henrique Teixeira/Divulgação
Foto da exposição Qualé papai?, que fica no Minas Shopping até 14 de setembro

A gravidez na adolescência é um problema médico-social grave, considerado de alto risco pela Organização Mundial de Saúde (OMS). De acordo com o obstetra e professor do Hospital das Clínicas da UFMG, Antônio Aleixo, os números dão a dimensão do problema que coloca em risco a vida de muitas jovens, bem como trazem impactos indesejáveis para as famílias. Por ano, são feitos, em média, 1 milhão de partos de casais adolescentes.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad 2006) registrou um aumento na proporção de adolescentes grávidas que concluíram a gestação. Entre os anos de 1996 e 2006, a média entre as meninas de 15 a 17 anos subiu de 6,9% para 7,6%. O crescimento vegetativo da população brasileira tem caído nos últimos anos, no entanto, verifica-se o fenômeno de rejuvenescimento da maternidade. Enquanto as mulheres mais velhas e com maior tempo de escolaridade estão cada vez mais reduzindo o número de filhos, entre as jovens tem aumentado as taxas de fecundidade.

Henrique Teixeira/Divulgação
Foto da exposição Qualé papai?, que fica no Minas Shopping até 14 de setembro

Em termos mundiais, o país tem a quinta maior população jovem, com idades entre 10 e 24 anos: são aproximadamente 52 milhões de pessoas, 30% de toda a população brasileira. O banco de dados do Sistema Único de Saúde (DataSus) deste ano aponta que 13% das brasileiras de 15 a 19 anos têm pelo menos um filho, o que representa um total de 1,1 milhão de mulheres/mães. “Ao considerar as taxas específicas de fecundidade por idade, os estudos apontam para um maior aumento da participação da fecundidade jovem para a composição da Taxa de Fecundidade Total, demonstrando que uma proporção importante da fecundidade brasileira está situada, cada vez mais, na população jovem (15 a 24 anos)”, informa Maria Nogueira.

A gravidez na adolescência traz riscos médicos, como as doenças venéreas e complicações nos partos; e sociais, como o abandono da escola e da casa. A prática do aborto é outra ameaça para a saúde das mulheres, que contribui para as elevadas taxas de mortalidade materna na adolescência. Quando é a única solução para pôr fim a uma gravidez não planejada, as mulheres se expõem a riscos médicos.

Henrique Teixeira/Divulgação
Foto da exposição Qualé papai?, que fica no Minas Shopping até 14 de setembro

Em países em que o aborto é proibido, ou o acesso a ele é dificultado, a saída encontrada é o aborto clandestino, realizado, na maioria dos casos, em situações precárias de higiene e por profissionais pouco qualificados, o que resulta em agravos à saúde da mulher. Devido à ilegalidade do ato, a adolescente, em muitos casos, recorre a meios ilegais, o que implica sérios riscos de complicações associadas.

SOLUÇÕES Antônio Aleixo lista uma série de medidas que precisam ser adotadas para que o problema seja superado. Desde o aumento na escolarização dos jovens, como também melhorias no atendimento aos jovens nos centros de saúde. Segundo o especialista, há alguns aspectos que dificultam o interesse dos jovens por métodos contraceptivos. Um deles é a falta de profissionais especializados para lidar com esse público. “As farmácias populares, fontes baratas de anticoncepcionais, apresentam uma barreira para as adolescentes, que é a necessidade de CPF, além da receita médica. A grande maioria das adolescentes não tem CPF”, complementa.

Da adolescência para a vida adulta

PATERNIDADE PRECOCE

Gravidez precoce mistura deslumbramento e angústia, mas faz com que jovens exerçam senso de responsabilidade
Márcia Maria Cruz
Beto Magalhães/EM/D.A Press
Henrique de Souza Espanhol, de 4 anos, mora com a mãe, mas tem o apoio financeiro e afetivo do pai Wallison

David Douglas Gomes Pereira, de 16 anos, tem estatura e corpo de um adolescente e se comporta como tal: se envergonha das espinhas no rosto e sonha ser reconhecido pelo talento em armar jogadas no meio-de-campo. Ele espera ser, um dia, escolhido para compor a equipe de um grande time de futebol – desejo acalentado por muitos de sua idade. Espelha-se em ídolos como Kaká e Ronaldo Gaúcho, que jogam na posição centroavante. No meio dessa história e desses sonhos, surgiu a pequena Anni, fazendo com que ele tivesse uma outra postura diante da realidade. No lugar de crises existenciais típicas da idade, problemas concretos para cuidar da filha, como ter recurso para alimentá-la e educá-la.

Por essa inesperada, mas feliz surpresa, David marca o nascimento da filha Anni Vitória, de 1 ano e 7 meses, a partir do próprio aniversário. É preciso: “minha filha nasceu 19 dias antes de eu completar 15 anos.” A data que geralmente é encarada como um rito de passagem para a adolescência, representou um pulo na vida de David, como uma entrada precoce para a vida adulta. O mesmo ocorreu com a namorada, Ágda Line de Sousa, na época com 13 anos.

Milhões de razões podem ser indicadas para a gravidez na adolescência, mas todas elas se materializam no não uso de métodos contraceptivos. O jovem reconhece que, na época, não soube usar corretamente o preservativo. “Depois entrei no projeto, mas a Ágda já estava grávida de 4 meses. Então, comecei a aprender, mas era tarde demais”, diz, referindo-se ao projeto Amigos do Cafezal. Idealizada pela pesquisadora Maria Nogueira, o projeto discute sexualidade com os adolescentes e procura criar meios para que eles possam ir ao centro de saúde.

Diferentemente de muitos jovens, que em situações semelhantes abandonam as responsabilidades, David tem tentado estruturar a vida: continua estudando e trabalha na Associação Profissionalizante do Menor de Belo Horizonte (Assprom). “O salário é de R$ 340, mas com os descontos recebo R$ 280”, conta. Entre o trabalho e a escola, arranja tempo para buscar a filha na creche. “Eu vejo a Anni e penso: olha o que eu fiz”, afirma com um misto de responsabilidade e deslumbramento. À noite, quando a menina chora, ele toma conta dela, pois a namorada tem de acordar muito cedo para trabalhar, mas confessa que não é muito hábil em trocar fraldas.

David foi informalmente adotado pela tia da namorada, a agente de saúde Ilzivete Souza Conceição, de 30, que ajuda a cuidar da sobrinha, da sobrinha-neta e também dele, um genro emprestado. A ausência da figura paterna sempre foi um problema para David, que a vida toda ajudou a mãe a tomar conta dos irmãos mais novos. “Vi meu pai pela última vez, quando tinha 6 anos. Sentia muita falta dele no Dia dos Pais. Agora não sinto mais, porque tenho a Anni”, revela.

A surpresa de uma gravidez indesejada também ocorreu para Wallison Glauber, de 19, e a namorada Diana de Souza, de 21. O casal nem sempre usava preservativos nas relações sexuais e, em uma dessas inconstâncias, foi gerado o pequeno Henrique de Souza Espanhol, que está com 4 anos. O casal, embora mantenha o relacionamento, não mora junto. Wallison garante dar todo o apoio ao menino – afetivo e econômico –, dentro de suas possibilidades. Como servente de pedreiro, recebe mensalmente R$ 600. “Compro roupa, biscoito, iogurte… Esse tipo de coisa que criança gosta”, afirma.

Beto Magalhães/EM/D.A Press
David Douglas Gomes Pereira assumiu a paternidade aos 14 anos e adora a filha Anni

MATURIDADE O jovem se orgulha do fato de a primeira palavra dita pelo menino ter sido “papai” e também da preferência que a criança tem por ele. “Meu maior sonho é ter minha casa e criar meu filho com a Diana.” Mas nem tudo são sorrisos e gargalhadas de criança, e Wallison sente a responsabilidade de ser pai, principalmente quando o filho está doente e ele precisa levá-lo ao centro de saúde. Com 19 anos, ele faz uma reflexão sobre maturidade. Em geral, os adolescentes que se tornam pais amadurecem, mesmo que de forma forçada. “Era jovem na época. Agora amadureci, porque antes era um meninão. A responsabilidade cresceu”, diz.

Jovens como David e Wallison não são maioria. “Quando as meninas engravidam, a maior parte dos meninos não assume, abandonando a mãe e a criança. Em muitos casos, eles assumem outras namoradas”, informa a enfermeira Judith Kelly Abras Lessa Freitas. A médica generalista Simone Teixeira, do Centro de Saúde Cafezal, alerta para a importância de políticas de atendimento aos adolescentes, que muitas vezes ficam esquecidos. O ideal são programas que possam falar sobre métodos contraceptivos, prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e Aids, antes que o jovem comece a vida sexual.

GRAVIDEZ E JUVENTUDE

RISCOS MÉDICOS

Maior incidência de prematuros e recém-nascidos de baixo peso
Maior incidência de pré-eclampsia, de partos complicados
Maior incidência de doenças venéreas
Depressão

RISCOS SOCIAIS

Fuga de casa
Abandono da escola
Abuso de drogas e álcool

CAUSAS

Conflitos familiares e afetivos
Desagregação familiar, levando à omissão
Busca de identidade própria
Busca de segurança
Baixa escolaridade e baixa renda
Falta de perspectiva na vida
Dificuldade de acesso aos métodos anticoncepcionais
Desconhecimento dos métodos anticoncepcionais

SOLUÇÕES

Melhoria das condições socioeconômicas
Escolas em tempo integral
Adequação de toda a cadeia de atendimento para que as adolescentes possam ser tratadas de maneira diferenciada. Desde Programa Saúde da Família (PSF) aos postos de saúde
Capacitação de médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais para lidar com os adolescentes
Criação de espaços específicos nos centros de saúde para preservar a privacidade da adolescente. Garantia de confidencialidade
Facilidade de acesso aos anticoncepcionais

Fonte: Antônio Aleixo Neto, obstetra e professor do Hospital das Clínicas da UFMG

Vou ser pai. E agora?

PATERNIDADE PRECOCE

Paternidade precoce pode ser um entrave para a vida adulta, mas muitos jovens demonstram senso de responsabilidade
Márcia Maria Cruz
Henrique Teixeira/Divulgação

A paternidade pode ser um estado de graça, mas quando aparece na adolescência pode causar uma série de anseios e dúvidas. O que sente um pai adolescente ao ver seu filho pela primeira vez? O que muda em suas vidas? Como é a relação entre pais adolescentes e seus filhos? O momento costuma ser muito difícil, pois parece ser um contrasenso tornar-se pai, quando ainda se precisa de colo e de orientações.

É o que ocorre com o estudante David Douglas Gomes Pereira (foto), de 16 anos, que foi pai, aos 14, da menina Anni Vitória, de 1 ano e 7 meses. Ao mesmo tempo em que sonha em fazer teste para um grande time de futebol – desejo de muitos meninos de sua idade –, ele precisa lidar com demandas da filha, como educação e alimentação. No caso dele e de outros meninos, a paternidade resulta em uma entrada precoce e precária na vida adulta, quando ainda não se sabe muito bem qual rumo dar à história pessoal. Em geral, a gravidez nessa fase é associada às meninas e, quase nada, se fala em relação à figura do pai. “Geralmente, as políticas públicas são voltadas para as meninas. Não existe uma política voltada para os meninos”, afirma a médica generalista Simone Teixeira, do Centro de Saúde Cafezal, no Aglomerado da Serra, Região Centro-Sul de Belo Horizonte.

A falta de políticas públicas voltadas para os meninos despertou o interesse da pesquisadora da Fiocruz Minas Gerais Maria Nogueira, que em seu doutorado tentou entender o universo desses meninos. Conforme ela lembra, a imagem que se tem do pai adolescente está relacionada à negligência, mas nem sempre isso ocorre. Ela conclui que uma parcela tem despertado para a “paternagem” – o exercício da paternidade nas dimensões afetivas e econômicas. A gravidez na adolescência é um problema de saúde pública com implicações sociais e, sobretudo, riscos físicos para as mães, que não estão com o corpo preparado para a gestação. Para os meninos, podem ser enumerados os aspectos emocionais advindos de tamanha responsabilidade.

Em Minas Gerais, 22% dos nascidos vivos são filhos de mães adolescentes. Entre 10 e 14 anos, a taxa de fecundidade tem aumentado, seguindo uma trajetória contrária à de outras faixas em que está sendo verificada uma queda. Embora tenha maior visibilidade nas camadas da sociedade com menor poder aquisitivo, a gravidez na adolescência é um problema que também atinge a classe média. “Os índices de gravidez não são tão pequenos quanto parecem, pois o que ocorre é um ocultamento”, afirma a socióloga Maria Nogueira, que defendeu tese sobre sexo e sexualidade na adolescência. A pesquisa foi realizada com jovens pais, com idades entre 14 e 18 anos, da Vila Cafezal.

O estudo ainda se desdobrou no projeto Amigos do Cafezal, que teve como propósito trabalhar com os adolescentes temáticas como doenças sexualmente transmissíveis (DST/Aids), afetividade, sexo seguro, paternidade e maternidade responsáveis, entre outros. O resultado do trabalho virou o ensaio fotográfico Qualé papai!, que será aberto na próxima terça-feira, e fica até 14 de setembro, no Minas Shopping. As fotos documentam o sentimento de pais adolescentes diante da paternidade precoce.

Da picape à partitura

SEM PRECONCEITO

Luciana Gomes se dedica à música colonial e à discotecagem em espaços descolados de BH. Para ela, a cultura negra deu régua e compasso a Cassiano e Emerico Lobo de Mesquita
Janaina Cunha Melo
Jackson Romanelli/EM/D.A Press
Erudita ou popular, música preta brasileira inspira Luciana Gomes, a DJ Black Josie
Luciana Gomes descobriu a música depois dos 20 anos. Ela já cursava comunicação social, quando foi incentivada a estudar piano. Recebeu preparação privilegiada de Elvira Prates – a Léa Delba, do teatro de revista – e ingressou no extinto curso de percepção musical do Conservatório. Desde então, as descobertas são sucessivas: ela fundou a Cameratta Lusitana, com a qual se dedica ao repertório colonial, e agora traz à cena a DJ Black Josie – personagem que realiza performances de “música preta brasileira” em casas noturnas da capital. Para Luciana, a raiz africana tem sido o eixo de relações estéticas as mais inusitadas. Esse é o elo que funde José Joaquim Emerico Lobo de Mesquita a Tim Maia.

“A música colonial foi criada e interpretada por negros. Pouco se fala sobre isso, mas todo aquele repertório magnífico veio dos escravos. Então, o que faço é música negra, mesmo a erudita”, argumenta a cantora, instrumentista e DJ. Desde a criação de Black Josie, ela tem sido convidada para festas e eventos. Discotecou no bar do Cenas curtas (projeto do Galpão Cine Horto), no Bar do Festival Internacional de Teatro de Bonecos, no Sambacanagroove e no projeto Cubanías. Tem apresentações confirmadas na Ioio Mercearia, em setembro, e vai participar do Festival Mundial de Circo, no próximo fim de semana, acompanhando o Sarah Assis Quarteto, responsável pela trilha sonora do espetáculo Variedades, que reúne artistas de diferentes estados.

A seleção de músicas se concentra nos anos 1970, de Cassiano a Jorge Ben Jor, passando por outros ícones que se inspiraram na black music norte-americana. “Estou no contexto da turma que ouvia James Brown. O movimento Black Rio, que começou no Rio de Janeiro e se difundiu por todo o país, é outra referência importante. Essa geração tem sido muito ouvida, principalmente nos bailes de periferia. Acho que a missão da Black Josie é fazer a ponte”, diz Luciana. Ela se surpreende com a reação do público aos sets que apresenta, o que confirma a atualidade dos clássicos de décadas atrás.

A música popular era hobby na rotina de canto erudito de Luciana. Como DJ, ela decidiu experimentar, investiu em equipamentos de última geração e incluiu outros instrumentos na lista de prioridades para os ensaios. “A Black Josie me trouxe essa surpresa. Quando me dei conta, já tinha comprado uma bateria, montei uma banda e passei a dar outro tipo de atenção ao repertório black”, conta. “A música popular sempre me chamou, mas nunca a assumi por achar que não era minha praia”, diz.

A cantora não pretende negligenciar o valioso trabalho de preservação e memória desenvolvido com o Cameratta Lusitana. Diretora artística e produtora do grupo, ela busca recursos para a terceira edição do projeto Estrada Real e prevê, para 2009, a realização da 3ª Mostra de Música Colonial Latino-Americana. Aos 35 anos, Luciana atribui à mãe, Lúcia Gomes, a versatilidade e o apreço pela boa música – de todos os gêneros. “Ela sempre me incentivou, estimulou o início de meus estudos. Foi com ela que aprendi a escutar ótimo repertório, no dia-a-dia, dentro de casa”, lembra.

Capitalismo castiga jovens brasileiros

Baixa escolaridade, desemprego e violência empurram juventude para uma existência vazia, marcada pela mercantilização

Baixa escolaridade, desemprego e violência empurram juventude para uma existência vazia, marcada pela mercantilização

Jonathan Constantino

de Niterói (RJ)

Ao lado da organização política, o outro eixo principal do 1º Encontro Nacional da Juventude do Campo e da Cidade (ENJCC) foi analisar a diminuição das perspectivas dos jovens dentro da sociedade capitalista. Segundo as discussões realizadas, isso pode ser verificado através de dados referentes à educação, emprego e criminalidade, além de uma compreensão de mercantilização da vida.

De acordo com estudo publicado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), em abril, o Brasil possui cerca de 51 milhões de pessoas entre 15 e 29 anos. Dos jovens entre 15 e 17, apenas 48% estão cursando o ensino médio e 18% estão fora da escola. Dentre aqueles com 18 a 24 anos, a situação é ainda mais alarmante, pois apenas 13% estão no ensino superior e 66% não estudam.

Porém, no encontro, foi salientado que tais fatos não podem ser analisados de modo isolado. A renda familiar, a etnia e o local em que habita interferem no acesso do jovem à educação e na maneira como adquire informação. Esse acesso, por sua vez, influencia no modo como esses indivíduos serão inseridos no mercado de trabalho e atuarão no seu contexto social.

Com relação ao emprego, o Datafolha publicou, em julho, uma pesquisa apontando que 33% dos jovens entre 16 e 25 anos possuem anseios de realização profissional. No entanto, o número contrasta com a realidade do desemprego que, entre os jovens, é de 46%, segundo o Ipea. A pesquisa ainda aponta que 31% dos jovens são pobres e, destes, 70% são negros.

Violência

No que diz respeito à criminalidade, nas atividades do ENJCC chamou-se a atenção para o fato de que a juventude tem sido a principal vítima da violência. “A ONU declara que um país está em guerra civil quando 15 mil jovens por ano morrem violentamente. No Brasil, morrem cerca de 60 mil”, disse Tatiana Oliveira, da Escola Nacional Florestan Fernandes.

As maiores vítimas são os pobres e negros. As intervenções feitas durante o encontro revelaram tratar-se de um processo de criminalização da pobreza, que pode ser ilustrado com o trágico episódio que vitimou três jovens do Morro da Providência, no Rio de Janeiro, em junho.

A violência atinge em média 50% mais os jovens negros e estes são, ainda mais que os brancos, vitimizados por um contexto social que gera profundos impactos em seu cotidiano, visão de mundo e possibilidades concretas de construção de futuro, denuncia o Ipea.

Rafael Vilas-Boas, do setor de cultura do MST, lembra que o Brasil possui a segunda maior população negra do mundo, atrás apenas da Nigéria e acrescentou que “a teoria de esquerda no Brasil precisa rever certas pautas, como a questão racial. Se os movimentos sociais e partidos não atentarem para a questão do negro, perderão a sua legitimidade”.

Mercantilização da vida

Por fim, Gilmar Mauro, da coordenação nacional do MST, observa que a juventude, massificada por um conglomerado midiático que reproduz um pensamento autocrático burguês e consumista, tem sido atingida por um fenômeno de mercantilização da vida. “As nossas relações têm sido intermediadas por coisas”, completa.

Nesse sentido, não só o modo como as pessoas se relacionam, mas seus próprios anseios estão relacionados a coisas. Ao menos é o que aponta a pesquisa do Datafolha, na qual grande parte dos jovens anseia possuir um veículo próprio (40%), casa (36%), investe principalmente em vestuário e calçado (61%) e consideram-se muito consumistas (26%).

São dados importantes a serem analisados, porém Vilas-Boas alerta que “o gosto é uma construção ideológica”. Dessa forma, não há como transformar a situação da juventude sem modificar a estrutura social, enfrentar o neoliberalismo e modificar o modelo de desenvolvimento econômico. “Nossa luta tem de ser anti-sistêmica. Ou superamos o capital ou a humanidade não sobreviverá por muito tempo”, acrescentou Gilmar Mauro.

Deus no palanque

Alberto Dines

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A disputa religiosa é a segunda maior causa de guerras na história da humanidade. A primeira é, obviamente, a conquista territorial para garantir a subsistência e a sobrevivência. Nesta questão primordial, o ser humano não se distingue das outras espécies animais que se engalfinham em busca do espaço vital para produzir alimento, agasalho e a preservação do grupo. Asseguradas as necessidades biológicas, os animais ditos racionais passam a guerrear-se para impor suas crenças.

Lamentável: a vantagem competitiva oferecida pela racionalidade em vez de pacificar os instintos só os exacerba. Em termos concretos significa que a busca da paz genuína compreende um esforço ostensivo dos envolvidos para retirar da pauta dos contenciosos todos os ingredientes capazes de fomentar o fervor religioso ou a ferocidade confessional.

Em outras palavras: é preciso tirar Deus da arena política. Há indícios de que isto está acontecendo na Europa – prova de que o Velho Mundo ainda é uma referência – porém na Ásia e na África religião é dinamite pura. No mitológico Novo Mundo, sempre associado à imagem de liberdade, a religião foi imposta a ferro e fogo. Na parte setentrional do continente, mais de cinco séculos depois da chegada de Colombo, encontramos uma situação não muito diferente daquela que existia em 1492, quando a Espanha expulsava os mouros e os judeus do seu território.

Hoje, nos EUA (segundo a “Economist” de 16/8, p.35) cerca de 90% dos cidadãos declaram-se religiosos, 63% acreditam que a Bíblia é a palavra divina e que religiosidade é prova de bom caráter. Apenas 42% dos norte-americanos afirmam que votariam num agnóstico ou ateu para a presidência enquanto 56% votariam num homossexual e 93% aceitariam um negro.

Esta exótica religiosidade numa comunidade tão diversificada e numa civilização tão materialista produz situações singulares como o primeiro encontro dos dois candidatos à Casa Branca, Barack Obama e John McCain, realizado no megatemplo do poderosíssimo pastor Rick Warren na Califórnia, semana passada. Obama veio para mudar, conseguiu ser pós-racial, pós-ideológico, mas não conseguiu ser pós-religioso. Sequer tentou.

Na Íbero-América, a conversão forçada dos nativos e a presença da onipotente, onisciente e implacável Inquisição criou um paraíso monolítico católico que agora começa a ruir diante do formidável avanço das seitas protestantes de variadas filiações. Sem o apoio das massas, certos grupos e ordens ligados ao Vaticano (como a Opus Dei), tentam barrar este avanço evangélico através de um grande empenho na área da comunicação social onde os evangélicos estão poderosamente inseridos.

As eleições de Outubro têm tudo para transformar-se no primeiro round de um confronto formal e ostensivo entre evangélicos e não-evangélicos graças à presença de Marcelo Crivella (PRB) como candidato à prefeitura carioca. Sua eleição anterior para o Senado foi apenas um ensaio: sua postulação a um cargo majoritário, numa cidade-vitrine como o Rio de Janeiro, dá outra dimensão a uma disputa que em outras circunstâncias seria no máximo partidária. Agora é mediática, aos pés do Redentor, portanto religiosa.

Na antiga Cidade Maravilhosa está a sede do poderoso Grupo Globo, cujo maior competidor é a TV Record, carro-chefe da Igreja Universal, de propriedade do bispo-empresário Edir Macedo, tio do candidato Crivella, por enquanto líder nas pesquisas.

Crivella tem o apoio do governo federal, seu partido é o mesmo do vice-presidente da República e do ministro Mangabeira Unger, que aposta numa reedição da história de sucesso da Coréia do Sul onde a opção pelo protestantismo foi estratégica.

Os desdobramentos de um eventual confronto são preocupantes. Embora administrada como empresa multinacional, a Igreja Universal adota um proselitismo agressivo. Seu poderio eleitoral, sobretudo nos segmentos menos favorecidos, pode potencializar conflitos subjacentes. Nas comunidades carentes do Rio onde atua, até a panfletagem precisa ser aprovada pela bandidagem ou pela mílicia (o que vem dar no mesmo).

Deus nos palanques tira Marx da jogada. Religião deixou de ser o “ópio do povo”, porém nada impede que se converta em “coração de um mundo sem coração e alma da condição desalmada”. Guerras religiosas são insaciáveis. Mais nocivas do que as produzidas pela fome.

Sob o olhar de Brás Cubas

Revolução tecnológica da comunicação gera implicações éticas e políticas sobre a questão da intimidade e do espaço privado. Informações tornadas perenes podem se voltar contra o cidadão
Virgílio Fernandes Almeida
Euler Júnior/EM/D.A Press – 30/4/08
Sala de monitoramento do programa Olho Vivo, em Belo Horizonte: os olhos gerados pela tecnologia se espalham pela cidade, gerando cenário digno de Orwell em 1984.

“A vida é uma lousa, em que o destino,
para escrever um novo caso, precisa apagar
o caso escrito. Obra de lápis e esponja.”

Machado de Assis, 1882

Tudo. Tudo pode ser filmado, gravado e fotografado. Indefinidamente registrado nas memórias eletrônicas. E mais. Tudo pode ser recuperado, relembrado, requentado, trazido de volta à luz dos interesses. Este é um traço ainda não compreendido do mundo de hoje, marcado pela confluência da natureza com algo que excede a própria natureza e a envolve de forma invisível. São as redes eletrônicas com seus bilhões de computadores e celulares, que coletivamente possibilitam novas relações entre os homens e as máquinas, entre o humano e o não-humano. A literatura abre espaço para capturarmos a dimensão das implicações e problemas desses novos tempos.

Em 2008, celebra-se a memória de Machado de Assis (1839-1908), que morreu há 100 anos. A releitura de sua obra é uma fonte de prazer, pela forma e elegância do texto, aberto a múltiplas possibilidades de leitura, dependendo do gosto e ofício do leitor. Nos romances, contos, crônicas e personagens, Machado de Assis extrai com destreza e economia o universal do cotidiano, o atemporal do dia-a-dia de sua época. “Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se me uma idéia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volantim, que é possível crer. Súbito deu um grande salto, estendeu os braços e a pernas, até tomar a forma de X: decifra-me ou devoro-te.” É com esse espírito do trapézio, que precisamos entender os limites e as possibilidades dos novos tempos eletrônicos, em que a privacidade individual, a intimidade pessoal e a segurança da sociedade e do Estado são definitivamente alteradas pela transição das coisas concretas, como o papel, a distância geográfica e o contato presencial, para a quase imaterialidade dos meios eletrônicos.

Está em curso uma revolução da informação, cujas implicações estamos apenas começando a perceber. Novos termos e novas situações mostram como a vida moderna vai sendo enquadrada pela arquitetura e tecnologia dos sistemas de informação. Os jornais estampam freqüentemente essas mudanças em suas manchetes: “Juiz autoriza quebra do sigilio eletrônico de banqueiro”, “Pen-drive do bicho mostra planilha com pagamentos de propina”, “Câmeras reduzem criminalidade”, “Registro eletrônico mostra gastos com cartões corporativos”, “Justiça autoriza quebra de sigilo eletrônico da conta bancária do caseiro do ministro”, “E- mails vasculhados pelos procuradores”, “Vazamento do dossiê eletrônico de gastos de ex-presidente”, “Polícia apreende computadores dos acusados”.

A vida moderna não é mais a lousa descrita por Machado de Assis, onde a esponja do tempo apaga as coisas do passado. Nada desaparece. Anotações em pedaços de papel, cadernetas de contas, cadernos de negócios, agendas, cartas, bilhetes, fotos, diários e todas as outras maneiras de registrar o cotidiano e os negócios vão sendo substituídos pelos arquivos eletrônicos dos computadores. Máquinas que tudo guardam e nada esquecem. Surge então uma indagação fundamental: como conviver com a perenidade das informações, em que nada desaparece? E aí está o novo, em que a vida moderna começa a pregar suas peças. “Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz a consciência…” observou filosoficamente o finado Brás Cubas.

MEMÓRIA ELETRÔNICA Com a perenidade da informação, chegará o tempo em que seremos todos classificados, rotulados a partir de informações inferidas de nossos gastos, nossos gostos, nossas inclinações políticas, nossas crenças religiosas, nossa vida passada. Nos EUA, um homem relatou para uma reportagem sua experiência numa clínica de reabilitação para alcoólatras e viciados em drogas. Três anos mais tarde, já recuperada, essa pessoa teve dificuldades em conseguir emprego, pois as empresas, por meio de buscas na internet, encontravam a reportagem publicada pelo jornal. Tudo está invisivelmente registrado nas memórias eletrônicas, pronto para ser garimpado, pronto para ser interpretado de acordo com o freguês.

Câmeras de vídeo vigiam centros urbanos, edifícios, shoppings, estacionamentos, aeroportos e rodoviárias. Câmeras de satélites monitoram o desmatamento da floresta amazônica, as infrações ambientais no pantanal mato-grossense e fazem o rastreamento eletrônico de gado para exportação. Polícia e Justiça monitoram conversas do crime e da corrupção. Nada escapa aos ubíquos celulares, câmeras e computadores: “E tudo isso constituía uma verdadeira floresta de olheiros e escutas, por entre as quais tínhamos de resvalar com a tática e a maciez das cobras”, refletiu Brás Cubas em suas memórias póstumas. As redes eletrônicas ampliam dramaticamente as possibilidades de controle. “Chama-me Natureza ou Pandora; sou tua mãe e tua inimiga”, ouviu Brás Cubas em seu delírio.

Se por um lado há a possibilidade de aumentar a segurança, reduzir a criminalidade, controlar o meio ambiente, por outro sobressaem os sinais de invasão de privacidade e controle social que a tecnologia permite. Sinais que não se restringem apenas ao Brasil nem são exclusividade de governos. Aliás, no mundo inteiro, em especial na Europa, os jornais têm noticiado escândalos envolvendo vazamento de informações eletrônicas. Na Inglaterra, funcionários da receita perderam dois discos de computador contendo bases de dados com informações pessoais e bancárias referentes a 25 milhões de ingleses.

VIGÍLIA SEM FIM A maior empresa de telecomunicações da Alemanha, controlada pelo governo, admitiu ter usado técnicas sofisticadas de computação para monitorar, identificar e entender milhares de conversas telefônicas de integrantes da direção da empresa com jornalistas. Informações referentes à devolução do Imposto de Renda de 38 milhões de cidadãos italianos foram recentemente publicadas na internet. Uma lei aprovada pelo Congresso americano permite ao governo monitorar e vigiar maciçamente conversas telefônicas e mensagens de e-mails trocadas pelos norte-americanos com o exterior.

As tentações para criar ambientes orwellianos seguem par e par com o avanço das redes eletrônicas e a evolução da tecnologia da informação. Por meio da tecnologia, a ficção de George Orwell em 1984 deixa de ser coisa de livro e cinema, para se tornar possibilidade real. “Deus te livre, leitor, de uma idéia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”, refletiu Brás Cubas. Parafraseando Machado de Assis, poderíamos dizer alto e bom tom: Deus nos livre, leitor, de algo como o Big Brother.

Não se trata apenas de proteger a informação nestes tempos repletos de dados eletronicamente disponíveis. Trata-se de proteger a privacidade do cidadão, proteger o espaço pessoal representado pelas informações relacionadas e associadas ao indivíduo. A coleta e o uso de informações pessoais implica obrigações e responsabilidades. Tarefas para as quais ainda não existem nem mecanismos tecnológicos nem instrumentos legais devidamente apropriados.

Virgilio Fernandes Almeida é professor titular do Departamento de Ciência da Computação da UFMG.

ESPANCAMENTO

Violência Contra a Mulher

Região Noroeste lidera índice de agressões domésticas em Belo Horizonte, mas para combater o crime e dar melhor assistência a vítimas Polícia Militar treina 240 agentes
Ingrid Furtado
Jackson Romanelli/EM/D.A Press
Curso instruiu militares do 34º Batalhão da PM a dar tratamento especial aos desentendimentos conjugais

Chutes na barriga, socos no rosto e muitas cicatrizes no corpo e na alma. Para combater a violência doméstica, mulheres vítimas de agressões ganharam um aliado ainda mais preparado: o policial militar. Ontem, integrantes da Patrulha de Atendimento Comunitário (PAC) do 34º Batalhão da PM terminaram o curso de capacitação para assistência a ocorrências de violência conjugal. A iniciativa tem o objetivo sensibilizar os militares que estão na ponta do atendimento, melhorar o preenchimento dos registros e ampliar as formas de intervenção. Por dia, a Delegacia Especializada de Crimes contra a Mulher, no Barro Preto, Região Centro-Sul de Belo Horizonte, recebe 25 vítimas de lesão corporal e ameaça.

A prevenção e conscientização são fundamentais para quebrar o ciclo do sofrimento entre quatro paredes. De acordo com o promotor de Justiça da Promotoria de Combate à Violência Doméstica, Eduardo Machado, 25% das mulheres no mundo ocidental são vítimas de espancamento pelo marido. A proposta do curso, pela primeira vez aplicado na PM, é capacitar 240 militares do 34º BPM e expandir a iniciativa para as outras unidades da corporação. “Caímos no erro de pensar que a violência doméstica é um problema privado. Mas essa idéia deve ser rompida. A principal diferença desse tipo de crime é a intimidade entre as partes e, em razão disso, requer esforços extras para a prevenção”, diz o comandante do batalhão, tenente-coronel Cícero Nunes Moreira, idealizador do programa.

A abordagem aos envolvidos foi um dos pontos tratados. “Aparentemente, as ocorrências de violência conjugal podem ser simples. Mas isso não deve ser encarado como uma verdade. É preciso preparo e paciência durante a abordagem. Percebemos que a qualidade de resposta dos policiais para esse tipo de registro é muito ruim e precisamos melhorar”, acrescenta o oficial. Ele observa ainda que, geralmente, esse tipo de ocorrência é estimulada pelo uso de drogas e de bebidas alcoólicas.

O oficial adianta que, para facilitar o atendimento, está estudando uma forma de colocar no boletim de ocorrência um novo campo de preenchimento, justamente para detalhar os casos de agressão dentro de casa. “Temos que quebrar o ciclo da violência doméstica, principalmente aquela que se repete. O preparo de nossos policiais é fundamental”, diz o coronel. Em 2007 e no primeiro semestre de 2008, foram registrados 500 casos de espancamento na área do batalhão.

RETRATO Levantamento da Promotoria de Combate à Violência Doméstica revela que a Região Noroeste de Belo Horizonte é a que registra o maior índice de lesões corporais contra a mulher, com 21% dos casos. Venda Nova segue em segundo lugar, com 17%. A Centro-Sul registra 15% e as regiões do Barreiro e Nordeste estão empatadas com 12% dos casos de violência conjugal em BH. “É importante frisar que a agressão não ocorre somente na hora de um tapa ou soco. Ela começa no momento em que o homem manipula e controla a mulher, antes mesmo do embate físico. O marido manifesta quem manda na relação pela coerção psicológica”, afirma o promotor Eduardo Machado.

A chefe da Divisão de Polícia Especializada da Mulher, do Idoso e do Portador de Deficiência, delegada Olívia de Fátima Braga Melo, observa que o trato com a vítima deve ser o mais respeitoso possível. “Ouvimos relatos de mulheres que se sentem ainda mais humilhadas pela forma com que são tratadas pela polícia, que geralmente enxerga a violência doméstica como um crime menor. Não podemos continuar com a idéia de que mulher apanha porque quer”, diz.

Outra novidade do programa é a criação de uma equipe multidisciplinar, composta por psicólogos e assistentes sociais. “Eles vão analisar os boletins de ocorrências e fazer triagens, caso a caso. Os agressores ou vítimas poderão ser encaminhados a serviços de acompanhamento psicossocial e jurídico ou até mesmo convidados a participar de cursos de conscientização sobre a não violência doméstica”, explica a sargento Sílvia Adriana Silva.

CASOS EM BH

Noroeste: 21%
Venda Nova: 17%
Centro-Sul: 15%
Barreiro: 12%
Nordeste: 12%
Leste: 6%
Oeste: 9%
Norte: 7,9

SERVIÇO

Delegacia Especializada de Crimes contra a Mulher, Rua Aimorés, 3005, Barro Preto. Telefone: (31) 3337-6996

Retrato Radical

Retrato Radical lança CD domingo no Reciclo

Janaína Cunha Melo – EM Cultura

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Maria Tereza Correia/EM/D.A Press
O Retrato Radical mostra 13 faixas inéditas e músicas que o consagraram desde os anos 1980

Os veteranos do Retrato Radical lançam o CD Homem bomba domingo, no Reciclo Asmare Cultural. O show, edição especial da festa Instinto Louco de Expressão, é promovida no projeto Diversidade Urbana, e recebe convidados. Kontrast, A Profecia, Máfia NVS, os DJs Marco Túlio e DJ Spider passam pelo palco, antes do quarteto composto por Radical, Canela, Pool e Jaqueline. Eles mostram as inéditas do disco, composto por 13 faixas, e músicas que consagraram o grupo de rap, ativo desde os anos 1980.

Produzido pela Xeque Mate Produções, o disco começou a ser trabalhado em 2005. O Retrato Radical preserva a referência da soul music, que influencia os MCs desde a estréia no hip hop, mas marca o diálogo do grupo com vertentes da música popular brasileira. “James Brown é nosso ícone, a fonte mais importante para todo mundo do rap, mas descobrimos muita identificação com a nossa música, que é muito rica”, comenta Marcelo Luiz de Paula, o rapper Canela. Martinha, Roberto Carlos, Aguinaldo Timóteo, Nelson Ned, Tim Maia e Ney Matogrosso passaram a fazer parte da discoteca dos MCs. “Não tínhamos noção de como esse acervo musical é grande. Começamos a escutar e não paramos mais. Tem muito a ver com a gente”, diz.

Homem bomba, ele explica, trata do limite de cada um. Relata situações extremas, do cotidiano na periferia. Criminalidade, pobreza, desemprego, crítica social estão entre os temas, convertidos em rimas poéticas. “O menino que vende bala na rua e não consegue estudar, está no limite. A molecada que entra para o crime sem saber o que está fazendo, também”. Bike avião fala da iniciação das crianças no tráfico de drogas; 78 mostra o contraste, da infância que no passado desfrutava das brincadeiras de rua. “É uma homenagem a essa década, quando os meninos se divertiam com carrinho de rolimã, amarelinha, pique-esconde”, comenta Canela.

A festa, que conta ainda com lançamento dos clipes 78 (Retrato Radical), Mó sufoco (A Profecia) e participação do coletivo Nospegaefaz com a música Pra Maloca Pirar, presta homenagem ao rapper D.U.K.E., morto no Morro Alto no início do ano. O artista, que passou pelo Artigo 607 antes de se integrar ao Retrato Radical, tinha 29 anos de idade e era considerado referência de superação, que descobriu alternativa no hip hop. “Ele era exemplo pra muita gente. Tinha estilo, boa levada, expressão. Como artista, ele era testemunha dos relatos da periferia, e passou a ser réu da história que narrava. Foi uma grande perda”, lamenta.

Canela conta que o grupo investiu cerca de R$ 12 mil para a realização do novo disco, que chega ao mercado em tiragem de mil cópias. Apesar das dificuldades para captar recursos, o rapper acredita que o talento desta geração tem sido capaz de demonstrar o potencial do movimento. “O rap hoje é uma indústria. Apesar das dificuldades, temos cena forte, com grupos de expressão na música e também no grafite, além dos DJs e b.boys. Estamos passando por uma ótima situação, de amadurecimento”, afirma.

RETRATO RADICAL
Reciclo Asmare Cultural, Av. do Contorno, 10.564, Barro Preto, (31) 8442-5686. Domingo, 16h. Lançamento do CD Homem bomba.
R$ 5.

Duelo do bem

Evento espontâneo que reúne turma do hip hop no Centro de BH chega à 50ª edição
Janaina Cunha Melo
Marcos Vieira/EM/D.A Press
Toda sexta-feira tem encontro de música, dança e grafite em frente à Serraria Souza Pinto

A primeira edição do Duelo de MCs foi no ano passado, com cerca de 30 participantes, na Praça da Estação. O evento, transferido em pouco tempo para a praça em frente da Serraria Souza Pinto, no Centro da cidade, é realizado semanalmente, às sextas-feiras. Depois de quase 50 festas ininterruptas e da expressiva adesão do público, o lugar se tornou ponto de encontro e reúne artistas dos quatros elementos da cultura hip hop. MCs, grafiteiros, DJs e B.boys trocam trabalhos e idéias, no maior fenômeno espontâneo da cidade, que vem ganhando cada vez mais reconhecimento, inclusive de outras tribos urbanas e do poder público.

“Esse tipo de evento era pra ser cotidiano, deveria fazer parte da vida cultural da cidade. O melhor do duelo é que ocorre na rua, pra todo mundo, e aparece gente do reggae, do punk, do rap e de várias regiões”, comenta Luiz Gustavo Meza Silva, o rapper Gurila Mangani. Músico e produtor eclético, que transita entre o dub, hip hop e post rock, ele elogia a habilidade poética dos MCs que enfrentam a batalha. “Encaro o freestyle sozinho, mas não a batalha”, diz sobre o ritual que coloca frente a frente dois mestres de cerimônias (MCs). Eles têm que rimar a partir de um tema e conquistar o público. O mais aplaudido vence o duelo, e leva pra casa troféu estilizado e artesanal, criado exclusivamente para o evento.

O êxito dos encontros motivou os organizadores a criar a Associação Família de Rua, que quer agora aumentar a capacidade da produção e viabilizar captação de recursos para adquirir melhor infra-estrutura. O grupo também produz pocket shows, abre espaço para performances de DJs e divulga outros eventos durante a festa. A inspiração veio da Liga dos MCs, evento nacional que passou por Belo Horizonte ano passado e mobilizou a juventude. “Criamos um espaço para se tornar ponto de encontro para as pessoas trocarem experiências, conversar, mostrar o que estão fazendo. Realizar todas essas edições de forma ininterrupta é uma vitória. Quando começamos, não tínhamos nem o ponto de energia pra ligar os equipamentos”, conta Leonardo Cezário, integrante do coletivo de realizadores, que conta ainda com Felipe Tales, Pedro Valetin, Fernando Castilho, Mateus Lima e Daniel Tocha, entre outros. Segundo eles, a prefeitura já concedeu alvará, iluminação, limpeza e segurança, mas ainda faltam banheiro químico e outros itens indispensáveis para maior comodidade do público.

Presença cativa na platéia, mas ressentida no palco, as mulheres ainda não se dispuseram a levar rimas para o duelo. Para a MC Áurea Carolina, do grupo Dejavuh, elas são menos competitivas que o homens e não gostam do “esculacho”. “Não há regras e às vezes ocorre ofensa. Mesmo sendo de brincadeira, é preciso criar certos parâmetros”, observa. Graduada em ciências sociais, ela elogia a iniciativa. “O duelo é agregador, criou um evento político, de ocupação de espaço e de encontro”. Rapper do grupo Crime Verbal e do coletivo Nospegaefaz, Blitz acrescenta: “Somos uma cultura de rua e estes encontros ajudam a legitimar um espaço importante, que é para todos, e tem sido aproveitado com música e poesia, sem qualquer tipo de problema”, diz.

DUELO DE MCS
Em frente da Serraria Souza Pinto, Centro. Hoje, a partir da 20h. Aniversário
de um ano. Entrada franca.

PRISÕES


Polêmica sobre uso de algemas continua viva

Hélio Mantini da Cunha – Belo Horizonte

“Ao proibir o uso de algemas (ferramenta de trabalho) aos policiais no cumprimento de suas árduas tarefas profissionais, a meu ver, não foi decisão infeliz do Supremo Tribunal Federal (STF). Certamente, essa regra está sendo implantada para proteger a imagem dos ‘bandidos de colarinho branco’, pois, com certeza, pessoas comuns jamais teriam influenciado a medida. Cabe aos políticos, antes de aprovar tal decisão, lembrarem-se de que o policial, quando efetua uma prisão ou transporta algum preso para ser ouvido, não tem condições de avaliar naquele momento o ‘estado de espírito’ e possíveis reações do conduzido e, portanto, sem algemas, estará arriscando sua integridade física e também de outras pessoas. A lei foi feita para todos, ricos e pobres, famosos e desconhecidos. Portanto, quem não quer ser algemado que não cometa delitos.”

Algemas do retrocesso

Sociedade não pode aceitar tentativa de restabelecer o estado policial

O fato de ter sido tomada em meio ao grande impacto que a prisão de um banqueiro, uma megainvestidor e um ex-prefeito de São Paulo, todos amplamente expostos pela mídia, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de dar orientação ao uso mais civilizado de algemas, tem sido maldosamente usado por pessoas inescrupulosas. Ficou aparentemente fácil turvar a real importância e validade da posição da mais alta corte do país, sob o discurso tão inconsistente quanto calhorda de que “a Justiça se preocupou com o assunto porque pessoas ricas e de destaque na sociedade passaram a ser presas”. É um desserviço à inteligência jurídica do país e ao avanço institucional que a cidadania brasileira tem conseguido, desde a volta do estado de direito e das boas práticas republicanas. Por isso mesmo, não podem ser acolhidas iniciativas que, insensata ou equivocadamente, atiram contra a postura técnica e eticamente irretocável dos ministros do STF.

Na verdade, o STF determinou, na sessão plenária de 7 de agosto, que o uso de algemas não deve ser a regra e, sim, a exceção, ao julgar pedido de habeas corpus para a anular uma decisão judicial contra Antônio Sérgio da Silva, condenado a 13 anos de cadeia por homicídio triplamente qualificado. Sua defesa alegou que o fato de o réu ter ficado algemado durante o julgamento teria prejudicado sua defesa. Ao concluir que não pode usar algemas com o intuito de constranger, condenar moralmente ou espetacularizar o ato da prisão, o STF preparou uma súmula vinculante à qual aderiram todos os 11 ministros. Para a corte não restou dúvida de que o uso abusivo de algemas nos atos policiais fere princípios fundamentais estabelecidos na Constituição Federal e, portanto, deve se restringir aos casos de risco de fuga ou de perigo de morte dos agentes e cidadãos.

É, portanto, inaceitável a atitude de pessoas que, por sua posição e nível de conhecimentos, deveriam defender e valorizar os ganhos da cidadania, nada mais fazem do que produzir aberrações que lembram os tempos da ditadura e tentam impor um estado policial em nada compatível com a democracia e o respeito humano. É o caso do deputado Marcelo Itagiba (PMDB-RJ), delegado licenciado da Polícia Federal, que pretende bancar um projeto de lei que autoriza a autoridade policial cometer exatamente a barbaridade condenada pela Justiça. Quer simplesmente anular a súmula vinculante do STF e devolver à truculência policial seu antigo instrumento de auto-afimação com que praticava a humilhação e o constrangimento de qualquer um que, mesmo tendo rumo certo e sabido e nem prestado ainda depoimento, recebia tratamento que nem às feras se usa mais dispensar. A quem serve o senhor Itagiba ou a que propósitos se vincula seu inoportuno projeto não se sabe ao certo. O que a cidadania só pode esperar é que a maioria dos homens de bem, que só está nas bancadas do Parlamento graças à democracia que os elegeu, rejeite o estado policial e repudie a truculência, condenando ao lixo do esquecimento e do desprezo essa tentativa de retrocesso.

Ditadura da beleza


Exigência de que atores e cantores se enquadrem em padrões estéticos é cada vez maior. Não é privilégio da China, onde a intérprete mirim emprestou sua linda voz à garota bonita
Gracie Santos
Emmanuel Pinheiro/EM/D.A Press
Sylvia Klein: “Olham para mim e pensam: ‘Agora vamos ver se ela canta!'”

Há quem diga que o palco transforma qualquer mortal em beldade. Ou quem peça desculpa aos feios, como o poeta, e sentencie: “Beleza é fundamental”. Da mesma forma que recordes e medalhas, um episódio chamou a atenção na abertura dos Jogos Olímpicos na China: o das meninas Yang Peiyi e Lin Miaoke. A primeira “emprestou” a bela voz à segunda, dona de belo rosto e sorriso. Juntas, espelharam a perfeição. Descoberta a “farsa”, muitos se sentiram traídos. Mas “esconder” o “feio” não é exatamente uma invenção chinesa. É algo mais que recorrente num mundo onde impera a ditadura do belo. E isso, claro, interfere diretamente na vida de profissionais do palco. De um lado estão os “privilegiados”, com traços harmoniosos e talento. De outro, os fora-do-padrão, que vencem preconceitos com muita competência e chegam ao Olimpo, ainda que não sejam nenhuma Afrodite.

Episódio recente marcou o meio do canto lírico em Minas, mais exatamente a montagem de O escravo, de Carlos Gomes, com produção e direção de Fernando Bicudo. Sylvia Klein, que interpretava a condessa (uma francesa jovem, bela e má), conta que eles tiveram dificuldades para encontrar uma cantora que se adequasse ao papel da escrava, no libreto uma mulher encantadora, que venceria a condessa em disputa amorosa. Foram forçados a contratar alguém muito diferente da personagem. E a soprano mineira lembra que, por isso, não conseguiram criar um clima na ópera: “O público não aceitava, considerava absurdo a francesa ser trocada por uma mulher bastante gorda, que não tinha as características da escrava”, recorda Sylvia, chamando a atenção, no caso, para a importância de a montagem ser convincente.

Bonita e talentosa, a soprano mineira admite que o fato de atender os padrões estéticos possa ter ajudado em algum momento de sua trajetória, mas avisa que sofre outro tipo de preconceito: “Olham para mim e pensam: ‘Agora vamos ver se ela canta!’” O caso das meninas de Pequim é considerado absurdo por Sylvia: “Não havia um personagem sendo interpretado. Certamente, todo mundo se encantaria pela criança que cantava tão bem. Não havia uma história. Qualquer um fica bonito no palco, não é questão de beleza, mas de como você se porta”, defende. A cantora acha que a ditadura da beleza tem sido cada vez mais cruel: “É assim em toda parte do mundo, e vai ficar pior. Essa exigência é uma tortura. As pessoas estão se padronizando esteticamente, ficando sem personalidade. Parece um filme de terror”, acusa. E revela que, atualmente, andam aconselhando os cantores excessivamente gordos (que sempre fizeram história no meio) que façam regime. Foi assim com uma amiga que fez testes na Europa. “Mandaram ela emagrecer”.

Beto Novaes/EM/D.A Press
Paulo Babreck superou preconceitos contra sua estatura, de 1,60m, para ser bailarino

FORA DOS PADRÕES Atriz do Galpão que passou temporada no Cirque du Soleil, Teuda Bara conta que ficou frustrada quando soube que a menininha linda que a havia emocionado na abertura dos Jogos Olímpicos não cantava nada. Tudo em nome da beleza, “o que já está se tornando uma espécie de escravidão”, afirma, dizendo se preocupar com a menina excluída. E conta fato recente, ocorrido com uma sobrinha, que se formou em comunicação e foi convidada para teste de repórter em uma grande emissora de TV. “Ela é bonita, escreve bem, mas não conseguiu. Soube que o problema eram as cicatrizes de queimadura que tinha na mão”. Teuda acha que no Brasil a discriminação é pior que no exterior. “Até porque, há leis garantindo certos direitos fora daqui”.

Desde jovem Teuda teve seios muito grandes e sua mãe mandava que ela os prendesse (“amarrava apertado”). Tinha também uma cicatriz feia, que lhe rendeu o apelido de “perna podre”. “Se você der bola para essas coisas, enlouquece. Chutei o pau da barraca, fiz o que queria. Sempre fui atirada, subia em mangueira, nos telhados. Aos 25 anos, fui criticada por comprar um vestido (uma sobressaia que usava com botas). Disseram que eu estava velha para aquela roupa”, recorda. Mas Teuda perseguiu seu sonho e se tornou atriz. E no seu caso, o tipo físico fora dos padrões acabou sendo motivo de convite para trabalhar fora do Brasil, no Cirque du Soleil. “Viram-me fazendo a ama em Romeu e Julieta. Queriam alguém com meu tipo, mas com certeza o preconceito está em toda parte”, afirma.

Baixinho O bailarino Paulo Buarque “Babreck” sempre enfrentou problemas por ser baixinho. “Por causa da minha altura (1,60m), matava um leão todo dia no Balé Guaíra, em Curitiba”, garante. Babreck não tem dúvidas: “Um cara como eu só venceu porque tecnicamente era muito bom”. Ele diz que tinha todas as qualidades técnicas para a dança clássica, mas se colocassem uma bailarina de sua altura e eles tivessem que fazer um pas-de-deux, ela logo ficava mais alta. Babrek acha que no Guaíra contou também com a sorte. “Naquela época, era uma companhia diversificada, tinha gente de toda altura”. Com o tempo, o bailarino, hoje professor da Fundação Clóvis Salgado, foi encontrando seu lugar: “Passei a ser solista, fazer os papéis de caráter (personagens), inclusive cômicos”. No caso das meninas chinesas, Babreck acredita que o fato ocorrido tenha a ver com o fato de a China estar tentando incorporar conceitos do Ocidente. “Talvez na rotina eles nem ajam dessa forma ainda, queriam se mostrar grande potência. A garota cantava bem e eles colocaram a bonita para aparecer. Afinal, isso não é o mesmo que se faz no Brasil com carinhas lindas em novelas medíocres?”, questiona.

Divulgação/Cirque du Soleil
Teuda Bara foi convidada para o Cirque du Soleil por seu tipo físico fora dos padrões

O CAOS

A psicanalista Inez Lemos acredita que, se prevalecer “essa ideologia do belo, será o caos, o fim do mundo”. Ainda que a beleza sempre tenha sido louvada (“tanto que há na mitologia a deusa Afrodite e a da feiúra não existe”), ela acha que vivemos um retrocesso: “Podemos dizer que a sociedade regrediu e está outra vez tentando criar uma nova raça superior”. E o que mais estaria por trás dessa sacralização da beleza? “Uma questão de mercado, econômica. Pessoas vulneráveis e fúteis vão demandar objetos de consumo. E também uma questão política. Afinal essa é uma forma moderna de exclusão”, analisa. Para Inez, “a propaganda de padrões estéticos esconde estratégia de manutenção da insatisfação do sujeito, que vai ter que comprar o que lhe dá prazer”. E o que faz com que pessoas fora dos padrões vençam no palco ou na TV? “Elas são bem resolvidas, com história de superação de conflitos internos. Alguém saudável aceita suas limitações, as supera e avança”.

Aluno de baixa renda ganha espaço nas universidades


A Folha de S. Paulo publica nesta segunda-feira (18) que puxada pelo ProUni, pelo aumento de vagas e pelo alargamento da classe média, a participação de alunos de baixa renda no ensino superior do Brasil cresceu nos últimos anos. De 2004 a 2006, a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) registrou um aumento de 49% na proporção de universitários com renda familiar mensal de até três salários mínimos -de 10,1% para 15,1%, segundo dados tabulados pelo pesquisador Simon Schwartzman, do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade).



Puxada pelo ProUni, pelo aumento de vagas e pelo alargamento da classe média, a participação de alunos de baixa renda no ensino superior do Brasil cresceu nos últimos anos.


De 2004 a 2006, a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) registrou um aumento de 49% na proporção de universitários com renda familiar mensal de até três salários mínimos -de 10,1% para 15,1%, segundo dados tabulados pelo pesquisador Simon Schwartzman, do Iets (Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade).


Na população em geral, a proporção de pessoas com essa faixa de renda subiu apenas 8%.


Embora tenha ganhado mais espaço, esse segmento ainda está subrepresentado no ensino superior, já que, em 2006, o total de brasileiros com renda de até três salários mínimos era muito maior -55,2%.


Considerando a baixa base de comparação, especialistas apontam que o ProUni tem impacto significativo no movimento de ingresso de alunos mais pobres no ensino superior: em 2006, entraram 360 mil alunos de baixa renda a mais do que em 2004; o programa do governo federal, que começou em 2005, ofereceu 204 mil bolsas no período.


Regina Vinhaes, da UnB (Universidade de Brasília) acrescenta que, nos últimos dez anos, a oferta de vagas no ensino superior mais do que quadruplicou, puxada principalmente pela rede particular.


Ryon Braga, da Hoper Consultoria, aponta ainda a ampliação do financiamento educacional e a queda dos preços cobrados por instituições privadas como explicações. Estudo feito por ele mostra que, em 1996, o valor médio da mensalidade era de R$ 840, em valores corrigidos. Hoje, é de R$ 427.


A médio e a longo prazo, porém, a sustentabilidade desse movimento de abertura do ensino superior à população de baixa renda ainda é incerta.


”Uma dificuldade para a expansão é que o ensino médio não está formando gente suficiente, e o ProUni já tem dificuldade de encontrar candidatos”, aponta Schwartzman. ”Além disso, vai depender da capacidade das pessoas de pagarem, o que vai depender, também, da economia”, afirma.


Desde 2000, o patamar de alunos que concluem o ensino médio está estacionado em cerca de 2 milhões. Já o ProUni tem alto índice de bolsas ociosas -39% na última seleção.


Responsável pelo programa, o secretário de Educação Superior do Ministério da Educação, Ronaldo Mota, argumenta que os jovens egressos do ensino médio são apenas parte do público que passou a entrar na universidade. ”Mais de 40% dos ingressantes vêm do mundo do trabalho, já se formaram há muito tempo e não tiveram oportunidade na época”, diz.


Líder de uma associação que reúne bolsistas do ProUni, Adriana Ferreira, 42, é um exemplo tanto do quadro traçado pelo secretário como das limitações do programa.


Ex-assistente administrativa em Minas, ela entrou na universidade 22 anos após se formar no ensino médio. Separada, mãe de três filhos e com renda de um salário mínimo, ela diz que, sem o ProUni, não conseguiria se manter por três semestres no curso de letras.

Por problemas de saúde, porém, parou de trabalhar, ficou inadimplente e perdeu a sua bolsa, que era parcial. Adriana lamenta -”eu ia ser a primeira pessoa a ter nível superior na minha família”-, mas diz que só tentará voltar à universidade se conseguir um salário melhor. ”Mesmo se eu tivesse bolsa integral, teria problemas para pagar a locomoção e a compra do material.”


Enade


O aumento do total de pessoas de baixa renda no ensino superior é corroborado pela comparação entre os questionários socioeconômicos respondidos nas edições de 2004 e de 2007 do Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes), que avaliou as áreas de saúde, ciências agrárias e serviço social -USP e Unicamp não participam.


Nesses cursos, a proporção de calouros com renda de até três salários mínimos cresceu de 24% para 40%. O percentual é maior na rede privada do que na rede pública -37% contra 31%, respectivamente.


Se forem consideradas as áreas examinadas, medicina tem a maior proporção de alunos que cursaram todo o ensino médio na rede privada -80,9%.


Já no curso de serviço social, os estudantes oriundos da escola particular são minoria -apenas 15,4%.
”Em medicina, as universidades públicas oferecem muito poucas vagas, e as particulares são muito caras”, afirma Ryon Braga.


Fonte: Folha de S. Paulo



Conexão histórica


Acervo do escultor e colecionador português Acácio Videira, com importantes peças do povo lunda quioco, aguarda catalogação e interesse de museus ligados à arte e cultura africanas
Walter Sebastião
Fotos: Maria Tereza Corrreia/EM/D.A Press
O português Acácio Videira (1918-2008) morou em Angola por quase 30 anos. Na África, cuidou de adquirir peças dos nativos para o museu de uma companhia de diamantes. Em 1975, devido às guerras angolanas, transferiu-se para o Brasil e, a partir de 1986, morou em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Naturalizado brasileiro, recebeu o título de cidadão honorário da cidade.

Acácio criou elaboradas esculturas. As ricas referências da fonte que as inspirou – a arte do povo lunda quioco – extrapolam o estritamente artístico e sugerem um estudo etnográfico. Pouco conhecidas, as peças já foram apresentadas em discretos e esclarecedores eventos, que chamaram a atenção para o artista-pesquisador.

O acervo de Acácio – em poder do filho, José Manuel Primo Videira – guarda preciosas informações sobre a obra do homem que encantou Câmara Cascudo. Em carta, o importante pesquisador de cultura popular lhe ofereceu apoio. As criações artísticas somam mais de 200 exemplares, entre esculturas, guaches, aquarelas e projetos de ilustração para livros (sobre armadilhas, cestaria e motivos decorativos).

Ainda a ser inventariada, a coleção é extensa: são 350 peças africanas (máscaras, cestos de adivinhação, pentes, esculturas, cachimbos, facas, instrumentos musicais e adornos); cerca de 2 mil fotos (de festas, artistas, tatuagens, chefes de comunidades e figuras religiosas); um caderno com dezenas de desenhos feitos por Acácio, com pinturas, murais, sinais e símbolos. Há também um documentário em super-8. O acervo está guardado na casa de José Manuel Videira, no Bairro Havaí.

Esse material traduz meditada observação e o registro da vida e da cultura dos lunda quiocos. Os itens são acompanhados de fichas de identificação, com informações sobre escalas, autores, técnicas e materiais. Muitas delas foram empregadas na obra artística do próprio Acácio.

Emoção “Meu pai se apaixonou por um povo simples, humilde e sofredor, como os índios no Brasil. Ele se entregou a tudo isso por emoção”, conta José Manuel Videira, que sonha em reunir o acervo “em museu cultural, artístico, etnográfico e histórico”. Ele tem conversado com historiadores, sociólogos e críticos de arte. “Não gostaria de vender as peças isoladamente, nem gostaria de ser passado para trás”, afirma, defendendo negociações a partir da análise de especialistas.

José Manuel lembra a privação que o pai experimentou no Brasil. Não conseguiu se afirmar como artista, o que o levou à depressão. Mas não esconde a satisfação com as homenagens que Acácio vem recebendo. Belo Horizonte, graças ao crítico Márcio Sampaio, assistiu à exposição pioneira dele. Outra mostra, no Hospital Felício Rocho, realizada quando o pai estava prestes a morrer, foi emocionante. “Vi faxineiros, vigias, ajudantes de enfermagem e pessoas muito simples, que nunca tinham entrado numa exposição, com lágrimas nos olhos”, conta.

Artista e pesquisador Acácio Videira morreu em fevereiro, às vésperas de completar 90 anos. Ainda jovem, no Porto (Portugal), começou a cursar belas-artes, mas os estudos foram interrompidos quando o Exército o convocou para servir na Ilha de Açores. Lá ficou por 30 meses. Com o fim da 2ª Guerra Mundial, voltou para Portugal e conheceu Maria da Conceição. A família o enviou para Angola, para afastá-lo da moça, mas não adiantou. Os dois se casaram posteriormente.

Na África, começou a fotografar. Empregado de uma companhia de exploração de diamantes, ele trabalhou no museu etnográfico da empresa. Mais tarde, tornou-se responsável por visitar as tribos e adquirir peças. “Certa vez, pechinchando com povos que mal tinham visto um branco, propôs que o valor da peça fosse decidido por Deus. Com um truque de mágica, fez aparecer a nota em sua mão”, conta José Manuel.

Outra função de Acácio Videira era organizar festas com os nativos, por ocasião da visita de personalidades à companhia. Foi assim que conheceu os antropólogos brasileiros Gilberto Freyre e Câmara Cascudo. Câmara lhe fez uma recomendação: “Não leia nada sobre arte africana, escreva somente sobre o que você viu”. O conselho foi seguido à risca.

DELINQÜÊNCIA


Idéias para combater formação de gangues

Lélio Braga Calhau – Promotor de Justiça do Ministério Público do Estado de Minas Gerais – Belo Horizonte

“O Brasil tem vivido sérios problemas na área de segurança urbana. O avanço da criminalidade violenta gerada pelos confrontos entre gangues e dessas com a força pública tem sido cada vez mais evidente. O que se vê, cada vez mais, são gangues ousadas e violentas na ‘defesa’ de seu território e na violência de seus ataques (ex: chacinas). Estudos criminológicos revelam a dificuldade de se diagnosticar e reprimir efetivamente as ações das gangues. O problema supera o enfoque da segurança pública, pois se inicia no seio das comunidades carentes. No Brasil, estudos criminológicos sobre o tema têm sido feitos, demonstrando que ainda temos muito que aprender sobre o tema. Cathy Ward, especialista-chefe de Pesquisa do Grupo de Desenvolvimento da Criança e da Família do Conselho de Pesquisa em Ciências Humanas da África do Sul, fez um recente alerta no site Comunidade Segura: ‘Não há nenhuma maneira cientificamente comprovada de resolver o problema das gangues. É mais fácil estudar uma, ou mesmo uma centena de crianças, do que estudar uma gangue’. No sistema de defesa social, trabalhamos com a expressão ‘monitorar a ação das gangues’, aliás, recorrente na mídia e utilizada por diversas autoridades. O problema de se monitorar a ação das gangues faz com ele seja atacado quando já existe, criando um abismo no diálogo entre os envolvidos. Precisamos, então, antecipar essa intervenção. O programa Fica Vivo busca romper, em várias cidades do estado, esses paradigmas unicamente repressivos. Quais são as origens dessas gangues? Como elas surgem no meio social e quais são os seus mecanismos de recrutamento? Como são substituídos os seus membros? Até que ponto a participação de uma pessoa numa gangue deixa de ser um ato anti-social para se tornar um crime? Temos muitas perguntas e queremos, todos, respostas. Muitas pessoas mantêm posturas claramente pessimistas quando afirmam que não há solução para as gangues. Talvez não exista quando pensamos apenas no foco da repressão penal. Ações como o Fica Vivo e centenas de outras em diversos países têm demonstrado que o resgate dessas pessoas é possível, provando que o problema das gangues pode ser equacionado.”

Violência doméstica

Vera Lúcia Nascimento Moreira – Psicóloga, mestranda em psicologia social (PUC Minas)
A Lei Maria da Penha (11.340/06), que cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, entre outras providências, acaba de completar dois anos. Por todo o Brasil, as comemorações se espalharam, com manifestações de movimentos feministas, discurso da ministra Nicéia Freire, notícias em jornais e revistas etc. Na oportunidade, foi tornada pública uma pesquisa realizada pelo Ibope/Themis – essa última a ONG Assessoria Jurídica e Estudos de Gênero. O objetivo principal da pesquisa foi verificar se a sociedade tem consciência e percepção da magnitude do problema da violência doméstica e, segundo o estudo, 68% dos 2.002 entrevistados conhecem a lei e 83% acreditam que a legislação ajuda as mulheres que sofrem violência.

Na realidade, a Lei Maria da Penha representa grandes avanços na luta das mulheres contra a violência doméstica, tanto na tipificação dos crimes quanto nos procedimentos judiciais ou policiais. No entanto, as leis por si só não conseguem acabar com os problemas de violência doméstica, mas fortalecem e dão resposta a uma luta feminista e social para o enfrentamento da violência de gênero. Além da definição de violência doméstica, a lei trata, pela primeira vez em um texto legal, de forma detalhada, da definição de violência psicológica. O artigo 7º, inciso II, determina: “A violência psicológica, entendida como qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da auto-estima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”. Esse tipo de violência não deixa marcas no corpo físico, pois suas cicatrizes são invisíveis a olho nu, mas fere a mulher na alma, destrói seus valores como pessoa humana e sua auto-estima. Viver com medo e aterrorizada prejudica a saúde mental da mulher, provoca doenças psicossomáticas, baixo rendimento no trabalho e pode levá-la ao suicídio.

As pesquisas apontam que, muitas vezes, o homem, antes de agredir fisicamente a mulher, precisa baixar a auto-estima feminina, de tal forma que ela tolere as agressões físicas. A pesquisadora Heleieth I. B. Saffioth afirma, por exemplo, que qualquer que seja a forma assumida pela agressão, a violência emocional está sempre presente, e cita como exemplos inaceitáveis para as mulheres o fato de os homens quebrarem objetos e rasgarem suas roupas, destruindo, de alguma maneira, sua identidade. Esse tipo de violência ocorre em diferentes níveis socioeconômicos, mas sabe-se que fatores como baixa renda e dificuldades financeiras favorecem variações na estabilidade do vínculo afetivo, assim como comportamentos agressivos variados. Os profissionais que lidam diretamente com mulheres, como médicos, assistentes sociais, psicólogos, seja na saúde, em delegacias ou em outros segmentos da sociedade, devem estar atentos, porque a identificação da violência psicológica pode estar diretamente ligada às medidas preventivas de enfrentamento da violência contra a mulher.

É necessário tirar a invisibilidade da violência psicológica contra a mulher, trazendo-a para discussões mais abertas no âmbito público, no sentido de mostrar que esse tipo de agressão também causa males em todos os membros da família. Os filhos, com certa freqüência, assistem às agressões sofridas pelas mães e crescem em um ambiente conturbado e perturbador do ponto de vista de saúde psíquica. Sabe-se que crianças que crescem em ambientes desse tipo podem desenvolver atitudes semelhantes, quando na idade adulta, repetindo o ciclo de violência. Há muito se esperava uma legislação que reconhecesse a questão de gênero que está diretamente ligada à violência contra a mulher. A perpetuação da idéia socialmente construída de que homens são superiores às mulheres criou o pensamento da dominação destes sobre essas.

Ares de Liberdade

“Quando falamos que a pessoa é livre para escolher não significa que qualquer escolha lhe trará benefícios”


Antônio Roberto
antonio.roberto@uai.com.br

Se olharmos os animais, um cachorro, um gato, um cavalo, veremos que eles vivem, mais ou menos, do mesmo jeito. Eles se alimentam, dormem, procuram proteção e se reproduzem. Eles são guiados por seus instintos e procuram apenas a própria sobrevivência. Por isso mesmo são treinados facilmente por seus ambientes. Qual seria, pois, a diferença entre nós e os animais? Também nos alimentamos, dormimos, fazemos sexo e procuramos sobreviver. A grande diferença é que nós, seres humanos, temos uma faculdade ausente nos animais chamada de liberdade.

O que nos faz pessoas é a capacidade de escolher. Ser livre não significa poder fazer tudo o que queremos ou tudo o que vem na nossa cabeça. Ser livre é assenhorar-se da nossa marca fundamental: a escolha. Quando abrimos mão dessa prerrogativa, nosso mundo se fecha, tornamo-nos escravos das circunstâncias e vivemos a sensação da leitora acima de estar presos, acorrentados, impotentes e deprimidos. Quando abdicamos de nosso querer, caímos na postura da vítima. Essa postura consiste, sobretudo, em culpar o destino e as outras pessoas por nossa infelicidade. As pessoas fazem escolhas erradas, não aprendem com elas, repetem as mesmas escolhas e a responsabilidade é da falta de sorte.

Somos tão inconscientes de nossa liberdade que quase sempre nos sentimos sem opções na vida. Acostumamo-nos na mesmice e no medo de mudar que, pouco a pouco, vamos criando nossas prisões e nos sentindo sem alternativas. Por outro lado, ser livre em uma sociedade marcada pelo controle, pela dominação, pela vontade das pessoas mandarem umas nas outras não é fácil. Temos de lutar bravamente por nossa autonomia, por nosso direito de desejar e escolher.

O medo de não sermos amados, da solidão, da rejeição e de desagradar não são bons companheiros para quem deseja fazer-se livre e, por conseqüência, ser feliz. Ser livre é querer ser compreendido. Ao mesmo tempo, é complicado. Diz a leitora: “estou envolvida em tantas obrigações…”. Obrigação é coisa de escravos, de submissões e de fantoches. Há uma grande diferença entre “eu tenho que…” e “eu quero”. As pessoas, em geral, e é um grande erro, imaginam a própria vida, um grande “tenho que…”. Elas têm que trabalhar, ir ao dentista, acordar cedo, ganhar dinheiro, fazer compras, transar, visitar outras pessoas etc. O certo é que não temos que fazer nada. Tudo são escolhas. Quando aquilo que chamamos de obrigações são resultado de nosso desejo, e, portanto, de nossa escolha torna-se devoção, por mais árduas ou dolorosas que elas sejam.

Certa ocasião, em um seminário de desenvolvimento comportamental, tentava mostrar aos participantes essa forma de ver a vida. Um rapaz, que se encontrava em um processo avançado de estresse, retrucou: “Não concordo! Eu sou obrigado a trabalhar. Se não for, todos os dias, à empresa, serei repreendido, não terei dinheiro no fim do mês, minha mulher brigará comigo e meus filhos passarão necessidades”. Ao terminar, eu lhe disse: “Ir ao trabalho é uma escolha sua. Você prefere ir trabalhar em vez de escolher as conseqüências terríveis de não ir. Mesmo assim, você tem a liberdade de não ir”. Toda opção tem uma conseqüência. Quando falamos que a pessoa é livre para escolher não significa que qualquer escolha lhe trará benefícios. E é exatamente a experiência com as conseqüências que irá nos mostrar, no decorrer da vida, o acerto ou a inadequação de nossas escolhas.

Todos nós, portanto, temos possibilidades de fazer coisas melhores em nossas vidas. Se estivermos sofrendo, se estamos insatisfeitos não podemos cair na trama da resignação. Muitas de nossas escolhas foram equivocadas e mudá-las é o caminho. Podemos fazer grandes avanços na nossa realização pessoal e dar passes significativos no nosso crescimento.

Jovens Rurais

Realidade das cidades não é tão promissora assim para os jovens

A cada dia que passa, há mais pessoas consumindo alimentos do que agricultores produzindo no campo. Estudos mostram que, em 1960, cada agricultor no Brasil produzia para 12 pessoas. Hoje, um agricultor produz para mais de 30 pessoas. Em outros países, esta relação é ainda mais acentuada. Mesmo com os avanços da tecnologia, nos últimos 10 anos houve um aumento de 24% na área plantada com grãos. Outro desafio é produzir de forma sustentável, ou seja, sem degradar o meio ambiente, com menor custo e mais qualidade e segurança. Para acompanhar as transformações mundiais e garantir prosperidade no campo, a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Estado de Minas Gerais (Emater-MG) criou o Projeto Transformar, que busca formar uma nova juventude rural.

Não queremos perpetuar políticas equivocadas, que pretendem fixar o jovem no campo. Fixam-se postes, alicerces de construções… Já as pessoas, os cidadãos, devem ser livres e isso inclui a escolha de elas ficarem ou não no campo. Mas para elas decidirem ficar no campo, é preciso educação, lazer, comunicação, boas vias de acesso e saúde. Se prestarmos atenção às políticas públicas das últimas décadas, vamos ver que quase tudo é direcionado ao meio urbano. Conjunto habitacional – na cidade, luz elétrica – na cidade, quadra de esportes – na cidade e assim vai. Com isso, é mais atrativo para os jovens irem para as cidades.

No entanto, a realidade das cidades não é tão promissora assim para os jovens. Drogas, violência e falta de escola e emprego são alguns dos problemas atuais enfrentados pela juventude. Conforme pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e Instituto Pólis, a primeira preocupação da juventude é uma educação com qualificação para arrumar trabalho. “Uma escola que caiba na vida”, mais integrada com a realidade das comunidades e capaz de preparar os jovens para o mercado. E é assim que a extensão rural, que é uma educação não-formal, cuja sala de aula são os campos, as lavouras, busca formar uma nova classe rural, mais consciente, com mais oportunidade e mais empreendedora. O Projeto Transformar utiliza um sistema de alternância, no qual parte da carga horária é teórica e a outra prática no campo, junto com os agricultores e extensionistas rurais. E, no final do curso, constroem um projeto econômico aliado às principais cadeias produtivas, com condição inclusive de se acessarem políticas públicas, como financiamento pelo Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf). E, assim, temos convicção de que teremos não novos produtores rurais, mas novos empreendedores rurais.

Nação Hip Hop Brasil reúne 200 jovens para debater violência



Santo André foi a primeira cidade a receber a campanha “Educação ou Camburão?”. A atividade aconteceu nesta quarta-feira (13), e reuniu mais de 200 pessoas na escola Adib Chamas.



Atividade envolveu a comunidade escolar

Com o propósito de discutir e apresentar soluções para conter a onda de violência em todo o estado representantes de diferentes áreas mandaram seu recado. Estavam presentes à mesa o presidente estadual da Nação, Mano Oráculo, Zé Preto, do Conselho Municipal da Juventude, Marcelo Buraco, do Conselho Nacional da Juventude, Bruno, da União Municipal dos Estudantes Secundaristas (Umes), e Sérgio, representando a prefeitura municipal pela secretaria de governo.

Entre os presentes também estavam Nerinho, presidente municipal da Nação de Santo André, Alex, presidente do grêmio da escola Abid Chamas, o coordenador do sindicato dos Correios, Ricardo Adriane (Nego Peixe), e as diretoras do Sintratel, Vágna e Ciléia.

Para Oráculo, o evento mostrou a força da Nação na cidade e a vontade de todos em encontrar soluções para toda essa violência instalada. “A educação é o melhor ‘arma’ contra o camburão e a prisão. É fundamental as escolas oferecerem um ensino de qualidade e digno para as crianças e jovens”, avalia.

Segundo ele, o evento superou todas as expectativas pretendidas. “Conseguimos reunir um ótimo público em Santo André, começamos com o pé direito essa campanha”.

Além das discussões sobre o assunto o evento mostrou um pouco sobre a cultura Hip Hop com apresentações de break e freestyle. A próxima atividade da campanha será neste domingo (17) na cidade de Ribeirão Pires, ás 14 horas, na Camâra Municipal (próximo à estação de trem).

Fonte: http://www.nacaohiphopbrasil.com.br/


Algemas Mentais

Cristovam Buarque – Senador
Só agora, no século 21, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que a polícia não pode constranger um cidadão, colocando-lhe algemas desnecessariamente. A demora não foi por maldade dos juízes. Eles simplesmente não tinham notado ainda a existência das algemas no cenário policial brasileiro. Elas eram invisíveis nos pulsos de centenas de presos que aparecem todas as noites no noticiário. Foram necessários 400 anos de correntes de ferro maltratando escravos, durante a Colônia e o Império, e 120 anos de República, para que os juízes brasileiros percebessem as algemas que estavam nos punhos de pobres sem bermuda, sem camisa, inclusive nas últimas décadas, nas telas da televisão, quase todos os dias. Esse atraso na percepção não decorre apenas da falta de sensibilidade que caracteriza a elite brasileira, mas também do fato de que, na nossa lógica jurídica, os juízes só vêem o que é mostrado sob a ótica e o argumento de advogados. Temos uma parte da população invisível aos olhos da elite, inclusive parlamentares, juízes, políticos, professores universitários. Não temos justiça, temos um marco legal. E ele depende da capacidade dos advogados que representam os réus. Quando a ilegalidade é cometida contra quem paga um bom advogado, os juízes do Supremo tomam a decisão e, democraticamente, determinam que o benefício da legalidade amplia-se para toda a população. A Justiça não é discriminatória contra os pobres; simplesmente, eles são invisíveis para ela. Os olhos vendados da deusa da Justiça só percebem parte da realidade, aquela que chega a eles pelos argumentos dos bons advogados, representando a parte rica da sociedade que pode pagar altos honorários.

Foi preciso que a Polícia Federal usasse algemas em suspeitos ricos e bem vestidos, e que seus advogados protestassem, para que elas fossem percebidas e abolidas tanto nos ricos quanto nos pobres. Sorte do pobre, quando seu julgamento coincide com o processo contra um rico pela mesma causa. Não ser atendido e morrer na porta de um hospital, por falta de dinheiro ou de seguro médico, não é ilegal; portanto, a Justiça brasileira não vê, nem age. Até que um rico brasileiro morra na porta de um hospital e um bom advogado entre com processo pedindo indenização para seus herdeiros. Só assim será possível que a Justiça se pronuncie considerando ilegal a omissão de socorro, tanto para o rico que provocou o assunto, quanto para os pobres que, democraticamente, receberiam os benefícios das legalidades. Não por justiça, mas porque o fato ficou visível e adquiriu uma lógica legal. Sem o advogado e seus argumentos bem convincentes, o morto na porta de um hospital é um ente invisível, seja ele rico ou pobre. Na saúde, se passou algo parecido no país. Foi quando uma epidemia de poliomielite assolou sem discriminação de classe social as crianças no Paraná, nos anos 1970, quando os autoritários dirigentes militares viram o que os civis democratas nunca tinham percebido. Iniciaram então a mais ampla campanha de erradicação da poliomielite já feita no mundo. O Brasil também é exemplo mundial no atendimento público aos portadores de HIV, porque o vírus não escolhe classe social. As doenças dos pobres só são vistas quando também atingem os ricos.

Por isso, não há um programa radical para a erradicação do analfabetismo, nem para que todos os brasileiros, independentemente da classe social, cheguem ao final do ensino médio em escolas de alta qualidade. A falta de escola é um problema dos pobres, não é visto pela Justiça nem representado pelos advogados. A algema mental continua sendo permitida, pela omissão dos governantes. É a pior de todas as algemas – porque é invisível, tira a liberdade que vem do conhecimento e dura décadas –, e só atinge os pobres. Os juízes não têm forma de perceber a injustiça porque o assunto não chega a eles. Nenhum dos advogados que criticou o uso de algemas em suspeitos ricos denuncia a falta do serviço de educação para os pobres. A Constituição garante o direito à educação, o poder público se omite e a criança permanece analfabeta até a idade adulta, mas esse fato continua invisível à Justiça. Está na hora de um bom advogado entrar no Supremo pedindo uma indenização em nome de alguém mantido algemado pela omissão do poder público que não lhe garantiu educação. Talvez então se junte ao habeas corpus para os ricos, o habeas mens para os pobres; pois libertar a mente é tão importante quanto libertar o preso.

Martin Luther King Jr.: o homem que sonhava demais



Escrito por Maria Clara Lucchetti Bingemer

Há 40 anos, um tiro desfechado em Memphis, Tennessee (EUA), pretendia assassinar um sonho. Acertou apenas na vida biológica do homem que sonhava, mas seu sonho, qual vida des-governada e inebriada de fecundidade, explodiu em milhares e milhões de outros homens e mulheres que continuam sonhando o sonho que não morreu naquele dia.

A 4 de abril de 1968, o pastor batista de 39 anos preparava-se para uma marcha em favor dos direitos dos negros. Uma bala interrompeu sua vida, mas não seu sonho. Assim como sua vida desde muito jovem era movida pela força do sonho e alavancada pela u-topia que é o motor da história, assim também a bala assassina a atingiu, mas não a eliminou. O jovem Dr. Martin Luther King, sociólogo, doutor pela Universidade de Boston, incansável ativista político em prol dos direitos humanos, muito concretamente dos negros segregados de seu país, deixou de ser um personagem histórico para transformar-se num símbolo.

Antes de ser líder, Martin Luther King foi discípulo. Aprendeu de outro mestre, Mahatma Gandhi, que na Índia dobrou o orgulhoso Império Britânico com suas idéias e ações de desobediência civil não-violenta. Mais imediatamente aprendeu com a grande mulher negra Rosa Parks, que com sua recusa em ceder o lugar no ônibus a passageiros brancos deflagrou um movimento anti-segregacionista do qual King foi se confirmando como líder. Ele aplicava as idéias de Gandhi e a firmeza permanente de Rosa Parks nos protestos organizados pelo CLCS. Sonhava alto e por isso não se contentava com ações rasteiras e envenenadas por ódio ou vinganças baratas. Com acertada estratégia previu que manifestações não-violentas contra o sistema de segregação predominante no sul dos EUA poderia criar uma opinião pública favorável ao cumprimento dos direitos civis. E essa foi a ação fundamental que fez do debate acerca dos direitos civis o principal assunto político nos EUA a partir do começo da década de 1960.

Em 1963, King organizou com outros líderes a marcha para Washington, protesto que contou com a participação de mais de 200 mil pessoas em prol dos direitos civis de todos os cidadãos dos EUA. Nesta marcha, o pastor fez seu mais famoso discurso, onde expressava qual era seu grande sonho, que o movia e pelo qual dava a vida. Assim dizia: “Eu tenho um sonho que um dia esta nação vai se levantar e viver o verdadeiro sentido deste credo: `Cremos que estas verdades são evidentes, de que todos os homens são criados iguais`. Eu tenho um sonho de que meus quatro filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter”.

A marcha serviu como um último passo em direção à promulgação da Lei dos Direitos Civis de 1964, que proibiu a segregação racial em locais públicos, empresas e escolas. Em 1964, Martin Luther King Jr. recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Os protestos organizados por King continuaram. Em 1965, ele liderou nova marcha. Uma das conseqüências foi a aprovação da Lei do Direito de Voto, que abolia o uso de exames que visavam impedir a população negra de votar.

A vida e a pessoa de Martin Luther King, neste 40º aniversário de seu assassinato, nos ensinam a importância de sonhar e deixar-se mover pelo sonho. Tudo que se revestiu de alguma influência na história da humanidade encontrou sua origem em algum sonho de um ser humano que não aceitava passivamente a realidade da injustiça e do sofrimento de seus semelhantes.

A figura de King, o homem que sonhava, é mais do que nunca inspiradora para nós hoje, quando a sociedade em que vivemos parece ter apenas objetivos curtos e “líquidos”, sem coragem de se aventurar e arriscar em sonhos ousados e “perigosos”. Não tenhamos medo de sonhar demais, e fazê-lo buscando sempre a paz e a justiça, eis a lição que o líder negro continua nos dando.

Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio.

Estadão: Hip-Hop de cultura a movimento político



por Especial Hip-Hop*

Matéria do Estadão no sábado 9 de agosto por Bruno Paes Manso e William Glauber




Ao menos 30 representantes do estilo lançam candidatura, no Estado

Nas quebradas, rádios e bancas de CDs piratas de São Paulo, o rap abre espaço para o funk ”malicioso” do Rio e anda em baixa, ao menos se comparado à explosão do fim dos anos 1990. Nos palanques, escolas e governos, o hip-hop, no entanto, mostra cada vez mais a cara e, aos poucos, transforma-se em movimento político, estruturado em todo o País. Neste ano, lançam-se ao menos 30 candidaturas a vereador e uma a prefeito, ancoradas nos dividendos sociais de um movimento que nasceu da expressão cultural da periferia.

”O funk é moda. No baile, tocam uma ou duas músicas dos Racionais, porque música é para dançar. O importante para o garoto é que ali ele não é discriminado, está entre os iguais e quer ganhar a menina”, diz o antropólogo João Batista Félix, que no doutorado pela Universidade de São Paulo (USP) estudou hip-hop, cultura e política. Enquanto o rapaz do baile corteja a ”mina da noite”, integrantes da Nação Hip-Hop Brasil se colocam à frente de um projeto de conquista de poder, articulados nos 27 Estados brasileiros.

Além de apoio às candidaturas, o grupo indica representantes a conselhos de educação, saúde e cultura. ”Não basta simplesmente fazer denúncias. Tem de apresentar propostas de políticas públicas, a partir do olhar dos jovens da periferia”, diz Erlei Roberto de Melo, o Aliado G, do Faces da Morte, candidato pelo PCdoB a prefeito de Hortolândia (SP), com cerca de 200 mil habitantes. ”São candidatos do meio, legitimados e respeitados, mas não são lançados pelo hip-hop. São integrantes com ligação partidária ao PCdoB, PT e outros partidos. O movimento cresceu do interesse pela dança, grafite e música,” pondera o antropólogo.

A participação nos conselhos, explica Felix, é benéfica na medida em que concretiza projetos do hip-hop. ”A presença nessas esferas não é apenas da Nação Hip-Hop Brasil. É uma característica de vários grupos do movimento para atuar e influenciar, como faz o movimento em defesa da criança e dos direitos da mulher. As propostas do hip-hop para a sociedade são viabilizadas com essas ações e com verbas do Estado”, diz Felix. Como exemplo, ele cita a conquista de bibliotecas públicas na periferia paulistana, capitaneadas pelo Força Ativa.

O hip-hop ganhou espaço nos governos principalmente com a aprovação, em 2003, da lei que institui o ensino da cultura afro-brasileira. A partir deste mês, pelo terceiro ano seguido, o projeto Africanidade vai levar a oito Centros Educacionais Unificados oficinas e eventos ligados à cultura africana. ”Em 17 anos como professora de escolas da periferia, sempre me perguntei como posso ensinar. Vi como o hip-hop pode ser uma linguagem para quebrar barreira entre aluno e professor”, afirma Anair Novaes, coordenadora do Africanidade.

Embrenhada em projetos em parceria com o setor público, a diretora nacional da Nação Hip-Hop, Maria Mercedes de Alencar, conta que, pela ONG Reação Positiva, já treinou em dois anos 8 mil jovens do Primeiro Emprego. Aulas profissionais, como ensino de elétrica e mecânica, ficam com os técnicos. Legislação trabalhista, cidadania, com discussões que vão da gravidez à arte e violência, usam a linguagem hip-hop. ”Temos cerca de 20 educadores que vieram do hip-hop”, diz.

”Com essa inserção, a militância se profissionaliza, o que é muito bom. O jovem, além da dança e da música, estuda, faz faculdade, especializa-se e surge uma nova geração no hip-hop”, afirma o antropólogo João Batista Félix. O especialista ressalta que o hip-hop, em alguns anos, vai contar com representantes nas universidade. ”E acredito que os primeiros políticos devam ser eleitos, como deputados estaduais ou federais, na Bahia ou Rio”, aposta.

Exemplo dessa nova geração é Guilherme de Souza Neto, o Oráculo, de 24 anos, da Nação Hip-Hop Brasil, que vai coordenar visitas às escolas do Estado. Ele engrenou nos estudos com ajuda do hip-hop. Aos 15, em 1999, ainda era o Enigma e pichava muros, traficava e assaltava. Na turma de reforço, uma ”professora sagaz” lançou um desafio ao vê-lo escrever rap: explicar o hip-hop a outros alunos. ”O choque cultural entre professores e alunos na periferia é muito grande. O hip-hop ajuda a melhorar o diálogo”, avalia.

Guilherme e a professora conseguiram que o diretor da escola levasse os alunos à Casa do Hip-Hop, em Diadema, onde pesquisaram temas para palestras. Na volta, a escola parou para assistir aos seminários, que levaram dançarinos de break, grafiteiros, DJs e MCs – os quatro elementos do hip-hop. Passado o tempo, em 2003, Oráculo gravou seu primeiro CD. Dois anos depois, tornou-se presidente do diretório estadual da Nação Hip-Hop Brasil.




*Especial Hip-Hop, Espaço para convidados especiais do Hip-Hop a lápis.

Do que somos capazes


‘O que dizer de um avô e pai que tramaram a morte da neta e filha só porque são ricos demais e julgam desnecessário dividir a fortuna com uma “desconhecida”?’

Nada consegue assustar mais o ser humano do que ele próprio. Para o bem e para o mal. Vejamos as notícias do mundo dos esportes, especialmente em tempos de Olimpíadas: a cada prova, um novo recorde. Parece que homens e mulheres não conhecem limites para seus corpos turbinados com recursos tecnológicos, que se multiplicam a cada minuto. Do outro lado, o que dizer de um avô e pai que tramaram a morte da neta e filha só porque são ricos demais e julgam desnecessário dividir a fortuna com uma “desconhecida”?

O empresário Renato Gremberckly Archilla, de 49 anos, e o pai dele, Nicolau Archilla Galan, de 81, foram presos em sua mansão, emregião nobre de São Paulo, acusados de encomendar a morte da publicitária Renata Guimarães Archilla, em dezembro de 2001. O promotor Roberto Tardeli disse que Renata é filha de Renato e conseguiu na Justiça o reconhecimento, depois de um processo que levou 10 anos e incluiu exames de DNA.

Se a decisão de matar Renata foi cruel, a mecânica do crime é ainda mais inacreditável: em 17 de dezembro de 2001, Renata parou com seu carro num semáforo e viu aproximar um homem vestido de Papai Noel, que, aparentemente, vendia balas. Mas, na verdade, era um policial militar que disparou três vezes contra o rosto dela. O policial já foi expulso da PM paulista e condenado a mais de 13 anos de prisão.

Quando a gente fica sabendo de uma doideira dessas, não há como esquecer que Lily Safra acaba de vender uma casa em balneário famoso da Europa pelo equivalente a R$ l,2 bilhão. Ela é viúva de um banqueiro. Ou seja, mesmo com uma casa nesse valor, ele morreu. Ou seja, vovô Nicolau e papai Renato precisam aprender que caixão não tem gaveta.

Direitos Humanos
Foto:

Criada em Brasília, comissão para apurar criminalização dos movimentos sociais no RS

Diante de denúncias apresentadas por entidades como a Central de Movimentos Populares e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CDDPH) decidiu hoje criar uma comissão especial para investigar a criminalização de movimentos sociais no Rio Grande do Sul. As duas entidades levaram ao conhecimento do CDDPH resultados de ações judiciais que proíbem os sem-terra de realizar marchas no estado e concedem autorização para que sejam despejados dos acampamentos.

Outra denúncia é o relatório, aprovado pelo Conselho Superior do Ministério Público do estado, que pede a dissolução do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e proíbe os órgãos públicos estaduais de negociarem contratos e convênios com o movimento.

Segundo o relator da proposta de criação da comissão especial, o ouvidor nacional do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Gercino Silva, o governo vai trabalhar também para especializar, na questão agrária, órgãos como o Ministério Público e a Polícia Militar.
“O Tribunal de Justiça deve criar uma vara agrária, o Ministério Público deve criar uma promotoria agrária, a Defensoria Pública deve criar uma defensoria agrária, o governo do estado deve criar uma delegacia agrária e, principalmente, deve-se criar uma Polícia Militar Agrária, capaz de respeitar os direitos fundamentais do trabalhador rural que demanda providências para a execução do programa de reforma agrária, assim como garantir o direito de propriedade ao legítimo proprietário de uma área produtiva, legalmente destacada do patrimônio público e que esteja cumprindo função social”, explicou o ouvidor.

A idéia, conforme Gercino, é que a comissão especial tenha seus trabalhos inicialmente focados no Rio Grande do Sul, sobretudo nas manifestações praticadas pelo MST em território gaúcho e nas ações de controle da Brigada Militar do estado. “Principalmente no cumprimento de mandados judiciais de integração de posse, haja vista que os documentos protocolados na Ouvidoria Agrária Nacional demonstram que a Brigada Militar não está cumprindo a sua função de acordo com os princípios fundamentais da Constituição Federal.”

Ele acredita que uma especialização dos serviços de quem media os embates entre os trabalhadores rurais e os proprietários de terras poderia melhorar o diálogo entre a sociedade e o campo. Segundo Gercino, nove estados já têm órgãos especializados no tema da reforma agrária. “Havia a reclamação de uma atuação que não era boa e que, com a criação dos órgãos especializados, mudou. Hoje, está todo mundo satisfeito: tanto os trabalhadores rurais sem-terra, como os proprietários, porque os mandados judiciais de integração de posse são cumpridos de maneira efetiva e não há reocupação dessas áreas”, relatou.

A comissão especial será composta por sete integrantes e dois colaboradores – dentre eles, o líder da minoria na Câmara dos Deputados, Zenaldo Coutinho (PSDB-PA), que é conselheiro do CDDPH, e o deputado Adão Pretto (PT-RS), presidente da Comissão de Legislação Participativa. Também vão integrar a comissão o ouvidor agrário nacional, um representante do Ministério Público Federal e outro do Conselho Nacional dos Procuradores Gerais de Justiça.

O ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos (SEDH) e presidente do CDDPH, Paulo Vannuchi, destacou a importância de que o trabalho da comissão seja imparcial. “Coloco como ponderação, para que a comissão especial seja, de fato, interpretada no Rio Grande do Sul, como uma comissão que não tem pré-julgamento e que não sai de Brasília já com uma posição. Não é o nosso papel.”

Segundo informações divulgadas no site oficial do MST, o movimento vai denunciar a ação dos promotores do Rio Grande do Sul em organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Organização dos Estados Americanos (OEA). Por Agência Brasil.

INTERNET SEM FIO NA CAPITAL

Desigualdade compromete rede


Dos hotspots da prefeitura, na rede de internet sem fio gratuita do BH Digital, testados pelo Informátic@, a Praça da Liberdade foi o que mais surpreendeu em termos de qualidade de acesso. Escolhido como ponto de partida, foi lá que fizemos o nosso cadastro no sistema da Prodabel e as velocidades de download e upload foram realmente satisfatórias, alcançando até 1.151.52 KBps. Para quem está acostumado à banda larga privada, esse número pode não ser grande coisa, mas refere-se a uma velocidade mais do que suficiente para uma navegação tranqüila e despretensiosa – bem no clima da Praça da Liberdade e de seus casais enamorados. Confira os resultados:

Emmanuel Pinheiro/EM/D.A Press
Andréia Nardi, que acessa a internet na Praça da Liberdade com seu iPhone, teve a oportunidade de se plugar com um notebook e comparar velocidades de conexão

SURPRESA POSITIVA

A funcionária pública Andréia Nardi comprova nossa surpresa positiva com a Praça da Liberdade. “Há dois meses venho quase todos os dias, na hora do almoço, passar as horas de intervalo do trabalho conversando com amigos pelo MSN, checando e-mails e acessando sites de interesse. O acesso ao serviço é de fato muito fácil e rápido. Tinha ouvido falar, na secretaria onde trabalho, que existia essa opção aqui na praça. Achei que seria um serviço sem grande alcance, mas acabei fazendo meu cadastro no site da prefeitura. Comecei a me surpreender aí, pois foi fácil e rápido. E as surpresas continuaram com a velocidade verificada nos uploads e downloads. É bem rápido o acesso daqui”, afirma.

Andréia usa, nesses momentos de folga, um iPhone (celular da Apple que, oficialmente, não poderia funcionar no Brasil). Até a nossa presença na praça, ainda não tinha experimentado se conectar no local com um notebook, que, com configurações mais avançadas, é capaz de oferecer resultados ainda melhores do que com o seu telefone. “Até agora não usei ainda os outros hotsposts disponíveis para saber se funcionam como aqui, mas, de qualquer jeito, considero o sistema um ótimo serviço prestado à população. Seria muito importante a expansão de pontos por toda a cidade”, considera.

ACESSO MEIA-BOCA

Primeiro hotspot inaugurado pela prefeitura, em setembro do ano passado, o ponto de acesso da Rodoviária apresentou grande instabilidade durante os testes, com muita oscilação na velocidade de conexão. A começar pelo fato de que a rede do restaurante que ali funciona se mostrar mais eficiente do que a própria rede da Prodabel. Apesar de também não ser grande coisa, a velocidade de um download na rede do restaurante chegou a 329.44 KBps, enquanto a da prefeitura não passou de 157.20 KBps.

Isso significa que, dependendo das configurações de preferências da conexão, o sistema identifica como padrão a rede do restaurante, que alcança todo o edifício. Por isso, para que o acesso seja realizado via BH Digital, é preciso procurar todas as redes disponíveis, clicar na rede da prefeitura e, então, se conectar a ela. A velocidade de conexão, depois disso tudo, deixou muito a desejar, especialmente em comparação com a da Praça da Liberdade, por exemplo.

Foi na rodoviária que o engenheiro agrônomo Juliano Gonçalves, do Espírito Santo, passou horas tentando conectar seu notebook à internet sem qualquer sucesso. “Tentei, inicialmente, do terminal de passageiros, no primeiro andar, sem sucesso. Informaram-me, então, que no andar superior o sinal era melhor. Consegui achar as redes disponíveis, o equipamento emite a luz de que há sinal aqui, mas não consigo entrar de jeito nenhum no sistema. Tenho todos os programas importantes instalados na minha máquina, que conta com sua placa de rede wireless, mas nada. Não tenho idéia do porquê disso, pois o correto seria pegar. Infelizmente vou ter de ficar esperando meu ônibus para Vitória, que só sai daqui a cinco horas, sem poder matar um pouco o tempo na internet”, lamentou.

AUSÊNCIA DE SINAL

O teste que realizamos na Praça da Estação não foi bem-sucedido. No início, o notebook reconheceu as redes sem fio da área – a do BH Digital até chegou também a integrar a lista. Mas, quando a conexão foi solicitada, a rede falhou e não voltou sequer a aparecer novamente em outras tentativas. Por uma hora, buscamos reconectar à rede da Prodabel e o máximo que o computador reconhecia eram as 17 redes wireless de edifícios comerciais no entorno da praça.

De acordo com a superintendente de redes da Prodabel, Lilian Noronha, o problema constatado pelo Informátic@ revela instabilidades no sistema. “Como a cada dia instalamos torres em novos pontos da cidade, pode ser que pequenas interrupções aconteçam. Mas a Praça da Estação é um dos locais em que tudo deveria estar funcionando corretamente e a instabilidade será averiguada”, disse.

Na Praça da Estação não conseguimos encontrar ninguém que já tenha usado o serviço ali. Com exceção de um guarda municipal identificado por Genildo, que contou ser usuário de informática e que já havia acessado a internet do local em outra oportunidade, como também do Parque Municipal, nenhum freqüentador sequer sabia da existência de um hotspot público ali. “Trabalho na praça há dois meses e nunca vi alguém usando um laptop por aqui”, reforçou Uilson Santos, outro guarda municipal que atua na região.

REDE INACESSÍVEL

No Parque Municipal, os testes da rede sem fio da prefeitura também deram resultados desanimadores. Nossa equipe tentou conectar o latptop em quatro pontos do parque, sem sucesso em nenhum deles. Passamos pelo Largo do Sol, Largo dos Barcos, Largo do Teatro Francisco Nunes e, por último, nas proximidades do prédio da administração. A rede da prefeitura aparecia no painel de visualização de redes disponíveis, mas a conexão não chegava ao fim, já que o status diagnosticava “rede limitada ou sem conectividade”.

De acordo com Gerson Machado, gerente de projeto de instalação do BH Digital, a causa do problema foi a intensa chuva de quinta-feira da última semana. “Tivemos problemas com os rádios que retransmitem o sinal dentro do parque e estamos verificando, porque, provavelmente, algum fio se molhou.” Gerson garantiu que o sinal funcionaria nas proximidades do prédio da administração. Os testes, entretanto, mostraram que também ali a rede não conseguiu ser acionada.

NOTA

Os testes foram realizados na segunda-feira, 12/08, no período da tarde, na Praça da Liberdade, Praça da Estação e rodoviária, e na manhã de terça-feira, 13/08, no Parque Municipal.

O Uso de Algemas

Em nome do combate ao crime e à impunidade, não pode haver abusos e arbitrariedades
Leonardo Isaac Yarochewsky – Advogado criminalista, professor de direito
Na sessão de 7/8, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou, por unanimidade, o julgamento de um pedreiro que havia sido condenado a 13 anos e seis meses de reclusão por homicídio qualificado. Até aí nada de especial. A novidade está no fato de que o julgamento pelo soberano Tribunal do Júri foi anulado porque, durante a sessão, ele, então acusado, foi mantido algemado no banco dos réus. Vários ministros do STF criticaram veementemente os abusos no emprego indiscriminado de algemas. O ministro Marco Aurélio Mello, relator do habeas corpus que anulou o julgamento, afirmou que manter um réu algemado durante o julgamento contraria a Constituição Federal, porque é preciso considerar o princípio da não-culpabilidade. “É certo que foi submetida ao veredicto dos jurados pessoa acusada da prática de crime doloso contra a vida, mas que merecia o tratamento devido aos humanos, aos que vivem em um Estado democrático de direito”, disse Mello. Em seu voto, ele cita outras decisões do próprio STF em que a adoção de algemas é condenada como regra, pois se trata de medida extrema, que afeta os princípios de respeito à integridade física e moral do cidadão.

Nunca é demais lembrar que a Constituição Federal veda o tratamento desumano e degradante, porque, como bem salientou o ministro Carlos Ayres Britto, equivale, nesse caso, a aviltante e humilhante, principalmente quando o preso algemado é exibido à sociedade como um troféu. Outro princípio constitucional que não pode ser desprezado é o da presunção de não-culpabilidade ou de inocência, segundo o qual ninguém poderá ser considerado culpado até o trânsito em julgado de uma sentença penal condenatória. A ministra Cármem Lúcia, relatora em julgamento de outro habeas corpus (HC 89.429-1/RO), já havia se manifestado no sentido de que “o uso legítimo de algemas não é arbitrário, sendo de natureza excepcional, a ser adotado com a finalidade de impedir, prevenir ou dificultar a fuga ou reação indevida do preso, desde que haja fundada suspeita ou justificado receio de que tanto venha a ocorrer e para evitar agressão do preso contra os próprios policiais, terceiros ou a si mesmo”.

É bom que se diga que a decisão do STF que anulou o referido julgamento diz respeito a uma pessoa simples, um pedreiro. Portanto, antes que algum desavisado se manifeste em outro sentido, a decisão não foi tomada para beneficiar empresário, banqueiro ou político, mas para garantir o direito de todo e qualquer cidadão – rico ou pobre, católico ou protestante, branco ou negro – de ser tratado dignamente. O STF aproveitou o julgamento para editar uma súmula vinculante sobre o uso de algemas, o que obriga a todos os juízes, bem como à administração pública, a seguir o entendimento da Corte. Em boa hora, o STF, guardião da Constituição Federal, impõe limites aos abusos e arbitrariedades que vêm sendo cometidos, aqui e acolá, em nome do combate ao crime e à impunidade.

Diferenças entre ousado e medroso


Roger Dias
, Aluno do 4º período do curso de jornalismo da PUC Minas

Os ousados na sociedade sempre tiveram vez. Seja numa exibição teatral, filme, pintura, grande trabalho de reportagem, de investigação policial ou de criatividade musical. O ousado não é propriamente um doido, inconseqüente ou perturbador. É uma pessoa que esbanja caráter e coragem para agir em busca do bem.

Ele nunca vai ter a intenção de prejudicar a ordem. Normalmente dispõe de técnicas inovadoras e calculistas a fim de ter um melhor resultado do produto final. É evidente que eles são os mais manjados e podem ser assassinados, seqüestrados, ignorados ou surpreendidos.

Os medrosos certamente não desenvolvem. Ficam ultrapassados, estáticos em técnicas antiquadas, obsoletas, criadas na Idade Média. Os ousados, por sua vez, renovam todo conjunto de criações humanas, buscando um equilíbrio sistemático do universo.

Os medrosos ficam concentrados somente em alguns preceitos criados pelos antepassados ou por pessoas próximas. Quando se submete a isso, as ações e reações normalmente são automáticas, sem intenção. Portanto, o exercício de imaginar e refletir não é executado. Logo, os erros são freqüentes e não há um desenvolvimento ou aprendizado. É evidente que os ousados também erram. A diferença está no modo de arranjar soluções para os mais diversos problemas, pois estes não terão medo de apelar por uma conduta radical.

Adolf Hitler, Albert Einstein, Garrincha, Machado de Assis, John Keynes, Sigmund Freud, os irmãos Auguste e Louis Lumière, Pablo Picasso, Johann S. Bach e Tom Wolf serão lembrados como pessoas que tiveram ousadia. Apresentaram criações extraordinárias na política, física, futebol, literatura, economia, psicologia, cinema, pintura, música e jornalismo, respectivamente. Apenas Hitler teve um final infeliz. Criticado por todo o mundo pelo seu radicalismo extremo, o alemão destacou-se mais pelos aspectos negativos. Resultado: suicídio. Entretanto, ninguém duvida que teve fama.

Em suma, ser medroso significaria o mesmo que parar na geração. Aquele que busca o conhecimento, através de estudos ou pesquisas, ou por métodos criativos, estará sujeito a atingir o sucesso que muitos desejam chegar. Afinal, Deus concebeu criatividade ao homem para a utilização.

Tortura, nunca mais: o que a imprensa não esclarece


Os militares fizeram sua manifestação de protesto contra a iniciativa do ministro da Justiça, Tarso Genro, de propor o julgamento de atos de tortura durante o regime militar. E o mundo não caiu.

Por Luciano Martins Costa, no Observatório da Imprensa



O noticiário de sexta-feira (8/8) sobre a reunião do Clube Militar, no Rio, mostra senhores vestindo ternos e não em uniformes de campanha. Da mesma forma cautelosa, os participantes evitaram apresentar fotografias e textos sobre autoridades do atual governo que participaram da luta armada.

Com isso, o embrião da crise volta para a geladeira e deve sumir dos jornais por uns tempos. Mas o fato de o assunto ser colocado de lado não quer dizer que esteja resolvido. Em parte, porque quase todas as manifestações reproduzidas pela imprensa repetem o erro de afirmar que o ministro pretende revisar a Lei da Anistia. Não é isso que está em questão.

O que gerou a celeuma é a hipótese de que os crimes comuns, como torturar alguém que não pode se defender, precisam ser levados a julgamento.

Atos de barbárie

Os jornais ofereceram um espaço generoso aos militares que se rebelam contra a possibilidade de punição para os agentes das Forças Armadas e da polícia que torturaram presos durante o período mais tenebroso da repressão à luta armada contra a ditadura. Mas não esclarecem que muitos brasileiros foram torturados e até mortos pelo simples fato de serem opositores ao regime de exceção, sem nunca terem tocado numa arma.

O jornalista Vladimir Herzog e o operário Manoel Fiel Filho, mortos sob tortura em dependências do DOI-Codi, em São Paulo, são símbolos da ação criminosa de agentes a serviço do Estado, praticado contra cidadãos de paz.

Muitos outros brasileiros, inclusive estudantes e trabalhadores que eram jovens demais para serem considerados como uma ameaça ao Estado, foram submetidos a suplícios que a consciência humana não pode admitir.

Não por acaso, a tortura não é considerada crime político por nenhum povo civilizado. Porque é ato de barbárie praticado por indivíduos covardes, desprovidos de qualificações para serem aceitos como agentes do Estado.

A imprensa poderia estar questionando se as Forças Armadas deveriam ter em seus quadros elementos dessa natureza. Levá-los a julgamento seria uma forma de enobrecer a instituição.

Cidadania e advocacia

Minas tem 65.661 advogados inscritos na OAB
Luís Cláudio da Silva Chaves – Vice-presidente da OAB-MG, no exercício
Assim como a liberdade da imprensa é uma exigência do Estado democrático de direito, também o é o direito de defesa. Assim como vital a garantia do sigilo da fonte para o jornalista, constitui-se direito e dever do advogado o sigilo profissional. A independência, a autonomia e a imprescindibilidade da advocacia são pilares do devido processo legal e garantia do cidadão. Sem o advogado não há Justiça, sem Justiça não há cidadania. A inviolabilidade dos escritórios de advocacia, mais do que uma conquista dos advogados, é uma garantia legal do jurisdicionado. O respeito às prerrogativas profissionais do advogado é condição indispensável para assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais. Advogar é garantir ao jurisdicionado seu direito à liberdade, à segurança, ao patrimônio, à vida e ao bem-estar, buscando a solução das controvérsias existentes na sociedade.

Ontem, mais uma vez, ao comemorarmos a criação dos primeiros cursos jurídicos no Brasil, festejamos, também, o Dia do Advogado. Em Minas Gerais, somos 65.661 inscritos na seção mineira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) 57.456 advogados e 8.205 estagiários. Estamos preocupados, entretanto, com nossas instituições. Várias crises instaladas entre autoridades dos poderes Executivo, Judiciário e Legislativo, do Ministério Público, da Polícia Federal e advogados. Não bastaria que cada um cumprisse suas atribuições constitucionais? Nós, advogados, propugnamos apenas que a Constituição Federal, que juramos todos defender, seja respeitada. O advogado, indispensável à administração da Justiça, quer fazer valer a lei, exigindo o respeito às prerrogativas profissionais.

Queremos, sim, ao lado das demais carreiras jurídicas, construir uma Justiça melhor para nosso povo. Não nos afastaremos, entretanto, da cidadania, da dignidade da pessoa, do devido processo legal, da garantia do acesso à Justiça, do direito de defesa, da liberdade de expressão e tantos outros pilares do Estado democrático de direito. Assim é o advogado, atuando com independência, destemor e parcialidade na busca de direitos a ele confiados. Muitas vezes, pode ser incompreendido, mas deve ser respeitado.

Parabéns, colega advogado. Temos a exata noção de nossa importância. Vamos sempre mostrar nossa força, tanto na atuação destemida em Juízo, como irmanados pelo espírito de coibir qualquer violação à Carta Magna, no objetivo maior que é a valorização da advocacia como garantia de cidadania. Encontra-se em curso a Semana do Advogado (9 a 14), estando em discussão questões importantes como a inviolabilidade dos escritórios de advocacia e morosidade da Justiça. Ontem, a OAB-MG homenageou as turmas cinqüentenárias da UFMG e da PUC Minas e o jornal Estado de Minas, pelos seus 80 anos. O Fórum Permanente de Debates, que vem elaborando soluções eficazes para o funcionamento da Primeira Instância em Minas, se reunirá em audiência pública. E, como em todos os anos, nos encontraremos no encerramento, com a Festa do Advogado Mineiro.

Quanto vale ou é por quilo?


Ionara Silva, Danuse Queiroz, Sara Tauene, Rodrigo Nunes, do Virajovem de Brasília (DF); Ivanise Andrade, do Virajovem de Campo Grande (MS); Diego Pereira dos Santos, do Virajovem São Paulo (SP); Renata Souza, do Virajovem Rio de Janeiro (RJ)*
9/6/2008


Histórias como a de Paulinho, supostamente morto para ter seus órgãos retirados aos dez anos, após um acidente; como a de Pedro**, adolescente de 13 anos, que era escravo desde os 11; e tantas outras que se repetem no Brasil fazem parte de estatísticas sobre o tráfico de seres humanos, que tem três modalidades: tráfico de órgãos, exploração sexual e trabalho escravo. Esses crimes representam a terceira atividade mais lucrativa do crime organizado no mundo. Tratar pessoas como mercadoria movimenta de 7 a 12 bilhões de dólares, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

O maior obstáculo no combate ao crime é a falta de um artigo específico sobre tráfico de seres humanos na Constituição Federal. “É difícil para a Justiça enquadrar o aliciador, já que existem lacunas na lei. A não ser que encontre brechas em outros artigos do Código Penal, por exemplo. Senão, o acusado poderá não ser responsabilizado com o devido rigor”, explica João Rodrigues Bonvicino, assessor técnico do Escritório de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Seres Humanos, da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo. Ainda tramita na Câmara Federal o Projeto de Lei 2.845, de 2003, que prevê punição para crimes de tráfico de seres humanos.

Segundo Anália Ribeiro, coordenadora do Escritório de Prevenção e Enfrentamento ao Tráfico de Seres Humanos, o órgão atua por meio de campanhas, palestras e capacitações para diversos públicos e setores do governo, além de apurar denúncias e prestar assistência às vítimas. Ela explica ainda que uma das características do crime é o confisco de documentos da vítima.

“Isso impossibilita sua fuga, principalmente no exterior. Outro detalhe: a exploração sexual se assemelha com o trabalho escravo, já que mulheres e meninas são obrigadas a trabalhar e perdem a liberdade; além de adquirirem dívidas com os exploradores”, conta Anália.

*Jovens de quatro dos 21 Conselhos Virajovem do Projeto/Revista Viração espalhados pelo País. Confira a reportagem na íntegra na revista eletrônica da Vira, parceira do Portal Setor3.


Questão de ordem

Os brasileiros têm assistido perplexos nos últimos dias aos exemplos de brutalidade e despreparo policial que assolam o Rio de Janeiro e fazem vítimas como o menino João Roberto, o motoboy Edson Vaz do Nascimento, entre tantos outros. Assistimos ainda à morte de oito supostos traficantes em uma “bem sucedida” ação policial na favela Minha Deusa e a brutal morte de dois policiais em serviço no pacato Leblon. Casos como estes são apenas alguns dos milhares de homicídios que ocorreram nos primeiros meses do ano no Rio de Janeiro, com destaque para os mais de 500 assassinatos cometidos por policiais em serviço entre janeiro e abril. O que estes casos e números atestam, mais uma vez, é que a chamada política de confronto do Governador Cabral só faz aumentar a violência e o medo na cidade. Os dados são tão chocantes que o próprio governador se disse assustado, incapaz de reconhecer a cidade que ele está governando.
Polícias, principalmente as militares, respondem a comandos claros. No caso do Rio, o comando foi claro: atirar antes e, eventualmente, perguntar depois. As mortes de inocentes que vimos nas últimas semanas não correspondem a ações isoladas da polícia. Vários setores da população (principalmente aqueles que raramente são vítimas da violência policial) não se cansam de aplaudir quando “traficantes” morrem em ações espetaculares ou mesmo banais, nos morros.
Política de segurança nunca deve ser feita com base em pesquisas de opinião. Não podemos admitir que um governador “jogue para a platéia” e se “indigne” quando colhe os frutos da política que plantou.
A boa política de segurança, em Bogotá, Nova Iorque ou São Paulo – os casos mais bem sucedidos do continente nos últimos 20 anos – começa por limpar a corporação, estabelecendo regras claras sobre o uso da força e combatendo fortemente a corrupção. Providências têm de ser tomadas para garantir que os policiais que desonram a corporação sejam presos ou pelo menos expulsos. Ações têm de ser feitas no campo do recrutamento, treinamento e valorização interna para que os bons policiais cresçam rapidamente e passem a ser exemplos para toda a tropa. Fundamentalmente todos os policiais, bem como a população em geral, precisam saber que o comando mudou e que a ordem máxima é o respeito à lei. Só quando a lei é respeitada começamos a ver mudanças na relação entre sociedade e polícia e melhoras nos índices criminais.
Há dois caminhos claros que se colocam para o Governo do Rio neste momento: defender o indefensável e torcer para que os casos nas áreas ricas da cidade parem de acontecer – para que pare também a indignação da classe média – ou estabelecer, no discurso e na ação, que foi atingido o limite e que a polícia tem de parar de matar. Certamente a ordem sozinha não será suficiente, mas inegavelmente será o primeiro passo para a construção de uma sociedade onde não se aguarde amedrontado a “tragédia” do dia seguinte.

Denis Mizne, 32, é bacharel em direito pela Universidade de São Paulo, com pós graduação nas Universidades de Columbia e Yale. É Diretor Executivo do Instituto Sou da Paz.

Este artigo foi publicado dia 25 de julho, no Jornal da Tarde de São Paulo

Por: Sou da Paz

Apenas 10% do potencial de vagas para aprendizes é ocupado no País



do clipping da Andi
Desde 2000, empresas de todos os ramos são obrigadas a reservar de 5% a 15% das vagas aos contratos de aprendizagem, destinados a jovens com idade entre 14 e 24 anos. Nesse tipo de contrato, a vivência no ambiente de trabalho precisa estar aliada à freqüência na escola e à realização de um curso profissionalizante.
Pesquisa recente da organização Atletas pela Cidadania mostra que o País tem potencial para abrir 1.298.201 vagas de aprendizes. Em maio deste ano, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego, havia 129.516 contratados – apenas 10% do que poderia ser contratado. “Fala-se tanto em falta de profissionais qualificados e não percebem que a Lei do Aprendiz pode resolver esse problema”, diz Daniela Castro, coordenadora da Atletas.
Segundo o levantamento da organização, o estado com mais aprendizes, Espírito Santo, só usufrui de 25% do potencial de contratos. O Distrito Federal é o quarto da lista, atrás de Goiás e Amazonas, com 13% dos postos preenchidos. Mas um levantamento constatou que não faltam interessados.
De acordo com a Pesquisa de Emprego e Desemprego do Distrito Federal (PED/DF) 29,6% dos desempregados de Brasília têm entre 18 e 24 anos de idade. No geral, apenas 8% das empresas do País têm aprendizes contratados.
A estimativa da Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana é de que o Brasil possui 7 milhões de jovens que não estudam nem trabalham, quase 20% da população nessa faixa etária. Segundo o Instituto de Pesquisas Econômicas e Aplicadas, 46,6 % dos desempregados brasileiros têm entre 15 e 24 anos.
Fonte: Correio Braziliense (DF), Carmen Souza – 04/08