São Paulo : A Periferia na Virada e a Virada da Periferia




Em São Paulo, a arte vibrante das quebradas dribla o preconceito e aparece com força num dos maiores eventos culturais do país. Roteiro para o hip-hop, rap, DJs, bambas, rodas de samba, rock, punk e festivais independentes. Idéias para que uma iniciativa inovadora perdure e supere limites.

por Eleilson Leite*
Para o Le Monde Diplomatique



Neste final de semana, 26 e 27 de abril, rola, em São Paulo, mais uma Virada Cultural. A quarta edição do evento começará às 18 do sábado irá até o mesmo horário, no domingo. Ao longo de 24 horas ininterruptas, 5 mil artistas irão se apresentar, em 800 atrações. Tudo de graça e a maior parte ao ar livre. A expectativa da secretaria de Cultura do município, organizadora do mega-evento, é atrair mais de 3 milhões de pessoas, movimentando em torno de R$ 90 milhões para a cidade.


Realizada desde 2005, ainda sob governo do então prefeito José Serra, a Virada Cultural tem inspiração em eventos europeus, como a Nuit Blanche [Noite Branca] parisiense, que tem características semelhantes, uma festa noturna e agitada, que justifica a fama de Cidade Luz atribuída à capital da França. Lá, como aqui, a diversidade artística é contemplada com uma variedade de espaços de exibições, garantindo a participação de artistas pouco conhecidos ao lado de grandes estrelas do mainstream.


Não foi fácil essa curta trajetória do evento. Em 2005, tudo era novo. Havia pouco investimento e muita desconfiança. No segundo ano, o pânico rondava a cidade: a festa rolou alguns dias depois dos ataques atribuídos ao PCC, em maio de 2006. No ano passado, a confusão causada pela Polícia Militar, durante o show dos Racionais MC’s, frustou e assustou muita gente. A Virada acabou sendo conhecida nacionalmente por conta desse desastre, provocado pela insensatez de dois ou três garotos e a grosseria de todo um batalhão de soldados. Em 2008, tudo está sendo preparado para ser a consolidação de um evento que já faz parte da vida do paulistano.


Decisão absurda e preconceituosa: instalar o palco do hip-hop no espaço mais isolado do evento e cercá-lo. Ainda assim, a programação é de tirar o fôlego


Neste ano, não haverá problemas nos shows de rap. A Prefeitura está empenhada para evitar mais uma confusão. Mas não pensem que os organizadores buscaram uma melhor orientação para a atuação da Polícia Militar e Guarda Civil. A providência foi outra. O palco do hip-hop estará confinado entre as grades do Palácio das Indústrias, atual Museu da Cidade, no Parque Dom Pedro. Será o espaço mais isolado do evento. E será também o único cercado. Espero que a prefeitura tenha pelo menos limpado a área. Até a semana passada, o mato estava alto, havia muita lama e entulhos no local. A antiga Várzea do Carmo acolherá os artistas da periferia. Nesse palco só tem manos e minas. Aliás, minas não tem quase nada. Por sinal, só uma atração feminina. O velho e bom hip-hop continua muito masculino (”machista” acho exagero ). Nesse caso, a organização tem que induzir, determinar mesmo: cota para as minas do hip-hop!


Outro fato curioso. O palco rap atende pelo nome Baile Chic, uma alusão aos bailes black dos anos 1960 e 70. A referência é bacana. O movimento hip-hop é tributário de toda aquela agitação black power que tinha nas noites de sábado, no ginásio do Palmeiras, um de seus momentos de consagração. As equipes de bailes, a mais importante das quais era a Chic Show, foram recentemente homegeadas no DVD 1000 Trutas, 1000 Tretas, do Racionais MC’s. Só espero que esse conceito dado ao palco não seja também um artifício para ”amenizar o ambiente”. Tenho minhas dúvidas, e não vou desqualificar a Virada Cultural por causa dessa eventual mancada. Mas fica aí a interrogação.


Noves fora isso, a programação está de tirar o fôlego. Nelson Triunfo lidera o primeiro bloco, das 18h às 24h de sábado, resgatando as equipes de baile. São quase trinta grupos. A maioria desconhecida do grande público, mas o Thaíde e o DJ Hum estão no meio, agitando a galera. À meia noite, a chapa pega fogo, com a banda Black Rio, que trará convidados. Será que Mano Browm aparecerá? Há uns dias, ele se apresentou com o grupo carioca num Tributo a Tim Maia. Quem sabe? Scowa e a Máfia, Bebeto, Luiz Wagner, entre outros, manterão a pista lotada durante a madrugada. Nada de hip-hop, nesse período. Será uma coincidência? Mas quando raiar o sol na manhã de domingo, o rap vai tomar conta. As 8h, sobe ao palco o Z’África Brasil, para acordar quem pegou no sono. Em seguida, vem o Xis, que anda sumido do mundo hip-hop. Na seqüência, é Rappin’ Hood quem assume o microfone e assim vai até o grand finale: Afrika Bambaataa sobe ao palco acompanhado, pela Zulu Nation Brasil. É uma dádiva. O criador do hip-hop fará uma louvação. Será uma catarse.


No Boteco dos Bambas, do Largo de Santa Cecília, três rodas de samba da comunidade. Em frente ao Páteo do Colégio, o palco dos Festivais Independentes, com rock, hard core e punk


Há outro reduto de artistas da periferia na Virada Cultural. Trata-se do Boteco de Bambas, um palco especialmente montado no Largo Santa Efigênia. A concepção deste espaço tenta criar um ambiente de botequim onde as rodas de samba recebem seus convidados. Das 12 atrações, porém, há apenas três rodas de samba de comunidade, dignas deste nome. São elas o Samba da Vela, que se apresenta às 18h do sábado; Samba da Laje, que sobe ao palco as 2h de domingo e o Pagode do Cafofo, que se apresentará às 14h do mesmo dia. Mas isso não tira o brilho da programação que está ótima. Tem Velha Guarda do Vai Vai, da Camisa Verde e Branco (convidada) e da Nenê de Vila Matilde. Os talentosos garotos do Nossa Chama terão como convidado nada menos que o Arlindo Cruz. O Osvaldinho da Cuíca será convidado do Samba da Parada Inglesa e o Quinteto em Branco e Preto encerrará o evento.


É maravilhoso, mas precisa calibrar o conceito deste espaço, se é que o objetivo é privilegiar as rodas de samba de comunidade. Primeiro, tirem o palco. Roda é no chão. Segundo, não precisa criar um ambiente de boteco. A Vela e a Laje, por exemplo, são rodas que se organizam fora de bar. Terceiro, chamem para este espaço apenas rodas de samba (estas trazem seus convidados). Se os organizadores do evento derem uma olhada na Agenda Cultural da Periferia, vão encontrar 15 delas.


Mais periferia na Virada? Tem as rodas de capoeira no Largo do Paissandu, diante da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. São 32 rodas, reunindo vinte mestres da Velha Guarda. Nessa, a organização meteu a bola num canto e o goleiro caiu no outro. Gol de placa! No palco da dança no Anhamgabaú, está marcada, às 5h30 do domingo, a apresentação dos Índios Pancararu. No Páteo do Colégio vai rolar o palco dos Festivais Independentes. Bem legal essa novidade. São trinta atrações de todas as regiões do Brasil, indicadas pela Associação Brasileira de Festivais Independentes. A perifa do Brasil estará em peso no solo piratininga, um pessoal mais rock, hard core ou punk rock, entre outras vertentes. Tem gente conhecida como os pernambucanos Mundo Livre S/A e Siba e Fuloresta. Vale a pena conferir.


A presença periférica na Virada Cultural tem ainda um outro espaço, este na própria periferia, com as atrações do CCJ – Centro Cultual da Juventude da Cachoeirinha, que por sinal está com uma programação muito fraquinha. Fiquei surpreso. Se o leitor não conhece, o CCJ é o mais importante equipamento público voltado para a cultura de periferia na cidade de São Paulo, certamente uma das mais bem sucedidas políticas públicas de juventude do Brasil. Este espaço deveria ter um grande destaque na Virada. Chama a atenção, na miúda programação, a performance de DJ’s, reservando espaço para os músicos de hip-hop. Se alguém tiver interesse, às 15h30 vai rolar o show do Supla em dupla com seu brother João Suplicy. O CCJ merecia coisa melhor.


No Kinoforum, jovens de bairros periféricos projetam seus vídeos nas escadarias do Teatro Municipal. Nos 26 CEUs, uma certa tendência a empurrar biscoito fino garganta abaixo das massas


Por fim, o Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, que fará exibição dos filmes numa tela da Praça Ramos, terá um bloco de quase uma hora com dez trabalhos realizados por alunos das oficinas Kinoforum, olhar plural. Jovens de bairros periféricos como Cidade Tiradentes, Grajaú e Perus, terão oportunidade de ver seus vídeos exibidos com destaque aos pés da escadaria do Teatro Municipal. Entre uma apresentação musical e outra, pare para olhar essa telona. Você vai se surpreender.


Mas a Virada Cultural também vai à periferia. Basicamente, essa presença no subúrbio acontece com apresentações nos 26 CEUs (Centro de Educação Unificado) da cidade. Todos eles terão duas atrações musicais e uma de teatro. Salvo engano, na parte de teatro não tem ninguém da periferia. Já na música, encontrei um, e dos bons. Trata-se de Vitor Trindade, neto de Solano Trindade, que sairá do Embu das Artes para se apresentar no CEU Azul da Cor do Mar (olha que nome sugestivo para um CEU…) na Cidade AE Carvalho, Zona Leste. A programação está pouco atraente. Acho que aí a organização errou a mão. Na periferia, deveria haver grandes atrações populares, com artistas locais abrindo os espetáculos. O curioso é que a Quebrada Cultural, evento mensal da secretaria de Cultura de São Paulo é assim. Não sei porque não mantiveram a fórmula.


Vale registrar as seguintes atrações da Virada Cultural na Periferia: Almir Guineto no CEU Inácio Monteiro, Cidade Tiradentes; Edgard Scandurra no CEU Meninos no Jd. São João Clímaco; Yamandu Costa no CEU Pêra Marmelo no Jd. Santa Lucrecia; Siba e Fuloresta no CEU Perus; André Cristovam no CEU Quinta do Sol, Vila Cisper; Tribo de Jah, CEU Rosa da China, Sapopemba; Jards Macalé no CEU São Mateus; B. Negão no Parque São Rafael; Mundo Livre S/A no CEU Três Lagos, Grajaú; no CEU Vila Atlântica, no Jaraguá, tem a Banda de Pífanos de Caruaru e o grupo Língua de Trapo; Jica, Turcão e Miriam Mirah no CEU da Vila Curuçá e finalmente o grande maestro Wagner Tiso se apresentará no CEU Vila Rubi, no Grajaú. São atrações muito bacanas, sem dúvida e que valem a pena na programação periférica da Virada, mas faltou aí uma pitada de sucesso. Não. Nada de Ivete Sangalo, ou coisa do tipo. Por que não vem um DJ Marlboro, do Rio de Janeiro, ou um outro artista bacana do funk carioca? A galera na perifa se amarra no pancadão. Por que não? Que tal um show dos Racionais no Capão Redondo? Na quebrada, queria ver a PM entrar em conflito com a rapaziada. Até porque nem teria motivo. Na periferia, o que mais se deseja é a paz e o amor.


Os paulistanos têm que assumir este evento como parte da vida cultural da cidade e lutar não só por sua continuidade mas também por sua permanente melhora


A Virada Cultural terá mais uma edição de grande sucesso. Torço muito por isso. Mas tem uma coisa que me preocupa. Este ano é o último desta gestão. Em outubro tem eleição. Creio que candidato nenhum, pelo menos os sérios, abandonará a Virada, caso se eleja. Mas é bom ficar de olho. Os paulistanos têm que assumir este evento como parte da vida cultural da cidade e lutar não só por sua continuidade mas também por sua permanente melhora. Isso passa por uma abertura da organização para o diálogo com os artistas, produtores, movimentos culturais e outros segmentos. Imagino que isso exista em alguma medida, mas precisa ser ampliado. Afinal, é dinheiro público. Não há patrocinador privado. São cerca de R$ 8 milhões dos cofres da prefeitura. Precisa ter participação popular na formulação e controle social na execução.


Afinal, quem decide o que entra na programação? Poderia haver, por exemplo, uma enquete meses antes do evento, para que o público pudesse dar sugestões. Tenho certeza que pelo menos a programação dos CEUS não passa pelo critério popular. Que me desculpe o Wagner Tiso, mas se fosse pelo voto ele daria lugar, ou melhor, estaria ao lado de algum astro do funk pancadão, com umas bailarinas dançando o créu. Já imaginou?


Acabo de chegar do interior do Ceará. Conferi o que rola nas paradas de sucesso local (o som dos porta-malas dos carros, abertos nas calçadas dos bares, nas praça e ruas). Nesta Virada, não há nada próximo do que ouvi por lá. Não tem nenhuma banda de forró dessas da pesada, como Mastruz com Leite. E os grupos de pagode romântico? O povão gosta. Tirando o Almir Guineto e a Tribo de Jah, nos CEUS só tem atração “cabeça”. Será que a programação acaba sendo definida muito pelo gosto de quem a formula? Provavelmente. E aí, vai enfiar, goela abaixo da massa, seu biscoito fino? Mas não vou aqui tirar os méritos deste grande evento. Gosto dele. Gosto tanto que queria vê-lo mais abrangente e cada vez melhor.


*Eleilson Leite é colunista do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

Mais: Para ver a programação completa da Virada Cultural, acesse: http://viradacultural.org/



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