FARC – Sem Idealogia


Jornalista brasileiro diz que cobertura midiática é desfavorável às Farc

Ana Luiza Moulatlet
Portal Imprensa
A precisão daquele momento ficará na vida do jornalista Jacques Gomes Filho para sempre. Afinal, ele foi um dos últimos jornalistas a entrevistar Raúl Reyes, porta-voz das Farc e considerado o número dois da guerrilha. A negociação para o encontro no meio da selva demorou quatro meses, e foi bem-sucedida porque o correspondente na América Latina para o SBT é brasileiro e provou que “foge dos estereótipos da mídia”. “O fato de ser brasileiro contribuiu muito para conseguir essa entrevista, pois nosso país está à parte do conflito; sem dúvida somos interlocutores”, diz o jornalista.
As três noites passadas no meio da floresta, em meio a adversidades – como o fato de ter encontrado o exército colombiano e fugido por quatro dias para despistá-lo – não o deixou com medo. “Acho que pelo fato de ser jornalista estrangeiro, os guerrilheiros cuidavam muito bem de mim, com medo de que acontecesse algo e tivesse uma repercussão negativa”.
A cordialidade de Reyes também não o fez pensar em seqüestro. Para Gomes Filho, a imagem que ficou do comandante foi a de um homem ressentido, que sabia ter perdido algo infinito: “Ele sabia que as Farc perderam a oportunidade histórica de chegar ao poder”.
Portal IMPRENSA – Como foi seu encontro com Raul Reyes, guerrilheiro considerado o número dois das Farc?
Jacques Gomes Filho – Eu fui um dos últimos jornalistas que teve oportunidade de entrar no acampamento das Farc. Foi em novembro do ano passado, e logo depois o presidente venezuelano, Hugo Chávez, rompeu com a Colômbia. Sei que era uma região muito próxima da fronteira com o Equador. Mas na hora e local combinados, em vez de guerrilheiros, encontrei o exército colombiano, sinal claro de que eles estavam em uma situação de conflito. Por conta disso, fiquei quatro dias indo de uma casa a outra, uma forma de tentar despistar a inteligência colombiana. Um dia, numa das casas em que eu estava, apareceu um casal enlameado, que me levou de barco, numa viagem que durou três horas. Ainda passei a noite em uma outra casa, e fui levado por uma guerrilheira até o acampamento em que estava Reyes, no meio da selva.
IMPRENSA – Como foi a negociação para conseguir a entrevista?
Gomes Filho – Foram quatro meses de negociação, eles mostravam a todo momento que não tinham pressa nenhuma. Durante esse período, o secretariado internacional das Farc fez contato em Buenos Aires comigo para saber o que eu queria, que tipo de enfoque eu iria dar, se iria fugir dos estereótipos que a mídia costuma seguir quando cobre as Farc. Eu acho que meu mérito foi conseguir o contato no tom certo, na hora certa.
IMPRENSA – O fato de você ser um jornalista brasileiro ajudou na negociação?
Gomes Filho – Com certeza. O Brasil está à parte do conflito, sem dúvida somos interlocutores, a própria pessoa com quem eu mantive contato durante os quatro meses antes da entrevista me disse isso. Eu consegui falar com as Farc num momento em que eles estavam em campanha, que queriam aparecer, e o Brasil está fora da zona de conflito. Inclusive foi um dos argumentos que usei, o Brasil até pode ter uma liderança sul-americana discutível, mas a gente está fora do conflito.
IMPRENSA – Como as Farc enxergam a mídia brasileira?
Gomes Filho – Reyes foi a única pessoa autorizada a falar, não é a toa que ele é porta-voz, ele tinha interesse em falar. Não conversei com outros guerrilheiros, mas dentro de um discurso radical que eles entram, acho um erro generalizarem e falarem que a mídia compra o que o governo colombiano fala. Para mim, a cobertura midiática é desfavorável a eles, e o que Reyes fez foi uma crítica generalizada aos meios de comunicação mundiais. Um frase que ele falava é que o governo colombiano diz o que quer, e que essas opiniões repercutem.
IMPRENSA – Como foi a entrevista com ele?
Gomes Filho – Ele escolheu a hora de falar. Reyes tem uma agenda disciplinada, tem atitudes militares. Quando acordava é que resolvia o que ia fazer. Mas durante os quatro dias que fiquei no acampamento, ele evitava um contato mais prolongado, gostava de falar de amenidades. Minha barraca era muito próxima à dele, então conversávamos sobre amenidades. Durante a entrevista ele me respondeu tudo, todos os assuntos. Fiz perguntas sobre minas terrestres, ligações com narcotráfico, seqüestros com fins políticos. Não teve uma pergunta que ele não respondeu. Ele me deu quase três horas e meia de entrevista.
IMPRENSA – Você teve medo de ser seqüestrado?
Gomes Filho – Acho que pelo fato de ser jornalista estrangeiro, eles cuidavam muito bem de mim, com medo de que acontecesse algo e tivesse uma repercussão negativa. Por todo o tempo que durou o contato, não tive medo de ser seqüestrado, até porque eles me deixaram muito claro que queriam falar, eles também sabem “usar a imprensa”. Não tive medo do seqüestro, sou brasileiro, pacífico, ficava a todo tempo pensando que interesse eles poderiam ter em um brasileiro. Se eu fosse de outro país, acho que nem tentaria a entrevista. Meu maior medo era o mesmo medo deles: em um momento que eles estavam fazendo política, campanhas, meu receio era ser monitorado pela inteligência colombiana.
IMPRENSA – Eles tinham receio de serem atacados, alguma expectativa de que isso acontecesse?
Gomes Filho – Eles estavam preparados para o ataque a todo o momento, era algo como uma paranóia sadia, tudo que os guerrilheiros faziam era orquestrado. Depois do primeiro tiro, eles já sabiam para que lado cada um deveria correr, o que deveriam fazer, e acabaram passado essa segurança pra mim. Eu achava que seria muito azar acontecer algo comigo lá; Reyes estava morando há 30 anos na selva. E pouco tempo depois ele foi morto muito próximo do lugar que nos encontramos. Mas eles sabiam que estavam numa guerra, e ele me dizia que a crueldade faz parte da guerra. Na entrevista ele falou: “A crueldade do governo a gente combate com crueldade”. Para as Farc, “morrer em combate não é novidade”.
IMPRENSA – A sua percepção sobre as Farc mudou?
Gomes Filho – Apesar das Farc ter uma ação consolidada, eu percebi que eles têm menos ideologias do que parece, por mais que o discurso das Farc seja esse, tem uma conotação desatualizada. Achei tudo insensato, obsoleto, fora de propósito, nunca acreditei que eles fossem chegar ao poder por meio das armas, como Reyes acreditava. Hoje não tenho tanta certeza se há uma luta ideológica.
IMPRENSA – O que foi que Raul Reyes te disse que mais te marcou?
Gomes Filho – Na minha última pergunta para ele, eu pedi que ele fizesse um resumo dos 43 anos de Farc, o que tinha sido melhor e o que era pior. Ele me disse que o melhor foi as Farc ter surgido, e o pior erro foi não ter chegado a poder. Eu senti que essa resposta foi uma espécie de lamento de ter perdido a oportunidade histórica, porque movimentos parecidos na Nicarágua, em Cuba, chegaram ao poder. Hoje, ao lembrar desse lamento, a primeira coisa que me vem à cabeça é a razão da guerra. Hoje parece que é um bom negócio apenas para o inimigo das Farc, que é o governo colombiano, que ganha bilhões de dólares para combater a guerrilha.

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